terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O bastando



Havia uma espécie de dança cruel no meu estômago que proporcionava pequenos pesadelos antigos de olhos abertos. Eu sentia o medo, sentia o cheiro, sentia o gosto amargo na boca... Tudo ali assim como se eu tivesse aquela juventude novamente, como se eu não tivesse saído do útero.

Que fosse medo e que fosse qualquer porra dessas que atinge numa certa altura da vida. Eu tinha punhos fechados e uma saiba em punir quem quer fosse que estivesse a pretensão de me ferir.

Eu tinha cicatrizes maiores do que imaginava. Foda-se. Era quase madrugada e eu ainda não tinha terminado meu café

Redson Vitorino



O Bastardo



"Silhueta cadavérica
amarelada pela cidade
mas engana-se
quem pensa não haver coragem


Redson Vitorino

Na reescrita da vida
Cada grão que brotou
é parte da planta florida.


Albertina Laufer

fragmento de dezembro



eu deixo a casa vazia
meus cavalos d'além mar
um caravaggio nos ossos
um maradona no olhar
um goya feito do avesso
meu corpo sem endereço

se dezembro me matar."

  romério rômulo

Tabacaria



‎(...)
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre "o que não nasceu para isso;"
Serei sempre só "o que tinha qualidades;"
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(...)
 (Fernando Pessoa, Álvaro de Campos)

domingo, 27 de janeiro de 2013

BREVE




(para os filhos e filhas de Santa Maria)

não tem essa de pressa agora
pode-se passar dessa pra melhor
e deixar o pior por fazer

o rio banha o peixe
o céu levita a asa
o que passa
não disfarça:

mostra a face
e o rosto da faca
num corte seco e rápido
pondo pano final ao teatro

tudo o que aqui acontece
pouco depois desaparece
na fração do beijo celeste

e quando brilha uma estrela
nasce o que é para ser nato
fenece o que é para ser finito

indo da fonte à correnteza
e desta ao fim com a certeza
que o mais breve dos dias
foi o mais intenso de uma vida

(Marco Cremasco)


José Aparecido Fiori
MATINAS - Sou solteiro nato, mas não casto. Guardo o celibato. De fato, plantei uma árvore, escrevi um livro, fiz filhos, até música sacra compuz sacrílego com estribilho. Não me ufano de ser mundano. Nunca fiz questão do brilho profano. Impuseram-me o casamento, os merdíssimos juízes, pela lei do concubinato. Tento ser o que sou, deixando a vida milenar a mil me levar, o ar respirar, o ser me inspirar até um dia morrer, ou me matar. Vivo, não existo, à relva do relento, à mercê do vento. Silencio o suplício da dor com cilício. Só me calo com o cálix bento. Unjo-me, punjo-me, ponjo-me, despojo-me, lambuzo-me, que nojo, unguento. Não sei, realmente não sei, como, por que, até quando, eu aguento. Bom dia!!