segunda-feira, 13 de maio de 2019

Delírio



Essa insistente hipótese
mal se sugere: súbito,
o clarão, tão logo a revela,
dissipa-a como um
íntimo equívoco. Delírio,
nesse silêncio, um batimento
de medusas engolfadas
por um mesmo pélago,
campânulas fluorescentes
consumindo o tempo
de seus afazeres enquanto
levitam nas profundezas
de um outro tempo
que as consome. Essa
teimosa hipótese se repete,
precipita, nesse relance,
nossa crença, nossa crucial
verdade, e o que se colhe
nessas margens, essas bolsas
que a maré despeja, talvez
um possível hálito, insólito
que seja, do que, desde
sempre, a eternidade.
De Marcelo Diniz, "Salto":

Um velho mergulha
várias vezes, várias
crianças, todos os seus
jovens lançam-se
antes que seu corpo
abrace, por completo,
a vertiginosa dose
de vazio desse evento.
Um velho está sempre
um instante a mais no
ar, terço de segundo
sem peso, suspenso,
enquanto vê os tantos
corpos descerem a queda
disciplinada e reta da lei
da gravidade irreversível.
Um velho já está no solo,
retornado à borda, já lá,
seco, certo de ter feito
todos os mergulhos,
e recebe todos esses
corpos que se sentam,
sucessivamente, onde
está sentado, há tempos,
após saltarem em sua busca.

 De Marcelo Diniz, 

Mãe da manhã




 Interpretada (magnificamente) por Gal Costa. Esta canção, feita por Gil, foi composta especialmente para a voz de Gal. Tiro certeiro. Para quem está à  busca de tranqüilidade, de calma, de paz.

(E que tudo seja belo. E que tudo se ilumine. E que tudo dê pé.)

De Gilberto Gil, o poema-canção "Mãe da manhã":

Meu canto na escuridão
Minha voz, meu amparo
Aro de luz nascente do dia
Brota na gruta da dor
Mãe da manhã, de tudo eu faria
Pra conservar vosso amor

A cada ano, uma romaria
Uma oferenda, uma prenda, uma flor
A cada instante, um grão de alegria
Lembranças do vosso amor

Santa Virgem Maria
Vós que sois Mãe do Filho do Pai do Nascer do Dia
Abençoai minha voz, meu cantar
Na escuridão dessa nostalgia
Dai-nos a luz do luar

                GAL COSTA - MÃE DA MANHÃ

Composição: Gilberto Gil Meu canto na escuridão Minha voz meu amparo Aro de luz nascente do dia Brotando

DOCE LOUCURA




me dou conta, assustado, com febre alta,
na parede, o relógio marca a hora,
são três e trinta e três e a doce flauta
de um anjo imagino ouvir agora

li um pouco do Mahabharata e Vedas
e um cansaço medonho em mim se estende,
por meus nervos, meus músculos e vértebras
mas o corpo ao descanso não se rende

não sou jovem nem dou voz à tolice,
mas sou quase incansável quando leio
se o livro tem razão e tem fetiche
a emoção põe no doce seu recheio

mas hoje não, a estafa, com o peso
de duas gravidades mais ou menos,
quer apagar o que mantive aceso
e atua sobre mim com os seus drenos

vejo a vida esvair-se, mas resisto
e um filme triste passa por meus olhos
então um sino bate e prega um cristo
estourando seus tímpanos e miolos

na angústia de ajudá-lo, pego um pau
e, agindo como um louco, desço a ripa
rasgando carnes com um ódio tal
que ao fim só resta um festival de tripa

e neste trágico combate imundo
vejo-me como um verme salivando
pelo fartíssimo banquete oriundo
dessas ações sem onde, como ou quando

mas ao ver cristo assim tão judiado
jogado e espancado pelos cantos
orei como jamais havia orado
até ser censurado pelos santos

só porque meu vocabulário é tosco
e nunca tive papas na papila
senti que tudo ficou cinza e fosco
e para me acusar havia fila

eram hipócritas, falsários, crentes
toda uma multidão de vagabundos
que na ânsia de serem diferentes
arrombavam a porta dos fundos

eu titubeava delirantemente
querendo saber quem eu era e só
mas acordei entrando pela frente
alguém abriu-me a porta e virei pó

antonio thadeu wojciechowski

Negro soul


Negro soul
Sou um Negro,
orgulhosamente bem-nascido
à sombra dos palmares,
da grandemocracia
racial
ocidental
tropical.
sou bem um outdoor
de preto
com a cara pro luar
inflando a percussão
do peito
feito um anjo feliz.
sou mais que um quadro-negro
atrás de um giz: um livre livro.
e sangue de outras sagas;
e brilho de outros breus:
quanto mais me matam
mais eu sobrevivo.
(negro é feito cana no moedor,
sofre e tira mel da própria dor.)
vou tocando passos,
vou tocando ginga,
vou tocando, vou
a deitar sangue
nos cruzamentos,
colorindo a palidez
dos que não têm cor.
sou um negro,
rigorosamente um negro,
à sombra dos palmares
da grandemagogia
racial
ocidental
Tropicálice!

José Salgado Maranhão

EM CARNE VIVA




Um poeta em carne viva
abriga a terrível pulsação
de um coração-estrela
e um silêncio
encravado nas entranhas
como filho bastardo
que nasce
à revelia do seu canto

Um poeta em carne viva
pisa as pedras
imaginando-as
seda da China

Um poeta em carne viva
é um louco no tribunal
das almas de chumbo:
culpado sempre

Culpado de ser humano da fala ao falo

Bárbara Lia

Tem um pássaro cantando
dentro de mim

2011


quando você cala
quando você fala
você assume um risco
você escolhe um lado

não adianta depois
virar o disco
chorar sobre o leite
-- o sangue --
derramado

quando você cala
quando você fala
você escancara:
eu sou isso.

Otto Leopoldo Winck


sobe vagarosamente a fumaça do dia
em silenciosas sombras que albergam noites e barcos
me digo entre o amor e a fúria
a quietude fibrosa do pó nos móveis da casa

[circulo um pensamento sem rumo nas artérias do fogo]

agora compreendo a convergência química-política-poética
com nossos sons e cinzas formam-se os rumores da língua
que falam as teclas, as células, as árvores, os precipícios
escrever é pedir emprestado às coisas
suas noites e barcos
quiçá, algumas estrelas
durante a travessia
.
Carla Carbatti

PIGMALIÃO E REDESCOBERTA




Na pedra fria de neblinas branca,
Mármore etéreo desta folha franca,
Teu seio risco e rasgo a tua boca.

A forma tua que roubei da rosa,
Que espetalei de cada vez
Em que toquei a tua tez,
Devolvo já desde o mais fundo corpo,
E desde o imo espelho especulante,
Ao que é externo, airoso e fugitivo.

A forma tua que é o mesmo aflato
Aqui presente e de ti mesma
Transbordante, transimanente,
Com meus cinzéis ouso moldar
Em sol, em mi, em nós, em lá,
Em lua... E, ao depois, teu nome
De sussurros sei ouvir. E estacar.

Estátua viva que de trevas veste
Tua nudez (pres)ente e transparente,
Meu próprio sangue em si respira.
E o corpo nosso, material, formal,
Filho do amor, essa magia rubra,
Já me sorri... com lábios de Afrodite.


Igor Buys

15 de agosto de 2011


Deixa ir embora a sombra que te segue; espanta-a fulminantemente com a tua luz; clareia-a a ponto que todas as demais sombras também fujam de medo. De fato, as sombras têm medo da luz, e assim é tanto o seu medo que estão sempre na direção oposta de tudo que brilha, de tudo que irradia energia em clarões. Mata a sombra que te segue até mesmo pelas noites sem estrelas. Transforma-te em luz até dentro da maior escuridão; até onde os olhos não podem enxergar, até onde não conhecem o sol. Brilha!

Adriano Hungaro

quebra-cabeças


você é um quebra-cabeças
que se desmontou
e me desmontou também
separamos nossas peças
e nos montamos novamente
mas percebo agora
elas se misturaram
e em mim tem partes suas...
por toda parte.
Na minha boca tem seu gosto
nos meus olhos sua imagem
ainda sinto o calor da sua pele na minha
sua voz não sai dos meus ouvidos
e nunca esqueço do seu cheiro
grudou em mim
e a cada pedaço de você
que tento tirar de mim
dói e deixa uma ferida exposta
no vazio do lugar
e tem partes minhas na tua mão
no meu peito não sei...
se bate o meu ou o seu coração
as vezes também me falta ar
faltam pedaços de mim!
As cores do meu cenário
se uniram ao seu...
e eu...
já não consigo separar
monta suas peças junto as minhas
porque as suas não quero devolver
nem tampouco destrocar

Elcyr Carreira da Costa

letras submersas
oceano que fala
palavras do mar

(Cristina Desouza)


Um dia eu fiquei tão triste que quis arrastar todas as estrelas do céu. Desejei que o sol não mais nascesse e a lua despencasse sobre os transeuntes. Amaldiçoei a esperança, este ídolo todo de barro, e tatuei na testa um signo obsceno. Disse de mim para comigo: não tenho irmãos nem a perspectiva de encontrar um semelhante sobre a terra. Nesse dia voltei para casa, a pé, pelo trajeto mais longo. Todas as pessoas que eu cruzava viravam o rosto, repugnadas. Mais tarde, rolando em meu leito, desejei de novo ser peixe e nadar para sempre no líquido amniótico. De manhã, ao me olhar no espelho do banheiro, constatei que estava transformado em Caliban. (Chorei como uma criança que perdeu os pais numa feira.) Apanhei então uma navalha. Apalpei meus pulsos. Mas mudei de ideia e esquartejei você.

Otto Leopoldo Winck

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Provoca que Eu Góstio




 Ronald Magalhães

Doce Dilma, doce Dilma,
que luta essa renhida!
Se fujo de Campos Minados
dou com as Neves da vida!

E não quero entrar em fria,
doce Dilma, deusa, diva,
mesmo em meio aos pesadelos
eu te canto, ó patativa!

Diva Dilma, doce musa
guerrilheira destemida,
mesmo na dança confusa
quem samba sabe a saída;

E não é pela direita,
sabemos, ó porta-bandeira,
Sem que se perca o passo
nem a ternura brejeira,
corramos pro grande abraço
descalços ou de chuteiras;

Mesmo com os teus erros crassos
Dilma doce, doce Dilma,
eu sigo de perto os teus passos
quase já perdendo a calma,

O mundo é neurotizante,
doce Dilma, a vida é breve
por isso eu grito que chega
de tanto ódio troante!
E fora Abomináveis das Neves!
Fora Fields forever farsantes!

Cinco sonetos frívolos


  Paulo Henriques Britto

i

Hoje acordei bem prático, sofístico,
sem pudores de lógica e moral,
fechado em mim, feito uma ostra, um dístico
ou uma pedra (mas não filosofal).
Devia haver mais dias como este,
livres de compromissos com dois mil
anos de ocidentalismo, a nordeste,
a sul, a sotavento do Brasil
ou do que quer que seja. Simplesmente
ser, sim, mas contingência pura, só,
nada que deixe um rastro ou excedente
em sangue, fezes, páginas ou pó.
Dias de amarrar barbante ao redor
do nada, e capturar um deus menor.

ii

De vez em quando o mundo faz sentido.
Questão de ângulo, de na hora exata
não se atentar pra página do livro
supostamente sendo lido, a faca
com que se vai cortar o que merece
ser cortado — e, em vez, levantar a vista
não pra ver algo, e sim como quem quer se
lembrar de uma coisa há muito esquecida,
só que não há nada a lembrar, a não ser
a suma importância de não se ter
nada a lembrar, nada que valha a pena
sacrificar esse momento único
e inteiramente vazio em que o mundo
faz sentido. Ou parece. Pelo menos.
iii
Mesmo o mais sólido some
sem deixar nenhum vestígio,
sem nem se ter (como exige o
costume) lhe dado um nome.
E, como sempre, o sentido —
que se dá a posteriori,
antes que se deteriore
de todo o mal percebido —
não capta mais que um minúsculo
ângulo do evento único
que só durou um segundo.
Entrementes, coisas mais
surgem, somem, num zás-trás,
e agora já é outro o mundo.

iv

Até onde a vista alcança
é real todo o visível.
Como dançarina e dança
formam um todo indistinguível,
assim também não há esperança
de se atingir algum nível
em que uma e outra substância
se separem, dando alívio
à consciência inquietante
de que no próximo instante
o erro vai ser dissipado.
Não vai. O logro é absoluto.
Melhor relaxar os músculos
e aproveitar o espetáculo.

v

Súbito? Não. A coisa morre à míngua,
um risco vira traço e o traço, ponto.
Por exemplo: uma manhã de domingo,
a
mesa posta pro café, tudo pronto
pra não se fazer nada — ou então
a noite de uma terça-feira inane,
sob o quebranto da televisão —
mas isso não importa; que se dane
o tempo, e o lugar também (um boteco?
o elevador?) — pois chegou ao final
um processo previsível, perverso,
trivial, que reduziu o universo
a uma bolinha de papel, da qual
você se livra com um peteleco.




do livro Formas do Nada

nomorro



[assionara souza]


a paz é triste
atônita surdez
depois do seco estampido

passos curtos e cambaios
a mãe recolhe do varal
a roupa que o menino
não vai mais vestir

não estivesse ela àquela hora
limpando a festa suja na casa que não é sua
longe de sua vida real e do seu menino adorado
teria gritado: — vem pra casa, filho!
tem polícia no morro!

céu azul de abril
guarda desde sempre
este fatídico e recorrente encontro
entre a cabeça do menino
e o projétil fatal do assassino fardado

terça-feira, 7 de maio de 2019


estamos aí
na luta
em meio ao gás lacrimogêneo
spray de pimenta
balas de borracha
em meio à chuva
em meio ao caos
aos edifícios cinzentos
nas ruas
nas avenidas
nas praças do mundo
estamos aí
na luta
e nossos punhos erguidos
nossos olhos vermelhos
não são de ódio
mas de indignação
não são de ira
mas de amor
estamos aí
na luta
e esta luta é paixão
que força alguma vai acabar

Otto Leopoldo Winck


Pensei em ligar para o hospital veterinário da PUC e sem querer liguei para o psiquiátrico.
-- Alô?
-- Alô. Vocês fazem castração?
-- Ham?
-- Sim, castração.
-- Não é internação?
-- Não, é castração.
-- Está grave assim? Acho melhor uma internação primeiro.
-- Que internação que nada! Basta uma castração. Meu cachorro só pensa em comer meu gato.
-- Acho que o senhor ligou para o número errado.
Silêncio.
-- Também acho...

OLW



Sobreviver, algumas vezes

a toda morte que o corpo carrega::

os abraços

o peito e o pátio da casa.

Sobreviver a deus sem deus

com o que há nos dentes,

pré-molares infeccionados,

a tudo que sobrevier sobre a terra.

A desmedida,

morte bruta, ainda que pacífica,

acima da cabeça silenciosa.

Marcelo Martins Silva

OFERTA




Como a voz de muitas águas
você me acordou dentro da noite
e eu era como um velho navio naufragado.

O canto dos peregrinos
me chegava aos ouvidos
como uma recordação maldita.
E de repente eu desejei
que não houvesse sol – e nos tons sanguíneos
que antecedem o dia
tudo se revolvesse
e resolvesse.

(Tenho andado tanto
e cantado pouco – pensei.)

Por isso aqui estou
à tua porta
e trago como ex-voto
os veios que as bátegas da chuva
abriram no meu rosto
– e as minhas mãos cansadas
e vazias.

Otto Leopoldo Winck

Do 'Cosmogonias'

Parestesia




Vivo esta vida de movimentos mínimos
atravesso a espessura indevida
pelos olhos e pelo degredo
não me interessam as correntes de ar que propagam a voz aos quatros cantos
mas o grito bendito de espuma
na boca do agonizante
o deus liberto e delinquente

vivo do verbo, minha vaia.
RTD

SACRAMENTO




Teu corpo é belo
não porque seja perfeito
segundo a régua
de olhar alheio.

Teu corpo é belo
(ainda que frágil)
porque é o lugar
da manifestação de tua presença
– única e irrepetível –
no tempo e no espaço.

Ora, o tempo
escorre
e o espaço
se transforma
sempre. Mas a graça
que se mostra em ti
a cada instante
se renova
em novíssimas formas.

Por isso,
cada veio
que se abre,
cada veia
que se mostra
nada mais são
do que sinais
(ainda que frágeis)
de um deus que se revela
para além das aparências.

Otto Leopoldo Winck


"Há o tempo de nascer e o de morrer.
Entre os dois são o Homem e seu tempo:
o largo espaço-tempo, claro tempo
que vai desde o viver ao não-viver.

Há o tempo de cantar e o de sofrer
e o de cantar sofrendo, e o de, cantando
sofrer; e há o tempo desse canto,
que o tempo dado ao homem é mercê.

Há o tempo de fazer e o de destruir,
e o tempo de sorrir e o de chorar,
de se manchar e de se desmanchar;

há o tempo de abraçar e o de partir,
e o de nascer, no tempo de abraçar,
e o de morrer, no tempo de partir."

Renata Pallottini


quando você cala
quando você fala
você assume um risco
você escolhe um lado

não adianta depois
virar o disco
chorar sobre o leite
-- o sangue --
derramado

quando você cala
quando você fala
você escancara:
eu sou isso.

Otto Leopoldo Winck

ate morrer




● quando inquieto acordo do meu sono so ●
● procuro logo palavras dos meus sonhos ●
● mas apenas bem poucas são lembradas ●
● jamais como foi o poema completo e claro ●
● mas vou trabalhando as palavras soltas ●
● sei q jamais serão o poema a vida livre ●
● nem poesia nem sonho apenas estilhaços ●

● sei q um dia um poema sera montado ●
● não terei poesia conversa so ou vazio ●
● nem mesmo pesadelo mas um revolver ●
● com todas as balas novo e guloso ●
● o cano limpo vendo a bala passar ●
● sem esse poema não posso me matar ●
● vivo assim criando e rindo ate morrer ●

*
ALC

A FLOR E A BOSTA




Sisudo e hermético, vou de cinza por ruas imundas.
Melancolias e poesias me espreitam.
Devo seguir até o soneto?
Posso, sem rimas, revoltar-me?

Olhos duros no cronômetro do smartphone:
Não, o tempo não chegou de completa pureza.
O tempo é ainda de merda, poemas-piadas, trocadilhos e aporrinhações.
O poema pobre, o mundo pobre
fundem-se na mesma angústia.

Em vão me tento explicar, os críticos são surdos.
Sob a pele das palavras há piscadelas e intertextualidades.
A brisa consola os poetas mas não os renova.
A literatura. Que triste é a literatura, considerada sem ênfase.

Vomitar este orgulho sobre a cidade.
Cinquenta anos e nenhum Prêmio Oceanos ganho,
sequer finalista.
Nenhuma resenha escrita nem recebida.
Todos os escritores voltam para casa.
Estão menos livres mas tem seus seguidores nas redes sociais
e tretam com todos, sabendo que se fodem.
OLW


Acorde comum do blues
dos violeiros e do banjo
nas Áfricas.

Pacto, afinação
com seres de outro
mundo.

Intercessão eônica
potestade
dos tambores.

Liberta por Xangô
na escaramuça dos homens.
Aña, Ayom

ensinaram
a falar e a cantar
guitarras sudanesas

alaúdes
banjores
banjares.

Transitam entre os cosmos
recontam quedas.
Se não nos impedem

por nossa estupidez
fazem da pele
canção da guerra.

*

[2017]
RTD


é uma merda
senhoras e senhores
a partir deste vocativo
invoco a musa dos fedores
e assim torno imperativo
o tema que agora abordo
senhoras e senhores, é uma merda
o grande cagalhão que como um bólido
nos enfiam pela boca aberta
deixando uma sensação fétida
tanto na calcinha como na cueca
senhoras e senhores,
isso não é uma metáfora
e muito menos uma metonímia
destilando magia de mandrágora
ou um poeta lambuzando a pílula
não, senhoras e senhores,
não é a merda de Salvador Dali
que nos faz rir a gases despregados
e nem mesmo aquela do Leminski daqui
comparando a amada em versos apaixonados
não, senhoras e senhores,
a merda a que me refiro
não é essa merda que dignifica
engrandece o espírito
e sólido o caráter nos edifica
não, senhoras e senhores,
também não é a merda da corrupção,
do tráfico, da violência, da prostituição,
da grana entupindo cu de políticos,
da miséria exposta como ornamento da nação
não, senhoras e senhores,
a merda, a grande merda de que estou falando
é que o povo brasileiro em sua grande maioria
tanto na prática como na teoria,
ao ver merda, merda, merda e mais merda
está cagando e andando, puta merda!

antonio thadeu wojciechowski




"Todo artista vive em permanente desacordo com o mundo. A arte é a não-aceitação do empírico como ideia dos sentidos. É até uma falha de personalidade, um problema de percepção. A pessoa nasce com um certo pendor de inverter a realidade."

Jamil Snege, em entrevista ao Nicolau nº 42

TRAÇADOS




Na verdade
Deus escreve torto
por linhas igualmente mal traçadas.
Todo anjo é barroco
e os santos
foram expulsos da República
juntamente com os poetas.

Na verdade
nenhuma luz é pura
e em excesso sempre cega.
Por isso tenho andado à sombra
e pelos caminhos mais escusos.

Sol e lua, carrego-os no bolso,
com um magote de estrelas
– cuidando que ninguém o saiba.
E o canto que ora canto
é feito de barro e madressilvas
em escalas variadas de silêncio.

Otto Leopoldo Winck


Tem coisa que a gente gosta
Tem coisa que não
A gente vai muito pelo coração
Outras vezes não
Mas o coração sempre tem razão
Alinda mais quando olho a olho
Se diz palavra mais linda
Pancada na porta do coração
E é exatamente aí
Que a gente tem razão

Antonio Thadeu Wojciechowski

O ÚLTIMO NEFELIBATA


Lendo uma tese que trata da existência ou não de uma literatura paranaense, me lembrei desse velho conto, que dialoga com várias gerações de escritores do Paraná:

O ÚLTIMO NEFELIBATA

Todo mundo é meio nefelibata em Curitiba. Meio pitagórico, meio vampiro, meio cachorro louco. Eu também. De dia durmo, rumino, medito. De noite saio, tomo uns tragos, frequento becos, bocas, contemplo a lua – quando ela dá as caras, é claro. Já fui professor de cursinho, redator publicitário, corretor de seguros, vendendor de móveis usados. Já vendi plano de saúde, assinatura de tevê a cabo, filtro dágua de barro. Até apontador de jogo de bicho já fui. Como não tenho mais idade para fazer malabares e ainda me sobrou um pouco de vergonha na cara para pedir esmola, estou aí, arrolado nas estatísticas dos sem ocupação. Mas não pensem que eu sou um desocupado. Trabalho duro. Teimo, limo, sofro, suo. Passo os dias – é preciso acentuar – compilando meus poemas. Trinta anos de produção. Não é fácil, meu amigo. Trinta anos alinhavando palavras, catando rimas, escandindo sílabas, marcando cesuras. São páginas e páginas de papel almaço, cadernos escangalhados, folhas datilografadas ou digitadas e impressas nas lan houses mais ordinárias da cidade. A maioria não presta. Sei disso. Depois de muito esforço, quem sabe eu consiga o suficiente para um opúsculo. (Opúsculo, gosto dessa palavra.) Falam de morte, de bruma, de brisa, de lua. E de mãe. É, e de mãe. Freud explica. Ou o diabo. Ah, esqueci de contar: moro com a minha mãe, num apartamento encardido do Alto da Quinze. Ela é aposentada do estado. Com o que ganha, pagamos aluguel, condomínio, luz. O telefone está cortado. Meu celular não sabe o que é crédito há uma cara. Como a aposentadoria dela é uma merreca e eu, como você viu, estou sem renda, é visível que para comer está difícil. Espremendo daqui e dali, fazendo mágica e reza brava, dá para um comer. É claro, sem luxo, pieroguis, estrogonofe, torta alemã, como antigamente. Para dois, ah, isso não dá. Por isso ela vinha dizendo, a velha: ou é tu ou sou eu. Não dá para os dois. Como tu não bota nada dentro de casa há muito tempo, tu cata as tuas coisas e cai fora. Eu dizia: peraí, mãe, pega leve. Não é fácil falar essas coisas, meu irmão. Mãe é sempre mãe. Pode ser velha, pode ter sido puta, mas é mãe. Deixa eu tomar mais um gole, está muito frio, essas noites de Curitiba são o diabo. Como eu tenho essa grana? Olha, meu amigo, a gente pode pasar fome, necessidade, mas sem os vícios a gente não passa. Às vezes rola um bico, um trampo, um trambique. Às vezes, no maior desepero, passo a mão em alguns livros lá da estante e vendo num sebo. Já tive uma senhora biblioteca, prateleiras e prateleiras de lombadas com títulos em francês, inglês, italiano, além dos brasileiros e portugueses de minha estimação: Antônio Nobre, Cesário Verde, Cruz e Souza e o pobre Alphonsus. Agora, não passam de algumas dezenas. Mas quando, assim mesmo, estou sem um puto, ah, aí eu apelo. Na bolsa da velha confisco um trocado. Fico sem remédio, sem comida – um pastel dá para o gasto – mas não fico sem o meu trago. Pobre velha, hão de chorar por ela não digo os cinamomos mas pelo menos os chorões carpideiros da Fernando Moreira. É, meu chapa, estou decadente. Je suis l’émpire à la fin de la décadence, saca? Na verdade, sou decadente: estrela caída, albatroz sem asa, flor do absinto. Sempre fui. Décadence avec élégance. Foi-se a élegance – já fui dândi, echarpes longuíssimas, cabelos à Oscar Wilde –, ficou a décadence. Mas eu não contei tudo. Deixa beber mais. In vino veritas, não é assim? Agora, com o conhaque, a verdade é mais letal. Bom, como eu ia falando, esta noite, ao sair de casa, fui me despedir da velha e não escutei o seu natural grunhido. Recuei, chamei-a novamente. Nada. Silêncio absoluto. Entrei no quarto (eu durmo na sala) e mais uma vez nenhum sinal. Ela teria saído para comprar um cigarro, ir à igreja, ao supermercado, sem que eu percebesse? Não, já era tarde e ela não costuma sair de noite por medo do sereno, da friagem, dos craqueiros. Entrei então no banheiro, pé ante pé, temendo o pior, sabe-se lá, a velha é louca. E vi. Atrás do box quebrado, lá estava ela, pendurada do cano do chuveiro (chuveiro elétrico; detalhe: queimado). Não aguentei. O baque foi grande. Saí para espairecer, dar umas voltas, bater perna, enquanto o corpo esfria. Com o frio que está fazendo, meu irmão, esfria logo, logo. Aliás, o corpo dela nunca foi muito quente. Calor ali só no ódio votado ao filho. Então é isto: saí para relaxar. Gola erguida, chapéu enfiado nos olhos, o rosto contraído contra o vento gélido, sigo pelas ruas, ruelas, vielas, as mais escuras, as mais desertas. Medo de algum maluco, algum drogado? Absolutamente: na mão crispada dentro do capote, a faca. Um dia um piá veio se meter a besta e ficou estirado na calçada, sangrando. Já disse, sou meio louco, vampiro, degenerado. Minha vida é assim. Entro num boteco, peço uma dose, engulo alguns rollmops quase apodrecidos, pago, pego as moedas sobre o balcão, saio de novo. O vento me corta o rosto e, somado ao álcool que começa a circular nas veias, me dá um estranho prazer. A mão no bolso, apalpo o cabo da faca. Logo encontro outro cabo, maior, latejante, aflito por uma bainha sorrateira. Mas não há nenhuma polaca na rua capaz de me satisfazer por vinte pratas. Amigo, a vida é dura para quem nasceu poeta e sem vocação alguma para ganhar dinheiro. Prossigo meu caminho, que é caminho nenhum, transeunte sem rota, sem norte, sem aura, às avessas. O passo veloz, corto as ruas, as esquinas, os canteiros. Alcanço o Largo da Ordem, a essa hora hora ainda povoado pela burguesia adiposa de Curitiba. Atravesso a Praça Tiradentes, escura, um casal bolinando num banco, um mendigo dormindo no outro. Desço pela Rua das Flores, cruzo por punks, ratazanas atravessam o calçadão quase deserto, salvo dois ou três notívagos. Passo pela Boca Maldita, agora calada, seus aposentados dormindo e sonhando com outra Curitiba que os anos não trazem mais. Atinjo a Praça Osório e saúdo – salve, salve, meu príncipe – o busto de Emiliano Perneta na herma entre os pederastas. Todo mundo é meio taciturno em Curitiba, meio poeta, meio louco, meio simbolista. Deve ser o fog londrino que por descuido de São Pedro veio parar também aqui – ou então é o espectro do Dario Veloso ou do Rocha Pombo que não nos deixa em paz. Quanto a mim, sou inteiramente sombrio, hipocondríaco, merencório, como se dizia antigamente. (Merencório, gosto dessa palavra.) Nasci sob o signo de Saturno, odeio sol, odeio luz, odeio sorriso de criança. Jardins, triciclos, balões coloridos? Estou fora. Chás em academias, ciclos de leitura, cafés com viados metidos a intelectuais? Também estou fora, camarada. Dou a volta, subo pela Visconde de Guarapuava, chego à Fernando Moreira, observo os supracitados chorões sobre o córrego que não vê peixe há muitas décadas e me recordo da enforcada. Meu velho, eu me preveni. Do último trampo me sobrou uma grana, com a qual eu fiz um seguro para ela. Com o cobre edito o opúsculo. O título? O último nefelibata. É isso aí, cara, eu sou o último nefelibata, o último autêntico dessa capital provinciana que já teve dias melhores e que por um mero acaso, já disse, um puro capricho dos deuses, veio parar nesse país entre os tristes trópicos. Subo agora pela Cândido Lopes, ali a Biblioteca Pública, museu dos paranistas. Mais uma dose. Pelo menos eu vou ficar com o seguro. Menos mal. Para ela eu acendo uma vela, afinal era minha mãe, doidivanas, decrépita, mas minha mãe, uma vela bem grande, do tamanho dela, preta, que é para ela não sair do inferno. Uma estadia no inferno? Não, a eternidade. Ela disse: com a titica que eu ganho só dá para um, endendeu? Só dá para um. Como tu não serve para nada, nem para consertar a bosta de um chuveiro, tu cai fora. É duro ouvir isso da mãe da gente. Bom, a conversa está boa mas eu vou andando, tenho que dar parte na delegacia. Seu delegado, que horror, a minha mãe se matou, se dependurou do cano do chuveiro em seu último cachecol. É conveniente chorar um pouco. Mas bem pouco. Ninguém chora muito por uma velha louca. A noite, a brisa, a bruma, o álcool me dão uma estranha sensação, como eu disse. À mente me vem versos, árias, imagens. Quero morrer assim: uma garrafa de conhaque de um lado, um livro do Edgar Allan Poe do outro. Tedium vitae, spleen, nevroses, como se falava. (Nevrose, gosto dessa palavra.) Já disse: sou meio louco, vampiro, cão danado. Já fui pitagórico, rosacruz, bati ponto no Templo das Musas, já bebi sangue de galinha no cemitério. Agora estou mais cool, o meu divertimento é tomar um conhaque e andar a esmo pelas ruas de Curitiba, saudando os mendigos, as prostitutas, os invertidos. Sou poeta e portanto inadaptado à vida. Sem um trago, meu velho, não dá. Não dá para aguentar o frio, não dá para aguentar a vida, não dá para aguentar a velha me dizendo todo santo dia, como se eu tivesse dezessete anos, que se eu não arranjar mufunfa alguma ela me enxota de casa. Que Deus a tenha. No inferno não vai precisar de chuveiro elétrico. Nau sem rumo, barco embriagado, estou de volta ao São Francisco. Me apraz contemplar as fachadas desses casarões centenários na névoa das três e quarenta da matina. Pouca gente na rua agora, um guarda noturno, um cachorro sarnento, um velho fedido dormindo na rua. Mas devo seguir, despetalar até o fim a última flor do mal. Me desvio de um crioulo bêbado, atravesso a avenida, os faróis do carro são duas grandes nebulosas. Chego a este bar, quatro mesas, três fregueses e encontro você – que me fez a gentileza de ouvir esta história. Foi muito boa a conversa, meu chapa. Deu para espairecer. Mas devo seguir viagem. Cumprir meu destino. O corpo já deve estar frio, gelado, ficando azul, os olhinhos saltados. Muito prazer. Deixa que esta eu pago. Faço questão. Não está lembrado? Eu tenho uma chelpa para receber. Com licença, preciso ir à delegacia. Que maçada essas coisas, velório, enterro, apertos de mão. Parente velho só serve mesmo para morrer. Eu nunca fui muito prático. Fazer o quê? É a vida. As pessoas nascem, as pessoas morrem. Entre uma coisa e outra elas pagam contas, tomam remédios, suportam filas e se desesperam. Algumas, as mais sensíveis e delicadas, fazem versos, como eu. Versos inúteis que não publicam. Ah, mas dá na mesma, foder ou ser fodido, escrever ou ser escrito, poeta ou salafrário. Agora eu vou. Encaro o delegado e conto que a velha se matou. Afinal, foi ela que disse: ou é tu ou sou eu. Não dá para os dois. Ou danço eu ou dança ela, meu irmão. Como eu sou mais esperto, dançou ela. Todo mundo é meio psicótico em Curitiba. Menos eu.

Otto Leopoldo Winck

segunda-feira, 6 de maio de 2019



Para Frida Kahlo

a vida é uma melancia cortada:
doce
vermelha
e violentada.


Andre Assis       

SEMPRE UM PUCO MAIS



Tenho fome do silêncio das madrugadas,
da paz que a plenitude dos meus sonhos traz,
de poder caminhar pelas ruas, dobrar esquinas,
explorar praças, jardins, recantos
e poder pisar nas areias de certa praia
que existe perto daqueles rochedos
lá pras bandas do meu desassossego.

Tenho fome de poder macerar minhas lembranças,
da solidão que sempre senti em minhas andanças,
da inquietude de ser tão incompleto
a ponto de preferir caminhar pela imensidão
a me afogar em lugares povoados de ilusão
e de poder alquimizar minhas verdades
até transformá-las em compreensão.

Tenho fome da ternura dos teus olhos,
da textura de tua pele branca,
das tuas marcas, sardas, caminhos, atalhos,
recantos umedecidos pelo orvalho,
saliva, suor, peçonha, espasmos,
tenho fome do teu corpo inteiro,
só lamento não poder te devorar.

Tenho fome de poder macerar significados,
de perceber que a passarada em festa
não quebra a harmonia silenciosa dos meus dias,
de saber que águas que inundam meus passos
fazem parte das escolhas que eu faço:
água de chuva, água de rio,
água dos olhos, do seu corpo, água do mar.

Tenho fome de dar vida às coisas,
de poder conversar com as pedras,
de saber delas seus segredos, suas aflições,
de poder perceber o cochicho das folhas
que falam de uma sabedoria perdida,
linguagem dos anjos que me fazem
querer viver sempre um pouco mais.

Naldo Velho

pode cortar como faca
ou ferir como espinho
que seja proibido
aos olhos d quem seja
eu quero tudo que sangra
nem que seja em angra
como energia nuclear
ou passaporte pro futuro
não quero porto seguro
quero morrer no mar

arturgomes

Um Moinho



A travessia é dura
Dia de chuva, noite de frio
Dias bem quentes, noites sombrias.

Nesse caminho confuso
Nessa estrada sem placas
Entre o reto e o obtuso
Todos afogam suas mágoas.

Com a bota furada
Pisando em barro ou em pedra
Pronto em pé ou na queda
Tiro o melhor na caminhada.

Se encontro uma rocha grande
Serve para descansar
Se encontro um mar
Sou filho de navegante.

Se a fome quiser ser minha sombra
Como um pedaço de pão
Se não saciá-la
Posso matar um leão.

Tudo posso e tenho
Se a força não me faltar...

Como um moinho de água
Que mesmo se o poço secar
Usa o vento pra roda...
Nunca parar de girar.

André Anlub

Dor sem rastros




Velejo em mares bravios, sem saber nadar,
me encosto no deus Netuno, glorioso deus do mar...
Arranco enfeites supérfluos da minha casa dourada,
desenrosco calos da alma da vida inerte, desalmada.

Me encontro com marginais pedintes em plena avenida,
assovio canções tristes e me perco numa subida
da rua da aflição, entro numa rua contramão...
Sozinha, chorosa, escancaro minha solidão....

Consolo-me com o vinho, a água e o amor
assisto uma grande missa, cheia de louvor,
reencontro minha fé perdida, escondida...
Regurgito a esperança numa terra banida...

Perdida, cheia de feridas, numa rua esvaída...
Procuro uma cachoeira e rezo pra minha padroeira,
ouço fascinação com o coração arrebatado,
deixo feridas abertas e meu vestido desabotoado.

Busco minhas raízes e me perco na escuridão
me escondo na infância e começo jogar botão,
dou um abraço em meus sentidos e rasgo meu vestido..
Fervorosa, sem escrúpulos, solto minha libido.

Oh! Amorosa vida que aqui me chama
exalo o odor da dor e caio na lama,
me deito no templo da perdição entre afetos do coração,
deslizo na vida gloriosa, em pura comoção.

The end

Luiza Silva Oliveira          

RUBOR



se enrubesço
de desejo
quando te vejo
meio calada
meio sem jeito
teus olhos mansos
e escuros
são para mim
uma cilada
onde caio
e me perco
muros
que escalo
só pelo ensejo
de chegar mais perto
e no momento certo
roubar-te um beijo

(Cristina Desouza)


www.prismaticblue-mix-tura.blogspot.com      

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Elogio da sepultura




Eu prefiro ser,
Eu sou,
Sou o vento, mais uma vez.
Fluo, amor.

Eu choro por coisas tristes,
Eu rio, nunca por desdém.

Eu caminho na estrada do existir
A passos largos e plenos.
Mas nem sempre foi assim.

Eu, tão eu,
Sendo eu, ninguém.

Ninguém me olhou,
Ninguém me estendeu a mão,
Nem eu, a mim mesmo.

Eu duvidava dos abismos,
Pensava serem portais do poder.

Eu duvidava dos mestres
E continuo sem conhecer.

Eu sabia da distância,
Eu sabia da jactância
Eu sabia que nada sabia,
Mas mesmo assim continuei a escrever.

Eu derribei todo o Brasil,
Eu derribei todo estrangeirismo
Eu derribei todo sonho
Dentro de mim.

Eu continuei a viver.

Eu vivo,
Eu escrevo, eu respiro a liberdade,
Eu amo,
Um amor não clichê.

Eu sou intelectual,
Eu sou sábio,
Eu sou a montanha,
Eu sou o vale,
Eu sou o mar,
Eu sou o esgoto,
Eu sou a lama

Eu sou tudo,
Se me quer reduzir,
Ao que cabe em você.

Eu às vezes corro,
Eu às vezes morro,
Eu às vezes penso,
Eu às vezes nem lembro
O que deixei de comer.

Sobre os templos de meus
Simulacros

Estará a mensagem

Aqui jaz o vácuo de alguém
Que significou a si mesmo.
ACM

Ode à ignorância



Permanecer com a cara no muro
Esperar por você.

Olhar o luar na noite clichê,

Comprar a enciclopédia Barsa,
Viver uma farsa de erudição
Os olhos volver.

Insinuar que há arte na TV
Priorizar a sabedoria
Entender o significado
Sem compreender o porquê.

Perguntar pelos que se vão.
Esperar pelo entardecer.

Chorar aos berros na noite,
Ignorando o sol a nascer

No amanhã.

Capturar tudo que se vê,
Tirar selfies em templos sagrados
Ignorar tudo que se move
Em volta de você.

Fomentar ilusões em submundos,
Projetados por mídias porcas.

Conviver com os porcos,
Idolatrar águias,
Agir como cães,
Ensinar humanidade aos doutos
Do poder.

Revolver os grudes das paredes
Psíquicas dos horizontes dos deuses,
Não invocados.

Ser taxado, rotulado,
E assim permanecer.

Embriagar-se nas noites,
Bradando teorias às pestes
Da escuridão e das trevas
Pensando ser a luz da razão.

A simplicidade dança ciranda
Com o ser.

Milhões de olhos tortos não brilham
Por amor.

Quiçá por fama, cama, luar
Ou similar.

Leva-me ao alto do vácuo
O pássaro do amor.
Sinto com o cérebro carnal,
Raciocino com o coração
Sou paradoxo,
Sou ortodoxo,
Sou real mensagem

Que passou sem ninguém ver.
ACM

A insuportável liberdade do parecer ser




A escrita se me implica
Uma rica e restrita
Adulação.
Mãos que não me guiam
À redundância
Se não me vão.

Ler-me-ia a avaria
Entonaria o sermão
Repetiria a solução
Comeria o meu pão

Levo a vida
Vivo a lesão
Sou rarefeito de letras
Idiomas, linguagens, sintaxes
Sonhos, métricas, aviltagens
Revolto-me em silêncio,
Na dignidade do ser,
Em se calar.

Reverbero notas aos quatro
Ventos da solidão,
Pois não tenho mestres,

E para tê-los,
Não abrirei licitação.
ACM

Como se escreve um conto



Oferecido à Nazarena de Bouzuk

— Franqueza! Talvez não acredites, mas é realmente o que mais me seduz em ti. Tens na verdade os mais formosos olhos do mundo, tens uns lábios travessos, corados, cheios de vida úmida, rubros como... eu diria como o nácar se não me houvessem proibido o emprego de chapas; tens um porte graciosíssimo, um talhe de palmeira, principalmente agora com esses espartilhos modernos que te empinam os seios para diante; tens um andar de passarinho, um andar de lã, macio, cheio de ondulações, um andar sonoro, harmonioso; tens uns cabelos magníficos, dourados, fios de sol; tens um perfume ideal, capitosamente embriagador, um cheiro de carnes róseas e sadias, peculiar a ti, inconfundível, tens uma voz...

— Xii!, nesse andar enches duas tiras de tens e nunca terminas o conto — disse a formosa Edel pendida sobre os ombros de Paulo, de onde acompanhava o que ele escrevia. O rapaz, cortado o fio do ditirambo, ergueu os olhos em busca dos olhos de Edel e os lábios de ambos se esfrolaram levemente num beijo sussurrante.

— A culpa é tua, meu bem, a culpa é de quem possui tantas belezas. Bem vês que seria injustiça eu falar dos teus cabelos e esquecer dos dentes, falar dos dentes e esquecer dos olhos, elogiar a estes e omitir referências aos lábios, não achas?

— Acho sim, o meio de evitares isso é falar de tinia vez na pessoa inteira; assim nenhuma parte ficará preterida.

— Tens toda a razão; falaste como um Juiz de Berlim; vou seguir o teu conselho.
E Paulo, molhando a pena, relê a ultima frase do conto interrompido e de novo retoma o fio (... tens uma voz de anjo, és enfim uma melodia de carne, és a “Boêmia” sob forma humana. Mas...). De novo Edel o interrompe simulando cólera e aponta indignada para o mas que Paulo acabava de escrever no papel:

— Mas? Então vais fazer alguma restrição aos meus encantos? Atrevido! Há pouco não me disseste que eu era perfeita?
— Espera, filha — acalmou Paulo —, espera um pouco; ainda não sabes o que eu vou dizer! Arre! Que pressa!

— Bem, continua — fez Edel —, mas se esse mas encerrar qualquer coisinha deprimente, juro-te como amarroto o papel e o esfrego em tua cara.

— Sossega, sossega! — fez Paulo recomeçando.

Mas em todo esse conjunto de delícias que tu és, nada me seduz tanto como... (Paulo interrompe o curso da pena e, erguendo o rosto para ela, repete interrogativamente: Como? Adivinha lá, como o quê?) Edel fez mil suposições: opina pelos pés, pelo seio esquerdo, pela nuca, pelos aveludados lobos da orelha, mas não acerta. Paulo, para a judiar, não conta o que é e se prepara para escrever. Edel, ardendo de curiosidade, senta-se no colo dele com o nariz fincado no bico da pena, ansiosíssima.
Paulo continua, o braço esquerdo cingido em torno da deliciosa cintura da moça (como as tuas mãos).
 Um casquinante “óóóra” acolheu a decifração do enigma. Edel pôs-se a mirar as mãos gorduchas dizendo — por modéstia: “Já se vê — não acho tanto assim, bem feias que são até; tens mau gosto”. Paulo retruca: “Será o que quiseres, mas fica quietinha que eu preciso terminar isto hoje; não me interrompas mais até o fim, ouviste? São proibidos os apartes”. Retoma a pena, e continua.
Vejo nelas belezas inacessíveis aos sentidos embotados do vulgo. A descrevê-las eu gastaria uma resma de papel; por isso me contentarei com falar unicamente uma coisa: a melodia dos gestos de tuas mãos. (— Mas o... — interrompe Edel.) Bico!, fez Paulo levando o dedo à ponta do nariz e franzindo os sobrolhos. Melodia sim; parece à primeira vista encerrar essa expressão um nefelibatismo e no entanto é rigorosamente a verdadeira. Os movimentos dos teus dedos guardam sempre uma proporção impecável em relação aos outros movimentos da mão; nunca eu os percebi em desarmonia, discrepando desafinadamente do conjunto total; são movimentos macios, coleantes, expressivos, verdadeiros poemazinhos de elegância cor-de-rosa e cheirando à flor de zéfiro.

(— O que é flor de zéfiro, Paulo?)

— É uma flor que eu inventei, Edel, e que tem um perfume igual ao do movimento de teus dedinhos. (Satisfeita assim a pergunta da moça, Paulo principia de novo.) O minguinho é de todos o mais gentil; tem garrulice de ave e travessura de baby.

E depois, caçula como é, vadiozinho como é, sempre desocupado, sempre a vadiar enquanto os outros trabalham, ele tem tempo de requintar a graciosidade nativa. Quando tomas chá, o dandizinho se arrebita incontinênti numa mesura dengosa e ri-se, o patife, dos seus irmãos que trabalham segurando a asa da chávena.

(Edel de novo interrompe. — Olhe!, já quatro tiras!, não te lembras mais do que disse outro dia o redator, o doutor Malinhos? Disse que não publicava artigos de mais de quatro tiras.)

— É verdade — concordou Paulo —, mas agora? Se parar aí fica sem sentido o meu conto. Como há de ser?

Ora o quê!, pois para aí mesmo. Quantos leitores tu tens? Uns dez; desses dez, nove não te leem senão por desfastio bem pouco se importando com o sentido, e o décimo sou eu e eu acho muito sentido nisso. Por isso deixa o conto e sai daí que eu estou ansiosa para ver quem ganha a aposta hoje.

Paulo fecha o tinteiro, mete as tiras escritas na pasta, levanta-se, apaga o gás e sai com Edel bras dessus, bras dessous em caminho do perfumoso boudoir...

LOBATOYEWSKY

(O Povo, Caçapava, 16 de julho de 1903)



 – Monteiro Lobato

*O texto está presente na obra Literatura do Minarete, publicada pela Globo Livros.



Zen Iluminismo




Pássaros no assoalho
Do meu coração,
Chacoalham lágrimas
Ao som do espírito
Tento reconstruir o totem
De mim
Aos meus olhos,
Da lama se os esculpe
Sim, senhores.
Suas aulas de sentir
Me enfadam
Mudo o canal por mudar
Meus olhos olham em
Outra direção,
E vou.
ACM

sábado, 13 de abril de 2019


você: verso que se perdeu
porém sempre se achou
dever de ver que já deu
deixar a dor e o pudor
de se chamar de show

ijs


Acordo, passo os olhos pela internet e me vem à mente o desabafo de Flaubert: "Eu sempre quis viver numa torre de marfim, mas uma maré de merda está a bater nas paredes, afim de derrubá-la."

Tá difícil viver nessa Torre, dedicado a escandir versos, analisar imagens, mapear intertextualidades... Aliás, esta Torre é fruto do século XIX, época da consolidação da burguesia no poder, quando tudo passa a ser medido pelo valor de troca. E a literatura, sobretudo a poesia, não é muito bem cotada nessa bolsa monetária. Refugiar-se nessa Torre foi a reposta dos artistas a quem o mundo dera as costas.

Engraçado que esta frase foi dita justamente pelo autor que "inventou" o realismo, a escola literária que defende que o real suje a arte.

No século XX, mesmo antes, os escritores foram obrigados a deixar essa Torre, bombardeada pelos dardos malignos do real.

Aqui no Brasil João Cabral já nos revelara que poesia é fezes (Antiode) e Gullar introduzira nela a palavra diarreia (A bomba suja), não como uma palavra de dicionário, mas como uma palavra que revela as estruturas injustas por trás da famigerada Torre:

"No dicionário a palavra
é mera ideia abstrata.
Mais que palavra, diarreia
é arma que fere e mata."

Bom, como não dá, diante dos abominações de nosso desgoverno, retornar à Torre, o jeito é fazer da merda poesia.

Termino com mais uns versos do Gullar dos bons tempos:

"Digo adeus à ilusão
mas não ao mundo. Mas não à vida,
meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação, da tortura,
do horror,
retiramos algo e com ele construímos um artefato

um poema
uma bandeira"

Otto Leopoldo Winck

HISTÓRIA POLÍTICA BRASILEIRA DE 2016 A 2019




- Aceitam trocar um governo ruim com algumas qualidades, por um mil vezes pior e repleto de defeitos?
- SIM!!!
(A maior parte respondeu sem saber o significado de "repleto".)

ijs