sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

a vida é essa onda
você se afoga, mulher?
você se engana?
o destino é essa onda
você se atola, homem?
você se arreganha?
a pancada é essa onda
você se esfola, criança?
você se arrebanha?
o caminho
não há caminho
mas, se houvesse, seria essa onda
que não dá pé
não dá pé
e aí você desiste
-
essa onda

claudinei vieira

SOBREVIDA


Contornando
as arestas da pedra
o sobrevivente deixa
a orelha
alerta
É raposa
caçador solitário
faminto
e se contentará
com um inseto
O sobrevivente quer de volta
os passos
o fígado regenerado
outra chance
de ligar pela última vez
O sobrevivente caminha
pelo corredor
abre a janela e vê
que o mundo
não acabou
Alberto Bresciani

Professoras

Dois leões de pedra, no topo das extremidades do portão de ferro, são guardiães simbólicos do prédio antigo. Flores vermelhas do jambeiro ainda cobrem o piso do pátio, e os corredores laterais, largos e alpendrados, dão acesso às salas do grupo escolar onde passei a maior parte da minha infância.
As brincadeiras terminavam quando a professora aparecia entre os dois leões; ela subia lentamente a escada, e antes de entrar na sala, os alunos já estavam à espera da primeira lição da manhã.
O grupo escolar Barão do Rio Branco - hoje uma escola estadual – foi construído numa época de fausto, mas acolhia crianças de todas as classes sociais. Ainda me lembro de quatro ou cinco curumins: um deles, o Tarso, usava brilhantina nos cabelos, mas o que brilhava de verdade era o desenho caprichoso de cada letra; hoje, eu o vejo como um pequeno calígrafo que manuseava um cálamo. Tarso e sua família moravam numa palafita à beira do Igarapé de Manaus. Este e outros igarapés foram aterrados, não sei por anda Tarso, um dos alunos que atraíam a atenção da professora que nos ensinou a ler e escrever.
Ela era exigente em sala de aula e severa no trato com os bagunceiros; talvez fosse dócil com os bonzinhos, mas não me lembro de anjo, querubim ou arcanjo algum. O olhar dela era austero, às vezes terno, mas a fala e os gestos eram quase sempre pacientes: a repetição de cada explicação é um exercício de paciência. Brasília já existia, mas estava ausente no velho mapa do Brasil. E eu sequer desconfiava que seis anos depois iria viver na capital...
Uma noite, três décadas depois das primeiras letras, quando lançava meu primeiro romance na Biblioteca Pública de Manaus, vi uma senhora muito elegante na fila. Percebi alguma familiaridade no rosto que me olhava, mas não o reconheci no ato. A memória, essa guardiã de sentimentos íntimos, me revelou o rosto da professora Maria Luiza de Freitas Pinto.
Conversamos um pouco e assinei um livro para ela. Antes da despedida, abriu a bolsa e tirou uma folha amarelada, dobrada ao meio. Disse: “Esta é a tua primeira redação! Foi escrita no Barão do Rio Branco...”
Olhei de relance a caligrafia, que nem de longe se comparava à de Tarso. Não li o texto: o gesto amoroso de guardar por tanto tempo palavras de uma criança prevaleceu sobre a curiosidade; sem dúvida, ela guardara textos de outros alunos num baú cheio de redações.
Revi dona Maria Luiza em 2008, quando lancei outro romance em Manaus, desta vez na Banca do Largo São Sebastião, do amigo Joaquim Melo. Ela mora ali perto, numa casa antiga e espaçosa, onde Sheila, uma parente de dona Maria Luiza, me ensinara inglês.
Em agosto do ano passado, viajei com o escritor Reinaldo Moraes e uma equipe de tevê para Manaus, onde eles iam fazer um documentário sobre o romance “Cinzas do Norte” e a cidade. Na calçada do mesmo grupo escolar, contei a Reinaldo lances da infância manauara, numa época em que a escola pública ainda era frequentada por crianças e jovens de todos os estratos sociais. Enquanto observava os estudantes, pensei na mulher que me alfabetizara: ela acabara de completar cem anos.
A diretora do documentário quis entrevistá-la. Dois amigos (a jornalista Leyla Leong e o professor Ernesto Renan Freitas Pinto, sobrinhos da professora) mediaram esse encontro na casa em que Maria Luiza sempre morou. Reconheci a mobília e alguns objetos daquela época; um corredor comprido e um pouco escuro terminava numa saleta iluminada pelo sol da manhã. Com lucidez e nostalgia, a professora centenária recordou cenas e anedotas da minha infância razoavelmente feliz, interrompida em 1964, quando também foi interrompida a implantação do projeto “Escola Nova”, do grande educador baiano Anísio Teixeira, então reitor da Universidade de Brasília. Nove dias depois do golpe militar, o campus da UnB foi invadido pela polícia e Anísio foi demitido da reitoria. Em Brasília, no final dos anos 1960, estudei numa das escolas idealizadas por ele: um colégio de aplicação, extinto em 1971 pelo governo militar.
“Viver numa terra trágica é o mesmo que viver num tempo trágico”, escreveu Wallace Stevens.
Nesta terra e neste tempo trágicos, faço mais essa modesta homenagem a uma professora da província e a um filósofo da educação, ambos igualmente importantes para tentar mitigar o atraso nesta nação fraturada, país de “mil-e-tantas misérias”, como disse um mago de Minas.
Milton Hatoum
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Professoras - Cultura - Estadão - 24/02/2017


 Apenas o fim
há os q não riem
os q choram
os q fazem drama
os q compartilham a dor
os q veem filmes sozinhos na sala escura
os q bebem até cair
os q conversam com cães e gatos
os q matam
os q se matam
os q não se importam
os q ignoram
os q escrevem
os q leem
os q comem em demasia
há por fim os plenamente feridos
do fim

Sérgio Villa Matta 
Michel Temer conversa com Roberto Freire sobre mudanças no Prêmio Camões de Literatura.
- Roberto, que papelão, francamente!
- Ah, desculpa, eu não aguentei, presidente...
- Estou me referindo àquele escritorzinho comunista.
- Ah, sim, o Raduan. Um oportunista, mau caráter.
- Ganhou 100 mil euros da gente e ainda reclama?
- Pois é, presidente, não se pode confiar nunca num comunista.
- Chamei você aqui porque quero fazer algumas mudanças nesse prêmio.
- O senhor manda.
- Vamos começar pelo nome. Quero prestigiar um autor nacional. Alguma sugestão?
- Gabriel Chalita?
- É um grande nome, mas ele está com o Haddad agora.
- Que tal Prêmio Merval Pereira de Literatura?
- Ele tem livro publicado?
- Acho que não, mas é membro da Academia Brasileira de Letras.
- Ótimo! A Globo vai adorar. Quero também acrescentar uma nova categoria. Cota pessoal.
- Que categoria seria essa?
- Livros pra colorir. A mãe da Marcelinha quer concorrer. A velha até que tem bom gosto com as cores, sabia?
- Posso imaginar, presidente.
Tom Cardoso


DE MANHÃ


Outro amanhecer, ter-te de volta,
a noite foi longa, a tua presença
agora é mais real.
Ter de novo tuas mãos, os teus carinhos
a doçura da tua voz o encanto do teu olhar.
Saber que mais perto estas, ter-te pelo menos
mais junto com o pensamento unido,
em uma só vontade, de seres minha eternamente.
Quem sabe mais perto chegar.
Amar-te mais profundamente sentir-te, bem suave,
e possuir-te livremente.

Roldão Aires

VÃOS

“os cupins se apoderaram da biblioteca
ouço o seu áfono rumor [...]”
Haroldo de Campos

os cupins
assolam
o corpo
deserto
lânguidos
ocupam
os poros
os livros
gritam
um silêncio
desumano
ausência
de odores
britadeira
da memória
o corpo
está
repleto
(os cupins)
copulam

docemente

diana junkes

Fui comprar um refri, num boteco-restaurante, e eis que ouvi a seguinte conversa:
– Sabe como eles fazem pra descobrir esse negócio dos planetas, né, Adonis?
Adonis é um camarada baixo, gordinho, atarracado, de bigode e cavanhaque, com cabelo comprido preso. Seu inquiridor é um sujeito alto, mais para magro, com os dentes em péssimo estado, mas que, pelo jeito, entendia um certo tanto de coisas sobre astronomia – falava de modo embolado.
– Fazem o quê?
– Esse lance da reportagem, de descobrir planetas. É pela luz, eles analisam as cores, o espectro, e daí conseguem saber se o que tem no planeta é água em estado sólido ou líquido, se são gazes e por aí vai. Conforme a cor. Tudo observando a luz, quando ela passa pelo telescópio com o mecanismo feito pra isso.
– Ah...
– É. E agora descobriram isso aí, sete planetas com condições pra abrigar vida. Mas tudo em tese, tudo só tecnicamente, porque na prática, mesmo, não têm como demonstrar nada. Não têm como provar.
Adonis estava mais preocupado em organizar o caixa do seu restaurante. Mas é bom ouvinte. Seu amigo prossegue.
– Mas também é sempre assim, nem a Nasa nem nenhum desses lances aí vai admitir muita coisa. É que eles sabem... Já tão preparando o pessoal pra grande revelação que vai acontecer em 2020.
Adonis resmunga
– É, tá certo, em 2019. O universo com esse tamanho todo e os caras o tempo inteiro dizendo que “não, só aqui na Terra tem vida, só aqui tem aviãozinho e foguete e em nenhum outro lugar”. Tá bom. Imagina quando os caras chegarem aqui?
A conversa tomou um rumo científico-filosófico que não me permitiu acompanhá-la. Além disso, estava preocupado demais com a minha sede e me distraí com um diorama improvisado contendo trens e uma paisagem pitoresca, tudo desproporcional, bizarro e exótico. Um trem e um vagão, como só na terra devem existir.
Fui para o caixa e o Adonis, talvez entusiasmado com todo o diálogo anterior, disse “Água tônica e um doce? Já tentei tomar isso, mas não consegui”. Respondi que era pra contrabalançar e que, com azia, descia que era uma beleza. “É ruim demais, não tem como”, finalizou, como quem dissesse boa sorte com esse mau-gosto.
Será que algum outro lugar no universo é capaz de fazer uma água como essa, tônica?




Yury Miyamura

sábado, 18 de fevereiro de 2017

O RECÉM-SEPULTADO


Enormedonho o silêncio por aqui campeia.
A erva que explode, o vento que a assanha
celebram um mundo a que despertenço.
.

[Sidney Wanderley]

Parente Distante


Vou rever um primo distante, mora longe, triste porque são nos momentos fúnebres que sempre nos abraçamos. Mais triste, dessa vez ele não vai me abraçar, o velório é dele mesmo.

JD Microconto

O SOL HÁ DE BRILHAR OUTRA VEZ


A chuva que agora cai;
e levemente molha o chão.
Trazendo o clarão de um raio,
antecipando o trovão.
Matando a sede da terra,
sacia a sede do meu jardim,
devolve o arco-íris à serra,
que ontem roubou de mim.
Chuva que cai sobre os montes,
sobre os vales, sobre as fontes.
Cai tão perto de mim.
Águas que me cobrem a fronte,
misturando-se às lágrimas que ontem,
rolaram sem ter mais fim.
São lágrimas d'um amor perfeito,
que me apertam demais o peito,
e brotam como flores no meu jardim.
São mágoas d'um amor desfeito,
que a chuva, de qualquer jeito,
levou pra bem longe... de mim.

Jonas Francisco Machado

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Ah, esses teus olhos
que habitam de graça
todos os poemas
que ainda não escrevi.

Chris Herrmann

domingo, 12 de fevereiro de 2017


A política hoje em dia, em todas as suas instâncias, sofre um processo crescente de carnavalização. Ou seja, é o simulacro do simulacro do simulacro, onde são seus atores, os ditos políticos profissionais, que parodiam o povo, o criticam e o ridicularizam.
A categorização da classe artística como vagabunda, sendo que é a arte, a partir dos elementos culturais, que constantemente redefine e critica a noção de identidade, é própria de um sistema carnavalizado pelo poder onde numa oficial democracia o voto do cidadão é deslegitimado.
A metáfora mais propícia da carnavalização política é um Rei Momo de uma província qualquer, que ao ser coroado, decreta a extinção do Carnaval.

Ricardo Pozzo
Ser poeta não é recuar em seu exílio a ponto de o mundo material desaparecer. É fazer do exílio uma realidade local e único refúgio.

MK

ADUMBRA

"Mas como nós falássemos a mesma coisa
as mesmas coisas mesma língua & dialeto
parecia possível retratar as margens

de cada termo contratar o nosso acerto
nas mãos do mundo & apertarmo-nos as mãos
entre toques & dedos & a carícia calcinada

dos dias numa nova ordenação do cosmo
então num gesto fácil nomear o mundo
flores de toda espécie com seus gostos cores

seus caules folhas frutos formas invisíveis
ou que nunca aprendemos por nunca querermos
por só preguiça de androceu & gineceu

seus novos nomes poderiam ser mais nossos
ao inventarmos juntos palavra a palavra
toda a sintaxe enquanto descemos a senda

encravada de asfalto nos veios da serra
neste carro qualquer os pés esvanecidos
por baixo do painel as mãos ainda pensas

ainda que sentados o olho sobre o vidro
anuncia a tormenta cinza sobre a mata
compostos de amarelo & púrpura & carmim

preenchem o que resta no pouco de céu
que ainda se desnubla neste fim de dia
enquanto desbotoamo-nos nalgum sorriso"

Trecho do  ADUMBRA | de Guilherme Gontijo Flores

[ edição da Contravento Editorial]



as almas vulgares se regozijam com escândalos alheios e os alimentam! Por exemplo, quando percebem alguém na rua, em sua fragilidade humana, sujo ou maltrapilho, e destacam esse detalhe, sem saber como nem porquê, e ridicularizam ou expõe esse ilustre desconhecido. Mas não esqueçam que, neste mundo onde cada vez mais tão poucos conseguem ver além do próprio umbigo, quem fala do outro fala mais de si do que do outro!
Ricardo Pozzo

Fonte : Escamandro

Altamira



Na variável mais profunda,
tanto caçador quanto caça
estão em fuga.

Naipes numa orquestra de faros,

iluminados nem pelo satélite pálido
seduzido, em seu magnético giro.

Melhor enxerga o que ouve
aguçado

na floresta que assombra quem,
surpreendido,

mira o animal escolhido
e a si reconhece.


Ricardo Pozzo
[A quantas pessoas falta uma mão amiga, um estímulo, um elogio, uma palavra de amor e um gesto de carinho? O mundo virou um tapete de unhas e o diálogo uma traição à vida. Estamos trocando nossa eternidade por marcas, grifes, quinquilharias tecnológicas, drogas, desregramentos e alucinações ególatras. Sem noção...sem noção...] by Antonio Thadeu Wojciechowski

Não temos nem um plano. Seguimos o fluxo e as coisas acontecem, apenas porque encontramos uns aos outros. Não acreditam os que rejeitam a lei do acaso e precisam calcular todos os passos, atropelando quem está na frente.

MK
Creio que deva haver, no Paraíso cristão, um pálacio, símile àquele em que adentram os Einherjar, para as mulheres Mães, Avós e Bisavós que lutaram com todas as forças para proporcionar a seus filhos, netos e bisnetos o Amor, a Sabedoria e a Severidade e que assim possam ter a oportunidade da Escolha ao trilharem os intrínsecos e específicos ciclos da vida com o conhecimento das páginas do Livro do Sagrado.
Louvado Seja o Sublime, o Generoso!

Ricardo Pozzo

• dormitava auroras
nua em pedra
e errava
- por querência -
a cartografia
dos homens


flertava com os mapas
das águas
e das ventanias
mais complexas


em sua bravura
de sereia
ornava-se de brumas
de lenhos e arvoredos
onde ninhos
surgiam-lhe felpudos de sois
e lãs febris
de horizontes


desse chafurdar no limbo
logrou despir-se de gente
- seiva-arrebol! -
sabia-se plâncton
basalto, âmbar
e cinzas


então assombrou-se
em fogo e quase lava
escorreu-se ávida
peregrinando
oceanos


: adejou-se rubra
[ flor-mamífera-ave!]
a burilar o magma
onde a vida
goza •

lilly falcão

/ do.rubro.magma.das.ovelhas /

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Espelho meu


Não sou só dos abraços de ano em ano
nem dos beijos a léguas de distância,
pelo que sei e vivo, desde a infância
adoro o colo feminino humano.
Não sou de bajular nenhum fulano
que acaso esteja em poderosa instância;
não sou de correrias nem de ânsia
por bens materiais. Muito me ufano
de ser o mesmo em todos os momentos
e situações, com favoráveis ventos
ou não, tranquilo caminhando eu vou.
"Louvor em boca própria e vitupério"
Mas tu, espelho meu, refletes, sério,
a forma como exatamente eu sou.

Hardi Filho. Piauí. 
Sonhei com heróis que limpavam as botas sujas de lama em véus de linho branco.
Estávamos todos no quarto.
À porta da casa, amarrados aos troncos, os cavalos tinham as crinas trançadas.
E quando relinchavam, lembravam-me de um lago muito cinza e calmo.
À janela, eu fitava o sol e a luz era uma náusea.
Basta calar, disse a eles.
Disse aos estádios nos olhos deles.
Afundar o rosto na terra e ouvir os rumores das águas.
As jarras estáticas de leite no fundo da noite.
Bendizer o vazio, a pelagem castanha, os túneis.
Sei que a única inocência em mim é a dor.
Sei que a única inocência em mim é a dor,
repeti.
Sentamo-nos no tapete,
as roupas reverberando quentes e impenetráveis,
os terços em mãos,
tudo muito muito muito além de nossas botas limpas,
e oramos a uma pequena raposa ausente.
--
[fernanda boaventura, in: o pasto anula-se em certos lilases, a ser publicado logo-logo pela La bodeguita]


O CÚSPULA

O cúspula é um animal de médio porte, de pelo rasteiro. Emite um cheiro desagradável e tem como defesa o grito agudo, capaz de partir copos de vidro, cristal. Não existe notícia de caçadores de cúspulas. Mas os que se arriscam à lenda, esses velhinhos surdos que caçaram na floresta, no capão, explicam que a surdez foi acidente com cúspulas. Uma história mal contada, por sinal. Um cúspula ataca no grito, vive solitário e seus hábitos lembram os de um macaco assustado ou de um tatu muito tímido. Quando um cúspula encontra outro, só um sairá vivo. A morte de um cúspula é de mau agouro – e nas matas, os galhos e arbustos devassados indicam que um cúspula foi cuspido para fora da vida. O cheiro é mais insuportável ainda. Os pelos são duros, e quando roçam, sem querer, em outro bicho ou mesmo em gente, causam feridas profundas. Nunca mais foram vistos, mas nos lugares em que habitavam o ouvido apurado percebe uma eletricidade tremelicante no ar.
.André Ricardo Aguiar



[Fábulas Portáteis, Editora Patuá]

Gargaú (preservar antes que acabe)


quem tem sangue na veia
nem guaiamum nem caranguejo
na saliva do desejo
em tua língua meu amor
e que a lama desse mangue
possa parir alguma flor
Artur Gomes


Um poema lindo
Pousou no meu domingo
Dorme agora
Entre lençóis desarrumados
Saio do quarto devagarinho
Faço café: sem açúcar
Nenhum medo me assusta
A paz costura seus silêncios
Vou à janela olhar a rua
Lá no asfalto
Pessoas passam indiferentes
Carros deslizam impacientes
Mas é domingo
O poema sonha profundo
Com um mundo
Em que a segunda-feira
Seja uma senhora boa e feminista
_que tenha tudo
E não queira nada da vida

Assionara Souza
uns lençóis baratos recobrem meu silêncio.
um ananás do passado mostra a lucidez do meu corpo.
não vim ser anjo.
vim ser estardalhaço."

RR
é delicado
não perguntar as horas
a um morto
é delicado
deixar as pedras
em paz
é delicado
olhar por dentro das palavras
antes de dizer o que elas dizem
é delicado
dar passagem às flores
e não perguntar aonde vão
e deixar a amizade do amor
decantar no fundo do corpo
por longos e demorados anos
é delicado escutar o tempo
e plantar lá dentro
no vazio do vento
o signo o selo o cisco
da delicadeza
e do silêncio

*

Carlos Moreira

Retrato:


Tem do outro lado
essa muda imagem
do que fui
Tem no desfocado
um sonho que rui
E lágrima de sangue
que em nenhum rio se dilui
E tem os meus cabelos
Ah, os meus cabelos!
que já não pegam vento!

Lázara Papandrea

A ALEGRIA DO POEMA


Nada como postar
um poema novo
na Internet.
(uma olhada básica
para ver
a repercussão)
Deixe um pouco
esse computador;
que o poema faça
a sua parte.
Paulo Vallim - 05/02/2017 

Incoerente


ó lua
incoerente
tão cheia de
(a)tributos
nua inteira
de metades
crescentes
tão exibida
tão rara
tão cara
até quando
minguante
mostra-se
de graça
na cara
da gente
Chris Herrmann


sábado, 4 de fevereiro de 2017

MARISA


O piso, a parede, o 273,
a mistura de traços na pele:
tudo muito São Bernardo,
puro frango com polenta.
O quarto na frente da casa
e o cento e quarenta e sete
descansando sob as telhas:
viatura, troféu, ferramenta.
Nem dor, nem ódio ou medo.
Prole aos pés, amor e luta
(e a justa faixa presidencial)
se insinuavam no tergal.
Dia de descer a Anchieta,
cortar a névoa do Riacho,
forrar o bucho com mocotó,

lavar a alma com cambuci.

Tarso de Melo

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

RETINA


da janela do escritório
vejo o sol
como um apelo
que emite uma imagem
quadrada em meu rosto
agora
escondo no bolso
um pouco do desconforto dos dias atarefados:
para te dizer
das folhas que caem com facilidade na primavera
a janela
é uma porta
para dois mundos distintos:
um que eu vejo e quase tenho
outro que ouço e não tenho
minhas mãos burocráticas
não evitam
o fim do expediente
elas carregam a sensação de perda
de um pedaço da vida que foge
ou que se ergue
nos quatro cantos da sala
para depois
desaperecer em silêncio,
pelas frestas da janela.
*

Régis Mesquita

PRECIPITADO


a vida é muito curta
para apenas um abraço
um copo de refrigerante
um filme americano
um café expresso duplo
uma noite de insônia
um sorriso para um desconhecido
a vida é muito breve
para apenas a leitura de um verso
de um livro, de um beijo ou de um filme
a vida é muito pequena
para uma revolução
para um jantar em família ou para uma visita à vovó
a vida é raramente curta
para apenas um
*

Régis Mesquita

PROFUSÃO


nestes dias tão tumultuados
é preciso
adiar o dia
nestes dias tão tumultuados
é preciso
dizer às horas,
que horas são?
nestes dias tão tumultuados
é preciso
acreditar no amor,
onde tempo e fé
é uma só morada
nestes dias tão tumultuados
é preciso
estar à frente da pressa
ou odiar o dia
nestes dias tão tumultuados
abrigo sincero
é pressa da calmaria,
em breve
aperto de mão.
*

Régis Mesquita

SUBSTÂNCIA


hoje eu me alimento da falta de interesse do pássaro que voa contra o vento da apatia
eu me escondo nos escombros escritos no jornal amarelado que não consegue ser vendido
da banca que vende coisas desinteressantes
eu corro do medo do olhar do homem que sente fome & sente frio na praça da Sé
enquanto muita gente corre atrás de um sonho que não sabe se será realizado
eu finjo acreditar nas promessas de todos os anos quando o abismo da realidade é descarregado nos caixotes daquele caminhão com galinhas de olhos mortais prontas, sem entender, para a morte inevitável
hoje eu sou a força que resiste
por natureza imóvel
na desesperança dos trabalhadores que desistiram da greve geral em última hora por medo de represálias enquanto suas esposas pensam no que irão fazer no almoço de amanhã.


Régis Mesquita

BÚSSOLA


o tempo
dentro de mim
urge:
forjo a espera
o passo
fora de mim
ruge:
engulo o silêncio
a hora
no outro
rege:
ergo a palavra
a morte
ao redor de mim
erige:
invento a demora.
Régis Mesquita