segunda-feira, 24 de setembro de 2012



Esqueça! Em nenhum lugar do mundo as coisas serão perfeitas. Não senhor. E daí vou te contar que vi ontem pela manhã uma mulher protegendo uma criança com uma jaqueta de nylon. A criança tinha nas costas uma mochila. Estavam no abandono da rua. Vida real. Século XXI. E a mulher puxava-a pela mão.
Agora, o interessante é que havia nobreza na cena. O rosto e a postura da mulher não provocavam piedade ou mesmo outro sentimento. Olhos puxados,cabelos presos, roupas simples. Era quase uma pintura. E o meu vocabulário, aprendiz das coisas da vida, incapaz de traduzir.

De Mara Paulina Arruda.

sábado, 22 de setembro de 2012


● prato de porcelana azul ●

● talheres cruzados com flores murchas ●

● o copo a xicara com agua morna ●

● tudo no encontro das paredes cruas ●



● essa cadeira de madeira velha ●

● é incomoda e se curva com o peso ●

● aqui é possivel sentir o quarto ●

● tudo q a noite não faz mais questão ●



● não ha nem pode haver mais corpos aqui ●

● nem mesmo na cama agora fria demais ●

● la fora o sol queima com chuva de brasas ●

● e não podemos mais a alegria ou a dança ●



● é preciso arrumar o quarto limpar ●

● e guardar o prato o copo e tudo q foi ●

● tocado pra ficarem limpos como se a vida ●

● não houvesse tocado em nada ●

Alberto Lins Caldas

Cabelos de palha fazem ciranda no ar



Quando a ventania se aprumou o casal correu a recolher as roupas no varal. As crianças que brincavam na areia da construção chamaram por suas mães. A Professora que cuidava de seus alunos no parque levantou-se e tomando-os pelas mãos caminhou para a sala de aula. O contador ouviu de um cliente que a ventania estava brava e, rapidamente, puxou as cortinas de seu escritório. O jardineiro ouviu de um botão em flor que era melhor que ele se recolhesse. O menino, filho do catador, puxou um plástico de bolhas sobre a cabeça. O músico, o poeta, o ator, a atriz, a cantora, a fotógrafa e o escultor encontraram-se na rua, e comentaram desta senhora que percebeu que os artistas confabulavam sobre ela... e loquaz do jeito que é passou entre eles desarrumando cabelos e cachecóis. Os artistas nem deram bola pra ela. Seguiram firme nos seus propósitos, enquanto ela, a senhoria, enfezada, começou a brincar com papeizinhos de bala.

De Mara Paulina Arruda.



o que há dentro do ninho?



Talvez


uma esquina de pedra

uma salmoura verde

fissuras na leveza

parcos restos

Parcas cantando ausências



mais certo é que seja

um segredo branco

- cuja senha jamais revelada era “tarefa da luz” -

desmanchado

por mãos cautas



mãos que cuidam demais



do destino


Rubens da Cunha.





Saracura.


Aves passaram rapidamente fazendo uma sombra sobre o meu rosto. Afastei-me da janela. Caminhei pela casa seguindo os raios que a cada momento trocavam de lugar.
Equinócio.

Na mesa o café estava servido. Uma cesta com pães, em pratinhos bolachas, e xícaras com pires sobre uma toalha bordada em ponto cruz.

Greice Kelli, pernas de saracura.

Procurava encontrar o horizonte dali da janela. Tem mania de camuflar-se. Às vezes arraia ou pedra. Por vezes faz-se numa cor. E quanto não tem outro jeito ela voa até um lugar seu, segredado.
Eu, essa que vos escreve, estou preocupada com ela porque a vejo fazendo drenagens com as palavras de um conjunto de elegias que pretende publicar.
Pergunto como vai o trabalho. Ela volta os olhos para mim, coça as asas e senta-se na cadeira junto à mesa. Serve-se de café com leite. Acompanha com os olhos o vapor do café que voa no ar.
Todo silencio está na casa até ela falar de um sonho que a acordou no meio da noite. Foi em Istambul; um livro de elementos da iconografia fechou-a na página 12. Ela pescava com seu bico fino palavras as quais não decifrava. Quando acordou estava toda vestida de um código inenarrável de um mundo novo a contar.

De Mara Paulina Arruda








fragmentos de 2009

Ele -  Tá com raiva ?

Ela -  Hoje quero ser mais pedra do que saliva.

Ele -  Você quer ser a Medusa ?

Ela -  Não. Mas olharia nos olhos dela.

Ele -  A vítima dela ?

Ela -   Não vítima.

Ele -   Suicidazinha...!

Ela -  Vontade...

Ele -  Olha para trás, igual a mulher de Lót

Ela -  Mulher de Lót ?

Ele -  De Sodoma e Gomorra

Ela -  E virar pedra ?

Ele -  De sal; e Sodoma e Gomorra viraram o Mar Morto mas aí quem sabe te lambam pelo menos

Ela -  As vacas adoram lamber sal

Ele -  Eu seria uma vaca.

Ela -  O sal faz flutuar

Ele -  O corpo

Ela -  Num Mar Morto salino

Ele -  Credo... tá mais pra hebreia do que pra grega então.

Ricardo Pozzo e Ivone F  S


assim ficamos sabendo

q kaváfis

o arpoador negro

que chegou depois da sopa

matou

entre o nascer

e o por do sol

quinze baleias

porq o tempo permitia

tambem porq

naquele mundo

havia homens e arpões

e a vida era tão maior

q não se pensava nisso.

Alberto Lins Caldas
Sinto que minha mãe ainda enxerga pelos olhos meus. Aqui no Acre, seu sobrenome Galvez me acompanha passo a passo. Carregamos uma eternidade e todos nossos eternos quando parece que vamos sozinhos. Glória Kirinus
brisa matinal-
a voz do pássaro ao longe
em minha janela

Luís Gustavo Pires Marins

quando kandinsky virá ? 1

Mecânico Kandinsky

eletro pulso


na coisa sistemática, concreta
seu hábito caminha pelo avulso
da curva entranhada numa reta.

o tiro do seu olho habita o nada.

quando kandinsky voltará da luta armada?

Romélio Rômulo

fragmento de 2009

ele - tá com raiva? ela - hoje quero ser pedra mais que saliva ele - voce quer ser a medusa? ela - não. mas olharia nos olhos dela ele - a vitima dela? ela - não vítima ele - suicidazinha...! ela - vontade... ele - olha para trás, igual a mulher de Lot ela - mulher de Lot? ele - de sodoma e Gomorra ela - e virar pedra? ele - de sal. e Sodoma e Gomorra viraram o mar morto mas aí quem sabe te lambam pelo menos ela - as vacas adoram lamber sal ele - eu seria uma vaca ela - o sal faz flutuar ele - o corpo ela - num mar morto salino ele - credo... ta mais pra hebreia que pra grega então por Ricardo Pozzo e Ivone fs)
‎"Como não ser arrebatado se não tenho olhos nas costas? Ando atento pela casa e em todas as portas multiplicam ferrolhos enferrujados. Como posso sorrir se sou um amontoado de átomos, os quais poderiam tanto estar em mim como numa cadeira de vime? Ela falou que eu era fraco, por isso estava em eterna diáspora. Eu catava piolhos de um macaco de pelúcia. Só não era mais ridículo porque eu nascera inteiro, sem amputações. Era nesse ponto que ela se enganava, eu era a própria amputação, a própria rachadura na coluna de Deus, o meu quarto-mundo era uma incubadora e eu estava fadado a viver cem anos e continuar prematuro." (conto Gênese) Márcia Barbieri

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Opções

Não se pode mais morrer em paz Estava triste o suficiente para criar um personagem que morresse em meu lugar Eram 14hs Pensava nisso Quando ouvi uma voz infantil no portão chamando: "Lailin, você pode me ajudar na lição de casa?" Bruna é uma das garotas da vizinhança que costumam me procurar Quando estou de bom humor vou além da lição de casa Quando não, fico em meu casulo observando e deixo que fiquem pelo quintal em liberdade Arrumei minha cama bagunçada do sono da tarde e deitamos juntas nas almofadas Enquanto Bruna montava a conta de divisão, olhei para o seu rosto e pensei: Como será que é sua vida familiar? Quantas vezes sua mãe a manda calar a boca? ir para o quarto procurar o que fazer Quantos cascudos leva por dia? Algum tapa na cara? Quais os tormentos que passa? Quando ouvi sua mãe gritando histericamente com o cachorro para que saisse de dentro de casa entendi que hoje não era um bom dia para matar um personagem E depois quando ela disse que estava com fome e me pediu que fizesse uma farofa de banana percebi que essa personagem era importante na vida daquela pequena e eu não podia elimina-la assim sem mais nem menos de forma tão banal Mlailin

Sid-Friaça (Pseudocanto III)

Sid-Friaça sentado num canto do Madrugada relata os lances que o fizeram subir ao ascetismo. Sid-Friaça conta sempre com a sorte pra pagar a conta. No banco do boteco fétido esconde e educa a prole (a ser também asceta). Por longos anos mourejou na Índia, em Goa, em Moçambique, levado pela esquadra do Restelo, na empresa finda que o poeta canta e que o Queirós queria reatada por Ramires. Agora seu pendor heróico é morto pelo excelso maquinário que o domina. A fábrica. A vida confinada em meio ao torno e o ponto do relógio. Sid-Friaça come as moças mais insanas de beleza e sina oferecida aos gajos que caminham retos pela ponte de Bouvard Moças gordas como pelicanos, feias e disformes, com as banhas podres, misto de deboche e maquilagem. moças magras e miúdas, pequenas e ossudas como garças desesperadas, gralhas presas atrás de grades. Moças que debalde se oferecem quando passo classe-média no Passeio. Mas Sid não, que não é disso; é forte e rijo tomador do biotônico da vida e da desesperança. Sid ensina a todos que não há saida. Que a moça oferta em frente à réplica do pórtico do cemitério de Cães da cidade de Paris é tão boa meretriz e faz gozar como qualquer puta que há no antro mais famoso e fino de Campinas e Curitiba. Sid-Friaça heróico Sid-Friaça, ressurgido do Restelo receita que somente presta a embriaguez noturna do bufão errante: "A névoa não esconde todo o cinza da manhã Seus olhos já revelam esta grave inquietação Os ônibus lotados de fumaça e de cigarro fedendo-lhe a miséria como lixo e como merda (...)" Sid-Friaça Vive no Hades, com Elpenor. Paulo Bearzoti Filho Fator X (Cadernos Militantes nº 12, Curitiba, novembro de 2011)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

neve negra


Queima o clamor no pulmão ferve  no coração  a  chama
e chove  punhais penetrando na prole da revolta
e  solta o Sol da esperança
das correntes de elos  quais tentáculos de feras
-pesadelos de todas aas eras
as guerras a fome e a miséria.

Queima o clamor  no pulmão
uma pluma de sonho   no incêndio da razão
incêndio na Floresta Negra  a expulsar
os desesperados lobos cinzentos a invadir
aldeias       feras famintas  almas perdidas na lama
a perscrutar na treva a semente da luz.

Ferve no coração a chama  chama  negra
borbulhando borboletas de fogo chama
a voz do bater de asas de ceda de borboleta
á queimar  da seiva ácida    no pulmão de ramos finos

da  selva da tualma fumaça densa vela
a tua cidadela em ruidosas ruínas no luto de tantas guerras

Teus olhos crepitam fome de justiça diante da soberba miséria

voa alto o falcão com os olhos  famintos  
pelo vale perdido dos sonhos órfãos.

                         Wilson Roberto Nogueira


terça-feira, 18 de setembro de 2012

haikais


versinhos no muro -
arabesco poético
escrito no mijo


haiku marginal
escrito à pouco no muro -
mijo de menino


Regina Bostulim .

[...]
Não consegui ser absoluto na farsa,
íntegro na maldade,
paciente na pressa.
Misturei as verdades com as mentiras.
Mas a verdade, essa
não aceita companhia.


 Fabrício Carpinejar

do livro: Biografia de uma Árvore ; 
coletânea Caixa de Sapatos

se digo o que sinto
é pleno acaso
acaso
o gólgota
acaso
o cáucaso
acaso
o olimpo

pratico
os turbilhões vertigens
no ciclotron poesia
usinas
buzinas
sirenes
sons e sentidos de hoje em dia

Paulo Leminski

Coral é meu nome
e o meu rebanho poroso mergulha
e emerge soando ao fundo do rio
T-e(ra)-porang-a!
A urumbeva
A mururé
As ninféias
O cravo-da-índia
A ambrósia
O umbu, os espinhos-de-jerusalém
A rosa-canina, a camélia
Os mimos-de-vênus
As candelárias e os cavalos selvagens
assim floraram

[...]

Com assombro o bosque
cobriu a terra escura do jardim
Las clavelinas blancas, púrpuras, lises
y ninguém
y tudo
como un mar
infinito

 Jussara Salazar

|js|coraurissonoros. tsé=tsé, 2008

O Homem sem Emprego

1928

Poderia eu
elevar-me
a um lugar
alto,
embebedar-me
de orvalho
e farto
falar
da solidão

Pois há
em mim
um demônio
que olha-me
com olhos
de sonho
e despe-se
da razão

Ricardo Pozzo

O jardim público
Tem grama rala
Todos pisam
O pé entala
A água vaza
A luz falta
Vergonha falta
Vaza grana
Pelo ladrão
Mas tem feijão

No jardim publico
O ônibus enche
A rua inunda
A fila aumenta
A conta engorda
O povo morre
Sem dó
Diria nosso Chico
E o salário ó
Mas tem feijão

No Jardim Publico
Tem muita flor
Flor de Laranja
Testa de Ferro
Pé de roubalheira
Bala de nove
Folha de CPI
Tem circo
Tem Pizza
E Cachoeira

No jardim público
Vende voto
Vende gente
Tem doente
Falta educação
Cara de Pau
Tem bastante
Tem uns que dizem
Que o problema
Vem de antes.

Alexandre de Almeida

Democracia


o povo desse povoado

resume tudo num refrão

só dá ladrão! só dá ladrão!

mas sempre vota no mais votado
.

o povo é mais um na multidão

não vejo ninguém ao meu lado

pilantra, escroque, patife, deputado

são sinônimos de rufião
.

o povo não merece perdão

pensa o general desde soldado

o exército não tem salvação

diz o povo de rabo espichado
.

esse povo nasceu no país errado

só existe em época de eleição

ainda assim porque é feriado

e logo voltam à sua nação

.
(antonio thadeu wojciechowski, trindade, roberto e marcos prado)

A ENCOMENDA



            Mais de 48 horas de cama, levantava apenas pra ir ao banheiro ou pegar algo na geladeira já quase vazia. Vodka, uísque, conhaque, que nada, a caninha mais barata comprada no boteco mais fulero da Westphalen. Até meus cigarros estavam acabando, uns dez no máximo. Nas rádios uma seleção criteriosa dos programadores tocava o dia inteiro as mesmas músicas, e a televisão havia tempos não era mais a mesma que ajudava a virar as noites, que saudade da programação pornográfica nas madrugadas.
            De hora em hora eu conferia a carta, pra ver se ainda estava lá, dizendo as mesmas coisas:

“Caro senhor Marcelo M.
Esta é a segunda carta que lhe enviamos, sua dívida conosco continua pendente, senão resolver sua situação nos próximos sete dias seremos forçados a tomar as medidas judiciais cabíveis. Caso o senhor já tenha entrado em contato com alguma de nossas lojas e resolvido a situação, favor desconsiderar esta correspondência.”

            Os livros foram as primeiras coisas de que me desfiz pra pagar algumas contas, mas acabei sem nada pra ler. Tive de roubar todas as revistas de fofoca do consultório odontológico do andar de baixo, já tinha lido Wolverine 37 pelo menos umas cinqüenta vezes. Tornei-me obsessivo pelas garras de adamantium do Wolverine, podia ver garras de adamantium saindo das minhas mãos. Até o senhorio tinha vindo me encher o saco algumas vezes, idiota, vai ter que me tirar daqui morto. Mas do jeito que as coisas iam isso não demoraria muito. Mais um cigarro, ou melhor dizendo, menos um cigarro, agora restavam apenas nove.
            Definitivamente tinha sido uma péssima idéia viver de literatura, onde estavam os prêmios? o reconhecimento? e as adaptações pro cinema? e o dinheiro? me mostre a porra do dinheiro Jerry Maguire! Enquanto isso meus “contemporâneos” estão porá aí, escrevendo em blogs, dando entrevistas, em feiras literárias, comendo a caloura mais gostosa de artes cênicas. Até os cínicos se foram: H só faz teatro; Martin escreve roteiros pra cinema; Roger expondo em galerias pelo mundo afora; o Véio Loko a essas horas treina tiro na Serra do Mar. De vez em quando mandam notícias, prometi que se ainda estivesse vivo na semana seguinte eu escreveria pra eles.
            Ok vocês venceram: Sandy e Júnior Xuxa Britanny Spears Paulo Coelho Silvio Santos RBD Zíbia Gasparetto My Chemical Romance Hebe Camargo Justin Timberlake todos os Backstreet Boys Luciana Gimenez Pedro Bial Dan Brown Manoel Carlos Vera Fischer Marcelino Freire Veja William Bonner Caras Galvão Bueno chocolate branco Steven Spielberg Hans Donner Tom Cruise Zagallo Élio Gaspari Franklin Martins Regina Duarte Arnaldo Jabor Fátima Bernardes Harry Potter Boninho Francisco Cuoco Gilberto Dimmenstein Jô Soares. Enfim havia me dado por vencido, eu não servia pra literatura e também pra esse mundo. Decidi definhar até morrer naquela cama assistindo TV, mas deixaria um último registro na forma de um diário, afinal, alguém poderia achar interessante.
           

Sexta-feira


            Assistir televisão ficou um pouco melhor, Curitiba virou o centro das atenções para os principais veículos de imprensa do mundo. As eleições municipais estão marcadas para os próximos meses, a campanha está a pleno vapor, e o quadro político não poderia ser mais tenso: o prefeito esquerdista Luís Felipe Bérgson concorre à reeleição contra o candidato Antonio Machado, um ex-companheiro de Bérgson, agora apoiado pelo governador direitista Paulo Rocha. Um gato na TV a cabo me dá direito a mais de 160 canais, e muita porcaria.
            Canal 125 - Noticiário Internacional: Curitiba – Cidade Sitiada.
            Na serra do mar uma guerrilha armada, “Bandeiras Vermelhas”; na cidade os atos terroristas de um grupo extremista cristão, formado por dissidentes católicos, luteranos, neo-pentecostais, “Os Doze Apóstolos”; a máfia chinesa controla o comércio no centro; a máfia italiana gerencia exportações e importações; o tráfico transformou a CIC (Cidade Industrial de Curitiba) numa cidade à parte. Em meio a seqüestros-relâmpagos, franco-atiradores e homens bomba o centro velho é o único lugar seguro, uma trégua firmada entre todas as partes, e a Catedral antes católica agora acolhe todas as religiões.
            Canal 43 - Condições climáticas
            A emissão de gases poluentes alcança níveis alarmantes, principalmente na região metropolitana. “O céu já foi azul, mas agora é cinza. E o que era verde aqui já não existe mais” Ecologistas alertam para a situação na cidade de Araucária, e protestam contra a instalação de mais uma fábrica multinacional. Há 16 horas o quadro é tenso, a polícia já considera o enfrentamento inevitável.
            Canal 03 – Mundo das celebridades
Quem é a nova namorada de Carlos o Chacal? Depois de breve passagem pela Argentina, o ex-terrorista curte sua aposentadoria em Curitiba, todo mês desfila com uma namorada nova na mansão do vampiro no Alto da Glória.
            Canal 27 – Eleições municipais
            Um rosto conhecido na TV, meu irmão Marquinhos,  - quero dizer Marcos, não pega bem o porta-voz do prefeito se chamar Marquinhos, -  dando entrevista pra responder às acusações do governador de que a prefeitura acoberta os guerrilheiros da serra. Pra variar ele rebate acusando o governo estadual de acobertar os “Doze Apóstolos”. Minha mãe morreu orgulhosa, um político sério e um escritor promissor, ainda bem que já morreu. Tomara que ele não ligue nem apareça, tomara que a campanha esteja corrida, mas ele é atencioso, sempre arranja um tempo pra aparecer. Saber como estou, trazer notícias dos amigos: Cássio, Adriano e Renato. Todo mundo conseguiu um cargo na prefeitura, não tivesse abandonado o partido pelo menos teria um emprego.
            Canal 18 – Agenda Cultural
            “O Corvo” de graça no Cine Luz. Será que o Brandon Lee fez algum outro filme? Tem alguns trocados no bolso pra comprar cachaça, meu irmão sempre aparece na sexta, bom motivo pra sair de casa. Eu amo ele, talvez seja a última pessoa que eu realmente ame no mundo, mas é foda. Meu irmão sempre acompanhado por um americano, John (ou Paul? Foda-se). O puto de merda cita Marx de cabeça e vive me perguntando sobre conspirações internacionais, em suma, um babaca.
             “Não pode chover pra sempre” menos em Curitiba, sem guarda-chuva, tênis furado, molhado feito um pinto. Debaixo de uma marquise na XV vejo um velho jogar um embrulho na lata de lixo, saiu correndo e nem olhou pra trás, muito medo da chuva ou algo no embrulho. Ninguém tá olhando, mais dia menos dia eu ia acabar fuçando no lixo mesmo. Um embrulho: grana (grana pra caralho) quanta grana! E tinha mais: umas fotos, outro envelope menor com uma papelada dentro, além de uma pistola e um bilhete solto, tava fácil demais. Eu só me fodo nessa merda!

“Essa é a encomenda, em anexo um dossiê para auxilio.Você tem quatro dias a contar de hoje para a entrega. O resto do pagamento no mesmo local em cinco dias.
C.C.”
             Mais grana? Porra! Mas eu não precisava de mais, pelo menos por enquanto, dava pra pagar as contas e sobrava um pouco. Quem sabe até pra uma costelinha no Gato Preto. Era melhor ir embora antes que o cara da encomenda aparecesse.

 

Sábado


            Esperando.

Domingo


            Continuo esperando.

Segunda-feira


            Ainda esperando.

Terça-feira


            Parabéns, Dona Neusa! Sua rígida educação religiosa conseguiu efeitos profundos em meu caráter, faz 4 dias que me acometi de um sentimento de culpa cristão. Não gastei nenhum tostão da bolada, me sinto um ladrão, afinal não trabalhei por esse dinheiro. Se existisse algo como um código de ética dos matadores eu com certeza teria quebrado todas suas normas. Devolver o dinheiro? Nem fodendo! Agora já fiz planos pra ele, mas meus planos nunca deram certo: ser um escritor; montar uma banda de rock; fazer a revolução; viver um grande amor; morrer no apartamento. 35 anos e ainda não tinha descoberto meu talento, sempre sonhei em escrever por encomenda – roteiro de cinema, peça de teatro, letra de música – talvez eu pudesse pelo menos matar por encomenda.
            Aprendi a atirar com um amigo de infância, Fabiano, tipo irmão de criação, ainda continua na vila zelando pela segurança da comunidade. Sempre atirei bem, o Véio Loko quando foi montar a guerrilha encheu o saco um monte pra eu ir junto, eu disse que preferia esperar pra ver a revolução marchar vitoriosa pelo calçadão da XV de novembro. As balas da pistola eram suficientes, automática, perfeita pra um serviço rápido e limpo. Está decidido, vou entregar a encomenda.

(...)

A entrega


            Um velho conhecido da cidade, empresário respeitado, financiou a eleição do governador, o filho é deputado federal. Pra variar o velho era um pervertido sexual, tarado por menininhas, o cara era um clichê rodrigueano: católico, conservador, rico, tarado. Isso já era o bastante pra me convencer, o velho deveria morrer. Uma mijada, aparar a barba, um banho. Fui pra rua e segui o itinerário entregue com o pedido da encomenda, queria ver se até a noite estaria tudo resolvido. Na hora de sair pra rua paguei o aluguel, Seu Clóvis nem acreditou, pensei até que ia me abraçar, antes que fizesse isso sai fora.
            O velho era um clichê até no seu dia-a-dia, de manhã passava num escritório na Santos Andrade, almoçava num restaurante de comida caseira, passava a tarde em livrarias, à noite caçava bocetinhas. Sempre saía pra caçar sem seguranças, andava pelas bocas da Visconde de Guarapuava e da Sete de Setembro babando no pescoço das loiras, morenas, mulatas era uma presa fácil. Não mais fácil que a menina que ele pegou aquela noite, uma baixinha tipo mignon, gostosinha, caloura universitária, 19-20 anos chutando alto. A mina esperava alguém na Mariano Torres perto da rodoviária, eram mais de dez horas e o toque de recolher das seis já avisara que as noites de Curitiba não são para amadores. Nem a polícia é louca o bastante pra patrulhar além dos limites do Centro Velho.
            Nada pior que uma menina bonita, amedrontada e crédula, antes que alguém a currasse, a roubasse, ela aceitou a ajuda do velho. Como todo tarado clichê ele mantinha a mesma expressão de um avô brincando com os netinhos. Mas logo se revelou pra ela, a segurou pelo braço e a foi levando cada vez mais pra dentro da boca, pra algum pulgueiro. E ninguém viu? Claro que viu, mas na noite curitibana todos estão preocupados em salvar a própria pele, que cada um se vire. Putas, ladrõezinhos, viciados e toda sorte de tarados lotavam as ruas, bebendo, fumando, trepando, cagando. Sentia que alguém me seguia, mas parar pra ter certeza me atrasaria, e poderia me perder dos dois, depois de matar o velho eu mataria o filho da puta que vinha atrás de mim.
            Até que o velho não escolheu um dos piores pulgueiros da Nilo Cairo, tinha um negro na porta como leão-de-chácara, então tive que alugar um quarto pra não atrair suspeitas, não podia perder tempo com o leão-de-chácara também. Agora, qual o número do quarto? Gritos, tiros, risos tornavam mais difícil achar o quarto que o velho escolheu pra fazer seu “servicinho”. Mas pra algo a arma ia servir, sorte que tinha poucos quartos. Derrubei duas portas na base do pontapé, os ocupantes quando viam a pistola na minha mão se borravam, mas depois que eu saía voltavam ao que estavam fazendo, a porta escancarada devia aumentar o tesão das pessoas.
Finalmente achei os dois, ele ainda não tinha comido a guria, me senti o Macgyver salvando a mocinha dois segundos antes da bomba explodir. O velho era pior do que eu pensava, com um punhal pretendia esfolar a menina. A menina, por sua vez, era muito mais gostosa do que eu pensava, ali no chão aterrorizada e rezando pela própria vida ela virava a mulher mais linda do mundo. Do que eu seria capaz? Eu chupava ela inteira, enrabava ela, gozava na cara dela. Porra, Eu até casava com ela!
            - Pro meu quarto velho! Você fica quieta aqui menina, já volto pra te buscar.
            O velho suplicou, falou dos filhos, netos, da mulher enquanto eu amarrava ele na cama. Caiu um crucifixo esquisito no chão: não tinha o Cristo mas as pontas da cruz tinham detalhes em vermelho, tipo o sangue escorrendo; deixei por lá, podia ser uma relíquia de família. Já amarrado, ele ficou falando uma ladainha estranha, pelo menos não era nenhuma das que a Dona Neusa me ensinou quando eu era criança, devia ser uma reza que todos os velhos tarados fazem na hora da morte. Todas as maluquises dele exigiam um tratamento especial, não podia matar o filho da puta de qualquer jeito, guardei a pistola e usei o punhal dele pra fazer o meu “servicinho”, bem devagar esfolei ele todinho. Eu queria ter um facão, uma espada, uma lança, garras, as garras de adamantium do Wolverine. Papai Noel já sei o que eu quero de presente no natal: as garras de adamantium do Wolverine!
            A encomenda foi entregue.
            Mas meu trabalho ainda não estava concluído, ainda tinha que salvar a menina, ela era a mocinha e eu era o herói assim-assado, mezzo Macgyver mezzo Wolverine. Interessante o que é uma pessoa desesperada, pra minha surpresa ela me esperou, e eu espero que ela tenha aprendido uma lição: a noite curitibana é terra de ninguém. Ela morava perto da reitoria da UFPR, eu estava certo, só mesmo uma caloura pra sair sozinha à noite fora do Centro Velho. No caminho ela me contou toda sua história, desde a infância pacata no interior até o bolo que levou de um hippie metido a músico, novamente eu e os clichês. Enquanto isso eu prestava atenção nos cabelos castanhos compridos, nos olhos cor de mel, mas principalmente na boca, se ela parasse de falar eu agarrava ela.
            E o nome da guria: Marisa. Lembrei da Marisa Tomei, que delícia, como era mesmo o nome daquele filme que ela era uma cubana? Mas a Marisa Tomei estava nos EUA, e a “minha” Marisa estava aqui do lado, igualmente deliciosa, igualmente maravilhosa, e já que também rima: igualmente gostosa.
-          É aqui que eu moro!
-          Beleza!
-          Mais uma vez obrigada, te devo minha vida
E me abraçou.
-     Não foi nada, qualquer um faria isso! Texto do Macgyver na voz do Wolverine.
-          Quando quiser apareça, eu moro no 120.
-          Tá. Como podem perceber, não sou um cara de muitas palavras.
Doutor Faivre 860, apartamento 120. Eu devia voltar, arrombar a porta do apartamento, arrancar sua roupa, jogar ela na cama. E se eu me apaixonasse? Que deprimente. Já eram 4 da manhã e até meu prédio na Westphalen era uma boa andada, pelo menos ainda tinha a luz da lua, “lua, espada nua, bóia no céu imensa e amarela tão redonda a lua, como flutuatarde demais, já estava apaixonado!


Quarta-feira

            Encomenda entregue agora eu podia receber o resto do pagamento sem qualquer culpa, eu trabalhara, e o melhor de tudo: eu era bom, e como eu era bom. Na saída do apartamento tive uma surpresa no corredor, o puto do John/Paul me esperando. Porra, era ele me seguindo a noite passada na boca.
-          E aí? Agora ele falava gíria.
-          E aí?
-          Parabéns pelo novo emprego!
-          Que novo emprego?
-          Precisamos conversar, meu cartão.



John Burgess

Governo dos Estados Unidos da América

CIA – Agência Central de Inteligência

Agente Especial designado para o Brasil

 


            Sabia que esse puto de merda não tava metido em boa coisa.
-          Agora eu tenho um compromisso, conversamos depois.
-          OK!
Que que eu podia fazer? O puto sabia onde eu morava. A gente nunca tá sossegado, já dizia Dona Neusa. Saí na rua pensando o que fazer e torcendo pra pegar o dinheiro sem nenhuma surpresa, mas novamente a Dona Neusa tava certa, nada de sossego pra mim. Mais surpresas no lugar do pagamento: um novo pacote que além do dinheiro tinha um novo bilhete. Eu só me fodo nessa merda!

            “Parabéns senhor Marcelo M. O senhor fez um belo trabalho, agora todos pensam que aquilo foi obra de algum psicopata, um serial killer. Gostei do seu estilo, a maneira como salvou a menina mostrou que o senhor é um homem de princípios, algo em falta na nossa profissão. Sinto que nos daremos bem, o senhor atua da maneira como atuávamos nos “tempos românticos”. Mas não temos mais tempo a perder, há uma nova encomenda para o senhor.
C.C”

Luiz Belmiro
Escritor e sociólogo nas horas vagas.
"A Encomenda" é o primeiro capítulo da novela "Wolverine 37", ainda não concluída.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012


Caminhar um monte e ficar no ônibus um tempão para ir ao MON: UM real


caminhar até o MON e parar para tirar fotos: sem preço!

Torcer o joelho e ficar com ele dolorido: NÃO tem preço!

Ir mancando até o MON e ver uma fila enorme: não tem preço.

Desistir de ver Modigliani que amo: perda de valor inestimável !!

Voltar a mancar para ir até o Paço: não tem preço.

Chegar no Paço às cinco e descobrir que ele não fecha às seis: não tem preço!

Perder a exposição de fotos que eu queria ver e que terminou hoje: perda de valor quase inestimável...

Ficar meia hora sentada no chão próxima do ninho de quero-quero para ganhar a confiança do papai e da mamãe: Não tem preço MESMO!!!! Consegui belas fotos!

Conseguir uma foto interessante do MON: não tem preço. Assim que saio do local, ver um fotógrafo babaca pegar a minha ideia, (ô raiva!)

 Texto e foto Susan Blum
Alguns dias amanhecemos (acontece também com vocês?) numerais e lineares, cada coisa em seu lugar...E começamos a anotar: 1, 2, 3, 4. Até nós que somos tão onduladas (no caminho do imaginário) precisamos das linhas retas.

Glória Kirinus

domingo, 16 de setembro de 2012



dia melhor talvez eu queira
alqueires de terra sob o sol
uma plantação de ócios, só

Assis Freitas

*Do meu livro-projeto "cem haikais e uma suíte para ouvir Leminski" 


removidos daqui restam passos
na areia fina e ruinas
do q comeram e dormiram

restam paredes queimadas
aquelas cercas destroçadas
esses sinais rasgados

removidos daqui esperamos
o tempo a chuva o vento
esperamos outros e outros

todos eles se agarrarão
ate a chegada dos ultimos
e desses cuidamos nos

por enquanto ficar olhando
bater no telhado baixo
tolerar cuspir arrastar os pes

removidos daqui é o silencio
esse momento de prazer e riso
por muito pouco seremos felizes

Alberto Lins Caldas

Quanta vida habita a selva brasileira e a selva peruana. Fauna e flora humanizada. Lá é tudo mortal e tudo é vital. A bondade de mãe, da serpente "Yacu-mama" , o veneno da bela "Chicharra-machacui" e as formigas gigantes (entre outros presentes) estão no livro "Cuentos peruanos" de Ventura Garcia Calderón, publicado em Madrid em 1919, com versão francesa em 1925. Um escritor pode acordar do "olvido" e do esquecimento outro escritor, no momento da tradução e da recriação.

Glória Kirinus

sábado, 15 de setembro de 2012

BRANCO GIZ


Cabe a mim pequeno poeta
Empunhar com coragem a caneta
E transformar em poesias e odes
A ficção e a realidade
E mesmo contra a minha vontade
Poetizar da vida o seu lado podre.

No céu da minha boca
De uma maneira muito louca
Brilham estrelas sem fim
O Sol numa parte e a Lua noutra
Testemunham minha voz rouca
Gritando bem alto assim:

‘Pare a vida que eu quero descer’
Isto não significa que eu queira morrer
Pois pela morte não nutro apreço
Quero apenas pequenos desligamentos
Para me reequilibrar por dentro
Me preparando para os recomeços.

Cada recomeço é uma lousa
Na qual minha mão repousa
Escrevendo com branco giz
E apesar do que me incomoda
Escreverei nessas lousas todas
‘Nunca desistirei de ser feliz’.

Eduardo de Paula Barreto

ARTE DE SONHAR


Noites em que durmo sonhando o sono, em que rumo no sono que durmo o sonho que rumo o sono?
Em que ruma o sono, que outro rumo o bombardeio do sono; vigília em busca do sonho, que mostra o sono na dúvida em que bônus, em que órbita, em quê?
Véspera da nêspera, desperta, despenteie-se - livro-me, expulso o híbrido da fome no rumo sem nome.
Depois do índice, ídiche, do piercing na aba do sono. Abandono?
Real. Realidade do ibidem, do mais que perfeito item: para além e daqui até acolás, de colas e sapatos de Putifar, de brim e de brinde.
Roupagem leve, asas de voar: calibre em volta do sismo. Riremos?
Tempo de sufragar. Roupagem Leve, notícia sempre vista ao se afagar.
Roupagem, e me visto e insisto, em riste afagando a pele, de outra voz em cada pele, despelando-se em interpelar, despetalando-se.
Interpelo-me, rubro,e abro a fusa rubra... e insisto em sono. De sonhar-me, descortinando-me em me situar nas fases da lua mórbida. Voante pela janela. Causando-me sonho em me sonhar. A janela que corrói a perna e me veste de leve Roupagem, Roupagem leve no arco dos Quatatis em neve. Bolo destes Quatatis em branco e outros em caldos e sonos.
Arte de voar, em breve, voando!

Nestor Lampros

Prefácio


Quem fes esta manhã, quem penetrou
À noite os labirintos do tesouro,
Quem fez esta manhã predestinou
Seus temas e paráfrases do touro,
A traduções do cisne: fê-la para
Abandonar-se a mitos essenciais,
Desflorada por ímpetos de rara
Metamorfose alada, onde jamais
Se exaure o deus que muda, que transvive.
Quem fez esta manhã fê-la por ser
Um raio a fecundá-la, não por lívida
Ausência sem pecado e fê-la ter
Em si princípio e fim: ter entre aurora
E meio-dia um homem e sua hora.

 (Mário Faustino)



"Nunca gostei de dormir com filósofos. Entre uma foda e outra metafísica furada. Ôntico. Olho pro céu e conta as estrias da lua. Pede desculpas pelo prazer que não me deu. Sou bicho, é só isso que quero ser, não tente me tornar menos animalesca. O cão come a própria merda, e isso é ele, é seu instinto de cão. Minha pele fede a sexo naïf. Não tente explicar um prazer furtado para uma cadela. A língua daquele filósofo filho da puta não é capaz de me proporcionar orgasmos. Ao contrário, sua língua densa me entristece me empurra pra fora do mundo e me rotula de mulher pública. Minha vagina um buraco negro, uma anti-matéria, um nada ancestral." 
(A puta)
 Márcia Barbieri

olho, 5, fragmento


o ferro que salmoura esta peleja
é o travo de uma língua que te beija."

Romélio Rômulo

“Escrever é agregar um quarto na casa da vida.”

15/9/1914 - Bioy Casares, escritor argentino.

espantalho




is mares interiores se quedaron sin playas
federico garcia lorca

o vento cardíaco
carrega um homem sem voz
que não sabe se encostar
e morrer.
as ventoinhas, a caminho
de serem pedras,
tremem como espinhas de peixe
não tremem
e jazem malferidas
sem sofrer.
só a respiração do trigo
é minha amiga.
o azul cerúleo, que transporta
homens e pássaros, a mim ameaça
- é quando não durmo.
sempre que gepetos à relha
mexem a terra,
conto os minutos
para a cova que me abrem
essas coisas que vejo sem retinas
existem. não há dúvida!
meus olhos são ossos da cegueira,
caminhos pelo escuro, moscardos cegos.
vou abandoná-los, de todo em todo
não me estiolaram.
serei mais lúcido que o sol ao meio-dia.

oh, noite, por terrivel que sejas,
no plástico preto
com que asfixias tudo
há furos de estrelas!

moro no plantio,
próximo ao galpão, à colheitadeira
moro em mim de passagem
como num hotel barato.
fui feito para o terror
e não pude senão me assustar
(não dou sombra ou frutos ou coroas.
não sou dafne
em sua grande tristeza vegetal)

dois corações se debatem
em meu peito:
uma maçã cheia de larvas,
mordidas, merda de gralha;
outro que é ninho e fuga e
salsugem do mar nunca visto.
penso através do susto, do mofo,
do amor, da inveja.
meu sorriso de barbante
é uma cicatriz perplexa
o único movimento, às abelhas do sol,
é parar sempre,
estacado sem o céu e o chão.
e no entanto, caso não me traia
e me devolva a solidão,
migro como meus inquilinos.
tenho paina e feno nas carnes
meu sangue é a água quando chove.

será que estou vivo?
minha voz dobrará horizontes?

deus, dai-me raízes!
um dia terei raízes como que asa

 Rodrigo Madeira

Cheiro de terra



O vento soprou um montinho de folhas que estavam no acostamento da rua, enviou um fragmento de um quebrado de uma folha seca até os olhos de Núbia fazendo com que ela, imediatamente, tivesse que parar, com as mãos no rosto. Marihá vinha logo atrás. Com os cabelos ao modo de uma bailarina - um coque coberto por uma rede de rosinhas- quando se aproximou de Núbia querendo saber o que ela estava fazendo ali parada, daquele jeito. Que perigo! E se vem um carro? Núbia explicou que foi o vento, com suas estripulias, que tinha deixado-a assim e pediu que fizesse alguma coisa para ajudá-la a tirar a terra depositada no canto dos olhos. Marihá levou-a até a sombra de uma árvore e deu um sopro forte no olho d’água dela tirando em seguida as rosinhas dos cabelos oferecendo o que de melhor ela tinha, dizendo logo em seguida: apressa-te o ensaio da dança da vida já começou.

De Mara Paulina Arruda.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Poética


Pensa que á livre, mas não tem a mínima noção de liberdade.
Grades indecifráveis a perseguem e no caminho sente a falta de si
Errante, sempre enganada por uma mente confusa, um cérebro cheio de tempestades.
Procura subterfúgios para penetrar no vazio, mas eles também se tornam obsoletos.
Os dias as horas os anos os séculos vivenciados
Não é prisão exterior é interior
Bem lá no íntimo da cela contínua NL


 Neuza Ladeira

Em branco


Sete palmos de silêncio
nas planícies da memória
histórias agora são
nuvens ao vento.

Sem nome nem endereço
começos em andamento
perdidos num chão sem rastros
no mastro sem documentos
a palma da mão sem traços.

Uma canção que não canta
sem letra nem partitura
deixou em seu lugar
dores antigas.

 Dade Amorim

Briga de cão e gato


Eu estava sobre o parapeito da janela do quarto. Arrumava os vidros quebrados por causa de um corre-corre do gato com o cachorro. Naquele dia a estrada ainda tinha restos do sereno da noite. A criação tinha começado a ciscar quando, no meio das hortênsias, o gato puxou o rabo do cachorro. Eu passara uns cinco minutos antes por ali de jipe e vi tudo inclusive Vitória. Ela estava furiosa, esbravejando o universo por causa desses daí! Perto do açude o gato corria atrás do cachorro. Vai daqui vem dali vieram parar aqui dentro de nossa casa; o gato entrou correndo no quarto,desviou-se na sala e foi parar na cozinha que foi empurrado pelo cachorro que acuava ameaçando mordê-lo. Resultado: derrapou no vão da janela e quebraram mais dois vidros da janela que recém eu tinha terminado de pintar. Que vontade de trucidar estes bichos! Mas me segurei até porque Vitória é apaixonada pelo gato que ela protege como se fosse a própria vida. Agora, eu já avisei: se em outro dia isso acontecer de novo, não haverá perdão, será o fim desses bichos!!

  De Mara Paulina Arruda

TANTRA


Tanto tantra quanto mantra
Tanto faz quanto apraz!
Pelo sexo ou pela música,
Tanto som quanto ritmo,
Tanto faz quanto apraz!

Por só se dar ou só dar dó
De um jeito só
Tanto faz quanto apraz!

(Sérgio Pitaki)