terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O girassol noturno


O Tempo não volta
a dor de saber-se passado
no espantoso farol
dos dias
fustiga
e comprime
os espaços
da dor de saber-se passado

Os sonhos que evolaram
por mim
em olhos de desespero
voaram longe
dos caminhos atiçados
na memória

Revi a velha casa
de banheiro verde
onde minha avó
guardava os sapatos
de seus passos
estancados
em aleluia

O quarto
onde sozinha
rezava
as ilusões
de seus
desejos
impossíveis

Vi minha avó
chorando
em sua prece
ardorosa
pedindo
a Deus
do celeste
a paz
dos tormentos

Estava ali
nas noites
nas estrelas
semeadas
pelo manto
dos céus

- eu a observava
ela não me via
em lágrimas
eu me desfazia
gritava
e ela não ouvia

Vovó,
o Tempo não volta
seu predicado é sentencioso
a caligrafia mais explosiva
das naturezas
do intransponível


(trecho do poema de Diego Mendes de Souza, poeta piauiense, jovem, de inegável talento. Diego tem 24 anos e já publicou Divagações (2006), Metafísica do Encanto (2008), com o qual recebeu Prêmio Nacional de Poesia da UBE-RJ, 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor (2011), Fogo de Alabastro (2011) e Candelabro de Álamo(2012). E já arrancou elogios de Ivan Junqueira, Astrid Cabral, Raquel Naveira e outros.)

Paranaguá



- mini-conto : há ogros por toda parte ...

- eu vejo ogros.
- com que frequência?
- o tempo todo...


Adriana Zaparolli
 [Hoje não tem crônica confessional, não lamentarei a mulher que não me ama, não vou reclamar do meu time porque irei responder tardiamente Xico Sá sobre qual seria meu jornal de notícias dos sonhos.]
A crônica do Cenas Urbanas, do Zanella, de hoje:


Paranaguá




[Escrever crônicas é o ato de reescrever o mesmo texto sob diversas óticas, a sina de viajar sem sair do lugar.
Na minha vida afetiva, sempre que tive de falar, fui ainda pior, sumindo da vida de algumas mulheres de maneira pouco ortodoxa, fugindo de amigos ao primeiro sinal de fumaça, gaguejando em braços a incomunicação que me transpassa desde que escrevi a primeira carta.
Quarta-feira foi meu último dia de aula na universidade e ainda busco alguma ressonância que diga para onde vou e se pararei de abrir estradas que levam a nada.
Fiquei dez dias sem escrever, apenas afogando-me de meu passado. Busquei não pensar muito na falta que sentirei de algumas pessoas que me marcaram muito nestes últimos quatro anos porque tenho medo de ser em corpo o relógio parado da estação de O Curioso Caso de Benjamin Button.
De algum modo arbitrário, a volta do Cenas Urbanas hoje, após dez dias, é o percurso comum de meus passos - amores e cachaça - , mas também uma nova demarcação da sombra incógnita do que vi - podem acreditar em mim - e do que virá.]

 by Daniel Zanella

[Curitiba digere aquele que nela se perde] ou [É a Urbe que Invisibiliza?]


Geração Canguru



A geração canguru é honesta e inteligente,
Porque ainda não saiu da casa dos pais
Ela sabe que é preciso estudar atenciosamente
Para no futuro, encontrar a mais doce paz!
                                  
A geração canguru desconfia da sorte
Pois, sabe que é preciso economizar
Como o aluguel está pela hora da morte
Ela permanece no seu antigo lar!

A geração canguru sabe que casamento
É uma instituição que não vale a pena investir
Porque só causa prejuízo e sofrimento
Onde não há remédio e nem elixir!

O fato de um ser com quarenta anos
Na casa dos pais, ter seu próprio mundo
Não significa que ele não tenha planos
E muito menos que seja vagabundo!

O problema é que os preconceituosos
Acham que uma mulher madura,
Que mora com seus pais zelosos,
Não presta e nem sequer é pura!

Geralmente, estes preconceituosos têm a vida ruim
São mal casados e tem os filhos rebeldes, sim!
Então, por recalque, falam mal dos solteiros
Que são sinceros, esforçados e verdadeiros!

Uma donzela solteira respeita os idosos
Por isto permanece na casa dos pais caridosos
Para cuidar destes anciões que um dia lhe deram a vida
Esta mulher madura e solteira é uma margarida...

Pois, seu espírito é repleto de sentimento
Da mais pura gratidão com o reconhecimento!
A geração canguru é uma equipe que trabalha
Só um invejoso, com ela, gralha e ralha.

Luciana do Rocio Mallon

Pessoas Que Só Ajeitam a Casa no Final do Ano



Há pessoas que só arrumam a casa no final do ano
E aproveitam para limpar o que há debaixo do pano
A casa fica imunda durante o ano inteiro
Mas, é arrumada em dezembro verdadeiro!
                            
Porém, o Papai Noel
Olha tudo do céu
E sabe quem limpa a casa todos os dias
Com força de vontade e mil harmonias!

Quem só arruma a casa no final
É uma triste e depressiva criatura
Pois, não sabe que todo o dia é especial
Podendo ser celebrado com ternura!

Em janeiro, alguém arrebenta a janela
Deixando um buraco para o ar
Penetrando no espírito da donzela
Que tem medo de amar!

Em fevereiro um vândalo que merece um murro
Picha o tão caprichado e pintado muro!
Em março, crescem ervas daninhas no jardim
Que acabam com a rosa, a margarida e o jasmim!

Em abril, mês da Páscoa e do coelho
Jogam pedra no telhado vermelho!
Em maio, as grades ficam enferrujadas
Em junho, lâmpadas ficam queimadas!

Em julho, o taco fica fosco e solto
Em agosto, no porão há um gato morto!
Em setembro, os azulejos estão cheios de gordura
Em outubro, a calçada mostra que a vida é dura!

Em novembro existe teia de areia até na garagem
Mas, em dezembro a limpeza vem com toda voltagem!
Porém, o Papai Noel
Olha tudo do céu

E sabe quem limpa a casa todos os dias
Com força de vontade e mil harmonias.

Luciana do Rocio Mallon

Troque Sua Árvore de Natal Por um Presépio


      
Troque sua árvore de Natal
Por um presépio com Jesus
Pois seu nascimento foi real
E ele morreu por nós na cruz!
                                 
A árvore natalina e seus presentes
Do consumismo formam um templo
Eles só deixam os comerciantes contentes
Enquanto o real sentido voa pelo vento!
                                  
O humilde São Francisco de Assis
Foi um ser iluminado, inteligente e feliz
Ao montar o primeiro presépio de Natal
De um jeito puro, honesto e natural!

Troque uma árvore natalina
Por um presépio verdadeiro
Assim, o menino e a menina
Aprendem, no Natal, seu significado verdadeiro!

Esta é uma solução incrível
Mas, se isto não for possível
Coloque o presépio ao lado da árvore colorida
Pois, não devemos alimentar a ganância atrevida.

Luciana do Rocio Mallon

Paranaguá


Lenda da Pedra “Virgin Again”



Na antiga Arábia existia um casal endividado, que tinha uma linda filha chamada Missad. Um certo dia, um sultão viu a moça e disse ao seu pai:
- Se a sua filha for donzela, eu gostaria de trocá-la por um baú cheio de jóias.
- Mas, ela precisa ser virgem porque se não for, eu volto aqui e decapito a sua cabeça com a espada.
A jovem ao ouvir isto ficou assustada, pois sabia que seus pais estavam passando necessidade. Porém, o problema é que ela não era mais donzela. Para resolver esta situação, Missad procurou uma sacerdotisa egípcia, que estava visitando o local, e comentou sobre a sua situação. Assim, a amiga deu-lhe uma pedra e explicou-lhe:
- Esta é uma pedra-pomes, também, conhecida como pedra-humes que é mágica. Pois, se você lavar suas partes íntimas com ela, voltará a ser virgem.
 O tão esperado dia chegou e Missad foi trocada por um baú de jóias e, no primeiro encontro, com o sultão ela seguiu as instruções da sacerdotisa. Desta maneira, deu tudo certo. Porém, naquela noite esta mulher teve o seguinte sonho:
Uma jovem apareceu e falou:                                
- Meu nome é Jamile e fui uma adolescente que não teve a mesma sorte sua. Pois, me casei sem ser virgem e meu marido descobriu isto na primeira noite. Assim fui apedrejada em praça pública. Se eu tivesse descoberto a pedra-humes como você conseguiu, hoje, eu estaria viva. Por favor, acenda uma vela para que sua alma continue tendo sorte.
No dia seguinte, Missad  seguiu as orientações de Jamile e sua vida tornou-se muito próspera.
Em 2011, Isa era uma jovem criada em uma religião muito rígida, onde se deve casar virgem e os pais tem o direito de escolher os noivos das filhas. O problema é que Isa tinha uma vida dupla. De dia ela era recatada e freqüentava o templo. Mas, de noite, ela dopava os pais para freqüentar baladas e surubas.
Até que um dia, conforme a tradição, foi marcado o noivado de Isa com um homem desconhecido. Como esta jovem não era mais donzela, ela procurou na Internet uma solução prática que fizesse a pobre tornar-se virgem de novo. Até que esta mulher achou um site que vendia uma pedra com a marca Virgin Again. Isa comprou o produto e usou conforme as instruções da bula. Assim, seu marido foi enganado na primeira noite. Porém, naquela mesma madrugada, ela teve o seguinte pesadelo:
Uma moça apareceu e falou:                                  
- Meu nome é Jamile e fui uma jovem que não teve a mesma sorte sua. Pois, me casei sem ser virgem e meu marido descobriu isto na primeira noite. Assim fui apedrejada em praça pública. Se eu tivesse descoberto a pedra-humes como você conseguiu, hoje, eu estaria viva. Por favor, acenda uma vela para minha alma para que seu espírito continue tendo sorte.
Mas, Isa acordou e pensou:                      
- Não acenderei vela nenhuma para fantasma que nunca vi na vida e que apareceu no meu sonho.
Quando o dia clareou, seu marido entrou na Internet, abriu o correio eletrônico e viu um vídeo onde a esposa aparecia numa orgia com várias pessoas. Assim, este homem mostrou o e-mail para Isa, que chorou e se jogou do prédio onde morava.

Luciana do Rocio Mallon

Lenda do Capão da Imbuia


Há muitos anos, onde hoje é a região de Curitiba, existia uma índia chamada Imbuia, que morava numa oca com sua mãe, Juruá, e seu pai, Cauã. Um certo dia, seu pai morreu numa batalha com uma outra tribo indígena inimiga.
Juruá, ainda bonita e jovem, costumava lavar-se numa cachoeira. Um certo dia, esta mulher estava tomando banho, neste lugar, quando de repente, avistou um homem loiro, com chapéu enfeitado com chifres, roupas de peles animais e botas de couro. A índia perguntou:
- Quem é você?         
- Será que é uma criatura enviada por Tupã?
O rapaz respondeu:
- Eu sou um viking. Vários grupos do meu povo estão explorando a sua terra.
- Sou filho de uma maga e ela previu que os vikings não serão vistos como os verdadeiros descobridores deste lugar e que este título será dado a um certo povo de um lugar chamado Península Ibérica. Porém nós, os bárbaros, deixaremos muitos vestígios aqui. Como exemplos: mensagens nas pedras.
Após esta conversa, Juruá se apaixonou pelo branco e levou este estranho para sua tribo.
Imbuia nunca aceitou a nova união de sua mãe. Pois, notava que o padrasto a olhava de uma forma estranha. Um certo dia, a indiazinha foi colher frutas na floresta. Mas, o viking seguiu a pobre. Então, este homem tentou se aproveitar da garota, que acabou matando o padrasto batendo com um pedaço de madeira em sua cabeça. Mas, naquele mesmo instante, uma cobra venenosa picou esta menina que acabou falecendo.
Quando a garota chegou ao céu, São Pedro disse:
- Não posso deixá-la entrar no Paraíso. Pois, o castigo de quem mata o pai é voltar para a Terra, virar corpo-seco e morar dentro de uma árvore.
Imbuia explicou:
- Mas, eu não assassinei o meu pai.
- Eu matei foi o meu padrasto em legítima defesa.
Um anjo, que estava assistindo a cena, comentou com o guardião do céu:
- Neste caso, acho que seria justo abrir uma exceção para a menina.
- Eu sei que existem santas, na categoria das compadecidas, que podem julgar este tipo de situação.
São Pedro explicou:
- Infelizmente, não há nenhuma compadecida para julgar este tipo de situação, por enquanto.
Desta maneira, Imbuia foi até o inferno e o Diabo falou:
- Não aceitamos quem mata os pais no Inferno, e, nem no purgatório. Portanto, você deverá voltar para a terra e virar corpo-seco.
Desta maneira, Imbuia virou corpo-seco, começou a chorar e caminhar pela sua região de origem. De repente, suas lágrimas viraram sementes, que se transformaram em árvores sem nenhuma explicação normal.
Quando esta índia parou em frente a sua oca, nasceram raízes do seu corpo, que fincaram no solo e, assim, esta garota virou uma árvore chamada Imbuia. Porém, por causa das gotas de lágrimas que viraram sementes, várias árvores com este nome surgiram naquela região.
Alguns séculos depois, novamente, a alma de Imbuia tentou entrar no céu. Então, São Pedro explicou:
- Agora, temos uma santa compadecida que pode interceder a seu favor. O nome dela é Maria Goretti e ela sofreu a mesma violência que tentaram fazer em você.
Assim, a santa fez com que a índia entrasse no paraíso. Mesmo assim, a nativa saia para passear na Terra e visitar a sua árvore, de vez em quando.
O tempo passou e em 1975 foi inaugurado o bairro chamado Capão da Imbuia, na cidade de Curitiba. Agora, onde era a antiga tribo indígena localiza-se o Museu de História Natural e ao lado, dele, há a Imbuia mais antiga da região, que reza a lenda foi uma índia que matou, em legítima defesa, um dos vikings, que foram os primeiros exploradores brancos a entrarem no Brasil muito bem antes dos portugueses.
Reza a lenda que no Capão da Imbuia há uma pedra milenar com escritos de vikings.

Luciana do Rocio Mallon

domingo, 1 de dezembro de 2013

Paris 1951
Se, segundo Sigmund Freud, foi um golpe de marketing o egípcio Moisés ter se tornado hebreu de nascimento, como não pensar o mesmo da primogenitura entre Caim e Abel?

Ou seja, Abel é o Neanderthal, Caim é o Duplo Sapiens e não o inverso. Depois de matar, o Duplo Sapiens tornou-se temente ao predador e organizou leis jurídicas, porque Caim ainda vive dentro de cada Duplo Sapiens.

O adversiábolos há sido para sempre o ambiente, ao qual por orgulho civilizatório, somos impedidos de aceitar ser impossível domá-lo, sem ferir-nos.

Até que a espécie mature para perceber que É coroado com a coroa, o Cristo, quando de Lúcifer a humildade conquista.



Ricardo Pozzo

Bad Water

 
Kenmair Fair.Condado de Kerry. Irlanda.Agosto de 1982

Para não dizer adeus

Maturidade
Caminho entre as minhas perdas
que são insetos escuros,
e os meus ganhos: douradas borboletas.

A luz de uma paixão, o dedo da morte,
o grave pincel da solidão
desenharam meus contornos, firmaram
meu chão.

Que liberdade, não precisar pensar;
que alívio não ter de administrar
minha vida:
apenas andar, e olhar,
apenas ouvir essas vozes
que vêm de longe, passam por mim
e não me dão importância.

Porque no vasto oceano,
a minha eventual desarmonia
é só uma gota
desafinada.
Mais nada.


- Lya Luft, em "Para não dizer adeus", 2005.
"Esconder-se no porão, de vez em quando, é necessidade vital. Precisamos de silêncio e solidão, e, não, apenas os poetas. Senão, corremos o perigo de nos esvairmos em som, fúria e esterilidade. O campo para que a palavra se instale para o autor e para o leitor é o campo do silêncio e da audição."


- Adélia Prado

Catadores de algodão.Penitenciária de Huntsville.Estado do Texas.1968

Prisão fazenda de Ferguson para  infratores até 21 anos.

Falência múltipla



Quem ama não descansa, não pede um “tempo”, não discute relação...
Quem ama vive grudado, sempre ao lado do seu amor,
Quem ama pede desculpa, abraça e beija até o pé. Pura ternura.
Quem ama de verdade não esconde, declara... Rasga o peito Romeu!

Quem ama é doente, um vicio inocente, estado febril...
Quem ama se mata, se rasteja, se desgasta até queimar todo o pavio.
Quem ama não espera, realiza. Vai à luta! Quebra a cara, levanta e busca a vitória.
Quem ama tem nos olhos queimando a chama da vida e sua luz rompe toda a escuridão.


Marcelo Reis

 
Dizem que Julia Wanderley (Ponta Grossa 1874 — Curitiba, 1918),
era muito corajosa. Em tempos que não deixavam moças lecionar, ela ia de facão dar aula aos pequenos.
Deixava a arma na gaveta de sua mesa.

Vidência e Acaso

Tu que estás separado
de ti mesmo pelos Acasos

na Vidência encontrarás
tua parte rejeitada,de

roupa lavada, de corpo
aquecido e fome alertada.

Maria Carpi
trecho de versos do livro Vidência e Acaso.Editora HCE . RS. 2013.
A fofoca ali pela Santos Andrade é de que aqueles indios bolivianos fizeram tanta dança da chuva, que não para mais de chover.
A foto é de arquivo, mas inédita.
Daquele dia que enfeitaram ele, o Barão.

Não passei mais por lá.

Tristeza Revolucionária

Tristeza é quando está calor
demais.
Quando os analgésicos
acabaram
E os olhos pesados vagaram.

É quando a voz sai rouca e
fraca
Quando não se acha graça
Quando parece que começa
e nunca acaba.

Tristeza é o que move o
mundo.
Uma pessoa feliz não quer
mudar tudo.
Agora um triste convicto é
capaz
de mais eternas revoluções.

J.Rowstock

Washington Square, New York, 1959.



Romancero gitano

"Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
nascem com o peixe de sombra
que rasga o caminho da alva.
A figueira raspa o vento
a lixá-lo com as ramas,
e o monte, gato selvagem,
eriça as piteiras ásperas."

- Federico García Lorca in "Romancero gitano", - Editorial moderna, 1935.

Procissão .Budapest.1934


A defesa do poeta

Natália Correia

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.


Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Editora Nova Aguilar, 1999 - RJ, Brasil

Da língua portuguesa

Pittsburgh, Pennsylvania, 1940




Há um silêncio de canto de galo, antes do canto. Os chapéus enfileirados clamam, na parede, para sair a passear. O teclado reclama seu poema novo para inaugurar por escrito, seu domingo. Se saio ou fico, não sei... Mas que escrevo, escrevo. Bom dia meus queridos leitores, parentes e amigos de tantos cantos.

Glória Kirinus

July 1905, Zissou as a Ghost, Villa ‘Les Marronniers’, Châtel-Guyon.


DIZENDO O FOGO..

.
(...) e il naufragar m' è dolce in questo mare.

(Leopardi)

Num oceano de luz, de brilho ardente
Envolto em turbilhão meu corpo em brasas,
Meu vôo audaz de pássaro sem asas
É seta que fustiga o alvo em chamas...

Para o sol me arremesso, trepidante,
Com alvíssaras de um novo Paraíso,
Meu vôo é expectativa de alvorada,
Meu canto, o amanhã, que eu já soletro.

Este oceano de luz me chama e atrai
E me incita à imersão nas labaredas
Desta selva vivaz, incandescente.

Este oceano me açula, em desafio,
Em repto de flamas sedutoras.
E me é doce imergir num mar de chamas....


Antônio Lázaro De Almeida Prado
Ciclo das Chamas e outros poemas

Saindo da igreja em Rasinari,Romênia.1967


OUSADIA




Ousa o sonho
Alça o vôo
Olha as estrelas
Sopra forte
Sobe o tom
Rompe as amarras.
Acrescenta
Ambição
Aos teus projetos.
Ousa mais,
Incapaz
De andar rasteiro.
Sobe mais
Que és capaz
De alto vôo...


Antônio Lázaro De Almeida Prado

Veneza .Itália 1949


ENTRE A ESSÊNCIA E OS ESPINHOS



Para muitas questões, procuro as respostas nas escritas da vida, pois nelas encontro as fantasias, me cubro com os recíprocos sonhos, exponho minhas fraquezas e minhas forças para encarar essa realidade nua e crua, onde encontro toda essência do viver, mas que as vezes sangro com os seus espinhos, sigo a caminhada sem medo do fim da estrada, pois já trilhei com as duvidas e um olhar ateu, onde por mais que estivesse no cume de um horizonte, não encontrava nenhuma luz para aprender a descer, o orgulho tomou posse do perdão, erros e acertos perdia o equilíbrio, e assim a razão se refugiou bem longe do meu ser, e as emoções sobressaía entre risos e lágrimas, pois nesses momentos todo entusiasmo passa na velocidade da luz matando as rosas do jardim de minha vida, deixando vivo os seus espinhos penetrado pelas quimeras da solidão, e mesmo com todas essas adversidades aprendi a romper esses limites, entre versos e prosas vou constituindo essa extensa vereda, seja na tristeza ou na alegria vou me completando em cada poesia....


JAIR LISBOA

mote para dezembro, 1

Lúcido sonho
eu deixo a casa vazia
meus cavalos d'além mar
um caravaggio nos ossos
um maradona no olhar
um goya feito do avesso
meu corpo sem endereço

se dezembro me matar."


 romério rômulo

Όλυμπος, καταυλισμός κτηνοτροφών, 1914.

NO PRINCÍPIO...



No início, o canto
(Modulado e lento)
Para meu alento
Para teu encanto.

Para sempre, a vida,
(Mágico acalanto)
Com surpresa e encanto
De flor renascida.

Por agora, a via,
Sempre antiga e nova,
Ao sol (que a renova)
E desperta o dia.

E, ao fim, o canto
Anunciando a aurora
Provocando (agora)
Saudável quebranto...



Antônio Lázaro De Almeida Prado

Refugees from an Earthquake, Zante, Greece, 1953.


O antônimo da bonança II


(ter parafusos a menos é problema; o coração fica cheio de buracos. não há pedreiros para consertá-los. não temos tempo para arrumar a estrutura; nosso lar nos consome)

na sala de espera da terapia
a perna balança inquietamente
o relógio quebra o silêncio
entre a atendente do consultório
e os pacientes
impessoais
separados
lunáticos

- louco tem dessa
de querer viver a loucura a sete chaves
dançar em conjunto ao som da própria loucura
quando não namora com o mundo
e inventa um nome para cada amor
paixão
do cotidiano

espero por minha vez
e todos em mesma situação
(lugares certamente posicionados
distantes)

um outro entra correndo
não bate à porta do psicólogo
sem ensaios
chora
grita
esperneia
quebra a porta
interrompe a outra sessão

- cadê a minha cura, doutor? está doendo pra caralho!

ele passou por mim
roubou a minha vez
fechou a porta em minha cara
enquanto eu
sentada
também esperava pela cura
a minha cura

os outros
à espera
balbuciam

: que louco mal-educado!

- e existe louco educado?
eu gosto mesmo é da loucura exalada
aquela mesma
já dita
que nos faz sair no prejuízo ao final do mês

todos os loucos
na sala de espera
bravos
por um
mais louco
ter quebrado a porta primeiro

eles gritavam
em silêncio

- somos loucos!
- eu sou louco.
- eu sou mais louco do que você! a cura deve ser dada a mim primeiro.

- louco egoísta
tem de monte
mas
quando
na camisa de força
chora
por não conseguir se soltar
sozinho
arrepende-se

e eu ainda estava lá
com a minha dor
esperando o outro louco voltar ao mundo real
para conseguir a minha cura

- não explodi
porque a liberdade estava me fazendo passar fome.


Thays Carolina ferreira