sábado, 14 de abril de 2012

Pozzo no Wonka celebrando o grupo Pó&Teias

Deisi no Wonka celebrando o grupo Pó&Teias

Wilson no Wonka celebrando o grupo Pó&Teias

Navego na nau do lamentoso pensamento de ti


Ceras a vedar ouvidos não podeis entrar.

Amarrado por cordas qual aço ao mastro da ambição

braços de vã vontade castrada de naufrago na fenda da bela consorte

a minha morte.



A bela morte a transar em parcelas ou na explosão a procela

Qual o sentido da vida ? Tal não é a pergunta que ora lasso de misérias

Musas filoflanantes falsas sandias opiam prazeres enquanto mastigam

corações, veias e sensações.Prazeres devora culta traça livros de estórias .

Vigores fumados tragando liberdades agora ausentes.



Preso no barco cujo leme não domino.

Apenas a nau dos insensatos navegando no vazio da névoa

desta vida de recifes famintos de escombros e saboreando

melodias de sereias a deleitar de mala- suerte os condenados

a voar sem ter asas nas nuvens do ácido oceano do desencanto.



Wilson Roberto Nogueira
O que sinto não é o sopro da alma de mim fugindo


no silêncio exausto diante do rugido

da vida em seu devir de promessa irrealizada.

Faina de um Sisífo cego no hesitante ruminar

na fronteira de um primeiro caminhar

de pés feitos de ossos de sonhos em pó .Fertilizada

morgue de sóis exangues de chamas a alumiar

de sombras o fogo fantasma parindo

sobras cinzentas de amanheceres sonhados

morejando sal sob capotes celestes.



Wilson Roberto Nogueira
Cruz das almas solitárias ceiam sonhos


sabres ceifam a fome de viver

bebendo a gota de vinho da última videira,

que balança antes da tempestade de aço

bebem no beijo das palavras os cordeiros sob a sombra

dos lobos a carne tenra trinchando hóstias

trincando dores ouvindo Wagner

Ardem cedros por testemunhas

e oliveiras irrigam a terra de óleo e sangue

enquanto a criança chora à sombra da chama

clamando à Morte que vaga sem saber por onde começar.



Wilson Roberto Nogueira
A lava da memória em chamas liquidas ocultam-se em pétrea desmemória


na nova rocha ainda quente guarda do invivido o vento do quase acontecido

na nuvem do deja- vu a água ardente que perverte o sonho em um beco sem resposta.

Os passos pesados sobre o espírito afundam na areia do cadáver insepulto de sombras

insilenciadas.



Wilson Roberto Nogueira
Cruz das almas solitários sabres que ceiam sonhos na fome de viver.


Sorvendo gota à gota de vinho da derradeira videira no ósculo da última flor.

Balança a árvore antes frondosa da vida hoje pálido osso da memória

onde se refugiam cordeiros do rugido da tempestade de lobos e da siderea miséria

que corta fundo a raiz da esperança.

O aço devorando a carne tenra da terra trinchando hóstias de pó e palavras

Trincando dores ouvindo Wagner cavalgando valquirias a procura de ouros

no fim de falsos arco-íris .Ardem cedros por testemunhas cobrindo em sombras raquíticas

proles dejetadas de úteros abandonados.

Oliveiras irrigam a terra de óleo e sangue enquanto ouve-se um choro fantasma a sombra da chama

clamando a morte que vaga ébria e exausta de tanto ceifar.



Wilson Roberto Nogueira
Abrimos o livro como a uma janela


uma pálpebra que se ilumina a novas luzes

e diante do olhar estranhando o familiar

espelhos estilhaçados sob os pés descalços.



Na busca pela identidade passamos por sombras perpétuas

de Hiroshimas íntimas em sopas de cogumelos.

formas dançarinas da leitura de mundos que sangram

sobre teias elétricas que queimam nosso caminhar.



fragmentos de cristais sem valor eletrizando o nada dos nossos passos.

andamos a esmo, perdidos nessa leitura.



No barro das palavras tentamos construir nossos ídolos e seguimos adiante.

pedaços dessa anatomia de Golem se desprendem na tempestade do desencanto .



Palavras paridas de imagens queimam e evolam-se,reencarnando em nuvens que espalham o sêmen translúcido na relva a sorrir e a tudo presencia a pedra da palavra na pele do sonho.



Voltamos a dormir no desconforto do silêncio inundados de dúvidas que se debatem nas nossas entranhas.Mas tudo são meras palavras que voam sem rumo sobre nossas cercas invisíveis de arame farpado.



Wilson Roberto Nogueira
depois do amor, os corpos suados no colchão sem lençol, enquanto acende o inócuo cigarro, dispara a queima roupa óbvia pergunta




- então? ele é maior?



- não! você é maior, bem maior; responde ela, olhar no tétrico teto.


Ricardo Pozzo

Noticiário de sempre

I



Que corta e serra,

e jorra o sangue

que não se estanca

e espanta

No noticiário de logo cedo

três tiros de arremedo

perfuram as vísceras do sujeito

Imerso em meio

a linha de combate




II



a cidade se espreguiça, e boceja seu dia

a água ferve para mais um café

o que bonde trafega sem direção...

o jornal é arremessado aos quintais

frescas as notícias de ontem




III



e se dissesse que tudo já foi dito e o resto é infinito e caos

e o nada já é matéria, o momento, o instante fugaz, agora para trás

e o mito já não é mais a caverna, mas a rua, o sangue escorrido

a morte morrida e estampada na primeira página,

a escorrer as vísceras já dilaceradas

e a vida consumida por um disparo

na arquitetura de pólvora e bala

e não há distinção de nada todos são todos, e cada é um,

o que havia era silêncios multiplicados a abismos e retissências

isso que corrói a alma, e a deixa cercada de espinhos numa paisagem perdida

e penso ainda que há algo de belo no trágico




Rafael Walter

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Viver

Não fui pedra: preferi ser semente.
Registros, rastros, marcas já deixei.
Nesta vida, não fui indiferente.
Nem apenas só passei por aqui.
Chorei, sorri, cantei, sofri, amei...
Por isso posso é que posso dizer: vivi !

Adélia Maria Woellner
Sabw aquilo tudo que a gente vive
e que marca e ama e fica pra
sempre dentro da gente: poemas.
pessoas, músicas, palcos,
cenários?
São balangandãs que
levo comigo, são o que sou, o que
me dá sentido e que agora te
entrego. Apaixonadamente.

Giseli Canto

Azul

Tropeçou no sol da manhã
e merulhou no azul do outono.

Helena Kolody

domingo, 8 de abril de 2012

Ricardo Pozzo

Cruz das almas solitárias ceiam sonhos
sabres ceifam a fome de viver
bebendo a gota de vinho da última videira,
que balança antes da tempestade de aço
bebem no beijo das palavras os cordeiros sob a sombra
dos lobos a carne tenra trinchando hostias
trincando dores ouvindo Wagner
Ardem cedros por testemunhas
e oliveiras irrigam a terra de óleo e sangue
enquanto a criança chora à sombra da chama
clamando à Morte que vaga sem saber por onde começar.

Wilson Roberto Nogueira

Mamíferos

Teus olhos lácteos
amamentam
minha fala leitosa
quando te vê
meu olhar desnatado
hesita
lactobacilo um pouco,
mas, mamífero,
degusto tua fala úbere,
sedento
do queijo de teus lábios.

Caibar P Magalhães Jr

Millôr Fernandes

"Cada poema é um objeto único, criado por uma técnica que morre no instante mesmo da criação. "

Octávio Paz

Curitiba

Ó maldita vaso de água podre
figo fervilhante de bichos
ó cedro retorcido de agulhas
hiena comedora de testículos quebrados.

Dalton Trevisan.
n87.GP 150996.
A lava da memória em chamas liquidas ocultam-se em pétrea desmemória
na nova rocha ainda quente guarda do invivido o vento do quase acontecido
na nuvem do dèja vú a água  ardente que perverte o sonho em um beco sem resposta.
Os passos pesados sobre o espírito afundam na areia do cadáver insepulto de sombras
insilenciadas.

Wilson Roberto Nogueira
Cruz das almas solitários sabres  que ceiam sonhos na fome de viver.
Sorvendo gota à gota de vinho da derradeira videira no ósculo da última flor.
Balança a árvore antes frondosa da vida hoje pálido osso da memória
onde se refugiam cordeiros do rugido da tempestade de lobos e da sidérea miséria
que corta fundo a raiz da esperança.
O aço devorando a carne tenra da terra trinchando hóstias de pó e palavras
Trincando dores ouvindo Wagner cavalgando valquírias a procura de ouros
no fim de falsos arco-íris .Ardem cedros por testemunhas cobrindo em sombras raquíticas
proles dejetadas de úteros abandonados.
Oliveiras irrigam a terra de óleo e sangue enquanto ouve-se um choro fantasma a sombra da chama
clamando a morte que vaga ébria e exausta de tanto ceifar.

Wilson Roberto Nogueira

sábado, 7 de abril de 2012

Antes que a tarde amanheça
e a noite vire dia
põe poesia no café
e café na poesia.

Paulo Leminsky
Winterno
A verde e perene erveira
Dá folhas pro chimarrão;
A sertaneja faceira
Corre a cuia mão por mão.

Vidal Idony Stockler. Castro- Pr

A Arca

É sempre bom manter a fé. Arnaldo era evangélico.Estava levando os fiéis para o culto na sua Kombi 87.Apareceu a fiscalização da Prefeitura."Perueiro.Lotação irregular".Quiseram confiscar o veículo .Arnaldo resistia.Outros perueiros apareceram.A polícia veio em seguida.Arnaldo ameaçava."Que o justo atire a primeira pedra."O cabo Novaes foi logo atingido.Fiéis e apedrejados entraram no camburão."Que a ira dos céus caia sobre vós."Veio a chuva.Inundação.A viatura flutuou sobre as águas .Arnaldo e seu povo fugiram a nado para um local seguro.Deus é o maior fiscal.

Voltaire de Souza
Vida Bandida.FSP 08/02/01
"O amor é cego, mas vê muito longe"
Provérbio holandes

Soneto à maneira do décimo-sétimo século

Dê-me tua mão , amiga, e ao meu todo
venha do campo ver as verdes lindes
-ainda mais lindas se por elas  vindes
e mais ainda se vindes ao meu lado

Ouçamos da floresta que os margeia
a brisa perpassar o chão florido
e num transporte breve o leve ar ido
nos leve em seu alento ao léu, à aleia.

Das sendas derivadas, e à deriva,
à Suma alcemos juntos, às alturas
de um Saber bom que eu sei, musa lasciva

Enquanto achas levo à labareda
e achas leve em teus quadris meu gesto
as Artes eu direi, de Amor, que enleva

As artes eu direi, de Amor, que enreda.

Jacques Mário Brand

Do Silêncio

Para o Sábado de Aleluia


Do Silêncio

O segundo dia amanhece
Ouve-se apenas o calar das vozes.
A fúria deu lugar ao pensamento
Divagando pelo vazio da cruz...
Só entre às oliveiras!

O Jardim ainda em botão
Pergunta-se, se volta ao mundo
Indagando ao orvalho o porquê do vermelho.
Pelo chão onde passou o Messias das boas almas,
A brisa que vem do monte responde:
- Ele só queria salvar o Homem!

Agora tudo é silêncio pelas doze estações.
Estrofes que de uma forma ou de outra
Receberam a semente da face que só tinha
O olhar para ternura humana,
Para os que temiam a palavra do Eremita
Mor de todos os sentimentos!

Em algum lugar da escuridão
Corações solidários se engajaram em oração,
Aguardando que o amanhã renasça trazendo
No ovo a Profecia do terceiro dia.
A palavra que nunca será esquecida,
As mãos que afagaram com Amor!

Auber Fioravante Júnior

SINTOMAS DE AUSÊNCIA TUA

Chove lá fora e é inverno no meu peito
A tua ausência desenha um mundo cinza
O teu contágio latente manifesta
Garimpo o teu perfume rarefeito...

Tudo em mim te cobra e te precisa.
Meu coração de válvula sangrenta
Me impregna na mente e me ordena:
“Te procurar feito louco entre as caras!”
Me põe na rua atropelando medos
Pra te encontrar no sul da madrugada
Nua de todo e qualquer que nos separe
Ardendo em febre e o amor preso entre os dedos.

Altair de Oliveira - In: “Curtaversagem ou Vice-versos”
***

DEUS NO ORVALHO

Canções do Madredeus.

Pipa desgarrada das mãos do menino
Saber que em Marte o entardecer é azul
(saber que nunca poderei te oferecer
o entardecer azul de Marte)
A dor profunda dos olhos cegos de Borges
Deus afogado no mar negro do meu olhar

Bárbara Lia


21 gramas/2012

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Tempo


...E no relógio de parede
as horas se vão...
vão tristes pelo caminho
ou céleres atropelando a vida.
Vão, vão passando lentamente
quando se vê, perdeu-se
os pensamentos no meio do caminho.

Marta Peres

Ressurreição de mim....


Quando menino – a vida em preto e branco –
eu era tão humilde que acabava brigando com o Natal,
com a Páscoa e, às-vezes-quase-sempre, até com o dia
do meu aniversário...

Então eu acabei optando por fazer de todos os dias
de minha vida o meu Dia de Papai Noel...
Como não posso distribuir presentes nem chocolates
para todos os encantadores de meu inquieto coração,
distribuo-lhes poemas...

O que hoje faz de mim o primeiro da fila
no dia de ganhar algum presente do amor
que eu tenho pela vida...

Afonso Estebanez

VIERNES SANTO

ACOMODO

LENTAMENTE

LAS ESPINAS

AL BORDE

DE MI PLATO

DE LEJOS,

LA SAMARITANA

APRUEBA

ESTE BANQUETE

CON UN CALIZ

DE COMPASIÓN

DOS CEDROS

EN CRUZ

ACOMPAÑAN

MI SILENCIO.

Y EL ROSTRO

ESQUIVO

DE CRISTO

PARECE QUE

SANGRA MENOS.

Gloria Kirinus

domingo, 1 de abril de 2012

ela não vai a uma festinha

para ouvir a melhor canção do mundo

para educar o seu cachorro

criar um conceito filosófico

... ninar o seu menino

para enxugar uma poça de sangue

ir de carona com um caminhoneiro

traduzir o velho Maiakóvski

para uma transa cautelosa com um cavalo no banheiro



ela não vai a uma festinha



para tirar suco das laranjas

para ouvir um conselho do avô

para um tratamento dentário

pegar um navio até o Caribe

posar nua diante de um pintor

discutir os campos da geologia

mastigar o avesso do fogo

para galopar em pelo sem ferradura



ela não vai a uma festinha



para o exercício da piedade

defender-se num processo judicial

passar horas sem fim na biblioteca

para morrer completamente

estar dentro de um soneto

escalar o pico Marumbi

tomar um copo quente de Nescau

para dormir num quarto rosa



Luiz Felipe Leprevost

sábado, 31 de março de 2012

Hoje

Hoje
não quero ligar o rádio
ouvir notícias
do tempo
dos povos,

Hoje
não quero ligar a tv
pra ver cenas
de violência,

não quero
folhear jornais
pra ler manchetaes
de trajédias,

não quero entrar na internet
para teclar, pesquisar,
blogar, twittar...

Hoje vou fazer o contrário
de todos os dias

sintonizar o silêncio
nada a dizer
nada a pensar
economizar termos
nada a escrever
nada a olhar

hoje
não vou me matar.

Vladimir Cunha Santos.RS

quinta-feira, 29 de março de 2012

O Mi(n)to nas escolas.

É mais ou menos assim que as escolas hoje fingem que ensinam. O aluno não deve aprender, basta decorar. Assim, ele finge que aprende.
Dessa maneira, o mundo que estamos vendo, participando e não gostando, segue atrelado a 'Cangas' pesadas, colocadas numa horda de incompetentes cultos, com anel no dedo, diplomas na parede, 'Especialistas' nisso ou naquilo, que se recusam a ...abordar outro tema que não o da 'Pós', com 'Mestrados' em que a 'Dissertação', mas parece uma redação de curso primário, (aquele dos bons tempos escolares, porque as redações do ensino fundamental de hoje, são no mínimo caóticas), e 'Doutorados' que atrelam um par de antolhos aos supostos doutos, que de nada mais sabem falar ou discutir, além daquilo para o quê, se prepararam.
Criatividade..., não mais existe. Percepção..., muito menos. Se o Homem, hoje, menos 'Sapi-ens', com toda tecnologia que dispõe, tivesse que 'Inventar A Roda', passaria a eternidade, empurrando coisas quadradas, ou pela tecnologia aplicada, coisas..., 'Poliédricas'. Se precisasse descobrir o fogo, morreria queimado sem entender o que teria acontecido.
Enfim, sabendo que 'Existem Exceções Às Regras', me atenho não só a imagem da foto atual, mas, a Aldous Huxley, no maravilhoso 'Alerta' de 1931, "Admirável mundo Novo", que na-quela época já falava de uma sociedade de castas científicas, onde a vida parecia não existir. E ainda no pensamento do autor, gosto de uma frase dele que frisa:
"A pessoa inteligente, escolhe a experiência que gostaria de realizar".
Triste. É muito triste ver no quê, a humanidade está se transformando.
Assino, por entender importante e responsável cada palavra que, coloquei.



Olinto Simões

terça-feira, 27 de março de 2012

REVOLTA

O náufrago social que andeja ao léu,

suplicando socorro a cada esquina,

é fruto de omissão torpe e assassina,

assoberbando o sofrer do povo incréu.



Não dá para entender que seja sina

nascer e renascer no carrossel

das desgraças atrozes, negro véu,

diante do que a existência nos ensina.



Sob a promessa vil da camarilha,

eleita pelo voto dos plebeus,

vão-se outros miseráveis às calçadas.



O discurso farsante que enrodilha

ao comando de astutos fariseus

gera revolta assaz encarniçada!

Antonio Kleber

Anthropocetáceo

Igual a
personagem
desconfia
do ator
que é,
em voz
e carne,
ao remover
a primeira
camada
de maquilagem,
anthropocetáceo
emerjo,
do frívolo
mar
espesso
das
convenções
sociais.

Ricardo Pozzo

domingo, 25 de março de 2012

Poesia engarrafada

Meus sonhos em fuga
se recolhem a gavetas
ou papéis
(poesia engarrafada
em porres que não tomei).
Sonhos se agasalham
em abraços que não te dei.
Sonhos nascem
sem grandes esforços.
E eu quero deixar te amar
E sinto que não posso...

Caco Maciel. RS

terça-feira, 20 de março de 2012

segunda-feira, 12 de março de 2012

Versos de dor


Enquanto você dormia...
Escrevi esses versos de adeus
Rasguei suas recordações
Rasguei minhas ilusões
Enquanto você dormia...
Vi que seus beijos não
eram só meus.

Enquanto você dormia
Dilacerei meu peito
Chorei um amor desfeito
E esses versos num
Papel molhado
São lágrimas de um
coração despedaçado.

Enquanto você dormia
Meu sonho desmoronou
Revirei seu mundo
O meu foi ao fundo
Enquanto você dormia...
Sorriu e outro nome chamou.

Sirlei Passolongo

Gosto de gente


Gente
Que sente
Que chore
sorria
Reclame
Ame

Gente que fala
Que rala
Que grita
Agita
Bonita
Na alma
E no coração

Gente
Que ajude
Que grude
acompanhe
Que ouça
Louca
que
Tenha amor
Pelo amigo
Seja abrigo
Nas horas de dor

Gente
Que sente
E mesmo distante
seja consciente
Gentilmente presente
Na vida da gente.
Gente como VOCÊ!

Sirlei L. Passolongo

sábado, 3 de março de 2012

O ano da morte de Ricardo Reis


Não cante o desprezo dos deuses, Ricardo
Não colha as flores mortas ao lado do Tejo
Os fardos humanos são apenas isto — Fardos
E os beijos sensuais são apenas isto — Beijos

Sou toda verão na alcova, acesa, à tua espera
Estonteante mulher que levas a ver as flores
Enquanto os pássaros trinam alto — Neera!
Nada nos falta, mas, em ti brotam mil dores

Quando a morte te buscar, aquela que conheces
Voltarei aos prados colhendo as flores vivas
Tocarei a pele do planeta murmurando preces

Banquetearei na relva, as flores como convivas
Dói, Ricardo, saber que todos os campos serão meus
Ainda orvalhados de lágrimas dos belos olhos teus

Bárbara Lia



Ausência de Pessoa

O balcão feliz, o chão da Leitaria do Trindade
O fatal silêncio ocre escuro de folha outonal
O ar se altera — ventania, mistério e divindade
Prenúncio da chegada do poeta lusitano genial

Nas manhãs um copo de vinho, gesto costumeiro
— Bom dia, Trindade! O copo de vinho estendido
Nas noites escrevia com a luz da rua — candeeiro
Mil vozes e mil rostos em seu rosto, escondidos

Esta epopéia diária das paredes a abrigar a figura
Roupa escura, chapéu e óculos, passo que levita
Esta contumácia de pedra que abarca a água pura

Esta rotina de lírio e fogo que segue e nada evita
Quebrada em um novembro com a morte do poeta
Médico pastor escrivão engenheiro místico esteta

 Bárbara Lia


Sonetos publicados na edição de Março/2012 #143 - Jornal Rascunho

Paisagem de chuva para Bernardo Soares



Há qualquer coisa do meu desassossego no gota a gota, na bátega a bátega com que a tristeza do dia se destorna inutilmente por sobre a terra.

Bernardo Soares

As árvores fogosas escolhem seus amantes
Quando eles se aproximam ampliam o verde
Encolhem os caules que se enlaçam ofegantes
Como a mulher trança suas pernas sem alarde

Para prolongar o gozo mais silencioso que o ar
As pedras se abrem e voluptuosas expandem
Para acolher aos amantes que fazem tiritar
Seu coração de granito, oco de luz ou sangue

E eu que sou chuva aprendi a ser humana
E te amar com minha molécula de Oxigênio
Para não brigarem entre si com ódio e gana

As minhas outras duas moléculas de Hidrogênio
Cada gota cumpre o acordo tácito com lealdade
Esplendor lírico e líquido nas esparsas tempestades

 BÁRBARA LIA Nasceu em Assaí (PR). Publicou sete livros de poesias e dois romances. Criou a coleção 21 Gramas – inventário poético, registro de sua obra em livros artesanais. Integra, entre outras, a Antologia O que é poesia?, O melhor da festa 3 e Concurso nacional de poesias Helena Kolody.