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sábado, 25 de janeiro de 2014

Um Adeus ao poeta argentino Juan Gelman




a Cláudio Ribeiro no dia dos seus 70 anos.

Juan,

tinhas parentesco com todos os companheiros
que perdeste na guerra suja dos milicos

porque era grande o lenço solidário
de tua poesia/

era grande teu guarda-chuva de sonhos/

tua enciclopédia de nomes nunca esquecidos/

Teu filho desaparecido na grande sombra ferruginosa
inventada pelos ianques
como território da morte para os sonhadores incorrigíveis
era uma dor que contorcia teu coração

nós sabemos disso,

você escreveu sobre isso.

Mas Juan,

você também disse que se pode
mirar a chuva e pensar em escrever cartas de amor

É como se você nos quisesse
repetir com o martelo doce dos poemas
que hay que ser duro com os torturadores e os ditadores desta América Latina,
pero sin perder jamás la ternura pela vida

Obrigado Juan
por compartilhar o fogo aceso
da ferida que queima
e do sol que clareia caminhos.

Anisio Garcez Homem... 24.01.2014

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

da arte de dizer palavras

por que odiar o adjetivo
e fazer o poema sem a estampa
dos encantos?
Quem diz belo
diz aroma e clarividência
e café
que se esparrama na língua
contorcida
do tempo
Dizer clavícula
é falar de ossos curtos
pois a flecha do corpo é o fêmur
dizer amêndoa
é pensar em caramujos
e reminiscências da infância
e plantar bananeira
na esquisitice da frase
dizer, dizer, dizer
raspar o tacho
da memória
e ver quantas aves
voam de dicionários abertos

Anisio Garcez Homem

Da matéria que somos

O corpo:
o que fica desta insensatez
de contorcer-se em escalas
e aprisionar o parafuso
bem dentro das musculaturas?
O corpo
é laminado de suores
quando corre ligeiro
no palco
aonde o sol governa
com suas lanternas quentes
no sexo
os corpos
deleitam-se em geometrias
e tiranias de abraços
no sexo o corpo é abrasivo
e faz colidir
a via-láctea das minhas e tuas células
O corpo
é a flor desabrochada do esperma
É o oco
que de dentro
do seu espaço
se declara (ambíguo)
semente e sepultura

Anisio G Homem

Sevilha

As laranjas enfeitam Sevilha
É sabido que
as laranjas são sóis
e são gotas de ouro
quando estão maduras
Sevilha
tem o som dos tablados
de flamenco
A flor muscular das faces duras
das mulheres na dança
Sevilha
é doce
como uma serpente
que cadencia quadris
e convida ao bailado
de amantes que se enroscam
numa tourada sangrenta
Sevilha
são as águas incessantes
do Guadalquivir
a arrastar suas sandálias
por debaixo de belas pontes

Anisio G Homem

De uvas e dúvidas

Se tens dúvida
sobre as uvas que semeias
e dizes noite quando
era possível dizer flor
estás sendo um apóstolo dos ventos secos
que nascem em desertos
bem-vindo ao hemisfério
das rosas de papel
onde o cérebro de alguns homens
são avassalados
por ácidas lembranças
que cheiram a pensamentos carbonizados
A dúvida espoca seu sonrisal
nas películas da água
Estufa suas dobradiças de medo
nos recantos dos olhos
A dúvida aconselha
a que te ponhas de joelho
e inventes a extrema unção
que darás à esperança

Anisio Garcez Homem

Insônias

colecionar insônias
no frasco perverso da memória
- havia uma rua
e seus desertos - suas suadas
lamparinas amarelas
que sangravam silêncio e ócio
Eu passei por esta rua
e nela domestiquei
a esquálida sombra da minha infância
Eu passei por este filtro
que era rua
e era também um dócil carrossel
a mover-se no hipódromo
desgastado das voltas em vão
Havia sim a insônia
com suas brotoejas
e sapos agarrados às àrvores indômitas
O tempo
acanhava a clorofila das horas
nas veias dos relógios
insônias

E eu pensava comigo:
nenhuma mulher para pendurar
na minha boca
a moldura circular
de um beijo desejado.

Anisio G  Homem

o que nos olha quando olhamos


o hortelão
que espanta gafanhotos do trigal
para que o pão prospere
nas bocas famintas dos homens
o deus gráfico
que imprime calendários na prensa de gutemberg
e espreme limões azedos
para pingar nos olhos das datas vitalícias
o domador de esfinges
que limpa os estábulos
da história
e deposita a levedura do novo
no flanco esquerdo
dos que lutam sem trégua
os relógios,
os relógios
prosperam no rio de Heráclito
onde rolam emancipações e infortúnios
- a queda da bastilha,
os panópticos que agudizam retinas
e brincam com formigas encarceradas/
a rosa dentro da engrenagem/
o sangue dentro da rosa
a verter seu colorau para um sudário,
o sal
na saliência dos neurônios
é memória e criptografia de espelhos/
A história pendurada no açougue
de onde alguém me acena
com um lenço
carregado de cicatrizes.


Anisio G Homem

Sonhar e espreitar

um sonâmbulo a moer inocentes beijos
na boca de lindas mulheres jovens
em uma rua que é uma floricultura a céu-aberto,
ele dorme na fervura
destas constelações
onde um cavalo sem arreios
esfrega as narinas nos vitrais da inocência
sempre confunde anêmonas com verrugas
e lhe parece que o
o tempo da pastagem das metáforas é agora
são estações de trens o que avista?
são mulheres a fingir-se de gaivotas
e atrás delas um séquito de centopeias
a carregar nos pés seus pares de sapatos
são gaivotas lindas
a brincar de 14 bis,
mulheres sem amarras de sombra,
solares como uma tarde sem nuvens.
sonhar é sempre
espreitar (com os olhos vendados)
o mundo pelo outro lado
do telescópio.

Anisio G Homem

Da Façanha do olhar




antes que soubesses
das façanhas dos meus olhos a te olhar
os empinadores de andorinhas
sopravam
seus ventos pelas narinas do tempo
antes de tudo está o largo olhar
aquilo que acrescenta seda ao silêncio
o que destroça um osso na faca dos brilhos
e inunda de aquedutos as cidades ressecadas
pela impaciência dos que estão sedentos de amor
antes de tudo
o invólucro da água mais tênue
da retina mais fina
do papel mais líquido que a líquida espessura
de uma pequena borboleta que lacrimeja espanto
olhar de soslaio o sol
pensar na cidade e medir seu aqueduto
andar
com os passos pequenos da chuva fina.

Anísio Garcez Homem

imagens na TV



no mapa
a intempérie
das guerras
as falsas promessas
das chefaturas do bem
Nesta dramaturgia
dos sonâmbulos
crianças escaldam os pés
nas paisagens do deserto
ferir o olho da virtude,
sim,
ferir com graves sequelas
a infância do mundo
ferir com espinho pontiagudo
o olhar da jovem mulher
que pede por rosas
cortar os pulsos da esperança
na centrífuga abominável
dos helicópteros
do Armagedon
pense em jardins,
em abraços comprometidos,
20
em pátios internos de uma infância
de fábulas e aconchego
pense nisso
enquanto as imagens na TV
te avinagram o coração
21
a chuva grossa
enfeitava silêncios
comia as uvas frescas
nos ouvidos
dos pássaros
Incandescia luz elétrica
nos relâmpagos
e corríamos para
o bem longe nas nossas distâncias
era a estância hidromineral da infância
o abotoar
das primeiras letras
no uniforme do colégio
tinha louco que jogava pedra
não gostava dos
que passavam pra escola
tinha alvoroçar de avô
na
tarefa de levar os netos aos estudos
tinha uma fragrância de novo
no material escolar
e uma ansiedade de
se conhecer o tudo
que estava nos
livros.

Anisio Garcez Homem

Pensando nos exilados desta América



Dos exílios
sei que são cruéis
sei que são inarredáveis destinos
entre evadir-se ou morrer
mas desabitar um território
que é seu por raiz
é nunca tirá-lo da alma
é comungá-lo de um outro jeito
assentá-lo
na dimensão vermelha da
saudade
rosa que floresce
dada a consanguinidade
da esperança

Anisio Garcez Homem

Fellini e o frio



Frio
gelo na alma
um gramofone em cima da lareira inexistente
quem pode questionar
os acordes da banda de música a tocar no quintal da
casa do açougueiro?
um cego carvoeiro
é maestro e charlatão
e toca fogo na pira olímpica
instalada na fontana de trevi
amor acorde
ouça os acordes
da casca de tangerina a cair
das mãos inaptas
do marceneiro a descascar silêncios
e neve nos jardins
ninguém é
o encanto que imagina ser
apenas o espectro de suas ancoras
nas cidades onde nasceram suas sombrancelhas
a idade é um cadafalso
a transpirar suas cordas
em volta dos nossos pescoços
um dia estaremos estacionados
a esfregar nossos fragmentos ósseos
na flanela das horas
fellini
nos acena
com suas cenas de pantomimas estridentes:
mastroiani a circundar com seus olhos felinos
a geosfera azul dos seios de la donna sofia
frio
gela na alma
mas no cinematógrafo
uma luz se acende
como se taças de cristal brilhassem numa cristaleira.

Anisio Garcez Homem