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quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Mulher de vestido e sapatilhos

Comprei frutas e frésias  na feira . Ares  primaveris pelo corpo. liguei pro moço de braços lindos . O tempo fechou a carranca para Sarah e seu drama fútil. Não há dias em que você duvida que tenha nascido ? O avião esgarça a nuvem , dá para ver daqui desse inferno inclinando um pouco a cabeça fora do carro. A fra (n )queza é cabotina.Atrás de suprir mistérios cutuca vespas." Um cérebro intrigante sobre pernas imbatíveis ". Ava nunca foi polida consigo, mas deveria . Supera-se. Tarde lavanda . Nem o mar me falta.
Ledusha Spinardi. in Risco no Disco. Mais ! . FSP.. 25/07/99

Janela de Bonnard

O sol saltou para o centro da sala e instalou-se feliz como um ovo estalado. A barra ondulada do toldo inventa o horizonte , a orelha do cão fareja feito radar o farfalhar das folhas do jornal que dormiu na varanda . Tudo é fresco : o perfume e cor. Através do vidro adivinho águas no entardecer , apesar do azul  dourado que pousa  sobre a cidade . As vidraças esmeram-se em refletir a luz  abrumante das árvores  e a profusão de rosas , jacintos  e begônias . Pêras duras , pão e queijo sobre a mesa que dá para os jardins . a gata Virgínea cochila enroladinha sobre uma " Vanity Fair ".

Ledusha Spinardi . in Risco no Disco ; Mais ! FSP 31/10/99

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Lua Crescente

A lembrança e a presença do sumo a cada mordida :o que parece pedra também sangra .Tudo é miragem.O coração consagra os minutos em uníssono com o relógio, cintila como um farol agonizante.Sombra macia, folhagem farfalhando na brisa sem varanda.Na memória da pele o mar que me envolvia, inteiro.Uma voz oblíqua repete a pergunta incompleta.Busco decifrar o que falta , para livrar-me do que se arrasta, pelos becos tintos pelo tempo. Aquelas unhas imundas cravadas no peito há séculos.Sonho que sob figueiras perfeitas e perfumadas posso tocar o sorriso da lua.

Ledusha.Risco no Disco. FSP. 12/07/1998

Linha Cruzada

Silva a noite liquida sobre a cidade .Estremeço com o telefone que dormiu no meu umbigo.Ligou do aeroporto virado, mas dócil.Sotaque irresistível, bossa melopéica. Suspiro rouco , simulo calma."Absolutament moderne ".Apesar do frêmito quase náusea, cair fora nem pensar: eriça meus ossos a vespa do amor .Onde te encontro?Saia e saltos, absorvo o vulto que se aproxima varando o vento outogonal, mescla de cinzas e azuis. Nenhuma fresta a perder.Mergulho nos seus olhos venezianos:envelhecer é passar da paixão à compaixão ? Ele nunca leu Camus. Sobre os afetos sabe pouco mais que os trancos. Embaraço de lítio e linhas,mamãe não me pariu prêt-à-porter.

Ledusha.Risco no disco.FSP. 22/03/1998

sábado, 28 de outubro de 2017

45 anos

Foi preciso boiar no dilúvio para atear fogo às vestes. Foi preciso certa flacidez nos músculos para mandar as tiraniazinhas às favas. Foi preciso tomar meu rumo calculando as discordâncias da teoria à prática na curva. A vida em carne viva uivando nos Tímpanos , eco seco de galhos retorcidos, praia invernal , risos de criança , perfume que ainda se debate no ar incrédulo das madrugadas lisas. Foi preciso deixar o hábito às ervas nos jardins  desordenados da palavra, para colher os verbos que destilam ácido sentido. Do fundo sentimento percorrer a sinuosa arquitetura. Foi preciso dar nome aos cães e às larvas para desfrutar o que me parecia imperecível.

Ledusha. Risco no Disco. FSP. Mais ! 28 /03/1998.

sábado, 15 de abril de 2017

Tarefa obscura

Da primeira dúvida à última tacada, conheço a lama miraculosa. Âncora em punho caçando o mínimo.Para que mais vivem os poetas?Tantas águas.Teatro sonâmbulo, baralho tosco, cartas espatifadas contra silêncio e bruma. De carne e osso , porém além. O que retorce a turba e treme diante de um sopro?Sofro e desfruto o fundo do poço, de onde são nítidos os astros. Sílabas vulneráveis.Tarefa obscura. Vamos, verbo, avança além do ruído e faz da fala um mar tão límpido que lave resíduos de guerras, todas perdidas. Velas abertas. Navegar o imperecível. Aceno para o poeta de olhos glaucos, que há pouco partiu a bordo de seu verso: Nada se diz senão o indizível.


Ledusha Spinardi.in Risco no Disco. FSP. Mais !08/11/1998

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Projeto de romance

Esmagadora sede, aguda urgência de luz por toda a semana.O tempo passou rápido e ríspido, arranhando os nervos esticados, com os estiletes do seu grito. Domingo espatifou em lágrimas. Com ais abissais, buquê obsceno de vísceras, ainda tentou macular a branca face impassível que se faz de insípida e inodora . Cuspir seu veneno sobre a platéia sem economizar uma só gota. Palavras ardentes na ponta dos anzóis. Pensou com lentes de cristal: tudo será mesmo seu contrário? Diabo de vida sufocada sob as sombras da mitologia cretina desses nossos dias.Nunca chamaria a esse lodo existência . a não ser com as narinas entupidas de algodão esperando a melodia das moscas .Térreo .Saiu do elevador em direção à praia. Perseverança com os fragmentos.Uma hora se juntam e nos dão sossego.

Ledusha  Spinardi. Risco no Disco. FSP. 23/05/1999

sábado, 4 de junho de 2016

1985

Pingos que se esticam da torneira à pia assimilando o tempo feito de exímio silêncio à deriva dessa dúvida que nos sobra, ser. Poesia nossa mira.All the way o mesmo rio que passa papo bélico movente com biglobo vereda de estrelas atreladas na aba do samba olhos em riste pulsando não ao que não transgride ou transmuta balada  & doçura implícita no cardíaco replique pandeiro ora gaiato ora operístico en garde nosso míssil sobre o que se varre a preço vil beleza mímica elegante química mandala , estilo de garra, suavidade apocalíptica.

Ledusha Spinardi

Morta sobre o piano

Pelo corredor farpas de luz arfam no vão das portas cegando seus passos assimétricos, tal é o breu que lhe tingiu a alma ao ouvir o acorde bizarro. Busca no áspero da tarde os cacos da improvável melodia. Uma nota aflita se esvai pela janela da casa azul em frente . Aproxima-se da vidraça embaçada : olhos de de lívida ira ,torta ternura . Com a cara despedaça os vidros adormecidos que eriçam unhas e dentes na sua garganta e dela medra-se um grito horrendo antes de tombar na calçada forever.

Ledusha Spinardi. Risco no disco.18/07/1999.FSP

domingo, 13 de março de 2016

Águas

Ele liga só suspiros, como de Veneza.Ela janta com amigos;está na sobremesa.Louco, masca balas de damasco.O peito, aço.Noite escorrendo.Cochila vendo TV. O primeiro trrimm revira-lhe o estômago(olhos de ouro, pescoço de cisne , rumba, piscina noturna. )Acende um cigarro."Lembra-se de mim ? "- Ela suga outro uísque.Pausa masculina.Vértigo,volúpia , bingo: "Nosso melhor beijo foi na última sessão de cinema.""O filme?""Claro".Desliga sem vírgulas.Rudes, os pássaros estilhaçam a manhã. Sai siderado(olhos de ouro, pescoço de cisne).Toca a campainha, mãos nos bolsos.Ela enrolada no robe :"Nem vi que chovia. ".

Risco no Disco. FSP.27/06/1999

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Tato

  Só de pensar naquela fala rói todo o esmalte e quando dei por mim o zepelim já não tinha mais volta.Esburaquei sem pena a lona do circo.

  Torço o nariz para relâmpagos, comandos fúteis e outros disfarces. Dúvidas retiradas como brincos?Esqueça

  Da ironia sei lamber o osso. Poesia estremece em qualquer vão, se me permitem.

  Saí fingindo que vagava, caçando o grão da voz para dizer assim não quero , mas use os cabides se quiser.

  Se é fátuo o filme, janelas para onde ?

  Minha lira fica oca se nesse colo se aninha.

Muita linha .Pouco troco.

Ledusha.

in Risco no Disco.
FSP.Mais!26/07/1998.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Ninguém

Uma pausa e dois movimentos, assim ela vai ganhando leveza, girando na sala crepuscular.Ele assiste a dança que nasce dessa ingênua teimosia. Um-dois-dois-um, um-dois-dois-um. Ela roda, presença porosa, indisfarçável conteúdo sob todos os véus. O cavalo cego freme as narinas novamente, levantando as patas dianteiras. Ardem .A náusea agora é um rio sem márgens, onde ele mergulha à deriva. Na última golfada um feixe mudo de alma, nódoa nos linhos da mesa posta. Seus olhos ainda respiram na sala ,à espera de sapatilhas desatadas.

Ledusha
Risco no Disco.Mais!Folha de São Paulo.19/07/1998