quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

a paixão pisa na noite
da minha casa vazia
atormentada de avessos

vinicius, baden, scliar
clarice, o sangue da terra
da ilha dos meus tropeços."
RR


ANTICABEÇA (II)


Lona podre, nacos de carne, torsos caindo; escuras mariposas (stukas) caindo; sirenes, uma canção.
Bater nos cornos do céu, capricórnio adoece em luzes de urina; olhos blindados; cano de fuzil apontado para a lua.
Esferas ou cilindros de cérberos; o aço grunhe; rajadas de agni; fogos-fátuos; bocas lanhadas por detritos.
Há um pássaro de três cabeças, e um só canto; uma jovem nua flutua no céu.
Emily pediu um livro (borboleta voando) de gravuras coloridas (sonhada por um chinês), com capa veludosa (desejada por um gato) e marcador de páginas (com bigodes de mandarim).
Ela, que ama peônias, biombos, nanquins, e sonha ser enfermeira num grande hospital em Berlim.
Ela, que ama o verde mar de gaivotas, e a prata que cintila nas peças do aparelho de chá.
Isso foi há quanto tempo? Havia um piano de cauda e lenços brancos, pedaços de carneiro e o pôr-do-sol.
Agora, só há o verde-prata, ou verde-escuro, verde-panther; na boca do dragão.
(Como um livro) (de figuras) (metálicas;) (imagens) (d’esqueletos) (turvos;) (surdos) (espectros) (em sarabanda,) (invernal.)
Palavras zumbem na mente; difícil caminhar com o peso do mundo. Este é um tempo sombrio, tempo da impureza, do branco mesclado ao amarelo.
Lao Tzu rumou para o Sul, montado num touro, búfalo ou grou. O guarda da fronteira pediu-lhe sua inútil sabedoria.

Claudio Daniel

ANTICABEÇA (I)



apartado de mim; ferocidade;
esse olhar atravessando folhas;
cegasse o vento reptante:
replicantes jias, alinhavando deserções.
entre breus, seara difratada
onde retráteis
garras do ínfero.
ao modo de borrão: ambíguo
desgarre, em acúmulo
áspero de grafias.
escavasse desde o centro
em desmedida,
e anulasse as cores da paisagem.

***

ambivalência do inseto
que se desenha íbis,
amêijoa, escaravelho,
folhas ou fíbulas, fúrias ou órbitas
insustentáveis
de outra orla, outro círculo
plasmático. tudo está
no dorso da pupila.

Claudio Daniel

NOITE-ESPELHO



olho a noite
que me olha,
não te vejo
no que vejo
e me desapareço

Claudio Daniel

ÍNDIA



SÓ A LOUCURA.
Vem, do púbis
às omoplatas,
canta o antigo
sol, sua face
de flama animal
raiando desejosa.
Flor de sândalo,
diz ao tempo:
agora é sempre,
fecha tua asa,
expira em fumo
e cobre. Vêm,
Lakshmi-Naráyana,
flagelar o medo,
fustigar a sílaba
muda, para o
tempo de cristal.

Claudio Daniel

DEPURAR

Claudio Daniel


Paisagem manuscrita, seu árido vocabulário
de fraturas.
Onde cada figura musical
delineia
um animal desconhecido:
animal porque obscuro,
entre rasurado
e ambíguo.
Ler na pele do carneiro
a oblíqua sentença do desenlace
(seqüência de corvos
e equívocos)
até borrar os planos
da agrimensura
em cor amorfa, membrana devoluta.

Temptrabdução Joy(se...)

*Temptrabdução Joy(se...)

(...) It was of a night,
late,
lang time agone,
in an auldstane eld,
when Adam was delvin and his madameen spinning watersilts,
when mulk mountynotty man was everybully
and the first leal ribberrobber
that ever had her ainway everybuddy
to his lovesaking eyes
and everybilly lived alove

with everybiddy else(...)

*James Joyce

(…) Era de uma noite,
tarde,
lango tempo idoatrás,
em uma memória longantiga,
quando Adão era cidadespaço e suas rodopiantes partículas madamás na águantiga,
quando o homem malíderreal era todobom
e a primeira leal gozadorroubadora
que sempre teve sua formentodos
aos olhosamantes dele
e todobode viviam sozinhamor
com todomunda mais (...)

*por Samantha Beduschi Santana

E como explicar o desejo?
A flor que se abre à revelia
Sôfrega, desvairada, atônita
Tudo se reparte em crisálidas
Mirabolantes
Parindo estrelas adormecidas
Aos borbotões

Bárbara Lia
Adriana Zapparoli
- sob a epiderme a malha é fúcsia. do peito inunda azul piscina ... porque ao meio-dia as proteínas são vestígios em leito de néctar de fruta e mosca em orbiculares de silêncio .

rodopiou

no redemoinho
do ralo

alice alice
a água levou

seus segredos
de amor
seus diários

alice alice
a água
levou levou

js 

UM ANJO PRA ME CUIDAR


Então veio um anjo e disse-me:
Dorme que vou te cuidar!
Não tenhas medo de nada.
Eu vim aqui pra te olhar.
Os olhos dele eram negros.
A pele negra também!
De sua boca ouvi músicas.
Trombetas tocaram no além.
E em seus braços dormi.
E com o anjo sonhei.

Arlete Klens

MINHA RUA



Minha rua era tão minha
em sua simplicidade...
Não sei de onde é que ela vinha,
mas ia para a cidade.

Com suas pedras redondas
e duas magras calçadas,
não tinha praia nem ondas,
mas como tinha enxurradas!

Era alegre, era risonha,
tinha orquestra de pardais,
e a cantilena enfadonha
de mil pregões matinais.

Ali cresci, me fiz homem,
e a minha rua, coitada...
qual as mães que se consomem,
foi tudo, sem querer nada.

Foi pista dos meus brinquedos,
de jogos de correrias...
Foi dona dos meus segredos
viu tristezas, alegrias...

Viu meus passos imprecisos,
viu-me garoto, um traquinas,
e viu-me trocar sorrisos
nas rondas pelas esquinas.

Viu-me também, certo dia,
sair da lá, nem sei quando...
Por fora sei que sorria,
por dentro estava chorando...

guardei, porém, na lembrança
aquele encanto que tinha
a rua em que fui criança,
a rua que foi tão minha...

Virgílio Moojen de Oliveira

DNA psicodélico


A dupla hélice
colorida, arredondada
icônica estrutura helicoidal
que sobe e desce
pré-determinando cores e formas
dons e sabedoria
medos e traumas
alma e psique.
Quem sou?
Como sou?
Vida, continuidade e essência
contida numa complexidade e singeleza
tão linda
tão colorida
tão dolorida.
Num tempo rumo ao igual
ao conforme
à padronização
Alegra-me saber que por dentro
sou um DNA psicodélico

Deisi Giacomazzi Silva

Quase alma

Roberta Tostes Daniel


Homem, templo do caos
Te abro como ao universo
E estendo a nódoa do sentido

Soa o que em parte já não és, não sou, nem seremos
Te chamo do meu último chamamento
Deixar morrer, um dom dos deuses
Jussara Salazar
a mulher banhista
veste as ondas
e mergulha

seu corpo reto
divide o mar
em fios teias

emaranhados
leves
pesados

Jussara Salazar
O Amor pulsa no peito
e vem pra fora em gestos
carinhos, ações e sorrisos.
Um Amor assim, não visa
um alvo exclusivo, egoísta.
O Amor é voo em liberdade
Asas cheias de polens
Que se soltam por onde passam
Germinando e brotando ao acaso
Eu não posso ser dona do meu Amor
Semente guardada, seca e morre.

Lisa Köe


Sabe, estamos cansados
da morte, das eloquências, das referências;
dos rincões da desesperança
do que soa à presunção.
Queremos o amigo duro, o amigo da bebedeira
quem desfaça nesgas de lirismo
e não nos deixe de novo dizer
que o corpo é cadafalso do voo;
não, não mais.
Mas em algum lugar
alguém ainda se embrenha
nas teias de aranha daquela placenta
na alma sem cálice, bebe
o vinho ainda suntuoso do agora.
Simples...


Roberta Tostes Daniel
Diante do mar, um quadro dentro do outro, com a inquietação da imensidão vazando o gol, mais uma temática presente nas obras do fotógrafo italiano Luigi Ghirri: nunca a solidão foi tão densamente povoada de claridade." [Josealoisebahiabhzmg: Fev2014]

sim e não


os problemas ficaram pequenos
penderam entre o sim e o não
quando tudo era mais ou menos

a dúvida nunca foi o meu cruel
há muito perdi a conta
de quantos quero ver no céu

certo, errado, cabeça tonta
viva quem coloca a bomba
e viva quem a desmonta

(Roberto Prado)
não serve a nada de nada um cavaleiro
ficar em casa sereno no meio da meninada
conversando potoca com a empregada velha

não imponho nenhuma lei a esses selvagens
por q nada soma e se dorme e se engorda
e não se ve nenhuma mudança q valha

tou inquieto e assim não sorverei da vida
nem mesmo a ultima gota a q não gozarei
por q nada disso me faz bem ao figado

não serve a nada de nada um cavaleiro
com uma tal navalha inquieta no pescoço
isso de querer a vida e so fugir e se esconder

sofri e sofro muito como todos ao redor
porq sofrer faz parte tanto em terra firme
quanto inteiro ou arrastado nos cinco mares

essas negras terras tão irritadas e nuas
sem elas me transformei em mim e so
errante quase sempre nesse duro impulso

não serve a nada de nada um cavaleiro
q nada viu nada conheceu nada gozou
da vida do poder do pecado e dos ruidos

agora é a vida larga cidades e meganhas
logo eu q não sou parte nem faço disso
nas margens meu largo cavalo de batalha

nada inexplorado nada q se afaste e brilhe
sem se saber origem e destino e a tolice
q a tudo cerca e invade ate o fim e alem

não serve a nada de nada um cavaleiro
daquela maneira derrubado na cama
sonhando com cavalos inimigos e bestas

a comida o vinho escuro conversa q trama
queimar tudo fazendo mudar noite em dia
porq a treva vem e se fica na mais clara luz

agora sim tudo se move quando me movo
e nos movemos pro inescapavel sentido
como se viver fosse muito mais e melhor


*
Alberto Lins Caldas

Exílios na pele; palavras subtraem cérberos;
estrela semovente ou
espectro
de uma voz;
cegante, replicante,
irrompe em rubro; retráteis
ecos dessa voz — fera
rompante.

(Voz-galatéia:
tão distante
e ubíqua
me retém.)

Minha pátria foi essa voz.


(Procurar o Tao é como andar em círculos para ver seus próprios olhos.)

Claudio Daniel
Claudio Daniel
Palavra jaguar este olho vertigem olho vértice olho vértebra —
desarvora o limo
palavra de vãos ventre voz
passos no limiar da voz
pássaros ao inverso
do vento.

* * *

Seria
uma refabulação
de prováveis?

— Desventra noite garganta pelugem febre figuras de voz.

* * *

Porque a palavra jaguar
vertigem
vértice
vértebra
voz.

* * *

Expandidas em múltiplas variações plásticas musicais inflamam a fibra
da fábula.

* * *

Hipotéticas linhas de mandala cores aéreas quatro caminhos
caranguejo em galáxia noire
laborando
prismas.
Distância.
Realinhamentos.

* * *

Dodecaedro do scorpio:
universo de saliências
e suas revoluções.


(Yin Hsi, em outra dobradura do espaço-tempo, faz do silêncio reinício.)


Claudio Daniel

De cada quarto de hotel faço minha casa. Acomodo as roupas, meus potes de higiene e de beleza, cada coisa em seu lugar. A camareira deve pensar - finalmente uma hóspede organizada. Aprovo o estampado da cortina, o chuveiro, a colcha e ganho inspirações para minha casa de verdade. Minha natureza cigana sente um prazer imenso em fazer o reconhecimento da cidade nova. Levo meus olhos para o passeio da primeira vez a cada rua intensamente ruada deste Brasil que cada vez conheço melhor.
- Volte sempre! O sorriso e uma recente saudade dos atendentes do hotel me acompanha. Desde o taxi abano para eles e reconheço seus nomes. Volto, claro que eu volto para Manaus! Meu Deus, quanta promessa não cumprida... Que a eternidade de outros terrestres se encarregue de voltar. Eu mal dou conta de conhecer um novo hotel, uma nova cidade que me abastece de frutos nunca vistos e de palavras recém nascidas.

Bom dia meus queridos leitores, amigos, parentes de perto e de longe.

Gloria Kirinus

UM LIMERIX PARA CURITIBA


Curitiba tem museu do olho
e pierogi com repolho.
Se chove na boca maldita,
triste desdita:
melhor ficar em casa, de molho.


Marcelo De Angelis
o mundo mudou demais sancho
mudou alem do q sempre muda
mudou como se não mudasse

virou cobra esperando a hora
do bote entre a lingua e o mundo
e a conversa perde o leite do bem

tão separada das coisas q o abismo
basta ciciar basta começar a narrar
pra engolir falado e falador e mais

o mundo mudou demais sancho
é so falar e arengar sem precisão
a tolice dos vermes na carne mole

esse ruido esse silencio esse nada
vem bem do centro das palavras
doidas como galinhas apavoradas

so restou fuxico vazio sancho
garrafas q não receberam vinho
desejando ser garrafas de vinho

o mundo mudou demais sancho
não são as grandes e sumas forças
as tempestades depois de passarem

nem a grande imaginação o sonho
esse q atravessa a terra o oceano
e tudo toca desfigura e transforma

mas a palavra vazia a palavra nua
quase um grito um berro o gemido
cobiçando ser mais do q é sem ser

o mundo mudou demais sancho
agora é o tempo gordo do menos
hora onde não ha hora nem luta

não ha deus nem mundo nem nos
nem mesmo o povo e a casta vox
nesse mar q se abre e não dura

mas desde sempre o corpo resiste
agora sim sancho podemos tudo
revolver e inventar e recriar a vida

*

Alberto Lins Caldas

Um ponto que se expande
Às bordas das pálpebras
E aprende a olhar
Pela janela fechada.

Ele não possui cor:
como classificar
O que existe
Entre memórias?

Em toda tela
Há uma retina escondida.

Em cada imagem
Uma palavra calada.

Ver é perder o ao redor
E ganhar o só

para cegar-se.

Alexandre França
E quem vai dizer
Que sendo uma Nuvem
Não sou lago também?



Bebemos da mesma fonte...

Lisa Köe
para provar que nosso amor morreu
vou enterrar o meu olhar no teu."
RR

BARATA



Seminuas vendem sabonetes e o mar azul-da-prússia de paisagens recortadas de cartão-postal. Movimentos sinco-pados de ancas revelam saliências epidérmicas ao som da música melíflua de oboés. Jatos d’água escorrem pela con-cha do umbigo sob o céu cocainado, longe de estrias e da micose que avança nos pés. O verde em alta definição da folhagem oculta o sulco espesso da cavidade e atrai suspi-ros plásticos, romanescos, fluindo como sangue menstrual. Súbito, assoma a logomarca com a inocência animal de uma máquina de calcular. Iates e sol jamaicano anunciam o no-vo capítulo da novela. Seminuas têm medo de barata.

Claudio Daniel

Reza para avezar virada


RAPTO


Para iniciar uma lua pelos filamentos, em articulações

de répteis.

Obliterar os arredores

ao esquadrinhar a pele.

Descrever

joelhos como náutilos,

seios como escabelos,

esse é o meu hibridismo,

minha fome vertebrada.

Acontece que

a expansão do branco

bifurca-se, espraia-se

esqualidamente

do lábio ao umbigo,

em simulado rapto.

Ame o mapa de meu rosto,


sua caligrafia de incinerações.

Claudio Daniel

O rio da minha vida

 Alexandra Barcellos

Durante a minha adolescência eu frequentei uma escola, na cidade de Foz do Iguaçu, que ficava muito próxima ao rio Paraná.
Era uma sensação libertadora poder olhar pela janela e ver aquele mar de rio descendo em outra direção.
Eu havia aprendido que ele estava entre os mais longos rios do mundo e passei a admirá-lo de várias partes da escola.
Na hora da fila, antes de entrarmos na sala de aula, tínhamos que cantar o Hino Nacional e quando entoávamos “gigante pela própria natureza” era para ele que eu olhava.
Da biblioteca dava para ver a mancha que ele deixava em suas margens, logo após o período das chuvas, quando voltava ao seu nível normal.
O meu lugar preferido para vê-lo era do gramado diante da quadra de esportes e muitas vezes, eu, ficava lá, bem parada, apenas contemplando-o.

Foi o Rio Paraná que me ensinou a esperar pela passagem, boa ou ruim, de todas as coisas.
o poema malcriado
descumpre o ditado
acende
uma vela pra deus
e outra pro diabo


js.

Aviso de camarada



__ Alô, Neguinho?
__ É ele, quem?
__ Alemão, fala aí, como anda as coisa?
__ Eu tô vendo o...
__ Legal que está bem, cara! tava grilado com o camarada, Tive um péssimo pesadelo com você parceirão!!
__ Mes-mesmo...?
__ Sim, nem devia te contar para não ficar pirando , sabe como é! Mas precisa saber do barato do sonho, ta ligado? Cara! Você estava na minha frente agonizando, tinha levado dez pipoco só nas pernas e braços, dois na barriga um na fuça. Sei lá quantos ao todo, nem sou bom de matemática mesmo, entende! Estava lavado de sangue, se contorcendo todo e esticando sua mão para mim. seu sangue escorria pelo bueiro, Foi horrível!
__ ...
__ O pior que tudo isso por conta de um divida boba. Um acertinho de uns bagulho. Acredita?
__ Acredito, sim! Acre-dito nessa semana, juro, pago aquela grana!
__ A tá... Nem tava pensando nisso. Espero só até sábado aqui em casa, sem falta! Falou amigão, meu camarada.!


JDamasio/ Julio Damásio Morreu + 113 continhos / 2006

O velho e o neto



No quarto, o velho Doca contorcia o rosto como se fizesse careta para a morte, que estava para chegar.
Na sala, a família orava para que a morte viesse e levasse logo aquele sofrimento do pai exemplar, do carinhoso avô, fiel e amado marido.
O netinho caçula ouvia e entendia tudo com muita tristeza, apesar da pouca idade, cinco anos. Estava com o peito apertadinho, lembrava-se do seu avô jogando bola, narrando as jogadas e gritando, mesmo quando ele errava o chute: “Goooooooooool! Do meu netinho”. Lembrava-se também do velho brincando de esconde-esconde, enfiando-se nos lugares mais prováveis e mais fáceis de ser encontrado, só para dizer sorrindo: “Achooooooooooou!”
Com essas lembranças, o menino entrou escondido no quarto do avô. Todos haviam se recolhido, estavam cansados das noites em claro. Dentro do quarto, o pequeno se aproximou do velho, que, ao vê-lo, desfez a careta e conseguiu tirar, não se sabe de onde, talvez da alma, um sereno sorriso. Então, o menino disse prontamente: “Vovô, não podemo perdê tempo, temo que se esconde da morte, igual quando o vô fazia quando bincava comigo”. Encantado, o velho mantinha o ar sereno. O neto continuou: “Vamô, vamô escondê atás da porta, e quando essa morte ir embora, a gente vai jogá bola e eu vou fazê bastante goooool”.
O velho, disfarçando sua dificuldade e as dores, levantou-se e meio que arrastado pelo neto foi e ficou atrás da porta, o pequeno cobriu-o com um cobertor e juntos ficaram agachados.
No dia seguinte, a mãe do menino, filha do velho, entrou no quarto e viu o velho agachado, com semblante tranquilo. O menino se acordou, olhou para o avô e falou para sua mãe: “Tava brincando de esconde-esconde, mas a morte não sabe brincá e achou o vovô”.


JDamasio Conto dos Contos e Outros Contos / 2001

Meta-abismo


Configurar o êxtase -
o poema é um antipoema
que o homem escreve
na pele de seu abandono
papel que escava e delira.

Triste espetáculo
do qual se sabe:
atinar o nada
resvalar o nada
na torrente de enganos

deixar que floresça
mais homem, mais palavra
- sem que feneça, a mortalha
não ameaça os sonhos
com que a vida se lavra.

Roberta Tostes Daniel



(2012)

DESVIO



Farto já de tanta ambigüidade, flor excessiva, alfabeto cego

que se desdobra em vogais.

Peixe branco, gris ou amarelo

desgarrado de sua guelra,

no desvio das águas,

entre suposições, eufórico,

justaposto à inevitável precariedade.

À meia-noite,

desmanchar esqueletos

de anões,

é sempre a mesma música proliferante,

pautada nas ranhuras

da cervical.

Até dilatar os debruns coaxiais

da caixa craniana; sublime


é a arte do esquecimento.

Claudio Daniel

PAISAGEM


Serpentina dourada
pelos últimos raios
o rio, lá embaixo, se despede
do olhar efêmero
dentro do avião.

Captamos atônitos
sua líquida beleza.
Mas no quadro da janela
já ficou amarela
a fotografia
dessa emoção.

(poema de Ângela Leite de Souza, poeta mineira, jornalista, publicou dezenas de livros, a maioria na área infanto-juvenil. Com o livro de poemas Estas muitas Minas, conquistou o prêmio Casa de las Américas de Literatura Brasileira, de Cuba, em 1997. Estreou com Amoras com Açucar (1982). Publicou também Lição das horas, e Entre linhas, recém-lançados. ÃNGELA está na última postagem da série AS MULHERES POETAS...Se quiser ler mais, clique no link

Ditadura da arte



Minha caneta contra o papel
o papel passivo espera
os dois e mais tantos outros
esperando um pesamento cair
dependendo de uma perspectiva
elevar-se depois da última bilís
e do circo alheio eu dou risada
pondo um pé às vezes no palco
Ao invés de excessos variados
são apenas falsas orgias
nem uma gota de suor
tão pouco dormir na calçada
Eu levanto uma garrafa a favor
dou um trago contra
me visto mal
me alimento mal
Vejo o dia nascer do meio fio
apenas do meio para sentir-se vivo
informalmente percebe-se o agora
os olhos secos dizem amor porém


Redson Vitorino 

POEMAS DE AMOR AINDA



Em tudo, amor, há uma nova vida.
Ouve o que diz a flor sem som algum,
nós também já fomos apenas um:
eu, pleno e feliz; tu, a mim unida!

A rude rima, áspera ferida,
em vez de dar-me o céu de algo incomum,
fez de meu verso amado amor nenhum:
peso na consciência de quem revida.

Felicidade é só um bem sem cura.
No dia a dia, a dor não foi mais forte
que o infinito amor que nos unia.

E se a tristeza torna a luz escura
não seja eu o autor de tua sorte
pois que infeliz é um mundo sem poesia!

antonio thadeu wojciechowski


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Tobogã para noivas em fuga?
Fashion Verão nas cores da construção civil.

Lina faria


Submundos em nós


Não conhecia as cores
Vivia num lugar que semeava a escuridão
Era levado por vozes entrecortadas
Sombras dançantes de árvores fossilizadas

Eu descia dos longos troncos das sequoias do norte
E tentava segui-lo de longe, tão longe quanto
estamos agora de nossos pais
Era uma batalha encontrá-lo naquele lugar
Eu gritava pelo seu nome que ecoava em submundos divididos por escolhas

Eu tinha medo das pessoas que pensavam em suicídio e atravessava a rua ao pressenti-las aproximando-se com seu ponto final cravado na pupila

Um dia, finalmente o encontrei e foi a última vez
que nos vimos
Ele havia se tornado um pássaro estranho e o seu
espírito não reconhecia mais com o meu

Separamos as nossas solidões e eu voltei para
as sequoias que sabiam me presentear com todas as cores do sol.

Alexandra Barcellos

Palavras em chamas

 .

Lanças podem vir de vozes que atravessam
versos inteiros tentando atingir você
Sem a intenção de matar
Apenas provocar uma pequena reação no
escudo de casca que te envolve por inteiro
Palavras em chamas são lançadas quando
você menos espera
Algumas deixam feridas abertas por muito tempo
Outras cicatrizam depois da queimadura de terceiro grau
Há os que se esquivam por instinto
Há os que as detém com as mãos temendo perder
algo importante
Nenhuma atitude irá lhes salvar
Mesmo paradas as lanças espalham a sua fumaça
radioativa porque desconhecem a compaixão que
só existe no silêncio.

Alexandra Barcellos

o rio vazou
durante a madrugada

entre ele e eu
agora tudo é água

sua asa cinza
contra minha palavra

são dois cadáveres
ao pé da escada

Carlos Moreira

a escrita, pois. por que tamanho trabalho para tão frágeis páginas? como se obter a síntese, ganhar potência e mistério, dialogar de modo sensível e inteligente com o universo, especialmente o subjetivo? o que a síntese da literatura pode nos dar diante de um mundo tão cheio de contradições, catastrófico, fraturado, abundante? não estaremos nos iludindo completamente ao acreditar que é possível ordenar com esmero algumas ideias numa sequência de páginas? talvez a contribuição seja ínfima, mas é tudo o que alguns podem fazer. o que ora escrevo não passa de fragmentos de uma espécie de oficina de composição: anotações de pensamentos sem tempo para aprofundadas meditações. tudo está mais para o urgente. e antes de meu talento, vem a dificuldade de lidar com a linguagem. este seja o meu diário curto, sem data e hora que especifique ou clareie o que já não se dá a apalpar.
Luiz Felipe Leprevost