quinta-feira, 12 de julho de 2018


Tenho medo de acordar de um sonho e descobrir que estou em outro. E em outro, e em outro... No último sonho encontro você. Dormindo. Mas não é só isso. Descubro que estou no seu sonho. Que eu sou o sonho que você sonha. E que se você acordar deixarei de existir. Começo a suar frio, choro, rezo... Não acorde, meu amor, não acorde nunca. Uma lágrima minha rola no seu rosto. Você abre um olho -- e eu sinto que começo a desaparecer. Grito, desesperado. Você se assusta e acorda. Pronto. Acabou o último sonho que me sustentava. Agora sou só uma sombra de ideia, o eco de um eco, sem corpo, sem forma, sem nada, vagando nas solidões dos espaços vazios. Ser poeta é isto: ter consciência da irrealidade de todas as coisas. E mesmo assim amá-las. Amá-las desesperadamente. Como amei você.

Otto Leopoldo Winck


POIS É




Sou poeta nas horas (in)vagas
nas noites de procela
nos dias de tormenta
sapatos molhados e bolsos vazios.

Mais poeta que escritor
ou melhor: dançarino
malabarista
oceanografista

que o mar não está para peixe

só sendo taturana
estrela do mar
estrela cadente
pra dar um jeito
no que não tem jeito.

A beleza
é ver de dentro
o olho da gente: furacão, páginas rasgadas, vidas vertidas.

Otto Leopoldo Winck


terça-feira, 3 de julho de 2018

The Germans - Bismarck and the German Empire | DW Documentary

Father Sergius (1918) movie

Djanho, o Diabo de Curitiba




Dentro dos túneis secretos
Há tesouros raros e discretos,
Que são guardados por uma criatura
Com alma braba, obscura e dura!

O nome dele é Djanho,
Um ser muito estranho!
Nas noites de Lua cheia
Sua alma se incendia

E ele vira um homem de terno
Com jeito falso e fraterno
No Largo da Ordem cheio de bares
Ele sai dos túneis e respira outro ares

Seduz mulheres para depois faze-las chorar
De saudades, sob a luz do Luar !
O Djanho é amigo do famoso vampiro
E da Polaquinha com seu doce suspiro!

O Djanho bebe da fonte proibida
Do Cavalo Babão perto da praça
Ele deixa a fada perdida
E, totalmente, sem graça!

O Djanho faz o jacaré do Parque Barigui
Devorar cachorros abandonados e carentes
Como se ele mesmo não estivesse ali
No meio das pessoas inocentes !

Não tenha medo do Djanho, pois a luz sempre vence
Ele mora nos subterrâneos da capital paranaense.
Luciana do Rocio Mallon



Rejane Marques    
        
O extermínio das maravilhas propagadas pelos versos, retratos e canções de amor causou choque e inconformismo quando foi divulgado à sociedade. Não se podia mais negar as traições, nem florear o desejo sexual. Não seriam toleradas as lágrimas em busca de perdão; nem as juras de amor eterno feitas antes e durante o coito. Que fossem todos apenas sentidos, sem mentiras!

Sexo não é amor – determinou-se. Sexo é instinto – justificavam. Quem quisesse sexo, a partir de então, deveria ser sincero e aberto à justa negação. Não, era não; sim era aproveite. E quem não estivesse de acordo com as novas regras, que desembolsassem suas espécies para comprar o direito ao gozo.
...
                O avesso do espelho: O Extermínio
redutonegativo.blogspot.com


A Neve de Curitiba de 2013




Neste ano, no dia 23 de julho
Surgiu um fenômeno da natureza,
Que encheu Curitiba de orgulho
Por causa de sua beleza!

Depois de longos 38 anos,
A neve voltou a cair,
Sem fazer muitos planos
Com segredos de um elixir!

Ela apareceu em 1975,
Com força, vontade e energia
Eu era bebê, não minto
Mas, em 2013 ela voltou com nostalgia

Ela retornou tímida, pois é curitibana
Por isto, ela não falou com desconhecidos
A neve cobriu casa, prédio e cabana
Mas, deixou agricultores enfurecidos

Pois, atrás da sua beleza
De princesa cheia de pureza
Veio a bruxa da geada escura
Tão má, dura e obscura

Pois nunca deixa ninguém feliz
Queimando a planta pela raiz!
Neste ano de 2013, teve neve
De um jeito acanhado e breve

Mas, que de alguma maneira
Trouxe a geada escura traiçoeira !
Desavisados dizem que esta neve foi uma ilusão de eterno inverno
Mas, a geada negra provou que isto foi real e nada terno.
Luciana do Rocio Mallon



Conclusão.



Não foi uma noite de sonho.
Coloquei minha vida na balança,
Andei a procura de um amor,
Por vinte anos só agora descobri,
Que tudo foi em vão,
Comecei acreditar que ele não existe,
É uma ilusão,
Que aparece por um momento e some,
Tão rápido que não chega ate o coração,
Euforia passageira uma bobeira,
Que te deixa em estado de graça,
Mas na realidade tudo não passa de uma desgraça,
Sou uma mulher como todas tenho meus desejos,
A carne sente,
Estou no meu limite,
Mas o amor não veio,
Era isso que eu queria,
Sinto a dor mal sofrida da saudade,
Que punge e do amor que lacera,
Sinto em torno de mim a muda tristeza,
Nem o intenso fervor nem a intensa lembrança,
Divaguei de alma em alma em busca deste amor,
Sentir e ver o amor através de uma alma,
A beleza eras tu,
Tinhas a alma e o amor.
Neuza Rodrigues Ferreira.


Lenda do Bairro Barigüi



Há muitos anos atrás, quando Curitiba ainda se chamava Vila Nossa Senhora da Luz, existia um rio, onde hoje é a região do bairro Barigüi. Estas águas eram tão puras e cristalinas que as estrelas se espelhavam nelas nas noites de luar. Mas, neste rio, também moravam muitos animais, dentre eles havia um lindo jacaré. Assim uma das estrelas, do alto do firmamento, apaixonou-se por este animal e ele por esta mesma estrela. Nas noites de luar, um não parava de olhar para o outro. Então, uma vez, a estrela exclamou para o universo:
- Como eu gostaria de ser um mosquito-pólvora só para ficar ao lado do jacaré!
Deste jeito, Tupã, o deus dos índios, zangou-se e ralhou:
- Você é uma estrela ingrata, pois não valoriza a sua luz própria e nem a sua posição de destaque, que é o alto do céu !
- Mesmo assim, vou transforma-la num mosquito insignificante e mandá-la para a Terra só para que aprenda uma lição.
Desta maneira, a estrela virou um mosquito-pólvora e foi parar bem perto daquele rio. Deste jeito, ela disse ao jacaré:
- Meu amado, se lembra de mim ?
- Sou a estrela brilhante que era apaixonada por você!
O bicho brigou:
- Você não é estrela coisa nenhuma!
- Pois, não passa de um mosquito-pólvora, um ser insignificante!
Então, a ex-estrela explicou:
- Eu, realmente, era sua estrela amada. Porém, Tupã ouviu o meu pedido de morar aqui na Terra e transformou-me neste inseto.
O animal falou:
- A minha estrela era brilhante,cintilante e altiva, bem diferente de você que é um inseto insignificante.
- Por isto, sairei deste rio e só voltarei quando você puder provar que um dia foi uma estrela.
Assim, o bicho procurou outro rio e o mosquito-pólvora permaneceu no mesmo lugar atraindo outros insetos semelhantes para não se sentir sozinho. Por isto, com o passar dos anos, a região daquele rio ficou cheia daquele tipo de mosquito.
Então, os índios quando chegaram a este local, batizaram o lugar com o nome de Barigüi, que significa, em tupi, " mosquito-pólvora."
Anos se passaram e na região onde o jacaré se escondeu, ele viu duas índias contando lendas na floresta. Logo, uma delas falou sobre o causo de uma estrela que virou mosquito-pólvora, pois estava apaixonada por um jacaré. Ao ouvir esta história, o bicho resolveu voltar para a região do Barigui. Mas quando chegou ao local, descobriu que o mosquito-pólvora, que na realidade era sua amada estrela, tinha morrido.
Reza a lenda que ele é ancestral do famoso jacaré do Parque Barigüi.
Luciana do Rocio Mallon

Doce Caminhar






Sempre caminhei com algo fatídico apertando meu peito

Sentia forte em certos momentos este incomensurável vazio

Era como se algo muito grande me faltasse a tempos

Comovia-me no silêncio da impressão de um chegar tardio



Permaneci distante como que nos olhos um esperar profundo

Maneira pela qual fui capaz de meticuloso instigar meus sentidos

Distingui razões de pensar na vida como uma estrada sem rumo

Fixando como seguro a marca exata de início certo e final previsto



Nesta vereda conheci muitas pessoas e dividi muitos sorrisos

Chorei algumas lágrimas para despertar meu corpo caído

E entendi que o que mais procuramos está em ser e não em ter



Persuasão íntima de minha certeza de que não importa por onde quer que eu ande

Que todos meus caminhos percorridos incansavelmente em busca da felicidade

Levam-me consciente e sem receios ao doce encontro de Você.


 Jorge Jacinto da Silva Junior


segunda-feira, 2 de julho de 2018


TRANSLUCIDEZ





Lúcido como o fio de uma navalha
atravesso a rua
no instante
exato.
A vida em volta me atordoa.
Esta correria, este zumbido, este medo – é isto
a vida?
Lúcido,
me perco,
reparto-me em calçadas, andares, repartições, sobrelojas,
me esqueço,
deixo de ser-me: sou todos,
nada.
Lúcido – como suportar?
A vida em volta me atordoa,
me machuca, me mastiga, me consome.
De noite na cama,
pergunto: quem sou eu? qual meu nome?
No entanto aqui na rua é inútil a rima, é inútil a dúvida.
Olha, o sinal logo abre.
Meu Deus, tanta zoeira, poeira nos olhos, amargo na boca,
meu Deus, tanto nojo! É isto, a vida? Como suportar?
Lúcido como o fio de uma navalha
atravesso a rua
no instante
exato
em que
um reflexo de sol me cega os olhos.

Otto Leopoldo Winck

A ÚLTIMA MUSA



Não creio em musas
mas que elas existem,
elas existem...

A última delas, por exemplo,
encarnou-se um belo dia
numa sala de aula
úmida e fria.

Fatigado de mais-valia
e de falar para as paredes,
de repente eu percebo, no fundo da sala,
em meio a rostos igualmente fatigados,
e sonolentos,
dois olhinhos vívidos
que acompanham, atentos,
cada palavra que eu digo...

(Ah, quem me dera
eu tivesse asas
ou uma asa-delta...

Eu raptava ela
e ia viver
- de brisa e poesia -
no Nordeste
ou em Pasárgada.)

Otto Leopoldo Winck


Entre o verme que me espera nas entranhas da terra
e a estrela que me espreita das alturas,
minha vida se desenrola, ora baça, ora plena.
Só sei que é na sarjeta que a lua é mais bonita
e é na noite que os seus olhos brilham mais.

Otto Leopoldo Winck


por obscuros territórios
pervaga
o meu coração vadio

cão sem dono
saci pererê
poeta andarilho

de rua em rua
uivando pra lua
buscando você

Otto Leopoldo Winck


Então ele saiu de casa rumo ao Bosque, um livro de capa vermelha num braço, uma corda ordinária comprada dia desses no bolso do casaco. Sentou-se à beira do rio -- um riozinho mequetrefe, mais esgoto que rio -- e leu alguns dos poemas do livro. Sorriu algumas vezes, talvez diante do efeito de um verso ou outro. Depois -- o sol estava caindo e logo o Bosque seria fechado --, ele saiu andando pelas alamedas sombrias do Bosque. Não foi fácil encontrar uma árvore apropriada.
No dia seguinte, um guarda municipal achou o corpo dele dependurado do galho de um plátano. Embaixo, jazia um exemplar das Flores do mal, aberto de borco. No seu bolso acharam um bilhete, apenas com uma frase de Homero: "Entre todas as criaturas que se arrastam e respiram so­bre a Terra, não há nenhuma outra mais infeliz que a criatura humana." Logo que sua morte foi anunciada nas redes sociais, começou a chover frases de condolências e consternação no seu perfil do Facebook. Perdemos uma grande promessa da poesia. Uma pessoa de rara sensibilidade. Uma mago das palavras. No entanto, no seu enterro, e mais ainda no seu velório, compareceu muito pouca gente. Com efeito, de todas as criaturas que se arrastam e respiram so­bre a Terra, não há nenhuma mais infeliz que o poeta.

Otto Leopoldo Winck

MARINHEIRO NÁUFRAGO




Marinheiro náufrago,
teu corpo está todo
coberto de ostras,
mariscos, corais.
Teu hálito é sal,
na dor mais aguda
da noite oceânica
por ti refinado
à sós, em segredo.
Escuro é teu dorso,
teu ventre também,
como o mar obscuro
em noite sem lua,
sem sombra de estrela.
Teus braços, imóveis
ao longo do corpo,
não pedem socorro
nem podem pedir.
Tua boca estacou
– tentaste um grito? –
abalroada de algas,
calada de frio.
Teus pés são tentáculos
que tentam em vão
agarrar-se à areia
– inútil tarefa
de rarefeita âncora.
Só teus olhos brilham,
marinheiro náufrago,
brilham, brilham, brilham,
abertos na treva
mais densa da noite
como duas lâmpadas,
duas grandes pérolas
sobre um velo negro.
Por isso eu desejo:
dorme, dorme, meu
pobre marinheiro.

Otto Leopoldo Winck


– Sabe, tem horas, como agora – disse ele –, que eu queria abdicar de tudo, deixar de lutar contra Tânatos, deixar de resistir à corrente que me leva ao nada...
– E pra quê? – ela perguntou.
– Sei lá, só pra descansar dessa agitação feroz e sem finalidade que muitas vezes é a vida. O ser tem saudade do não-ser.
– Mas o ser também quer se realizar sendo, existindo, desenrolando-se. E quem o move é o Eros, o princípio da vida. É ele quem escreve a nossa história. Então vem cá, me dá um beijo.
– Não, hoje eu quero só colo.

Otto Leopoldo Winck

INCOMPLETUDE




Volvo
à vulva
qual boca
sedenta
à uva.
Bebo
da vulva
qual beduíno
ao sol
do deserto
no encalço
de águas
ocultas
ou chuva.
Beijo
a vulva
com ósculo
devoto
e devolvo
ao fruto
a sede,
a gula,
o êxtase
incerto.

Otto Leopoldo Winck


Pobre ego!


Pobre ego! Você não sabe que é uma ilusão, um mero centro fictício dividido entre tantos e tão contraditórios apelos... De um lado, o Id te convoca a permanecer na cama, curtindo uma preguiça, e só fazer o que te é agradável. De outro, o superego, como um feitor de chicote em punho, te chamando de vagabundo, gritando para você se levantar logo desta cama e cumprir com tuas obrigações... Não é fácil se equilibrar entre esses dois e irreconciliáveis carrascos, entre Eros e Tânatos, entre o Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade, entre o dever lá fora e a cama quente aqui dentro... Não é a toa que às vezes bate aquele cansaço e pinta então aquela nostalgia do não-ser, do útero materno, do paraíso perdido...
Sobre esta base arquetípica -- Id e superego, Dionísio e Apolo --, similar em todos, há ainda um dicotomia que está na raiz do ser humano ocidental. Há em nosso cérebro um Sócrates e um São Paulo, um grego e um hebreu, um filósofo e um anacoreta -- e eles nunca chegarão a um acordo. A cada dia que me levanto, além da briga acirrada ente Id e superego, tem esses dois que não param de discutir... Não, não sou clássico. Não posso ser clássico, arcádico, parnasiano, ainda que eu quisesse... Depois da Idade Média, não se pode retroceder impunemente à Antiguidade. Com efeito, dentro de mim há uma ágora, onde os filósofos -- estoicos, epicuristas e céticos -- se deblateram eternamente, mas sempre com elegância e educação. No entanto, há também uma catedral gótica, cheia de gárgulas, mosaicos e vitrais -- e visagens de santos e virgens em êxtase... Entre os tamborins das festas helênicas e o órgão solene que brota da catedral sombria, minha alma se dilacera. Por isso eu digo: eu sou barroco, uma encruzilhada de caminhos que levam a múltiplas direções, um feixe de fibras que se cruzam em inúmeros sentidos... Entre céu e lama, luz e trevas, beatitude e maldição, Santo Agostinho e Aristóteles, estou condenado a não ter paz enquanto caminhar sobre esta Terra desolada e sob este Sol impassível. Mas é justamente esta inquietude, esta angústia que é criadora, geradora de estrelas bailarinas. É preciso um caos para criar um cosmos. Se o preço da paz interior é a apatia, eu prefiro este vulcão permanente dentro de mim. Em vez da bonança e da paz da Arcádia, o ímpeto e a tempestade. Mesmo sabendo que sou -- meu ego, este que escreve, ou acha que escreve este texto -- uma ilusão. Ou por isso mesmo.

Otto Leopoldo Winck

sexta-feira, 22 de junho de 2018


o meu cabelo varrido
eu lhe dou. se quiser mais
busco palavras na feira
falo dos algodoais
já plantados numa beira
dos seus olhos vendavais."
RR

quarta-feira, 20 de junho de 2018


Um dia eu fiquei tão triste que quis arrastar todas as estrelas do céu. Desejei que o sol não mais nascesse e a lua despencasse sobre os transeuntes. Amaldiçoei a esperança, este ídolo todo de barro, e tatuei na testa um signo obsceno. Disse de mim para comigo: não tenho irmãos nem a perspectiva de encontrar um semelhante sobre a terra. Nesse dia voltei para casa, a pé, pelo trajeto mais longo. Todas as pessoas que eu cruzava viravam o rosto, repugnadas. Mais tarde, rolando em meu leito, desejei de novo ser peixe e nadar para sempre no líquido amniótico. De manhã, ao me olhar no espelho do banheiro, constatei que estava transformado em Caliban. (Chorei como uma criança que perdeu os pais numa feira.) Apanhei então uma navalha. Apalpei meus pulsos. Mas mudei de ideia e esquartejei você.
OLW

ANDAR, ANDAR




"Suave é viver só."
(Ricardo Reis)


Ah, suave é ser sozinho
quando o perfume do vento
não nos traz melancolias
e vagamos ao crepúsculo
apenas com a vontade
de andar e ir seguindo.
Atrás saudade nenhuma
e nenhum desejo à frente:
somente o vento indeciso
a nos brincar nos cabelos
como os dedos de uma extinta
namorada embalando
o coração quase sereno,
quase alegre - e um tanto triste.
Sejamos como uma eterna
despedida, pois os laços
- de amizade, de ternura -
são algemas invisíveis
ancorando os nossos passos
na estação já percorrida.
E não volvamos o rosto
para os rostos indistintos
- e já distantes - do cais:
eles vieram chorar
nossa morte diante deles.
Sim, morremos. Nada mais
nos reclama neste porto.
Fantasmas que aqui nós somos,
não velaremos as cinzas
do cadáver que ontem fomos.
Seguiremos adiante,
não bem necessariamente
em frente, mas para onde
quiserem os nossos passos
vagabundos, indolentes,
sem saudade e sem desejo,
nem recordação de beijos
- se por acaso os tivemos -,
com os corações vazios
e livres como esse vento
preguiçoso acarinhando
as profundas águas mansas
que refletem nossas sombras.
Sim, suave é ser sozinho,
tendo os seixos como cúmplices
e as flores por confidentes,
seguindo, seguindo sempre,
quietos sobre a estrada,
solenes sob as estrelas,
e sem desejar mais nada
que não seja andar, andar,
caminhar por tudo e sempre,
mas com a condição expressa
de ser - sim! - dos nossos passos
o nosso rastro e o caminho
entre auroras e poentes.
Ah, suave é ser sozinho.

Otto Leopoldo Winck

BEAT




entre a santidade
e a insanidade
não há mais que um vão

pois é: passei o rubicão

sou agora
– totalmente perdido
e beatificado –
pura iluminação.

Otto Leopoldo Winck


DUAS CANÇÕES DO MARINHEIRO




I.

Entre as estrelas
de além-céu
e a centelha
de aquém-mar
esplende a vida
prisioneira.

Morte à vista
– grita o velho marinheiro.

Uma vida toda inteira
é muito pouco
para navegar-me.

II.

Se ainda há mares a navegar,
terras a descobrir,
males a debelar,
não sei, não sei.

Sei apenas que faz água
e é tarde para voltar.

Otto Leopoldo Winck




Tudo azul na tarde cinza
Curitiba é uma neblina
grudada na retina
na pupila na surdina
tudo azul na tarde finda
Curitiba é uma armadilha
uma anedota de província
fim de linha fim de livro
tudo azul na tarde morta
Curitiba é uma nódoa
na paisagem na memória
uma gárgula uma lágrima
menina gótica no Largo
tudo azul na tarde pensa
às vezes penso que
a vida não compensa
mas um verso uma rima
vai dando um clima
menos cinza a esta cidade
de bolor e de neblina

Otto Leopoldo Winck


POÉTICA



Um poema feito de seixos.
De válvulas
e vulvas.
Um poema feito de lutas.

Silêncio. O poeta labora.
De seu peito vaza um rio que varre tudo:
o lírio,
a bomba,
o beijo.

Um poema feito em desleixos.
Feito de sol.
Feito de lua:
reflexos fascinam os peixes.
Um poema feito de guelras
e gueixas.

Silêncio. O poeta sonha (ócio & cio).
Uma flor de narcótico perfume se abre em êxtase.
Estrelas choram. Estranha liturgia...

Um poema feito de eixos.
A serpente. Pandora. Idade do Ouro.
Seixos.
Seixos.
Seixos.
Há anjos transfigurados
olhando seus sexos no espelho.

Otto Leopoldo Winck


terça-feira, 12 de junho de 2018

COMO NÃO SER FELIZ NO RIO ou RIO, SONHO DE CIDADE




Como não ser feliz no Rio
Aqui a felicidade nos invade
Faça calor ou faça frio
O Rio é um sonho de cidade

Quem leva a vida muito a sério
Aproveite essa enorme oportunidade
Como não ser feliz no Rio
Aqui a felicidade nos invade

Desde que segui esse critério
Minha vida dobrou de qualidade
Tudo simples e sem mistério
Passei a viver com mais vontade
Como não ser feliz no Rio. . .

- por JL Semeador, na Lapa, em 28/11/2011, cada vez mais feliz por morar no Rio de Janeiro –

XANGÔ SOBERANO




Bate atabaque
Roda Yaô
Quem não é rodante
Quem não se garante
Se ponha de lado
Que aí vem Xangô.

Sua força de elefante
Logo se faz notar
No toque do agogô
Na música que vibra no ar
No jeito garboso, faceiro
Cambono, não fique parado
Colha o quiabo no terreiro
Vá preparar o Amalá.

A roupa é branca e vermelha
O fogo que tudo queima
Brilha no seu olhar
Inebriante centelha
O poder de governar
Vem da força de seus Oxés
Se com ele nada tema
A Justiça está aos seus pés.

Ele é o meu Orixá
Me abençoa a cada manhã
Grande e forte Songó
Filho benquisto de Oranian
Poderoso Rei de Oyó
Esposo primeiro de Iansã
De amor, chorou por Oxum
Foi amado, mas não amou Obá.

Kawô Kabiesilé!
Soberano sempre lembrado
Do alto de um trono de pedra
Logo abaixo de Oxalá
Ilumina o meu caminho
Com Ele do meu lado
O desespero não medra
Nem na morte estarei sozinho.

- por José Luiz Santos, o JL Semeador, na Lapa, em 21/10/2009 –


segunda-feira, 11 de junho de 2018


Dê-me um gole do clichê
Dê-me um trago do chavão

Leve-me pela mão
Leve, louvaremos o pão

E amassaremos a massa

E salgaremos o chão

E faremos poemas
Em letras pequenas que

No céu não se avistarão

Dê-me um tema
Dê-me um assunto
Aos defuntos do porão

Enterrei-os em páginas de amor
Da mais profunda solidão.
ACM

Poema



Poema

No tema, no quesito
Gabarito, cadência,
Métrica

A rima acima quer rimar
O mar

Mas pássaro já não canta
No mais alto dos céus

Talvez uma gaiola para
Poder voltar

Talvez um grilhão de solidão
Ou

Severamente analisa
Catapulta Curitiba

Nuances de inverno

Pinturas do verão.
ACM




IMPRECISÃO


IMPRECISÃO         


O que mais espanta

é o homem sempre

querer-se exato.


Pois sua medida

perde-se nas frinchas

de seu próprio ato.


E, se o ato trinca,

permite o assalto

da imprecisão.


E esta, insolente,

espalha-se por tudo

(grama pelo chão).


Feito epidemia,

todos contamina,

alhures e aqui.


E o homem, pego,

perde a medida,

perde-se de si.


E, uma vez perdido,

o homem se lança

ao léu das palavras.


Mas estas, latentes,

menos se revelam

quanto mais se cava.


Mas revelam o homem,

que, à sombra delas,

tenta se esconder.


Ele, então, desnudo,

mostra-se inteiro

em um outro ser.


Só assim, desfeito,

o homem se refaz

da potência ao ato.


E, ao refazer-se,

torna-se completo,

ainda que inexato.



Edelson Nagues

Do livro Águas de Clausura (Scortecci Editora).
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Desvelamento



(Ao som de We Die Alone, de Lamb of God)


Tontura nos olhos. Pressão na fronte. Lentamente, os passos são vencidos. Segue em frente, não possui destino; não possui mais. Sofre como flecha lançada sem vontade.

Com chinelos poeirentos, arrasta pedras e galhos pela noite de sombras. O silêncio é quebrado pela fraqueza do andar. Entre a trilha e a mata, o suor da caminhada ofegante.

Sobre a pele, fiapos de pano. A brisa gelada entrando devagar. O arrepio da pele pela lembrança do sereno.

A roupa corroída não cobre a vergonha. A pele à mostra expele dor. Tingido de sangue, o vestido desfeito seca lentamente.

As flores da estampa gritam e choram. Escorrem pétalas através do tecido desmanchado. O vento dança no traje domingueiro.

Sofre a que não será mulher. Sofre a menina humilhada, segurando uma boneca sem sexo. Apenas uma menina que caminha entre a trilha e a mata. Ofegante.

Ouvindo os ruídos das sombras na estrada, tenta esquecer o pavor das presas na carne. Tenra carne de menina que atrai feras. Uma após outra, sobre ervas e papoulas, rasgando a carne da menina. A carne.
Jogada no chão. Lambida na face. Mordida na pele. Sangrada na inocência do sexo.

Cães, cobertos por feridas, saciados. Bestas, em pus, cobriram a fêmea que colhia flores. A fuga somente nos dedos entrando na terra escura.

A menina caminha sabendo a pureza perdida e a inocência pingando sobre os pés.



Homero Gomes
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Sou




Sou de lua, sou da rua
Sou de lá, de onde o horizonte
Para de escoar

Sou de véspera, sou manhã
Sou clichê,

Sou maior, menor, parte e todo

Sou

Sou isso, sou aquilo
Sou acolá

Sou fulano, sou calando
Sou tantos planos

Que sendo

Já não sou.
ACM

Um amigo em terras desconhecidas



Ao menino Santos, da Ilha de Luanda

Santos em algures da Ilha de Luanda durante a caminhada na calçada ainda em construção, encontrou-me a falar de peito trancado sobre quão custava-me conhecer os nomes daquela cidade, sei que o lugar chama-se ilha, uma autêntica face do futuro que Luanda procura para si, investindo rigorosamente na (re)construção.
Santos vem de longe, mas tão perto para si que muito gosta da vista marítima que acompanha os sons da maquinaria da Monta-Engil Angola.
Lá vem o menino de 10. De lá vem para cá vai. Santos caminha para junto de um desconhecido que sou para si. Pára e conversa. Giro a sua volta e inicio uma nova marcha a favor da direcção que ele toma.
Lado a lado, Santos conversa. Vai andando enquanto contempla a sua cidade que está ansiosa para o futuro.
Inquilino da sua amizade, também converso feliz por ter achado, finalmente, um amigo nesta terra que me é difícil relacionar com as coisas, com as gentes, com os códigos e com as ruelas. Uns verdadeiros mussekes ditos e bem descritos por Luandino Vieira nos derradeiros momentos da (re)novação de que Luanda é vitima. A ilha é mesmo um lugar inexistente. O potencial que este invisível cercado de mar tem é de embalar emoções
Santos tem noção disso e por isso vai cantando e contando.
_ Antes a estrada era aqui, agora é ali. Isto está mesmo a mudar – reconhece, Santos, o meu amigo.
Ele conta-me que está a caminho de casa, mas antes passará de casa de alguns amigos. Diz-me que foi “enxotado” da sala de aulas porque não trazia o caderno da prova. Mas não é assim que contou.
_ De onde vens?
_ …da escola.
_ Ah, que bom! Eu também estudo. A que horas entraste?
_ Entro às seis horas.
_ … E sais a esta hora?
_ Não.
_ Não! Então porque é que te encontras aqui? Fugiste?
_ Não fugi, tinha prova.
_ Então como foi?
_ Não fiz porque não trazia o caderno da prova. Esqueci em casa.
_ Como assim? Tu tens a prova e deixas o caderno em casa? Eu nunca deixo o caderno.
O rapaz calou-se e consentiu, para de repente voltar à conversa.
_ Em que escola você estuda?
_Bem, eu estudo na Escola de Jornalismo em Moçambique. Sou moçambicano. Consideram-me jornalista.
Santos levanta a cabecinha e olha-me já com desdém. “Não é possível que este gajo seja jornalista, está a gozar comigo” imagino que ele pensa enquanto continua com o riso irónico para a minha cara.
Olho para aquele menino com emoção. “Ele é meu amiguinho” – digo para mim mesmo.
_ Sabes que tenho um sobrinho assim como tu? Ele anda na 5ª classe.
_ Tenho um amigo na 4ª e eu vou passar para li encontrar.
_O meu sobrinho chama-se Helder e tu?
_ Meu nome é Santos. Os meus amigos chamam-me de Kutchu, mas a minha mãe chama-me de Santos.
_ Santos, grande nome! Eu também sou Santos.
_Mentira…
_ Pois, menti mesmo. O meu nome é Edu, Eduardo… Edu.
_ És Eduardo.
_ Isso mesmo.
E vai se fazendo esta amizade enquanto contra-peamos a calçada olhando para o mar, os peixes, homens e as respectivas mulheres quase nuas.
_ Eu vou daqui – aponta a estrada.
_ E vais atravessar a estrada, sozinho!
_Não. Estou contigo.
Segurei na sua mão e atravessamos para a direcção que ele bem conhece. Apercebido que fui “vitima”das tentações deste grande amigo, já não me saem perguntas. Apenas cumpro ordens inspirado no letreiro da Base Marinha de Luanda cuja ilustração é do presidente José Eduardo dos Santos “Comandante em Chefe, às suas ordens. Ordene, ordene, ordene”diz o cartaz.
Calo-me e contemplo. Angola é um país de ordens também! Santos bem sabe as dar. Ordena-me e eu cumpro. “Às suas ordens, Santos”. Caminhamos agora intercalando as casas sobrepostas, cheirando a peixe e outros mariscos com águas turvas à mistura. “Isto é Mafalala!” reconheço as igualdades. Aqui há cães vadios. Cães que atentam a moral, fazendo sexo na rua no olhar dos homens. Cães que matchimbam na rua atentando a saúde pública. Isto é mesmo Mafalala e Chamanculo, Unidade “7”, Urbanização, Maxaquene e etc. É daqui que saem os poetas, dançarinos, timbileiros, actores e outros grandes artistas.
Mulheres cobertas de capulanas sentadas de pernas para o ar conversam num silêncio inquietante. As raparigas, mulheres adultas e crianças, decoradas a moda Tchuna-Baby, vão mostrando as suas pernas decoradas de varizes que nem se quer respeitam a idade. Aqui, os homens andam sem camisas e as raparigas apenas de panos que só los cobre os seios. É tudo gente de Santos.
Enquanto caminhamos ele saúda essa gente. Os homens de calções e descamisados, uns com peixes nas mãos, mulheres de minissaias e jeans rasgado. Mulheres adultas na moda. São todos conhecidos de Santos.
Casa pintada a cor-de-rosa e com antena de TV digital é da sua avó. E me mostra esses lugares, o meu amigo, preocupado em apresentar-me, principalmente à sua tia-mãe, como ele intitula e à sua mãe.
Chegados no seu beco, Santos saúda a sua tia que o indaga sobre o porquê de estar ali naquela hora “já para casa”, vociferou. Logo na porta da varanda, o único quintal que a casa tem, saúda uma mulher que não consigo ver o rosto. É sua mãe.
Calado, senti que era aquele, o fim da nossa amizade, pois aos que me perguntavam apenas dizia que o ajudava a atravessar a estrada.
Ele apresentou-me as pressas à sua mãe que zangada pela sua chegada antes da hora habitual, nem se que presta-me alguma atenção.
_ Ele é meu amigo mãe.
Da sala saia uma menina. Tão linda! Devia ser irmã de Santos. Olha para mim e pisca os olhos em jeito de saudação. Que criança linda e espertinha! Mas não me alongo, dispenso-me da família e do meu grande amigo, o Santos.
Dia inesquecível este 17 de Abril de 2012. Dia ímpar naquela ilha anexa à cidade de Luanda onde nem amigos tinha, além de poetas. Agora, um já figura a minha lista. Seu nome é Santos.

Luanda, 17 de Abril de 2012


a procura de





Por Ju Blasina

Creio ter perdido
a mão
para fazer certas coisas
que sei
(ou sabia)
tão bem.
melhor que a maioria
(não que isso valha
grande coisa, mas
era bom saber).

creio ter perdido
o que antes tinha
de mais valioso
(talvez por ter agora outros
valores de carne e osso)
e lamento tanto
por já não ter
aquilo que me fazia
saber quem ser.
(ah, e eu o era tão bem!)

creio ter perdido
o traquejo da coisa toda
embora ainda sinta
a poesia aqui
viva do lado de dentro
mas por fora, não
vivo mais o que me fazia
ser aquela dos poemas
deles. sinto saudades
de ser.
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Camões deixou de dizer






Ódio é fogo que arde sem doer
É ferida aberta que se sente
É um arrependimento descontente
É dor que mata aos poucos sem morrer

É uma recusa ao bem querer
É solitário andar dentro da gente
É nunca saciar-se de estar doente
É cuidar que se perde, pois se quer perder

É querer fingir-se estar a vontade
É servir a medalha ao perdedor
É ter motivos para matar a lealdade

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos tal maldade
Se tão contrário a si é o mesmo rancor?


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Jussara Salazar

vagando
as ondas
o tule
do mar
do extremo amor
devolveu a
cabeça do querubim
perdido

os dias
os dias
os mesmos dias
viram teu torso
um desenho
costurado
à linha do horizonte

te aguardarei
menino
quando retornares
com o tempo
teu corpo
e tuas cicatrizes
*
*
*
|_Retrato amoroso ou o retorno do querubim sobre as ondas // com tema de Beth Moysés | Reconstruindo Sonhos | Performance realizada em Cáceres, Espanha. 2007_|


A infinita afinidade do ser


: 
O ser e o nada
E metade inacabada
Poesia

Pois olhos de quem olha
Sem ver

Analisa água-fria, furta-cor
Ou sabor do que jazia
Sobre mim
Sobre a dor

E longe se distrai, impessoal

Pois o si mesmo mais dual
Que se quis distante

De um rampante sol

Volveu ao mar, navegar
O seu formol

Séculos se contarão

Nos anéis secos do tempo
A arderem meus dentes

Em louvor real
ACM


Envio de poemas, crônicas, contos e ensaios.

kolodycz@gmail.com

terça-feira, 5 de junho de 2018

Vagas



Decantação do espírito

Esquizotermia do real
Nas luas da percepção
Relevam meu mal, a
Sutil
Desintoxicação.

Revelam meu pão, mais
Que sinapses defeituosas
Da rotina, ou

Extinção da espécie e
Da retina, dos que se vão

A rima lá em cima na
Rua de baixo
Teu mar de concreto

Nem sequer me surfa
A delicadeza da flor

Sobre a sepultura da verdade
Amorosa
Que me tomou a mão

E fez-me feliz
Em suave decantação.
ACM

VAGAS




Na vela desfraldada
Debruçado na amurada
Na amurada debruçado
Na fria madrugada
Num cântico interrompido
Sufocado
Num reflexo devolvido
Rejeitado
Via-me reflectido
Transfigurado
Em espuma dissolvido
Olhar fito aniquilado!

Imagem lapidada
Em circulos fechada
Pela onda devastada
E a onda voraz seguia
Na muralha se esbatia
E a imagem ressurgia
No verde mar salgado!

Outra onda se formava
Outra onda se acercava
Outra onda me afogava
E eu ali continuava
Só! Imóvel! Mortificado!

Quisera deter essa onda
Que de mim nunca se esconda
Quisera reter essa imagem
Que no mar fora miragem
Sorriso de Gioconda
Sorriso inanimado
Mas o mar seguira viagem
Estiolara-se na viragem
Cabo há muito dobrado!

E o mar não mais voltou
E o mar ali me deixou
Só! Supremo! Naufragado!

Rogério do Carmo
Paris, 18/5/1990

Róseos chavões




Se todo o mal no
Espelho
Fosse real

Eu ou não eu
Não seria, sendo

Espelhos refletem
Peçonhas brancas
Em pó de estrelas

Que se vertem

E vão, incógnitas
Cartilagens, projéteis

Como insana crítica
Da ovelha aos lobos
Solitários redimidos

Pela fome de sangue.
ACM

Sombra Morta


Anseio a noite sinuosamente
E tudo se esvazia à minha volta
Abismo a sombra morta e ela me converte pavor.
Cerram-se-me os olhos
com o cintilar das estrelas
E agora; mais sensível ao segredo
projecto mistérios.

(Poema de Jacinta Lopes )

quarta-feira, 30 de maio de 2018


vou escrever um manual do inferno
onde caibam todos os desgraçados
da terra, esta terra solta na noite
dos olhos, no visgo dos olhos, no
preto de cada olho, no grito de cada
boca de poucas esperanças. quando
aparecerem todas as desgraças, eu
me renego e me esvaio. puto e ferido,
como só assim pode ser."
RR