terça-feira, 10 de janeiro de 2017



- das pérolas em rótulas as patelas que fixam diamantes. nossas caminhadas humanas , ás vezes, são rotas púrpuras ...

Adriana Zapparoli

"Você,sair para gastar um dinheiro virtual,Um Dinheiro que Você Não Tem e ainda ficará Devendo Mais além do que Gastar?Cartão de Crédito (!?).Você tem café por que sair para um café em um Café ?"Não é só o café Babka, são as vozes , as Pessoas.Vida .compartilhar a fumaça de se estar vivo.Sentir se inspirado a continuar a viver .


Wilson Roberto Nogueira

Mendigos Talentosos Que Não Apareceram em Redes Sociais

  

Este ano o Brasil inteiro se emocionou com a história do mendigo-gato, um rapaz de Curitiba, que virou morador de rua por causa da dependência química. Mas, uma turista ficou encantada com a beleza deste homem e para atender a um pedido dele, tirou uma foto, que foi compartilhada na Internet e isto ajudou a sua família a encontrá-lo. Não tardou para os meios de comunicação descobrir que ele tinha sido modelo. Assim, o moço recebeu ajuda, foi internado numa clínica, recuperou-se e agora tem até namorada.
A atitude da moça que tirou foto do morador de rua foi válida porque ajudou a um ser humano.
Mas, esta história lembrou-me do causo sobre uma outra moradora de rua que, pelo que me falaram, não teve um final feliz.
Nos anos 90, também na capital paranaense, havia uma mendiga que escrevia poesias entre as ruas XV de Novembro e a Mariano Torres, em frente ao Mercadorama. Uma vez, vi esta senhora rabiscando uns papéis e pedi para ler. Assim, achei seus poemas muito bons e ela vendeu para mim, um livrinho feito à mão e depois disse que seu nome era Izabel. Até que um certo dia, esta moça ganhou uma máquina de escrever, de um morador de um dos prédios, e passou a datilografar seus textos neste aparelho.
Todos os dias, eu passava pela aquela rua porque tinha aulas na reitoria da UFPR. O interessante é que eu nunca vi vestígios de bebida, ou, drogas nesta mendiga. Pois, ela não tinha cheiro de álcool e estava sempre sóbria.
Na época com o objetivo de ajudá-la escrevi cartas para a mídia local, mas nunca tive resposta. Também, telefonei para o resgate social da prefeitura. Neste caso, a “van” que recolhe os mendigos chegou, porém Izabel não quis embarcar. Depois eu perguntei o porquê da sua atitude e ela me confessou que há moradores de rua que são agressivos, com colegas, nos próprios albergues.
O problema é que naquele tempo, a Internet era restrita somente a uma pequena parcela da população e confesso que, nos anos 90, eu nem sabia ligar um computador.
Algum tempo depois, esta senhora desapareceu das ruas. Infelizmente, a mensagem que recebi é que Izabel faleceu, mas não consegui comprovar esta notícia ainda.
Se esta febre de redes sociais fosse naquela época, as pessoas poderiam ajudar a poetisa com mais eficácia.
Este causo lembrou-me de uma outra história que foi batizada de: Ana, a Mulher de Branco de Curitiba. Trata-se da trajetória de uma artesã que, nos anos 70, vivia nas ruas, mas que só se vestia com roupas claras. Esta senhora fazia um artesanato lindíssimo e digno de ser admirado. Apesar de ser moradora de rua, ela não tinha vestígios de bebida e muito menos de droga. O interessante é que ela chegava aos locais, principalmente, nos pontos de ônibus e falava:
- Gente, preciso de dinheiro para fazer o meu artesanato.
- Não tenho filhos, as doações são somente para materiais que preciso para confeccionar a minha Arte.
Nos anos 80, ela desapareceu e a notícia que tenho é que ela foi assassinada por uma gangue de playboys.
Hoje em dia, é fácil ajudar a um morador de rua que seja talentoso. Basta fotografar seu rosto, sua arte e colocá-los na Internet, que ele corre a sorte de reencontrar a sua família e de ter seu talento reconhecido, privilégios que Ana e Izabel, infelizmente, não tiveram.

Luciana do Rocio Mallon


A escrita chama. O fel em brasa. A escrita em chama. Na garganta o sexo é objecto sagrado. Aguardam-me as várias mortes que a um corpo numeroso pertencem. Sobre a mesa os papeis à polpa dos dedos começam a deformar o lábio superior.
Erguida sobre a testa, a escrita continua demasiado e larga. Um documento caducado.
Valerá a pena continuar? Nunca fui desertora, embora as pregas da carne implorem à pausa.
Escrever contra a parede. A ideia mora-me, e sob todas as aparências de sanidade existe um ultimato constante que ascende, implacavelmente.
A escrita é a minha única arma. Em todos as horas a captura. Verdade indefinível, mastigar e engolir até à borda, dactilografar. Letra a letra, roliça e ademane sob aparências, a vulva é um ultimato, o escuro, a tempestade, o fogo que não acende cigarro, a detonação. O sol de um mundo sanguinolento que arde, desobedece, contém hostilidade e uma transpiração pesada.


 Luisa Demétrio


AÉREA-VELOCIDADE


Tudo o que a gente pensa,
não dá para escrever.
Tudo o que a gente escreve,
não dá para falar.
É preciso escrever,
para se caber maior.
Mas é fundamental
Voar,
para pensar.
*
Paula Valéria Andrade - 2008
Poema no e-book da Antologia Poética "Saciedade dos Poetas Vivos"


risonho é o teu altaneiro sonho
expugnado foi o imaginado ideal
interroga a ti tua morada final
na mordida do ósculo ígneo da calçada
no leal olhar do luar a prateada pedra risonha
mera gota de sangue seco na cicatriz da cidade.


Wilson Roberto Nogueira
Circundo os arredores de minhas dores
- Como um ser meu duplo de repente olhando-me de fora
E súbito elas se me afiguram mesquinhas
E pronto elas se apequenam, restituídas em sua forma talvez real.
¿O que resistiria ao aço de um juízo experimentado na forja do próprio juízo?
*

Arzírio .Cardoso

Desabafo da Kombi



Sou uma Kombi, um veículo a motor
Que já presenciou histórias de amor
E promessas de esperança e felicidade,
Que se transformaram em realidade!

Mas, reza a lenda que neste ano
Através de um triste plano
Debaixo do molhado pano

Minha figura irá desaparecer
Isso causa depressão no meu ser!
Mas, deixarei saudades nas pessoas
Das caronas nas chuvas e garoas!

Sempre fui mais do que uma simples van...
Muito mais do que uma vaidosa perua
Eu acordava vários seres pela manhã
Quando aparecia na esburacada rua!

Já fui a fase REM do homem do sonho
E musa do tio da pamonha cheirosa
Que acabava com um choro tristonho
Através da música maravilhosa!

Transportei hippies, ciganos e atores
Num teatro móvel e itinerante!
Já fui pintada de todas as cores
Quando virei um cenário elegante!

Já fui altar de casamento
Com todo o sentimento!
Um automóvel assim, não acaba com o tempo

Já fui Kombi escolar
Com alma infantil
Pintei em todo o lugar
O mundo de rosa e anil!

Em Catanduvas, virei biblioteca
No projeto: Viajando Pela Leitura
Li contos para a menina sapeca,
Que me retribuiu com ternura!

Eu já fui igreja e templo
Agora, minha produção vai se acabar
Em 2013, em dezembro
Mas, minha magia ainda durará no ar.

Luciana do Rocio Mallon
Alguns compenetrados, outros vagando pelos quadrantes da sala a consumir o tempo em lenta lenta agonia ou olvidando por completo os insondáveis caminhos das matérias .Outras personas a paisagem do teatro interpretando?Interpretando saberes e seriedades; outras profissionais catando códigos na busca por peneirar pedras preciosas de algum edital.Mais adiante zanzam a procura do que desconhecem, apenas flanando nas veias expostas de cidades imaginárias .Naquele canto alí , a natureza morta dos gestuais de sapiência dos abancados."Oito horas a Biblioteca fechará suas portas . "Os livros ficaram presos e dentro deles leitores fantasmas.Essa catedral não recebe sem tetos e suas correntes de pedras.


Wilson Roberto Nogueira.2009/19/09
Adriana Zapparoli

não me concentro em julgar a pessoa. o que eu devo me perguntar, sempre na terceira pessoa, é: - dri, você ri com essa pessoa? - você se sente bem com essa pessoa aí, dri? ...

sou assim. os outros não me interessam como selecionam.

Lenda da Hermafrodita de Curitiba


                     
Na cidade de Curitiba, no século dezenove, havia um casal chamado José e Ana, que tinha o sonho de ter filhos gêmeos. Para realizar este sonho, a mulher foi até uma “curandeira” e falou:
- Meu sonho é ter um casal de gêmeos.
Deste jeito a feiticeira disse:
- Então você precisa fazer a seguinte simpatia:
- Consiga: uma vela azul e rosa, um punhado de feijão, um punhado de lentilha e um prato virgem.
- Numa noite de Lua Nova, pegue a velas rosa e azul e coloque-as num prato virgem. Mas, não deixe elas se grudarem. Depois coloque metade de lentilha e metade de feijão na frente das velas.
Assim, Ana tentou fazer a magia, mas como não achou lentilhas fez o ritual só com grãos de feijão. Porém, ela não reparou que as velas rosa e azul se grudaram.
Nove meses depois, nasceu um bebê. Porém, a parteira notou que a criança tinha os dois órgãos sexuais e avisou:
- Dona Ana, o bebê é saudável, mas tem um problema: ele tem os dois sexos.
A jovem exclamou:
- Como assim?!                                                
- Não são gêmeos?!
- Tem dois sexos?!                          
A parteira explicou:
- A criança é hermafrodita, pois é menino e menina ao mesmo tempo.
Deste jeito, a idosa mostrou o bebê nu à mulher, que se assustou e falou:
- Assim, precisamos de um nome que sirva tanto para homem quanto para mulher...
- Hum...
- O nome da criança será Darci.
- Com relação ás roupas, nada de azul e nada rosa. Pois, o bebê vestirá só cores neutras: bege, amarelo, branco, etc.
Então, a dona da casa mandou chamar a curandeira e pediu explicações:
- Eu paguei caro por uma simpatia que me dessem gêmeos de sexos diferentes: um menino e uma menina. Porém, fiquei grávida de um hermafrodita.
- O que deu errado?
A bruxa explicou:
- A senhora não fez nada fora das normas?
- Será que as velas grudaram?
- Usou feijão e lentilha?
Ana comentou:
- Bem, não achei lentilha, por isto só usei feijão.
- E eu acho que as velas grudaram uma na outra, sim.
A feiticeira comentou:
- Então, foi isto!
- Quando falta lentilha e as velhas se grudam, nasce uma criança hermafrodita.
A nova mãe se conformou com a explicação. Desta maneira, ela passou a mentir que ganhou um casal de gêmeos para a vizinhança. Por isto, ás vezes, ela vestia o bebê de menino, e, em outros momentos vestia o bebê de menina. Porém, as crianças nunca eram vistas juntas.
Darci cresceu sempre pensando que deveria usar roupas masculinas e femininas em dias alternados para não sofrer preconceito. Por isto, sua mãe sempre proibia esta criatura de freqüentar festas e de ter amigos.
Uma certa noite, este ser colocou sonífero na comida dos seus pais para poder ir a um baile. Desta maneira, Darci colocou seu melhor vestido e foi para o evento. Porém, três homens acharam este andrógeno bonito e começaram a assediá-lo. Por isto, Darci saiu da festa, mas os rapazes foram atrás. Até que numa rua deserta decidiram abusar da pobre criatura. Porém, os homens se assustaram ao ver que aquele ser tinha os dois sexos, saíram correndo e espalharam o boato pela cidade.
Assim, a casa de Darci foi alvo de pichação e protestos como:
- Fora, Darci, pois gente com dois sexos é coisa do diabo!
O preconceito foi tanto que, numa noite, Darci saiu vestido com uma metade do corpo de homem e outra metade do corpo de mulher, com uma cruz e um machado nas mãos, porém com uma arma na cintura. Deste jeito, este ser foi até a esquina de uma rua e se suicidou com um tiro no coração.
Por coincidência, a rua onde aconteceu esta tragédia, hoje, chama-se Cruz Machado para homenagear um escritor com este nome.
Depois da morte de Darci pessoas afirmaram ver, nesta rua, uma criatura, que metade tem roupa de homem e outra metade possui vestes de mulher. Reza a lenda que se você deixar, uma calcinha e uma cueca na esquina da Rua Cruz Machado, o espírito de Darci realiza o seu pedido.

Luciana do Rocio Mallon
Comprara livros .Lia ?Eram vidas que o mantinham em pé.De si só vidas dos outros.Pensamentos-velas e idéias âncoras munição para o espírito.Até o jogarem no arquivo morto da repartição.


Wilson Roberto Nogueira

domingo, 8 de janeiro de 2017

Uma poesia só...
(nos braços de Miriam...)
... no todo,
um aroma pleno...
a noite traz com o sereno
o momento em que meu coração
poderá inserir-se num céu...
no azul de seu lindo olhar...
... resiliente,
o horizonte mantém o sol...
ele quer clarejar seus lindos olhos azuis,
para extrair deles a confirmação da beleza...
não aquela que aporta em qualquer cais,
mas sim, aquela que se projeta nos risos,
aquela que desmorona os ais...
aquela que convida para o amor...
... que a madrugada chegue e aconchegue-nos
num lugar onde o que se faz luzir, não seja luz qualquer...
... segredos?
Não existem mais...
medos são apenas dizeres comuns,
que se ocultam.
... no todo,
um reencontro...
um desejo de ver sua figura mulher
colada a mim...
como se fossemos uma poesia só...
josemir(aolongo...)


Sérgio Villa Matta

Só é bom se sangrar
como carne no açougue
ele me disse isso:
só é bom se sangrar.
literatura só é boa se sangrar, entende.
o troço tem que doer.
tem q te fazer chegar até as vísceras
tem q te fazer estragos no corpo
tem q te dar cicatrizes.
eu praticava isso todos os dias
um mantra recitado ao avesso
uma tatuagem em brasa.
socos e pontapés regados a vodca
e vômitos ao ar livre.
escrever é colocar a dor na ponta da palavra
é perfurar a pele com a tesoura.
só é bom se sangrar, lembre-se disso
ele me disse
mais ou menos como comer carne crua
e ainda viva.
deve-se comer a alma com farofa, meu amor
toda palavra é um tapa, um soco, uma porrada.





Ieda Godoy

Que mais posso sentir agora senão pavor? O mundo gira há tanto, tanto tempo, e eu aqui, essa areiazinha. Caio para dentro de mim nesse segundo. Caio num salto sombrio, numa morte lenta e pequena. Tão pequena quanto insignificante. Penso nos meus. E prossigo mesmo assim, porque sou mais egoísta que o centro de qualquer coisa. Preciso comer uma cebola crua, com casca, pra ver se entendo alguma coisa dessa vida antes de partir.

(capítulo 1 de um romance suicida ).

SLOW-MOTION

às vezes chegamos perto do abismo
rodeamos o inferno
chegamos à conclusão de que nada mais vale,
de que o passado foi um saco de merda
& o futuro será uma mina explodindo em slow-motion
debaixo do pé esquerdo
aquele negócio de que o amor tudo suporta,
tudo espera,
não passou de um sonho apostólico de paulo,
& a maior virtude do ser humano é sentir saudade
amor é um perigo,
é uma faca afiada
nas nossas mãos de menores infratores da vida



 O paranaense Felipe Pauluk, em mallarmargens:

A FOTO


A foto é o
prolongamento
do meu olhar
a sua memória
o meu buscar
além
de mim
na imagem
que me foge
o que se perderia
ao longe
se não fosse
a ilusão
de eternidade
guardada
congelada
ao clique
do meu dedo.

- por JL Semeador de Poesias, o José Luiz de Sousa Santos, dia desses, fotografando na Lapa –

sábado, 7 de janeiro de 2017


BOCA A BOCA

Sandra Fonseca


Palavra
Enquanto escorre
Suor e seiva
Deita aromas
Fagulhas, sedas
Além do nome.
Compõe
Um corpo
Palavra assanha
Revira o olho
Acende a lenha
Gesto passional.
Na rigidez do verso
Languidez de ventre
Frutos e fomes
Lavra o caminho
Palavra senda
Abrindo músculos
Tecendo letras.
Febril
Atenta, de cor
O canto profano
Adorna a boca
No boca-a-boca
Palavra fala
Se estende ao corpo
E se demora.
Se estende larga
Enquanto morre
Nas omoplatas
E na garganta
Palavra arranca
Estaca fere
O corpo adentro

A alma afora.
Ao entrar na casa vazia, abro a porta para as saudades. Encontro felicidades acumuladas nos cômodos abarrotados de lembranças, JDamasio
Pegue seu casaco colorido. ,
Não faz sentido você parar por aí.
Abra janela, escancare a porta
Saia!
Vá viver e sorrir.
Plante uma árvore frondosa
Plante cravos, plante rosas.
Plante sorrisos também.
Você é livre, irá ficar muito bem.
Não deixe que os pesadelos da vida te consuma.
Pense em você!
Se assuma.
Se não te aceitarem...
Mande a merda.
Faça do seu mundo um mundo livre.
Corra riscos,
Não entre em crise.
Faça tudo para ser feliz.
E quando um dia ou outro for escuro.
Fale, cante,ame.
Salte o muro das desilusões,
Seja importante.
Lute um pouco neste mundo louco.

Arlete Klens

como fazer poesia

como fazer poesia
se o prefeito cobre de tela verde
os mendigos?
como fazer poesia
se os novos pixos
são facistas?
se o amor erra, erra
até esquecer a mirada
se as pulgas pulam sobre o almaço
sem encontrar sangue
se o palco da vida
virou picadeiro
e se fechou o circo
como se faz poesia?


Leandro Rafael Perez
"Voo sobre a montanha virada ao mar
Ao embalar da brisa marítima de um frio cristal
Sou criatura que carrega a solidão
Pela estranheza com que me visto
Pelas malhas da invisibilidade com que me teço
Perdi o norte perdi a sorte
Já não sei a minha verdadeira idade
Sou pura castidade
Que armadilha me cortou os membros
Que espada me derrubou as asas
Da minha essência da minha sã demência
Da sublime sensualidade
Onde esqueci o meu corpo que se acendia
Em ímpeto voraz
Que me justificava o respirar
Onde se escondeu o amor
Que era a minha razão de ficar
Feito toque cálido na minha pele
Que me fechava os olhos
E me transportava para o mundo divindade
Ah vulcão que me ameaças de extinção
Sem companheiro de armas
Lembra-te como o divino é justo
E a vida uma dádiva
Mantem vulcão então acesa a lava
Não me empurres milagre da perpetuidade
Para uma apatia cortante
Uma seriedade amorfa
Sem riso interior constante
Serei casta no sentir
No abraçar nas ações
Mas dá-me o alimento o vício
De um amor de enleios
De entusiasmo sem freios! "

Maria Oliveira

UM CASO DE ESPANTOSA INSIGNIFICÂNCIA


Nunca na minha vida tive problemas com seres imaginários. Mesmo porque, delatei-os todos ao meu psicanalista.
Até descobrir que ele era produto, também, de minha imaginação. O que me irrita é o fato, que considero uma traição, de que ele diz o contrário. De que eu sou o fruto da imaginação dele. Ledo engano, minha cara abstração. O consultório, a rua, o bairro sequer existem. Eu mesmo fui à região e comprovei. Vi uma funerária azul, uma praça e um ponto de ônibus. E nunca ouviram falar em clínica ou consultório por ali.
Volto agora soberbo ao lugar de onde eu vim. Mas assalta-me uma dúvida: de onde eu vim?

[André Ricardo Aguiar ]
por atos e abutres deste porte
o dia de amanhã contém a morte
mas na paixão exata e decidida
a noite de amanhã carrega a vida."

RR
Fragmento:

O cão meio que me acompanhou o tempo todo. Bebeu água da chuva; se enchafurdou na lama à beira rio; desapareceu no capim alto para reaparecer em seguida ainda mais cão; atravessou a movimentada avenida ziguezagueando entre os carros para desespero deste meu coração que não queria cão morto espatifado no asfalto. Foi, voltou fiel, como velho amigo de novo encontrado, e nem me deu tempo de pensar direito o que fazer com o inusitado de sua vinda. Perto do fim do caminho, aproximou-se um pouco mais, cheirou e lambeu-me as mãos em singelo gesto, mas não foi a saliva grossa e quente, nem o balançar contente da cauda, que me atiraram a flecha no para sempre cativo de uma lembrança: foram os olhos de um amarelo vivo, de um amarelo terno e vivo, quase criança de puro sorriso, que me trouxeram para casa com esse gosto de muita graça e esse pensamento que não passa, de que havia um Jesus Cristinho muito sorrateiro andando pelos olhos dele....

Lazara Papandrea

TEMPO DE EXÉQUIAS


Estamos cevando a terra
bárbara: aprendendo
a ceifar.
Dia após dia lava-se
o chão para as novas exéquias.
Lava-se a lágrima.
Dia após dia
aprendendo a morrer;
aprendendo a esquece o coração
no armário.
(E os novos enterros
com as flores de ontem).
Virá o tempo
de agradecer os urubus.
SALGADO MARANHÃO

(Do livro "A Sagração dos Lobos).
quanto de impossível eu era.
quanto de amor eu carreguei.
quanta fera, quanta fera.
eu sei."

RR

Retrato Social



A folha de jornal que cobria o rosto do menino negro assassinado na rua, estampava na capa a foto de outro menino negro morto em outra rua no dia anterior, que tinha o rosto coberto com outra folha de jornal com outra foto... jd

O Enaltecer
Bendizer aos céus
todo o encantamento
que existe entre nós.
Os nós que foram
desatados através
dos tempos.
Seu olhar de maresia,
coração pleno de amor.
Estar ávido de amor...
Plenitude! Plenitude!

Iracema Alvarenga

Nome de Flor


Dona Margarida, minha vizinha, tem nome de flor, mas sua lida mesmo era com os bichos. Não foram poucas às vezes que a vi, fora de hora, dando comida e água aos cachorros de rua nos terrenos baldios. Falava com os vira-latas como se fossem da família. No seu quintal, não cabia mais nenhum animal. Quando a encontrava, nunca estava sozinha, sempre uma matilha a acompanhava. Dois deles estavam sempre presentes: Dodô e Dodó. A diferença ficava por conta do acento nos nomes, era o focinho de um, o rabo do outro. Irmãos gêmeos. Dodô era mais sapeca.
Tem mais de meses que Dona Margarida adoeceu, foi compulsoriamente levada para a casa de um filho em outra cidade. Agora, os safados pensam que sou caridoso igual a ela. Só porque me viram conversando com dona Margarida, imaginam que gosto deles! Cachorrada pulguenta!!!
Hoje, às três da manhã, estranhei novamente, pois faz mais de uma semana que Dodô não aparece pra comer a ração e tomar água fresca que sirvo no terreno baldio. Logo agora, comprei o pó anti-pulga!. Perguntei ao Dodó do paradeiro do seu irmão, ele não me respondeu, mas abaixou a cabeça.
JDamasio rascunho


RASTROS


Reggina Moon

E a vida se mistura aos livros antigos
e já não sei quais foram as folhas
que se perderam...
Um rastro de memória permanece
e os capítulos felizes
possuem uma marca sublinhada.
As imagens me sorriem
acenando um adeus,
mas ainda tenho o futuro
e as suas promessas lindas

nas quais eu tento crer.
esse traço magoado deixa um rastro de pólvora, tem pouco alento pra se esconder do vazio e do descaso, tem um berço de abismo balançando sob as cabeças, a frieza me corta em pedacinhos enquanto escuto o rastro de pólvora chiando, será que consigo esboçar um sorriso antes da explosão?

Rita Medusa
Mais vidas para o aprendizado.
Eu às vezes fico comigo pensando
Quantas perguntas existem ainda para mim sem respostas
Quando eu a noite olho para o infinito cheio de estrelas
Quanta coisa em meu pensamento nesta hora brota
Quando vejo uma favela
Sei muito bem que lá existe gente boa
Quantas crianças convivendo junto com a maldade
Mas eu sei que talvez, não estejam lá á toa
Quantas pessoas enganando o próximo
Mas quantas pessoas também a procura de crescimento
Quantos políticos mal intencionados
São tantas perguntas que me faço, mas sei que ainda estou muito longe do entendimento
Por isto eu peço á Deus
Que de algumas vidas ainda para este ser
Porque se eu morrer hoje e não mais voltar

Muita coisa deixarei de fazer.
Luiz Carlos Brizola
"Em F. amo as expressões equilibradas, a habilidade em elaborar enredos riquíssimos para descrever pequenos acontecimentos abalando assim a estreiteza dos cotidianos, emprestando luz ao fosco ao embrutecido. E quando vejo a sua boca dizendo sobre a vida, me orgulho de pertencer àquele universo, me alegra saber que os toques daquelas mão muitas vezes vêm em direção ao meu corpo e que encontra, F como um todo, conforto e talvez júbilo também em como eu nos exerço. (...) Em F amo o discurso do corpo que frequenta o meu, antes, que harmoniza com o meu com delicadeza singela, que revela o encanto das melodias simples e repouso num inteligível que me faz sempre bem."


Trecho do conto "?Escaleno" de Luci Collin in: Geração 90: os transgressores (org.) Nelson de Oliveira.
Sensa(tua)tez
meus olhos
te contam
o que
nossos lábios
já sabem
o que
nossos rostos
já sentiram
um toque
um arrepio
de cada tez
de cada
corpo uma
lembrança
que já não
nos cabe
de uma só
vez
Chris Herrmann


tudo igual
tudo é rotina
na retina do meu tempo
tudo sempre
dias e noites,
o rito que segue
o sangue que corre
só a saudade muda a paisagem
dos dias de dentro
e o desejo de me lançar ao vento
desafiando o abismo que é teu corpo

Margarida Di.


Noosgmatismo – Distúrbio do limite da verossimilhança do personagem. A sensação de que o mesmo pode ser o nosso vizinho, o noivo, o funcionário do cartório. A leitura de romances policiais clássicos acentua mais ainda os neurotransmissores responsáveis pelos indícios de que tem gente no mundo que é refugiada de romance, que tenta levar uma vida normal longe do jugo do autor. Leitores de Rex Stout e Simenon acham que você tem culpa no cartório. 

André Ricardo Aguiar

[In: Fábulas Portáteis - Editora Patuá - Doenças de leitores - minha homenagem ao dia do leitor, hoje]


Poema verdade
Isto não é a realidade.
e nem um poema
me disse a dona verdade e riu.

excomungada!

Sérgio Villa Matta
sou filho da fruta
uma semente
me pariu


Júlio Alves
Algo acontece de bom no meu coração..;
... quero-te e justamente por querer-te,
enlevo-me feito um colibri,
que quer sugar a sua flor...
feito faca amolada, que corta daqui e dali,
procurando o melhor desenho na madeira crua...
... qual folheto de alquimia,
vou construindo no dia a dia
um projeto onde a mente se faz coração puro.
... dou ênfase à existência do mundo por si só...
vejo-nos nele...
... que estranha é essa agônica saudade,
que agora me invade, e quer porque quer,
me levar a você?
... que deliciosa essa lembrança,
que rasga minhas entranhas, e me traz o gozo,
de senti-la?
... que estranho esse desejo, que feito chamamento,
dança diante meus olhos, e canta suave em meus ouvidos?

josemir(aolongo...)
Por isso, volta...
... te amo tanto, mas tanto,
que tenho procurado em braços nauseabundos,
uma forma de encontrar de novo,
o que de mágico me destes...
... Ei, meu irmão! Mais uma dose de sorrisos...
me venda esperanças, pois que os ritmos
já não são das mesmas danças.
Ando ansioso, a cata de catarses...
quero me colocar limpo, pra um encontro...
como aqueles de nossa época.
Livres, puros e soltos.
... mas te amo tanto,
que até confundo-me com gestos néscios.
Com pessoas rasas, sem asas,
e acabo machucando-me
e machucando o meu coração.
Novas malucas bipolares, que tomam os ares
de idiotas histórias, e se fazem libertárias...
no fundo são perdidas e levianas arrependidas,
párias
... por isso, preciso do reencontro...
o que existe oculto sobre as faces inócuas
das que se colocam dispostas a se tornarem expostas,
é a mente vazia... a hipocrisia...
contadoras de histórias toscas..
vazias, absolutamente loucas...
basta!
... por isso amor antigo, de inspirar cantar,
VOLTA!!

josemir(aolongo...)

Reamar-nos...


(voando com Miriam...)

... embrenhar-nos pelos caminhos um do outro,
como fossemos pássaros soltos,
procurando amor no voo...
...entregar-nos em comunhão numa relação leve
onde o breve, seria o tempo em que pós pouso,
nossos corpos se dessem... de vez e no todo...
... fazermos crescer no entorno,
toda a esperança de que a dança
jamais terminasse...
... procurarmos juntos, aquilo que rocia
o orbe de um planeta anos luz daqui...
clareza em nossos caminhos...
paz em nossos ninhos...
um espaço comum, no qual o amor possa se conceber.
... deixarmos que os sussurros substituam as falas.
Reamar-nos mais que um milhão de vezes...
josemir(aolongo...)
Na experiência da palavra nada.
No experimento da palavra nada.
A lua dos teus olhos nada,
peixe fora d'água.
A lua dos teus olhos vaga.
Vaga nada!
Ando de mentiras fartas sobre a lua
e teus olhos
E não mais reconheço a areia
por onde nadaram nossos
poros.

Lázara Papandrea
que se possa separar o sonho da realidade que fere!
o sentimento é uma fagulha que molda a paisagem de dentro sem se que altere a textura de fora.
a alma que ama é pássaro que voa...
que se abriga onde encontra abrigo.
permitir-se é dar a si mesmo as chances de voo!
por um sonho!

Margarida Di