terça-feira, 18 de junho de 2019

quarta-feira, 12 de junho de 2019

ROTINA COM ESTRAMBOTE




Descendo sobre a terra a lua traça
Detalhes desta noite amortalhada,
E quando desnudando esta calçada
Enquanto a podridão em vida passa,

Eu vejo a mesma cena, esta fumaça
Erguida dos cachimbos, nova fada
Gerando fantasias, molecada
Entregue aos mesmos vícios, mesma praça.

- Assim ao se sentir normalidade-

Na noite em lua cheia e treva farta
Um carro de polícia já se aparta
Reparta esta propina, volta e meia,

A morte não perdoa este cenário,
E o mundo neste podre itinerário,
Apenas esta pedra se incendeia...

Marcos Loures


Carta ao jovem menestrel



Para um dedo de prosa

Carta ao jovem menestrel

Quero conduzir-te a sítios, guiando-te de um lado para o outro; sou eu, teu garoto. Venha comigo repousar neste quintal; já posso ver-te em mim, tenho a chave do portão do jardim, cá dentro em nós.

Andemos, mãos dadas; diz-me tudo quanto preciso olvidar. Em tua presença falar é despir meu imo, é tornar ao instante indelével. Não determina o tempo as contas dos nossos contos nos recantos deste eido prazenteiro, onde Jeliel está debruçado sobre a sua criação.

Cantarei só pra ti todas as estações; o eterno retorno das flores; a vedada senda deste prado. Que coisa madura e divertida, rir! Quero contigo tornar ao meu desígnio, ser teu instrumento. Vem seguir-me o passo e trasbordar de luzes na luz das manhãs. Tens algum engano? Alguém já te deu carinho? Gosto do teu beijo; minha face brilha num sorriso.

Toda vontade nos renova o viço, nesta seara de poesia; tudo, aqui, há. O cessar da rota solar no ocidente é belo e, à noite, guardo uma surpresa; neste canteiro de erva verde nos permitimos; a árvore de todos os frutos nos extingue a fome; há um salto d’água de fonte virginal, gotículas do véu de sua queda flutuam úmidas e refrescantes no espaço; quão mais sincera for tua anima ao gozar, aqui, nestes círculos de homogeneidades mais estarás ao centro, espírito. Adorar a graça é refazermo-nos, melhor.

Venha, que sou guia dos mistérios cultivados neste campo; posso regar seu rego e desfazer as nuvens nos céus; quiçá, o rebroto, neste pomar fecundo floresça-me, frutificando em ti. Queres um arco colorido, no firmamento dos astros, de extraordinários matizes? Derramar a florescência da palma das mãos, entre os dedos, neste chão? Permitas-te desejar-te; é esse o encanto.

Fabio Freire      

Crônica para o Dia dos Pais:


Vinicius Bopprê                


Eu, que ainda não sei ser pai

Eu, que não sei se me casarei simplesmente pelo fato de não conseguir imaginar essa situação, me peguei pensando...

O jantar. Eu iria adorar jantar todos os dias ao lado do meu filho, eu depois do trabalho, ele depois da escola. Eu, que nunca lavei as mãos, faria ele ir até o banheiro e lavar as deles, só pra me sentir mais pai. Eu, que nunca usei faca, insistiria pra ele deixar a colher de lado. Eu, que nunca comi verdura, ensinaria para ele todos os benefícios inúteis delas. Mas o ápice seria ouvir suas histórias da escola: a briga no recreio por causa do futebol, a primeira namorada que ele insistiria em dizer que a odeia, “para de ser bobo pai, ela é feia”, e eu diria:
“Eu sei, eu sei”, e daria um sorriso fazendo algumas cócegas nele.

Depois de jantar eu faria aproveitaria o resto da noite com ele. Sentado, na mesinha da sala, tentaria, em vão, explicar exercícios de matemática, e por ser meu filho, a genética também o impediria de entender o valor de x e y.

Eu iria jogar botão com ele e ensinaria vários truques do jogo, mesmo nunca tendo jogado mais do que duas vezes, e ele ficaria maravilhado com minhas técnicas. Eu jogaria vídeo-game com ele, e depois de perder várias vezes eu diria:
“Esses jogos perderam a graça, você precisa ver os jogos do meu tempo”, tentando esconder minha derrota.

Assistiria um filme com ele, daqueles de desenho, que sempre tiram um sorriso até dos mais rabugentos (como eu). E depois de estarmos bastante cansados, ou entediados, eu, que nunca tive horários o levaria para a cama, e lhe contaria uma história, daquelas de aventura, cheias de dragões e princesas, e pediria que ele inventasse um final, para que tomasse gosto pela literatura de um jeito sutil, afinal, ninguém começa gostando de Machado de Assis.

Eu, que não sei costurar, pregaria na calça dele, na altura dos joelhos um daqueles ridículos pedaços de couro, e ele ficaria orgulhoso do seu novo “equipamento”, sem saber que alguns meses depois o detestaria.
Eu, que não sei cozinhar, num domingo qualquer arriscaria um hambúrguer, ou um ovo frito, mas depois de ouvir dele duas vezes: “pai, isso aqui tá muito ruim” , seguido de muitas risadas, eu desistiria e compraria um Mc Lanche Feliz com aquele discurso de que “isso não alimenta, você só quer pelo bonequinho”.

Eu, que nunca soube economizar, tentaria explicar pra ele como devemos querer apenas aquilo que necessitamos, e negaria duas ou três vezes o pacote de salgadinho, alegando que ele só quer a figurinha. Mas depois eu compraria.

Eu, que não tenho bom-humor pela manhã, faria ele me dar bom dia todos os dias, e cumprimentar todos os velhinhos do prédio que ele encontrasse no elevador.

Eu, que sempre odiei dividir meu chocolate, faria ele dar aquele último pedacinho delicioso a uma criança de rua, e lhe ensinaria a ajudar as pessoas que precisam.

Eu, que já não tenho fé faria questão de ouvir todas as noites “ ‘bença’, pai” , e eu te diria: “Deus te abençoe, meu filho”, só pra que ele se sentisse mais seguro.

Eu, que ainda não sou pai, já penso no meu filho, me perturbando de noite com medo da loira do banheiro – se é que isso ainda existe; reclamando comigo por tirar foto dele sem os dentes da frente; me fazendo chorar ao vê-lo entrar na faculdade e me dando um neto, para que eu, que ainda não sei ser pai, aprenda a ser avô também.
                Janela de mim.
viniciusboppre.blogspot.com

Carn(e)aval


Ricardo Mainieri            

A carne
incendeia
goza
delira.

Na quarta-feira
cinzas...

Tua morte não terá espaço


          
Poema para meu pai:



Tua morte não terá espaço
Enquanto existir memória.
Porque o galês está certo:
Os homens mortos da História
Hão de unir-se ao vento, à lua,
Hão de se encontrar, na rua,
Hão de conversar, bem perto,
No eco harmônico de um passo.
Não, ela não terá espaço.

Tua morte não terá espaço
Enquanto existir lembrança.
Há tua foto e o meu momento,
Há o autorama da infância,
Tua mão nos cabelos meus,
Tuas orações a Deus,
Tua voz em questionamento,
Teu violão com cordas de aço.
Não, ela não terá espaço.

Tua morte não terá espaço.
Há teus amigos, teus filhos,
Há tua esposa querida,
Há teus sonhos andarilhos,
Há teu mantra em todo o mundo,
Mesmo jazendo no fundo.
Há tua vida em nossa vida.
Na pobre casa, que é paço.
Pai, ela não terá espaço.


André De Castro 


Cronofagia





Chama seja a sua carne

breve arca nua

ó entre pearls

ente aurora.



Oceana carne selena

rosal de torvelinhos.



Ímã luz de gozo

a prenda carne vã

vérité das calçadas

ó peste sã.



(por Walter Galvão)

A EQUAÇÃO DA VIDA




Não há meio termo para a vida, não há possibilidade de vivê-la pela metade. Dentro de cada um de nós há vida e é preciso, necessariamente, vivê-la! De fato, não existe caminho certo ou errado, existe apenas o caminho e, entre abismos, paisagens, dias de sol e chuva... é preciso segui-lo sempre! Amanhã, em outro tempo, somem-se as tuas quedas e também todas as vezes que você se levantou. Amanhã, em outros horizontes, somem-se todos os encontros e as tuas despedidas, todas as paixões que chegaram e também as paixões que se foram, somem-se todos os amores ganhos, bem como os amores perdidos. Amanhã, bem longe de tudo isso, que sua vida seja contabilizada de forma a somar histórias, a somar momentos, a somar idéias, a somar palavras, a somar encontros e - principalmente - a somar amor! Porque a vida se faz de equações e, definitivamente, só pode dizer que se vive e que se viveu quem soma e somou positivamente tudo isso!

Adriano Hungaro

ALMA GÊMEA DA MINHA!



.
Tantas vezes tentei entender o coração,
Leva-me por caminhos desconhecidos!
Por onde eu passo, vivo a procurar por ti.
Tento disfarçar, calar, mas tu onde estás?
.
Procuro-te por caminhos inexplorados,
Em todos os lugares eu não a encontro.
Busco delirantemente, mas tu não estás!
Alma gêmea acabe com o desencontro?
.
Não há nada mais difícil do que viver sem ti,
Sofrendo a espera de em breve te ver chegar.
O frio do meu corpo pergunta por ti, onde estás?
Meu querer te quer aqui para poder te amar!
.
Meu grande e inesquecível amor!
Tu és música para a minha alma,
És vinho doce em taça de cristal,
És sonho suave eterno e sem fim.
.
Alma gêmea da minha por onde andas agora?
Quando irá trazer paz ao meu ser tão cansado?
Vem para mim, sossegue esta alma que chora!
.
Daez Savó

SOMOS TODOS POETAS




Assito a um desdobrar de planos
As mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma
Sou todos e sou um
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vázia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.

1936 Murilo Mendes


A dança da chuva





Dançando a dança da chuva no meu quarto,
Sinto, na cara, as gotas que caem do teto.
No palco solitário, danço ao som do free-jazz,
Celebro a liberdade da loucura chapinhando, brincando na água.

Rio-me de meu rio paralisado, sério, no chão, com medo desta chuva.
Minha seriedade, tantas vezes inimiga da verdade poética,
Profetiza meu fracasso nas vozes das piranhas que há no escuro.

Porém, eu, que sou ínfimo na vida e meramente infinito
Na página, rio-me de meu rio e de toda estética ditadura.

Só,

Sorrio com bravura de hippie ante o rifle.

Há candura na dureza de meus versos.
Há ternura na violência de meus versos.
E para eles danço, na umbanda a meu próprio espírito.
Tento psicografar meu passado a meu futuro, com a caneta
Presente, mas a tinta das antigas horas não molha mais a esfera e o papel.

Ah, liberdade de estar louco no quarto, acompanhado dos sorrisos!
Ah, liberdade de estar sem camisa para a mente, sorrindo para um outro eu
Que é espelho, que ri da mesma maneira minha, mesmo diferente ,
Conforme a Física demonstra...

Se pudesse transformar cada sorriso meu em um ser,
Teria uma grata multidão de gatos acariciando minhas pernas.
Seria atemporal e internacionalmente egípcio e nobre;
Feliz como um faraó, mentindo alegremente a mim mesmo,
Sendo Deus de mim mesmo,

E meu asilo seriam as margens do Nilo...

Mas, como não consigo, danço.
Danço no quarto, alagado até o peito com as águas abstratas
De meu desassossego, sonhando com a chuva que,
Finalmente transformada em torrente,
Lavará todo o lodo do leito
Sem afundar a frágil jangada de papel
Que transporta meu eu em palavras.


André De Castro           

EU SOU A FÊNIX




Faze-me renascer sempre. Porque sou um sonho que – no final – nunca morre. Um sonho que se tem sempre acordado. Um querer que, mesmo adormecido, se transforma e se consome. E aos poucos – definitivamente – consome e nunca, absolutamente nunca some.

Renovam-se sempre as esperanças, renovam-se todos os meus sentidos. Renovam-se todas as minhas cores, as minhas possibilidades e os meus sorrisos. Renova-se tudo que tenho dentro de mim. Renovam-se, principalmente, as minhas asas e o meu brilho sem fim.

Dá-me à morte para que tenha mais vida. Dá-me às lágrimas para que possa salgar meus lábios doces. Tira-me o ar para que eu consiga, de fato, respirar. Tira-me todo o céu para que eu possa cada vez mais voar. Tira-me toda a coragem para que de abismos eu possa me lançar. E queima-me na fogueira mais forte, para que eu possa virar cinzas e para que o vento da sua tempestade me espalhe.

Espalha-me silenciosamente em cinzas pelo mundo. Abre as portas da tua casa para que eu possa ir embora e estar livre das sombras. Abre o meu coração para que eu possa em poucos segundos, em muitas histórias, em tantos mundos... virar lenda. Para que eu me transforme no conto de amor desconhecido e inimaginável. Para que eu seja o silêncio mais profundo no campo das tuas batalhas!

E será assim para sempre; sempre em mim, sempre dentro de mim e também para o mundo; também para todos aqueles que amo. Porque mesmo sendo lenda, mesmo sendo poesia morta de amor, mesmo sendo queimado e tendo virado cinzas e como cinzas esteja espalhado pelo mundo... Eu nunca morro, eu renasço sempre! Porque acima da dor, acima das lágrimas, acima das tempestades, acima da terrível fogueira, acima das cinzas... Eu sou a FÊNIX!

Adriano Hungaro


Traços da Alma




Ao abrir as janelas da alma,
faço-me prisioneiro, mais um voluntário
em gemas de papel, feito
um guitarrista no telhado,
traçando escalas e devaneios,
despertando a noite,
desabrochando a esperança!

Apenas uma lágrima,
riscando a face em lamentos;
lamentos oriundos do afago,
da doce viagem na alva cor!

Apenas uma lágrima,
contando sua origem em mistérios;
mistérios ouvidos no peito do darma,
no meigo linguajar da Dalva luz!

Ao abrir as portas da alma
Solto-me em flâmulas
sem regras ou limites
sou capataz dessa cela em papel,
deixando que ondas tragam-me
seus versos, seus avessos,
enfim gravem na areia, o amor,
em suas formas,
em suas matizes,
em palavras do coração!

Auber Fioravante Junior

“Contradições”




Embora aconteça do sol se por no peito
Enquanto houver mar, não perco o rumo.
E mesmo que o coração jamais se cale.
É na realidade, tênue, que me aprumo.

Os desejos preferem permanecer ocultos.
E jamais revirar momentos guardados.
Com a emoção pendurada num cabide.
A vontade de vôo em sonhos camuflados.

Num dia, quero jogar no esquecimento.
Qualquer desejo antes compartilhado.
Então me adio, deixo o sonho guardado.

No outro, porem sou puro sentimento.
Que denuncia todo o sonho de liberdade.
E sem pudor revela minha maior verdade.

Glória Salles
               




O tempo avança
Já tenho idade suficiente
pra voltar a ser criança


Alvaro Posselt   

E-MAIL A TORQUATO NETO



do lado de dentro do vento
um cisco no olho do furacão
anjo fáustico declamando ácido sulfúrico
colhe um vocábulo em cada lábio
alivia a lira com a saliva da dríade
não revela ressalvas ao poema
escancara o riso da partida
sabendo que o fim não tem fim
deseja a linda ítaca na língua da morena
recita a ira ácida deciana (geléia geral)
para incitar o demônio dentro da vulva da devota
toma partido do caminho do passeio
lava a palavra lírio com o sangue do tiroteio



               Fabiano Calixto 



12 de agosto de 2011 

A moça da vitrine



A moça que monta a vitrine
Não é como a cesta de vime
Que aguarda alguém a compre
Ninguém à moça corrompe

A moça que ajeita a vitrine
Têm pouco mais de vinte
Gosta de ir e de voltar
Na mansão do mundo estar

A mãe disse “vá com Deus”
O pai nunca se arrependeu
Da boa filha trabalhadora
Menina dos olhos da patroa

O amor lavou-lhe a alma
Mantém a fronte sempre alta
Pois do primeiro não esquece
Enquanto o trabalho enobrece


Ari Marinho Bueno        

11 de agosto de 2011

Propriedade


André Vianna  


Sou a alegria que lhe acende o pranto
A voz que lhe auxilia a reza
O santo que lhe atende as preces
Seu homem, seu menino
Seu destino em desatino

E enquanto houver versos
- inversos a dor -
Enquanto houver cantos
- avessos ao sofrimento -

Enquanto você for a poesia
Escrita em universos
Com ou sem rimas

Eu sempre serei seu



Onde a Arte se asila: Propriedade
ondeaarteseasila.blogspot.com

HUMANO DEMAIS


Wender Montenegro  


Somos pedaços de Deus
sob o signo do tempo,
corpo de luz esvaído
ao frágil sopro das horas,
borboleta encarcerada
na inércia dos casulos.
Somos o verbo inflamado
que nem se sabe murmúrio.

Sísifos de eras modernas,
divisamos, consternados,
a queda sem-fim dos dias.
Somos ribalta em penumbra,
flor de luto, fogo-fátuo,
ar rarefeito, centelha
que ignora e traz em si
a essência da fogueira.

Alimárias do universo,
erguemos, inconsequentes,
o fardo livre do arbítrio.
Somos migalhas do eterno,
ouro vulgar de Eldorado,
mirante entre turbilhões,
luz em mãos de moribundo,
face-mistério da lua.

Bando de pássaros mudos
que ao toque do Ângelus fere
um céu sedento de canto,
somos razão em delírio,
rastro de Halley, sol posto,
cenho ferido de morte,
água barrenta que esquece
o veio de onde jorrara.

Somos pedaços de Deus
sob o signo do tempo.


FRONTEIRA



Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...

Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.

(Tasso da Silveira)

Descompassando Passos



(Sonia Cancine)

Eu queria uma ode qualquer
que viesse avivar letras adágio
- buquê incubo
mesmo que mal escrito -

Do pescoço nu, uma gota solta
[suficiente] para embebedar-te
e me transbordar.

E surgiu do nada?

Talvez sim talvez não.

Diz-me que vem
me descompassar
a beira do mar.

Num vaivém
desmancha-me
e me leva e traz
gingando-me
como flor ao vento.

Ricocheteando
meu Ser
fingindo ser
o canto que encarna
fluxo e refluxo das marés
de quem festeja o Sol
festeja a Lua
e me olha na rua

ao me tocar e ao deixar-me assim
entre os retrós de linhas torcidas
alinhavadas na luta desatinada.


NEGRUME





Acordei no dia,...
... Em que o dia,...
Não acordou.

Abri, e olhei pela janela
E no céu,... Não havia sol.
Merda!!! Machuquei a canela
Ressaqueado ao léu
Será que bebi etanol?

No alvoroço vizinhante
Desvendei a rua
E na escuridão brilhante
Entendi a realidade nua.

A noite engolira o dia
Nunca imaginei viver
Para esse dia não esquecer
Foi-nos avisado que viria.

Retrocederíamos à pré-história
Envenenaremos nossa memória.
A energia fóssil nos matara
Nem mais a brisa poluente enxergara.

Voltei p’ra casa e liguei a televisão
Cada qual relatava sua verdade para a nação.
O SBT dizia que o Silvio tinha a solução
Acharia um novo sol para a importação.
Pastores da Record pediam um dinheirão
Para a nossa salvação.
A Globo especulava um apagão
De enorme proporção.
A Band divulgava que foi uma armação
Para o São Paulo ser de novo campeão.
A Cultura ciênciava tal explosão
Em outra dimensão.
Alguns noticiavam uma invasão.
Todos perderam a razão.

Divaguei: como só a televisão funcionara?
Nem liguei, de que isso me importara.
Vai ver foi uma sabotagem
Aqui ninguém vai preso, é tudo uma sacanagem.

Pensando bem, isso só favorecia aos políticos
Mais ninguém, veriam suas cagadas.
Extinguir-se-iam os críticos
Apagar-se-iam suas pegadas.

Sem rios para represar
Sem florestas para respirar
Isento de recursos naturais
Viveríamos como os animais
Que nós mesmos empalhamos
E que por vezes calçamos.

Minha sogra me ligou
Informando que minha mulher morreu.
Lamentei o que o destino me reservou:
A víbora viveu.

Previa que mais imposto pagaria.
Devia até o avarento da padaria.
Meu cartão de credito só havia debito.
Meu patrão inepto
A todos nós demitiria.
Era o que eu queria.

As mulheres feias seriam abençoadas
Os cegos seriam enxergados
Os ricos se isolariam medrados
As prostitutas permaneceriam casadas.

Os narcisistas suicidariam maquiados
Os pobres não mais seriam os culpados
Os atendentes do INSS seriam surrados
Os banqueiros seriam roubados.

As roupas podem ser as mais rasgadas
As lojas serão saqueadas
As fronteiras vão ser mais vigiadas
Aos Estados Unidos bombas serão lançadas.

Sem mais se esconder aparecerá Osama
O que fará Obama?
E Hugo Chávez viverá sem a fama?
Lula cairá de cama
Pois no congresso haverá mais lama.

Nas rádios sem mais ensejos
Não ouvirei mais sertanejos
Sem acreditar, realizei meus desejos.
Pausando meus bocejos
Do céu ouço trovejo
Porem sem lampejos.

Nessa noite,...
Acordei de dia
Sobressaltei com uma voz estridente
Pensei ser coisa da minha mente
Mentira,...
Minha esposa estava toda contente
Revelando que sua mãe ia almoçar com a gente.
Retira,...
Sai assombração da minha frente
E leve contigo essa serpente.

Descobri... Que adormeci embriagado
E sonhei acordado
Mas,... O maior pesadelo
... Foi para realidade eu ter retornado.

CHICO DE ARRUDA.
Francisco De Arruda Bezerra     
3 de setembro de 2011

A CERCA VIVA, ENTORNO DO MURO DE PEDRA...





Se mesmo envolto na escuridão
dos meus quereres desafetos,
eu consegui divisar no alonjar
de meu mirar,
toda a amplidão da imensidão
dos sonhos que sonhei e vivi,
deixa-me prosseguir...

Se minha voz embargar.
Se eu não conseguir sequer palavras balbuciar
para reativar minhas remembranças,
deixa-me embalar nesse ir e vir...

Se por acaso, o ocaso trouxer-me, modo vivo,
a cerca viva, no entorno da escada de pedra,
onde tanto juntos corremos,
que silencio se faça...
nunca se conta o que no tempo, se segreda.

Se eu insistir em tentar perspassar
os caminhos, que hoje ainda fazem-se minhas trilhas,
permita-me, mesmo a esmo, estradear...
se eu tiver que chorar,
não emudeça minha emoção.
Eis o que ainda guardo de vivo,
em meu ávido, ardente e sedento coração.

josemir(aolongo...)

Josemir Tadeu Souza    
 13 de setembro de 2011 

Pequeno tratado escatológico sobre a negação





Um arroto é um poema. Dos mais sonoros.

Um soco é um poema. Na cara.
Merda de pardal no ombro: outro poema.

Qualquer hipérbole, dinheiro de tráfico, vossa fome de sexo.
Nos diz respeito a lírica diversa.

(Isso não é um poema).

16.07.2006


Ari Marinho Bueno         

11 de agosto de 2011 



isto


         

isto

nem parece ser

isto

ou aquilo que pudesse parecer

o cone o nome o vício o início

isto

não é um piano

nem uma cidade

isto

talvez malquisto

não é uma xícara não é a pedra do drummond não é nem

isto não se faz não desse jeito também não

(faz de novo?

fazer o quê?!)

ISTO

Ari Marinho Bueno       

 11 de agosto de 2011

nu no deserto
exponho as entranhas
queimo de amor

(Cristina Desouza)



não diga nada somente
o estritamente necessário arco-íris
de todas as matizes possíveis
e impossíveis

diga nada com
ares de toda árvore
de toda folha inscrita
pelos rodeios do
vento

sou
todo todos os
ouvidos

(e nada)

Vitor Hugo Klein Varella               


12 de agosto de 2011 

               

PEDAÇOS DO ESQUELETO





/ se eu quebrar com meus sonhos / e só restar o tédio medonho, / a decrepitude, a tristeza infinita / o monturo (na vida, na escrita) / nenhuma cia. de seguros / vai arcar com o prejuízo / então, / dou um basta à bosta toda / redesenho o traço da boca / deito um sorriso lindo para o mundo / respiro fundo, vou com tudo / porque é assim (e só assim) que se tem que ir // a av. Paulista correndo é tão engraçada / parece uma cobra de marshmellow / uma viagem de ácido / uma enguia eletrocutando a língua / os olhares, os colares, tristes demais / estupefatos, oleosos, covardes e sem razão / a cavoucar a cidade atrás de um tostão / ou de um milhão / pobres diabos e diabos ricos a rastejar / quarteirão a quarteirão / uns com ar condicionado, mp3, Honda, / apartamento mobiliado, aulas de inglês / outros não / a gente que tem / heliporto / vinho do porto / trabalha no horto / não passa fome nem morto / e a gente que / disfarce a disfarce / ganha apenas o necessário / para endividar-se /


Fabiano Calixto


 11 de agosto de 2011

terça-feira, 11 de junho de 2019

Reflexões de um burro




8 de abril

Quinta-feira à tarde, pouco mais de três horas, vi uma coisa tão interessante, que determinei logo de começar por ela esta crônica. Agora, porém, no momento de pegar na pena, receio achar no leitor menor gosto que eu para um espetáculo, que lhe parecerá vulgar, e porventura torpe. Releve-me a impertinência; os gostos não são iguais.

Entre a grade do jardim da Praça Quinze de novembro e o lugar onde era o antigo passadiço, ao pé dos trilhos de bonds, estava um burro deitado. O lugar não era próprio para remanso de burros, donde concluí que não estaria deitado, mas caído. Instantes depois, vimos (eu ia com um amigo), vimos o burro levantar a cabeça e meio corpo. Os nossos furavam-lhe a pele, os olhos meio mortos fechavam-se de quando em quando. O infeliz cabeceava, mas tão frouxamente, que parecia estar próximo do fim.

Diante do animal havia algum capim espalhado e uma lata com água. Logo, não foi abandonado inteiramente; alguma piedade houve no dono ou quem quer que é que o deixou na praça, com essa última refeição à vista. Não foi pequena ação. Se o autor dela é homem que leia crônicas, e acaso ler esta, receba daqui um aperto de mão. O burro não comeu do capim, nem bebeu da água; estava para outros capins e outras águas, em campos mais largos e eternos.

Meia dúzia de curiosos tinham parado ao pé do animal. Um deles, menino de dez anos, empunhava uma vara, e se não sentia o desejo de dar com ela na anca do burro para espertá-lo, então eu não sei conhecer meninos, porque ele não estava do lado do pescoço, mas justamente do lado da anca. Diga-se a verdade; não o fez — ao menos enquanto ali estive, que foram poucos minutos. Esses poucos minutos, porém, valeram por uma hora ou duas. Se há justiça na terra, valerão por um século, tal foi a descoberta que me pareceu fazer, e aqui deixo recomendada aos estudiosos.

O que me pareceu, é que o burro fazia exame de consciência. Indiferente aos curiosos, como ao capim e à água, tinha no olhar a expressão dos meditativos. Era um trabalho interior e profundo. Este remoque popular: por pensar morreu um burro mostra que o fenômeno foi mal entendido dos que a princípio o viram; o pensamento não é a causa da morte, a morte é que o torna necessário. Quanto à matéria do pensamento, não há dúvida que é o exame da consciência. Agora, qual foi o exame da consciência daquele burro, é o que presumo ter lido no escasso tempo que ali gastei. Sou outro Champollion, porventura maior; não decifrei palavras escritas, más idéias íntimas de criatura que não podia exprimi-las verbalmente.

E diria o burro consigo:

"Por mais que vasculhe a consciência, não acho pecado que mereça remorso. Não furtei, não menti, não matei, não caluniei, não ofendi nenhuma pessoa. Em toda a minha vida, se dei três coices, foi o mais, isso mesmo antes de haver aprendido maneiras de cidade e de saber o destino do verdadeiro burro, que é apanhar e calar. Quanto ao zurro, usei dele como linguagem. Ultimamente é que percebi que me não entendiam, e continuei a zurrar por ser costume velho, não com idéia de agravar ninguém. Nunca dei com homem no chão. Quando passei do tílburi ao bond, houve algumas vezes homem morto ou pisado na rua, mas a prova de que a culpa não era minha, é que nunca segui o cocheiro na fuga; deixava-me estar aguardando a autoridade.

"Passando a ordem mais elevada de ações, não acho em mim a menor lembrança de haver pensado sequer na perturbação da paz pública. Além de ser a minha índole contrária a arruaças, a própria reflexão me diz que, não havendo nenhuma revolução declarando os direitos do burro, tais direitos não existem. Nenhum golpe de Estado foi dado em favor dele; nenhuma coroa os obrigou. Monarquia, democracia, oligarquia, nenhuma forma de governo, teve em conta os interesses dá minha espécie. Qualquer que seja o regímen, ronca o pau. O pau é a minha instituição um pouco temperada pela teima, que é, em resumo, o meu único defeito. Quando não teimava, mordia freio, dando assim um bonito exemplo de submissão e conformidade. Nunca perguntei por sóis nem chuvas; bastava sentir o freguês o tílburi ou o apito do bond, para sair logo. Até aqui os males que não fiz; vejamos os bens que pratiquei.

"A mais de uma aventura amorosa terei servido, levando depressa tílburi e o namorado à casa da namorada — ou simplesmente empacando em lugar onde o moço que ia nobond podia mirar a moça que estava na janela. Não poucos devedores terei conduzido para longe de um credor importuno. Ensinei filosofia a muita gente, esta filosofia que consiste na gravidade do porte e na quietação dos sentidos. Quando algum homem, desses que chamam patuscos, queria fazer rir os amigos, fui sempre em auxílio dele, deixando que me desse tapas e punhadas na cara. Enfim...”

Não percebi o resto, e fui andando, não menos alvoroçado que pesaroso. Contente da descoberta, não podia furtar-me à tristeza de que um burro tão bom pensador ia morrer. A consideração, porém, de que todos os burros devem ter os mesmos dotes principais, fez-me ver que os que ficavam, não seriam menos exemplares que esse. Por que se não investigará mais profundamente o moral do burro? Da abelha já se escreveu que é superior ao homem, e da formiga também, coletivamente falando, isto é, que as suas instituições políticas são superiores às nossas, mais racionais. Por que não sucederá o mesmo ao burro, que é maior?

Sexta-feira, passando pela Praça Quinze de novembro, achei o animal já morto.

Dois meninos, parados, contemplavam o cadáver, espetáculo repugnante; mas a infância, como a ciência, é curiosa sem asco. De tarde já não havia cadáver nem nada. Assim passam os trabalhos desse mundo. Sem exagerar o mérito do finado, força é dizer que, se ele não inventou a pólvora, também não inventou a dinamite. Já é alguma coisa neste final de século. Requiescat in pace.

Machado de Assis - "A Semana" (crônicas 1892-1900)


Aparte



Pois se tornam aos portos
Tortos ou não tortos,
Mortos pelos rótulos,
Ou curvos pelo devir.

Pois se vão sem lenços
Ou passatempos,
Ou chavões,
Ou clichês.

Pois se amam simulacros
E se perdem em ilusões
Do ser.

Pois se perpetuam vácuos
Aos olhos do nada

Escabelaria a face em lágrimas
A traduzir a luz que invade
E deságua logo ali.

Pois é natural à humanidade
A medianidade, a mediocridade

Das gentes, dos olhos,
Dos ouvidos, das cruzes,
Dos jornais, dos holofotes

A mediocridade de tudo que te seduz
A iludir o parâmetro infinito
Que não estará dentro de ti.

Revolverás as noites em busca de um olhar.

Solidificará teu copo de vício,
Até o colarinho de dor.

Comerás o capim do sol
Com dentes de solidão

Até compreender,
Bom

Bom, até.


ACM


Fernando Pessoa e a literatura


"Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso."


Fernando Pessoa

Estrelato




Eu brilhei nos olhos de alguém
Que se foi,
Eu fui luz

Eu me encontrei na simplicidade
Eu fui intelectual,

Eu sonhei com um mundo melhor,
Eu provei as melhores teorias,

Eu encontrei a paz.

Eu subi ao alto da montanha,
Eu desci de lá.

Eu fiquei só,

E fui para a balada.

Ao voltar para casa.

Vi o sol nascer.



ACM


Meu ideal seria escrever…



Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria – "mas essa história é mesmo muito engraçada!".

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse – e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse – "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!". E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".

E quando todos me perguntassem – "mas de onde é que você tirou essa história?" – eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

Rubem Braga, de "A traição das elegantes".


Matiz





Ancorei nas mesmas lamas
Da verdade do meu ser

Estipulei o desprezo Freudiano
Cantarolei o rock na garagem

Eu subi a montanha
E naveguei o mar.

Eu caminhei em trevas,

Para amar a luz.
ACM

sexta-feira, 7 de junho de 2019

MUSCULAR




Ter o coração a contrapelo
limado como uma pedra
depois do vento.

Inaugural como a forma
do acaso.

Franjado de líquidos
e cernes

vapor e tinturas
do sangue e do caminho.

Burilar esse pedaço
de tempo, onde meu corpo
deitou morada.



de Roberta Tostes Daniel:

ISTO EXPLICA




Não fui a menina dos undergrounds
Das agitações noturnas
Das leituras insólitas
Dos dionisíacos saraus
Meu campus era o campo
Onde eu cavoucava batatas
E fica feliz, se raro, era doce
Vivi na terra vermelha
Sem xampu, mamãe tentava
Alisar-me os cabelos
Ver se ficava branca
Eu parecia
Mas havia um banzo

Negra acima de tudo
A alma
Por sorte aprendi a ler
E consegui decifrar as placas
No navio

Cheguei atrasada
Uns mil anos
Para a aula
Sobre Rimbaud.

Adriane Garcia

bibliotecas




A biblioteca do pai de Borges
foi o fato capital de sua vida.
Ele nunca saiu dela, disse.

Em minha casa nunca tive
livros.
O fato capital de minha vida
é não ter tido pai.

Minha mãe foi minha biblioteca.
Ensinou-me tudo.
Nunca saí dela.
Era analfabeta e deveria
ter se chamado Alexandria.

Edson Cruz

Teoria estética



I.

Quanto dissenso passou por meus olhos
e quanto poder há no estrume

redimensionar a vida no ir e vir das moscas

ergo meu caule de cogumelo venenoso
veias abrasadas de meu repertório

costuro nascentes até a ignorância.

II.

O dissenso construiu veredas na loucura

manejou espáduas desenhadas pela boca

ouviu a lateral do mar

o vento impiedoso

as aves partiram de um modo brando

sem necessitar oração

certas de suas linhas mestras.

III.

Continuo na tridimensionalidade

a quarta dimensão resvala

o início de algo assombroso como a descoberta

de um amor que comporta
a certeza da queda

um rio em que se banha duas vezes, ao menos.

IV.

Todos os corpos bebem do amor.
Ainda que não o mereçam.

poeta Roberta Tostes Daniel

Este




Este que verso
que se libertou
das minhas mãos
e que agora cai
de onde foi mais
íntimo,
o suor e as unhas
roídas,
este verso se pergunta
como foi que morreu
a frágil falha do dia,
como foi que morreu
o último mamute
que se perpetuou numa fenda
em cristal descomunal,
sua solidão,
os longos pelos de hibernação.

Este verso que agora cai
infenso às influências
hodiernas,
agora cai
derrotado,
leva fios da lã
em que teci o ponto
da hora tardia
de adiantada primavera,
de nada serve uma flor
quando lhe cercam o inverno
e o céu incólumes.

Eu vi as categorias celestes
e a carroça grande
no fim da estrada,
o pano de cordura,
o algodão bruto,
a ira sossegada
dos que acolhem o mundo.

Eu não sou o senhorio.
Eu pertenço à lâmina e ao punhal.
Ao país sem sentimento.
À praga e às canções
em céu aberto.
Ao urro congelado por milênios
como última palavra.

Este verso,
que agora cai,
fere a terra,
pontiaguda pedra,
toda montanha é um deus prostrado.

Fiori Esaú Ferrari

Contudo, a experiência, não sendo aplicada, é como o ouro imobilizado: não produz, não rende, é inútil. E de nada vale a um homem acumular experiência como se colecionasse selos. (Claraboia)

José Saramago

quarta-feira, 5 de junho de 2019

DESCORTINAR DE ALMAS


Taís V. Mariano Mariano       


No silêncio do momento
Na senilidade de um tempo,
que esqueceu de existir
Solidão coagulada
permita-se
permita-me
desenlear os fios
Entregue-se ao novo abraço
Sem receios, nem palpites
Sussurrando entre o ar seco
e a penumbra
Decifrando o mistério dos pedaços
Faíscas órfãs de luz
E depois
No instante derradeiro
Antes que te reveles
Me reveles
O instinto inunda
Teia imprevisível
Um descortinar de almas



"Não me interessa nada contar estórias. O livro é algo simbólico, sem significado definido. Não procuro escrever romances naturalistas, realistas. Me interessa colocar o mundo entre as capas"



António Lobo Antunes

"Evocação do Recife"




Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
- Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão

(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
- Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
- Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.

Manuel Bandeira