sexta-feira, 14 de setembro de 2012

a amante de Schiele, 1, fragmento


mais pássaro que o vale em minha mão
soberba como o rastro de uma boca

mais bela que o brilho do carvão."

romério rômulo


Remate


O trigo de fora a fora na propriedade de Ismael amadurecia, começava a amarelar. Clélia falava de seu ex-marido e das mechas nos cabelos que teve que fazer. O motivo? ele gostava.
Naquela tarde tinha voltado da cidade. Um carnê na mão dentro de um saquinho de plástico. Oh vida! Sentou-se no banco em frente da casa.
Altos pensamentos? perguntou Ismael. Clélia não disse nada, gritou para alguém lá de dentro da casa que trouxesse um copo com água. Tem horas que dá um terecoteco. Eu acreditava amá-lo, mas o amor perdeu-se no pó dos dias. Tempos idos onde a alegria brilhava nos meus olhos e, hoje, o vi atravessar a rua. O que me fez gostar dele? Pergunta sem resposta. Mano, a vida tem coisas que só deus pode explicar. Mas vamos embora que amanhã é dia de colheita e cada um deve cuidar do seu próprio plantar.

  De Mara Paulina Arruda.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012


Da minha janela vejo o lago...Ou será a lagoa? Um passante disse - olha ali, a represa ! Ahhhh as palavras exatas e oportunas, quando estiver chateada a chamarei de represa. Mas hoje é tudo lago, tudo lagoa!

Glória Kirinus.

por dentro desse olhar, olhares óticos, o infindo guarda, guarda a infinitude que estarrece...ondulante consegue ser infinda, pois em violeta vive! adentro as córneas é uma alma contínua , revelação das tantas câmaras que escuras, retratam o desenho da claridade. há alegria nas rugas, os bebês quando nascem são tão engelhados quanto o mais velho dos anciães; quando sorrimos, as fontes sombrelhas sulcam, portanto essas rugas cumpriram a expressões da alegria, o nascimento e o sorriso. a insuficiência é de estarmos, a inícua discrepância de sermos mais do que podemos estar. todavia o Schauspieler joga c/ o olhar onde o cansaço pousa no ponto de onde parte o espetro, e o violeta vive, fugidio por ser instante.

Tullio Stef . Sartini

aço, 1, fragmento


mas eu padeço de febre terçã
e o seu olhar de aço foi o aviso:
a minha musa é toda em rolimã."

 romério rômulo

terça-feira, 11 de setembro de 2012

aço, 1, fragmento


eu construí a musa de improviso
com uma carne feita de maçã
e uma terra certa: o paraíso."

 romério rômulo



Todo o caminho do portão até a casa


era contornado por pedrinhas pintadas de branco. Sentou-se num galho no alto do pinheiro da invernada. De lá pode ver Guido.
Com a ponte serrada, estava ali, parado, recebendo o sol, o vento e a chuva. Guido, ora puxava um capim, mastigava, jogava conversa fora, puxava outro capim fazendo-se lagarto no portão, pensando que Migué lhe passou um. O sol foi-se e ele caminhou mais um eito. Não estava disposto a trabalhar neste dia, estava disposto, isso sim, era tirar umas férias. Lembrou do Ristorante de Dom Genaro lá na cidade. Pensou. E resolvido iria mudar os ares. Correu na estrada até cair, ralar os joelhos e, todo desgualepado, saiu mancando estrada afora, sem nenhuma vivalma pra ajudar. A única coisa que fez com que ele continuasse, mesmo mancando, foi o rosto de Manú que vislumbrou na outra ponta da estrada. Ele viu os olhos dela brilhando, sua boca sorrindo e a mão abanando pra ele. Foi sim. Foi isso o que aconteceu naquele dia em que o sol depois de um inverno daqueles resolveu dar o ar de sua graça. Gralha que sou testemunhei essa estória despropositada e tratei de deixar espalhado por tudo quanto é canto penungem, asas e sementes desta passagem.

De Mara Paulina Arruda
entre o que exala e o que condensa
(e nem tudo q exala nas serras é neblina, 
nem tão pouco a baça visão do ruço é fria,
pois existem vidas que merecem ser vividas);
subindo a ladeira, 
dentre as tantas que a  recortam 

Petrópolis,
o recorte humano do prazer,

também foi minha a satisfação em  conhecê-los!

Túllio Stef Sartini

Pessoas...,

..., Olhem o rosto dessa foto. Pensem, o quanto de sabedoria está guardada em cada ruga. Pensem no olhar de tristeza por saber que o mundo e a vida poderiam ser muito melhor do que são, e, no entanto, estão a ser jogados num buraco de esgoto.
Eu, agora com 67 anos, ainda não tenho rugas, mas minha tristeza começa a se instalar, por ver que a cada dia, tenho menos tempo para continuar minha lida diária contra a iniquidade.
Em tempos de Tecnologia desenfreada, se virem um(a) velho(a) qualquer morrer, enterrem a carcaça, mas, conservem o HD. Cada dia, cada hora, cada minuto, cada segundo vivido, ali estão guardados.
Todo esse conhecimento poderá ser consultado a cada instante de qualquer vida, se, nos momentos certos, os viventes se conectarem via..., 'Uma Internet Espiritual' e pesquisarem no Google da Eternidade, o que paira no ar para os que tiverem olhos de ver, ouvidos de ouvir, coração para sentir, e um cérebro aberto para receber as informações que surgem na tela mental.
Depois..., é salvar o que interessa e saber que todo o resto permanece à disposição no éter fulgurante.
Assim como os computadores antigos, mais lentos e sem grandes aplicativos, viraram relíquias, as pessoas mais velhas, também são relíquias, mesmo que não tenham mais tanta velocidade e não sirvam para o mundo moderno.
Esse é pelo menos agora, meu pensamento. Contudo, já estou me tornando relíquia, ou melhor..., um velho.
Sem depressão, porém com consciência, aqui está meu opinar, mesmo que sem consulta.


Tullio Stef. Sartini

'' O indivíduo é ''livre'' . Nenhuma autoridade lhe pode dizer como ele deve se manter; cada um pode escolher trabalhar como lhe aprouver. Um indivíduo pode decidir produzir sapatos, outro, livros, um terceiro rifles, um quarto botões de ouro. Mas os bens que cada um produz são mercadorias, isto é, valores de uso, não para ele, mas para outros indivíduos.Cada um deve trocar seus produtos por outros valores que satisfarão suas necessidades.Em outras palavras , a satisfação das necessidades de cada um pressupõe que o produto do seu trabalho atenda a uma necessidade social.Mas não se pode saber com antecedência. Só quando traz os produtos do trabalho ao mercado é que se pode verificar se empregou , ou não, um tempo de trabalho social.

Tullio  Stef . Sartini

"Há um cansaço da inteligência abstrata, e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo, nem inquieta como o cansaço do conhecimento e da emoção. É um peso da consciência do mundo, um não poder respirar da alma"
(Fernando Pessoa)

- Minha alma se sufoca gradativamente, pelo cansaço da falta de inteligência, que gera no humano iníquo um abstracionismo vivencial. Concordo com F. Pessoa quando ele frisa que esse é o mais horroroso dos cansaços. Minha consciência pesa pelo que deixei de fazer, ou de ao menos tentar, contudo, na inconsciência, fica a certeza que se mais não fiz foi porque não me deixaram. E aí, voltamos ao ponto de partida. Poderia ter sido belo, se ao olhar o rosto da foto pudesse eu ver o quanto de sabedoria que guardada em cada ruga foi transmitida e aceita por quem recebeu. Gosto de pensar que naquela foto, haveria um olhar de alegria, por saber que o mundo e a vida teriam sido melhorados e, portanto, ela havia cumprido a missão para a qual..., veio. No entanto, cada um de nós, que tenta, mas, não consegue; ca-da um de nós que faz, mas, não o suficiente, guarda dentro do olhar, uma tristeza quase infinda, mesmo que sem rugas..., como eu.

Olinto Simões

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

esta noite rolei pela calçada molhada
tirei meus óculos
botei no meio-fio
e pisei neles
eu tinha interesse em furar meus olhos

(Thaís Gulin et Luiz Felipe Leprevost)

Os mais putos


precisei dar um grito microfonado
precisei pular sem pára-quedas
precisei beijar o sapo, decretar feriado
descabaçar futuras Medéias
jogar contra a parede potes de geléia
desmiolar as ideias
e ficar muda pra ter papo
precisei matar com tiro
frequentar retiro
se tem que tirar calcinha, eu tiro
sutiã, anéis, brincos, meias
eu fui loba nas luas cheias
frequentei quartéis, mocós, motéis, mosteiros
trepei ao mesmo tempo com os Sete Anões
e os Três Mosqueteiros
e com todos os guerreiros medievais
e com todas as torcidas dos futebóis
em troca de duas notas de dez reais
e alguns goles de café preto
sim, eu fui o que você quiser
e poucas vezes tive medo
eu poucas vezes tive medo
quando provoquei porrada
cheirei bucetas e cocaínas
como fosse a fada alada
mergulhada no esgoto, recebendo arroto
gozada em todos os buracos
me cortei com gilete, com caco de vidro
me queimei com charuto e gostei, não duvido
porque eu amei, eu amei, eu amei os mais putos
e por isso agradeço, como quem agride, agradeço
e ardo, ardo como quem aguarda, eu ardo

Luiz Felipe Leprevost


domingo, 9 de setembro de 2012

A maioria das pessoas teme a morte por não terem feito algo de suas vidas.

Peter Ustinov.

Princípios

Parei de embalar meus
sonhos
com medo de adormecê-los.

Não piso
nos sentimentos de ninguém
porque os meus
são de vidro.

E aproveito o hoje,
sem pensar no amanhã.

Nem sei se estarei lá .


Jorge Costa Melo. RS
Você vai morrer e descobrir tudo - ou parar de perguntar.

Leon Tolstói

Libertação pela Simbiose Social


(Trecho )

[...]

Quem são os
responsáveis
pelos desaparecidos
e pelas guerras,
"veias abertas"
da Latino América?

Pela queima de
fósseis
combustíveis?

Pela extinção
inexpugnável
de insubstituíveis?

Pela mídia que
te deixa calado?

Pela corrupção
que degenera
o Estado?

"You knew, you know;
I know"

Somos nós, meu caro!
[...]


Ricardo Pozzo

AÇÕES NO SILENCIO


Palavras são palavras nada mais que palavras,
e bem mais do que tudo são palavras,
são emoções, são sentidos expostos.

Palavras são quase pequenos gestos,
quase que meio concretizados em atos.
Palavras são as meias ações dos sentidos.

Ações no silêncio podem ser atos das palavras,
mesmo sem quase terem sido ditas.
Coisas que fazemos por amor, sem palavras,
a alguma coisa ou alguém pelos sentidos.

Uma ação do bem provoca uma reação do bem.
Um presente dado com amor busca o presente
da felicidade de um dado momento.
Amor é doação, todavia é recepção também.
Pra ser amor precisa ser recebido com reação,
precisa ser dado e reciprocamente devolvido.

O amor abre as portas de qualquer coração!
As palavras abrem as portas das ações,
pois as palavras são ações em busca de emoções.

As palavras abrem as portas de um bom coração
mesmo se elas não forem ditas,
pois basta um ato de amor verdadeiro no silêncio,
sem palavras ditas, sem poesias escritas,
apenas ações no silêncio.


GETULIO JUNIOR
Paraiba do Sul, Rio de Janeiro, Brasil, 02.07.2009

A filósofa no brechó

Uma filósofa foi comprar roupas num brechó. Quando chegou à loja deparou-se com uma mulher que tinha recém molhado as plantas e lia o jornal do dia. A filósofa entrou. Seu olhar correu pelo espaço pequeno do estabelecimento. Araras suspendiam cabides com vestidos, camisas e saias. Encostado na parede num balcão: blusas, Cardigans e blusas de gola alta esperavam. Cheiro de infância. Um vaso com margaridas de plástico. No chão uma criança brincava com um quebra-cabeça. Próximo da janela um casaco em Patchwork balançava com o vento que assobiava lá fora. A filósofa ao entrar na loja foi recebida pela vendedora que deixou o jornal sobre o balcão e perguntou-lhe o que ela precisava. Disse que precisava de roupas para o inverno e foi-se dirigindo para o casaco em Patchwork. Tirou do cabide, cheirou e experimentou-o. Na rua chapéus voavam no ar. Uma borboleta veio parar em frente do rosto da filósofa, dando-lhe um susto e provocando na criança risadas. Estava na hora de ir, pensou. Um pensamento leve tinha lhe oferecido o que ela procurava.

  De Mara Paulina Arruda

Canto IV


A mãe pegou a chaleira, a cuia de chimarrão e gritou: Oh Bento vem buscar o teu presente! Bento todo cheio de limo veio que veio se desdobrando em dois. Era o seu aniversário. Abriu o presente com a boca nas orelhas. Comeu uma fatia de bolo, duas... alguns docinhos... até ficar saciado. Vestiu o presente e contou que tava contrariada com um beltrano que lhe encheu de lixo e então por causa disso fez uma coisa importante, (pelo menos pra ele) que disse pra nós: Num dia eu roubei uma frase desse beltrano ai. Se ele viu não disse nada, nem tium. Nem olhou; nada. E continuou nadando nas suas palavras, tomado pela literatura, completamente nos braços de letras dela. A frase seguiu na companhia de outras sendo minha sem ser; bem vinda às vezes e, em outras, não. Toda vez que vejo esse beltrano fico rubro em pensar que dele roubei três de sua lavra. Mas também bem feito pra ele que fica fazendo com a lua os teretetes. A mãe que era exigente disse: Não acredito! Foi naquele dia quando a lua ainda estava alta? Mas a gente só ouvia os passarinhos, o galo cantando, os cachorros acuando... Eu não ensinei isso pra você! Juntou a chaleira, a cuia de chimarrão, olhou para o Bento que ficara xururú, batendo no peito, se contorcendo nos lados e disse: Bento junte a sujeira que você fez! Ele respondeu: xá comigo! Levantou-se, pegou a vassoura, varreu tudo, calçou os sapatos devagarzinho e saiu assobiando. Pegou carona com o primeiro carro que passou por ali, dizendo pro motorista: na minha casa deu problema. O motorista, desconhecido que era cheirando a cigarro e óleo diesel disse: fique frio! As famílias são assim. Eu também já roubei um complexo léxico. Não é o fim do mundo. Isso acontece. Bento ficou então pensando com os seus botões: nessa vida só se vê gatuno!
O motorista fechou o álbum que guardava as fotografias de Bento no limo da vida e que tirou com ele antes de subir na boléia do seu caminhão.

  De Mara Paulina Arruda

Dia do Veterinário: Nove de Setembro


Dia nove de setembro,
Sempre me lembro,
Que é dia do veterinário,
Um profissional extraordinário!

Seu templo é a linda arca de Noé,
Onde há anjos repletos de magia...
Sua força é o brilho da luz na fé...
Com a biodiversidade em harmonia!

Quando meu melhor amigo corre risco...
Eu levo o pobre a um veterinário...
Pois, sua saúde eu nunca arrisco...
Não sou um dono ordinário!

Um veterinário possui vários destinos...
Ele pode curar uma nobre criatura,
Ou, retirá-la de maus tratos e desatinos...
Com sabedoria, inteligência e doçura!

Sua função vai além de cuidar de um animal...
Pois ele, também, faz vigilância sanitária!
Ele trata dos bichos de um jeito especial...
Por isto, viva a Medicina Veterinária!

O veterinário cuida da qualidade dos alimentos...
Quando o animal é a sua origem e raiz...
Assim ele defende a saúde com sentimentos...
Para, também, ver o ser humano feliz!

Dia nove de setembro,
Sempre me lembro,
Que é dia do veterinário,
Um profissional extraordinário.

Luciana do Rocio Mallon

Amanhece o domingo na Praça de São Borja. Repousam nos balanços gotas de orvalho. Um casal acorda o dia com a cuia de chimarrão e a garrafa térmica na mão. Pássaros bicam minha janela e eu nem sei se digo bom dia ou aufwiedersen.

Glória Kirinus

sábado, 8 de setembro de 2012


as-
simetria

"desconfia
das mulheres equilibradas
essas são
loucas de pedra

ou
bustos de bronze"

*poema de Felipe da Fonseca, em mallarmargens.


Caminhávamos cabeça baixa, pensando no filme, em suas tramas e nas revelações que, para cada um, era pertinente. As palavras e as cenas nos corroíam numa noite clara em que a lua se fazia presente. Um filme de época. O olhar dos personagens seguia-nos nas ruas até chegar em casa. Parecia que ele carregava uma biblioteca nas costas. O corpo arqueado dentro de um terno marrom surrado. Os ossos do rosto cobertos por uma camada fina de pele. E as mãos com os metacarpos saltando entre músculos e nervos o que dava um destaque para a aliança que tinha na mão esquerda. Saímos assim: meio titubeantes na realidade da vida às 22 horas. Nem eu nem ele queríamos falar sobre o tema tratado dentro do cinema. Ao dobrarmos a quadra juntos dizemos uma frase do filme. Sorrimos. Ele perguntou: qual é o adjetivo que podemos dar para esse filme? Quando eu ia responder ele acrescentou olhando-me nos olhos: adjetivo para a vida real. Eu não soube responder.

 De Mara Paulina Arruda


Lendas do Hospital Bom Retiro


O hospital psiquiátrico chamado Bom Retiro, localizado em Curitiba, foi inaugurado oficialmente em 1945 e até hoje faz parte da História da Psiquiatria no Brasil. O problema é que surgiram boatos de que este lugar será demolido para dar lugar a um grande shopping. Junto com estas notícias vieram muitas Lendas Urbanas sobre este hospital, que iremos ler abaixo:
O Túmulo do Fundador do Jardim e os Túneis Secretos:
Semana passada, tive o privilégio de conversar com uma ex-interna e para preservar a sua identidade vamos chamá-la aqui de Ângela. Esta senhora me contou que havia muitos causos dentro deste hospital que envolvia o sobrenatural e uma destas lendas falava que um dos fundadores era espírita e maçom, então ele pediu para ser enterrado no jardim deste sanatório e a sua vontade foi feita. Reza a lenda que no dia em que este homem foi enterrado, não havia flores no jardim. Mas, que no dia seguinte, o local amanheceu repleto de flores como: rosas e margaridas.
Segundo Ângela, o espírito do fundador saía de dentro do jardim nas madrugadas para acalmar os internos mais agitados. Uma vez, esta senhora estava tendo uma crise nervosa, quando de repente, viu um moço ultrapassar a porta e cantar uma cantiga de ninar para ela. Assim , Ângela acalmou-se, fechou os olhos e quando abriu, novamente, notou que o rapaz não estava mais em seu quarto. Desta maneira, esta mulher olhou pela janela e viu que o mesmo homem entrou para dentro do solo do jardim e desapareceu. No dia seguinte, Ângela comentou o fato com as outras internas que afirmaram se tratar do espírito do fundador que foi enterrado no jardim.
Mas, rola um boato que em 2012, quando foram transferir os restos mortais do fundador para Balsa Nova, seu corpo estava intacto.
Outra lenda que é popular diz que, no subsolo deste hospício, há túneis subterrâneos que vão até o bairro das Mercês.
Na minha opinião e de muitos amigos meus, que respeitam a cultura do Paraná, o Hospital Psiquiátrico Bom Retiro não deveria ser demolido para transformar-se num shopping. Este local deveria virar um museu sobre a História da Psiquiatria no Brasil, e, também um reduto em homenagem aos fundadores deste sanatório. Mas, infelizmente a cultura no nosso país não é valorizada.


Luciana do Rocio Mallon


Fruto Sagrado da Palavra


Palavra da palavra
estranha e profunda
soberana senhora ouvida
até o final dos tempos, a mais antiga profecia
por ser primeira e sem destino
por ser o infinito próprio destino
de todas as coisas
O príncipe do país do sem-fim avança
sobre o tabuleiro. Giram as doze insígnias
do zodíaco. Ergo a cortina las ventanas se agitam
William está sentado com os braços em torno dos joelhos
Um cão late voam as páginas do livro púrpura
Aragem azul

Leticia Volpi

Habitantes líquidos




O caminho

toca o chão

Superfície da superfície

Intervalo remoto e passagem

Corre o rio da alma




fim do meu voo tríptico
LeticiaVolpi

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Um Casal Antigo


A Berenice deve estar esperando com o café posto na mesa. O pote de margarina aberto, o pão fresquinho na cesta, o perfume do pão espalhado pela casa e aquela conversa dela, de quem não sabe o que fazer para agradar. Na verdade ela quer é companhia enquanto seu marido não chega no fusca amarelo. Pelo jeito ela está ansiosa. O marido foi conversar com Jozenildo por causa dos negócios dele. Sabe como é que é o Jozenildo vive arrumando a terra aqui e ali, está empenhado em melhorar suas verduras. E também a erva-mate que vem plantando há tanto tempo. - máquevida!- essa é a frase que Berenice repete enquanto prepara um bolo. Olha pra porta, espanta o cachorro, chama a nona e continua a bater o bolo. –mádiosanto!- ah, lá vem vindo ele! O marido de Berenice estaciona o fusca e, todo afobado, vem falando alto que o mundo vai acabar – Só pode!- é tanta gente nas ruas, parece até um formigueiro. Ele tinha ido buscar remédios para acabar com as lagartas da plantação. Josué, o marido de Berenice tirou o chapéu de palha da cabeça suada e foi contando da conversa que teve com Jozenildo e sua passada na Epagri. Rosto sulcado pelo sol ficou mais evidente quando sorriu. Sim senhor! As lagartas não estão dando folga. Berenice agora já pode servir o café. Seu marido já chegou, as crianças vêm lá no portão. Já estamos ouvindo suas risadas. Todos estão aqui. E isso é o mais importante.

De Mara Paulina Arruda.

Canto Incidental


zunidos urros bramidos
frêmitos em códigos
acendem o olhar insaciável
e delinquem os sentidos

luxúria à flor da pele
incêndio de pássaros
debulhando a vagem do dia
carnear ávido de sembantes
miragem e vertigem
rarefeitos no pó
do magma

fogo e mistério
encantamento e incerteza
plumagens e flechas retesadas
frágeis e finas máscaras de ascetas
escondem a volúpia do vulcão
em um canto incidental
de cisnes negros
entre o vento
e a morte
súbita ::





[lilly.facão/ 'canto.incidental']


Ode à distância


tu aves em meu peito
feito gorjeio de imaculada
sinfonia

à raiz dessa canção planto sorrisos
ramificam-se meus braços
arvorifico-me

a distância das estrelas
no horizonte caligrafa sonhos de praia
[o fogo areja virtudes nas costas da noite!]

em meu redor, pirilampeias manso
quanto mais breu, mais
te alcanço 





[lilly falcão:: 'ode.à.distância'}



Amado e Saramago


O capitalismo conserva-se o mesmo sistema frágil e injusto, produtor de guerras, de miséria, baseado no lucro, na ânsia do dinheiro. São razões muito miseráveis.

Jorge Amado

A Moeda de Dez Centavos Está Convencida


No dia cinco de março, algo triste surgiu:
A passagem de ônibus, de Curitiba, subiu!
De R$ 2,50 ela passou para R$ 2,60...
Será que isto meu bolso agüenta ?

A moedinha de dez centavos,
Que era desprezada até por escravos...
Ficou valorizada e muito convencida...
Pois deixou a vida de Bela Adormecida!

A moeda de dez centavos está sendo disputada...
De um jeito preocupante e verdadeiro...
Ela está se sentindo querida e amada...
E não cai mais em nenhum bueiro!

Esta moeda virou estrela radiante e cintilante...
Ela acha que tem mais valor que diamante!
Ela fica desfilando dentro da minha carteira...
Como se fosse uma manequim faceira!


No dia cinco de março, algo triste surgiu:
A passagem de ônibus, de Curitiba, subiu!
De R$ 2,50 ela passou para R$ 2,60...
Será que isto meu bolso agüenta?

Luciana do Rocio Mallon

Um menino me chama
Para dançar ao vento.
Um menino de sorriso distante
Um olhar tristonho, amargurado
Por estar esquecido
Pelos afazeres soterrado.

Um menino...
Apenas um menino
Quer brincar, quer a vida de volta
Quer os dias intermináveis...
Quer liberdade, quer viver
Quer amor e alegria duráveis...

Um menino escreve na lousa
"Se queres ser feliz!!!
Não deixe de ser menino,
Brinque, extravase, no mínimo
Pois ser adulto, não significa
Deixar de ser menino."

O homem quando menino brinca, diverte-se
E adulto perde essa magia,
Mas, a essência do menino reina dentro de nós,
De uma forma sufocada
Nos aguardando sem perder a esperança
De que iremos um dia resgatá-lo.

(Davi Roballo)

“Do cavalo o corpo inscrito
Deve ser um quadrado;
Comprimento igual à altura
Para ser proporcionado.

Em cinco partes a altura 
Dividida deve ser:
Da cabeça o comprimento
Duas partes deve ter.


 Rafael Brandão.R.S

Lendas urbanas curitibanas

--Lenda do Andarilho Misterioso de Curitiba

Esta lenda aconteceu com uns amigos meus e eles me autorizaram a colocá-la na Internet. Para manter a privacidade dos meus colegas, irei chamá-los aqui de Rita e Luís.
Em Curitiba, na noite de Lua Cheia de 6 de janeiro de 2012, no horário de meia-noite, Rita e Luís estavam num posto de gasolina, que fica em frente ao Cemitério Municipal São Vicente de Paula, localizado na Rua Trajano Reis com a esquina da Rua Barão de Antonina. O rapaz estava falando ao celular, brigando com o namorado da irmã dele e a moça estava com uma garrafa de vinho de pêssego na mão direita e com o livro 35 Noites de Paixão - Contos Escolhidos de  Dalton Trevisan, na esquerda. Quando do nada surgiu, vindo da direção do cemitério, um andarilho descalço enrolado num cobertor em pleno calor de trinta graus e com um cálice na mão. Apesar do jeito de esfarrapado, o homem não estava sujo, tinha boa aparência com cabelos curtos e grandes olhos azuis, além de um sorriso debochado. Este rapaz parou em frente de Rita e disse:
- Moça, me dá um pouco de vinho?
Então, a garota colocou um pouco de líquido no copo do pedinte.
Após isto, Este mendigo não parou de arremedar Luís, que estava ao telefone. Então, a jovem perguntou:
- Quem é você?
- Por que está deste jeito?
O andarilho respondeu:
- Eu sou o diabo e ando pelo mundo.
Naquele instante Rita e Luís se arrepiaram.
Deste jeito, o roto pegou no pulso esquerdo de Rita e falou:
- De vocês, eu não preciso. Mas, se quiserem saber mais sobre mim leia a seguinte página deste livro...
Após estas palavras, ele pegou a obra da mão da moça e continuou:
- Se quiser saber mais sobre mim leiam as páginas deste livro...
Após falar estas palavras, o homem misterioso deu uma gargalhada, saiu andando pela rua e espalhou cheiro de enxofre pelo ar. Assim, Rita sentiu seu pulso esquerdo queimando e logo pegou uma imagem de Santo Antônio, que sempre carrega na bolsa e se sentiu aliviada.
Deste jeito, esta dama começou a ler o trecho indicado pelo morador de rua, que era:
"...me dá uma dose, mais um gole....e no sorriso feroz joga a cabeça para trás. Alegrinho o seu amigo interfere na conversa, ele também quer atenção. Fazendo de conta João o ignora e debocha do sorriso da sua dentadura rósea de tanto vinho....”
Desta maneira, a jovem percebeu que aquela história tinha acabado de acontecer naquele exato momento.
Após ler estas palavras, Rita verificou o título do conto e se assustou quando leu:
“- Conto Número 20:
-   O Quinto Cavaleiro do Apocalipse. “
Depois deste susto, Rita e Luís resolveram sair daquele local. Então eles estavam descendo a rua. Quando, de repente, estas pessoas viram um casal se amassando dentro de um carro, de onde vinha uma música. Esta canção era: “As Aventuras de Raul Seixas Na Cidade de Thor”, cujo o refrão é:
“Raul Seixas e Raulzito
Sempre foram o mesmo homem
Mas pra aprender o jogo dos ratos
Transou com Deus e com o diabo.”

Ao chegar em casa, Rita notou que surgiu uma bolha no seu pulso. Alguns dias depois, esta bolha estourou e formou uma cicatriz.
Luciana do Rocio Mallon.



Quando José chegou para tirar o seu CPF no correio não sabia que precisava tirar uma senha. O problema de José é que ele não sabia nem ler nem escrever. Com a ajuda de uma desconhecida conseguiu tirar um papelzinho daquela máquina estranha onde tinham três números que ele não entendia. Sentou-se no banco enfileirado e ficou a esperar. Fazer o quê? Ruídos diferentes daqueles do seu cotidiano ouvia. Nem o pipilar de um pássaro, nem o acuar de Tobi... ficou ali sentado feito um ás-de-paus. Aos poucos foi percebendo que tinha se esquecido de tirar o chapéu para entrar naquele lugar tão movimentado e que estava com a barba por fazer e as botas por engraxar. Que distração ou que falta de capricho diria sua falecida mulher. Lembrando-se dela colocou as mãos na boca para tossir. A garganta estava seca. E o atendente não atendia. Começava a ficar nervoso até que outra atendente perguntou: qual é o número de sua senha? José disse que não sabia. Então a atendente pediu para que ele se aproximasse do balcão. E, José, como todos os desprovidos da sorte, aproximou-se timidamente. E foi atendido. E saiu dali feliz da vida, com o seu CPF no bolso, para o seu lugar de origem.

. De Mara Paulina Arruda.

"Recordando as tantas conversas com o meu imenso amigo, Rodrigo Madeira, visualizei em um texto do lusitano Eugénio De Andrade, algumas daquelas tantas conversas; falações muitas vezes peripoéticas atravessadas entre o meu tugúrio na Visconde de Nácar [onde quase sempre começavam] e a rua XV, muitas vezes pousadas no Bar Mignon, para termos a expectação intro-versejada do Seu Teixeira; amiúde nos acompanhava o meu irmão Ricardo Pozzo , e de vez em quando outros comparsas; enfim, éramos invenções do solo poetibano, faziamos na surdina o pilar do Leminski e a polaca do Trevisan. O Madeira, Pozzo, Wilson Nogueira, Angela, Leandro Vicelli, Olinto , Almada , Jaques e Otávio , visionários não menos predicados que o colossal poeta Eugénio De Andrade, de quem é a autoria o texto que abaixo apresento.

''As palavras são o ofício do poeta ... quanto a mim, gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos de fogo do verão, aos barcos no vento; gosto das palavras lisas como seixos, rugosas como pão de centeio. Palavras que cheiram a feno e a poeira, a barro e a limão, a resina e a sol ... foi com essas palavras que fiz os poemas. Palavras rumorosas de sangue, colhidas no espaço luminoso da infância, quando o tempo era cheio, redondo, cintilante. As palavras necessárias para conservar ainda os olhos abertos ao mar, ao céu, às dunas, sem vergonha, como se os merecesse, e a inocência pudesse de quando em quando habitar os meus dias. As palavras são a nossa salvação''

Túllio Stefano 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012



Quando o relacionamento vai pras cucuias, o desmanche tem que ser completo. E as peças vendidas separadamente. A foto é do meu querido amigo Gilson Camargo. Pena eu não saber o nome da modelo. O livro que ela está lendo é o ASSIM ATÉ EU, meu primeiro romance. Leia no primeiro comentário o poema Cotas de Dano. E saia arrastando correntes pela casa.

Antonio Thadeu Wojciechowski



Acabo de ler o livro de poemas "o silêncio tange o sino", de Mariana Botelho, que conheci pessoalmente no Seminário de Ação Poética que rolou no CCSP sob a curadoria do Claudio Daniel. Porém, antes mesmo de trocarmos livros, ela fez ecoar a palavra "silêncio" com certa singularidade que agora se confirma nos poemas do livro. A palavra veio de um de seus poemas, ditos por ela, no seu momento lá no palco e na doce companhia de Ricardo Aleixo. Ela se apresentou logo após a minha participação... Eu estava me refazendo ainda, meio atordoado... e, de repente, zuniu em meu ouvido a palavra "silêncio". Senti que não era apenas uma palavra dita e agora percebo que havia algo de singular. Continua, no entanto, inexplicável... mas não é isso que é a poesia? Muito lindo o seu livro, Mariana.
Ricardo Corona
tudo o que me resta é dizer de um corpo que


chora à margem de um rio

esperando a sede



porque a palavra me pega de dois jeitos:

de um jeito que não basta sabê-la

de um jeito que me come



tudo o que me resta é dizer de um corpo que

chora à margem

esperando a sede

enquanto ouve a palavra água



Mariana Botelho

"o silêncio tange o sino"

Um fazendeiro vendeu parte de suas terras para uma imobiliária. A imobiliária viu que naquele pequeno bosque poderia ser um lugar de grandes negócios e começou a lotear. Um bem-te-vi recém iniciara um ninho e preparava-o para uma fêmea. Chegam tratores. Viram terra, derrubam barranco, amontoam gravetos. Os quero-queros tinham apreendido a linguagem dos humanos com outros pássaros que moram no pantanal e transmitiam para o bem-te-vi a conversação que faziam. O bem-te-vi pensava. Vão chegando mais homens com serras e machados. Põem abaixo araucárias, eucaliptos, árvores frutíferas inclusive a do bem-te-vi que nem teve tempo de juntar as últimas folhas antes de sair. Estes foram os últimos sinais encontrados dele na margem do açude.



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De Mara Paulina Arruda.


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Consumação


Se conheceram outrora
num tempo impróprio e incerto
queriam ficar bem perto
e dar-se um para o outro...

Estavam tão defasados,
separados, proibidos,
que foram então atirados
distantes de alma e corpo.

Por várias vezes viveram,
em espaço e tempo diverso.
Esparsos se procuraram
desesperados de espera...

E quando, enfim, se encontraram
no céu, talvez no inferno
ou alhures no futuro,
tiveram tantos orgasmos,
paralelos, multiplados,
com espasmos de amor puro,
triloucos e superintensos,
que penso: se dissiparam...


Poema de Altair de Oliveira – In: O Embebedário Diverso

Para ver mais:http://poetaaltairdeoliveira.blogspot.com.br/search?updated-max=2011-07-06T20%3A42%3A00-07%3A00&max-results=7&start=7&by-date=false



A palavra "grupo" parece que já nasceu agrupada. É no grupo que roda o pensamento, o sentimento e a imaginação e de repente encostam no ombro do outro. Nascem, então, figuras constelares que ganham energia singular e roda a criação...

Glória Kirinus

sou uma pedra no meio do meu caminho
me atiro no meu telhado de vidro
desde pequenininho.


O que me move neste mundo são as possibilidades. O cotidiano é malvado quando não nos reinventamos. Leia o poeminha no primeiro comentário e saia batendo tambores.

antonio thadeu wojciechowski