domingo, 3 de maio de 2015


Os filhos dos dias


3 de maio

A desonra

No final de 1979, as tropas soviéticas invadiram o Afeganistão.
De acordo com a explicação oficial, a invasão queria defender o governo laico que estava tentando modernizar o pais.
Fui um dos membros do tribunal internacional que tratou do assunto em Estocolmo, no ano de 1981.
Jamais esquecerei o momento culminante daquelas sessões.
Estava dando seu depoimento um alto chefe religioso, representante dos fundamentalistas islâmicos, que naquela época eram chamados de freedom fighters, guerreiros da liberdade, e que agora são terroristas.
Aquele ancião trovejou:

- Os comunistas desonraram nossas filhas! Ensinaram elas a ler e escrever!

 - Eduardo Galeano
Paulo Lins


eu aprendi que a gente deve amar todo mundo! Foi minha mãe e meu pai quem me ensinaram ! Eu amo vocês! Seja de qualquer religião, seja de qualquer cor, seja de qualquer cultura, seja de qualquer classe social, qualquer sexo, seja quem for. Eu te amo ser-humano. Eu vou lutar por ti, seja na arte ou em qualquer luz do sol, ou na madrugada da lua, da chuva, da dor, do prazer. Eu vou lutar por ti. Prometo ser cúmplice no seu bem querer, no seu adeus às bobagens, em sua boba auto-estima, ás besteiras do ego. Eu sou você.. Te amo e amo-te. Beijos. Eu vou lutar por ti na prosa e na reza, e na poesia toda de nosso dia! Fui!
Deitada, perguntava-se quem era o velho que estava no pé da sua cama, ele, lendo seu pensamento, com sorriso falou:' Sou o seu primeiro namorado e único amor. ". Andou lentamente até a cozinha, com dores levantou o braço e pegou em cima do armário o comprimido , com dificuldade tirou-o do envelope. Pegou meio copo de agua, derrubou parte dela pelo corredor. Para com as mãos tremulas colocar o medicamento na boca da sua velha esposa.
JDamasio

Rascunhando

Um toque de escritor


O escritor para viver da sua arte tem que ser artista duas vezes. Conheço um poeta que escreve suas poesias em pacotes de embrulho de pão e as vende para ganhar o seu.. Tem outro colega escritor que se pinta de palhaço e aprendeu malabares para vender seu livreto nos sinaleiros, verdade que sua performance sem palco é inferior a sua literatura. Um terceiro, foi desenganado pelos críticos, mas não morreu. é assistido pelos leitores. Foi salvo por sua poesia que o mantêm em estado contemplativo.Eu creio ser de fato um contador de historias, escrevo a duras penas para não esquece-las, se talvez sou criativo, com certeza tenho péssima memoria. Seja qual for seu propósito, entenda que escrever é soltar o grito silenciado da sociedade, é traduzir os ruídos da natureza. escrever é libertar-se das correntes das sombras do passado, é reviver amores é se redimir dos pecados. Ser escritor, é ter ao lado a companhia dos amigos imaginários, preservados da infância. Ainda que se seja um escritor marginal e carregue sua literatura nas costas, andando arqueado pelo peso do ideal, a literatura conforta e nos recompõem quando temos nossos livros folheados. Fica o toque, o escritor é agraciado pelo dom de contar historias, pode perder a habilidade para contar dinheiro, mas afinal de contas, não se pode contar com tudo na vida! JDamasio

Rascunho

o sol
está forte
a poesia
está prosa
propostas
só aceito
as indecorosas

[olw]

nem tudo
são rosas
às vezes
são cravos
perfurando suas mãos

[olw]

estamos aí
na luta
em meio ao gás lacrimogêneo
spray de pimenta
balas de borracha
em meio à chuva
em meio ao caos
aos edifícios cinzentos
nas ruas
nas avenidas
nas praças do mundo
estamos aí
na luta
e nossos punhos erguidos
nossos olhos vermelhos
não são de ódio
mas de indignação
não são de ira
mas de amor
estamos aí
na luta
e esta luta é paixão
que força alguma vai acabar

Otto Leopoldo Winck

O assunto a que me refiro
Não se apaga com borracha
Eles usam como tiro
Defendemos só com faixa

Alvaro Posselt

AS PALAVRAS E AS COISAS


Segundo a etimologia,
entusiasmo (do grego enthousiasmós)
significa, literalmente, trazer um deus dentro de si.
Eu sinto um deus dentro de mim quando:
o sol se põe escandalosamente vermelho no horizonte,
a lua nasce escandalosamente redonda e branca,
eu te encontro na rua – escandalosamente linda...
Hoje o sol não incendiou os céus, a lua não vai surgir
e, por mais que eu tenha rondado a tua porta,
tu não apareceste.
Desolação (do latim desolatio):
ato ou efeito de desolar (-se),
ruína, devastação, desamparo...
Que seria de mim sem o dicionário?


Otto Leopoldo Winck


Como uma puta louca
a lua nasceu atrás dos prédios
na louça azul do céu de maio.
Não houve desmaios.
Mas, caralho, a lua assim,
tão grande, tão branca, tão nua,
é muito lírica.

[olw]

THEOPHORUS - I

Vivo
no limite
do abismo.
Não sei se pulo
ou rio
do risco.
Quem sabe eu chore
e implore
a deuses extintos
o impossível perdão.
Se eu carrego um deus dentro de mim
para que diabos
eu quero um templo?
Vivo
à beira
do precipício.
Se eu abro a porta
eu tenho o sol
e o infinito.
(A fé, amigo,
é irmã do desespero.)
Para quem tem um deus dentro de si,
o inferno é dos outros.

Otto Leopoldo Winck

sábado, 2 de maio de 2015


Casa Hoffmman


                           
A Casa Hoffman é um palácio rosa
Que já foi comércio de tecidos
Lá existe uma dança formosa
Que cura as dores dos feridos

Nesta casa mora uma bailarina
Que viveu há gloriosos anos atrás
Seu tutu é feito de confete e purpurina
E seu “colant” é a mais pura paz

A Casa Hoffman é a alma da magia
Onde o suave balé abraça a leve poesia
Ela é o centro de estudos dos movimentos
Onde os passos possuem sentimentos

Nas suas fortes e grandes janelas
Debruçam-se donzelas belas e singelas
Seus bancos macios e coloridos
Contam segredos atrevidos

A Casa Hoffman é um palácio rosa
Que já foi comércio de tecidos
Lá existe uma dança formosa
Que cura as dores dos feridos.

Luciana do Rocio Mallon

Protesto dos Professores no Final de Abril


                                                                                    
Em Curitiba, quando a democracia se partiu
Houve um protesto no final de abril
Professores protestaram com valentia
Mas, foram atacados com covardia!

Balas de efeito imoral
Com spray de pimenta
Causaram um tremendo mal
Que até hoje atormenta

Cachorros, cavalos e pombas
Além de outros animais
Misturaram-se com bombas
Junto com políticos canibais

O centro cívico viu a cor carmim
De quem dá o sangue para educar
As gotas dos mestres caíram sem fim
Junto com gritos de dor pelo ar

Na Praça Nossa Senhora da Salete
Até a santa orou com paciência
Para proteger os professores do canivete
E contra a reforma do Paraná Previdência

Mas,  infelizmente, nada adiantou contra esta loucura
O projeto foi votado com amargura
Enquanto os professores tem vida dura
Porque toda a injustiça é obscura
Porém, a luta não acaba numa noite escura!

Em Curitiba, quando a democracia se partiu
Houve um protesto no final de abril
Professores protestaram com valentia
Mas, foram atacados com covardia.


Luciana do Rocio Mallon


Lenda do Fan Veil, o Véu-Leque



O fan veil é um leque-véu
Que é leque e ao mesmo tempo lenço
Ele fabrica a brisa do céu
Com seu jeito leve e denso

Este fan veil que abana a tenda
Tem uma bonita e curiosa lenda:

Era uma vez, uma linda odalisca
No oásis de um deserto
Que passeava altiva e arisca
Pensando não ter ninguém por perto

Mas, uma cigana espanhola
Com saia rodada toda carmim
Que tocava uma castanhola
Percebeu outra presença, assim
E achou a visita desta odalisca ruim

A odalisca que estava com o lenço
Balançou seu corpo tenso e denso
A espanhola com seu jeito atrevido
Abanou seu leque colorido

O lenço apaixonou-se pelo leque
Com jeito aberto de moleque!
O leque sentiu carinho imenso
Por aquele colorido lenço

Então numa doce briga
O abanico encostou no véu
Assim os dois criaram uma liga
Capaz de retirar tudo o que é cruel

O lenço se juntou com o abanico
E os dois formaram uma só criatura:
Um leque com um rabo colorido
Que chamou-se fain veil com ternura

Agora o leque-véu enfeita a íris
Da sensual dançarina do ventre
Causando inveja no arco-íris
Iluminando a sua doce mente.

Luciana do Rocio Mallon

Desdém


Ontem foi o hoje
do meu amanhã.
Fiz a história
do que tenho agora
noutra trajetória,
causa temporã.
Meu reverso é a lida
que noutra saída
se fez mais capaz.
E no meu desdém,
vez em quando vem
um desejo a mais.
.
Marçal Filho

Itabira das Gerais

circunvolução


circunvolução
o mesmo do mesmo
drama sem suco
suco sem giro
giro sem pulso
pulso sem ira
ira sem volta
volta sem roda
roda sem lugar
lugar sem centro
centro sem si
si sem netuno
netuno sem ilusão
ilusão sem drama
o mesmo do mesmo

circunvolução

Edith Derdyk 

SUGESTÃO


bêbada
com o aroma
de flor
que resvala
dos teus seios,
pétalas de cetim.
o rosa
dos teus sugestivos
mamilos saltam do branco
molhado que vestes
e esta chuva que cai...
saudades do abraço
que não dei,
do beijo
que não roubei
e agora fica
esta eloquência silenciosa
de um presente
tornado outrora
dos dias
que passaram por ti
e que eu não notei.

(Cristina Desouza)

sexta-feira, 1 de maio de 2015


Karla Maria

Cai no sono pensando nos professores do Paraná, que ontem foram vítimas de parte da PM do Roberto Richa, um massacre no Centro Cívico de Curitiba. Cai no sono pensando na greve dos professores do meu Estado, que o governador Geraldo Alckimin diz não existir. Pensei nos adolescentes sem aulas há tanto tempo. Pensei em um, no Gabriel, cuja história conheci de perto, depois pensei em 20 mil, o número de adolescentes infratores no País e que na minha visão já cumprem "pena" em unidades de "ressocialização". Menos de 1% destes mataram. Mas... A sociedade mata a cada dia o direito destes e tantos adolescentes à educação, à cultura, à dignidade, a um recomeço. Se quem ensina e educa leva pau, descaso e violência de todos os lados, o que será de seus educandos? O amanhã está abandonado e querem prendê-lo mais e mais atrás de grades privatizadas, porque dá lucro à empresas que adivinhem... Bancam campanhas eleitorais de inúmeros deputados brasileiros. Acordei em um pesadelo.



Os poemas


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...


- Mario Quintana, in: Esconderijos do Tempo, 1980.
Bruno Covello
A poesia de Ellen Maria Vasconcellos para encerrar o terceiro ano de mallarmargens (amanhã começa o quarto):

Conversas que não se editam
As vizinhas na esquina
fofocando outra vez da menina grávida
- outra vez?
e a menina: sim,
mas acho que este tampouco nascerá.


Fonte Jandira Zanchi

29 de Abril


Inversão de valores

Fabio Dominoni

Inversão de valores

Aqui polícia deixa cidadão desprotegido e vai fazer cerco para político roubar sua aposentadoria...
Aqui Conselho de Ética absolve político corrupto por unanimidade...
Aqui político ladrão é valorizado e professora que protesta é presa...
Aqui juiz dá sentença favorável a corrupto e manda prender ladrão de galinha...
Aqui reduz-se aposentadoria de professor e eleva-se salário e benefícios de políticos e juízes...
Aqui democracia é ditadura...
Aqui o "melhor está por vir" é cacetete e bala de borracha com spray de pimenta...
Aqui é o lugar onde eu me envergonho de ser brasileiro
Aqui é a terra aonde tudo se inverte
Aqui é terra sem lei

Aqui bandido tem vez e cidadão honesto tem imposto, imposto e mais imposto...

29 de Abril


É bom ser professor

Otto Leopoldo Winck




É bom ser professor. É bom ser "subversivo" no meio de tanta babaquice, ignorância e truculência. Cheguei no Centro Cívico ontem quando o pau já estava comendo. Muita, muita gente. E de repente bombas de gás lacrimogêneo caindo do céu feito chuva. Gente correndo. Teus olhos começam a arder. De repente todo o teu rosto está ardendo. E no meio da confusão, a solidariedade de gente que você nunca viu te oferecendo vinagre pra rebater o efeito do gás. Depois de algum tempo consigo localizar meus filhos, que desde a manhã estavam lá -- dois filhos engajados, linkadíssimos, orgulho dos pais. Encontro colegas, entre eles o Daniel Osiecki, professor, escritor e baterista (não necessariamente nesta ordem), e alguns alunos, como Ane Carol, que estava com sua simpática mãe, e um garoto que estuda filosofia na PUC. Mas sei de outros alunos que estavam lá, como o bravo Eduardo Fabricio Pereira, Chandelier Bensberg e Marina Sambatti. Ex-Alunos também, como a sempre guerreira Solange de Lima, minha aluna na UFPR, que passou por mim correndo no meio do fervo e com quem não consegui falar... Sim, é bom ser professor. Não é fácil. Mas é bom. Sobretudo quanto a matéria sai da sala e vem pra rua. Ontem vimos tudo isso ao vivo: luta de classes, aparelhos repressivos do Estado, solidariedade... Com certeza, agora vai ser mais fácil entender obras como Jubiabá, Quarup, Vinhas da Ira... E Castro Alves: "A praça é do povo como o céu é do condor."
Bárbara Lia

Uma caminhada até o Supermercado foi o suficiente para perceber, e até invejar, o dia a dia das pessoas distantes dos questionamentos. Um velho de chinelo de couro planeja uma viagem ao litoral para pescar. Ele fala com o amigo, ele é tão velho que nem sei se consegue chegar até a esquina, mas, ele faz planos. Planos de pesca, de rio, de mergulho na natureza. Um moço passa em sua bicicleta, leva um pacote grande de fraldas. O filho deve ser o pensamento. Leva fraldas para o filho. Um dia vai crescer, vai precisar de Escola. O mundo fica parado por alguns segundos. Quem somos na ordem do mundo? Que importância para o mundo? Que importa os poetas? Que importa a segurança dos que educaram nossos filhos, nossos filhos que ainda ontem precisavam de fraldas, eram nosso único pensamento. A vida era uma bolha do paraíso, a criação renovada. Cada filho é uma fatia de céu que se abre, pisamos o começo, acreditamos em Deus... Um homem alto e belíssimo atravessa a rua, será que ele tem consciência de sua força bruta de beleza? Não olha para lado algum, calça jeans surrada, sósia do Tom Selleck quando jovem, aquele ator do seriado Magnun. Um minuto mais de silêncio, o sinal abre, atravesso a rua e na praça de alimentação do supermercado, pessoas conversam, comem, a TV mostra a luta de ontem, nenhuma cabeça se move, súbito uma mulher se move, olha para a tela, volta a falar com o marido... Quem somos nós na ordem do mundo? Os que vivem pelo Ensino, é uma espécie de missão... Isto de ser quem cuida do humano, ensina, apresenta mundos, ergue espaços de possibilidades, escancara o novo. Estes dias meu netinho de cinco anos disse: Eu sei falar uma palavra em inglês: blue. É azul. Ele sabe contar até dez em inglês, mas, a palavra engrandece quando nomina tudo a redor, ele começou a nominar o mundo em outra língua, e nunca a palavra Blue foi tão poética, nunca tão poética como na voz do neto. Azul. O azul. Sempre. Esta cor que é quase um ser vivo... E o céu escancara esta leveza de céu de Curitiba... Eu vi hoje os que não estão retalhados dentro, e invejei a vida simples... Quero a pescaria, o mato, o filho que acabou de nascer, contemplar uma espécie de masculina beleza, e brincar no chão com o meu neto... dragões e carros, batman e homem aranha, estas coisas de menino. Ler uma história, apagar esta imagem que não descola, esta dor que atingiu gente próxima, professores distantes... Esta coisa sem nome, esta falta de beleza, esta ausência de humanidade...


29 de Abril