sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Das Cores da Minha Vida



Pedro Penido

Desde pequeno sempre atraiu-me a cor da escuridão. Mesmo, naquela época, morrendo de medo do escuro, atraía-me o mistério que a ausência traz. E cresci vestindo a cor do luto. Gargalhei e chorei em roupas negras como a noite. E vivi um mundo que somente a percepção longínqua e assustada das trevas poderia revelar.
Com o passar do tempo, na juventude forte, apaixonei-me perdidamente pelo ardor das chamas que o vermelho, escuro ou escarlate, trazia ao meu coração. Nesta época beijei com intensidade e volúpia, ardente e alucinado, num mar de sensações. Provei das dores do sentimento ferido e enganei-me, várias e várias vezes, sobre minhas mais convictas constatações.
E avancei cego e louco Tempo afora. Nas esquinas dos anos eu vendi minh'alma a troco de lampejos pueris dos mundos que tanto buscava em tantos outros olhares. Juntei as moedas que alguns jogavam e outros se esforçavam para arranjar. Construi um refúgio nas sombras que todo corpo sob o sol pudesse projetar.
Em preto e vermelho, como chamas rubras no manto da noite, tracei versos insanos, a ferro e fogo, sangue e lágrima, amor e paixão. Eram reflexos meus. E ainda são.
Mas passam-se os dias... envelhece-se na carne, nos versos reflexos e nos lamentos... Mas amadurece-se e prova-se daquele sabor que somente a fruta madura pode oferecer. Pode-se, agora, gargalhar da vida e tocá-la como o vento atiça a relva, como o sol urra ante as colinas e como a lua, silenciosa, encanta, atrai, seduz e beija o mar.
Sou instrumento e senhor da minha loucura, uma amante estranha que me acompanha onde quer que eu vá. E sobre tudo isso, o negro, o vermelho, os sabores e o mar só posso dizer: não pretendo parar de escrever... nem deixar de sonhar.


Vento e Horizonte



Pedro Penido

Jogou os braços pela janela
e deixou-se saborear pelo vento.

Rascunhou suas lembranças no espelho
em dor profunda, em trôpega desilusão.
Arrastou-se para o canto do quarto escuro
e ficou em silêncio até ouvir os gritos do trovão.

Havia lágrimas por todo o lugar
e marcas de batom e sangue no chão.
Não podia evitar, simplesmente evitar,
que seu passado mutilasse seu coração.

Jogou os braços pela janela
e deixou-se beijar pelo vento.
Conquistador de todas as eras
que a arrancou de seu sustento.

Tomou-a nos braços o vento
e levou-a cidade afora para longe,
onde tudo era apenas sentimento
e podia-se, finalmente, tocar o horizonte.

Aos Amigos



Bruna Finelli

As “saudades” são escritas. Não são ditas mais.

Eu com a minha saudade, que mato no contato, sempre direi isso, e não direi de escrever.

Com meu orgulho [ferido] de ter de calar sempre para ser quem “sou”…vou fazer uma festa em homenagem à mim mesma e aos meus comparsas! Se tudo der certo…piso em cima da terra queimada que, frutos, não dará mais.

Piso e quero pisar sempre em folhas…que da saudade, eu amenize um pouco ao abraçar.

Que do trabalho, a renascença seja outra…seja honesta, no mínimo. Eu, que digo a verdade e escrevo a mesma, quero almejar o melhor do tudo que há por aí.


Vassalos do Tempo



Pedro Penido

Quem são os senhores do tempo? Nossos relógios escravizados em seu parâmetro matemático? Nossas fotografias, bastiões de grandes lembranças? Os sons e músicas daquelas boas sensações? Sabores e cheiros dos gostos da vida? Toques de lágrimas e lágrimas-recordações?

Quem são os senhores do tempo? Rostos do passado? Vozes guardadas no silêncio de nossas almas? Conselhos tomados e jamais postos em ação? Ou os absurdos que somos e revivemos em nosso coração?

Se há nostalgia, há sabor. Se há sabor há prazer. Se há poesia, há amor. Se há amor, então, finalmente, com ou sem o tempo e seus vassalos, pode-se viver.



Além do Céu



Pedro Penido

Era com papel e tinta
que escrevia sobre o céu
e os demônios de lá.

Lágrimas entre linhas
e palavras no olhar.

Como se tão pouco
precisasse,
mesmo que tão louco,
ser dito.

Suas impressões
num grito rouco
sobre o que não há no céu
e ainda há no espírito.


Poemas de Adília Lopes






---

A propósito de estrelas

Não sei se me interessei pelo rapaz

por ele se interessar por estrelas

se me interessei por estrelas por me interessar

pelo rapaz hoje quando penso no rapaz

penso em estrelas e quando penso em estrelas

penso no rapaz como me parece que me vou ocupar com as estrelas

até ao fim dos meus dias parece-me que

não vou deixar de me interessar pelo rapaz

até ao fim dos meus dias

nunca saberei se me interesso por estrelas

se me interesso por um rapaz que se interessa

por estrelas já não me lembro

se vi primeiro as estrelas

se vi primeiro o rapaz se quando vi o rapaz vi as estrelas

[Um jogo bastante perigoso, 1985]

***

Dia

sem poesia

não é dia

é noite escura

Mas a poesia

é noite escura

[Caderno, & Etc, 2007]

***

Mesmo

uma linha

recta

é o labirinto

porque

entre

cada dois pontos

está o infinito

[Caderno, e Etc, 2007]

"Adília Lopes e Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira são uma e a mesma pessoa. São eu. Como uma papoila é poppy. E muitos outros nomes que eu não sei. A Adília Lopes é água no estado gasoso, a Maria José é a mesma água no estado sólido. Eu sou uma mulher, sou portuguesa, sou lisboeta, sou poetisa, sou linguista (todos somos), sou física, sou bibliotecária, sou documentalista, sou míope, nasci a 20 de Abril de 1960, sou solteira, não tenho filhos, sou católica, tenho os olhos castanhos, meço 1,56 m, neste momento peso 80 Kg, uso o cabelo curto desde 1981, o cabelo é castanho escuro com muitos cabelos brancos. (…) É claro que o poeta é sempre o idiota da família, o maluquinho."






quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Cacaso poemas



-=-=-

Poemas

---

happy end

o meu amor e eu

nascemos um para o outro

agora só falta quem nos apresente

-

Descartes

Não há

no mundo nada

mais bem

distribuído do que a

razão: até quem não tem tem

um pouquinho

-

lar doce lar

Minha pátria é minha infância:

Por isso vivo no exílio.

-

indefinição

pois assim é a poesia:

esta chama tão distante mas tão perto de

estar fria.


Cacaso. 

Nascido Antônio Carlos Ferreira de Brito, em 1944 (Uberaba, MG). Morreu em 1987 (Rio de Janeiro, RJ). Caricaturista aos 12 anos, poeta antes dos 20. Filósofo, professor universitário - teoria da literatura e literatura brasileira, décadas de 60 e 70. Em 67, o primeiro livro, A Palavra Cerzida; os outros são Grupo Escolar (74), Beijo na Boca (75), Segunda Classe (75), Na Corda Bamba (78) e Mar de Mineiro (82). "Livros que não só revelaram uma das mais combativas e criativas vozes daqueles anos de ditadura e desbunde, como ajudaram a dar visibilidade e respeitabilidade à 'poesia marginal'". Para além das companhias mimeógrafo-poéticas, trabalhou com grandes músicos brasileiros, como Edu Lobo e Tom Jobim, dentre muitos outros. Um dos mais criativos poetas dessa nossa mais recente história literária, Cacaso era sempre mais. A ed. Brasiliense lançou, em 85, a primeira antologia da obra desse grande poeta. Cacaso morreu dois anos depois. Recentemente, suas obra completa (publicações e poemas até então inéditos) foi reunida no livro intitulado "Lero-lero", lançado pela CosacNaify/7Letras em 2002.



Obrigado, Orvalho


Soneto - Chico Buarque, 1972 

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio

AS MÃOS DO TEMPO



As mãos do tempo trazem afiadas
As mais diversas presas, duras garras
E quando no final; tento e desgarras
Dos sonhos mais atrozes sei que evadas.

Ainda que sonhasse em alvoradas
Tramando com firmeza vãs amarras
E sobre o meu cadáver tanto escarras
Nas ânsias entre sonhos desfiadas.

Amortalhada sorte sem saber
Do quanto poderia em ter prazer
Angustiadamente nada reste

Senão a mesma face, hipocrisia
E o tempo que deveras não viria
Senão marcando o tempo mais agreste.

Marcos Loures 

23 de julho de 2011

Morte dos Sonhos




Quando a esperança voa como uma folha seca...

A alma se esvai em tristezas...

O coração não consegue bater no seu ritmo

E temos apenas a solidão como companhia...

Então percebemos ... que é a morte dos sonhos

E o nascimento da dor!

Lúcia Polonio

... Secreções de Baphometh ...




Tudo que Existe está em Relação À... Poder???
Do lixo Neural... Não há Lixeiro... Emana Gás!!!
Gases Relativos às Secreções do “Ser”...
... Do Lixo secretado... Vanglória se Faz!!!

Uma Alma gasosa... Volitiva... Intangível...
... Espírito Volátil... Penetrando tudo que é Sólido!!!
No Poderoso Impenetrável... Um Sentimento Frangível...
... Vil Lixeiro de Desgraças... Com Prazer tão Mórbido!!!

Um escarnecedor de D’us... Quebrantou-lhe o seu Poder!!!
Resgatou-lhe do Lixo... Nefasto domínio de Baphometh!!!
(Disse-lhe):
“Não será nos Gases de Enxofre que irás sofrer!!!”

Tudo que Existe está em Relação À... Tanto Faz!!!
No Exílio... Nos Latifúndios da Sétima Solidão???
Onde o Nada Existe??? E a Consciência Gasosa se Faz???

Gutemberg de Moura


Primeiro ato





Roupas roubam a cena
melhor despí-las
sem recato algum.

Ricardo Mainieri              

25 de julho de 2011 



CELA DE VISITAS





Liberdade em gramas
raspas de esporas
de anjos
preparando quedas...
Consumindo a carne
o chão
e as horas
farpadas...

Cheios de extremoso amor
os olhos do pai com o filho
nos olhos
maldizendo o mês
que também cai
em gramas;

E a mãe só deseja
parí-lo outra vez;
limpo agora, talvez,
livre do umbigo
e dos restos de parto.

Hoje ateei fogo
no meu travesseiro
de pena
com(paixão)
dos que dormem
nu
chão.


Wender Montenegro

  29 de julho de 2011


O homem, por detrás do balcão olhava a rua de forma distraída. Uma garotinha se aproximou da loja e apertou o narizinho contra o vidro da vitrine.

Os olhos da cor do céu brilharam quando ela viu determinado objeto.

Entrou na loja e pediu para ver o colar de turquesas azuis. É para minha irmã. Pode fazer um pacote bem bonito?

O dono da loja olhou desconfiado para a garotinha e lhe perguntou: Quanto dinheiro você tem?

Sem hesitar, ela tirou do bolso da saia um lenço todo amarradinho e foi desfazendo os nós. Colocou-o sobre o balcão e feliz, disse: Isto dá, não dá?

Eram apenas algumas moedas, que ela exibia orgulhosa.

Sabe, eu quero dar este colar azul para a minha irmã mais velha. Desde que morreu nossa mãe, ela cuida da gente e não tem tempo para ela. É seu aniversário e tenho certeza que ela ficará feliz com o colar que é da cor dos olhos dela.

O homem foi para o interior da loja, colocou o colar em um estojo, embrulhou com um vistoso papel vermelho e fez um laço caprichado com uma fita verde.

Tome, leve com cuidado.

Ela saiu feliz, saltitando rua abaixo.

Ainda não acabara o dia quando uma linda jovem de cabelos loiros e longos e maravilhosos olhos azuis, adentrou a loja.

Colocou sobre o balcão o já conhecido embrulho desfeito e perguntou:

Este colar foi comprado aqui?

Sim, senhora.

E quanto custou?

Ah!, falou o homem, o preço de qualquer produto da minha loja é sempre um assunto confidencial entre o vendedor e o cliente.

A moça continuou: Mas minha irmã tinha somente algumas moedas. O colar é verdadeiro, não é? Ela não teria dinheiro para pagá-lo!

O homem tomou o estojo, refez o embrulho com extremo carinho, colocou a fita e devolveu à jovem dizendo: Ela pagou o preço mais alto que qualquer pessoa pode pagar. Ela deu tudo o que tinha.

O silêncio encheu a pequena loja, e duas lágrimas rolaram pelas faces jovens, enquanto suas mãos tomavam o embrulho e ela retornava ao lar, emocionada.

* * *

Verdadeira doação é dar-se por inteiro, sem restrições. Gratidão de quem ama não coloca limites para os gestos de ternura.

E gratidão é sempre manifestação dos Espíritos que têm riqueza de emoções e altruísmo.

Sê sempre grato, mas não espere pelo reconhecimento de ninguém.

A gratidão é dever que não aquece apenas quem a recebe, mas também reconforta quem a oferece.

Maria Cruz       

  14 de julho de 2011

Gilberto e a viagem





Aquela noite seria fundamental para que pudesse resolver o velho dilema.
Iria ou não para Ibitirama?
Gilberto era assim mesmo, um camarada muito indeciso, medroso e mentiroso.
Não saberia dizer por que mas sempre tinha medo da noite, mesmo que a lua cheia clareasse todos os caminhos...
Aquela noite então era pior que as outras, o tempo nublado demonstrava que poderia encontrar alguns percalços no caminho e isso era assustador...
Dona Rita, como sempre preocupada, tentava demover a idéia fixa de João “Teimoso” Polino. Estava com pena do menino pois sabia que nada iria impedir o velho de executar o plano.
Levar Gilberto pela estrada era uma questão de honra, afinal o garoto já estava beirando os catorze anos e nunca tinha sequer saído dos arredores.
Depois de muita insistência, e de piores ameaças, Gilberto percebeu que não tinha outro jeito. O que não tem remédio, remediado está.
Dadinho, ria-se por dentro ao ver a aflição do irmão caçula.
Ritinha ajudando dona Rita nas preces e orações, estava preocupadíssima com o pobre garoto.
Pobre garoto em termos, pois o marmanjão com um metro e oitenta de medo e de mimo não parecia em nada com um garoto. Barba na cara e músculos expostos, medroso como ele só.
A noite estava fresca e tinha um vento que, ao invés de ajudar, servia para aumentar os temores do nosso herói.
Mas, o que fazer?
Embornal preparado, canivete para cortar o queijo e o pão que serviriam de alimento no idílio...
Tudo bem que eram somente nove quilômetros, mas pareceria uma eternidade...
Os barulhos e sustos noturnos são terríveis, uma simples coruja toma aspectos atemorizantes e Gilberto sabia disto...
Ao passar pela porteira que delimitava o pequeno sítio, fez o sinal da cruz e, cabeça escondida entre os ombros, partiu...
No primeiro barulho estranho, as calças pagaram o preço pela insegurança do rapaz.
Todo borrado, ficou numa situação difícil, tentando andar mas com o passar do tempo, o odor e a consistência do produto do medo foram ficando insuportáveis.
O medo libera toda adrenalina até que, de repente, Gilberto desmaiou.
Os raios do sol mal surgiam no horizonte quando, nosso amigo despertou do terrível pesadelo...
Como chegar em casa e dizer que não tinha conseguido ir a Ibitirama?
Mais que depressa, ardiloso como ele só, teve uma idéia.
Rasgou a blusa e o casaco com o canivete, riscando a pele até sangrar um pouco, não muito, mas o bastante...
Ao chegar em casa, dona Rita extremamente preocupada com o caçula, e ao ver o estado em que o pobre chegara não titubeou, veio correndo abraçar o menino...
Ao perguntar o que tinha acontecido, Gilberto pôs a imaginação para funcionar.
Uma onça, isso mesmo, uma onça havia chegado perto dele e preparava o ataque, os dentes e as garras à mostra, numa cena terrível e pavorosa...
Dadinho, macaco velho, ao sentir o cheiro que Gilberto emanava, começou a olhar meio desconfiado para o irmão, e sentindo que o mesmo estava mentindo, perguntou irônico:
- E aí o que você fez?
Gilberto, reparando que ia ser desmascarado, mais que depressa respondeu:
- Eu? Quer saber de verdade?
- Claro.
- EU ME BORREI TODO!!!!!


Marcos Loures 

 21 de julho de 2011 
               

TEMPOS DIFÍCEIS



O tempo
não é de apostas.

Tampouco de sorrisos
a tiracolo.

Move-se em passos
mínimos
à meia-voz.

Clandestino
transita sem ser notado
quase fugitivo.

Não me abrigo
de sua face cinzenta.

Recebo os flashes
da realidade.

Na espera da colheita
dos novos dias de luz...

               
Ricardo Mainieri             

13 de julho de 2011

ORAÇÃO LAKOTA


"

Ensina-me a confiar em meu coração,
em minha mente,
em minha intuição,
na minha sabedoria interna,
nos sentidos do meu corpo,
nas benções de meu espírito.
Ensina-me a confiar nisso tudo,
para que eu possa entrar no meu Espaço Sagrado e amar além de meu medo,
E dessa forma Caminhar em Equilíbrio a cada passo do glorioso Avô Sol."

Fonte : José Marins



Olhos que brilham
na moldura da janela -
A lua cheia


Alvaro Posselt  

Gnosis




Tu o Vês??? Ninguém mais a Quer
Repudiam-na por sua complexidade
Por quê??? Adeus Paraíso a quem souber
Pseudo-Erudição... Comodismo... Vaidade

Nosso Presente... O Futuro... Não é o imaginado por Asimov ou Orwell
Nem Júlio Verne... O Grande Visionário... Conseguiu prever a era Atual
Intelectual??? Ler Paulo Coelho??? Saber do caso Rosswell???

Hoje sabemos... Amanhã de Nada Valerá
Know How Fast... Célere... Veloz... Saiba!!! Saiba!!! Saiba!!!
Neste Orbe... Não há Mente em que tanta Sub-Informação Caberá
Ah!!! Tá!!! Pra isso Memórias em Kbytes... Pra que Caiba!!!

Mas afinal... Que Droga nós Sabemos???
Sabe Mais, quem acumula mais Saber Virtual???
Somos Ícones??? Somos Perfis??? É onde Cabemos???

Alienação... Não percebemos que nossa sociedade é Autófaga
Produz-se... Consome-se... Digere-se... Defeca-se
Sub-Produto... Sub-Humano... Que na Sub-Informação se Afoga
Não se Engane!!! Somos Agentes!!! Massificação... Faça-se!!!
Ah!!! Mas quem ousa transpor os Limites... IN-SA-NO!!!
Deixar muitos Aquém... E Saber muito mais do Além
Ethereal... Espiritual... Humano??? Nem tanto!!!

Psiu!!! Silêncio!!! Vou falar baixo... Perigo!!!
É demasiado Angustiante e Arriscado possuir a Gnosis
Saber demais... Presa Fácil... No Campo de Centeio Ser Trigo!!!
Maçons... Illuminati’s... Skull and Bones… Club dos Treze… São ferozes

O que??? Contos da Carochinha??? Teoria de Conspiração???
Tudo bem!!! “EU” entendo... A Verdade é Sobrenatural
“EU” sei!!! Sub-Informação... CPU a serviço da Dominação

But!!! I Know... Knowledge is Power!!!
Fascina-me o Saber… O Fenômeno Existência
I Have Courage to Fly Around to the Ivory Tower
Viajante no Multi-Verso do Saber... A Afiar a Inteligência

Hiperbóreos... Lemúrianos... Atlantes... Arianos
Acádia... Suméria... Babilônia... Egipto... Pérsia
Cruzadas... Templários... Santo Graal... Cavalarianos

Ninrod... Poderoso Caçador... Construtor de Babel
Resgatou os Mistérios Profanos... E perpetuou-se em seu filho Tamuz
Adorador do Sol... Babilônia seu Legado... Onde seria poderoso Daniel
Semirâmes... Sua Mãe-Esposa... Adorada em toda Cultura que se Introduz

Propagou-se o Profano... Os Mistérios Antigos
Adam Weishaupt... Albert Pike... H. P. Blavatsky
Tetragramaton… Kundaline… Kabalah… E os Figos???

Constantino Cloro... Em 313 concebe a Igreja Católica
Muito Esperto... Império decadente... Perdendo Poder Bélico
Assentou-se como Pontífice na Cátedra de Pedro... Universal Apostólica
Um novo Império... Que trouxe Contigo Tempo Trevoso e Gélido

CHEGAAA!!! De que me adianta saber tudo isto???
Deixe-me em Paz... Carnaval... Cerveja... Futebol!!!
Sabichão!!! Aqui não é bem quisto!!!

Hipócrita... Tão Néscio torna-se um Canalha
Sua Boçalidade ultrapassa sua Arrogância
Deixe de Ser Covarde... Estenda o pescoço à Navalha
MORRA!!! E renasça da Putrefata Ignorância

MEDIOCRE!!! Largue esta Vida de Tanto Faz
Lance-se em Destemido Vôo no Abismo da Gnosis
Lapide-se... Seu Caráter... Seu Espírito... E a Divina Luz Verás

Gutemberg de Moura


O mar e a vida




Eu adoro o mar; nele existe alguma coisa de especial que me envolve
Que me fascina, absorve-me, me mete medo e me inspira respeito
Gosto de observá-lo à distância, quando ele está revolto ou sereno
Sua braveza me excita, sua mansidão ameniza o meu ser agitado.
Quando o vejo, a minha imaginação se torna um gigante e cria asas
Penso nos seus mistérios, sua imensidão, profundezas e segredos
Respeito a sua soberania, a sua ousadia, suas leis e seus critérios
Vendo-o de perto. Comparo o mar com a vida e a vida com o mar.

O vento é nosso destino e o tempo nossa bússola. Nossa vida é o mar
Somos barcos navegando, ora em águas calmas, ora em águas agitadas
Desde muito cedo, devemos aprender a navegar e a conhecer a solidão.
Vencer o medo, obedecer às regras do vento, para o barco não afundar.
De onde partimos nós não sabemos, o nosso destino é outro segredo
Não se deve remar contra a maré, nas horas das tempestades e trovões
Deve-se ter paciência. Respeitar o perigo. Esperar o vendaval passar
Não esquecer que ora sopra ventos traiçoeiros, ora ventos favoráveis.

No mar de nossas vidas existem muitas ilhas, muitos rochedos e portos
Muitas dificuldades, subidas e descidas, águas desconhecidas a singrar
Os nossos sucessos e nossas derrotas dependem de cada um de nós
Nossas conquistas são resultados de nossas lutas, nossa garra e talento.
Não adianta cruzar os braços, reclamar, ficar esperando a sorte ajudar
Quem espera tudo acontecer não consegue nenhuma meta alcançar
É um barco desgovernado, navegando contra a vida e, contra o vento
Não atingirá a lugar nenhum, pois vai ser tragado e devorado pelo mar.


Concita Weber 

17 de julho de 2011 



A pressa sentou na praça
esperando uma desgraça
doutor chegou sem pressa
colocou uma compressa
o amor nasceu depressa.

Reinaldo Cozer

 12 de julho de 2011 


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

O Morto Escuta




Sou místico, acredito no sobrenatural, em Deus, em anjos, fantasmas, duendes, rezo ao entrar no carro, faço sinal da cruz ao passar por igreja, enxergo coincidências e sigo rituais.

Quando pequeno, queria ser santo. Hoje, percebo que é difícil ser apenas um homem honesto.

Fiquei abalado pela história real de uma enfermeira mineira. Foi a descoberta espiritual mais importante de minha vida. Não dormi por duas noites seguidas relembrando as verdades ditas por aqueles olhos azuis enormes.

Ela trabalhou por 30 anos na Santa Casa de Misericórdia, cuidando e socorrendo pacientes terminais.

Confessou que a pessoa morre como ela viveu.

Os mais alegres têm despedida leve, tranquila, independente da enfermidade. Vão daqui para o outro lado sonhando. Não realizam drama, tampouco articulam chantagem. Tamanha a suavidade, não dá para identificar o último suspiro. Aceitam o destino, agradecidos pelo amor recebido.

Já os que estavam acostumados a reclamar de qualquer coisa também definham contrariados. Atolados de culpas e dívidas, esbanjam esgares de sofrimento, protestam pelas dificuldades adquiridas na doença, gritam a cada arrepio, lamentam ausência de atenção; o hospital nunca é bom, a dor sempre é insuportável.

Eles falecem com o rosto contraído, fechado, apunhalado. De quem apanhou da morte. Uma feição tensa, de escultura inacabada.

Mas, então, a enfermeira revelou um hábito surpreendente de sua equipe: conversar com o defunto.

Diante do morto sofrido, refratário e penoso, ela cochichava conselhos em sua orelha. Pedia para que ele reconsiderasse sua raiva, que desistisse da cara amarrada e emburrada, que se arrumasse para o velório e abandonasse o ressentimento.

Explicava que os familiares esperavam com ansiedade para vê-lo, que ele precisava se despedir bonito, que os parentes mereciam seu perdão e não valia a pena comprar briga por orgulho e teimosia.

Com as palavras delicadas de incentivo, não é que o morto ia soltando os traços e transformava a aparência na hora: libertava as bochechas, alforriava a boca, relaxava por completo.

O morto incrivelmente escutava. Entendia a súplica da enfermeira mesmo depois do seu fim. Atendia ao pedido e desinchava a amargura e serenava o espírito.

Nossos ouvidos não terminam com a morte. Continuam ouvindo onde quer que estejamos.


  Fabrício Carpinejar. 30 Aug 2011 


O mal e o bem




RIO DE JANEIRO - Durante alguns anos, mantive crônica num jornal carioca subordinada ao título "Da arte de falar mal".
Por duas vezes fui parar na prisão por causa dela, às custas da Lei de Segurança Nacional então em vigor. Até hoje não entendo a razão de ter dado esse nome ao que escrevia, nem sempre falava mal das coisas que aconteciam ou não aconteciam. Excepcionalmente, falava bem de alguma coisa.
No mesmo jornal, o poeta Carlos Drummond de Andrade também escrevia sua crônica diária, usando apenas as iniciais de seu ilustre nome, CDA.
Não era humildade de minha parte, era um fiapo de consciência profissional que ainda não me abandonara. Falava e escrevia mal pela simples razão de ser colega e amigo de um dos maiores nomes da nossa literatura. Marcava território, como os cachorros que escolhem o local onde preferem fazer pipi.
Medida desnecessária, por sinal; bastava ler a primeira linha de um texto de Drummond para que todos notassem a diferença.
Mesmo assim, houve um problema. Ali pelos anos 60, havia um apagão diário no centro do Rio. Das 18 às 19 horas, acendiam-se lampiões e a Redação funcionava, menos a gráfica, que precisava da energia cortada.
Um paginador distraído trocou os originais descidos à oficina e a minha crônica saiu no espaço consagrado pelo poeta. Por acaso, naquele dia eu falara mal da Ilha do Governador, sei lá por que, problemas com as barcas, óleo nas praias, falta d'água, essas coisas.
A editora José Olympio havia encomendado a Drummond e a Manuel Bandeira uma antologia sobre os 400 anos da fundação do Rio, dedicada aos bairros da cidade.
Foi o meu primeiro e raríssimo texto publicado em antologia. Por delicadeza, o poeta mudou o título para "Da arte de falar bem".
Tudo é possível.


CARLOS HEITOR CONY - : 01 Sep 2011 

Avionando




Vou fazer umas viagens longas de avião e, como aparentemente em relação a tudo de uns tempos para cá, fico matutando em como estou velho. Por exemplo, tenho certeza de que somente os mais velhos (tudo bem, menos moços) terão visto ou ouvido o verbo "avionar". Deixaram de tentar impingi-lo acho que quando eu era ainda adolescente. Escreviam artigos mostrando como os tempos hodiernos exigiam esse neologismo, sem o qual a comunicação contemporânea ficaria impossível em português, ou contaminada pelos então inaceitáveis estrangeirismos. Houve um certo esforço em implantá-lo, mas acho que todo mundo se sentia meio fresco, quando dizia "vou avionar ao Rio de Janeiro".

Minha primeira avionada foi no tempo em que ainda havia uns velhotes caturras que se recusavam a olhar para cima, quando um avião passava, e classificavam como mentirosa qualquer história relacionada com aviões. Só acreditavam nos desastres, cuja narração repetiam sempre que se mencionava um avião, entre comentários sobre a insensatez de querer sair voando por aí - Deus sabia muito bem por que não tinha dado asas nem a nós nem às cobras. E discutiam indignadamente sobre a alegada existência de banheiros nos aviões. Com que então havia uns buraquinhos neles, por onde eram espargidas no ar as sujeiras dos passageiros? Alguns sustentavam que não era problema, diante da força de dispersão da atmosfera, mas outros se revoltavam e comentava-se que d. Aurora, austera vizinha nossa da rua do Cedro, passou a só andar de sombrinha aberta, tão logo soube dessa situação ultrajante.

A outra ocasião em que avião virava centro de atenções era quando a Força Aérea fazia o voo da coqueluche, um acontecimento. Hoje acho que ninguém mais nem sabe o que é coqueluche ou se ainda existe coqueluche, quanto mais voo da coqueluche. Coqueluche, recordo aos que não sabem conservar a memória nacional, era uma tosse que dava em crianças. Que eu lembre, não costumava ser fatal, mas a tosse era incontrolável, o que às vezes impedia as crianças de comer ou dormir. Era muito contagiosa, tanto assim que, quando algo ou alguém estava muito na moda, se diziam coisas como "o bolero é a coqueluche do momento". Hoje, quiçá a coqueluche do momento no Brasil seja a corrupção, mas se cura fácil, há muitos jatinhos dando sopa a quem quiser fazer o voo da coqueluche.

Mas estou explicando mal o voo da coqueluche. Era um voo, ou voos, a depender da demanda, que a FAB fazia, para sarar ou melhorar a coqueluche das crianças da cidade. Certamente por causa da mudança de pressão atmosférica ocorrida no avião, garantia-se que um voo de, creio eu, cerca de meia hora curava ou aliviava os sintomas da coqueluche. E nada apaga minha frustração infantil de nunca ter tido coqueluche, para tomar parte na aventura do voo. Fui um excluído e, nessa época, não havia ONGs para assumir esses casos. Tenho sorte em não ser hoje bandido, por causa desse trauma da falta de coqueluche.

Lembro até mesmo duas companhias nacionais que voavam a Aracaju, onde morávamos: LAB e LAP. Linhas Aéreas Brasileiras e Linhas Aéreas Paulistas. Pouco depois, na minha lembrança, a Aerovias Brasil, que durou mais tempo que as primeiras. Meu primeiro voo foi a Salvador, pela LAP. Ideia de meu pai, que sempre fez questão de desfrutar da mais nova tecnologia. Naquele tempo não se usava isso, mas acho que, se se usasse, minha mãe tinha pedido separação na hora. Não me esqueço do quadro lúgubre da família, com exceção do velho, entrando no avião como a caminho do cadafalso.

Os assentos eram em duas fileiras fronteiriças, ao longo da cabine, como nos aviões de paraquedistas que a gente vê em filmes de guerra. Havia um comissário de bordo que serviu sanduíches e refrescos, bem mais, pensando bem, que em certos voos de hoje em dia. E teria sido apenas mais um voo rotineiro da LAP, se meu pai não tivesse tido seu espírito aventureiro recompensado pelo destino e não houvéssemos experimentado a espetacular queda num vácuo. Até hoje não sei bem o que é queda num vácuo, mas foi a expressão que, entusiasmado, meu pai bradou lá de seu assento, quando, a troco de nada, num voo sem muitos sacolejos, o avião pareceu despencar vertiginosamente, para depois parar tão de súbito como começara, dando um tremendo susto até mesmo no comissário, embora não, é claro, em meu pai. Anos depois dessa viagem, ele ainda a contava, como quem havia escapado a fogo antiaéreo: "Caímos num vácuo! Você já caiu num vácuo?".

Sou antigo também o suficiente para ter feito uma rota arcaica, verdadeira expedição aérea, entre Salvador e Belo Horizonte, já no tempo do DC3. O DC3 tem fama de excelente avião e dizem que até hoje há muitos em operação, mas, além de bom, virou mito e ganhou pelo menos uma frase ritual. Na hora em que os cintos já estava amarrados, as portas fechadas, e os motores acelerando, havia sempre diversos passageiros pálidos, outros se benzendo, outros debulhando um rosário e os que não estavam de olhos fechados se entreolhando, com um eventual sorriso amarelo. Aí sempre tinha um, mal disfarçando o terror, que também sorria e lembrava com os lábios trêmulos: "É um DC3!". E se manifestava pelo menos um outro, que acrescentava: "O melhor avião já construído!". Suspiros de alívio e anuências, com gestos e palavras enfáticos, amenizavam consideravelmente a viagem. Agora não se notam tantos apelos à Providência, mas espero que continuem, ainda que discretamente, ou então que as conversas nos celulares sejam chamadas diretas ao santo protetor de cada um, mas, mesmo assim, quando antecipo uma viagem das de hoje em dia, sinto um pouco de saudade do tempo do DC3.

  JOÃO UBALDO RIBEIRO. 11 Sep 2011 


terça-feira, 3 de setembro de 2019

Canto da Imprudência



A cera é do mel da abelha,
A pena é da gaivota do mar,
Fugiremos da grade pelo ar,
Perto o sol, cuida-te: centelha.

Neto de Alcipes, filho de Ares,
Descendência direta de Zeus.
Mas creia em pagãos e ateus.
O Sol é rei sob todos os mares.

Ícaro não suba mais as escadas,
Sou seu pai e sei o que lhe digo,
Sempre tem o ponto sem partida,
Água! Ouvi barulho de suas asas.



Eduardo Ribeiro    

          13 de agosto de 2011

Foice



E como se uma foice
na minha mão
fosse a minha
última palavra
a pronunciar
diante
da sua inesperada
renúncia
de amor,
depois do tempo,
anos,
que perdi
com você.

Paulo Henrique Frias   

 11 de agosto de 2011

DANÇA DA LUA




durmo liberto
ao céu de outono
desperto
sonhando com
a palidez da lua
crua
branca
suave bruma
sua sombra tece
uma rede mansa
que meu corpo
embebe
e comigo dança
com as pernas
nuas

(Cristina Desouza)

TESSITURA




Tecem-se fios e resultam sonhos
em branco e preto no sofá da sala
claros-escuros de intenções
do inconsciente - ressurge o espasmo
em labirinto: tua morte antiga
vai renascer: eis outra cor, eis outras formas
teu novo mundo.

Tecem-se sonhos e resultam fios
do dia-a-dia e outros compostos
sem plenitude. No fim das lágrimas
o carcinoma do teu desejo
sem solução: o ofício é a luz
e não o escuro do teu sofá
sem cor nenhuma - renunciarás
à tua visão e tua pele
renascerá.

Álvaro Pacheco

JUNTANDO GRAVETOS



Para Antonio Calixto, com carinho e muita saudade

“Faz um tempo eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais”
John Ulhoa

o silêncio de hoje
toca a quaresmeira lá fora
e, hóspede da perfeição,
torna-se igualmente lilás

é com esse silêncio
que leio suas palavras potáveis
recém chegadas de longe
– de onde? –

de algum lugar onde parecia pedra
e era queda

(a dor nos traz anseios
tolos – como fazer a Terra
voltar meses, anos atrás, como fez
aquele herói extraterrestre
do filme e do álbum de figurinhas
que juntos colávamos
em muitas manhãs de domingo –
ou olhar uma estrela
e imaginar que você
dorme em algum lugar
ali por perto –
e nos dá a medida do tempo
e continuamos sem entender
medida alguma, aguardando
o barco retornar de Delfos
para que possamos, também,
nos despedir definitivamente
desse nosso
bosque lilliputiano)

dizem que é a última canção
mas eles não nos conhecem

por dentro da tarde
as flautas tomam fôlego
para que canções flutuem
ao redor das árvores
que fazem sombra
para os que se despedem

Fabiano Calixto 14 de agosto de 2011 

# do livro “Sangüínea” (Editora 34, 2007)

AGAR AUSENCIAS





Escrever é um caleidoscópio
Poesias se tornam, via de regra, um Ópio,
Multicoloridos aquários,
Mandalas hipnóticas,
Deslizam pelas paginas a sós nossas mãos,
Pensamentos aleatórios,
Relâmpagos errantes que surgem como a chuva,
Sigo essas águas que me leva e lava,
Como se o sínodo Real fosse quebrado e tudo revelado,
Poesias aparecem e desaparecem assim,
Do nada.
Criaturas aladas, às vezes quentes, por vezes geladas,
Chove...
Chovendo sobre esse pó,
Ávido por apagar ausências,
Mas só consigo escrevendo com ou sem, porém,
Do meu jeito, sem firulas e palavras obscuras,
Caleidoscópio de tramas enredadas,
Sigo minha vida,
Sou forte, sou guerreiro nascido nos trópicos do Brasil,
Sigo minha vida, de Norte a Sul,
Quem sabe um dia, ache em uma republica de bananas
Como ainda é o Brasil, a eternidade do amor destinado,
Para mim, sem artimanhas ou histórias estranhas.
E baste para dar fim a esse sentimento das minhas entranhas.


 Paulo Carvalho. 14/08/2011

O tempo


Que minhas carnes corrói
Trago-o na palma da mão
Co mo um espelho
Por onde vejo
Todas as coisas que não vivi
E sinto falta.

Entretanto, meus dias não vividos
Deslizam no chão das horas
Como um rio de leite
Derramado...



Edmilson Jose Silva      

 14 de agosto de 2011

NA ACADEMIA


         
abdominais
impõem
reflexões
adversas

músculos
em flexão
mente
em recesso

anilhas & supinos
endorfinas
ao alcance do povo

felicidade geral
da nação
anestesiada & anabolizada


 Ricardo Mainieri  

QUINTANA REVISITADO


   
o belo idiota que aí está
contando lorota
ele marmota, eu gaivota.


 Evandro Souza Gomes
050711

ANGÚSTIA..



Sabendo que andei só na vasta estrada
Que leva ao pensamento uma alegria,
Tristeza vai chegando disfarçada
Irrompe furiosa em agonia,
Deixando não restar mais quase nada,
Tornando a minha vida bem mais fria.
Tristeza de saber que fui feliz
E agora vou vivendo por um triz.

Palavras que escutei de amor imenso,
Não foram, nem sequer realidade.
Meu dia se perdendo, frágil, tenso
Matando em nascedouro a liberdade.
O fogo da paixão, queimando intenso,
Morreu mal começou num fim de tarde.
Deixando duras sombras no caminho,
Agora vou medonho, estou sozinho.

Vieste e qual cometa já partiste,
Deixando um rastro feito em tanta dor.
Meu coração restando só e triste,
Não tendo mais um sonho a recompor,
Padece, mas teimoso inda persiste,
E tenta cultivar ainda a flor
De uma esperança tola e malfazeja,
E a lança da tristeza me dardeja.

Quem dera se eu tivesse algum motivo
Pra rir e prosseguir a caminhada,
Apenas, tão somente sobrevivo,
Seguindo sem destino a minha estrada
Quem teve no passado um dia altivo
Não sabe o que fazer se encontra o nada.
Tocado pelo vento da tristeza
A dor se alvoroçando põe a mesa.

Mortalha que me cobre, solidão,
Ferocidade plena em suas garras.
Rasgando sem piedade o coração,
Mantendo com firmeza tais agarras
Na crueldade encontra uma razão,
Para firmar com força estas amarras.
Deixando o gosto amargo do vazio,
Rondando com olhar sempre sombrio.

Talvez quem sabe; um dia eu poderei
Falar de uma esperança, quem me dera!
Agora que em seus braços me entreguei,
Não vejo mais as flores, primavera,
De tudo o que pensara, cobicei
Um dia mais feliz, mas esta fera
Felina em ironia não me deixa,
E sinto no meu rosto uma madeixa

De seus cabelos frios, braços fortes,
Carpindo com sorrisos, sem ter pena,
Mudando meu caminho, pr’outros nortes,
Gargalha enquanto louca já me acena,
Promete novamente fundos cortes,
E soberana invade cada cena,
Tristeza, companheira derradeira,
Com certeza, minha última parceira...

Marcos Loures 

Os dias




Você tenta romper a cadeia do tempo
trocar o dia pela noite
apressar o batimento de um domingo
ou inverter o fluxo de uma semana inteira.
Você tenta de tudo
todas as maneiras de tornar menos opaca
menos mecânica
esta série absurda chamada existência.
Mas os dias rastejam os mesmos
como lesmas.

De Eudoro Augusto

Rick's Cafe



O esquivo e atarracado espião.
Evidente dedo-duro.
Sua muito. Parece húngaro.
Fala cuspindo.
Olhos apertados
de onde escorre lenta
a mais nojenta lama do nazismo.
"Você me despreza, não é?"
Com a voz mais seca
que minha boca permite
com meu timbre mais bogart
respondo rápido como um tiro.
"Rapaz
se por acaso alguma vez
meu pensamento esbarrasse em você
certamente o desprezaria."


 De Eudoro Augusto


Tabua quebrada



Tabua quebrada
mandamentos dispersos
não fareis maus versos.

Um espírito
de haicai
Bashõ em mim



Reinaldo Cozer
29 de julho de 2011

Nove variações sobre um tema de Jim Morrison



"You know the day destroys the night
Night divides the day."

1.

A tarde devora o dia
que já estrebucha entre nuvens.
É noite.

Manhã engole essa noite
encaroçada de estrelas.
É dia.

2.

O dia levanta a cabeça
num gargarejo fatal:
a tarde lhe rasga a carótida.
Noite.

A noite segrega projetos
de mundos magros, sem cor.
E vem o dia com seu préstito:
manhã.

3.

Nada como a tarde, trapos encardidos
enxugando os restos de uma luz já suja,
recolhendo as manchas de sol desmaiado
com a complacência de um apagador.

Nada como a manhã, com seus dedos de feltro,
flanelas metafóricas de pura indiferença,
a estender sobre o escuro a realidade plena
de um dia ainda há pouco de todo inconcebível.

4.

Por que é que essa tarde desmancha e desmaia e
sufoca o que o dia erigiu por um triz?

Por que é que a manhã como esse estrépito todo
dissipa o que a noite a tal custo ajuntou?

5.

Boçalidade da tarde:
porque afinal o dia custou tanto
a se investir, a instalar no teto
a gambiarra cara e trabalhosa
do sol, a despejar anil no céu
como um tintureiro alucinado.

Artimanhas da manhã:
despipocar todo o lençol da noite
e detonar tantos penduricalhos
de luz laboriosamente espetados
e acendidos um por um, com desvelos
obsessivos de monomaníaco.

6.

Manhã, que nunca pensas duas vezes
antes de atamancar com tua fórmica
banal a tapeçaria da noite,
como és enorme!

Ó tarde, que tens a desfaçatez
suprema de garrotear sem pejo
o pescoço fino e alvo do dia:
como te invejo!

7.

A cara desta tarde
é muda e austera, cara de quem
assiste, não de muito perto, à morte
prolongada e silenciosa de alguém
que não conhece, e nem
deseja conhecer.

O rosto da manhã
é o rosto frio e indecifrável
de quem contempla apático a morte
de alguém desconhecido, rosto
de quem, fora a licença poética,
rosto não tem.

8.

Se por acaso esta noite se extinguir
no féretro aéreo da alvorada,
tal como o dia ainda há pouco se esvaiu
na crua hemorragia de um crepúsculo,

será a comprovação esmagadora
do triunfo do real insensível
sobre os sonhos sublimes e inefáveis
dos nossos mais insignes metafísicos.

9.

Todo todo é menor que a menor parte,
muitos mundos cabem numa avelã.
Não há dia que não morra numa tarde,
nem noite que não se acabe em manhã.

De PAULO HENRIQUES BRITTO


Para os senhores do mundo
somos coisas.

Coisificados pagamos impostos.

Coisalgumas que assistem
telenovelas & telejornais.

Que fazem amor
sem arte.

Somos coisas
semoventes
seminovas.

Em liquidação

Coisapenas
no mailing-list dos políticos
e dos spamers de ocasião.

Ricardo Mainieri             

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

CONTRAPONTO HARMÔNICO, CAUSA-ERRO E BIODIVERSIDADE





Gosto de imaginar as cidades pós-modernas
Como concertos polifônicos babélicos,
Onde as verdades determinadas,
Advindas do imo dos indivíduos,
Físicos e culturais,
Encontram sempre seu contraponto
Harmônico, seu alter ego ou Doppelgänger,
De sorte que resta ali preservada
A grande saúde da diver-
Sidade que nunca se deixa reduzir à raiz:
Está extinto o reducionismo e instituído
O caos como fonte duma verdade vetorial,
Físico-democrática, a emergir das coletividades
Como irrompe dos corpos.

Gosto de imaginar a causa-erro,
Que tomo de empréstimo a Darwin
E é muito afim da causa-errante aristotélica,
Como dissonância ou desarmonia,
A perpassar toda a cidade qual um soluço,
Ou uma onda metapólis-
-fônica diacrônica diacústica, e criativa:
Assim pelo seio da mata amazônica
Há de passar um simum vindo de alhures,
A revolucionar as estruturas quebr-
Ando as sucessões em prol da turbulência
Entrópica e da manutenção permanente
— Da biodiversidade.


Igor Buys
06 de agosto de 2011

               

Cinco sentidos


 - Almeida Garret

São belas - bem o sei, essas estrelas,
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti - a ti!

Divina - ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.
Será: mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti - a ti!

Respira - n'aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto: a minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti - de ti!

Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos
É só de ti - de ti!

Macia - deve a relva luzidia
Do leito - ser por certo em que me deito
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti - em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos,
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E, quando venha a morte,
Será morrer por ti.



MEU FILHO




Vieste, em favor divino
Para um velho sonhador,
Que de novo, vai menino
Vivendo esse novo amor.
Traz esperança bendita
Nos teus olhos, nesse brilho,
Tua mãe, tão doce Rita,
Agradeço-te esse filho.
Minha vida, entardecer,
Já não cabia esse dia,
Em ti, de novo viver,
Ressurgir a fantasia.
No cansaço dessa lida,
Outros cantos conceber
Vai, esvaindo-se a vida,
Outra vida faz viver...
Amar-te é doce demais.
É poder recuperar
Tudo que fora capaz,
Um dia poder sonhar.
Menino, meu mimo e ninho.
Teu canto, meu passarinho,
A mais bela melodia,
Traduzindo em alegria,
Os meus olhos outonais
Minha vida já sem vida,
Meu mundo tão sem paz,
A juventude perdida,
Os tempos não voltam mais.
Me trazes nova esperança,
De me sentir tão capaz,
De lutar por ti, criança,
Nesse mundo tão cruel,
Se puder trazer a lua,
Iluminando teu céu,
Cravejando tua rua,
Por onde irás caminhar,
Com pedrinhas de brilhante
Só pro meu amor passar...
Meu menino, meu gigante...


Marcos Loures  6 de agosto de 2011

LUGAR NENHUM PRA CHEGAR




NALDOVELHO

No cais um navio, chegou faz um tempo. A campainha da porta há tempos não toca e o telefone quando toca: desculpe, é engano! Nas esquinas: muita pressa, poucos sonhos, muito medo, pouca conversa e o navio no cais permanece ancorado, quieto, em silêncio.
...
Da janela percebo o outono, mês de março, abandono, pássaros em debandada, prenúncio de chuva, vento varrendo a cidade, trânsito engarrafado, e o sinal demora, quando fechado; ônibus lotado, e aqui em meu quarto: apreensão! No cais o navio, ainda ancorado.

Ligo a televisão e as notícias que chegam já não causam espanto, mas ainda assim doem! Crianças marginalizadas, prostituídas, de arma em punho, soldados indigentes de uma guerra sem escolha, sete corpos encontrados e quatro deles nem tinham quinze anos! E o navio no cais, ancorado, sem sinal de partida, nada que explique a demora.

Aqui em meu peito a dor de saber o quanto somos coniventes, o quanto somos responsáveis por ação ou omissão, por termos permitido que nos pusessem à deriva, por termos aceitado a merda desse navio ancorado, em silêncio, nada que justifique tanta passividade. Resultado: nenhuma novidade no cais!

Anoitece, agora chove, e dos longes mais notícias... Parece que as coisas por lá, também, não andam nada boas. Guerra, fome, desrespeito a natureza, risco de epidemia cada vez mais presente e as pessoas ancoradas, já tem um bom tempo, em silêncio.

Pego um livro de poesia e leio a dor de uma partida: o poeta se fez de louco enclausurado em seu quarto, nostalgia sem tamanho, mazelas de um coração. Quanta beleza ainda encontro nas palavras de um tolo, de um bardo sem consolo que se alimenta da ilusão.

No cais a multidão se aglomera, ora a Deus por um sinal, que o navio parta bem depressa... Mas o navio permanece ancorado, impossibilitado de navegar, já faz tanto tempo, sem comando, não tem rumo, lugar nenhum pra chegar.



CRÔNICAS DE UM BRASILEIRO DESESPERADO




O PEDINTE E O PORTUGUÊS

Enquanto Joaquim varria a frente de sua padaria notou um rapaz parado entre uma das entradas, logo levou as duas mãos ao bigode. Se não era consumidor porque estaria ele parado ali? Logo fez a pergunta:
-Ora, pois, o que faz em frente ao meu estabelecimento o gajo?
-Estou com fome doutor.
-Não sou teu pai e nem teu avô muito menos doutor.
-calma ai portuga, Quero um pedaço de pão sei que não lhe fará falta.
-Eu sei disso, vou ser bem direto. Eu te dou um pão hoje amanhã vai querer um bolo com café, daqui a pouco vai está morando lá em casa daí outros pedintes vão aparecer dizendo: se deu pra ele eu também quero. Não gosto de pedintes no meu humilde estabelecimento.
-Olha que portuga unha de fome. Retrucou o rapaz
-isso é pecado. Completou?
-Faz o seguinte, tem um lago aí em frente perto do bosque cheio de peixes, te dou a vara você vai lá e pesca.
-Não portuga, pescar dá muito trabalho, a minha fome não pode esperar quero comer agora.
-E amanhã?
-Só a Deus pertence.
-Um dia vai entender o porquê não dou esmola.
-Não quero esmola, estou com fome quero apenas comer.
-Quer mesmo comer?
-Claro.
-façamos um trato. É o seguinte, está vendo aquelas cadeiras branca? Lava elas que eu te dou um dinheiro mais tem que trabalhar. Vai ao banheiro lava as mãos que a Maria vai te dar algo para comer.
-é o seguinte portuga, deixa esse rolo pra depois vou ter que ir para casa da minha tia do outro lado da cidade. Pensou: trabalho to fora! Faço meus corre ganho muito mais.
-Tudo bem entendo você é livre e pode escolher.
-Falou portuga, vou pegar o bonde.
-Nesse país carregador dessa miséria agora é assim: não dê trabalho dê esmolas, bolsa família bolsa escola! Depois português que é burro. Ô saudades da terrinha...
Ed. 2011


 Eddy Fantasia    3 de agosto de 2011 13:40


Transformista




Pior do que romance xerocado
--- existe alguma coisa mais sem charme? ---

é o livro que se toma por empréstimo
a um amigo, ou à biblioteca,

depois do implacável "esgotado".
Habituado a sublinhar o texto,

o leitor, impedido de fazê-lo,
quer seja por pudor, ou obscura

certeza de que nada adiantaria,
percebe alguma coisa lhe escapando

--- e não são as idéias, anotadas
em fichas, mas o próprio livro, que

(diante dessa falta ele conclui)
por isso no limite se rabisca:

para se ter a ilusão de olhar
o livro na estante e, ao mirá-lo,

pensar bem satisfeito --- "já o li" ---
mantendo-o, entretanto, bem fechado,

pois um instante apenas bastaria
para na página se espelhar

um rosto totalmente deformado,
e o sonho da estante viraria

o pesadelo da biblioteca,
não fosse o fato de que o próprio sonho

seria um pesadelo, se verdade:
a casa cheia de espelhos planos

(pensa o leitor, e súbito deseja
vestir-se de mulher no carnaval).

De Francisco Bosco,