sábado, 16 de agosto de 2014
As jararacas escondiam-se no terreno da vó e tentavam me
morder. Não havia segurança em lugar algum. Regina Almeida foi a primeira a
alertar-me. No começo sentia medo. Depois, acostumei-me a desviá-las. Uma delas
escondeu-se na sapatilha da irmã. Objetos inofensivos embebidos de veneno. No
fim, um primo de segundo grau deu a vida por mim e deixou-se morrer. A jararaca
virou pedra e a família para sempre comemorou o feito. Ninguém sentia tristeza.
Fiquei confusa. O sonho terminou com uma voz dando-me aula sobre design de moda
esportivo.
Priscila Merizzio
● dentro dessas areias capitão ●
● dentro de cada uma dessas dunas ●
● existem mais escorpiões q ruinas e pedras ●
● isso não importa não interessa soldado ●
● nem as ruinas nem as pedras ou isso ●
● q cicia cheio de odio entre patas ●
● capitão meu capitão é melhor não brincar ●
● porq quem brinca nesse deserto morre ●
● de solidão pelas ruinas ou escorpiões ●
● tanto faz como tanto fez agora é tarde ●
● ha sempre o sangue o sangue todo ●
● a derramar por tão pouco ou nada ●
● capitão é melhor ir pro norte ●
● onde ha o mar onde ha os peixes ●
● onde podemos fugir dessa loucura ●
● la não ha mais ninguem soldado ●
● so resta o mar fedendo a peixe morto ●
● a soldados destroçados na praia ●
● sei capitão porq o tempo tudo apodrece ●
● como essas frutas ja podres na arvore ●
● esse é um mundo de gente velha ●
● gerações como essa soldado morrem ●
● como pulgas morrem como ratos ●
● e ninguem da conta ou se importa ●
● ondas de lulas siris e aguas vivas ●
● em vez dessas ondas de areia capitão ●
● ondas de cavalas e atuns cheios de raiva ●
● isso é são so palavras inuteis soldado ●
● palavras q nada movem q nada dizem ●
● sangue esporrando sem gerar mais nada ●
● capitão meu capitão agora é tarde ●
● esse mundo velho esse mundo novo ●
● tudo e todos não valem nem um punhado ●
● sei disso soldado porq ta escrito na testa ●
● desse tempo quanto vale a coisa e nos ●
● e vc sabe muito bem q nem uma bala ●
● não foi pra isso q cruzei a vida capitão ●
● pra esse fogo sem razão isso q não queima ●
● isso q so faz crescer a desgraça do existir ●
● soldado soldado isso é so conversa ●
● nessa solidão q nos abate restam vozes ●
● q não dizem nada q segredam vazios ●
● capitão olhe pra lua veja esse sangue ●
● essa lua ensanguentada esse sol negro ●
● isso não termina bem e começou mal ●
● nada é sagrado e nunca foi soldado ●
● nem o fogo nem a lua nem as estrelas ●
● nem essa areia nem nossa morte ●
●?por q não devoramos um ao outro ●
● eu seu coração e vc meu capitão ●
● dos meus dedos ate o medo ●
● porq não ha mais coração soldado ●
● so ha o medo q dorme nessas areias ●
● o q roda e gira sempre pra nada ●
●?então pra q essa conversa capitão ●
● se nem isso faz mais dormir o tempo ●
● e so nos resta o medo e esse vazio ●
● pra nada é sempre todas as coisas ●
● é nesse nada q criamos tudo soldado ●
● no medo no silencio e no vazio ●
● então não temos nunca nada a dizer ●
● nada q valha a pena ser dito capitão ●
● o melhor é o rabo entre as pernas ●
● nessas horas soldado se calar ●
● é o mesmo q falar ou se esconder ●
● ha horas q o silencio diz mais ●
*
Alberto Lins Caldas
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
"[...]
As imagens mais fascinantes
são nossos retratos desfocados
tirados na sala-de-estar de um amigo.
O olhar congelado
(insistentemente)
sobre minha testa
enquanto observo seus lábios finos
à meio caminho de uma palavra.
Mais tarde,
desabamos na banheira,
nossos corpos entrelaçados:
peso sobre peso.
Imersos em água quente
só podíamos levantar
em câmera lenta."
Os poemas da Enaiê Mairê Azambuja
no escamandro
essa África nos meus olhos
e navegar é minha sina
em toda febre todo fogo
que incendeia o continente
nos teus olhos de menina
eu sou um poeta e nunca fui a china
mas vermelho é o meu sangue
desde que nasci
Artur Gomes
do livro: Suor & Cio - 1985
MVPB Edições - Ipanema - Rio de Janeiro-RJ
https://www.facebook.com/events/115917191921572/?fref=ts
Marilia Kubota
·
quando os poetas admitidos
erguem a voz
a noz de minha garganta grifa
- cadê teu pêndulo ?
as roufenhas baterias
não competem
com afinação instruída do queixo
ecos perfeitos ?
senta à direita depois que babar
ensina a primeira destoação
(mosaiko, 1988).
Esse poema é de meu primeiro livro. tenho
muitos primeiros livros. mas não sei dizer qual é o primeiro, reneguei-o, havia
poemas ridículos. mas foi feito com o carinho pelo batista de pilar e Fernando
karl, quando estavam na feira do poeta de Curitiba.Fernando coordenador e
batista, tipógrafo. acho que imprimiram 40 exemplares ou coisa assim.
Um poema é sempre um uivo na noite calada
Quebrando a gélida cortina do silêncio negro
Entrando nas veias como um rio do Alasca –
Em pleno verão quando ele degela - triste -
Diluindo a crosta expondo corpos estocados
Um poema é sempre sangue tardio
Aquele que é descoberto pós-bala alojada
Pós-vísceras rasgadas, corpo tombado
Que o poema salva com um ato cirúrgico –
Um poema é a maré do espanto revelado
Aquele soluço incontido que estoura dor
Que explode a rasgar a cápsula da pele
E a barragem do coração – finalmente - rompe
Bárbara Lia
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Que nível de pureza e sabedoria devemos atingir para
aniquilar o embalsamento da alma?
Mantê-la divina e imortal sem carregar o peso tirânico da
efemeridade, livre dos erros da ignorância, dos receios e das paixões do corpo.
O quê devemos escolher, até onde podemos ir para encontrar
um equilíbrio entre o visível e o invisível, para que não haja um dominador e
um escravo?
Parece-me certo privilegiar o simples, o indissolúvel, o
imutável; e refrear os prazeres de sensível que se dissolve, se desfaz, do que
se corrompe em cadáver.
Devo afastar-me de todo e qualquer vício, de tudo que
embriaga a alma fazendo crer que nada existe além de físico, do que se pode ver
ou tocar.
Uma alma assim mescla-se ao corpóreo e se afasta do obscuro
e divino, e o corpo será um invólucro pesado que a carregará ao mundo
terrestre, perdendo a liberdade e a pureza que lhe é natural e íntima, seguindo
caminhos ilusórios que são percebidos pelos olhos, ouvidos e outros sentidos.
Da voluptuosidade dos prazeres e tristezas, dos desejos e
medos, vem as enfermidades e misérias.
E cada satisfação e tristeza fixa a alma ao corpo e a torna
material, fazendo-a crer na ignorância e na escravidão do vício.
Devo manter as paixões em perfeito equilíbrio e ter a razão
como guia. Manter o divino e o imutável para me libertar dos males que
atormentam a natureza humana.
Assim não serei dissolvida por crenças vulgares, nem
corrompida pela mediocridade de pensamentos destituídos de valores, de solidez,
que se preocupam em impor a própria opinião ao invés de aprender.
É necessário convencer a mim, e não aos outros!
Deisi Perin
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Algo a respirar nas casas naufragadas
Amar...
É respirar em casas naufragadas
É virar, subitamente, raro anfíbio
É ser peixe estrela do mar arraia
É uma canção de afundar navios
É romance brutal de Almodóvar
Filmado em cenário de T. Mallick
É ser uma libélula acima do lodo
Âmbar antigo cravado nos ossos
E o amor é este visitante indócil
A revirar alma, móveis interiores
Corte rascante que – ao cicatrizar –
Deixa eternos traços de Pollock
Alegoria cicatrizada, pura loucura
A loucura, a loucura, a loucura...
Que persigo como um cão ferido
E já sei a curvatura do calcanhar
O amor é todo não/dor que atiras
Lava meu rosto em lágrimas de cal
Grão de angústia, ária de flechas
É sermos um único ser, qual o mito
Atados pela cervical – eu quero ir
E tu queres ir e, atados, eu não te
Levo comigo e tu me paralisas –
Há que vir um deus antigo, saído
De – O Banquete – de Platão
Cortar o que ata minha coluna
– que me sustenta ferreamente –
À coluna tua a desorientar passos
Depois de livres, continuar atados
Não mais de costas um ao outro
E ao amor... Mas, frente a frente,
Boca a boca, luz a luz, a caminhar
Entre destroços de um navio soul
Ouvindo canções em ritmo lerdo
Corpos colados em ritmo violento
Para recuperar o tempo, enganar
O tempo, apagar o tempo, amar
Enquanto é tempo, amar enquanto
Há tempo
Bárbara Lia - Respirar/2014 Ajuda
Nessa viagem a São Paulo, concluí que, seja no centro ou na
periferia das cidades, a arte só sobrevive através de doações. Não exatamente
doação em dinheiro, mas de trabalho, tempo, disposição, etc. Sempre doei meu
trabalho e tempo para os eventos que organizei acontecerem, mas vejo que as
boas iniciativas culturais não dependem quase nada do poder público. Foi muito
bacana ter visto isso na metrópole.
Marilia Kubota
Alguns dinossauros, preferem ter refestelado no maldizer o
santo nome dos desencarnados que abitam o caráter e as calças da alma, do que
de vera só o binário foice o virtual estipêndio , ainda mais, se dele não tem
noticia desde que os números desertaram do contracheque no terceiro dia útil.
Na fila do capital o banco serve-se primeiro .De varão resta-lhe a varinha que
a lustros empoeirados não fez o milagre de o levantar os ânimos nem os cobres
.Perdidos deveras na tortuosa infovia .
Wilson Roberto Nogueira
...olho a minha mesa e recolho os papéis que parecem
"possíveis" serem inseridos em meu dia-a-dia. Uma fatura a pagar, um
cartão de origami, uma notícia de jornal, um folder, um livro a ser dado de
presente. penso em coisas "impossíveis" e estremeço. sim, meu mundo é
pequeno. apesar da poesia, ando com os pés no chão.
Marilia Kubota
Festim
Jogou copos contra
Paredes
Mudou de letra, com
caligrafia e sessões
terapêuticas, dando-
se firmeza às mãos.
Rabiscou espelho
não sendo ele
sua própria
letra.
Lençóis amassados e
marcas de unhas
nas costas.
Cheiro de cigarros,
bebida, suor
e incenso.
- os poucos amigos,
dispersos,
juravam que vivia
em festa. -
"Outro dia de folia", Eduardo Lacerda, Editora
Patuá, 2012.
O NAMORADO
Me atentaste pelo ouvido
...sussurros de tentação!
E a voz trajava o libido
Furtava a cor das palavras
Pra me deixar sem ação
Um ser só...
...de assanhação!
Aí me achei perdido
Remando na contra – mão
Levitei ao me lançar
No mar que teus olhos são
E teu perfume exemplar
Afagava ao me afogar...
Pousou-me um medo bonito
Do modo que me olhavas
Dei conta que teu sorriso
- já tão meu ar e meu pão! –
de arpão então me fisgava
E em festa te fui servido!
Altair de Oliveira - In- O Lento Alento
Alberto Lins Caldas
● no centro desse deserto meu coronel ●
● não ha deserto nem ha centro ●
● não ha sequer o deserto ●
● isso meu coronel não quer dizer ●
● q não exista o centro desse deserto ●
● mas q nele não ha deserto ou centro ●
● nele meu coronel não ha o deserto ●
● antes ou depois nem o centro ●
● nem do deserto nem nada mais ●
● nem nos mesmos meu coronel ●
● no centro desse deserto existimos ●
● no centro nem nos meu coronel ●
● basta abrir os olhos e se calar ●
● calar tão profundamente q o centro ●
● aparecera como murro na cara ●
● nada disso é conversa meu coronel ●
● nada disso é delirio meu coronel ●
● nada disso é besteira meu coronel ●
● pra isso tamos aqui depois de tudo ●
● pra isso deixamos nossas vidas ●
● crenças coisas e todos os desejos ●
● agora q tamos aqui meu coronel ●
● so nos resta abrir os olhos e abrir ●
● ate não restar nem esse aberto ●
Ao invés de arrancar o espinho da flor, porque não arrancar
a planta com a raiz. Não basta tirar a capacidade de ferir a pele do cacto o
que se quer é tirar a seiva da indesejada presença .O espinho não cria a sua
história no signo pungente de uma cicatriz ,pois o cacto em sua couraça não admite
o último respiro de seu precioso liquido.
Em sua angústia constrói muros e explode pontes ,fabrica
sementes ocas de humanidade e gera com sua herança de ódio as serpes que acusa
no espelho do outro que não quer enxergar como seu próprio rosto invertido.
Em seu próprio seio ,pleno de lactante veneno cria sobreviventes
sugados de dignidade e humanidade.
Um potente chute no ventre de uma mãe dá a luz ao amor à
desesperança e a noite sem estrelas de uma promessa de paraíso que se encontra nos becos escuros das ruínas e na vida
desertora de hospitais e templos renascidos em lápides anônimas.
Crianças pintam recados em mísseis e em fortalezas de
concreto e ódio os recados das crianças caem com o regozijo dos pais.
A tortura é o idioma das cadeias enquanto o sonho de
liberdade pavimenta uma nova prisão.
Túneis da resistência sob frágeis fortalezas de concreto .O aço está
na vontade férrea que a certeza da morte
presenteia” quem não tem mais nada a perder só seus grilhões” saúdam os
opressores com a fibra de seus sorrisos enquanto morrem .
O que se Busca no Estado terrorista não é destruir a
capacidade militar do inimigo mas seu valor, ou seja a vontade pela qual o
outro luta. A família , o povo , a pátria. Por isso que se assassina a família dos
militantes, por isso que se prendem sem julgamento , por isso que destroem
hospitais, templos, por isso que inviabilizam o estado construindo
assentamentos que são na verdade anexações de território.
Um povo sem rosto, sem direitos, diferentes de mim O Inimigo
não pode ser humanizado seria traição a grande pátria protegida por Deus.
O ódio será sua herança .
Wilson Roberto Nogueira.
domingo, 10 de agosto de 2014
Rascunho
Poeta escrevia em papeis imaginários seus manuscritos, queria
divulgar seu trabalho lançando sua poesia ao vento, mas não o fazia, pois tinha
receio de ser multado por sujar a cidade. JDamasio
Discussão de pai e filho
--O que está pensando? está totalmente enganado, pai.
--Você que está , não sabe das coisas, tanto fiz e você
desencaminhou. você foi um traidor.
--Até parece, queria o que? Que fosse sofredor igual ao
senhor.
--Pode parar, moleque abusado! Quer contar que tem razão.
--Veja só, pai, só nessa década meu time foi campeão cinco
vezes, o seu duas.
--Verdade, mas o meu time, tem cinquenta campeonatos o seu
oito.
--Então, depois continuamos, agora vamos fazer o churrasco.
--Vamos sim, estou com fome, comprei alcatra.
--Eu prefiro picanha!
JDamasio
Pensando nesse nome Christie ..entrega que nasci na primeira metade dos anos
setenta ..no outro seculo ... por isso me entendo wicca hippie out off low
profile slow boa caipira . bom domingo!!!FELIZ DIA MEU PAI!sr ENIO GRANDE CARA
corajoso,vencedor, enfrentou um bando de hipocritas parentalha sócios
interesseiros hoje caga pra isso, kkkk amo...coragem também se herda rss ..HOJE TE ENTENDO
. PAIS e filhos devem se distanciar num determinado momento de preferencia na
juventude para obviamente pirarem ambos a vontade sem constrangimento de terem
saído d algum lugar ..melhor voltar depois de tanta estrada ..e os anos setenta
continuam lá em algo encalacrado nos hábitos, no que achamos belo e até na
eterna ingenuidade de quem acha que sabia algo pela primeira vez...
Dani Christie Loyola Oliveira
barbecue na câmara bafo de bílis de sua bocarra
não foi por isso que desenraizei salgueiros-chorão atrás de
ressurreição em valas e esgotos
quis o magma do centro da Terra
atiçando sonhos à lua cheia et urbanoides alienígenas
tantos nomes enterrados em maçãs debaixo do butiazeiro
os amores correm selvagens nos desertos
ardendo as coxas nas calçadas do Velho Oeste
guiei formigas com açúcar bento
senti-me Jesus ––confrontando gaudérios e suas odes às
capelinhas
há caudilhos em minha árvore materna
incinerando meus desejos nos fogões à lenha
dentro de ônibus interestaduais: brunette-Tieta indo sempre
com sede ao pote.
Priscila Merizzio
O EU ESCONDIDO
Carrego comigo
as marcas da vida
em cada gesto
despretensioso.
Cada vez que aceno
a um amigo,
que vejo ao longe,
digo mais de mim mesmo,
que num depoimento
tomado na madrugada,
sem a presença de advogado,
em delegacia policial.
Se querem saber quem sou,
olhem-me, na cozinha,
cortando temperos;
tomando um café,
tinto, de tão forte;
escolhendo uma gravata
desencontrada,
para usar com uma camisa
de manga curta,
meio amarrotada;
ou andando pela ruas
da minha cidade,
admirando prédios
abandonados,
perseguindo pessoas
com meu olhar fotográfico,
imaginando-lhes os sonhos,
invadindo suas inquietações.
E não prestem atenção
ao sentido aparente
do que digo ou escrevo,
pois escondo-me dentro
das palavras
feito caramujo africano
em sua concha dura,
quase inquebrável.
- Em 10/08/2014, por José Luiz de Sousa Santos, o JL
Semeador de Poesias, também o poeta austríaco Hans Gustav Gaus; quem sabe, tão
somente o Zico, como me chamava meu pai –
ESCALA
Às vezes, quando estou de um jeito
que nem mais a tristeza incomoda
penso que minh'alma é uma escada
Então vou subindo, palavra por
palavra... Separando as sílabas
conforme a capacidade de
armazenagem dos meus bolsos.
Até que a poesia acena para mim
de alguma janela
E depois some como o voo que fica
na memória
tamanha a beleza do pássaro.
Lau Siqueira, in: Texto Sentido
Como estar em si mesmo
E mesmo assim estar em outrem?
Amar a verdade dos mais fracos
Mesmo que seja de puro erro
Os olhos dos que estão aquém.
Pois há amor, há amparo,
Há algo de divino na arte de ser amigo
E, simultaneamente, ser paterno.
Desde o mais infame arranhão
Até o mais ameno ato de carinho:
Estar em si e mesmo assim estar em outrem.
Não temo ao mais escuro e grave:
A nota alta que soa em meus ouvidos;
Pois estão à ameigar os meus pés
As tuas mãos de protesto, de luta, de suor.
Como amar e cuidar com tanta disposição?
Tens o pêndulo do perdão esvaindo amor
Sobre meus cabelos. E choras, como menino..
Pois ainda que pai, é humano.
Pai é aquele, é aquela, são aqueles..
Buscam o amor indefinido além do obvio
À qualquer custa..
Eles estão em si mesmos
E, constantemente, em mim.
M.f.
Correria
Passo por mim apressada
Esqueço de me cumprimentar
Tem horas, nem me conheço
Que olhos são esses a me vigiar?
O tempo esculpe meu rosto
Desculpe este sulco na testa
Às vezes amargo um desgosto
A vida nem sempre é uma festa
Mas, quando te vejo parece
Acender um farol no meu peito
Desligo, esqueço da pressa
Acho o mundo perfeito
Quero me ver com teus olhos
Crer naquilo que crês
Aprender teus atalhos
Viver um dia de cada vez.
(marilda confortin)
É preferível ter as implicações negativas de ser sonhador
(tipo quebrar a cara com pessoas de índole perversa e miudeira), do que as
implicações negativas por ser malicioso. O malicioso atrai o complexo de Sísifo
para si mesmo sem ajuda, é um tolo que devora o próprio figado e cumprimenta os
sonhadores com bafo de bílis. Faço parte, sim, do clube dos sonhadores, dos
Glauber Rocha da vida e de todos os netunianos que põe a cara para bater em
nome de um objetivo maior. Assumo os tomates podres atirados da várzea e faço
disso um suco de Almodóvar, em "Mulheres à Beira de um Ataque de
Nervos" (1988). Dito isso, carapuças vestidas, despeço-me sem culpas, sem
remorsos, para continuar minha jornada com meu dæmon aristotélico.
[Das epifanias telefônicas. C/ Samantha, centaura-sábia ♥]
Tereza.
Tereza, teu prato em cima da mesa:
Ainda cheio de arroz, feijão e tristeza.
Não comestes nada desde manhã;
Pra que isso, Tereza? Pra que tanta incerteza?
Teu mundo virou de cabeça,
E não teves pra onde fugir.
Teu vestido comprido,
Tuas jóias de recordação,
Teu cheiro no guarda roupa,
Tua áspera solidão,
Teu jeito de sentar no sofá;
- O tédio da classe média.
Não irá almoçar, a pobre Tereza,
Nem tocou no arroz amarelo com feijão preto.
Tem fome de vida, de sexo, de música,
De pés no chão, de chuva, de sol, mas não de comida.
E os disparos do domingo com calibre 38
Na cabeça de Tereza que não come.
Tem nojo de si própria, a pobre Tereza.
Ela tem nojo da voz do Faustão, do tédio humano,
Das moscas civis, do chão sujo,
Das bitucas de cigarro... pobre Tereza de classe média.
Comerás a janta, Tereza?
M.f
Dia dos Pais
Tocado pelo Dia dos Pais, foi levado a procurar o seu,
circulou por horas até encontrar um mendigo em uma esquina. Parou o carro,
desceu e o abraçou! JDamasio
como pão ázimo
. . . . .conto as horas no ábaco
sou como baixo-relevo
a minha bússola não me orienta
cabalas não me interpretam
um olho ciclope me olha
o meu debrum soltou a trama
[um drible no destino]
lua de marfim, noites de ébano
o fauno toca sua flauta
garimpo em velhas minas
. . .rudimentos de novas gemas
Nydia Bonetti
Dia dos pais. Dia do pater familias, pilar da sociedade,
arrimo da família, pedra angular do divino patriarcado. Para fundarmos o
matriarcado de Pindorama, como queria Oswald, é necessário matar este pai. Toda
civilização nasce de um parricídio. A nova civilização matriarcal, fundada na
fraternidade e não mais na competição, deverá nascer do maior e mais belo de
todos os parricídios: a morte do grande e ancestral falo, terrível totem
criador de todos os tabus. Agora quem tem a fala não é mais o falo. Mas a xana.
A boca. O corpo todo. O mundo todo.
Otto Leopoldo Winck
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