quarta-feira, 19 de março de 2014


Rascunho de si mesma. Boba, passional, romântica. Ama boa companhia e boa litetarura. Dedicada, delicada, mas muito introvertida. Está aprendendo a lidar consigo mesma e com o próprio turbilhão emocional. Pessoas a deixam feliz e nervosa. Só gosta de receber flores em vaso, devidamente enraizadas. Gosta da terra e do mar. Ama as estrelas, e já pensou seriamente em nascer passarinho.

Às vezes, na tentativa de encontrar alguma possibilidade de contradição nas coisas, a nossa imaginação vai longe. A esquerda e os defensores da democracia de forma geral, têm uma dívida histórica com estas novas gerações, que hoje por desconhecimento do que foi a ditadura nesse país, defendem a "intervenção militar". A transição "democrática" do fim dos anos 80, fechou nossos olhos para o passado de tortura e matança da ditadura militar, a nossa parcimônia fez com que até hoje os criminosos da ditadura não pagassem pelos crimes que cometeram. Por isso, em tempos de chamadas para novas edições de 'marchas da família"... é chegada a hora de uma campanha decisiva em nome do restabelecimento da verdade, da punição efetiva dos crimes praticados nos governos dos generais. Aproveitemos o cenário, que parece caótico, para nos posicionarmos contra qualquer regime anti-democrático e mais que isso, vamos ao debate com as novas gerações!

Roberta Tostes Daniel

Joana Corona (1982-2014)

Homero Gomes


"agora há o resquício,
e há também a imagem que me cria,
para que eu siga sendo
este outro.
agora sou um traço de pólvora.
a fotografia-fuligem, a imagem-pó -
o livro-espectro."


{No poema Petróleo, publicado originalmente na revista Lado 7, n. 4, Rio de Janeiro, 2012.}

Carpe Diem



fluxo anêmico dos carros
(de luxo)
sol selado
de adesivos Mc Donald's
arabescos eróticos
na fumaça cinza
da panificadora ao lado
semente masculina
perfumada
amaciando o tecido
da minha pele
água calêndula no ralo
revela a forma exata
do rosto estrangeiro
e do sexo formigueiro
de prostituta de Veneza...
espie pela fresta do Zeppelin
dos sonhos...
meu mundo:
sem florais de Bach
feng shui
mantras
músculos da alma - expostos -
cicatrizes mortas,
lâmina que corta escaras
revela
o mármore de carrara
- Vivo -

Bárbara Lia

A última chuva\2007

POEMA DE OLHO NA PASSEATA DOS PROFESSORES


engraçado, desta vez, eu aplaudir a multidão
suas roupas e gritos de sol amarelo
aplaudi com todas as forças do coração
sozinho, do outro lado da rua, em paralelo

engraçado ouvir palavras de ordem
e não as buzinas dos carros presos no enrosco
a avenida abriu-se em terno pedido: ACORDEM!
e nas janelas fáceis surgiram faces sem rosto

engraçado ver as bandeiras trêmulas sem medo
e o sol queimar a pele dessa nova cidade
nenhum soldado armado dentro do enredo
a passeata passou em paz pra minha felicidade


antonio thadeu wojciechowski

segunda-feira, 17 de março de 2014


O mundo que eu quero habitar e um mundo que eu mesmo tenho que fundar. Minha vontade e seu alicerce. Minha disciplina, suas colunas de sustentação. (Will Coutinho Hamon)

sábado, 15 de março de 2014

A felicidade do Fotógrafo.



Poucas cenas falam mais que essa. Se uma imagem vale mais que mil palavras, essa vale um milhão de versos, e..., alguns eu fiz:

Leiam e comentem.

Meu carinho a quem tiver a pachorra de ler até o final.

Olinto Simões

Todo Poeta que se preza, não recusa convite pra Poetar sobre o belo, mesmo que esse belo, seja profundamente feio, pela situação que apresenta e pelos comentários infelizes, dos infelizes que Poetas não são.

ESTÁTUAS CARENTES

De costas pro belo,
Plantaram o Poeta,
E o mar não reclamou,
Por sabê-lo mais próximo,
Mesmo que de costas.

Com a Estátua do Poeta,
De costas pra costa,
A costa ficou mais bela,
E quem ali passa,
Nota a estátua de frente.

Contudo não há quem enfrente,
O sofrimento do outro,
E pra isso dá as costas,
E não há quem comente,
A conduta da Estátua.

O carente que carente segue,
Deu as costas pra costa,
Sentou ao lado do Poeta,
Ficando de frente pras pessoas,
Que como estátuas dinâmicas,
Passavam e seguiam em frente.

É..., não há quem enfrente,
A cena que de frente,
Dá as costas pra costa,
E todos que são pessoas,
Agem como se estátuas fossem.

O carente se aninha ao colo da estátua,
Mas, na verdade o que mostra é mais feio,
Longe do carinho frio e do belo demonstrado,
Mostra a ausência de colo e a falta de ninho,
Em cada pessoa que passa e dá as costas.

Pessoas de coração duro mostram-se carentes,
Estátuas humanas, duras, inflexíveis, feias,
Movem-se muitas vezes ao longo da costa,
Sem ao menos se olharem de frente,
Pois, não há quem o olhar carente enfrente.

E assim resta a foto do feliz fotógrafo,
Que de frente para o belo,
Enfrenta o belo da costa,
De costas pras pessoas de costas,
Olhando em segundo plano o mar,
Gravou em imagem estática,
Em plano primeiro, o feio.

Feio sim, o não movimento do Poeta,
Que como estátua não abraçou,
O carente que na estátua se aninhou,
Afinal, ela é estátua e não sente,
A dor que na foto não aparece,
Mas é sentida por quem de frente,
Tenha coragem e enfrente,
Quem por medo de sofrer,
Dá as costas pra frente do belo.

A foto fica,
A imagem fica,
A estátua fica,
Os carentes continuam,
A carência permanece,
E não há quem assuma,
Que carente é..., e a isso..., enfrente !


Olinto Simões – 14 de Março

O assassinato da poesia


Um amigo me mandou o recorte com a notícia bizarra: um professor russo matou a facadas um colega por este defender a tese de que a única literatura verdadeira é a prosa. Parece que estavam bêbados, o que torna a coisa mais verossímil. O amor dos russos pela literatura é desses paradoxos históricos inexplicáveis – de meados do século 19 às primeiras décadas do século 20, o país foi um dos centros fundamentais da literatura moderna, ao mesmo tempo em que se mantinha como um dos mais atrasados do mundo, uma autocracia cega reinando sobre uma imensidão de pobreza medieval. Mas São Petersburgo e Moscou eram centros literários extraordinários, em que se moviam monstros como Dostoiévski, Turguenev, Tolstói e Tchekov.

A partir da década de 1930, o terror stalinista destruiu a inteligência do país onde quer que ela levantasse a cabeça – Mikhail Bulgákov (1891-1940) talvez tenha sido o último grande gênio da prosa russa, mas sua obra-prima O mestre e Margarida foi publicada apenas décadas depois de sua morte. E o célebre autor de Lolita, Vladimir Nabokov, só sobreviveu de fato ao se tornar um escritor americano.
Os russos leem muito e têm a poesia em altíssima conta – recitais de poesia com uma multidão de ouvintes eram eventos comuns na Rússia. Assim, a discussão de dois russos bêbados em torno do valor da prosa e da poesia começa a soar como uma cena realista. Basta ler algumas páginas de Dostoiévski para entrar no clima – seus personagens estão permanentemente no limite das questões transcendentais da vida, numa tensão mortal de pontos de vista contrastantes.

É verdade que ninguém precisa matar por isso, mas a distinção entre prosa e poesia fascinou este modesto cronista nos seus tempos de universidade a partir de um outro russo, o filósofo Mikhail Bakhtin (1895-1975). Em um de seus textos, Bakhtin sugere que a voz do poema é sempre a voz do poeta; o poeta se confunde completamente com o verso que canta. E a voz do prosador é sempre a voz de uma outra pessoa; o prosador, covardemente, esconde-se na linguagem dos outros.

Fiquei tão apaixonado pela ideia que escrevi uma dissertação acadêmica a respeito, tentando convencer o mundo desta verdade cristalina. Mas ninguém concordou: meu trabalho dava a impressão de que os poetas são uns egocêntricos autocentrados e os prosadores, uns caras legais que ouvem os outros. Parecia que eu estava falando em causa própria, já que nunca escrevi um verso que prestasse. Pior: os poetas seriam “autoritários”, enquanto os prosadores posariam de “democráticos”. Num tempo como o nosso, nada pode soar pior. Bem, não quero dar uma de oportunista, mas a notícia de jornal parece comprovar empiricamente a minha tese: o poeta, ao ouvir aquela besteirada do prosador, simplesmente puxou da faca, fez justiça com as próprias mãos e foi beber mais um trago.


Ainda bem que sou brasileiro, ou não estaria mais aqui.

Cristovão Tezza.
Gazeta do Povo. 18/02/2014

Do paraíso brasileiro aos comentários da internet



Pense o leitor neste quadro: era uma vez um país bonito por natureza, banhado por mares verdes e azuis, onde vivia um povo alegre e cordial, que jogava futebol, brincava o carnaval e sorria o dia inteiro. Tudo lá era divertido, sob a trilha sonora de um perpétuo samba exaltação. Pobres, ricos e remediados eram felizes, a inveja e o olho gordo não prosperavam, e não se via violência. Pouca gente sabia ler e escrever, o que não fazia falta, porque a felicidade era cada um vivendo tranquilo no seu cantinho enquanto sábios letrados tocavam o barco. E o resto do mundo, de tempos em tempos, pasmava-se com aquele paraíso sorridente, capaz de façanhas incríveis, para grande orgulho nacional.

Este conto da carochinha é uma das mais resistentes expressões de um secreto imaginário brasileiro: as pesquisas indicam que somos um dos povos mais felizes do mundo. Como a felicidade é um valor subjetivo – quem pode medir minha felicidade senão eu mesmo? –, é preciso acreditar no otimismo do país. Em qualquer lugar do mundo, dizemos a palavra mágica – “Brasil!” –, e o interlocutor sorrirá com simpatia.
A questão é que o mundo vem mudando tanto que até o Brasil largou a preguiça e passou a correr atrás do futuro, porque uma das faces da nossa felicidade é o gosto novidadeiro. Daí vieram os computadores, os celulares, a internet, o facebook, o tuíter, o G3, os tablets, o G4, a tevê digital, o GPS, os selfies, o BBB – e, principalmente, a seção de comentários das páginas da internet.

Quem jamais escreveu nada nem nunca leu nada começou a adentrar no mundo maravilhoso das letras. Com mais eficiência do que as escolas arruinadas que os estudantes vão largando pelo caminho, a internet obriga todos os dias as pessoas a ler e a escrever, catando milho nos teclados. Súbito, ler e escrever – essa tortura escolar – passou a ser uma coisa legal, como um código inventado por crianças. Este mesmo cronista, um clássico otimista brasileiro, chegou a acreditar que, finalmente, o Brasil largaria a dança da chuva e começaria a ler em massa, numa explosão civilizatória nunca antes vista neste país.


Obviamente, há muita vida civilizada na internet, em espaços de interesse específico; mas nas seções abertas de comentários políticos descobrimos que todo brasileiro é black bloc; com a cara tapada ou descoberta, um outro povo emerge das profundezas do horror com sangue nos olhos e porrete na mão a dar pancadas em tudo que apareça à frente; um rancor sem cabeça nem letras explode com a volúpia da estupidez diante de qualquer assunto; naquelas linhas, nenhuma referência de valor sobrevive além do próprio desejo. O país inteiro, da “presidenta” ao último cidadão, comunica-se em comentários de internet; e black blocs destruindo ruas são comentários ao vivo, a contrapartida analógica da fantasia digital.

Cristovão Tezza.
Gazeta do Povo.25/02/2014

Conversa entre livros


Ao subir até minha biblioteca, algumas vezes tenho a impressão de ouvir um discretíssimo burburinho. Um murmúrio, um ruído secreto, como restos de palavras, ditas quase em silêncio, ou mesmo em silêncio. Como se eu flagrasse meus livros, na minha ausência, mesmo fechados e imóveis, dialogando entre si. Livros que conversam com outros livros, em um diálogo secreto que arrasta o leitor, que o envolve e o alimenta. Penso nessa estranha sensação enquanto leio duas narrativas infantis de Shel Silverstein que acabam de sair pela Cosac Naify: A Parte Que Falta e A Parte Que Falta Encontra o Grande O. Penso em um terceiro livro para crianças, Quando Meu Gato Era Pequeno, de Gilles Bachelet, lançado pela Estação Liberdade, uma narrativa que dialoga com as duas primeiras.

A primeira delas, A Parte Que Falta, narra a história de um círculo a quem falta uma parte — como uma torta redonda que teve uma fatia roubada. Silverstein conta a aventura deste círculo em busca de seu complemento. Ele sai à procura da outra parte em outra parte, não em si mesmo. Enquanto rola, canta uma canção: “Oh, busco a parte que falta em mim,/ a parte que falta em mim./ Ai-ai-iô, assim eu vou,/ em busca da parte que falta em mim”.
Como lhe falta uma outra parte, ele não consegue rolar muito rápido — e assim pode conversar com uma minhoca, ou sentir o aroma de uma flor, ou ainda brincar com um besouro. Um dia, acha que encontra a parte perdida — alguém que tem o formato da fatia de torta roubada. Ela reage: “Não sou a parte que te falta. Não sou parte de ninguém. Sou parte completa”. Segue em frente e encontra outras partes, mas elas, pequenas demais, ou grande demais, nunca nele se encaixam. “Certa vez, pareceu que tinha achado a parte perfeita, mas não a segurou forte o bastante, e a perdeu”. Outra vez, segurou com força demais, e a quebrou. Nada dá certo em sua busca.

Por fim, o círculo encontra uma parte que nele encaixa com perfeição. Mas agora que está completo passa a rolar com muita rapidez e não consegue mais cheirar uma flor, não pode sequer cantar. Entendeu que a fusão absoluta é, na verdade, uma prisão. “E, com cuidado, pôs a parte no chão e rolou devagar para longe”. A história continua no segundo livro, agora na perspectiva da parte que falta, e não mais do círculo. Também ela busca um encaixe, mas nenhum dos círculos que ela encontra lhe serve. Alguns deles tinham muitas partes faltando, outros tinham partes demais e nelas sufocavam. Até que um dia achou o círculo em que enfim se encaixava. Acontece que, depois disso, a parte começou a crescer e o encaixe se tornou asfixiante. Sabe que não pode recuar, que precisa continuar a crescer. Abandona, então, o círculo que, desolado, sai cantando: “Busco a parte/ que falta em mim/ uma que não/ cresça assim...”

Até que um dia a parte carente encontra o Grande O, um círculo perfeito. “Acho que você é aquele que eu esperava”, ela diz. “Mas não falta parte alguma em mim”, ele protesta. Desiludida, volta a ficar sozinha e decide não mais procurar a parte que lhe falta. Ao contrário: resolve aprender a rolar sozinha. No início é difícil, mas ela insiste e luta, até que consegue começar a quicar. Está rolando! A parte que falta aprende que o encaixe que lhe falta é com ela mesma. Que ela própria é o seu sentido e o seu destino, e não alguém que venha de fora. Só depois disso, ela consegue, de fato, se aproximar do Grande O. Quando descobre que mesmo uma parte é uma coisa inteira. E que a verdadeira aproximação só se dá entre seres inteiros.

Os dois livros me levam à leitura de Quando Meu Gato Era Pequeno, de Gilles Bachelet. A história simples de um homem que adota um gato e os novos desafios que isso lhe traz. Esta é a história que lemos: um homem adota um gato. Mas nas ilustrações do próprio Bachelet o gato não é um gato, é um elefante. Que se aninha em sua cestinha para dormir. Que toma seu leite com voracidade. Que arranha as poltronas e passa horas a dormir. Que gosta de dormir entre as pernas de seu dono e se entristece sempre que ele sai de casa. O choque entre palavra “gato” e a imagem do elefante produz no leitor um delicioso estranhamento. Algo parece fora do lugar — algo parece incompleto, como nas histórias de Silverstein. Algo parece estar faltando. Mas não: a divergência entre a narrativa e os desenhos é uma afirmação veemente da liberdade do autor, Gilles Bachelet. Em seu livro de ficção infantil, ele pode tudo. Não precisa seguir a lógica, ou o bom senso. Não precisa ser claro, ou coerente. É assim que chega a si — como o círculo e a parte de Silverstein, que se bastaram sozinhos, e só assim puderam chegar ao outro. Aceitando a diferença. Fazendo uso do incrível poder conferido pela liberdade.

Lembro aqui de meu sobrinho Eduardo, de nove anos, que recentemente me perguntou. “Por que existem perguntas que não têm respostas?” Tentei explicar que ele estava dando o primeiro passo num terreno muito estranho, mas muito belo: a filosofia. Não sei se chegou a entender o que eu quis dizer. “Onde ficam essas respostas que não encontram suas perguntas?”, ele insistiu em perguntar. Tentei lhe dizer que as perguntas sem resposta não precisam de respostas, e que as respostas sem perguntas não precisam de perguntas também. Em outras palavras: tentei lhe mostrar que no mundo as coisas nem sempre se encaixam, grande parte das vezes divergem. E que não existe o encaixe perfeito, ou a perfeição. Assim que reencontrá-lo vou lhe dar de presente os livros de Silverstein e de Bachelet. Não que neles meu sobrinho vá encontrar as respostas que procura e não acha. Mas entenderá, tenho certeza, a beleza das perguntas. Como, mesmo sem respostas, elas nos alimentam. Como elas nos fazem bem.


Talvez venha daí o burburinho que acredito ouvir cada vez que subo à minha biblioteca. Mesmo fechados, os livros falam ao mesmo tempo. Um não espera resposta do outro — todos têm algo a dizer e isso lhes basta. Ou pelo menos deveria bastar.

José G Castello.

Gazeta do Povo. 09/03/2014 

Os desastres do calor


Aqui, nas Gaivotas, começo a acreditar firmemente no aquecimento global. De fato, logo as geleiras do Polo Sul vão derreter, as águas subirão e cobrirão este deserto. Ai de ti, Matinhos! O calor, o silêncio, a solidão, o suor, a mecânica monótona dos ventiladores praticamente inúteis mesmo quando paralisamo-nos a um palmo deles, as misteriosas incursões do lagarto pelo quintal, todo o concerto do tempo e do espaço vai como que nos achatando a alma.

Largados na cadeira, na rede, na cama, na breve sombra, vamos chegando, enfim, à substância mortal da preguiça, nossa querida e mal amada companheira. Chegamos à transcendência do fazer-nada. Todo gesto se derruba antes de começar. A persistência bruta do calor não nos deixa nem sequer dormir, ou esquecer o próprio calor, ou pensar em algo que não seja ele mesmo, o calor e seus vapores. Até as expedições à geladeira – a doce água fria gorgolejando garganta abaixo, que nunca é suficiente – parecem um calvário. O alívio do gelo é uma miragem de segundos, e o suor volta a brotar. Ventiladores fazem girar o ar quente, no gemido constante dos motores incansáveis. Até as moscas sentem o peso da atmosfera, o clima inexorável, e sabem que não vai chover tão cedo.
Mas eu preciso trabalhar. Cronista não tem férias. Quem mandou largar o emprego fixo, a vida segura, o ar condicionado da repartição? Você não queria ser escritor? Aguente o tranco. Levante esse traseiro gordo da rede, como dizem os filmes dublados – mas nem isso o faz rir. Abra o notebook, escreva uma frase qualquer e toque em frente, seguindo o conselho dos clássicos. Quem sabe dê certo?

Mas resisto. Sair da rede é uma tarefa acima das minhas forças. Busco uma desculpa para continuar fazendo nada: talvez antes um banho de mar, contrariando todos os meus princípios? Cada vez que me imagino andando naquela areia fervente que agarra e queima os meus pés chatos, enquanto o sol, sádico, arranca lascas da minha pele rala, os olhos espremidos de fotofobia e lágrimas, a claridade brutal, ou ainda o desconforto grudento dos cremes supostamente protetores que me transformam num bacon humano – cada vez que vou ao mar descubro minha identidade secreta de vampiro, o horror à luz do sol que há de me transformar em pó, a atração irresistível pelo frio e pela noite. Feliz do lagarto, que tem sua toca escura! Mas a água é saudável – vamos, não pense, entre lá e mergulhe!, dizem os evangelistas da saúde em torno, os parentes aflitos pelo meu sofrimento, salve sua alma da preguiça e do calor! – e me imagino entrando no mar violento, sentindo a onda inóspita que me derruba e me afoga no caldo em seguida, e ainda me arrasta de cambulhada na areia grossa, de onde me ergo de joelhos para levar outro balde de água fria na cabeça, as pernas trêmulas. Dizem que é bom para a saúde.

Não. Melhor escrever logo a crônica. O banho de mar pode esperar.

Cristovão Tezza
Gazeta do Povo.28/01/2014


Escrita de libertação


 
A literatura como um exercício de libertação: eis como a pratica o escritor Bernardo Kucinski, de quem a Cosac Naify lança a coletânea de contos Você Vai Voltar pra Mim, além de relançar o premiado romance K.. Sua escrita é um exorcismo dos dolorosos anos da ditadura militar originada pelo golpe de 1964. Não é, porém — como se pode temer em um primeiro instante —, uma “literatura engajada”, ou panfletária. Kucinski não escreve panfletos, mas ficção da mais alta qualidade. Nela incluída improváveis histórias pessoais, pequenos sentimentos, dores secretas e toda a miudeza atroz de aflições que definem o humano.

É uma escrita objetiva, seca, substantiva, como observamos no conto “O Garoto de Liverpool”, história de um rapaz “magro, de rosto chupado e miúdo, do qual só se viam o nariz, a boca e parte dos olhos”, que vem para o Brasil fazer uma reportagem sobre os índios da Amazônia e a construção da Transamazônica e acaba preso, confundido com um guerrilheiro. Depois da tortura, é jogado em um buraco de quatro metros onde passa longos dias de horror. Só é salvo porque aparece um oficial que morou na Inglaterra, lhe dá ouvidos e consegue, assim, entendendo sua verdadeira história, libertá-lo. A história é feita não só de grandes atos, mas também de pequenos mal-entendidos. A ação do acaso — a chegada inesperada do militar — tem, tantas vezes, a mesma força que a mais terrível barbaridade.
Kucinski nos mostra, em seus relatos, os interiores da ditadura. Não só o grande sofrimento — repressão, brutalidade, torturas, ódio — mas as pequenas dores que quase ninguém viu. É o caso do conto “A Suspeita” no qual um grupo de amigos discute, tempos depois, sua responsabilidade ou não sobre a loucura de um homem considerado, por engano, um informante da repressão. Admitem o erro, carregam agora o peso de um homem ter enlouquecido por causa deles. Mas, para se salvarem, se apegam a uma explicação racional: “É como diz o filósofo: o homem e suas circunstâncias. O sorriso era do homem, o DNA da loucura também já estava nele e as circunstâncias foram da ditadura. E ponto final”. Kucinscki não passa a mão nas cabeças, tampouco nas consciências, daqueles que tiveram a coragem de se engajar na luta clandestina contra o regime ditatorial. Reconhece sua coragem e a grandeza de seu esforço, mas os vê, antes de tudo, como homens comuns, que cometem enganos e deslizes também.

O livro traz alguns retratos preciosos como em “Um Homem Muito Alto”, a história de um bravo militante que não precisou de delatores: sua própria altura incomum o denunciou. Pernalonga, King Kong, Golias — teve muitos apelidos, até passar a ser chamado de Jamanta, codinome dado pelos serviços secretos. Escreve Kucinski: “Antes mesmo de cair prisioneiro da repressão, tornou-se prisioneiro do próprio corpo”. No fim, ao sair para comprar cigarros, é preso em um subúrbio do Rio de Janeiro. Condenado a dezessete anos de cadeia, uma das penas mais longas para casos como o dele. “Uma pena tão descomunal quanto sua altura”, resume, sem se negar uma dose de humor.

Alguns contos, como “Terapia de Família”, passam apenas nas bordas da história política. Depois da Lei da Anistia, um pai anistiado é tratado como o centro da família, enquanto o filho passa seus dias trancado no quarto, em fuga do mundo. A família — esgotada — decide submeter-se a uma terapia familiar. Surge então o ressentimento do rapaz, abatido porque a mãe só dava atenção ao pai herói. Durante os seis anos de cadeia, embora enviasse cartas para a mulher e para a filha, só lhe destinou o silêncio. As sessões de terapia em família se revezam com sessões individuais. O rapaz diz que não procura emprego porque precisa “arrumar o quarto antes”. Mas, ao terapeuta, admite: “A arrumação do quarto é uma desculpa; eu passo as vinte e quatro horas do dia pensando em maneiras de destruir meu pai”. A terapia fracassa, o impasse afetivo — efeito secreto da ditadura — derrota a família.

Outras vezes não, como constatamos na leitura de “Pais e Filhos”. Quando soube que o filho Augusto é suspeito de ter participado de um atentado, o dr. Nicolau Junqueira, médico-cirurgião, fica possesso. Depois de muito buscá-lo, encontra o filho escondido na casa de uma tia. O pai é um defensor intransigente do regime militar. Um dia, o rapaz é intimado a entrar para o comando da organização clandestina a que pertence. Prefere fugir para o Chile. Só um ano depois, através da mãe, entrega ao pai seu endereço em Santiago. Os pais viajam para visitá-lo. O encontro é tenso, parece desastroso, até que o doutor convida o rapaz para uma caminhada a dois pela cidade. O fecho do conto é especialmente forte: “Já na rua, o velho médico colocou o braço em torno do ombro do filho, e assim caminharam, lado a lado, abraçados, por muitos e muitos quarteirões”. Sem trocar uma única palavra. O afeto mais profundo e difícil, muitas vezes, não encontra palavras que a ele correspondam. Só se diz em silêncio. Sentimentos paradoxais, como a ironia, o desconcerto, o amor e o humor, Kucinski nos mostra, também fazem parte da história da ditadura militar.


O estilo intimista — embora escrito em um tenso realismo — dá o tom também, como seus leitores já sabem, do premiado romance K., que agora ressurge em nova edição. Inspirado no desaparecimento, 40 anos atrás, da irmã de Kucinski, Ana Rosa, e de seu marido Wilson, o romance guarda um forte caráter autobiográfico que, no entanto, não o encarcera no mero testemunho. Há uma recriação corajosa da história pessoal, o que reafirma a posição da literatura como lugar não só de transformação, mas de libertação. Embora sua identificação com as vítimas da ditadura seja indisfarçável, Kucinski faz, todo o tempo, um esforço (bem-sucedido) para ampliar seu olhar, colocando-os assim em seu devido tempo e circunstâncias, arrancando-os da simples mitologia política e devolvendo-os ao terreno do humano. O que pode parecer que os apequena, na verdade os engrandece. A História, mesmo a mais heroica, é feita por homens frágeis e cheios de contradições e isso só reafirma o valor de sua luta.

José Castello.
Gazeta do Povo. 23/02/2014

no livro dos mortos vermelhos



PARANOICO de infinito,
atento à demonologia interior,
o servo de um diário niilista confabula:

é fácil observar o comportamento das bestas
e seguir o oposto
para o caminho da redenção
mas e a besta, no espelho do homem,
poderá se redimir?

não mais, enquanto, porém:

o coração, esta máquina de apontar blasfêmias alheias,
faz o julgamento egípcio
enrubescer
avermelhado como um serrote
na polpa de um algodoeiro

seu drama dadaísta
avança sobre os bestiários
como um inflado balão
branco e volátil
no improviso do final dos tempos

Andréia Carvalho Gavita 


Poesia atônita


Publicado em 26/01/2014
Tenho comigo a nova edição da Poesia Completa, de Manoel de Barros (Leya). Ela chega ao mercado trazendo um poema inédito, “A Turma”, de 2013, e acompanhada de um box de luxo batizado A Biblioteca de Manoel, com todos os seus 18 livros individuais. É uma boa oportunidade para refletir a respeito de um estigma que pesa sobre Manoel e sua poesia: o de que ele é um poeta que só se repete e, mais ainda, de que confunde poesia com jogo infantil.

O interessante é que as duas restrições não deixam de ser verdadeiras. A poesia de Manoel de Barros tem, de fato, uma marca inconfundível que se derrama sobre toda a obra e que podemos chamar, imitando-o, de “manoelês archaico”. Seus versos são inconfundíveis – assim como é inconfundível uma imagem do monte Everest, da baía de Guanabara, ou do Grand Canyon. Há uma marca original – um timbre – que não permite que ninguém dela se aposse, ou imite, sem cair na desgraça da cópia fraudulenta. Algo que vem do fundamento, que é o próprio fundamento, em uma poesia que não tem pudor algum em (mesmo elegante e doce) se desnudar.

Mas Manoel não escreve para copiar a natureza, e sim para reinventá-la. Seu poema inédito, “A Turma”, foi incorporado ao fecho de um livro antigo, os Escritos em Verbal de Ave, que ele apresenta como uma “desbiografia” de seu amigo Bernardo. O poeta não se interessa nem pelo natural, nem pelo verdadeiro. Está mais empenhado em distorcer essas duas noções, ultrapassando-as para que, enfim, a invenção se imponha como única norma. “Videntes/ não ocupam o olho/ para ver – mas para transver”, ele nos diz em um poema antigo.
Cristiano Castilho 

No inédito “A Turma”, Manoel faz uma pergunta insistente a respeito do ato poético, que sintetiza assim: “Ele queria mudar a Natureza?” E responde de modo veemente: “Mas o que nós queríamos é que a nossa/ palavra poemasse”. Arrancar das palavras toda relação de utilidade, todo conteúdo, todo significado. Ficar com a palavra pura – como um objeto primário. Para, aí sim, colocá-la em outro lugar, inverter sua posição, experimentar novos usos. “A gente queria encontrar a raiz das/ palavras”, escreve. Valorizar o mal comportamento, obedecer às desordens infantis; em vez de imitar a natureza, “poemar”, o que é uma maneira de revirá-la em busca de seu fundo vazio.

Daí da lista de “desobjetos” de Bernardo constarem coisas como um “martelo de pregar água”, um “guindaste de levantar vento” e um “alicate cremoso”. Para que servem? Para nada. O nada – na estética radical de Manoel – é a matéria da poesia. Gosta de lembrar do francês Gustave Flaubert que, numa carta de 1852, disse que gostaria de fazer um livro sobre nada. Mas o nada de Flaubert ainda não é o nada de Manoel. “Ele queria o livro que não tem quase tema e se sustenta pelo estilo”, o poeta nos lembra. Já o seu nada é diferente: “O nada de meu livro é nada mesmo. (...) O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis. O nada mesmo”.

Tal atitude pode parecer ora soberba, ora desumana. Contudo, a delicadeza de Manoel é indiscutível. E, por detrás de seus jogos verbais, é o homem com seu grande vazio que se ergue e se presentifica. Releio “A Turma”: é impressionante tanta lucidez infantil em um homem de idade tão avançada. “Nasci para administrar o à toa, o em vão, o inútil”, escreveu certa vez. Será Manoel indiferente aos significados, ou atento à criação de novos significados? Estará Manoel só brincando ou, ao contrário, jogando um jogo mortal que só adultos ousados se permitem experimentar?

É uma poesia indiferente à lógica, e interessada nas verdades profundas, que não costumam ter lógica alguma. É um homem que mistura as espécies naturais – quando fala, por exemplo, que o dia está “frondoso em borboletas”. Não se interessa pela verdade, mas pelo que ela esconde de invenção e de provocação. “Poesia é a infância da língua”, já escreveu também. Poesia da origem, seus versos apontam para a origem da poesia. Que começa como um sopro, um tombo, um engano. Que não tem lugar ou hora para nascer, precisando só de um poeta que esteja disposto a lhe oferecer o corpo.

Sua poesia mistura pertencimentos: as palavras gorjeiam (mas não são os pássaros?). A ordem da língua é quebrada: elas não gorjeiam “para ele”, mas “nele” – “elas me gorjeiam”, escreve. À entrada de seu grande livro, anuncia ainda que tem Aristóteles como mestre e que se baseia em seus “impossíveis verossímeis”. Em resumo: Manoel de Barros faz poesia para inventar o impossível. E, com isso, alarga o mundo, repuxa as fronteiras do humano, transforma a alma em elástico. Em vez da coisificação existencialista do mundo, na poesia de Manoel são as coisas que falam. A cada verso, afirma sua diferença e sua solidão, mostrando o poeta como um menino solitário. “No recreio havia um menino que não brincava/ com outros meninos/ O padre teve um brilho de descobrimento nos olhos/ - POETA!”.

É como diz no Livro sobre Nada: “O menino de ontem me plange”. Menino que tem outra versão a respeito da verdade: “Tudo o que não invento é falso”. Menino e poeta que, portanto, incomodam com sua solidão radical, excluindo-se dos grupos poéticos, das escolas e dos cânones. Excluindo-se do sensato e do previsível. Não há outra maneira de ler Manoel de Barros que não seja entregando-se complemente – sem ressalvas, sem suspeitas, sem interrogações – ao magma de seus poemas. É preciso “ser” Manoel de Barros para ler Manoel de Barros. Colocar-se neste lugar maravilhoso em que a palavra se livra de toda incumbência e se torna só um jogo. Isso assusta. Isso não parece poesia. Isso incomoda nossa necessidade de significações e de explicações. Isso nos torna leves – livres do peso do mundo podemos enfim, como as crianças, nos limitar a jogar com ele.


Um verso de Manoel resume: “Com pedaços de mim eu monto um ser atônito”. Um ser que prefere as linhas tortas, como Deus. Menino, ele sonhava em ter uma perna mais curta, para que todos o olhassem. Não teve a perna mais curta, teve a poesia. Uns o olham de banda. Outros, a maioria, se ilumina. Todos o olham. Parece loucura: “Trabalho arduamente para fazer o desnecessário”, Manoel nos diz.

Cristiano Castilho
Gazeta do Povo.26/01/2014

TeXtings (Homage to Jenny Holzer)



Literatura
é consumismo

troca-se aqui o sexo
por ______________________

troca-se aqui a ventura
por ______________________
troca-se aqui o pensamento
por ______________________

,editores de Ouro sabem
,idiotas leitores de best-sellers sabem

Tudo vão - Padma, Lótus

Livro
é

Ego


[Delmo Montenegro em "Recife, No Hay", ganhador do Prêmio Pernambuco de literatura].

pensando em escrever um livro chamado Marombando para a toba da Suelen ou Monsters Gym, outros paraísos artificiais

na segunda parte, o ensaio A lapidação de obras-primas em corpos humanos

LEIA ESTE LIVRO E TRANSFORME SEU CORPO JÁ!!!

PELO SITE PEÇA-CONFIRA NOSSO SENSACIONAL CATÁLOGO DE MUSAS TRANSFORMES (designers inéditos no Brasil)

os mais velozes quentes e violentos modelos
arma de fogo, seja uma você também
setecentos e cinquenta cavalos, tenha os seus

ser rato é uma doença
você é um grilo ou um gladiador?
você é um AR-TUR da Estrela ou um RoboCop do Padilha?

se você também está farto de não ser um semi-deus
ou, até, por que não?, um deus
não perca mais tempo, especialize-se já em beleza exterior
ser rato é maldição mas tem cura

máquina de remada máquina de glúteo leg press horizontal
extensor banco multifuncional barra guiada rosca scott
crossover supino inclinado supino tradicional leg press hack squat
pulley supino declinado supino máquina cadeira flexora leg press 45°
halteres esteiras, é tudo teu, amor

o melhor da vida
a gente faz pelado




 Luiz Felipe Leprevost

Doces velhinhas



Ao entrar na confeitaria vi aquelas senhorinhas, cada uma tinha algo que me tocava. Uma graciosamente corcunda, a outra tinha cabelos poeticamente prateados. Olharam-me e com um angelical sorriso , apontaram a chaleira de porcelana com os dedos enrugados. Sentei-me, com as mãos trêmulas consegui segurar e com esforço levar minha xícara de chá à boca. Finalmente passaria uma tarde com minhas amigas do colégio!
JDamasio

Fragmentos de um diário da China



O primeiro choque para quem sai do Brasil e vem à China são os aeroportos. Primeiro, os escombros patéticos de Guarulhos, com multidões trombando em toda parte atrás de algum espaço, informação ou conforto, dando a impressão de um aeroporto no último limite de sua capacidade operacional – chegando de Curitiba, esperei 30 minutos, com o avião parado, até que aparecesse uma escada que nos descesse a um único ônibus, onde coube um terço dos passageiros; os outros que aguardassem o próximo para chegar ao terminal de desembarque. Depois, em Paris, o deslumbre impressionante do Charles de Gaulle, indicando até pelo silêncio dos ambientes que falta muito, mas muito mesmo, para a Europa se curvar ao Brasil, como sonha nossa história pitoresca. E, enfim – a viagem mais longa do mundo –, desço na imponência igualmente humilhante do gigantesco aeroporto de Pequim.

Estou de cabeça para baixo, aqui no outro lado do globo, com fuso horário transtornado. Enquanto escrevo, são 6 horas da manhã de segunda, mas aí, desgraçadamente, o Atlético acaba neste minuto de perder do Paraná por 4 a 0. Ainda bem que, para sofrer bem longe minha derrota, estou na China – na China comunista, mas, exceto pela onipresença de chineses, poderia estar em qualquer megalópole do mundo. Saindo do aeroporto, um mar de carros de último tipo avança lento por uma autoestrada de cinco pistas. Está frio lá fora, e um horizonte de árvores secas margeia a estrada.
Começo a sentir a célebre poluição de Pequim, uma cidade construída, destruída e reconstruída, em ritmo de terra arrasada, à margem do Deserto de Gobi. Quando me diziam, achava que era exagero, mas não é – os olhos vão se marejando neste ar pesado, a garganta seca. Começam a aparecer os prédios, em profusão – e, exceto pelos caracteres chineses de outdoors, até aqui nada indica que estamos nem no mítico Oriente, nem no que ainda poderia ser considerada a grande vitrine comunista do mundo. Às 3 da tarde, pode-se olhar sem medo diretamente o sol, que ao ritmo do carro vai dando um toque de cenário pintado àquele impressionante recorte urbano. Sob a densidade cinza da poluição, o sol é uma gema fuliginosa equilibrando-se amarela sobre um céu em ruínas.


No hotel, estou num centro de edifícios modernos e grandes avenidas. Na paisagem ainda escura, carros a distância parecem andar em câmera lenta. O dia amanhecendo, ainda luto para adaptar a alma ao novo relógio. Entre o prédio impactante da Televisão Central da China (CCTV), com seus ângulos inclinados de vidro, e uma enorme torre comercial, cujas faces espelham uma cidade trêmula, vejo ao longe uma clássica chaminé de fábrica despejando fumaça aos céus – é o encontro da Londres de Charles Dickens, movida a carvão, com o admirável mundo novo made in China. O império milenar que reinventou o comunismo ao redescobrir o capitalismo.

Cristovão Tezza
Gazeta do Povo.11/03/2014

Poesia e alegria



Uma poesia que dança. Uma poesia que coloca o jogo divertido das palavras acima do protocolo dos significados. Uma poesia nômade, ambulante, que passeia por vários mundos. Eis a poesia de Luis Turiba, de quem leio Qtais (7 Letras). Antes de tudo, o império dos sons, como em “Ser Minério É Coisa Sério”, poema em homenagem a Minas e aos mineiros. Antes de qualquer coisa, a busca do novo: “Caminhar é pisar chão/ sem pisá-lo de antemão”. O poeta é um caminhante – é uma espécie de ambulante que avança apoiado em seu cajado. Um poeta libertário, cujo cajado (a língua?) dele também se desvia. “Meu cajado é libertário/ temos quase a mesma altura/ caminhando em paralelo/ olhando o mundo às avessas”.

Avançam os dois, “plugados à lei do impulso”, em uma grande aventura zen. Vão aos tropeções, mas deles, em vez de tirar dores, tiram lições. O poeta caminha contra a lógica: “A lógica dos lógicos já não me interessa/ (...)/ Meu tempo está no vento peso q não pesa”. Avança sem uma bússola, parece um sonâmbulo, Turiba nos faz ver. “Sou cego e calado e escrevo ensimesmado”, define-se. Ainda assim, cultiva uma intensa luz interior. Diz a si mesmo: “Não apague a luz interna e intensifique-se”. Sem direção, resta-lhe a própria força para construir seu caminho: “levo-me leve em voos sem lei/ meu fio terra é madeira de fibra/ sou andarilho”. Carrega um cajado “alado e desconfiado” e assim privilegia a leveza, os voos e os grandes saltos. “Um fariseu distraído/ afável & aviolado”.
Muitas vezes ligamos a poesia ao peso, à densidade, ao sofrimento – mas é contra essas relações difíceis que Luis Turiba escreve. É um poeta que escreve, antes de tudo, para se divertir. A poesia como brincadeira, como dança sem método e sem partitura, como improviso. Assim Turiba brinca enquanto faz poesia, e nós, seus leitores, nos deliciamos. Vai buscar seus materiais nos cantos mais remotos – como em “O Que É o Sol?”, segundo ele escrito “a partir de um poema oral búlgaro do século 5”. Verdade? Mentira? E isso importa? Interessa sim a distância que o poeta toma para desenrolar seus versos. Para erguer-se em seu tapete voador. Faz uma poesia que voa, mas que é também uma poesia andante, que rasteja, que cheira o chão e suas brechas. Seja como for, escreve uma poesia que canta. Importante definir o que faz? Não parece. “Ainda não aprendi teu nome/ Mas já sei (quase) tudo sobre”, ele diz, descortinando uma resposta.

Busca um verso “arrítmico”, aos soluços, aos impulsos. “Quisera fazer um verso/ com a sublime arritmia do amor/ um verso míssil/ neurastênico e febril/ ar do dia anterior à criação do universo”. Destino dos poetas, não só de Turiba: estar às voltas com as origens. “Um verso de trivela/ transverso e subversivo”, prossegue em seu sonho. “Um verso de fogo e batom/ histórico, histérico e erudito”. Origem (fogo) e beleza (batom) se misturam para anunciar uma estratégia que o traz de muito longe e leva para mais distante ainda. Matéria da poesia: o tempo, que nas mãos de Turiba se converte em um material maleável e perigosamente desdobrável.

Uma poesia na qual as identidades se misturam e é assim que se aproximam, como está dito: “quem manda em mim/ sou ela”. Poesia da mistura, mas também da confluência e do diálogo feliz entre as palavras. Nos versos elas encontram seu lugar de honra, encontram provavelmente seu berço. Por exemplo, quando Turiba brinca assim: “caramba/ carambolas/ sou de jambo/ não me amora”. Uma escrita contra o senso, uma escrita de contrassensos: “agnóstico/ benzo-me ao olhar o Cristo Redentor”. Exatamente como somos, seres de contradição e de desmentidos, seres instáveis, de pequenas demências, dos quais a poesia é a língua mais exemplar.

Há nela um gosto não só pelos sons, mas pela desafinação. O poeta relata: “Mas cuíca também falha/ Em plena Sapucaí/ Quebra a vara, rompe o couro/ Desarma o circo e o estilo”. A desafinação como uma nova maneira de os sons se encontrarem e se desencontrarem. Como uma outra arritmia, que perde o prumo, mas não deixa de avançar. O poeta, precavido, multiplica seus instrumentos. “Por isso, digo em sigilo:/ Tenho duas cuícas/ Florença e Nikita”. Iguais, mas diferentes – e é dessa diferença que vem a desafinação inevitável e original. “Enquanto Florença aflora/ Nikita quica/ E assim floreiam o mundo/ Desafinadas as cuícas”. Também a desarmonia tem seu valor. Também o desajuste é promotor de beleza, o poeta nos leva a ver. O mundo não é uma orquestra afinada e impecável; ao contrário, é um grande sopro de desencontros, e muita beleza sai disso.

Um poeta, portanto, que desconfia das excessivas habilidades. E que privilegia as diferenças. Por exemplo, a estranheza que ele encontra nas girafas. “ouvi dizer que elas dormem/ dez minutos a cada hora/ também pudera, natureza mátria/ com aqueles pescoços quilométricos/ (que um dia hei de beijá-los)/ um cochilo faz descansá-los”. Girafas: exceções em um mundo de exceções, e eis aí a origem da poesia. Nesses desencontros, nesses desalinhamentos. Em um poema como “Língua à Brasileira”, Turiba evoca Caetano Veloso, José Saramago, Guimarães Rosa, os irmãos Campos, tornando difícil que o leitor vislumbre uma ascendência nítida para sua poética. Poeta da mistura, Turiba louva seus vários caminhos, que volta a percorrer como um ermitão em busca do próprio nascimento.


Aprecia o indecifrável, o vago, aquilo que causa medo – tudo que os poetas de gabinete veriam como obstáculo e atrito, ele enxerga como impulso e leveza. Sabe que “dos signos, a linguagem é a mais subversiva”. Por isso não se interessa em organizar o desorganizado, ou em hierarquizar o que não tem posição fixa. Não: Turiba é um poeta em que a alegria de escrever (viver) serve de combustível primeiro. Escreve “por escrever”, e por isso é tão dono de sua escrita, ainda que ela lhe fuja a cada verso, ainda que lhe dê rasteiras e subverta sua própria palavra. As palavras se impõem, e Luis Turiba sabe ouvi-las. Vê Exu (perigo, mas energia) “até nas lesmas/ do mago Manoel de Barros”. Exu, anjo das manhas, em torno de quem o poeta se contorce para escrever.

José G Castello
Gazeta do Povo.09/02/2014

Pisar no cimento molhado



  
É a vida a escorregar. Já fomos cabeças de petit-pavê. Pulamos amarelinha no pinhão preto, desviamos o pinheiro branco, desenhamos em cartolinas na Rua XV. Pés pequenininhos mesmo. Só assim. Mas, crianças, não conseguimos ver ao longe.

O cimento bruto pode mudar se deixarmos marca, diversão registrada, mas acaba a brincadeira quando um carro enorme passa por cima de tudo, mistura o preto, o branco. O que era fresco agora é cinza e logo se torna imutável Afunda-se o mundo inteiro, de uma vez só.

E de repente surge o som do rádio, ligado no chiado da AM, jogo de futebol. O repórter da voz inconfundível, amigo imaginário de verdade – aposto uma figurinha prateada que tem cabelos brancos e é gorducho. Torcer no quarto, de luzes apagadas, parece tão estranho. Dava certo vez em quando: Régis defendia, Milton do Ó lançava com classe e Saulo encaçapava. Tortura era ouvir o anúncio de público e renda, sinal do fim dos tempos para quem está atrás no placar. Não há o que fazer. Fim de jogo, mais uma derrota.

Então chegam os dias que entram para a história porque fazem brilhar os destroços de ontem, sempre o melhor dia da vida inteira. Bar cheio, venturas de sábado, amores possíveis, prelúdios impronunciáveis, amizades momentaneamente eternas, liberdade. “Já veio aqui?” – descobertas. A conta se divide automaticamente, porque ninguém esbanja. Chega o aipim com bacon, e a cabeça está à frente, no quarto, na cama de lençóis limpos. Chega mais uma coca com gelo e limão e ficou para outro dia, como sempre fica.

Nesse momento de pulsar, em que tudo é possível, exageros brutais foram contabilizados, ressacas monumentais foram vencidas e havia, ainda – gasolina da juventude – a ideia de que o fim das coisas e de todos os processos ou era mentira ou estava a anos-luz de distância. Éramos menos cabeça e mais fígado. Muito mais fígado.

Neste momento em que você lê esse texto, estou em São Paulo para um festival de rock. Vão tocar bandas velhas (Travis e Blur) e coisas novas que fazem a juventude de hoje ser mais fígado que cabeça (Lana Del Rey). Se bem que...

Se continuar a fazer essa friaca em Curitiba, a estratégia para quando voltar vai continuar. Talvez seja ela, a estratégia, também o resumo de uma fase da vida que, puxa vida, está demorando a passar. Assim: mãos nos bolsos, do frio, que é como a idade – faz encolher os corpos e a esperança.

Me pego no sinal vermelho para pedestres enrolando os dedos indicadores no algodão do bolso do moletom. Coloco Blur ou Travis, fones nos ouvidos – é difícil viver em uma cidade sem passarinhos – e ultimamente piso no cimento molhado, deixando marcas, sem medo e sem se importar em limpar o tênis mais tarde, como deveria fazer. E como quase todo mundo faz.

Cristiano Castilho
Gazeta do Povo.09/11/2013




(...) saio do bar. o Pick Nick fica numa esquina triangular. nos fundos, uma rodinha de meninos com suas bikes e seus skates. fumam maconha. me aproximo, eles me oferecem uma bola. não faço isso tem mais de três anos. chupo o baseado. agradeço e saio caminhando a esmo. depois de algumas quadras, me escondo atrás de uma árvore e me alivio. as árvores são os seres da criação mais generosos, ajudam o oxigênio, além de dar frutos, embelezam a paisagem e deixam homens e cães mijar nelas protegidos por sua sombra. escuto me chamarem. viro, procurando. só o poste de luz, a calçada, o muro. exausto. estou exausto. sou tomado por um brusco aturdimento. a cabeça, o peso de uma bola de boliche. não estivesse grudada ao pescoço, rolaria longe, na sarjeta. chamam meu nome novamente. olho para direita, ninguém. esquerda, atrás, nada. não é ninguém, só os paralelepípedos escorregadios e a igreja em que as mulheres da família vinham às quartas para o grupo de leitura da Bíblia (...)

Luiz Felipe Leprevost

O pessimista acidental



 
Sou daqueles otimistas genéticos, para quem, mesmo à maior desgraça, o copo está sempre meio cheio, quando todo mundo está careca de saber que está meio vazio. Questão de temperamento, mais que de razão. Ultimamente, entretanto, tomado de algum sopro de melancolia da idade madura, ando com uma perigosa tendência a ver defeito em tudo. Não vou falar de governo, em que vemos o que queremos, e todos são historicamente mais ou menos a mesma – às vezes mais, às vezes menos – coisa. Mas dois fatos sociais da realidade brasileira assustam.

O primeiro deles é a taxa de homicídios. Prefiro não me referir à violência simplesmente, que lembraria algum gene inexorável da natureza humana (digamos, “dos outros”). De modo objetivo, fiquemos com a taxa de homicídios. Do que sabemos com certeza (e sabemos muito pouco no país da informalidade), os brasileiros estão matando 50 mil pessoas por ano, esses anotados um a um. Em termos absolutos, é a maior taxa do mundo; proporcionalmente, chega perto disso, e só perde para Estados muito mais desestruturados e menos complexos que o nosso, como Venezuela, Burundi e Honduras, o que torna ridícula, senão mais vergonhosa, qualquer comparação. Nem de longe países renitentemente afogados no terror ou em guerras civis político-etno-religiosas matam como aqui.
Por que o brasileiro se tornou um povo homicida? Ou sempre foi e não sabíamos? As cenas explícitas de tentativa de assassinato na arquibancada de Joinville se fundem com as cabeças decepadas das prisões do Maranhão e com a fria estatística dos mortos dos fins de semana da Grande Curitiba, mais os presuntos desovados em toda parte em berço esplêndido, e ainda os fuzilados no assalto da esquina, e mais o jogo de polícia e ladrão com papéis trocados, e daí por diante, numa máquina registradora de cadáveres que não para de apitar – uma locomotiva macabra.

Não sei. Não há uma só resposta. Mas vai aqui outra fonte de pessimismo, que talvez seja uma das mil respostas possíveis. O padrão do ensino médio brasileiro é um desastre monumental, a partir também de números frios, preto no branco: apenas 28% da população adulta brasileira tem ensino médio completo (na Alemanha, são 90%, só para o leitor ter alguma referência). Mais: segundo dados de 2010, apenas a metade dos matriculados no ensino médio conclui o curso. Mais ainda: só a metade dos jovens de 15 a 17 anos que estão na escola estão de fato no ensino médio; os outros se arrastam ainda no fundamental. São milhões de jovens aos quais, todos os anos, o acesso elementar à civilização é barrado. O que não fazia diferença no velho Brasil rural do cigarro de palha e da casinha de sapê, de estamentos para sempre imutáveis, no Brasil urbano, mutante e global de hoje tornou-se uma bomba cultural e social muito difícil de ser desarmada.


Batendo aqui e ali em surtos eleitoreiros, a ficha está custando a cair.

Cristovão Tezza

Gazeta do Povo.14/01/2014.| 

Serra por serra



Em algum tempo vazio
de glórias inertes
se meus ensolarados dias dão descanso
meses chuvosos eu ganho meus calos

Choramingando o destilado sob meu peito
eu poderia dizer que amo
A forca ausente na areia
Eu poderia me manter calado

Sobre inflar o ego
planejar o dia sem ter o seguinte
útero de pedra

com camada de névoa.

Redson Vitorino

É mais um dia



mergulhado em ressaca
o diabo é azul lá fora
preciso do café suicida
dos analgésicos sabor milagre.
Redson Vitorino

sexta-feira, 14 de março de 2014




Reticenciando





Destino Curvo


É Carnaval


Procura

fonte: nanciaki.blogspot.com

11 Croquis p/ Gesto & Desejo



1.

Se a mão esboça
a curva de um anca,

o tempo em dispersão
subitamente estanca

e o espaço precipita-se
constrito e necessário.


Marcelo Sandmann
Fragmento inicial de "11 Croquis p/ Gesto & Desejo", lá do meu "Criptógrafo Amador":
entre arranhões, rasuras e arranhados, vê-se a arma branca e a genitália decepada entre olhos umidificados em tom de azul-zumbi que zumbem tão zunindo em chão violáceo: o destino são os gatos brancos em corte de pêlos, cerebelos e membros. suas patas separadas - lindas em pares- são estrelas-ímpares, veia cava e uma extensa barrigada. veja, o amor, enquanto te ama, entre as marcas rubras ... entre os senões não dói... quase nada.

Adriana Zaparolli
o meu corpo
é onde escrevo
em qualquer chão
me deito
os carros passam
sobre o meu corpo
máquina muda
esqueço

js



encarei sol, chuva e vento
pela moça dos pavores
ela foi o meu tormento
derreteu os meus amores

vi seu olho de emboscada
comi terra, sol e nada
e morri de desalento."

RR

pássaro a pássaro



para que o pássaro
seja livre
diminua o espaço
entre o que escreve
e o que vive
Marília Kubota


("Diário da vertigem", 2014, Patuá).
en aislamiento un clado de reptiles: Lacertilia: varanos, iguanas y lagartijas. son cuatro patas, oído y párpados móviles, sus vestígios, en las aves, son perros salvajes, zorros e incluso gatos y uno es el monstruo de gila rosa, naranja y

negro-amarillos. a un ritmo lento de hombres o niños tan listos,

y

mi amor, mira, con sus ojos verdes

: nuestras flores, son lagartopedia, del verano entre dos basiliscos ... o satãn en paraíso.




palabras adriana zapparoli
eu não faço poesia
e encerro o assunto

é preciso o mundo
a roda do mundo
a mão humana do mundo

a poesia só vale
se trouxer comida nas mãos."
RR

Velhos Amigos

Era para ser só eu e você
Quando eu estivesse com você
Era para ser só o que precisávamos
Duas frações de vidas esfomeadas
Sem nada do antes
Sem muito do depois
Era para não ter o que dizer no
após do melhor de nós
Mas, sempre aparece um mas,
disfarçado de bem-educado
Nunca discutiremos em praça pública
Restaremos como velhos amigos
que jamais cometem a loucura de expor
que nunca foi amizade
Era uma história de amor.


 Alexandra Barcellos.

Curitiba Sombria


A cada dia, um novo caso de pessoas queridas, próximas, a serem atropeladas pela violência da nossa Curitiba, do nosso mundo, vasto e decadente mundo.
O que dizer? que começo a me sentir ameaçada em minha casa?
Eu que sempre andei com equipamento, dia e noite pelas ruas da cidade, que sempre desfraldei a bandeira da segurança, da fé pelas pessoas que respiram o mesmo ar que eu?
Continuo em minha rotina. Usando da intuição. Por exemplo, bolsa comum como forma de não chamar atenção a qualquer objeto de valor que eu possa estar carregando, quando na rua. Mas só quando estou sismada. Todas as vezes que me ocorreram incidentes horríveis, tive intuição de.
Mas entristece isso de um querer tomar o que é do outro, ao invés de correr atrás do que quer pra sí. Ou do que tem direito.
Me entristece ver as pessoas saquearem supérfluos, como a beleza física, por exemplo.
Só isso pode justificar, minimamente, o ocorrido a duas belas e jovens amigas que ao sairem de um bar foram levadas em seu carro e espancadas cruelmente, sem nenhuma agressão sexual, apenas crueldade. Por que? Por serem bonitas, inteligentes, talentosas e de bem com a vida? Em tempo, são heteras. Não que isso faça alguma diferença a mim, mas é que o ato muda de modalidade. Sai do nefasto clichê homófobico nazista. É retalhação à vida, mesmo.
Estão saqueando nossas vidas socias. A rua virou ringue, duelo ou qualquer cruel corredor, onde o algoz pode estar pronto a te derrubar, pelo simples barulho do tombo.
Será que passarei a ser sismada o tempo todo?
Bom dia?

Lina faria 

Entrou e foi direto ao balcão.
- vai tomar o que?
Com esmero e certa dificuldade em cair na real, furtivamente respondeu:
- decisão. Vou tomar uma decisão.
A partir dali não sabemos como procedeu. Mas todos sabemos que, muitas vezes, para isso servem os bares.

Élisson Silva

Jogral e a Prostituta Negra (farsa trágica)



Onde eras a mulher deitada, depois
dos ofícios da penumbra, agora
és um poema:

Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.

É à hora carbôni-
ca e o sol em mormaço
entre sonhando e insone.

A legião dos ofendidos demanda
tuas pernas em M,
silenciosa moenda do crepúsculo.

É a hora do rio, o grosso rio que lento flui
flui pelas navalhas das persianas,
rio escuro. Espelhos e ataúdes
em mudo desterro navegam:
Miras-te no esquife e morres no espelho.
Morres. Intermorres.
Inter(ataúde e espelho)morres.

Teu lustre em volutas (polvo
barroco sopesando sete
laranjas podres) e teu leito de chumbo
têm as galas do cortejo:

Tudo passa neste rio, menos o rio.

Minérios, flora e cartilagem
acodem com dois moluscos
murchos e cansados,
para que eu te componha, recompondo:

Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.

(Modelo em repouso. Correm-se as mortalhas das persianas. Guilhotinas de luz lapidam o teu dorso em rosas: tens um punho decepado e um seio bebendo na sombra. Inicias o ciclo dos cristais e já cintilas).

Tua al(gema negra)cova assim soletrada em câma-
ra lenta, levantas a fronte e propalas:
“Há uma estátua afogada...” (Em câmara lenta! – disse).
“Existe uma está-
tua afogada e um poeta feliz (ardo
em louros!). Como os lamento e
como os desconheço!
Choremos por ambos.”

Choremos por todos – soluço, e entoandum
litúrgicos impropério a duas vozes
compomos um simbólico epicédio AAquela
que deitada era um poema e o não é mais.

Suspenso o fôlego, inicias o grande ciclo
subterrâneo do retorno
às grandes amizades sem memória
e já apodreces:

Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.

Décio Pignatari

Infância


Tudo estala
descenso do acordar
nas praias do absoluto.
É grave a pedra
a pele desgarrada
o esqueleto do silêncio,
mas,
caminhos recordo
vida minha
de cada rua
espectro espanto
da melodia arfante.
Infância
sonho do cais
onde apenas foi
e que agora

não há ninguém.
________________ T.S.