sábado, 10 de agosto de 2013

van gogh, 1

o ritmo da fala
é o tempo da desestrutura
à bala
do extrato arrancado na loucura"

( romério rômulo)

 

fragmento

nunca se viu muita coisa
da água que me atormenta
do corpo que me embaça
do olho que me inventa."
 

( romério rômulo)

fragmento

tudo que fosse e não fosse
vou beber da água doce
nascida da tua venta."
 

( romério rômulo)
Creio muito na força dos escritos. O grau de pecabilidade inserido em meus intentos, permitem-me temer, sem tremer.
O artista procura sempre estar bem representado, em suas habilidades e talentos. Mais que isso, ele necessita testar-se. Precisa alongar a visão, para que não se perca das grandes obras, que ainda se farão nascer, através da sua inspiração, dom e talento. 
Creio de forma forte no que jamais se deixa alvoraçar pelo ir e vir do vento.
Sou fiel à minha gana de buscar, sempre buscar.
Creio demais no que me inspira e abstrai de minha mente, quaisquer possibilidades de fracassos.

josemir(aolongo...)

 

POEMA DO AVESSO


 
O que há em mim
é a lenta preparação
do que há em ti
sombra segada
sangrada
e sagrada
até nos olhos dos meninos
que nasceram sem olhos
 
vidência única
(vide o verso)
 
visão múltipla
(vede o anverso)
 
e tudo que está
do outro lado

do espelho.
O clima ficou tenso
Meu pensamento defumou
depois da queima de incenso

Alvaro Posselt

Álvaro Posselt e Jacques Brand


o antro sonâmbulo/ do macaco terráqueo:/tamanduás do espaço/de alimento barato

um cancro no orquidário/das formigas sem sufrágio:/a guerra nas esteiras
do fordismo enferrujado

o tal homem biônico/de braço descartável:/o lado grego da força/tanta e sem trabalho.


 Marcus Fabiano
Fonte : Roberta Tostes Daniel
"Embora a transmissão da informação e do conhecimento se possa fazer hoje de muitas e diferentes maneiras, o texto continua sendo importante. Ele estimula a imaginação, ele amplia o domínio sobre a palavra (e a palavra é um esteio fundamental da condição humana) ele pode ser arte. Uma bela história e um belo poema melhoram nossa vida."
 

- Moacyr Scliar, em “entrevista” à revista Educar para Crescer, 26.01.2010.

ÊXTASE E LOUVOR À PRINCESA QUE MORREU DE AMOR

3 Devora-me um tigre
que insone vive/
tua sombrosa mata
 
E ronda essa casa/
seu corpo
seca-me a carne
 
Faminto de morte
teu tigre passeia/
dorme/
impura glória
sobre a minha tarde
 

js|ÊXTASE E LOUVOR À PRINCESA QUE MORREU DE AMOR.

MÃOS DE PEÃO


Laçam bois, e tocam boiada, como ninguém
Mãos de peão
Não sabem o que é polimento
Não usam cremes nem hidratantes
São belas de nascimento
E são com elas que fazem o sinal da cruz
Antes de partirem para a lida
Das novas empreitadas
Roçam o mato, plantam as sementes, colhem os grãos
Ou não, se a seca mata
Mata a plantação
Mas não mata a sede do peão
De ver nascer de novo, a floração
O pé de milho, o pé de alface, o pé de feijão...
E por aí vão, cantando e gemendo
As dores, e as alegrias 
De quem vive no sertão 
Não se cansam nunca, segundo eles
Homem cansado é homem fracassado
Um pingado de pinga com mel
No final do dia
Faz a mão do peão, tirar o seu chapéu
Levar o copo à boca, de uma vez só
E olhar para o céu
Como se Deus lhe sorrisse
E Deus sorri, acredito, satisfeito
Com esse povo crente, apesar de sofrido
De onde vim.

(Adelaide N.)

O escritor e poeta Jacques Brand


O que me diferencia...


Não me sentiria bom gaioleiro...
não me sinto exímio figurante podador.
Se minhas asas por vezes se prendem,
prefiro libertar meus passos...
nem sempre o não voar se faz impedimento
para a realização dos sonhos.
 
Não me ofusco com as ilusões afeitas aos atos carrascos,
meus sentimentos não se sentiriam bem...
 
Não me prendo ao mutismo exacerbado
dos que doentiamente somente observam...
meus atos gostam de rumores, de fortes movimentos.
 

josemir(aolongo...)

fragmento

uns graus de febre eterna
avulsam meu corpo
eu, louco."

( romério rômulo)

A FLOR DO SEXO

Rubens Jardim
 
abaixo do teu umbigo
 
existe uma caverna
 
de rochas ígneas,
 
magmáticas.
 
dizem que elas são
 
formadas de feldspato,
 
quartzo, anfibolitos, mica
 
e minerais preciosos.
 
 
 
mas abaixo do teu umbigo
 
eu não encontro nada disso:
 
eu vivo a nascente e a foz
 
simultâneas.
 
 
eu nunca tirei mais coisa
 
da água que me atormenta
 
do teu corpo que me embaça
 
do teu olho que me inventa
 
 

Primaverando



Que venha logo setembro
pleno de troncos e membros
e prima viril me devore
com sua boca de leão
e se demore onze-horas
cobrindo-me de amoras
amores e heras.

Que deveras venha a primavera
e ainda tenha no olhar
um certo ar de cão sem dono
e uma fome de outono a saciar.

Que traga tatuado no peito
um amor-perfeito para me dar
e me dê flores, me deflore,
dê lírios, palmas, beijos.

Me deguste agosto
da copa ao piso,
do riso ao choro,
e sem decoro me decore
com todas as cores do arco-íris.

Que matize os meus seios
com entremeios de renda preta
e sobre meu espartilho vermelho
derrame um copo-de-leite violeta.


(Marilda Confortin in “Busca e Apreensão”)

O poeta Ricardo Pozzo


Lenda do Cachorro Nego da Água de Umuarama



Reza lenda que no lago Tucuruvi, na cidade de Umuarama, no interior do Paraná havia um espírito solitário chamado Caboclo da Água. Uma noite, ele se sentiu muito só e fez um pedido ao céu:
- Minha doce Lua Cheia, por favor me traga um amigo, pois estou muito sozinho.
No dia seguinte surgiu um filhote de cachorro, da cor preta, que saltou no rio e nadou. Assim o cão ficou amigo do Caboclo da água, que sempre se escondia da população. O problema é que o cão não tinha como se esconder das pessoas, já que era um bicho real e não uma entidade espiritual.
No começo, a população estranhou o comportamento do animal, pois ele nunca saia do rio. Por isto o cachorro recebeu o nome de Nego da água. Reza a lenda que algumas pessoas tentaram adotar o bicho, mas ele sempre fugia para o rio. Ele até pegou várias pneumonias, mas não chegou a falecer, pois a população sempre levava o animal ao veterinário quando ele adoecia.
Até hoje não é só o espírito do Caboclo da Água que é amigo deste cachorro. Pois, as crianças também amam brincar com ele perto do rio.

Luciana do Rocio Mallon

Lenda do Ex-Bruxo da Estação Guadalupe



Num passado distante, havia no interior de Matogrosso um homem chamado Douglas que era um lavrador muito ambicioso, pois sonhava em ser um grande fazendeiro. Para realizar seu sonho ele procurou uma cigana da região que ensinou-lhe simpatias para melhorar de vida. Assim este homem tornou-se um dos fazendeiros mais ricos da região.
Um certo dia, a sua cidade recebeu a visita de uma feiticeira famosa. Então Douglas procurou a bruxa com o objetivo de ficar mais rico ainda. Logo, ela passou-lhe feitiços pesados e num deles ele teria que matar um bode. O homem ficou na dúvida e pediu conselhos a sua amiga cigana que disse-lhe:
- Por favor, não faça nenhum ritual que envolva mortes de animais, principalmente, bodes. Pois, isto atrasa a vida.
- Você ficará com o corpo fechado, porém com nada no bolso.
O problema é que o agricultor não ligou para este comentário e resolveu fazer o ritual.
Um mês depois da magia ele ganhou mais dinheiro. Porém, depois o fazendeiro conheceu uma loira bonita que lhe seduziu e roubou todos os seus bens, pois ela fez o agricultor passar todas as propriedades para seu nome.
Douglas entrou em depressão e começou a beber. A sua amiga cigana deu-lhe abrigo. Porém, como ela estava muito velha, faleceu poucos dias depois.
Assim, este homem virou um mendigo. O tempo passou, uma caravana de ciganos chegou na cidade e acolheu o rapaz.
Os ciganos armaram acampamento por pouco período e resolveram partir para Curitiba. Assim, Douglas foi junto. Quando eles chegaram na capital do Paraná, Douglas decidiu abandonar seus amigos, virar mendigo e morar na rua em frente à Estação Guadalupe.
Reza a lenda que neste lugar havia um comerciante temperamental, um ex-satanista que tinha se convertido a uma religião evangélica. Este rapaz tinha o corpo todo tatuado com símbolos da sua religião anterior, como: pentagrama invertido e o bode de Mendes.
O problema é que Douglas transformou-se em um viciado em drogas e passou a vender crack na Estação Guadalupe, atitude que irritava o comerciante.
Uma certa noite, o ex-fazendeiro e seus comparsas provocaram e desrespeitaram este lojista. Assim, o rapaz ficou irritado, pegou uma barra de ferro e bateu nos dois homens. Douglas foi o que mais apanhou, mas as pessoas que presenciaram a briga ficaram assustadas, pois este morador de rua nem sequer desmaiou e começou a gritar:
- Tenho corpo fechado !
- Tenho corpo fechado !
Reza a lenda que depois desta confusão ninguém mais viu o ex-fazendeiro e seu amigo na região. Porém, o tráfico de drogas e os viciados ainda incomodam as pessoas na Estação Guadalupe.

Luciana do Rocio Mallon

Lenda da Mulher de Branco de Curitiba



A maioria das cidades tem uma lenda em comum: A Mulher de Branco, sempre com um enredo variado. Com Curitiba não foi diferente porque este lugar também tem um causo sobre esta personagem:

Nos anos 70 Ana era uma jovem, muito religiosa, moradora de uma cidade do interior, que procurava seguir as regras de uma família rígida.
Um certo dia, o padre morreu e mandaram um jovem pároco para o lugarejo. Logo, na primeira missa, o sacerdote novo olhou para Ana, apaixonou-se por ela e o sentimento foi recíproco. Assim, os dois passaram a se encontrar escondido.
Alguns meses depois tiraram fotos do padre com Ana e mandaram para a família desta sua namorada. Por isto, a dama foi expulsa de casa sem dinheiro no bolso. Desta maneira, a pobre resolveu sumir da cidade e ir para bem longe, pegando carona de carro em carro até chegar em Curitiba.
Na capital paranaense a moça virou moradora de rua. Numa certa noite, ela sonhou que um anjo pediu-lhe para que ela vestisse só roupas de cor branca para purificar seu corpo, mas que seus pés deveriam estar sempre bem tratados porque no dia de sua morte eles se transformariam em asas. Por isto, a dama passou a se vestir só com roupas desta cor. Ana, para sobreviver, passou a desenhar os rostos das pessoas que passavam pelas ruas. Como ela era muito talentosa, esta atividade virou seu ganha-pão. Esta mulher passou a ser frequentadora de um famoso salão de beleza, da época, localizado no bairro chamado Mercês, somente para que a pedicure e a reflexologista tratassem de seus pés. Pelo fato desta moradora de rua não tomar banho, a dona do estabelecimento marcava um horário especial para que ela fosse atendida. Afinal, por causa do seu odor, a proprietária era obrigada a abrir todas as janelas. Porém, o mais interessante é que depois de ter as unhas feitas, Ana jogava suas meias velhas no lixo e pegava novas.
Esta jovem nunca escondeu a verdadeira história do seu passado. Logo, surgiu o boato de que esta artista virava mula-sem-cabeça nas noites de Lua Cheia, pois segundo crendices: toda a mulher que namora um padre tem este destino.
Ana gostava de andar pelos bares do Largo da Ordem à noite e era comum ela assustar as pessoas nas esquinas para depois dizer-lhes:
- Se vocês desejarem um retrato personalizado, eu posso desenhar.
Reza a lenda que Ana faleceu nos anos oitenta, mas que seu fantasma sempre aparece no Largo da Ordem, todo vestido de branco, com asas nos pés, assustando e falando para as pessoas:
- Se vocês desejarem um retrato personalizado, eu posso desenhar.
Dizem que depois que esta mulher faz a gravura e entrega ao seu destinatário, ela some no ar.

Luciana do Rocio Mallon

GUERRA E PAZ



Porque emprestas tua beleza à rosa 
Que me faz viver 
É que sorrio 
E amo-te 
Acima dos campos 
Minados de sombras, bombas que matam 
Ou de luzes artificiais 
Amo-te, com o fogo da minha alma

Essa, que me sinaliza 
Onde quer que te encontres 
Me acende os sentidos 
E me empurra ao encontro de ti 
De baixo para cima 
Ou de cima das cachoeiras 
Eu não caio 
Eu voo 

Até o arco íris 
Eu escorrego nas suas cores 
De olhos fechados 
Para sentir a surpresa do que me espera 
Flores, beijos, poemas, canções... 
O conforto que necessito 
Está em ti 
Se não estás possuído 
De outras febres e tiranias... 
Que não são minhas.

(Adelaide N.)

domingo, 4 de agosto de 2013

Libelo

Roberta Tostes Daniel


Um libelo, a existência
Teço agulhas como quem
Espreme espinhas
A minha mão é uma flor
Exprimo voos de libélulas.

Doutrinar os estoicos
Com as desgraças do ciúme:
Peco mais por me deixar vagar
Tão neutra como quem se perfuma
Sem dono, o meu corpo é um pórtico.

Estupidez proeminente
O êxtase secreto
De burlar as regras
Um abandono, profunda alegria
De protozoário no universo.




Destino

Roberta Tostes Daniel


Inverte a chegada à porta do descomeço,
teus lábios de perguntas queimam
do sol das chuvas de sangue.
Bebe o vinho que te fará redivivo
nos ciclos completos de dúvidas.
Ama o trago da terra amarga e segue
empós a ceifeira da renovação:

"a resposta está além dos deuses".

deste lugar do coração



deste lugar do coração,

tacteante do essencial. medida breve do tempo onde o mínimo é máximo e o profundo um lento e íntimo respirar. instrumento do imedível. iludência das ideias e tormentoso segredo. assim se é fábula e prólogo.____ maliciosa a nostalgia do indesvendável músculo que nos amadurece e é espelho.

____ e o tempo é renda...sim. deste lado coração...invade-me.

Isabel Mendes Ferreira




a ausência do cinza sob o sol

eu não saberia mentir enquanto sol

perturbação no meio das pernas

o que acha que é amor no coração
era um órgão bombeando sangue

tripas, muco e sêmen

ah, deus que não me ouviu por muito tempo


eu fiz barulho.

Redson Vitorino

A Puta

"Tenho caminhado e observado a cisão do fêmur e da patela, desprezo todo desejo que acaba em pó. Mataram a baleia branca. Durmo encalhada no seu ventre. Afeto-carcaça do ódio." 

Marcia Barbieri

com os dentes cravados na memória

Artur Gomes

no quintal da minha casa tem uma planta sagrada debaixo do pé de manga espada tem um pé de limão cravo uma horta com alface e couve e alguns temperos caseiros que a minha mãe todo dia gosta de admirar as plantas que ficam crescendo as flores e suas sementes perto do muro da casa com tua energia solar como um poema que eu falo como quem brinca de pique e você não quer que eu explique o nome da minha rua que é uma rua só minha onde plantei minha casa durante noites de junho quando se faz lua cheia picasso foge da espanha com seus pincéis pioneiros e vai ali se encontrar com a sua musa primeira numa antiga cerâmica que conheceu na cacomanga no outono do patriarca em cem anos de solidão


o meu escritório

Luiz Felipe Leprevost

é o meu escritório. o meu escritório fica em qualquer lugar que venda cerveja gelada? aqui a mais gelada da cidade. além de tudo, aqui velhas pérolas do cancioneiro abolerado paraguaio-brasileiro, elas são diuréticas. no banheiro o cheiro de limão no gelo se mistura às canções mijadas pelos frequentadores voltando pro teu nariz empapuçado de versos tristes. a Miroca, cansada santificada há mais de 37 anos dona do bar, sabe bem que conquistar clientes é conquistar pentelhos. sou um desses? só se sou o famoso Pentelho Consigo Mesmo pelo fato de viver sozinho por aí por aí por aí e por aí. digo, nunca pendurei nem pedi de cortesia uma porção de amendoim que fosse. sou pentelho? sou sozinho. bom, todo mundo sabe que existem as companhias de copo e as companhias de corpo. veja, no meu caso, o que vai dentro do copo é minha única companhia de corpo – moça de composto nome Estupidamente Gelada e a partir de certo horário só lembrada pelo sobrenome Destilado, Lady Destilado. há muitas maneiras de se referir a um amigo alcoolizado. uma delas: estava podre de bêbado. outra: saiu daqui miando. é assim que Marica me conhece, Sr. Estava Podre de Bêbado, vulgo Saiu Daqui Miando. Como sei que ela só pronuncia tão simpáticas palavras pelas minhas costas com os outros clientes, para os quais geralmente não dou a mínima pelota, acaba que eu mesmo, quando estou descendo a Saldanha Marinho na direção de casa, falo comigo: Sr. Podre de Bêbado, hoje você saiu de lá miando, meu Deus, como você tem se estragado, você vive assim, meu caro, Saiu Daqui Miando, daqui, de lá, do velho Pub, miando, que ridículo, Sr. Miando...


FLOCOS SOBRE A RELVA


 
A freqüência dos meus passos
Sobre as tuas terras em nada foram alterados
Passo todos os dias
Por tuas plantações de algodões suspensos
Todos dias...
 
Estico os braços na vã tentativa
De tocar os flocos, e os pássaros que ali passeiam,
Mas, eu não alcanço o céu, ainda
Sou pequenina e as minhas asas, sem direção
Não sabem voar sozinhas.
 
Eu não me desespero mais,
Eu te espero, deitada na relva
Com olhares di,versos para o celeste.
Hora estou sonolenta, hora estou atenta
À formação dos desenhos que o vento risca.
 
Leio palavras invisíveis por detrás das imagens
Eu choro, eu sorrio, eu extasio
Por tanta beleza vista...
Neste mundo teu, meu amor, sou estrangeira
Sem ser da vida, turista.
 

(Adelaide N.)

Alberto Lins Caldas
*
● o vencedor leva tudo ●
● o corpo a historia do corpo ●
● a casa os cães e os peixes ●

● o vencedor leva bem mais ●
● nem bem o rosto e a mortalha ●
● nem mesmo o rio e os risos ●

● o vencedor leva as palavras ●
● todos os signos e sentidos ●
● leva as telas e muitos livros ●

● o vencedor mata a geografia ●
● queima todas as imagens ●
● deforma a musica e o mar ●

● o vencedor não deixa ●
● nem os dentes nem as pernas ●
● nem os olhos nem o sexo ●

● o vencedor leva a alegria ●
● deixa a loucura o vinho doce ●
● o sonhado q não foi vivido ●

 

CARTINHA A DEUS



Eu mandei a Deus uma cartinha
E terminei: “Essa é a vontade minha.”
A SUA resposta foi de arrasar,
até hoje me causa falta de ar.

Seu estilo doce, simples e direto,
fez meu coração bater cataléptico.
Em resumo, não podia me atender.
Em maiúsculas, li: NÃO PODE SER!

Juntei as mãos e rezei resoluto:
“Mas, senhor... eu... em absoluto...”
Vinda do céu SUA voz parecia soar além:
- POR ENQUANTO VOCÊ FICA SEM.

“Como assim? Esse é o meu fim?”
- AO ESCREVER NÃO USE TERMO CHINFRIM,
NÃO SOU DE ERRAR O ENDEREÇO!
“Era só o que me faltava, eu mereço!”

- FALE QUE NEM GENTE, Ô, ANIMAL!
POR SER DEUS É QUE NÃO LHE DEI O AVAL.
“Mas, Senhor, tenho que LHE contar,
o SEU mundinho está para acabar.”

Nem sei o que ELE quis dizer
quando disse que não fiz por merecer.
O espesso silêncio que veio a seguir
tirou-me o desejo de prosseguir.

Rezei um Pai Nosso, dois, três, mil,
ELE só desceu quando meu sangue subiu.
O rosário todo virou batata quente,
não lembro o que pensei exatamente.

Tirei então um sim da cartola.
Mas Deus: - VÊ SE NÃO ME AMOLA!
“Senhor, pare com essa criancice!
Não é demais tanta esquisitice?”

Como nunca me viu mais gordo,
sentou-SE completamente absorto.
Meu coração batia bem, mas apanhava muito,
mesmo assim aconcheguei-me junto.

Nesse momento, me disse sorrindo:
- AS ESTRELAS AINDA NÃO ESTÃO CAINDO.
E me abraçou como minha mãe abraça.
Eu, no fundo, achei aquilo uma graça.

“Quando sonho, sonho ser VOCÊ!”
Sussurrei-LHE sem saber o porquê.
- E QUANDO ACORDA LEMBRA AINDA
OU ESQUECE QUE A VIDA É BEM-VINDA?

Quedei-me em transe mediúnico,
mas sabia que não era o único.
As desculpas que eu ia inventar
não me deixaram vê-LO levitar.

E foi quando me vi sozinho e triste,
que aprendi: Deus é tudo que me existe.
Ao levantar a cabeça, me vi feliz e, rindo,
lá fui eu como se só ELE estivesse indo!


antonio thadeu wojciechowski

para esquecer o poema

Jussara Salazar

para esquecer o poema
às 5
enquanto lavo o rosto
e visto o casaco
e o século acaba
sem avelas acesas
sigo o cortejo
pés descalços
oh jardins destruídos
cadeiras ensolaradas
caminho pela cidade
entre os desastres de tua guerra
e o último raio de luz



eu trago o coração em água fria."

("fragmento", romério rômulo)

fragmento

quando chega a vida
eu me arrasto."


( romério rômulo)

Espreitar...



Espreitar...
sentir que arestas e frestas,
podem desvendar,
tudo o que se tem pra buscar...
criar, redesenhar, inventar...

No olhar de soslaio,
todo uma vontade imensa
não de criar sentenças,
mas de se libertar.
Um comportament0 silencioso.
prudente, sorrateiro,
que por vezes diferencia o homem esquálido e comum,
de um homem que se faz grande guerreiro.

Espreitar...
porém, sem invadir privacidades.
Sem criar e nem fervilhar alardes.
Na verdade,
um querer maior de aprender.
Uma razão maciça e lasciva do ser,
que não abdica nunca de se saber.
Que não se deixa cair, desanimar.
Que amalgama-se e abarca sempre
a vontade de viver, renascer, poder voar...


josemir (aolongo...)

Da Questão Política



O coletivo passou
e, me queimou
na parada.


Valmir Jordão

fragmento

em ti, tudo montanha. cogumelos
os meus portais há tanto decaídos
umas ribaltas de mistérios, tidos
numa trombada de ossos e martelos."


(romério rômulo)

POSSE DE PASSARINHO

POSSE DE PASSARINHO

Um passarinho cruzou o meu caminho
Cantou tão docemente aos meus ouvidos
Que parei para escutá-lo
Ele parou também

Para o meu espanto
Voou para mais perto
E cantou um canto ainda mais belo
Apenas: Posso?

E pousou em meus cabelos
Fez um ninho em minha cabeça
Fez ali a sua morada, e hoje
Deita, canta, ama, dança, e rola solto

Em meus pensamentos
Não me deixa só
Como se adivinhasse que preciso dele
E que eu não posso mais
Viver sem ele.


(Adelaide N.)

Enquanto cantas...



Enquanto cantas,
o entorno se purifica.
O que se fêz imperceptível,
acresce-se, e agira marca e fica,
ganhando identidade...

Enquanto cantas,
o silencio reina encantado.
Olhares no recinto ficam alumbrados,
e apaixonados,
deixam-se levar pelo timbre mágico,
de tão maviosa voz.

Enquanto cantas,
destróis lamúrias, amarguras,
e constróis outras trilhas...
te fazes maravilha,
e cruzas as ruas nuas e escuras,
apenas com o ressonar de teu canto.
Curas...
refazes as procuras,
e viabiliza fascinantes encontros.
Enquanto cantas,
tu és o cintilante conto,
que sai da argentada fantasia
e assume o dia,
onde muitos corações renascem.


josemir(aolongo...)

Mátemgenteboa ainda!

De Mara Paulina Arruda



Passou pela frente de casa o Seu Paulo. Véio gordo, com todo o respeito,bonito e corado chegava da cooperalfa. Tava faceiro. Tempo de boa safra. Vendeu as sacas de soja bem vendidas. Dona Maria ao lado. Eles estavam fazendo uma caminhada diária. Era preciso. Receita de médico!

Agora, junto da caminhada uma preocupação com o vizinho seguia o casal. O outro vizinho, do outro lado da estrada não conseguira fazer a mesma coisa.Não tivera a mesma sorte. A safra não vingou. O feijão mal deu para o próprio consumo. Isso estava preocupando-os. Sabecomoéqueé! Na natureza o que atinge o outro também pode me atingir, ele dizia.

A mulher o confortava: Ahé!Cada um tem que dar conta do seu lote! É. Ele, contrariado com as contrariedades que todo mundo tem que enfrentar. Seguia com os olhos olhando para dentro de si, procurando uma solução que pudesse apresentar para o amigo vizinho.

O farfalhar das folhas, as andorinhas planando por ali, o céu mudando de cor, o mundo seguindo independente das preocupações de um velho casal de agricultores.

Fim da caminhada. O vizinho ao longe acenou para eles.


fragmento

os cáctus infernais da poesia
só me pisam o corpo nos espinhos
ao me domar a vida em água fria.

vou me enterrar nas losnas e nos vinhos."


( romério rômulo)

Quero de volta os pretextos

Quero de volta os pretextos
para lavar as superfícies encardidas
não acredito mais no que dão por feito os outros
prefiro eu mesma laçar
usuras da imperfeição
viver dá nisso
uma certa arrogância necessária
desisto de entediar as palavras
com o gesto monótono da caneta
perco o medo dos abstratos e sigo dizendo
vida amor solidão
e catando as horas
como quem rasga papéis antigos
como quem verte um copo de groselha
na toalha branca de linho da avó


(poema de Annita Costa Malufe, poeta paulistana, jornalista e doutora em teoria literária pela Unicamp. Publicou Quando não estou por perto (2012), Como se caísse devagar, (2008); Nesta cidade e abaixo de teus olhos, (2007); Fundos para dias de chuva, (2004). Annita está na série AS MULHERES POETAS...Se quiser ler mais, clique no link http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=38287  )

Antigüidade d’onde viemos



Péricles disse que a maior virtude de uma mulher
Era ficar calada.
Péricles se fodeu.
Péricles, hoje, levaria uma surra
dada por mil mulheres como eu.

(poema de ANA ELISA RIBEIRO, poeta mineira e doutora em linguística aplicada. Publicou Poesinha (1997) e Perversa (2002), além de minicontos e poemas em revistas e jornais, no Brasil e em Portugal. ANA ELISA está na série AS MULHERES POETAS...Se quiser ler mais, clique no link
http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=38287

O que em nós mora e se estabelece...



Ninguém se estabelece,
maneira profunda,
numa posição una.
O deliberar de anseios.
por si só,
já traz novas estradas.
Ninguém antes do tempo, fenece.
Ninguém se farta, se abunda,
com aquilo que não se faz perspectiva rotunda.
O questionar que os receios
traz antes e após,
são descobertas buscadas.

No hoje,
o se humano alivia-se dos desenganos,
buscando algo de concreto em seus sonhos.
Protege-se,
quando o que dele se acerca são erráticos enganos...
recua, quando os rostos por demais risonhos,
falseiam...

Poesia é fonte de liberação
das energias retesas no coração.
Versos e rimas, -entre outras coisas -
são o retratos colhidos pelo o que a gente sente
e fica retido em nossa visão...


josemir(aolongo...)

ESPELHO


Dentro do armário
do seu quarto de dormir
deve haver um espelho.
Se você sai
e deixa o armário aberto
durante todo o dia
o espelho reflete
um pedaço da sua cama
desfeita.
Se você sai
e deixa a porta fechada
durante todo o dia
o espelho reflete o escuro
do seu armário de roupas,
a luz contida dos vidros
de perfume.
Do outro lado do poema
não há nada.

(poema de ANA MARTINS MARQUES, poeta mineira, doutora em literatura comparada pela UFMG.Publicou dois livros de poemas: A vida Submarina(2009) e Da Arte das Armadilhas(2011). Em 2007 e 2088 ganhou o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, como autor estreante e como poeta. ANA MARTINS MARQUES está na série AS MULHERES POETAS...Se quiser ler mais, clique no link http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=38287