Mostrando postagens com marcador fiori esaú ferrari. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fiori esaú ferrari. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Este




Este que verso
que se libertou
das minhas mãos
e que agora cai
de onde foi mais
íntimo,
o suor e as unhas
roídas,
este verso se pergunta
como foi que morreu
a frágil falha do dia,
como foi que morreu
o último mamute
que se perpetuou numa fenda
em cristal descomunal,
sua solidão,
os longos pelos de hibernação.

Este verso que agora cai
infenso às influências
hodiernas,
agora cai
derrotado,
leva fios da lã
em que teci o ponto
da hora tardia
de adiantada primavera,
de nada serve uma flor
quando lhe cercam o inverno
e o céu incólumes.

Eu vi as categorias celestes
e a carroça grande
no fim da estrada,
o pano de cordura,
o algodão bruto,
a ira sossegada
dos que acolhem o mundo.

Eu não sou o senhorio.
Eu pertenço à lâmina e ao punhal.
Ao país sem sentimento.
À praga e às canções
em céu aberto.
Ao urro congelado por milênios
como última palavra.

Este verso,
que agora cai,
fere a terra,
pontiaguda pedra,
toda montanha é um deus prostrado.

Fiori Esaú Ferrari

sábado, 6 de abril de 2019

Aliança




Amparo o tempo
na flanela que levo
aos óculos,
as mão trêmulas
diante da iminência
do inverno rigoroso,
a infertilidade do campo,
a aridez do prado onde pousou
a sombra do pássaro amigo
da solidão geral.

Esfrego lentamente
a lente,
a lágrima de algum tempo,
a rejeição que não faz mais
nenhum sentido,
esfrego a lente
pra definir certa imagem,
laivo de luz,
praça ou paisagem,
eu me associo mínimo
ao gesto natural
das flores,
que é deixar a pétala
se entretecer de vento,
eu fico um modo muito particular
de família,
a assinatura de dimensões infinitas,
feito nominar um canto
do céu, do oceano,
do espaço sideral.

Ajusto a gola,
a participação na discussão,
uma contribuição qualquer,
e percebo que há um tempo
de esquecer as lentes
na escrivaninha do pai
e retirar da terra
as lãs que a mãe preparava,
sua proteção contra o vento,
retirar da terra
o rim que lhe sangrou no prato,
a literatura,
a torre,
um esquecimento,
todas são aves de partir,
basta fingir que as folhas
são asas,
pequenas asas,
nenhuma admiração,
o alto da casa espreitando a estrada
e a última solução guardada
na falta de palavra,
na falta de ação,
o recurso maior desse povoado
é ver cumprir no sol
sua aliança com a noite.

fiori esaú ferrari

domingo, 2 de julho de 2017

Vou partir


Pro Alberto Lins Caldas

Eu vou partir,
a coisa toda esquisita,
eu amarrei um pano de fita,
no dorso do meu cavalo,
vou entristecer os laços,
os modos, os afetos que tive,
eu levo os tabacos, os fumos
do meu cigarro cínico,
estou a léguas do horizonte,
lá vou descansar na fonte,
lá do sol e da ponte,
meu ponteiro treme no avanço,
as ventas do meu cavalo,
na frente da procissão,
os fantasmas me seguem,
miasmas prosseguem,
eu assumo minha maldição,
o apodrecimento das carnes,
vou partir e o martelo
do passo do meu cavalo
vai estourar os ouvidos,
sua paz de marinheiro,
o martelo vai atravessar
o domingo dos crentes,
vai, vai anunciar
o começo da guerra sem fim,
eu, meu cavalo errante,
entraremos nas aldeias,
nossa ira, nossa herança,
o vaso das flores desgraçadas,
os olhos pelas janelas
suspirando gerações passadas,
meu cavalo é quem me manda,
eu estou triste e tenho a lança
que vai ferir de sangramento
as pequenas casas sujeitadas
às monções, à má temperança
dos climas, da natureza,
as tintas vermelhas escorridas
das paredes, o enfraquecimento
das cores, eu vou com meu cavalo,
o terço pendurado no pescoço,
o suor das visitações,
dos entes de outros mundos,
vou reunindo os ódios,
vou melhorando em mim
todos os ódios que tenho,
os remédios de odiar
são as efetivas curas,
as bicheiras supuradas
dos peitorais do gado,
eu tenho fumo e cachaça,
eu tenho óleo queimado,
eu vou pela chaga do mundo,
meu cavalo é fogo nas patas,
onde o mato cresce, morre,
eu tenho cerrado os dentes febris,
eu vou de espingarda,
destruir toda essa lei,
de mercado, de roubo e bancos,
eu vou pôr no chão,
nas ferraduras que acabam,
as paredes, os alicerces,
as estruturas, os arcabouços,
vou pôr no chão os poderes,
os poderes de separação,
eu vou partir muito antes
do despertar das manhãs,
antes dos corpos em amor,
do sobejamento dos desejos,
antes dos beijos e dos gozos,
dos jejuns e das persignações,
antes que me vejam
com a botina e a tralha toda,
as amarrações da aurora,
os lenços das ciganas
na minha roupa de luta,
o anéis no meu cavalo,
ele pronto pra morrer,
ele pronto pra me ter,
as noites das cigarras,
nós nos campos das estrelas,
vou partir pra repartir,
vou pra distribuir,
e se me procurarem,
se perguntarem extremos,
se desvairado gritarem
meu nome e assobiarem
o assobio de chamamento
do quando meu cavalo vinha
dócil e ainda potro,
se andarem pelas ruas,
a anarquia do vento,
o cegamento das chuvas,
das grandes tempestades,
se pronunciarem meu nome
na tristeza, na saudade,
saibam:
meu cavalo furta-mundo
me levou pro infinito.

Fiori Esaú Ferrari

domingo, 16 de abril de 2017

Sábado de aleluia


Não, não tem noite que mais me ampare.
Eu adiantarei a pedra,
removerei seu conteúdo,
o peso que livrará o sepulcro
dos intensos deuses tardios,
as deusas tomarão o espaço
como pássaros pintados
nas paredes do adro
e a solidão ocultará
a modernidade,
as inovações tecnológicas,
a ousadia afetada dos poemas.
Tudo que se consome
some na angústia do momento
e a fome das estrelas
em continuar a vida distante
dos atos mais humanos
me comove.
Minha mão feminina
ampara na lembrança
o lençol que minha avó
me deu quando fui
moço
de Itapetininga.
Ela usou a costura
pra me dizer adeus.
Ela se escondeu nalgum
canto da saudade
e na hora grave em que expio
minha culpa,
minha tão grande culpa,
debruço sobre o jardim do ressuscitado
e o vazio do latifúndio,
recordo a maciez que me abrigou
enquanto eu dormia.
As flores que carrego no meu nome
são todas estampas do pano
tão simples, tão árabe,
qualquer ponto luminoso
entre o minarete e a lua.
Fiori Esaú Ferrari


sábado, 11 de março de 2017

O moderno

As folhas, quando já beijam o chão,
quando deitam sua breve extensão
contra o peso do mundo,
as folhas arrastam o outono
como se já tivessem dono
e o dono dissesse tristeza.
A aclamação da natureza
frente ao seu aniquilamento
por um momento
nos põe à mesa
a mística das que se foram
em fogueiras
da Idade Média,
das que se vão
em fogueiras
da Idade Moderna,
das que irão
em fogueiras
da Idade Futura.
Meu pensamento chora
em ruínas no deserto
e nessa hora
olho perto
uma pétala de flor de inverno.
Ai! O frio me diz o aprisionamento
do sol numa lágrima
que se pronunciou
nos passarinhos.
Mas passarinhos não choram.
Pra principiar de novo
recolhem seus ovos
esperando o apocalipse.
Tem um eclipse em cada olhar moderno.

Fiori Esaú Ferrari

Chico Buarque


Será que eu partia de mim toda vez
que ouvia o Chico Buarque,
eu me deixava deserto,
eu, ermo de saudade tão moça,
com a lágrima, que agora carrego,
eu me abandonava,
ficava me vendo na solidão da rua.
Será que me desencontrava,
me forjava de rosas,
me pressupunha asilado
de meu coração,
meu coração no exílio,
adolescendo nos meios
de penumbras e generais,
meu soluço imberbe
nos tacos de um brilho
ímpar,
eu, abraçando Chico,
eu, tão Itapetininga,
acetinando Chico,
eu, em transparência,
acertando as contas
com minha cidade
condensada nas aulas
e as longas tardes de espera.
Por que crescer se prestou
ao recolhimento,
ao estertor da alegria,
a essa música que me corta
a janela escancarada,
um pouco de sol na minha morte?
Queria ter dormido longamente,
não ter acordado.
Queria que esse sentimento
não arcasse tanto
os meus ombros.
Eu fazia liberdade quando Chico
doía na vitrola
o seu lado A, o seu lado B.
Mas uma distância que me traz hoje
as retinas mareadas,
uma distância que soa em flauta
na vida presente,
uma distância me consome.
Eu me vejo caleidoscópio.
Estou lá e os fragmentos
do que fui
compõem o quadro
desse adulto que titubeia
e espera com seu velho vestido
cada dia mais curto.
Eu estou no cais
e a âncora dorme
em acalanto
nos meus braços.
Se um dia vier o sol,
eu principio minha alegria,
se um dia vier o sol,
eu aceno pro meu naufrágio.

Fiori Esaú Ferrari

Um tempo de paz

Um tempo de paz
Eu ando de morte pelos campos de chá.
Eu palmilho de tristeza
ibérica
os caminhos de avelã.
Eu compro a lã em sítios
de chuva fina que pede
meu ressonar.
Sonho meu orixá,
eu canto lá,
eu canto lá.
A nervura do vento
é ter se escondido
por detrás dos taquarais
e ouvir o poema
do leito, das águas,
quando a gente dorme
no chão do mato
e escuta os passarinhos
alinhavarem a urdidura,
esse tear
rústico
da vida.
Sou entre os silêncios.
Comecei a fazer
com meu amor de avó
um tecido de luz solar.
Afinei a melodia
do sabiá
em cada ponto
de agulha.
Vejo meus mortos
passarem calmamente.
O semblante aquiescendo
o sofrimento
como um aceno de dedos
na ponta de um chapéu.
E o leque da terra
se abrindo em cores
a cada primavera.
Eu canto lá,
onde meu orixá nasceu.
Ele ainda é criança,
corre no campo
sua violência
e dança pra abrandar
meu coração.
A paz foi um fiozinho de escuro
que começou a noite.
Um fiozinho de vagalumes.

Fiori Esaú Ferrari

O Futuro

Eu sabia que tinha feito um poema
quando dissipei as manadas de estrelas
e fundei a angústia
nos meus pequenos dias
em Itapetininga.
Eu sabia que a viola e cachaça
e o copo e a ponta do cigarro
eram meu sacramento
e as flores do desespero
e a traição do capital
e a solidão do proletariado
semeavam a minha querência
e eu tinha que orquestrar
a santa distribuição.
Eu sempre amei meus dias pequenos
de crescer o musgo nas pedras
descansadas no sombreado
de árvores,
a açoita-cavalo-miúdo
que faz corte no vento
e sangra o ar.
Eu não me esqueço da ferida.
A vida foi.
Essa perdiz que não se notou existir.
Fico de sentinela na beira do campo.
Estou cansado e tenho a morte.
Deus deve ter nascido pros lados daquele outro
fim de mundo.
Onde se dobrou de escuro.
Lá correu uma estrela cadente
e pousou a harmonia de tantas cordas
celestes
na canção que me vai fazer dormir.
Não guardarei mais o mundo.
Sou a consumação das flores,
seu mais tardio desejo,
a presença estival do sol
na saudade de longas
estações de frio.
É de graça:
esse país me atravessa
como a lança medieval
dorme seu perfume
sobre a vítima.
Vão encontrar, milênios mais tarde,
em escavações,
entre dejetos de animais extintos,
vestígios
de um amor calcificado
que de nada mais vai servir.
Arqueólogos do futuro
concluirão que algum deus fracassou.

Fiori Esaú Ferrari

Decisão


Se eu me fechasse pra escutar
a melodia que me traga
alguma paz ou esse vento
de fustigar as sensações,
eu estaria vencido de escrever
o esquecimento brutal
de celas e teares.
Andar por este corpo tenso
de becos e canaviais,
o violão choroso nos carnavais
dos desaparecidos da vida
onde o encontro é o mais puro
amanhecer do acaso.
A prensa do mundo oprime o peito
e arrefece o encanto dessa manhã.
O férreo canto dos pássaros mais frágeis
se põe no beiral das casas
mais antigas.
Eles alongam a permanência
das coisas,
trazem a condição do eterno
e magoam a efemeridade
do fruto com o infinito.
Minha casa deseja um verso
que suprima a metrópole dos desesperos.
Mas ela se recolhe na umidade
dessa tarde que inda se gesta.
Ela se aquieta, se amansa,
como se o tempo tivesse parado
pra descansar,
pra beber um pouco de cachaça,
pra olhar os quadros em triste
resignação.
Dou uma banana pra tristeza,
pra alegria.
Uma banana pra grande teoria literária,
pro poeta que se lambe,
outra pro intelectual
que se constrói nas bigornas
das bibliotecas tristes.
O tempo vai fugir em seu cavalo,
vai no vento
e vou com ele
na garupa
amar a vida.

Fiori Esaú Ferrari

Estratagema


A ação tática é avançar
sub-repticiamente
sobre a precarização,
sobre a terceirização,
sobre a reforma previdenciária.
Depositar num vão do coração
do monstro aquilo que pulsa
marcadamente relógio.
Depois flanar suave nas tardes,
nos bares, nas pétalas
das flores,
flanar no verso mais irônico
e atômico,
enquanto a bomba
não decreta a morte
do capital e seu parsa estado.

Fiori Esaú Ferrari