terça-feira, 4 de março de 2014

Tókio


Dona-de-Casa Dedicada Em Feriado de Carnaval


Uma dona-de-casa dedicada
Que precisa trabalhar fora
Leva a vida agitada e atribulada
Valorizando o aqui e o agora!
                         
Nos feriados, ela não tem tempo para viagem
Porque precisa cuidar da casa com primor
Valorizando o quintal e o resto da paisagem
Com esforço, paixão, zelo e amor!

No feriado de Carnaval
Ela não pode descansar
Precisa varrer o quintal
E a casa inteira limpar!

Já ao entardecer de sexta feira
A dona-de-casa chega do trabalho
Prepara a janta e separa toda sujeira
Ela tem que ser forte como carvalho!

Para esta missão, a forte dona-de-casa
Veste a fantasia de deusa da fortaleza
Colocando os filhos debaixo da asa
Para fazer da casa o reflexo da beleza

No sábado, ela tem que lavar
Todas as calçadas e polir a prataria
Que depois brilham á luz do luar
Tecendo a mais linda fantasia!

Para esta tarefa importante
Ela se veste de Mãe-da-água
Numa fantasia leve e elegante
Que tira qualquer mágoa!

No domingo, ela limpa os vidros transparentes
Que estavam cobertos por penugens e poeiras
Assim, o raio de Sol penetra tão inocente
Sem ficar fosco por nebulosas sujeiras

Assim a dona-de-casa veste a fantasia
Da fada encantada de cristal
Revivendo a mais leve poesia
De um antigo e velho Carnaval!

Na segunda-feira ela tem o dia inteiro
Para fazer a faxina e desinfetar o banheiro!
Por isto, ela veste a roupa de guerreira
Preparando-se para a tarefa de terça-feira

Que é lavar as roupas no tanque de guerra
Deixando cada uma com perfume de primavera!
Então, a dona-de-casa se veste de flor
Pendurando as peças no varal do ardor!

Na séria quarta-feira de cinzas
Ela volta a trabalhar fora
Sem fantasias ranzinzas
Ela ajeita a casa e vai embora!

Para uma dona-de-casa de verdade
Não existe feriado e nem viagem
Ela sabe que o lar precisa de amizade
Limpando a casa e o resto da paisagem
Pois, Carnaval é apenas uma miragem.

Luciana do Rocio Mallon
'' Se voce está triste, aqui está meu ombro,
ele é magrinho , mas o dono dele tem um coração gigante;
Se voce for falar de Deus,
iremos conversar durante horas;
Se for falar de sexo;
quero estar perto - eu falo muito , e faço pouco;
Se for tomar cachaça, traga um gole pra mim,
tenho um pé na África, e por conta disso - adoro uma branquinha;
Se for usar drogas, saia de perto de mim;
tenho cara de ''nóia'', mas abomino esse tipo de coisa ;
Se for pedalar agora, não me chame;
faço isso a semana inteira e agora eu prefiro gastar minha pouca energia em algo mais sacana , se é que me entende...
Se for pra alguma balada, pode ser a mais vagabunda que voce já viu;
me leva junto, pois quero rir muito com voce.
Se vai ouvir música brega, me avisa;

eu sei tudo delas. "
Valmir Azevedo 

O Cronista é um Poeta-Jornalista


       
O cronista é um poeta-jornalista
Nada ele consegue perder de vista
Uma parte dele é repórter na realidade,
Sempre atrás de uma real curiosidade,

Mas, não de uma notícia crua e dura
Pois ele tem uma alma cheia de ternura!
Com seu espírito sensível de poeta
Ele da á vida ao seu lado profeta!

O cronista tem um radar,
Uma esperta e forte antena,
Que capta e absorve tudo pelo ar
Inspirando um dinâmico poema!

Mas, toda esta troca de energia
Acaba virando uma suave prosa!
A crônica sempre abraça a poesia
De uma forma maravilhosa!

O cronista é um poeta-jornalista
Ele relata tudo ao seu redor
Com sua alma criativa de artista
Transforma em texto o seu suor.

Luciana do Rocio Mallon

Tokio


Adorei! Quem fala espanhol é um poliglota natural. E quem ensina espanhol é um mestre de aspirantes a poliglotas. Com o português não é diferente. Quando aprendi que mandioca era mandioca, descobri que devo pedir na feira por "mandioquinha", assim, carinhosamente. Mas nem mandioca e nem mandioquinha, num descuido meu, ela vira aipim. Pior ainda, meia volta, volta e meia virou macaxeira...E no restaurante, quando apontei para um prato delicioso com mandioca, mandioquinha, macaxeira e aipim, o garçom sorrindo fez a inoportuna e infeliz correção: Ah, a senhora quer "vaca atolada"? Faminta, saí do restaurante sem comer nada. Ainda respeito os animais...Principalmente, os atolados que correm perigo. Hora do almoço e a fome reclama aquele prato que deixei de experimentar. Um dia ainda aprendo a ser brasileira e a não me espantar com certas expressões que só o português tem.
Glória Kirinus

segunda-feira, 3 de março de 2014

Vitelinho



Uma mulher caminha para um canto de uma loja e deita um pacote de papelão, destes de pão.
Será oferta de algum alimento para esses panos de carne viva e sangrando desesperanças? Um momento de alívio ao sofrimento tão banal ,que clama nas vísceras. Fome primal  de viver... não de esperar a morte bater sem tanta dor e haja a "maldita" ou o pó do capeta. Que desdita...
Não, ela está lá, furtiva...vergonha por ser cristã caridosa? Alimentando mendigos...esses trapos imundos que a alta burguesia quer varrer para longe, construir muros, cobrar pedágio e até pagar para vê-los em outro zoológico de horrores.
Ela não, está ali, vês ?
Não! Não é pão ou resto de comida. É um bebê recém-nascido.
Largou. Saiu. Em meio ao sangue chorava rubro mas fraquinho.
Uma cadela sem pedigree chegou, cheirou, lambeu limpando o sangue e, enrodilhada ao pacotinho humano, aqueceu-o uivando baixinho, até ser chutada e, quanto ao vitelinho, o mendigo levou para algum lugar...


Wilson Roberto Nogueira


A vovozinha SuIen, com pano na cabeça e avental amarrado à cintura, a cortar a carninha para a netinha, e Su-Lin, a pequenina pequinesa - comensais da mesma tigela trincada. No ano novo Su-Lin foi para o prato e a netinha - pro mercado ver se levantava, com suas lágrimas, alguma gotas de oiro para a querida vovó na calçada da esquina da Adaga Cega - onde conseguiu enfim, ótimo preço!

Wilson Roberto Nogueira




II)O sonho da sombra





No canto de um sótão o quadro coberto por um pano sujo.Labirinto de vidro onde gerações ; entre opacos espelhos trincados de lembranças ludibriadas pelas pinceladas da memória carregam cores de conveniência do coração ou do fígado,teias de aranha e pó como que a representar fino tecido no qual roedores se cobrem.


Da poeira dos dias se nutriam e em pó se convertiam após abrirem passagem na madeira de um velho baú, aconchegante mansão onde descobriram a mais fina cultura européia: livros; as imagens das fotos seqüestradoras da alma do tempo- a memória, a qual vorassinada até as entranhas dos novos moradores encontrou enfim ,nos pampas infindáveis do esquecimento sepultura.

Em tal continente ,onde ocultadas por sedas do passado o olho intemporal do quadro testemunhava o calor dos séculos no coração do porão ainda pulsava no sangue daquela casa : os espoucares da rebeldia na madeira que em lento prazer o sol sentia ou nas vilanias de gatos a assassinarem crias,ratos a canibalizarem filhotes na carestia.Assim eram com os Homens que lá habitaram,nas maldições silenciosas das paredes ainda que corressem crianças e  se entrelaçassem amantes.

Hoje o testemunho mudo de um crime no assassinato de uma época de luz e riqueza,onde os herdeiros de tantos cadáveres deitados pela história.O Sótão , a única parte inteira de tal intestina estória de uma aristocrática mansão da Belle Epòque.O tempo soprava o pó do que restara só a moldura dourada atrás da lâmina de cristal os elegantes abantesmas ainda se imaginam a dançar no grande salão na eterna primavera de 1914


Wilson Roberto Nogueira



Uma busca desenfreada rumo a lugar algum.Assim começa o inicio do fim.Na esperança do dia finar assassinando qualquer luz.Pulando escuridões como quem salta carniças.

Pressa...pressa e os minutos a escorrer ,pingando sangue do nariz;olhos secos.Nada dói tanto quanto o tédio.Os urros do silêncio das pastosas horas diante da caixa de vozes estéreis e imagens nulas a sugar o sumo do cérebro,fazendo brotar, verdes sinistros apodrecimentos na lente entorpecida da memória . Acorrentado à gravidade da cama,serena sepultura que chama para o sono sem sonhos ,um cálice de morte sabor de miséria e derrota.

"Cirenes soam lá fora!"

"É só a polícia."

"Tiros!"

"É só mais um assassinato".

Nada tem valor para ser guardado para quem não é ninguém.Pelo menos os vermes e as baratas discordam.Presume-se.Um prato saboroso na sepultura,madeira podre sem ser de lei.também,nunca obedecera a norma nenhuma, a nenhuma ética.Só a etílica.Bom,não precisou de formol.

(Está exposto no Museu Schadenfreudeutsch de Arte Moderna,plastificado por algum artista pós-moderno da pós-arte ou pós-qualquer coisa.O rosto e as entranhas. A propósito o ingresso custa 30 Euros,serve uma romena )

Wilson Roberto Nogueira



I )Memória do cadáver


A agulha risca o disco, corre a corrida enfarpelada, faixa por feixe enquanto a música do tempo não para. Em cada ferida endoidecida na epiderme da palavra, uma nova canção jogada fora da estrada descaminhada de alados fiapos perdidos, libertos, para onde? Fogem do faminto horizonte, horrível, multifronte a agulha amputa a melodia, sub verte o sentimento na desatinação do desalinho. Ela olha o olho do espelho, espera na luz, a menina brilhar enquanto a rádiola insiste em desafiar a agulha que risca na carreira, o mel do dia . Ela olha no olho do espelho que a lê menina nos sonhos da garoa, o vidro chora ou é a garoa lá fora? A agulha não tem nada ver com isso, risca uma nova canção. Ela não ouve mais, o coração dormiu; miou o gato e, partiu .


 Wilson Roberto Nogueira


The Poema

 L. Rafael Nolli

Era de cachos báquicos teus cabelos – entre cachos teus olhos: duas esféricas uvas em meio a tantas outras uvas: frágil película roxa, quase água – futuro vinho tinto.

Era de pétalas e caule teu tronco de petúnia e pitonisa – duas possíveis auroras rosa-pálidas brotando da profundeza de teu corpo de tempestade e nuvem e calma – feérica maçã dormindo no regato de tuas coxas.

Era de sonho e vigília tua presença – sonilóquio com os corvos de Odim, desfraldar das velas da consciência: viagem, vôo.

Era noturna tua voz, clara tuas palavras: diálogo travado entre abelhas – o mel compensando o ferrão.


*


Pego um livro e leio nas bordas outras vidas  ,
em letras ora miúdas como mexilhão no coral ,
ora  octopode  oculto na tinta de seu corpo evaporado na fuga
e me pergunto se velhos fantasmas
transaram no silêncio dos sonhos ;
outras vozes em mares revoltos ou na calmaria,
onde barcos pensam
outros destinos em outros mundos,  portos a conhecer.
Veias  em alva pele, macia ou já amarelada, não importa ;
continentes ocultos que lançam sombras luminosas
na orla da praia das sensações .
Uma simples leitura mergulha em mares profundos,
onde em cada nível, novas leituras são possíveis.
Quando o fôlego não deserta para deixar ao sol,
nosso cadáver naufrago.

O que respondo à flor dourada de pétalas prateadas
meu caule de carvalho velho curvou-se ao seu olor
Quão breve brisa soprou alento ao tronco enrugado
dores de juventude hoje não pesam na nova morada
amores de esquilos na alma inquieta
tronco  grávido de felicidade na madeira velha
a qual não se curva ante a tempestade...






A vida é um presságio
cobra ágio
da alma que nela não mergulha.
A vida é uma agulha cujo olho um lago olha.
Cega a lua vida que bebe de si o fel .
A vida é uma agulha cujo olho um lago olha.
Cega a lua vida que bebe de si o fel .

Wilson Roberto Nogueira

Alucinações In(TER)poéticas



o que é que mora em tua boca Bia?
um deus um anjo ou muitos dentes claros
como os olhos do diabo
e um a estrela como guia?

o que é que arde em tua boca Bia?
azeite sal pimenta e alho
réstias de cebola
um cheiro azedo de cozinha
tua boca é como a minha?

o que é que pulsa em tua boca Bia?
mar de eternas ondas
que covardes não navegam
rios de águas sujas
onde os peixes se apagam
ou um fogo cada vez mais Dante
como este em minha boca
de poeta delirante
nesta noite cada vez mais dia
em que acendo os meus infernos
em tua boca Bia?

Artur Gomes
http://artur-gomes.blogspot.com/

in Couro Cru & Carne Viva - 1987
gravada no CD Fulinaíma Sax Blues Poesia - 2002
eu na foto num clic de Lucia Muniz de Souza - na prainha

em Ubatuba-SP

rugas



na precariedade das quase sete décadas
os dias - um a um - e por todos esses anos
tatuaram-me à pele sem que eu resistisse
todos os registros

tenho casca deferida

*líria porto

domingo, 2 de março de 2014


Curitiba tem
Japonês no samba
Caipira com adoçante
Polaco bamba

Curitiba tem
Crente cordão
Jacaré no lago
Vina com pão

Curitiba tem
Neve no Carnaval
A Boca Maldita
O cara-de-pau

Curitiba tem
Garibaldis sem Anita
Saci branquelo

Operário sem marmita! 

Jose Fernando Nandé

entressono no bom retiro


1

é fino, frágil, de vidro
o sono no bom retiro.

do silêncio, num instante,
gritos do inferno de dante.

ao gritar que diz "acorde",
o gordo silêncio explode.

que punção nesta loucura
que à voz o sangue mistura,

na ala vizinha à borges?
(gritar sangra como um corte).

um gritar (com consoantes)
como eu nunca ouvira antes.

c´o pânico por consorte,
dos gritos a dor é o mote.

e do quarto do antivício,
como um peixe assustadiço

(pacto anônimo entre o surto
e uma crispação de susto),

meu silêncio quer o fundo,
além da mudez - no surdo.

pois que grita o homem noturno
na anteaurora em que não durmo.

pois que, às quatro, na ala ao lado,
regrita, em febre, este galo.

2

cedinho, no leito atado
com faixas (de olhos cerrados),

será assim sua manhã:
de amplectil com fenergan.

um sono de aço fundido;
não este outro (o meu), de vidro

 Rodrigo Madeira



Lenda do Lobisomem do Tarumã


       
Dona Cida é uma senhora, que mora a muitos anos no bairro Tarumã, em Curitiba. Então, ela me contou a lenda abaixo e autorizou-me a posta-la na Internet:
Reza a lenda que nos anos 60, um rapaz vindo do interior chamado Zé, bateu nas portas do Jockey Club, localizado no bairro Tarumã, para pedir emprego. Então, este moço explicou a sua situação ao gerente, que deu emprego de auxiliar de serviços gerais e um quartinho nos fundos do estabelecimento para Zé morar.
O problema foi que partir daquele momento, nas noites de Lua Cheia, de quinta para sexta-feira coisas estranhas passaram a acontecer: primeiro os moradores passaram a escutar uivos estranhos vindo do jóquei, mas pensaram que se tratava de um cachorro de grande porte.
Porém, no mês seguinte, os cachorros da região começaram a aparecer com os corpos dilacerados. Por isto, quem tinha bichos de estimação passou a prender os animais nas noites de Lua Cheia.
Já no outro mês, Lurdes, que era vizinha de dona Cida, passou maus bocados por causa do monstro. Como esta moça era uma enfermeira solteira, dependendo do horário do plantão, ás vezes, ela pegava o ônibus madrugueiro e chegava altas horas em casa. Numa madrugada de sexta-feira, Lurdes estava cortando caminho por um bosque no Tarumã, quando , de repente, sentiu que estava sendo seguida. Então quando ela olhou para trás viu um lobo gigante e passou a gritar. O bicho encostou as garras nas costas da donzela, que sangraram e ficaram marcadas. Mesmo assim, como esta dama conseguiu entrar numa rua iluminada, escapou do monstro. Porém, ao chegar a sua casa, a jovem chamou a ambulância. Porém, os médicos não souberam identificar qual tipo de animal atacou Lourdes.
No dia seguinte, Zé bateu palmas na cada de Cida, com uma aparência cansada e perguntou se esta senhora tinha um punhado de sal para emprestar. A dona-de-casa foi até a cozinha e deu o pedido ao moço, que no mesmo instante derramou todo o sal em sua boca. Deste jeito Cida pensou:
- Este rapaz só pode ser um lobisomem, pois lá no norte do Paraná dizem que um homem que pede sal, na casa da vizinha, com aparência de cansado é porque virou lobisomem na noite anterior. Afinal, a transformação consome muito sal do corpo.
No outro mês, alguns cavalos do jóquei apareceram mortos como se fossem atacados por um animal de grande porte. Então, acionaram as autoridades competentes para uma investigação. Naquele mesmo dia, Zé desapareceu e a partir daquele instante não houve mais relatos de ataques de lobisomens no bairro Tarumã.

Luciana do Rocio Mallon
Morreu em sua biblioteca em meio as fantasias atacado por uma lança. Entre as leituras dos contos fantásticos de Julio Cortazar e as poesias de Fernando Pessoa; o clássico maior de Miguel de Cervantes, do alto da prateleira deu um salto. Caiu na pagina marcada em que Dom Quixote lutava contra os moinhos, acidentalmente a lamina o atingiu, desferindo o golpe fatal .
 JDamasio


Os que têm fome e sede



Bem-aventurados os que inventam,
porque deles é o reino dos redemoinhos.

Mesmo que não se aventurem,
bem-aventurados na batalha do sonho.

Hão de chover sobre a terra, poetas,
salgando toda palavra, umedecidos.

Roberta Tostes Daniel


Cicios



Aquela hora em que dizer é o enfadonho exercício da solidão.
Então calar como quem abraça.

*

A solidão vai nos devorar com sua primeira mordida.
Ou a vida rezará por tuas mãos para afastar o quebranto.
Ser de novo alguém cuja palavra não cabe na boca.

*

Mas o préstimo da palavra é perdê-la.
Dizer o essencial: abismo, abismo.


Roberta Tostes Daniel
Um poema de Carnaval

Festa da carne, do cerne
do rompante.

Somada, quatro meses de folia
minha vida diz

contente
sambando, de máscara.

Corsos e entrudos
calor de húmus, de homem

cidade arlequinada.
Rio, eu te vejo:

nau e nunca.

Roberta Tostes Daniel
1
no bairro fantasma a solidão anda em bandos (nos outros bairros pode que também)

2
assistindo dois monólogos dentro de um quebra-pau

3
pequena catástrofe humana

4
o coração dele deve estar tuc tuc tuc. fazendo silêncio ela tem o seu próprio livro de auto-ajuda. até uns vinte minutos atrás ele era um outro eu, ela era uma outra você. e planejavam ir pra Morretes. desculpem ficar escutando... isso, desculpem bisbilhotar, era o que eu queria dizer, mas eles falavam alto, até mesmo antes da briga eles falavam alto. penso que minhas postagens aqui no Face são bonitinhas mas esquecíveis. devia trabalhar no meu romance, que é o que eu vim fazer aqui, mas este casalzinho... me fudeu. nem um beijo, nem na bochecha. ela me lembrou eu. ele me lembrou alguém com quem eu saia no ano passado. achei estranha essa inversão. vou falar sobre isso na análise. o negócio do bairro fantasma foi antes deles chegarem, tinha a ver com o café estar super vazio naquela hora. depois começou a entrar mais gente, aí ninguém olhava pra mim... pensei, sou um fantasma agora, é isso, ninguém me vê mais? daí escrevi aquilo. ah eu não devia explicar, vocês são inteligentes. só adiciono pessoas inteligentes. eles dois é que são burros. sabem o que vai acontecer? eles vão passar o Carnaval longe um do outro e aí talvez entendem que a porra da saudade é a porra de um caroço de fruta totalmente indeglutível... e este tal de Ela que tá em cartaz no cinema deve de ser um filme de merda, tem mais essa

leprevost 
tua carne comida do meu delírio tua carne meu diário em que os dias são um só aquele em que te conheci tua carne pusilânime carne quando me falta tua carne a nudez por baixo da nudez tua carne o lugar áspero do amor tua carne repousa pesa cheira umedece inflama tua carne mole dura e dura pouco

Leprevost
foda-se poeminha polenizado na primavera
mantenha longe de mim
bromélias azaléias
saia já daqui com margaridas girassois e todas as outras
maldigo a chegada do atchim
cuidado
feche a janela
abra a janela
alergia
alergia
você é tão espirituoso
ele é muito divertido
ele não é divertidíssimo?
é possível afagar as pessoas
com melodias e palavras?
baladas românticas podem
substituir carinho das mãos no rosto
da pessoa que você
que amor exige o mínimo da palma das mãos
depois chegamos em lugares
mais ousados
esfregar os dentinhos da frente
roedores
de leve assim no clitoris
a língua em círculos em volta do ânus
ela urinar na nossa boca
mesmo que não tenha niguém ouvindo
quando canto
sinto doer
raíz dos cabelos os olhos inflamam
doe por baixo das unhas
doem os dentes
bêbado dos meus 14 aos 33 anos
estive destroçado dos 16 até agora
não sei se sou doente romântico o bastante
não consigo ser um deles
tenho simpatia
caras com penteados tribais
roupas estravagantes
e a ideia da ciclomobilidade
e casais dançando descalços
pisando nos salgadinhos e doces
no fim do baile de debutantes
você conhece a respiração dela
é música?
é reza
você só canta
ou também é instrumentista
não, sou um atleta
atletas competem
talvez devesse estudar rabeca
no Conservatório largar tudo ir
numa ilha vigilante da fauna
da flora meter uma bala nos miolos
você acha romântico doente o bastante?

Leprevost
estou chorando o inverno das músicas do teu músico
o inverno dentro dos tímpanos
almoço anti-histamínicos
o beija-flor feliz da vida
nem morrer posso
ele?
claro
como é que um morto pode ser enterrado em paz
aqueles arranjos
eles jogam em cima de você
e se quiser ressuscitar
oi amor voltei
fodam-se flores de enterro
as narinas procuram
o cheiro do bolero no ar
estou resistindo
por teimosia
somos os desgraçados da insuficiência
o que os direitos humanos podem fazer por você?
estou frente a frente comigo
oi Carniceiro
resistindo
metodologicamente
é o que estou fazendo
não
não sou mais eu
mas quem é meu corpo
certamente
não sei se posso chamar isso de corpo
você meu disse uma vez
a garota que você ama
resista
você no meu apartamento
arrombo a porta
invado
não respeito
gozo nos lençóis
desenho paus no espelho com batom
baixarias nas paredes
trepamos os três eu, meu eu Carniceiro, você
a tudo a lógica esfacela
lógica é um acontecimento com o qual não nos preocupamos, somos da raça das feras, dominamos como ninguém o ofício de sermos animais
seu fundo é agradável e convincente feito prece
não me fale em vísceras
desabotôo o colarinho
estou cantando
o chão se mexe
olho o relógio
estou demorando pra morrer
a terra me quer a terra não me quer
morre logo
adubo oba
uma língua me puxa pra dentro
bucetas não tem só lábios
língua também
estou submergindo
o sol se afasta dos meus olhos
meu corpo esquenta
se meu corpo quiser ele que
peça misericórdia
nunca vou fechar os olhos
não dentro da terra
a garota que você ama
vive-se na prisão da medida do corpo
não vamos destruí-la sem nos destruirmos a nós
impossível a ressurreição
inviável mesmo a
esperança que suscita
nascer tem outro som
espermatozóides pelo ralo ou no papel higiênico
fecho os olhos
trepo com você
ele assiste, o meu Carniceiro
fecho os olhos
vocês
abro
você em pé
ao lado da cama
abro
ele a câmera na mão
os closes
pornô dá dinheiro)
nos beijamos
dá dinheiro, você disse
beijo de quem sabe amar de olhos abertos
de nos olharmos fazemos transfusão de olhos
não sei se suporto o vislumbre de tanta dor em suas paisagens, a agonia dos recantos depredados
nem sabemos se é incesto, o mesmo sangue em nosso sistema venal
meu rosto desfigurado agora
olá idiota
sangue pegajoso nos paralelepípedos
pareço cansado?
mais que isso
é obvio que estou desaparecendo ali
sob constelações num céu sem solução
vocês não poderiam estar aqui
Deus, são Deusas aladas sobre mim
feito moscas
sobrevoam a merda adoro transar o bumbum acessórios
no local quero leitinho agradeço
com miau sou menor de idade faço tudo a sugadora supositório de cocaína
eu te amo gonorréia preciso picar na veia sou sua aluna topo zoofilia
te amo tanto casa comigo todas elas
você
com flores nas mãos
luto fechado da cintura pra cima
pelada daqui pra baixo
você vestal
buquê de lótus
minhas narinas procuram o perfume
não há
apenas o bolero
meus miolos na sarjeta
e a chuva
você escuta
todos escutam
não eu
seus olhos se aproximam
o granizo do medo
e gozam assim
tudo
desaparecendo
paralelepípedos
sangue
libidinosa cena de bucetas
garota que me ama
enganamo-nos tão bem
ela é o diabo que me carregue
devo ser algum cristo em suas chagas
janela aberta
faz frio
o dia cumpriu metade das horas
céu entra como agulhas em meus olhos
contraio-os
os arregalo o crepúsculo de violentas guerras emocionais
minha cabeça não está oca
passarinhos, isso
e máquinas
sons sutis das câmeras de filmar dentro dos passarinhos
garota que você ama
covarde covarde covarde
covarde merda
queria pouco
bem pouco
cupcake na praça
sábado de primavera
descer o rio de bóia
nem isso
ou você nasce uma bela voz
ou você é covarde
vergonha
a janela
dou um passo
curto
a culpa
estou num campo florido
a grama entra pela sola dos pés
eu e você natureza
como nos velhos tempos
ai
alguns fogem por meus ouvidos
narinas
livres espectros de passarinhos
vocês estão comendo minhas bochechas?
que mal lhes fiz?
querem minha caveira?
vou esmagar
mastigar
vou cuspir cada um de vocês
tento acertá-los com as mãos abertas
tento mordê-los
centenas deles
são velozes
meus golpes no vácuo
estão arrancando meus cabelos
como pretendessem raízes fora da terra
comam as gengivas
os dentes
mastiguem minha língua
não posso mais assobiar
garota que me mama
chá de maçã com canela
desde que parei de ficar bêbado feito gambá
não me dou conta
do nosso pecado original irremediável
já compôs uma das tuas em homenagem ao gambá?
não me olha com cara de fashion-vítima
com o coração no olho
viu uma auréola em volta da minha cabeça?
não devia ter me dito palavras amenas
não quero que aconteça
se eu encostar este dedo em você
coloco o diabo no teu corpo
você cai fulminado
Carniceiro
é só mais um trabalho
Músico
pousam em meus ombros
minha boca querer beijá-los
bicam
com delicadeza
meu crânio aberto
vejam
dali melodias escapam limpando o sangue
suaves valsinhas
os ossos faciais doem
a dor se expande
vocês não vão ter o meu choro histérico
culpa e lágrimas
não
Deus
um pouco de romantismo
não sou radical? ponha uma mulher na vitrine
olhe do outro lado da rua
xingue
ponha uma vaca na vitrine
com cabresto
ponha tua putinha na vitrine
que tal?
diz
sou tua putinha
apedreje a vitrine
sou eu o vidro estilhaçado
o sol batendo nos cacos
refletindo
ferindo teus olhos
teu coração nos olhos
pise em mim os pés descalços
humilhe
xingue de prostigaliranha
hein, sou, a tua prostigaliranhazinha?
olhe no meu olho no meu coração no olho
diga
fui um erro?
essa é uma história de esquartejamento
deglutição
você devia compor em minha homenagem
um réquiem
réquiem pra um frango à passarinho
não vou falar com Deus
se é música
se o resto é ruído
se prefere fezes dos pássaros que
escorrem
pelo pescoço peito barriga coxas pés
não vou falar com deus
vamos
filhos da puta
não poupem meus olhos
garota que você ama
preciso do demônio no sangue
dormir em camas erradas é tudo o que posso oferecer
essa espécie de trash food em que me transformei
não sou o prato principal
sou esse troço que não orna tipo galeto com DJ
fashion-vítima
essa foi boa
é você ali
alva
destrocem meus lábios
você não estava precisando de dinheiro?
aqui estamos os três
que belo cenário
há muitos modos de se ferir alguém
e várias maneiras de se fazer um curativo
no entanto dois tipos de esparadrapo
o que não gruda e o que não solta
você não acha que isso
de algum modo
tem a ver com amor?
quero dizer, e você
também se sente a pior do mundo com frequência?
quero dizer, você não queria ver
o teu músico
espalhado na calçada
você me sussurrou
preciso fugir
daqui da crise da caça da festa
eu te salvei, menina
olhe aquilo
uma cabeça em frangalhos
sem melodia alguma
e falei praquilo
você fez isso
e sim aquilo devia ser
um tipo de resposta

leprevost

COISAS DA MINHA CIDADE



Ah, essas manhãs grávidas de maresia,
Essa música suave, bossa sempre nova,
Que embala o meu despertar,
Anestesiando, no peito, as dores
Trazidas pelo dia
E seus compromissos de terno e gravata.

Ah, esse jeito de trabalhar como se brincasse,
Essa piada amorosa, sempre na boca,
Trocando por troça
A seriedade perversa
Da falta de conversa
E do juízo falsamente elevado de si mesmo.

Coisas da minha cidade,
Que nessa incipiente manhã
Me abraça em versos,
Com afeto e delicadeza,
Carinho de irmã,
Gesto nobre de princesa.

- por JL Semeador de Poesias, dia desses, na Lapa -

Enviado ao Recanto das Letras por jlsantos, em 02/03/2009

Código do texto: T1464930

POESIA VERSUS PROSA



para Cristovão Tezza

Um bom poema é feito
tiro de misericórdia.

O poeta não tortura seu leitor
como faz o prosador,
linhas
e dias a fio.

É pá-buf!

O corpo caído:

o pingo na testa.

Marcelo Sandmann


AMORES... AMORES...



Gosto de meus amores próximos
assim: com a face descortinada para o vento
e as janelas do olhar reabrindo para mim
a cortina fechada do meu pensamento.

Amores evidentes como rosas no jardim
que em mim deixem perfumes de contentamento
que invadam minhas portas abertas para dentro
e me resgatem dessa torre de marfim.

Amores são pressentimentos
dos faróis da alma em transitividade não profana
na eternidade sob as ondas dos lençóis.

E quase nada mais meu infinito amor reclama
senão que todos os amores sejam para nós
a eternidade efêmera para quem ama...


Afonso Estebanez


Entre confetes e serpentinas, crônicas de carnaval:



[Manu em meio ao carnaval, toca o telefone]

Voz de mulher: Você ligou para o meu marido foi?
Manu: Como? Quem está falando?
Voz de mulher: Seu número está marcado aqui!! O que você quer com meu marido, hein?
Manu: Quem é o seu marido minha senhora?
A mulher joga o telefone para o marido: vá! Agora fale com ela
O marido: Seu número está aqui, como é seu nome?
Manu: Manuela Salazar
O marido: Ah...eu sou o taxista que você chamou hoje, desculpa viu?
Desliga o telefone.
..........................................

oi?

JS

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

"Quem dormiu no chão deve lembra-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze."

- Graciliano Ramos, em 'Memórias do Cárcere', 1953.

Miriam adelmann