domingo, 12 de julho de 2009

Arte na Rua II

Herança

ao morrer, o bardo
deixou órfãos versos
e um poema bastardo.

Raul Pough
-Síndrome de Hipotenusa

Arte na Rua

Um Tango com Deus

Tranquei os covardes na sacristia
e esplodi o templo
desci a rua de pedra rasgando em fúria
os ídolos e seus pedestais
as estátuas e seus ancestrais.

Tranquei os covardes na sacristia
e tombei as torres áridas
que nunca chegarão ao céu
e impedem o tráfego
da poesia & pássaros.

Tranquei os covardes na sacristia
guardei nas dobras da alma
os que amo e são meus,
na clareira incendiada de papoulas
dancei um tango com Deus.

Bárbara Lia
-A Última Chuva.

Ninhos Urbanos

sábado, 11 de julho de 2009

Existe um Lugar que não Existe (Landscapes and Touchscapes )

Monday, November 20, 2006
Existe um lugar que não existe (Landscapes and Touchscapes)


Em algum lugar existe um rio que se chama “Amola Facas” (lá só chove);

Existe um lugar para se cortar o cabelo, fazer a barba, lamentar a perda das canchas de bocha por culpa do prefeito novo, e elogiar o prefeito antigo que passou anti-pó por cima dos paralepípedos;

Um outro para tomar café e saber de gente que sai de Joinville para tentar a vida em Lages;

Um bar com duas televisões (que funcionam sempre em canais diferentes), uma mesa de sinuca e três de baralho;

Uma igreja com uma praça;

Uma praça com um monumento modernista em homenagem a Getúlio Vargas;

Uma cidadezinha com pessoas simpáticas e histórias de unhas dentro do pão daquela padaria que é mais completa que as outras;

Um lugar onde há um médico e uma enfermeira, que são na verdade um velho amigo e uma menina super bacana com um sotaque que é um charme (faço gosto);





Existe a memória de uma outra pessoa.


Um lugar entre os paralelepípedos por baixo do anti-pó;

Pezinhos de criança e sapatos vermelhos;

Amores e desamores de adolescência;

Um carvalho morto;

Um bosque de auracária que não existe mais;




Um verde estranho;

Um vermelho que é meio rosa, meio telha, meio salmão, meio desbotado por natureza;

E o azul feio adorável;




Esse lugar um dia teve cheiro, toque e cansaço bom de viagem a dois;

Um lugar de Café forte;

De chuva fina e chocolate;

João Castelo Branco

La Civilización Americana -1936

Samba

Desde a manhã
pensei tanto em você
compus uma canção
pra encher seu coração
de flores, mimos e luzes
Atente, amor,
que estão nas entrelinhas
as coisas comesinhas
intimidades do cotidiano
esforços pra concretizar planos
do tipo tolos, banais
a que se metem casais
ao construir suas vidas:
roupa lavada, comprada, casa, saídas
cinema, bens, literatura à fartura
música, temas de variação
pois quem vive junto casa
com o poder da criaçao

Maria José de Menezes
COLETÂNEA DE ESCRITOS

La Blusa Negra de Encaje

Você pede, eu Mando

Se você me pede ouro
Ouro eu te dou
Se você me pede prata
prata eu te dou
Se me pede alumínio,
Te envio sem escrutínio
Lá do Vale do Silício
Te dou tudo em silêncio
Se você me pede lata
Lata eu te dou
Tudo isso não é meu
Tudo isso não é seu
A pedra filosofal
Não é pedra de anel
Não é pedra de sabão
Nem mármore, nem granito
Peça, eu mando, não fique aflito
Se eu te dou o que não tenho
Tudo dou, você perdeu
Porque tudo que lhe dou
Jamais me pertenceu
Meu amor te dou todinho
Meu amor sempre foi meu
Meu amor te dou amor
Pois amor se é seu é meu
Por isso te dou o ouro, a prata, a lata, meu bem
O bem que distribuo passa a ser meu também

Maria josé de Menezes
COLETÂNEA DE ESCRITOS

Japan Town

Brincadeira de HaiKai I

Cinza de março

Curitiba gelada

cai um pé d'água

João Castelo Branco

http://casadojoao.blogspot.com

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Soneto de Infidelidade

Soneto de infidelidade
A você, por toda a minha lealdade,
estes beijos ardentes, mas fingidos
este desejo que teme ser saciado,
e minha triste e necessária falsidade.

A você todos os carinhos delicados,
que cessam num amargo suspiro.
E este olhar embevecido, derramado,
e recolhido, por ser de amor, e puro.

E a felicidade que quase tenho e quase deixo.
E o prazer que sinto e não me sacia, e lamento.
E a alegria que de fato não conheço, mas exijo.

E como prova de amor e fidelidade,
a minha exímia arte do fingimento
executada sob atordoante saudade.


Iriene Borges

Chinatown NYC

Poema XXI

Dê-me um beijo suave
Eis que o outono caminha a passos lentos
E eu, mergulhado em arrependimento
Por sentir o que, no momento,
É não adequado sentir

Acaricie meu rosto
E grave,
Com delicadeza
Toda a agressividade
Que se encontra
Na tristeza
Do mau perdedor

Livre é aquele que sabe perder.

Ricardo Pozzo

Anna Morosini

Sem Título

Poderia eu elevar-me a um lugar alto
Embebedar-me de orvalho e farto
Falar da solidão.

Pois há em mim um demônio
Que olha-me com olhos de sonho
E despe-se da razão.

Ricardo Pozzo


http://www.magnum.com

Lua Clara

Dizias que talvez
seja sangue o que queiram
Serão gotas espirradas
o que vejo agora?
Já que lanças a lâmina
em tuas veias mais letais,
qual prazer sentes
ao livrar-te tantas vezes
daquela menina
que te olha do espelho
e que nem mais
sorry?

Em minha garganta
cravas tuas garras
Mas em teu jogo de espelhos
é outra que cala o grito surdo
com risadas.

Lança a Lua imensa
a clara estrada
e nem é em teus lençóis
que gemes;

Resta a madrugada...

Ricardo Pozzo

La Paterne des Peupliers 1934

A Flor da Pele

Percebo
seu desalento
que aos poucos
sorve o meu ser

E olho
com olhos de lince
o gato
que existe em você

O peixe
deixo pra ceia
e cerceio
a cerca que anseias

Que tens de ser
do meu ser

Lúcia Gönczy

Deusa da Noite

Poesia existencial
Deusa da Noite

Moro nos escombros da cidade morta
Sou a Deusa in black das lamas e bueiros
Sou a jamais nascida, parida da noite
Sobrevivo com sete vidas a nunca vencida
Há punhais que rasgam minhas vestes e o ventre
Me defloram e arrancam minhas entranhas ardentes
Sou a Dama oferecida das ruelas e esquinas
Desabo temporal, explodo vulcão e sou tesão
Sou dilúvio e tornado serpente do verbo encarnado
Não tenho família nem berço sem rosto me reconheço
Sou a vadia que nas noites se encontra e se desenha
Se entrega exaltada de suspiros aos andantes
E, entre pedras, cascalhos, esquinas e lama
Se estraçalha e vaza, deságua, devora e tece vida.
Sou mulher da noite, sou a jamais querida
Meu corpo é o caminho que dá a guarida.

Rose Mary Sadalla

Glúteos Espanha

Não Goste do Amor

Goste de alguém que te ame,
Alguém que te espere,
Alguém que te compreenda mesmo
nos momentos de loucura;
De alguém que te ajude,
Que te guie,
Que seja seu apoio,
Tua esperança, teu tudo.

Goste de alguém que não te traia,
Que seja fiel, que sonhe contigo,
Que só pense em você,
Que só pense no teu rosto,
Na tua delicadeza, no teu espírito.
E não no teu corpo nem em teus bens.

Goste de alguém q te espere até o final,
De alguém q sofra junto contigo,
Que ria junto a ti,
Que enxugue suas lágrimas,
Que te abrigues quando necessário,
Que fique feliz com tuas alegrias
E que te dê forças depois de um fracasso.

Goste de alguém que volte pra conversar
com você depois das brigas,
Depois do desencontro.
De alguém que caminhe junto a ti,
Que seja companheiro,
que respeite tuas fantasias, tuas ilusões.

Goste de alguém que te ame.
Não goste apenas do amor.
Goste de alguém que sinta
o mesmo sentimento por você,
Que goste realmente de você...!

Somos donos de nossos atos,
mas não somos donos de nossos sentimentos;
Somos culpados pelo que fazemos,
mas não somos culpados pelo que sentimos;
Podemos prometer atos,
não podemos prometer sentimentos...
Atos são pássaros engaiolados,
Sentimentos são pássaros em vôo".

Luis Fernando Veríssimo

Da Astúcia, Do Pecado e do Remorso

É preciso astúcia para se conseguir viver neste mundo. Está bem. Só os astutos sabem praticar o mal para triunfar. Quem sofra com este estado de coisas e decida fazer uma patifaria, para se vingar, para imitar os outros, deve reflectir que, depois, terá de viver sempre com astúcia, saber triunfar, porque senão a astuta patifaria cometida uma vez servirá apenas para o torturar, contrastando com todo o seu persistente estado de não-astuto, não-patife, inapto.

Pecado é agir contra o que nos é próprio. É uma ruptura de equilíbrio. Daqui resulta que, quando alguém pecou (isto é, tem remorsos, caso contrário não foi pecado), toda a sua vida parece posta em questão.

Conselhos aos pecadores: nunca ficar a meio caminho, mas empenhar-se a fundo e procurar transformar a nova orientação num hábito, transfigurar neste sentido especialmente o próprio passado.

Pode parecer o contrário, mas a coisa que causa mais horror a qualquer pessoa é acordar, uma manhã, diferente do que era na noite anterior. Quer dizer, perder o sentido da sua própria arquitetura interna.

Qual a diferença entre um crime realizado e outro imaginado, saboreado, amado, mas não cometido? A seguinte: o primeiro já não poderá não ser, o segundo deixa a ilusão de não ter perturbado a nossa natureza. Em consciência, deveriam provocar em nós o mesmo remorso; mas não sucede assim porque, no segundo caso, nada nos impede de voltarmos a ser o que éramos anteriormente. (...)

Em suma: a boa consciência não é senão a expressão do desejo que todos temos: ser nós próprios - estar à vontade. Os pequenos prevaricadores ocasionais sofrem imensamente mais do que os maiores criminosos, porque os segundos são naturais. Quando o remorso de qualquer má acção nos persegue, não é a dor infligida aos outros que nos desagrada, mas o mal estar que nos agita.

A arte de viver - dado que para viver é preciso fazer sofrer os outros (...) - consiste em habituarmo-nos a fazer todas as patifarias sem abalar o nosso equilíbrio interior. Ser capaz de todas as patifarias é a melhor bagagem que um homem pode possuir.

(Cesare Pavese- O OFÍCIO DE VIVER)

*

Linha Natural

O homem procura a vida
e a vida existe.
Mas o homem é fragil
e da vida desiste...

Da natureza ele desconhece
aquilo que deveria conhecer,
pois em sua vida acontece
quase tudo que não deveria acontecer...

E o homem procura a liberdade.
Coitado, não acha!
Porque ela está dentro dele,
no fundo de sua autenticidade

E o homem procura a "verdade"...

Para ser livre,
é preciso, antes de tudo, descobrir-se.
Para ser livre,
é preciso observar, analisar e aplaudir...
É preciso chorar.
Para ser livre,
é preciso "ser".

Flávio Luiz
TRINTA E QUATRO

Hoje estou naqueles dias
em que a palavra não tem tradução,
dias em que os versos são pendurados
no fio da esperança
a esperar a poetisa fingidora.

Estou naqueles dias
em que tudo é falso
salvo a verdade dos que me criticam
dos que me guardam na memória
e me engolem no dia-a-dia.

Estou naqueles dias
em que a mãe sangra
como sangrou o Filho na cruz,
pelo Pai a mulher me deu a luz
e eu morro pelo bem
dos meus pecados.

Hoje estou naqueles dias
em que a poetisa confortada em sua dor
chora o poema derramado
chora a palavra traduzida - amor.

Sérgio Edvaldo Alves

Boiarina Morozova



Galeria Tretiakovska , Moscou

Hoje Estou Naqueles Dias...

Dias em que o corpo

me castiga

por eu ter exercido

o poder divino

de me negar a dar à luz.



Estou naqueles dias

de terra amaldiçoada

que não fecundou

nenhuma semente

dentre as milhares

que foram plantadas.



Estou naqueles dias em que choro...

Como quando Ele se arrependeu

de nos ter dado ventres férteis

e inconseqüentes

e chorou,

chorou tanto que seu pranto

afogou todas as pragas que nasceram

nos dias que antecederam

aqueles dias de dilúvio



Hoje estou naqueles dias

em que Deus me usa

para abortar a humanidade.

Me deixe chorar, sofrer e sangrar só.


(Marilda Confortin)

A República

Nós Ocultos

Além de ti e de mim ocorre o nós
e os nós pelos quais nós buscamos nos unir...
*
Nós que tentamos mostrar-nos um ser maior
para, a todo custo, esconder que estamos sós.
*
Altair de Oliveira

terça-feira, 7 de julho de 2009

Gripe

a ação virótica dos versos deram-lhe a febre de não fechar as pálpebras enquanto cada um dos cílios não escrevessem aquilo que a dor dos neurônios fabrica.
Bora vamos deixar os suínos,frangos e bovinos dormirem e atschim,atchimm!saúde!
(Para Deisi Perin )
Tullio Stefano
caminhantes nos recortes dos milênios,presas contruídas de civilização,todavia,solitariamente somos humanos,passantes do movediço sono para o despertar tão raso quanto a poça dos calendários,tão fundo quanto uma brisa.

Túllio Stefano

Tubo

Tubo

todos os dias são o estranho vão,bilhetes escritos com os pés,selados no olhar dissimulado,transeuntes tal qual formigas acumuladas,apenas descemos e subimos degraus rasos do cotidiano,movediços como o sono num pesadelo;ainda assim existe a bússula de qualquer passado esquecido que se lembra que o futuro começa num rosto escondido de multidão.

Tullio Stefano


Tubo ( Estação de ônibus em Curitiba )

Frio

sábado, 4 de julho de 2009

A desintegração é a ordem

Posto-me nua à janela

sem causar alvoroço


Inexistência

emparedada no cimento

sem a propulsão da dor


A ficção das asas

abandonada na cadeira

entre outros destroços


E o vazio estanque

prestes a vazar

em algum clamor


Penso, esquecida

incrustrada na moldura

de uma vida nula


Sem esboçar vigor

ou traço de candura

que sustente um verso


Iriene Borges

Silence



Magnum photos
ATRAVÉS DO DESEJO
MEU OLHAR SE FEZ
BEIJO


MINHA FACE OCULTA
OCULTA MINHA FACE
SELVAGEM



LUA INVERSA
PAREDE CARTOLINA DE
AROMA CHÁ CIDREIRA



ESTOU COMO UMA ESCULTURA
TORNADA PURA
POR ESCASSEZ DE DESEJO


Um dia tudo será silêncio
Em teus olhos não verei tormento
E em teu coraçãoi virulento
Haverá apenas a paz

Um dia tudo será silêncio
E me recostarei por um eterno momento
Onde todo sofrimento
Em tumba secreta jaz


Eu - Com a paciência esgotada
Cansado dos contos de fada
Que a tua embriaguez me contou.

Ricardo Pozzo