sábado, 3 de maio de 2014

Homem corre no início da manhã de ontem no Parque Barigüi




CABEÇAS


Contar cabeças como janelas
dispostas em diagonal;
uma coleção de lagartos;
palavras sumérias;
trevos de quatro folhas
impressos num álbum.
Cada cabeça tem um nome
que pode ser relógio,
intestino, alfinete, isopor.
Há uma infinita variedade
de nomes estranhos.
Cada cabeça tem um preço
gravado em código de barras.
Geladeiras são mais caras
que testículos; formigas,
mais baratas que saudades.
Cada nome é um preço
composto de letras
em número par ou ímpar;
cada letra tem linhas retas
ou curvas, como os mexilhões.
Isto é tudo o que há para dizer.
Vamos acabar de contar as cabeças.
Para Abreu Paxe, 2007



Claudio Daniel

PAISAGEM-VÉRTEBRA


I
Vozes multiplicam-se;
lanhadas peles
vociferam, guturais.
Escarnece paisagem-
vértebra-canina:
o lento apodrecer
da lua, frágeis estruturas
para o canto, aqui
onde peixes jogam
cartas com os vermes.
Apenas o noturno
pugilato das retinas,
o andar desmembrado
de uma a outra esquina.
II
Desconcerta animosidade
entre polegares,
entre olhos;
desconforto ao cruzar
essa, aquela rua —
como num desgarre.
Algo que arranha
com unhas de corvo,
deixando incisões.
Escurece palavras simples
num dialeto de esgares;
vocaliza o ruído áspero
de uma lixa no espelho,
céu de estrelas aleijadas.
III
Paisagem de linhas
retorcidas
como ferros
de uma paisagem amorfa.
Desavença de cores
no espelho retrovisor;
cicatrizes alinhadas
nos pulsos, em desenhos
de fetos inanes.
Esquinas meretrizam
esqueléticos ângulos
na noite desfocada.
Unhas negras, peitos brancos,
hora sem cor,
autofágica garganta absorve
o asco de tudo.





Claudio Daniel

EM TEMPO DE ELEIÇÃO



O político
beija o rosto
das crianças pobres
barrigudas das verminoses
aperta a mão dos eleitores
esfrega a mão nos cabelos
das moças desdentadas
depois se lava com álcool

e logo se esquece de qualquer sentimento.

Augusto de Abreu

O Estado e o cidadão



De volta ao Brasil, senti o impacto de uma viagem às avessas, um mergulho para trás. Primeiro, me disseram que haveria por aqui uma nova Marcha da Família com Deus conclamando pela volta da ditadura. Comecei a rir, até perceber que falavam sério. Depois, li declarações de um ex-torturador. Ele explicava, com frieza de psicopata, como fazia desaparecer as pessoas de modo que não deixassem vestígio ao serem lançadas nos rios. Bem, homicidas sádicos e estripadores são figuras que desgraçadamente existem na vida real. Basta acompanhar o noticiário e vemos pais que jogam filhos pela janela, adolescentes que estupram e matam, senhores que guardam cabeças no freezer – o horror da condição humana não conhece limites. Para nos defender dessas situações-limite existe o Estado, que, num processo civilizatório de séculos, assimilou enfim o conceito do monopólio da força: só ele tem o poder de polícia, e, em tese, luta por garantir a integridade de seus cidadãos, quem quer que sejam.

O espantoso da notícia, entretanto, é que o torturador agia em nome do Estado; recebia proventos para o seu trabalho, obedecia a uma cadeia legal de comando e estava perfeitamente protegido pelas instituições no poder. Não foi um maluco solitário, um fanático qualquer, que sequestrou Rubens Paiva – e escolho apenas simbolicamente um entre muitos –, matou-o e deu um fim ao seu corpo. Foi um funcionário do Estado, a seu serviço. Assim como o consequente apagamento da memória do fato e de seus detalhes foi, e vem sendo, uma ação burocrática de Estado – no caso, a recusa do Exército de abrir seus arquivos, provavelmente sob a angústia de uma dupla vergonha, a da ocultar a história, de resto pública, ou suportar, também publicamente, sua revelação.

Não vou discutir aqui as variáveis políticas do caso ou a Lei da Anistia, que permite interpretações complexas e respeitáveis. Nem relembrar diferentes momentos históricos, como se o horror do passado justificasse o do presente, numa cultura em que nada sai do lugar. O passo que agora me interessa é apenas o da linha que separa a civilização da barbárie: a consciência do papel do Estado e do lugar do cidadão, uma distinção elementar que parte substancial de um Brasil embrutecido tem sido incapaz de aceitar. O retrato do atraso está exatamente aí. Comparar o monumental poder do Estado – a gigantesca máquina do governo, controlando Exército, Marinha e Aeronáutica, mais todas as polícias do país – com a ação de meia dúzia de guerrilheiros, ou idealistas, ou terroristas, ou delinquentes, ou idiotas, ou lunáticos (o leitor faz sua escolha), além de vítimas avulsas, como Herzog ou Rubens Paiva, presos e assassinados, como se se tratasse de uma “guerra” – e em que espécie de guerra é preciso desmembrar os mortos e fazê-los desaparecer nos rios? –, é torturar mais uma vez a inteligência do cidadão.

Cristovão Tezza.Gazeta do Povo. 01/04/2014

Fragmentos de um diário da China




  O primeiro choque para quem sai do Brasil e vem à China são os aeroportos. Primeiro, os escombros patéticos de Guarulhos, com multidões trombando em toda parte atrás de algum espaço, informação ou conforto, dando a impressão de um aeroporto no último limite de sua capacidade operacional – chegando de Curitiba, esperei 30 minutos, com o avião parado, até que aparecesse uma escada que nos descesse a um único ônibus, onde coube um terço dos passageiros; os outros que aguardassem o próximo para chegar ao terminal de desembarque. Depois, em Paris, o deslumbre impressionante do Charles de Gaulle, indicando até pelo silêncio dos ambientes que falta muito, mas muito mesmo, para a Europa se curvar ao Brasil, como sonha nossa história pitoresca. E, enfim – a viagem mais longa do mundo –, desço na imponência igualmente humilhante do gigantesco aeroporto de Pequim.

Estou de cabeça para baixo, aqui no outro lado do globo, com fuso horário transtornado. Enquanto escrevo, são 6 horas da manhã de segunda, mas aí, desgraçadamente, o Atlético acaba neste minuto de perder do Paraná por 4 a 0. Ainda bem que, para sofrer bem longe minha derrota, estou na China – na China comunista, mas, exceto pela onipresença de chineses, poderia estar em qualquer megalópole do mundo. Saindo do aeroporto, um mar de carros de último tipo avança lento por uma autoestrada de cinco pistas. Está frio lá fora, e um horizonte de árvores secas margeia a estrada.

Começo a sentir a célebre poluição de Pequim, uma cidade construída, destruída e reconstruída, em ritmo de terra arrasada, à margem do Deserto de Gobi. Quando me diziam, achava que era exagero, mas não é – os olhos vão se marejando neste ar pesado, a garganta seca. Começam a aparecer os prédios, em profusão – e, exceto pelos caracteres chineses de outdoors, até aqui nada indica que estamos nem no mítico Oriente, nem no que ainda poderia ser considerada a grande vitrine comunista do mundo. Às 3 da tarde, pode-se olhar sem medo diretamente o sol, que ao ritmo do carro vai dando um toque de cenário pintado àquele impressionante recorte urbano. Sob a densidade cinza da poluição, o sol é uma gema fuliginosa equilibrando-se amarela sobre um céu em ruínas.

No hotel, estou num centro de edifícios modernos e grandes avenidas. Na paisagem ainda escura, carros a distância parecem andar em câmera lenta. O dia amanhecendo, ainda luto para adaptar a alma ao novo relógio. Entre o prédio impactante da Televisão Central da China (CCTV), com seus ângulos inclinados de vidro, e uma enorme torre comercial, cujas faces espelham uma cidade trêmula, vejo ao longe uma clássica chaminé de fábrica despejando fumaça aos céus – é o encontro da Londres de Charles Dickens, movida a carvão, com o admirável mundo novo made in China. O império milenar que reinventou o comunismo ao redescobrir o capitalismo.

Cristovão Tezza.
Gazeta do Povo. 11/03/2014 



Ainda na China


Já estou no Brasil, mas enviei estas mal traçadas linhas da França, onde participo do Salão do Livro – e ainda com a China na cabeça, até pela agressão do fuso horário, que vira a alma do avesso. A sensação é de quem, ao mesmo tempo, está sempre sonado e sempre sem sono. Depois de Pequim, uma cidade de grandes extensões e hostil ao pedestre, o que lembra Brasília, cheguei a Xangai, que é outro choque. Olhando por uma janela, é uma São Paulo; por outra, é uma metrópole futurista entrelaçada por viadutos sem fim, um aglomerado impressionante de pistas e carros. A escala, como tudo na China, é gigantesca, e sempre com a estampa de que tudo foi feito ontem.

O que há de “típico” aqui? Ao primeiro olhar, nada. Em um trem-bala, fui a Suzhou, uma viagem de 20 minutos que me levou à chamada capital da seda, a “Veneza do Oriente”, pelos canais que cortam a parte antiga da cidade. Circulei por ruelas comparativamente de alguma pobreza (mas que nem de longe lembram nossas favelas), depois por uma via em que se esbarra em turistas (predominantemente chineses) tirando fotos e comendo quitutes exóticos vindos de tachos de óleo fervente. Num dos salões do hotel, havia uma festa comemorativa dos 100 dias de um bebê que reuniu uma multidão de chineses ricos, chegando em carrões lustrosos. Imensos cartazes dourados, de uma ostentação cafona, anunciavam, inexplicavelmente em inglês, que era uma menina: “It’s a girl!” Já o outro setor da cidade é mais uma metrópole de vias rápidas e viadutos, por onde voltei à estação de trem, que pelo tamanho lembra um aeroporto.

Trocando em miúdos, em três ou quatro décadas a imensa fazenda coletiva em ruínas que era a China de Mao se transformou na segunda economia do mundo e criou uma monumental classe média urbana. Simbolicamente, não se vê em lugar algum estátuas do Mao ou foices e martelos. O Brasil que, atavicamente socialista, imagina-se capitalista, mas que de fato não é nem um nem outro, poderia quem sabe aprender alguma coisa com os chineses. Por desgraça, não temos 5 mil anos.

É visível um grande interesse pelo Brasil. Na Associação de Escritores de Xangai, em um encontro promovido pelo consulado brasileiro, conversei com quatro autores, representando diferentes gerações. Quando perguntei qual o impacto da Revolução Cultural maoísta – que destruiu o sistema educacional do país e representou uma imensa tragédia – sobre a literatura chinesa, as respostas foram discretas, lembrando-me, sem dizer, que há limites no que pode ser dito por um chinês. A subordinação dos temas políticos à orientação do Partido Comunista, que tudo sabe e tudo vê, é apenas um breve capítulo de uma história imperial milenar. Sente-se o silêncio partilhado de uma cultura muito difícil de ser penetrada.

Por outro lado, eles me dizem que, para os chineses, “o Brasil é um mistério”. Respondi com sinceridade: para nós também.

***

Uma breve errata: na crônica da semana passada, leia-se “herança da Olimpíada”, e não “da Copa”, como escreveu este cronista distraído.

Cristovão Tezza.
Gazeta do Povo25/03/2014


Viagens literárias


 
Para quem vive em torno da literatura, uma das diferenças mais notáveis entre o fim do século 20, do meu tempo de formação, e este início de século 21, em que se movem os novos e novíssimos, é a surpreendente quantidade de eventos literários no país. Entre os anos 70 e 90, no silêncio da ditadura e na década que se seguiu, carcomida pela inflação e pelo arrasto da era Sarney, não havia nada além de bienais burocráticas no Rio e São Paulo, por onde a literatura brasileira desaparecia pelo ralo, e algumas feiras capengas de livros, com a exceção especial da Feira de Porto Alegre. Mas, em seguida à modernização econômica propiciada pelo Plano Real, mais as políticas culturais baseadas na Lei Rouanet, o panorama mudou, ainda que a literatura permaneça a prima pobre dos incentivos fiscais.

Hoje, não há praticamente uma região do Brasil que não tenha sua festa anual de literatura, que vem deixando de ser apenas uma fila de barracas para vender livros. Agora, o que conta mesmo são os debates literários, espaços de ampliação de repertórios culturais, que repercutem nos jornais, nos blogs, na revolução da internet. A estrela neste processo foi a Flip, de Paraty, cujo prestígio deu um charme internacional à nossa literatura e estimulou a criação de dezenas de eventos semelhantes no país. Parece estar havendo um processo de recuperação e valorização da palavra escrita, que, no Brasil dos anos 70 e 80, foi devorada pela oralidade dominante da tevê. E o inacreditável aconteceu – dá para viver de literatura, ou, mais precisamente, do livro e seus derivados. Continua sendo difícil, é verdade, mas não impossível. E talvez outro milagre esteja no horizonte, ainda que em ritmo mais lento: a boa ficção do país recuperar o próprio leitor brasileiro, que ela perdeu a partir da década de 70.

Pois, na minha vida trepidante de camelô literário, tenho comprovado essa transformação. Acabo de chegar de São Francisco Xavier, um simpático vilarejo no interior de São Paulo, onde participei dos “diálogos com a literatura” do VII Festival da Mantiqueira, tendo o prazer de ouvir debates de prosadores fortes da minha geração literária, como Bernardo Kucinski, Elvira Vigna e Evandro Affonso Ferreira.


E pouco antes estive em Lages (SC), que entra no circuito brasileiro com o I Salão do Livro da Serra Catarinense. Sou um escritor de empedernida alma curitibana, mas nasci em Lages, onde vivi até os 8 anos de idade, o que não é pouco; de lá trouxe o sotaque que não me larga, e uma infância marcante. Aliás, uma infância vivida nos arredores da Praça Joca Neves, exatamente onde se instalou o Salão. Assim, falar naquela praça e receber uma homenagem da cidade em que nasci foi uma sensação muito boa. Escritores são pessoas duras, frias e calculistas; mas às vezes têm surtos sentimentais. Rever Lages depois de tantos anos foi um desses momentos.

Cristovão Tezza. Gazeta do Povo15/04/2014 

Na praia


Escrevo da praia, para onde vim me refugiar em busca das férias míticas que não acontecem nunca. Bem, férias são a sua própria procura, o oásis que avança pelo tempo. Estou aqui nesta geografia que, felizmente, ainda não existe nos grandes mapas; é só um balneário entrar no mapa, e adeus sossego. Bem, isso é conversa de sessentão; tivesse eu meus 20 anos, quereria os grandes mapas, onde a vida trepida – não, não é verdade; nos meus 20 anos eu queria era me esconder, poeta, na Ilha de Superagui, na solidão da Praia Deserta. Fui para lá várias vezes, politicamente incorreto, caçar jacaré sob o comando do capitão Rio Apa e sua trupe, numa baleeira muito adequadamente chamada de Anarco, que subia o canal de Ararapira. Nunca pegamos nenhum, mas o importante era a busca da solidão. O que prova, talvez, que mudamos muito pouco.

Também não é verdade – desculpem, a vida é confusa. Porque o que eu quero mesmo hoje é menos solidão e mais um sossego controlado, pausterizado e, de preferência, com ar condicionado. Naqueles tempos bárbaros, povoados de hunos, alanos e vândalos ululantes cheios de ideais regressivos, este desejo de conforto seria a prova definitiva da minha decadência.

Fiquemos aqui no meu paraíso caseiro, que está a uma hora e pouco de Curitiba, ainda sem engarrafamentos colossais, desses que aparecem na tevê. Estou na fronteira difusa entre Gaivotas, que já é quase popular, e Caravela, ou Caravelas, que ninguém sabe que existe – lembro vagamente de uma placa verde com esse nome na beira da estrada, ali adiante, e o pessoal não iria inventar um balneário fantasma. Neste “não lugar” eu me refugio, quando preciso despressurizar um pouco. E, afinal, aqui vejo meu amigo lagarto – ou algum representante de uma linhagem de lagartos que há décadas habita o quintal da casa. Desconfiado, um deles já deu as caras, e desapareceu com a mesma rapidez.

Aqui tenho algo próximo do silêncio, a mercadoria mais rara do mundo moderno; se você quer silêncio, vai pagar muito por ele. Mas nessa toca ainda consigo uma réstia grátis de silêncio; à noite, ouço o mar, que é uma espécie alternativa de silêncio; e, durante o dia, os carros que passam adiante são um ruído que se ouve sem ouvir. Os perigosos bárbaros do som de porta-malas aberto têm sido raros nas redondezas com seus decibéis assassinos, o que indica que a civilização, pouco a pouco, avança. É verdade que nos fins de semana explodem com entusiasmo as waps e os cortadores de grama; e, ao entardecer, um piromaníaco sempre decide botar fogo em algum lixo que vai empestear de fumaça o ar em torno por várias horas – podemos fugir de tudo, menos do ar. Às vezes alguém estoura uma bomba só pelo prazer do susto. Mas o saldo ainda é razoável: leio um livro, olho o céu, enfrento o fogão, curto o netinho, penso na vida.

Cristovão Tezza.
Gazeta do Povo.29/04/2014


Leminski livre!


Passei pelo tapumado prédio dos Correios, que quiseram transformar em Museu da Poesia Paulo Leminski, e dei graças porque a ideia parece que morreu.

Antes de tudo, Leminski não merece ser preso num museu, muito menos condenado a ser imobilizado e repetitivo. Ele iria detestar a ideia; diria:
Não quero virar mausoléu em museu!

Vão de novo visitar meus óculos, meus manuscritos, minhas coisas, meus textos imobilizados em cartazes e grafites, e verão os mesmos vídeos e gravações a se repetir...?!

Mas meu maior trunfo na poesia foi não ser repetitivo! Cada poema meu é um, nenhum parecido com outro ou cada um bem diferente dos outros. Não me condenem a ser repetitivo, imobilizado numa exposição que mofará, criará teias de aranha e, enfim, será o contrário de mim!

Minha vida foi um estado de constante experiência – no sentido de ousar, não de acumular juízo. E minha poesia pula da quadra para o haicai, do cult ao pop, flanando pela erudição, ligada nos sons, antenada no astral, numa saltitância entre a lógica e a mágica, com apetrechos e brinquedecos como se manejados diretamente por um Deus adolescente.

São poesias como as figuras num painel do Poty, cada uma por si, sem formar conjunto, série, combinações, nada disso! Nada combinei com a vida, tudo foi ótimo porque inevitável e irresistível,

tudo em mim foi encanto e movimento, portanto não queiram me prender num museu! Nem condenem minha poesia a se vestir de madame, com P maiúsculo, pelo amor de Zeus!

Eu e museu só temos em comum duas letras – e-u... e eu preferia algo como Oficina de Poesia Paulo Leminski, ou Oficina Leminski, ou só Oficininski ou coisa que o valha,

um nome criativo, uma pérola, não uma lápide, pois só o que já morreu vira museu – e eu escrevi para viver. Não porque me pagavam por poesia, mas porque sem poesia eu não vivia!

Então botem meu nome em coisa viva e criativa! Nem precisa ser um local, pode ser um programa de criatividade, crianças e jovens de todas as idades, até no máximo 100 anos, numa teia criativa de ações e relações com meus poemas, lendo, falando, manipulando, musicando, recriando em cartazes, em muros, em vídeos, em gravações, em teatro, em danças e brincadeiras, pois eu só me tornei Leminski porque nunca me levei a sério!

Enfim, brinquem com minha poesia e não queiram glorificar minha memória! Eu cultivei a simplicidade, dos pés à cabeça literalmente. Então: querem me erguer uma estátua? Muito bem, façam em pedra bruta uma grande réplica de minhas sandálias, para que crianças entrem dentro como em trenós, a lembrar que a maior viagem é a imaginação.

Já virei nome de pedreira mas, se querem me homenagear mais, façam uma grande réplica de meus óculos, através dos quais as pessoas possam ver o poente descalços com os pés no chão. Livres, entre o céu e a terra, como eu vivi, então não me prendam em museu!


De resto, para ser honesto, nem precisam me homenagear, só deixem minha poesia viver, que ela se vira como já devem ter notado. ADeus!”

Domingos Pellegrini
Gazeta do Povo.em 06/04/2014

Aí vem o frio!



Vai esfriar, dizia Tia Fátima lá num dia de abril, sol quente no céu azul, e ela:

Tô sentindo nos ossos... – esfregando as mãos como se já nevasse. Mas de repente pulava:

Vamos fazer pipoca! – e, como se obedecendo a um ritual que começava na panela e terminava no céu, o dia seguinte esfriava, nublava, ventava; casacos e até cachecóis saíam dos armários, botas voltavam a ver a luz do dia, cobertores eram batidos a vassoura no varal. A tudo Tia Fátima assistia triunfante, com ar de quem podia até dizer: eu não falei?

Então ela fazia dia a dia seu festival do frio. Sopas de mandioca, mandioquinha-salsa ou feijão, todas devidamente acompanhadas de torradas amanteigadas polvilhadas de queijo ralado.

Antes de dormir, gemada batida no copo com canela e cravo já moído no pilãozinho e adoçada com melado.

De manhã, café com mel, pão de centeio esquentado na chapa, ovos estrelados na frigideira sobre fatias de toucinho fritinhas (naquele tempo ainda não existia por aqui o “bacon”, esse primo travesti do toucinho).

Chá com rapadura era outra especialidade dela. Ralava a rapadura, botava no fundo do bule de ágata junto com as folhas rasgadas à mão – de hortelã, de losna, de alecrim, de mate, de goiabeira ou abacateiro, tia Fátima dizia que só urtiga não dá chá. Aí despejava água quente, esperava um tempinho e servia as xícaras, para a gente tomar “soprando e esquentando a alma”.

Lá pelo meio duma tarde batida de vento, ela chamava os sobrinhos para descascar nozes, enquanto contava histórias de reis e princesas, sapos e príncipes, anões e fadas. Jogava as cascas no fogo, “só pra ouvir o inverno estralar”. E amassava as nozes com um velho e grosso garfo de prata, depois misturava aquela massa oleosa com açúcar mascavo, para passar em torradas esquentadas na chapa do fogão a lenha; e a gente comia em gostoso silêncio, ouvindo o fragor da própria mastigação.

Mas o melhor era, lá quase na hora de deitar, comer pipoca com leite quente adoçado com mel, ouvindo histórias de assombração, de encantamentos, de Jesus menino ou do tempo em que os bichos falavam. É tudo verdade, dizia Tia Fátima:

Toda história é verdade quando a gente ri ou chora.

A gente ia dormir com o coração batendo na garganta, de terror ou de paixão, e acordava no outro dia com a voz clara de Tia Fátima cantarolando:

Tem pão de queijo querendo pular fora do forno!

Claro que Tia Fátima um dia se foi para aquele país sem inverno nem verão, mas até hoje os sobrinhos, quando bate o primeiro frio, ligamos uns para os outros:

- Colheu mandioca pra assar na brasa? Achou mel de jataí pra comer de colherinha? Comprou queijo parmesão pro bolo de fubá? Vai fazer pão com toucinho? E costelinha defumada no feijão?

Ah, no inverno dá uma baita saudade de Tia Fátima!

Domingos Pellegrini

Fonte : Gazeta do Povo . Caderno G.  20/04/2014 



sexta-feira, 2 de maio de 2014

LANCINHAS


É na hora mais morna,
Que se desfazem os sonhos...
Mas, aonde me abrigo,
Não distingo quem somos.
Profundezas da noite entre abismos que profano,
Com luzes que desnudam um paraíso
Que me colore a pele.
Perco o sentido de meus valores,
Percorrendo o interior de outro Ser.
E, como ser noite e me esconder,
Se mesmo o rio que se esconde tranqüilo,
Devora-me em desejos de banhar-me o corpo?
Apago as luzes.

Renego o poder do dia.

(    (A.   Gomes)

Tristeza não cabe nos olhos



Tristeza não cabe nos olhos.
A lágrima não lava o rosto;
expulsa uma palavra dura.

Louva a língua
a hora exata
do poema.

A alma guarda
um dia inteiro
para lamber

o sol.

Raimundo Lonato 

Poema



Foi um lindo romance, reconheço,
Lindo como jóia de alto preço,
Este romance que não escrevi.
Foi síntese de todos os romances,
Com todas as cores e todas as nuances
Dos sonhos que até hoje construí.

Meu romance tem páginas sublimes
De renúncias, heroísmos, traições e crimes;
Tem palavras de estranha suavidade;
Tem gritos de revolta e de ansiedade,
Resumo do desejo e da ambição;
Tem confissões de amor sussurradas com calma,
Tem o tom muito da alma e do coração.

Se alguém pudesse ler encontraria
Toda meiguice, toda ternura, toda covardia
Das palavras de amor que eu não te disse.

Se alguém pudesse ler encontraria escrita
Numa página de ouro esta cruel verdade:
Tu foste para mim esta coisa tão bonita
Que todos chamam de felicidade.
Foi um lindo romance, reconheço,
Por isso de joelhos agradeço
Me deixares vivê-lo até o fim
Anônimo e feliz...
Com toda discrição.
Sem a glória de ter ouvido sim,
Nem a mágoa de ter ouvido não.


- Mario Lago –

INSANO



O Deus da Guerra está enfermo,
Massacrado pelo medo.
Geme à ferida da fúria
Escarlate e insegura.
Cospe lágrimas incandescentes
Sobre escárnios e escombros...
Movimenta-se lento
Na atmosfera rarefeita
Mutilada e imperfeita.
Arrasta-se, arrasta-se...
Ante um tempo sem dobras,
Um tempo linear
De alvéolos sonolentos
Sôfregos pela fumaça.
Arrasta-se, arrasta-se...
Mas insiste em respirar.
(A. Gomes)

Apenas escrevendo



Hoje não vou fazer nada, apenas relaxar e escrever. Afinal, nada pode ser mais relaxante e gratificante do que exprimir um sentimento íntimo nessa fila armônica de letrinhas. Aliás, não posso esquecer: hoje tive uma ideia fantástica para um conto. Veio sem ordem; primeiro visualizei o glorioso final, no qual a ideia toda se mostrava, em seguida o inicio; começar como quem não quer nada, o miolo veio aos poucos, no caminho de casa. Tudo se forjando maravilhosamente na ponta da minha caneta mental, que escreve nas paginas de vento da memória, onde tudo dura o tempo de uma faísca.


Contudo já estava decidido. E se ficou pelo caminho o que eu tinha para escrever, ficou na minha cabeça que eu tinha que escrever alguma coisa. Por isso cá estou; caneta e papel na mão, parágrafo e meio escrito, e não consigo sair do "como quem não quer nada" do inicio. Os meios todos, todas as pontes e ligações de ideias que eu tinha imaginado, tão perfeitos quanto perdidos, não os encontro e nem componho outros tão bons como eram. Nem relaxado estou mais. Já vou tão aflito que não sei se narro o que estou pensando ou o que estou fazendo. Me voltou agora a reflexão inicial, que iria servir de final à essa desastrada historia. Me voltou e parece agora tão desinteressante, mas tão sem graça que a lembrança me vale a unha do indicador roída. Cuspo-a ao ler o inicio patético que dei à isso tudo: bagunça. Às trevas com os meios também. não lembro deles e nem quero. Lixe-se se não sei escrever. pelo menos eu penso. E a ideia que eu tive tá aqui na minha cabeça, em algum lugar. E é bom nem escrever mesmo. Sobra mais pra mim. Só quero relaxar.

Guy Fausto F. Henschel - 02/05/2010

ASAS


Cobri minhas asas
Com as cores que recolhi dos desertos.
São flores, galhos, gotas que se espalham...
São contas, penas, mistérios de um atalho.
Estrelas pulsantes, incandescentes raios...
Águas translúcidas, preciosos relicários...
Ânforas de sóis, cântaros lunares,
Murmúrios suaves, toques e olhares...
Mel maduro lambuzado de tâmaras.
Fragrância de corpos de quem amo.
Ondas performáticas de mar.
Ondas enigmáticas de amor.
Óleos aromáticos, tendas de magia.
Delírio, sonhos, fantasia.
Poemas constantes, desejos incertos...
Na ruptura da aresta de um grão de areia,
Ampulheta vazia.

(A. Gomes)

Sobre Monstros e Fantasmas


Era tarde da noite quando me levantei de sobressalto. Estava sozinho em minha nova casa e tudo ainda não parecia meu. O quarto era pouco mobiliado e o velho carpe do chão acumulando anos de ácaros e poeira que não podiam mais ser removidos fazia minha velha rinite atacar. Espirrei. Mais duas vezes antes de poder levantar e realmente poder olhar em volta. Abrindo os olhos ainda desacostumados pude ver a luz amarelada dos postes que entrava pela janela. Isso me impedia de dormir bem na maioria das noites e talvez fosse por isso que as lembranças haviam voltado. São aquelas lembranças que nos vem visitar bem de vez em quando, quando tudo aquilo que nos preocupa já não está nos perturbando, e aquela velha porta que fechamos há tanto tempo insiste em abrir novamente. E de lá vem todos os monstros e fantasmas que guardamos em nosso peito, afogado em meio a todo o auto-orgulho e senso de individualidade.


Para uns, os monstros são vergonhas e derrotas. Para outros, o que é o meu caso, são pensamentos e pessoas. Sentimentos que deixei de sentir.



Levantei-me e a vi na porta do meu quarto, ela que há tanto tempo se foi. Não vi seus olhos ou mais do que a sua silhueta, mas sabia que era ela, pois meu coração é o primeiro a reconhecê-la, sempre. Toda vez que a vejo, mesmo em pensamento ou lembrança, ou ainda tarde da noite quando seu fantasma vem visitar a porta de meu quarto, é meu coração que parece ter mais idade do que realmente tem que reclama a sua falta. É como um antigo viciado que não pode sentir o cheiro de seu pecado com medo de dobrar a própria vontade para obter nem que fosse um pouco mais da velha sensação. Pesar. Manifesta-se assim, quando passei por ela, e ela ficou a me olhar.

Adam Martins - 12/05/2010

Bem vindos hatianos à Belindia, Terra de Santa Cruz.



Já disse aqui e reitero, não tenho pena nenhuma de pobre, ser pobre é uma condição de força; eu nasci em uma familia abastada e tradicional, mas conheci (e conheço) o revesso, mesmos meus pais e avós conheceram os altos e os deliizes com quedas nem sempre soerguidas. Um interessante exemplo desses reveses é do legtimo herdeiro da casa real brasileira, ao ser repatriado, se estabeleceu no país em condição precária, e tendo os bens há anos confiscados, tudo que lhe restou foi o trabalho na lavoura, onde educou seus filhos.. Ser pobre economicamente , confirma aquilo que Nietzsche diz: ''O que não me mata me fortalece''. Sou visceralmente contra qualquer medida compensatória e ''afirmativa'' que apenas serve para desequilibrar a já criminosa receita fiscal, do mais, não resolve nada! resolve sim, as garantias das planilhas eleitorais. A dignidade não se permite à esmolas. Compadece-me sim , a violação dos direitos individuais e seus pressupostos deveres; compadece-me a miséria social no bojo de uma penúria monopolizada, e esta não é resolvida por privilégios e / ou planos de comiseração, têm solubilidade por medidas estruturais, e é nessas potenciais medidas estruturais em que a América latina vem há anos sendo o topo de uma pirâmide da ineficiência.




O Amor é a Vida

Mais de um amor numa vida
É muito fácil de ter
A dor de amor é esquecida
Talvez nem chegue a doer
Mesmo se o fim é tristeza
Vazio no coração
No fim só fica a beleza
De uma bonita paixão

E embora o amor destruído
E o tanto que se sofreu
O tempo não foi perdido
A gente é que se perdeu


Mario Lago


quando as tripas da noite me envolvem
sou um homem retinto de pavores:
30 colunas perdidas me comovem.
quando as tripas da noite me arrebentam
e 30 corvos me roem a carcaça
são as tripas da noite que me inventam."
RR
o sertão é gado limpo
música semi colcheia.
com que roupa eu chego lá?
que pente que me penteia?"

RR

Libação


No meio das circunstâncias do aperto, água derramada
pelas vias faz o curso rumo à montanha que não saiu do lugar.
O amanhã não pertence aos distraídos! A boa nova chega...
em forma de boleto. Talvez um dia sejamos náufragos na secura.

Lavrada a terra é berço do vinho que derramamos
em louvor ao dia de ações das bolsas...
louças, cristais, metais e o couro do próximo.
Provavelmente sejamos navegantes do mar de lágrimas.

Dia a dia, por todo o sempre ou por enquanto...
sangue rola, sangue ferve, sangue vai e nas veias entupidas
do cáustico infortúnio de viver no bambo fio da navalha.

E, como é de costume: elevamos o olhar e levantamos as mãos
para agradecer a dádiva de poder desfrutar de toda a glória
do divino onipresente, onipotente, onisciente... dinheiro.


Juleni Andrade

quinta-feira, 1 de maio de 2014



GABO


Galo da campina,
empina tua crista
de letras
nas linhas
desta América
Latina!
Suspire a gazela
no talo doce
e amargo
da vida
e faça, em meio ao macio
orvalho,
o amanhã
ser
da poesia!

Alcides Buss

Dilacerar as sedas I




PEÇO A DEUS


Todos os dias,
peço a Deus
que minha memória
jamais me abandone
Não suportaria, que ela,
levasse consigo,
a chuva que via de minha janela,
o azul de cada manhã,
as brincadeiras de rua,
o jardim no quintal de casa,
meu primeiro amor,
meus amigos de verdade
Não quero minha morte,
despida de nostalgia.
Peço a Deus,
que não me prive desta despedida
Do último abraço em minhas lembranças
De um muito obrigado,
à minha infância.
Bruno de Paula
Canto para Artaud
Pessoas à maneira
de obras de arte,
suas substâncias.
Subjéteis porosos -
homem-argamassa,
mulher-têxtil;
os que não se atravessam,
da classe de metais:
almas blindadas.
Obras ao modo de pessoas -
bronze másculo,
mármoreo ventre,
enfermiço;
um torso para se abraçar
a cores virulentas.
Vida-obra, obra-vida

homem, homem.

Roberta Tostes Daniel

Eu sei pouco de gente nominável
Gastarei litros de insônia
Sem uma canção que os salve
Que nos salve ou salve
salve canção que seja
Aonde todo erro de expressão
seja beleza
E no sangue
o sangue pouco lavável
Destrua a vida
arumando
a mesa
Da fome sempre imposta
Da fome de tripas inchadas
Da cara de truques enormes
E fomes infames e bem conforme
A gula que nos engole
O gole que nos afoga
O tranco que nos tranca
Abrindo aos nós a porta
As melhores camisas rasguei com o peito
Com o peito pouco sabido pouco afiado
Pouco desnudo nos dias mais parcos
Pouco desnudo nos dias mais dias
Com os olhos tíbios de cores
E o olfato ofegante
Confundi o confuso
Com o simples:simplesmente impuro
E morri centelha depois de ter vivido faísca.

Julio Urrutiaga Almada

no minifúndio de roupa
amarrado por ingaços
caibo eu, cabem as tramas
minhas obras, meus abraços
as cantigas, todas lama
as águas destes meus poços.
quanta vida pela rama
na folhagem dos meus ossos!"


RR

DISTANCIAMENTO CRÍTICO



Minha maior façanha foi domar o ego,
esse ser alienígena, juiz corrupto,
caixa preta de um UFO em voo ininterrupto
a registrar desastres de um amor que é cego.

Consciência, o caralho! Aquilo era um prego
na minha cruz, um dízimo e eu não tinha um puto!
Paguei a quem me fez agir como um estúpido;
cobrei de quem não me devia, mas não nego.

Meus erros são acertos de contas antigas,
coisas que o tempo passa a borracha e apaga.
Nem mesmo a cicatriz me faz lembrar da chaga.

As dores já não são hoje minhas inimigas.
De tudo restou o homem que lhe escreve agora
e acerta os ponteiros ao ver chegar sua hora!

antonio thadeu wojciechowski


NÃO BANKSY O LEMINSKI *


NÃO BANKSY O LEMINSKI
FATURE O FUTURO ASSIM QUE
O TERROR OSSO RISO E AFLORA
E AGORA QUEM NÃO EMBOLORA?
QUEM É QUE TE MATA NO PEITO?
SINCERO SEM SER O AMOR DOMO SUSPEITO?
QUEM PIXO? QUAL DESPACHO? QUANDO?
CAMINHOS PELOS CABELOS: VOANDO
SOU MAIS O PIXO DO QUE O LIXO DO CONSUMO
SUMA DO FISCO E FIQUE COM O SUMO



(ivan justen santana)



Moça lua


Onde encontrar o poeta das incertezas?
No coração de quem o compreende;
Numa praia onde a areia é pesada
Como a água salgada que nos faz esquecer.
Praia de nossas insanidades
Deserta como nossas almas;
O sussurro que nasce do mar
Ecoa em nosso vazio mútuo.
Teus ouvidos sabem ouvir meu silêncio,
Pois seu coração compreende o meu.
Nós esculpimos a mesma solidão;
A escultura de nossas almas loucas e vazias.
Eu, com os pés amassando a areia,
Na praia deserta, de coisas incertas;
Sonho acordado com sereia,
Com o amor da moça lua.

M.f.


Um anjo sangra na sacada e ela,
ferida,
mergulha para dentro do sono.
Panos para sempre no varal da infância.


ADRIANA VERSIANI(1963).

Poeta mineira, nasceu em Ouro Preto, tem cinco livros publicados. Eis alguns: A física dos Beatles(2005),Contos dos dias(2007) e Livro de Papel(2009). É editora do jornal Dezfaces e integra o conselho editorial da revista de literatura Ato. ADRIANA VERSIANI está na 49ª postagem da série AS MULHERES POETAS
...Se quiser ler mais, clique no link:  http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=41132

6. Eu sou Aquiles.

De Mara Paulina Arruda


Um homem corajoso. Já tive casa, família, mulher, trabalho, cama para dormir e um prato bom de comida. Meu pai me batizou com este nome por que achava que este nome faria de mim um homem corajoso, um bom guerreiro. Perdi a casa, a família, a mulher e o trabalho nas aventuras da vida, mas contínuo corajoso e um bom guerreiro. Durmo nas ruas ou embaixo da ponte, comendo restos encontrados no lixo, bebendo água dos rios poluídos, e cachaça, para enganar a fome. Já peguei muitas doenças e curei por aqui mesmo, na marra. Faz oito anos que moro nas ruas. No meu nomadismo já vi a decadência de muitas cidades. Meus filhos? Sei lá. Estão por ai protegidos por Nosso Senhor Jesus Cristo! Já nem conheço mais. Afrodite foi uma das companheiras que tive. Já morreu; diz a nega Maria que foi por causa de uma ferida que não cicatrizou. Não conquistei nada até agora, não fiz grandes expedições e nem escrevi nada para ser pensado depois. Meus amigos são os que se perdem por aqui nas ruas. Entre eles estão Cícero, Heitor e Sócrates e, quase ia me esquecendo, que tem também o poeta Augusto. Quando a gente se junta é só risada. Meu guarda-roupa se resume na roupa que visto e este chinelo que tenho em meus pés, roubado num camelô. Minha santa mãezinha? Já se foi desta vida. Quando me lembro dela choro a falta que ela me faz. Para ganhar alguns trocados faço artesanato e atuo no comércio do pó. Tem gente que quer tapar minha boca com fita adesiva, mas eu ainda estou bem vivo. Não sou um grande homem, mas não vou fechar a tramela da minha boca. Foi isso que aprendi neste mundo da rua sem lei e também com minha mãe. Eu sou Aquiles, aquele que reside lá nos bueiros das ruas sem nome e não é qualquer coisa que me derruba. Só não posso mesmo é ser atingido nos calcanhares. É defeito de fábrica! Sendo um grande guerreiro vivo na era tecnológica.


UM POEMA



Queria que a vida fosse doce
Com alguns nocautes certeiros
Deixar na lona alguns guerreiros
com golpes à Muhammad Ali
Queria que a vida fosse brava
Como filmes do Peckinpah
Que fosse além
Como trilha do Morricone
Que fosse surreal
Como um coração selvagem
Fosse profunda
Um mergulho de cachoeira
Lenta para as alegrias
e rápida para as dores
Fosse a vida um suspiro
uma paisagem
um vento de outono
um sonho
Fosse
uma palavra de Cortázar
“Ni el silencio, ese desatador de sueños”

a vida seria sem fim

Marianna Camargo