domingo, 30 de março de 2014

quando a borda da vida te aprisiona
na tua pele gelada pelo medo
pode ser que ao teu medo ela adicione
a pancada da dor e do segredo

e tua mão não alcança todo o ato
quando a borda da vida é o enredo."
RR

A MÁQUINA



Aqui jaz meu poema
fazendo-se
de morto
na página que há
pouco
já foi alva
feito um teorema
que não se pode refutar.

Até que você o leia
insufle a vida
que lhe falta
e o transforme
em delicado mecanismo
que venha sorrateiramente atingir
o desejado alvo.

Touché?


Edson Cruz, ilhéu.

CRISÂNTEMO



Como uma palavra pode
ser tão bela,
soar como a vida
e ao mesmo tempo
carregar o perfume
do temor
e da morte?


Edson Cruz, ilhéu

A PEDRA


- poema para João Cabral e Drummond de Andrade -

A pedra ensina
esteja embaixo
esteja em cima
seja dentro
do tacho
A pedra largada
no caminho
ao meio
ensina tudo
com engenho
E nos ensinares
da pedra
há rios mares
severinos josés
e janelas. . .
- por JL Semeador de Poesias,  enquanto lia João Cabral e andava de trem pelos subúrbios da minha cidade –José Luis dos Santos


olhos fechados
cigarras silenciosas
de sono e bebida
beijos na boca
de chorar
os cavalos bravos
de galopar
pelas ruas
da cidade vazia
chorar não chores
o teu cavalo te leva
o teu cavalo te acorda
o teu cavalo insone
reino da fuga
herói despido
ele te levará
- fluido de estrelas -
para ver mundos
e adormecer
js.


Um escrito sobre meu avô:

          

Chapéu de palha
calos sem oração
terra...
Sol quente na cabeça
o inferno em cima
terra...
Suor e esforço
fim do dia
terra...
Coletivo individualista
parando mais do seguindo
É terra ainda...
Abrindo a porta "meu amor"
pulando no pescoço "pai"
É terra ainda...
O peso dele comigo está
lutar nunca é vão
terra...
Mesmo tendo caladi-se
o sangue corre em mim
terra..

Redson Vitorino    


A tristeza


Eu queria a chuva e negava o sol
Alguns momentos e havia um gole
uma fumaça que descia pela goela
tossindo e deixando-me
então eu percebia e negava-me
ela não estava perto

então chorei sozinho

Redson Vitorino

IML


Saberá ainda que mantenho teu
gosto conservado na minha garrafa
de carne e osso

Redson Vitorino   
                

sábado, 29 de março de 2014



Eu fui um animal solitário numa outra vida
Nunca soube o nome do hospedeiro silencioso
do meu passado
Guardo resquícios de seus hábitos no meu
estranho modo de caminhar
Preservo uma audição que jamais pertenceu à
espécie humana
Eu fui um animal solitário numa outra vida
Ensinei meus filhotes a andar, beber água e
caçar antes de tudo por si mesmos
Depois, liberei-os para o mundo
Naquela vida não existia luz
Naquela vida as horas eram lentas
Naquela vida eu não precisava chorar
Eu costumava passear pelos galhos das árvores
ouvindo histórias de tribos do mundo inteiro
Eu fui um animal solitário numa outra vida

E nunca mais eu fui tão feliz.

Alexandra Barcellos

1 microconto noir

havia matado 3 baratas naquele dia, mas qual delas teria sido gregor samsa?

Ricardo Pozzo

quinta-feira, 27 de março de 2014

Rio Pequeno



A Poeta Camila Vardarac


notas sobre Dalton Trevisan


1
O primeiro livro do Dalton que li foi Abismo de Rosas. Nunca mais parei de ler o mestre. Desde o começo sabia que sua obra faria bem de perto acompanhamento especial em minha vida, fosse pelo exemplo máximo do gênio artístico, pela devoção ao trabalho constante, pela coragem para ser único e radical em sua escolha. Hoje, tantos anos depois, agora que não lembro detalhes do Abismo de Rosas, mas sim de seu espírito maior, já que os contos do Dalton, vistos ao longo dos anos, não são para mim senão que um verdadeiro “poema contínuo”, um pulsante painel humano, fica-me como síntese a imagem daquela capa azul, com a pálida mulher nua, os bicos dos seios roxos e grandes, a flor no cabelo, o rosto de perfil que traz o olhar que, na época, considerei egípcio e austero. Mais a arara vermelha que imediatamente me remetia à casa da avó paterna em minha infância, ou seja, não só o signo lido na arara da Curitiba que fora e já não era mais, porém o de um Brasil que sofria o mesmo fenômeno, quero dizer, um país cuja exuberância recebia (e ainda recebe) em troca a moeda das mais variadas formas de violência e, por consequência, da aparência hipócrita que tenta canalhamente eximir culpados ou, até, produzir a ingênua ignorância e inconsciência sobre os atos vis que a todos nos pareceriam não mais que banalidades do cotidiano – motrizes, se é que me posso arriscar tanto em teorizações, da obra de Dalton. E aquela mulher de seios coloridos, voluptuosa, dada, nua, ao mesmo tempo sem cor, ou seja, sem presença, como que perpetuamente (dentro de uma sociedade altamente machista e violentadora) fazendo-se colorir pela obra do escritor, em todas as suas facetas (imagináveis e inimagináveis), ao longo da vida. Isso, certamente, para dizer o mínimo.

2
Quando olho, entre os tantos e inesgotáveis Daltons, saltam-me um pouco mais nítidos quatro deles, que são, obviamente, facetas de um mesmo. Talvez não sejam academicamente reconhecíveis, pois estão ligados estritamente à minha experiência.
O primeiro. Minha avó materna era amiga da esposa do Dalton. Elas se frequentavam bastante. O Dalton nunca ia. E meu avô julgava antipático da parte do Dalton essa postura. Anti-social, pois. Mas não era só antipatia, a meu ver. Era, até certo ponto, transgressor se pensamos numa determinada Curitiba burguesa, de classe-média de trinta, quarenta anos atrás, bastante conservadora, em que uma senhora cumpria certa agenda social sem o seu esposo. Não devia ser nada agradável, para nenhum dos lados, nem para quem julgava, tampouco para quem era julgado. Mas ainda assim, a esposa do Dalton (não me lembro o nome dela, preciso perguntar para meu avô) mais o Dalton, bancavam tal atitude, essa vontade (ou dificuldade, sei lá) dele. E nisso um modelo, um padrão, dentro de uma comunidade, era colocado em xeque. Tem a ver com a vida íntima do Dalton. Agora, me pergunto, quantos ali daquela roda liam a literatura dele, compreendiam que sua postura também tinha a ver com a construção de uma obra literária, quem compreendia que muitos de seus contos, justamente, saiam de poções que incluíam até mesmo os afetos que aqueles julgamentos todos provocavam? O quanto uma Curitiba nesse caso está dentro da outra?
O segundo. Penso na Curitiba pré Jaime Lerner. Eu era muito pequeno quando as transformações urbanas operadas por ele começaram. Minha memória conhece mais uma cidade já mexida pelo Jaime do que a anterior. Mas algo da anterior se mantém em algum lugar de mim, até mesmo saudosamente. O segundo livro do Dalton que li foi a antologia (hoje um clássico) Em Busca de Curitiba Perdida. Ali está a dura acusação de Dalton sobre um Lernismo que forjasse, falsificasse uma cidade a partir de outra já existente, uma cidade, por exemplo, merdosa, para inglês ver. Ali há o cruzamento temporal de duas Curitibas, aquela dos colonos com suas galinhas nos quintais e seus vinhos de garrafão sendo engolidos pela cidade tecnológica dos publicitários e designers, a tal Curitiba de ponta. Dalton se vê no vórtice dessa pororoca temporal, talvez por sua idade, por ter tido a oportunidade de viver a Curitiba anterior e agora, ao longo dos anos noventa, saudável e na maturidade artística, estar colocado no ponto nevrálgico dessa interseção entre o antigo, o moderno e contemporâneo que se insinua. Ele encara e vive as transformações, pois não há outra escolha para um artista de sua estatura. A cidade crescida, inevitavelmente, agora incorpora outras múltiplas e polimorfas modalidades de violência e, por que não?, de beleza, e a obra de Dalton tem o interesse por cada uma delas.
Então, o Terceiro. O poeta do crack. Trágico, o crime sempre ao alcance do ato de qualquer pessoa, do cidadão comum e inocente (será?), ou do perverso inconsequente fora-da-lei. Na cidade cada vez mais amedrontada, gradeada pela paranóia da segurança. É na rua que Dalton encontra as vozes de seus bandidinhos viciados, de suas feiosas prostitutas de guetos. Até onde me lembro, ele foi o primeiro escritor da cidade a enfiar em sua literatura de modo explícito e sintomático o exacerbado consumo de drogas dos nossos dias, seja pelos miseráveis, seja pelos meninos de família. E as consequências físicas, psíquicas e, num âmbito mais amplo, sociais, que se seguem. Primeiro o cidadão deixa de ser cidadão, depois o corpo deixa de responder ao mundo como corpo e é só um estorvo a mais sobre o planeta do sem-sentido. O trafico também não perdoa a dívida de ninguém. Nem o delegado corrupto perdoará. Foi Dalton quem primeiro nos disse: olhem para isso. Sim, ele sempre viu e vê antes que todos os outros.
O Quarto. Este Dalton se encerraria numa muito polêmica frase que andei dizendo por aí um tempo atrás: todo Dalton Trevisan tem um pouco de Emiliano Pernetta.

3

Dalton é cruel, o estilo corte seco, sem dúvida, mas também, nisso, sonoridade e exatidão, a preocupação rítmica, melódica, a eufonia. Não só o uso da gíria da rua, mas a mistura de um vocabulário chulo com expressões que são peculiaridades só dele, marcas que se repetem, se reinventam a cada livro. A violência no/do amor, suas ninféias famintas, o incesto muito que humano, as balzacas desesperadas por gozo, outras incendiadas vivas, anciões babando a sopa rala do desejo. A prosa de Dalton está cada vez mais próxima da poesia, logo, mais próxima de nós os seres vivos, cada vez mais sustentada por um mínimo de ação em que o epifânico acontecimento da linguagem se dá anterior a necessidade de se contar uma história. Epifania no sentido Joyceano, a da vida que brota porque tem que brotar, seja dos lugares mais impossíveis, mais sem esperança, no caso dele, em sua maioria, banais e miseráveis. É daí que Dalton tira a poesia, e é para a vida que ele a devolve, diria, sem dó nem piedade, mas com uma das mais fulgurantes cargas artísticas que a literatura brasileira (e até mundial) já conheceu. Ele responde com arte, sempre com arte e não com ideologia demagoga. Por este exemplo, sua atualidade já se firma. Mas há mais, há a construção estética de algo infindável, o prazer de lê-lo nunca abandonará os seres humanos enquanto houver seres humanos. O futuro lerá Dalton Trevisan como hoje lemos Shakespeare. Lemos para aprender, para tentar entender. Lemos porque ele refunda uma ideia de ser humano. Lemos para existir fora da barbárie. É uma História maior a que Dalton confeccionou, é a História da modernidade e sua continuação, que hoje estamos vivenciando, a História do século XX entrada com lâminas sujas nas costas do XXI. Viremo-nos com isso, com essa dolorosa beleza. O universo de Dalton está tão bem confeccionado que, já se provou, uma só frase faz o mundo todo. Sua ficção vem cada vez mais, repito, aproximada da poesia. Lírico, Dalton inventou-se raríssimo. Se seu ataque inicial acabava por ir nos espaços mais sombrios de uma Curitiba provinciana de décadas passadas, sua obra hoje é a de um autor que não admitiu para si descansar na glória e parar no tempo. A cada novo livro, obriga-se a enfrentar problemas relacionados a Curitiba do agora, que é uma metrópole, e que é o mundo todo. Sem dúvida, ainda há resquícios da província de outrora encruada na mentalidade dos habitantes deste estranho lugar – a tais dimensões complexas, o escritor não se nega. No entanto, que espaço, senão o risível, restaria na contemporaneidade para seu vampiro canalha, quando a realidade mais real é também a mais absurdamente hostil e sanguessuga? Pobre vampiro acuado, o canalha de hoje não cabe em estereótipo algum – as garotinhas de dezesseis anos do Baixo Trajano fariam, ora bolas, picadinho de Nelsinho. O mundo está por demais pornô (em muitos sentidos), feito os mais recentes livros de Dalton Trevisan.

Luiz Felipe Leprevost

cantiga de roda

é uma cantiga só
de um poeta na estréia
nasceram bibi e dodó
as flores da paulicéia

a mãe é flor amorosa
o pai, violão, bandolim
uma com a face da rosa
outra com a cor do jasmim

bibi, beatriz, abelha
dodó, de caymmi, dora
uma na ponta da telha
outra na pele da aurora."


( set. 2008, romério rômulo)

MINHA IRMÃ




vida que
segue

enquanto
a vida não

consegue
ser irmã

mas a irmã
consegue

Ricardo Aleixo




bateau livre de palavras caídas no tempo

quasimodo tonto da cidade
vê panta rei de tigres
nas águas tarkovskyanas
que me lavaram os cabelos
chove na praça afonso pena
novena heraclítica
estou no meio salto

as quatro pombas de bandeira

Roberta Tostes Daniel

Para quem me abraça: todos os meus dedos.
Para quem desalinha cabelos: os pelos do meu corpo.
Para que me beija: beijo de poro a poro.

O corpo: repouso de fendas abertas.
Os pelos: todos os meus poros.
Os poros: alma transpirada.

Veneno eficiente do beijo,
Desalinho em dedos,
Quem beija?

Para quem beija: fendas abertas.
Para quem abre: dedos, abraços.
Para quem repousa: o amor.

Roberta Tostes Daniel


(2003)

Ruas de Curitiba segundo um polaco

E o polaco diria: 

Bein mau = Carneiro Lobo
Padre Gostosinha = Padre Agostinho
Sandalia Marinha = Saldanha Marinho.

Ulisses Iarochinski


Amanheci com um riso de estrelas tatuado nos lábios entreabertos da noite.

Helena Sut

soe estranho
sou estranho
sói estranho


hello stranger

Roberta Tostes Daniel

segunda-feira, 24 de março de 2014

Ciclos

O pedalar, um ciclo de vai e vem
que apenas
vai
   vão
      vamos
Magia fazemos
com as vindas e chegadas.

Nas idas e partidas, apenas lágrimas
escondidas atrás de um até logo.
A caminhada interrompida não é desistência.
Às vezes precisamos descer
antes do ponto final.

Nesses trajetos aprendemos sequências várias
e até criamos e/ou adaptamos outras tantas.
Percorrer tantas estradas que pensamos conhecer
para mascarar a ignorância diante de si próprio.
Após mapear-nos saberemos quais  monstros nos habitam.
E quais perigos são reais.

A caminhada não é tranquila nem harmônica.
Entediante, só as paradas, a espera.
Seguir a passos lentos.
Correr.

Em ciclos que apenas vão


Deisi Perin

O passado assombra desejos.

O passado assombra desejos.
A consciência embriagada de culpa
denuncia fraquezas
aponta erros.

As lágrimas escorrem
para dentro
e os olhos secos não veem
a sombra no branco das montanhas
formando tua face.

As nuvens, inutilmente
embaralham tua imagem.
A névoa do talvez
tenta embaçar teu sorriso.

Lanço-me nas trevas
para ver melhor
o brilho das estrelas
e vislumbrar teu espírito delicado
e uma profunda beleza
na tua intensa e misteriosa
forma de preencher minha vida.



Deisi Perin
"... a língua bífida de radar pugilista localizava a paz tísica em hábitos gregários, sobre os telhados crepusculares de saliva anticoagulante. beijava delicado. aquela que era a entrega em caixa de música e reproduzida melodia em disco de vinil. um comportamento trófico. ele quase uma raposa voadora... "

Adriana Zapparoli

- esse é um fragmento de minha poesia, em O Leão de Neméia, publicado na coleção Caixa Preta (organização de Claudio Daniel) pela Lumme Editor. está disponível para aquisição pelo email da editora: vendas@lummeeditor.com 
ou pelo site da livraria cultura 
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=22586690&nm_origem=rec_home_geral&nm_ranking_rec=1

não é por vaidade
que se demonstra haver nas coisas
o seu desejo de ver

debruçar os olhos além dos ditames
da forma, talvez

se conhecesse a cadeia de escândalos
na qual uma mulher se abandona ao espelho

profundamente olha
querendo a sucessão

de cada existência, ínfima, que a penetra
é um dardo e que tem por olho a direção

quer fazer de todas as coisas o alvo
e está em todas as coisas

ela mesma, ausente
um palco
catártica e silenciosa

até fazer um furo -
se não refratasse tanto


no escuro, a pupila.

Roberta Tostes Daniel

Parte arrancada




O ódio bebo de dentro pra fora.
O medo bebo de fora pra dentro.
De noite não é o olho que chora:
É o estouro da represa do tempo.

meus monstros ainda os vejo;
Eles ainda me apagam sempre;
Mas agora só olho o presente,
me achando de novo no espelho.

nunca deixei de ser muitos:
aqueles muitos que eu não era:
os espanco onde antes houvera:

mortes sem vida sem primavera:
delirios e pesadelos abruptos.
E renasço da flor de meus lutos.


Julio Almada, Poemas Mal_Ditos
A tatuagem cobria-lhe o abdomen, virilha e roçava a perna e, ela o amou só com as tatuagens de sempre: um outro desenho em todos tatuado: conheci gente que só tinha o corpo como patrimônio e ainda outros que de seu só tinham o sarcasmo, o escárnio e o esquecimento. Ela pediu-lhe: retoque o nome da outra: faça um cacete ou um dardo ou uma teia de aranha , mas cubra esse nome: ah, por precaução no caminho tatue uma bala em movimento para extirpar todo passado.


Julio Urrutiaga Almada

Extensas Brevidades



O fio de luz
é a teimosia.
De algo ser:
a brevidade da vida.


Julio Urrutiaga Almada

Vida de cão



O cachorro vira-lata atravessa a rua movimentada, por São Francisco de Assis, não é atropelado, a língua de fora pede sede , trançando as patas de fome, com a cabeça baixa e rabo entre as pernas de desesperança para na frente de uma loja material de construção. Olha algumas casinhas de cachorro que ficam expostas do lado de fora da loja, parece sonhar com sua casa própria, ninguém vem atende-lo e nem toca-lo. Tímido, olha para os lados, percebe-se indiferente, entra em uma das casinhas. Até as dezoito horas daquele dia, estará protegido das ruas , quem sabe, orando à São Francisco por dias melhores! JDamasio
procurava o amor esquecido em lugares obscuros e sem sentidos; e procurava ... procurava o amor entre o claro e o escuro, pelos rios, entre os mosteiros beneditinos, entre os europeus e os neolatinos; procurava o amor por caminhos inseguros, entre os momentos duros, impossíveis e mais cretinos; procurava o amor entre os muros e as imagens de homens santos, em seus detalhes bizantinos, e seus assuntos frívolos; procurava o amor em horários vespertinos, entre colchões e camas de pino, em espaços clandestinos ...
procurava o amor para beber os meninos, seu objetivo, até matá-los imaturos em seus espaços cabotinos.

porque os tigres são mais bonitos
no inverno... e as adagas

virulentas. não dói quase nada.

Adriana Zapparoli

Aviso de camarada


__ Alô, Neguinho?
__ É ele, quem?
__ Alemão, fala aí, como anda as coisa?
__ Eu tô vendo o...
__ Legal que está bem, cara! tava grilado com o camarada, Tive um péssimo pesadelo com você parceirão!!
__ Mes-mesmo...?
__ Sim, nem devia te contar para não ficar pirando , sabe como é! Mas precisa saber do barato do sonho, ta ligado? Cara! Você estava na minha frente agonizando, tinha levado dez pipoco só nas pernas e braços, dois na barriga um na fuça. Sei lá quantos ao todo, nem sou bom de matemática mesmo, entende! Estava lavado de sangue, se contorcendo todo e esticando sua mão para mim. seu sangue escorria pelo bueiro, Foi horrível!
__ ...
__ O pior que tudo isso por conta de um divida boba. Um acertinho de uns bagulho. Acredita?
__ Acredito, sim! Acre-dito nessa semana, juro, pago aquela grana!
__ A tá... Nem tava pensando nisso. Espero só até sábado aqui em casa, sem falta! Falou amigão, meu camarada.!


JDamasio/ Julio Damásio Morreu + 113 continhos / 2006

Testamento



Meus velhos amigos não são
Velhos. Meus velhos amigos
São leves.

Nem longos, nem muitos, nem breves.

Meus velhos amigos leves
Tampouco não sendo muitos
Para mim são poucos.

Não pesam, não faltam não sobram.

Mesmo leves
Não há quem de mim os leve.
Quando se vão nem eles sabem.
Não voltam pois nunca partem.


Julio Urrutiaga Almada do Livro Poemas Mal_Ditos

A vida é um cão que nos devora começando pelos dedos

Inventário das perdas nº 1

Nada dirias de veneno se bebesses o veneno-sangue de asas partidas dos enlaces apodrecidos. Onde nada mais resta que sentir enjôo ao ver a mesa do Amor - esta fictícia mesa de bodas embolorando ano a ano - As laranjas apodrecidas de cascas encrespadas verdes. Duas laranjas-corações em uma fruteira desbotada. E o tempo acrescentando bolor, acrescentando bolor...


Bárbara Lia - pequeno fragmento do romance inédito "A vida é um cão que nos devora começando pelos dedos"

Notícia


O beijo
Que me deste
Era frio
E me acabou
O amor
Que eu mentia
Era louco
E te zombou
O jornal mancha
Meus olhos
Tinta que não sangra:
Vicia.


Julio Almada, Do Livro Poemas Mal_Ditos


Fui visitar um antigo sebo de Curitiba, na marechal Deodoro, gosto de folhear livros velhos, os fungos me fazem bem para a sensibilidade. Para minha surpresa, no local havia um novo e pomposo salão de beleza. Também não faz muito tempo, fui até uma tradicional livraria, XV de Novembro, queria ver quantos dos meus livros ainda estavam lá, nenhum. Na verdade nem a livraria estava, havia cedido espaço para uma loja de perfumes. E assim, as pessoas seguem na vida mais bonitas, maquiando e perfumando a ignorância.
Julio Damasio

Faltando um luar



A indiferença faz a diferença?
A indiferença dela
É diferente.
Parece soda e ácido
Mas não passa:
De um rosto transparente,
Que abandonou os olhos
E o coração,
Ao desconsolo da mente.


Julio Almada do Livro Poemas Mal_Ditos
"Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é o da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? - perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano."
 (Mário Quintana)
hoje você não sabe o que eu fiz hoje
a minha intuição de que 2013 era meu último ano na arte, tava certa
me sinto realmente cada vez mais distante
tenho visto gente morta (viva)
pode que seja por eu ainda estar entre elas, mais do que por ter poderes especiais
sobre a minha briga pesada de ontem, chego em óbvias conclusões: todo mundo tem ajuda de algum lugar (quem dera o meu pai, também um senhor de respeito como aquele - por alguns momentos pensei que ele estivesse armado, não sei -, estivesse na minha manga pra uma cartada pacificadora), todo mundo está devendo pra alguém, todo mundo está mordendo alguém, todo mundo está se submetendo a alguém
se bem que, fora da moral, eu pudesse afirmar: dívidas tenho muitas, dúvidas sobre elas bem mais ainda
o que eu fiz até aqui, eu fiz
alguns podem achar bom
a maioria pode achar uma merda
pensem o que quiserem, sei lá se escrever é uma íntima pesquisa humana
sei lá se escrever é entrar num laboratório afetivo e
recombinar uma série de poções explosivas
sei lá se escrever é inventar outros mundos possíveis e impossíveis
sei lá se escrever nada responde
sei lá se escavo, se vasculhe o que não compreendo, se ao escrever queimo mais a mão
enquanto você couber, você suportar, tudo é pesar do mundo (tirei isso mais ou menos de um poema da Ana Cristina Cesar)
e deve de ser por aí a certeza de estarmos vivos
vou terminar o livro que tô escrevendo, aí vou fazer mais um do mesmo tamanho
com eles, mais o Dragãozinho Ferido, fecho a Trilogia da Geada
e então, deu
se você acorda de manhã, tem que se voltar pro coração
em rancor, júbilo, fétido bafo da boca aberta, tédio, esperança, pele quente qual pão saído do forno, coragem, dor, você tem que se voltar pro coração
chame estar vivo do que for, tem muito segredo aí
a vida ainda não se negou
por pouco calor que haja
por pouca luz, pouco amor, a vida não se negou
sabe, de todas as pessoas com quem já discuti “ideias” ao longo da vida, de grandes intelectuais a alcoólatras donos de botecos, sempre sempre sempre que seus argumentos terminavam, vinha o golpe desesperado: que que cê tá falando, você é um playboy de merda
é o típico jeito de tentarem me ofender
lido com tal baixeza tem anos
pra muitos eu sou um playboy de merda
por outro lado, alguns playboys (de merda?) de verdade (sim, eu os conheço) me chamam de poeta
serão esses playboys mais sensíveis que parte do “pessoal da cultura” da cidade?
ah realmente não sou um dentuço cheio de ânimo
um dia tive uma namorada e a nossa canção era Alma Gêmea, do Fábio Jr - eu curtia muito
pode que hoje não tenha flores no café da manhã, mas buzinas
elas ao menos provam que você ainda não tá sozinho num mundo de sozinhos
uma cidade “pode destruir um indivíduo ou permitir sua realização, dependendo muito da sorte” (não sei onde li, mas li)
você acorda de manhã e pode entoar a Oração Védica, se quiser
onde há ventos suaves, rios tranquilos, plantas que são alimento e remédio
e árvores com doces frutos
e vacas que emitem luz e sol no self
e a terra é benéfica de forma igual pra todos
mas o mundo andergraude (de todas as suas “ontem a noite”) é bem uma igrejazinha como qualquer outra
e mesmo nela a hipocrisia reina – humano seu nome é hipócrita
meus amigos politizados não querem que eu seja um produto
meus amigos politizados não admitem que eu seja um produto
vejo em mim a indiferença por alguns atores crescer vertiginosamente
e pelo mundo do teatro em geral
sinto-me tolo por ter acreditado em mentiras como aquela de que no futuro o teatro será o último oásis onde o homem encontrará o homem numa espécie de redenção
um bando de passarinhos cruza o céu e entra nas árvores – lindo
uma mulher gorda se inclina cobrindo os seios com os braços cruzados – lindo
as cabeças dos homens de negócio parecem frutas amadurecidas demais, estranguladas pelos colarinhos – massa
chegam-me porções de rostos sem sorrisos mas com a Oração Védica ou sem ela, se você acorda
tem que voltar pro coração, logo, pro clichê incansável dos publicitários do amor, que são os compositores populares de todos os tempos e os seus imitadores baratos infestando as noites dos bêbados de sempre com seus aplausos de marionetes uns dos outros
sim, tenho visto gente morta (viva)
e pode que seja por eu ainda estar entre elas, mais do que por ter poderes especiais
daí que pode que eu esteja vivo nesse buraco
e que alguém que vê gente morta (viva) esteja me vendo
a umidade faz mal aos brônquios
e o cara do andar de baixo tem calopsitas de estimação soltas no apartamento
lá fora, por outro lado, há o transporte coletivo “da melhor qualidade”, segundo a assessoria dos políticos – ambos, políticos e assessores, são “u ó”
mas ninguém jamais ficará sozinho num mundo de sozinhos provando quando onde e como o modelo do fordismo é a coisa mais escrotamente antidemocrática
ein?, pergunta um campeão
andar por essa vida a essa hora é mesmo um puta de um demasiado contar com a sorte
sobre o trabalho musical que um dia fiz, bom, nunca pretendi mais do que poder afirmar: eu sou uma dupla sertaneja
então, foda-se
hoje já não tenho dúvida que aquele foi o meu último ano na arte

Luiz Felipe Leprevost 


Um motorista de táxi velho. diz "sim, senhora", sem se sentir depreciado. dirige com tranquilidade. não falo com ele, porque gosto dos raros motoristas de táxi silenciosos e com sentimento de cumprimento de dever. só encontrei mais um, em Curitiba. era japonês (não parecia um descendente, que é mentalmente mais inquieto), e parecia tranquilo em dirigir e ser atencioso sem falar nada. é tão difícil encontrar essas pessoas que parecem ter saído de um filme de Ozu, aparentemente imperturbáveis diante das contrariedades da vida. me impressiono com quem cumpre tarefas sem que pareçam um transtorno. ou que elas tenham que demonstrar o contrário, que é uma alegria, quando se vê que é uma pesada imposição social. não sei porque admiro os que se disciplinam quando meu espírito é anárquico. O anárquico vem por conta de sentimentos desencontrados. de eu nem sempre saber o que sinto ou penso. sensações que parecem não estar no lugar, se é que existe um lugar para elas. também, de outro lado, a disciplina pode eliminar o caos necessário para as transformações. e se é imposta por outro, volta a se transformar no caos.

Marilia Kubota

conversa surreal há pouco:

Roberta Tostes Daniel



- pesquisas recentes apontam a existência de um campo magnético ao redor das camas, incidindo sobre os corpos, em dias de chuva. desconfia-se da umidade, mas deve ser preguiça mesmo.

a chuva é uma reverberação do infinito

mais caseira, chega como uma criança

deita no chão das coisas, onde meu corpo

é nuvem.
Roberta Tostes Daniel

Quando se chega
ao branco dos cabelos
e nos doem e estalam os ossos
e o cristalino dos olhos
já perdeu os seus cristais
e as posições do Kama Sutra
são mais infiéis
que a posição do Buda
coluna ereta e mente liberta
de todos os ais
é que se descobre
ao lavar os pés
ainda com certa graça
e muito júbilo
que se pode pousar
sem academia
o corpo no ladrilhos
em posição de garça.


Rosa ramos.

sexta-feira, 21 de março de 2014

riverão viagem
do rio cidade

mesopotâmia
em meu corpo

nunca saberei
de ti

em mim o rio
é quem cabe


js.

notívago norte




nave lúcida, nave náutica. serei nausica neste vale de nuvens niqueladas. pois minha nítida nárnia nebulosa sonda os navios narcóticos de nuances que nos nivelam ao never more!
nanosferas nórdicas, ou de nêmesis, nocauteiem o nosso nunca nidificar nas necrofagias nativas de nosferatus neandertais! nas núpcias de nadas, que possamos nascer numéricos em netunianos núcleos! napoleônico me negocio, nudista sob nogueiras noturnas. eis-me néon necrosando novelas nutrientes. nivelado como um nimbus noturno sobre os noticiários: creio-me nômade, noutrolugar.


(e que a nova ortografia se negrite!)

Andréia Carvalho Gavita
O tempo mancha meus livros e meu rosto. É assim, tirano tempo... Mas o tempo que conversa comigo (no entretempo de minhas leituras) se justifica - olhe também para o valor das marcas inscritas nas suas páginas. Sim, está certo, meus livros e meu rosto registram também inúmeros afetos.
Glória Kirinus 

Ponto Final




ocluso destino
nó esgarçado
pés resvalando
musgo e cascalhos

o anel era vidro
o favo fel
tudo se quebra
morre
anoitece:

ponto final


Bárbara Lia\