quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Dias de chumbo mais uma vez



Senti o chão sobre meu corpo
ao invés de só pisar
Perguntando-me em silêncio
a resposta tão óbvia que partia meu estômago
descer era felicidade em doses cavalares
podia-se matar um copo duma vez só
logo braços me prenderiam em um "nunca mais"
Eu havia perdido o caminho
não tinha olhos ou coração de apaixonado
o céu estava cinza me abençoando com um pai
se chorei nem percebia o gosto disso tudo
Estava sentado olhando espaços vazios
tão vazio como meu copo em mãos.


Redson Vitorino

Sustos da Tia Lu



Hoje de manhã, liguei a televisão e me deparei com a seguinte cena: um noivo sendo preso, no altar, no dia do seu casamento. Logo, pensei que tratava-se de alguma novela da Globo. Afinal, no meio dos folhetins globais sempre há uma cena em que um casamento se desfaz bem no altar. Mas, fiquei assustada ao saber que tatava-se de uma cena real, em que prederam um estelionatário bem no meio da cerimônia. 
 Luciana do Rocio Mallon
 

Herança do filho ausente





__Alô, aqui é o advogado da rede de restaurantes do seu pai, eu sinto muito...
__ Era de se esperar, o velho já estava teimando em viver.
__ Mas...
__Não poderei ir ao velório, compre uma coroa de flores em meu nome.
__ Com estava dizendo eu sinto muito, o inventario será aberto daqui uma semana, logo depois da missa de sétimo dia. Mas já posso adiantar que você herdou o carrinho de cachorro quente, aquele que seu pai começou. Era grande valor sentimental.
__ Ai! Meus Deus!!!
Júlio Damásio


 “Arei, sulquei, adubei. A semente era eu plantada no tempo. Cortei as raízes, nasceram asas, mas ainda não aprendi a voar” (Deisi Perin).

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

becos



 

hoje quando voltei da rua
trouxe comigo – nítida –
a ideia de não ter saído do quarto
e vaga sensação de cansaço como álibi invisível
assim como meus passos na rua:
eu entre
os invisíveis
homens
da rua
que olham através da minha carne
e passam

mas não me sinto triste
antes debruço sobre tudo que enxerguei
e me perco em avenidas que não conheço
e nem deixo rastro
(por isso não sei voltar)

estou tranquilo
e o abajur escancara
minhas retinas
os barulhos
da casa
são dispersos

estou tranquilo
enquanto tudo
dança

(meu coração é um
hospício e meu
passo à casa)

calmo abro todas as portas de entrada
e à rua vou como quem procura portas
como quem se perde em ruas que não conhece

mas
sem
saudade

(Marcos Prado)



SONETO DA ARANHA UNIVERSITÁRIA





Ser "universitária"é, da cidade,
suposta condição: mais se assemelha
a um bosque entre edifícios, que já invade
os bairros adjacentes e os espelha...

Enquanto está a metrópole vermelha
de barro ou de poeira, a qualidade
do verde ali não tem área parelha,
que menos se polua ou se degrade...

Mas nem por isso seus alunos têm
maior senso ecológico: também
seus carros soltam fumo e roncam alto...

Apenas uma aranha cabeluda
no mato tece a teia: não estuda,
mas sabe que distância quer do asfalto...

[Glauco Mattoso | A aranha punk]