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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

TARCÍSIO




faço a barba
um dia depois de entregar
seu corpo à terra
e descubro
no rosto, no gesto
outra forma
de sua presença
um pouco na pele
no queixo, outro tanto
no arco da testa
e uma lição
que, lento, aprendo
escapa ao esforço
da lâmina
fazer a barba:
varrer a véspera,
preparar – em pé –
a jornada nova
eis a vida – mínima:
enfrentar todo dia
a luta do dia
eis a sina – sísifa:
saber que amanhã
há outra via
persigo no espelho
minha barba rala (que
tantas vezes me vence
e arrasta a noite
nas fibras do dia) desvendo
na lágrima
que corta a cara
torta a palavra
alegria
Tarso de Melo

CLANDESTINO




a vida às vezes
é um belo livro
numa língua
que não decifro

passagens baratas
para onde não
sou bem-vindo

mapas precisos
para paisagens mortas
e extintos paraísos

outras vezes
a vida é isso

mais um ônibus
que passa veloz
e vazio contra
o meu destino
Tarso de Melo
"poetas são seres que sofrem
como, ademais, todos os outros seres

poetas são seres que riem
como, às vezes, todos os outros seres

poetas são seres que fogem
como, aliás, todos os outros seres

poetas são seres que se chocam
como, de resto, todos os outros seres

poetas são seres que se matam
como, suspeito, todos os outros seres

poetas são seres que vivem
(almoçam jantam amam dormem

andam deitam beijam correm
acordam torcem odeiam fazem

suas tramas suas necessidades)
como, bem ou mal, todos os outros seres

poetas, de vez em quando, falam
como todos os outros seres

e, quando falam, falam por
todos os outros seres"

TODOS OS OUTROS SERES
Tarso de Melo


sábado, 4 de fevereiro de 2017

MARISA


O piso, a parede, o 273,
a mistura de traços na pele:
tudo muito São Bernardo,
puro frango com polenta.
O quarto na frente da casa
e o cento e quarenta e sete
descansando sob as telhas:
viatura, troféu, ferramenta.
Nem dor, nem ódio ou medo.
Prole aos pés, amor e luta
(e a justa faixa presidencial)
se insinuavam no tergal.
Dia de descer a Anchieta,
cortar a névoa do Riacho,
forrar o bucho com mocotó,

lavar a alma com cambuci.

Tarso de Melo