sexta-feira, 23 de agosto de 2019


Antes

Antes que desça a noite,

imprimir na retina

os rostos amados,

o sol

as cores,

o céu de outono

e os jardins da primavera.



Inundar de sons

de vozes

e de música eterna

os ouvidos

antes que os atinja

a maré do silêncio.



Conquistar

os pontos culminantes

da vida,

antes que se esgote

o prazo de permanência

em seu território sagrado.



Helena Kolody

Pobre ego! Você não sabe que é uma ilusão, um mero centro fictício dividido entre tantos e tão contraditórios apelos... De um lado, o Id te convoca a permanecer na cama, curtindo uma preguiça, e só fazer o que te é agradável. De outro, o superego, como um feitor de chicote em punho, te chamando de vagabundo, gritando para você se levantar logo desta cama e cumprir com tuas obrigações... Não é fácil se equilibrar entre esses dois e irreconciliáveis carrascos, entre Eros e Tânatos, entre o Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade, entre o dever lá fora e a cama quente aqui dentro... Não é a toa que às vezes bate aquele cansaço e pinta então aquela nostalgia do não-ser, do útero materno, do paraíso perdido...
Sobre esta base arquetípica -- Id e superego, Dionísio e Apolo --, similar em todos, há ainda um dicotomia que está na raiz do ser humano ocidental. Há em nosso cérebro um Sócrates e um São Paulo, um grego e um hebreu, um filósofo e um anacoreta -- e eles nunca chegarão a um acordo. A cada dia que me levanto, além da briga acirrada ente Id e superego, tem esses dois que não param de discutir... Não, não sou clássico. Não posso ser clássico, arcádico, parnasiano, ainda que eu quisesse... Depois da Idade Média, não se pode retroceder impunemente à Antiguidade. Com efeito, dentro de mim há uma ágora, onde os filósofos -- estoicos, epicuristas e céticos -- se deblateram eternamente, mas sempre com elegância e educação. No entanto, há também uma catedral gótica, cheia de gárgulas, mosaicos e vitrais -- e visagens de santos e virgens em êxtase... Entre os tamborins das festas helênicas e o órgão solene que brota da catedral sombria, minha alma se dilacera. Por isso eu digo: eu sou barroco, uma encruzilhada de caminhos que levam a múltiplas direções, um feixe de fibras que se cruzam em inúmeros sentidos... Entre céu e lama, luz e trevas, beatitude e maldição, Santo Agostinho e Aristóteles, estou condenado a não ter paz enquanto caminhar sobre esta Terra desolada e sob este Sol impassível. Mas é justamente esta inquietude, esta angústia que é criadora, geradora de estrelas bailarinas. É preciso um caos para criar um cosmos. Se o preço da paz interior é a apatia, eu prefiro este vulcão permanente dentro de mim. Em vez da bonança e da paz da Arcádia, o ímpeto e a tempestade. Mesmo sabendo que sou -- meu ego, este que escreve, ou acha que escreve este texto -- uma ilusão. Ou por isso mesmo.

Otto Leopoldo Winck


Ser escritor não é uma questão de vocação ou de chamado. Os deuses e as musas estão mortos. Ser escritor é uma questão de decisão, uma decisão que se renova toda dia, contra tudo, contra todos, contra si mesmo. É como ser um santo sem fé num mundo sem heróis. Você nunca será recompensado nem mesmo compreendido. Nem é isso que você busca.

Olw


A agulha veste os outros e vive nua.

Provérbio árabe

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Grafite




Meu nome,

desenho a giz

no muro de tempo.



Choveu,

sumiu.


Helena Kolody

Saudade:




Saudade de tudo!...
Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas
que eu podia viver e não vivi!...
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de almas órfas e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez ainha hoje espere por mim...
Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!...
Pressa!...
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa da fusão de tudo,
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
Como quem fecha numa gota
o Oceano,
afogado no fundo de si mesmo...

Magma, Guimarães Rosa

Impaciência (Duas variações sobre o mesmo tema):



I
Eu queria dormir
longamente...
(um sono só...)
Para esperar assim
o divino momento que eu pressinto,
em que hás de ser minha...
Mas...
e se essa hora
não devesse chegar nunca?...
Se o tempo,
como as outras cousas todas,
te separa de mim?!...
Então...
ah! então eu gostaria
que o meu sono,
friíssimo e sem sonhos
(um sono só...)
não tivesse mais fim...

II
Se eu pudesse correr pelo tempo afora,
vertiginosamente,
futuro adiante,
saltando tantas horas tediosas,
vazias de ti,
e voar assim até o momento de todos os momentos,
em que hás de ser minha!...
Mas...
e se esse minuto faltar
nas areias de todas as ampulhetas?...
E se tudo fosse inútil:
a máquina de Wells,
as botas de sete léguas do Gigante?!...
Então...
ah!, então eu gostaria
de desviver para trás, dia por dia,
para parar só naquele instante,
e nele ficar, eternamente, prisioneiro...
(Tu sabes, aquele instante em que sorrias
e me fizeste chorar...)

Magma, Guimarães Rosa

Para os almanaques:




No meu relógio, de uma para outra hora,
quando o ponteiro menor sai a levar lembranças,
passa-lhe à frente o grande, transportando intrigas...



Magma, Guimarães Rosa

Poemas de Ricardo Reis


Estás só. Ninguém o sabe.

Estás só.
Ninguém o sabe.
Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

Anjos ou Deuses

Anjos ou deuses, sempre nós tivemos,
A visão perturbada de que acima
De nos e compelindo-nos
Agem outras presenças.
Como acima dos gados que há nos campos
O nosso esforço, que eles não compreendem,
Os coage e obriga
E eles não nos percebem,



Sim

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

Se Recordo

Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui São sonhos diferentes.

O que Sentimos

O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos.
Claro, o inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
Nossa caveira breve.

Os Deuses e os Messias

Os deuses e os Messias que são deuses
Passam, e os sonhos vãos que são Messias.
A terra muda dura.
Nem deuses, nem Messias, nem idéias
Que trazem rosas. Minhas são se as tenho.
Se as tenho, que mais quero?

Lídia

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde que quer que estejamos.

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde quer que moremos, Tudo é alheio
Nem fala língua nossa.
Façamos de nós mesmos o retiro
Onde esconder-nos, tímidos do insulto
Do tumulto do mundo.
Que quer o amor mais que não ser dos outros?
Como um segredo dito nos mistérios,
Seja sacro por nosso.

Quando, Lídia

Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa
O amarelo atual que as folhas vivem
E as torna diferentes

Nada Fica

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.
Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

http://revistamacondo.wordpress.com/2011/10/16/domingo-poesia-21-ricardo-reis/

Só me faltava essa




RIO DE JANEIRO - No Rio Grande do Sul, um cidadão, acho que uma autoridade local, está processando o Google por conta de uma informação que considerou, além de falsa, prejudicial à sua imagem e carreira. Uma juíza deu liminar, não sei se a favor ou contra a ação.
O problema é dos mais recorrentes, desde que entramos na era digital. Não apenas o Google, mas também outros provedores, inclusive os usuários habituais que navegam livremente na internet, transmitem ou retransmitem dados e informações errados e, na maioria, mal-intencionados. A tecnologia ainda não criou (e acho que dificilmente criará) um recurso eletrônico que apure a infinita massa de comentários, notícias, críticas e até mesmo insultos que rolam pelas telinhas de todo o mundo.
De minha casa, aqui na Lagoa (RJ), posso acusar de adultério a mulher de um vereador nas ilhas Papuas (se é que lá existem vereadores). Não me custa nada, além do acesso normal ao meu equipamento.
No caso do Google e de outros provedores mais sérios, acredita-se que haja uma rotina técnica que impeça certos abusos, inclusive por uma questão de credibilidade. Mas o universo virtual é mais infinito do que o próprio universo que os cientistas declaram finito.
Tudo fica possível, como queria Machado de Assis.
Outro dia, numa discussão sobre o assunto, o Gabeira considerou a parte mais irresponsável da internet como instrumento do ressentimento e do ódio. Além da invasão da privacidade em muitos casos, há o insulto ou a denúncia sem possibilidade de a vítima replicar ou contestar.
No meu caso pessoal, já tomei conhecimento de que publiquei um livro que nunca escrevi ("Cadernos do Fundo do Abismo") e de que sou feliz possuidor de uma excelente criação de búfalos na zona missioneira do Rio Grande do Sul.


CARLOS HEITOR CONY - 29 Sep 2011 



Sem aviso

Sem aviso,

o vento vira



uma página da vida

Helena Kolody


Helena Kolody

nasceu em Cruz Machado, em 1912, e morreu em Curitiba no dia 15 de fevereiro de 2004. Seus pais foram imigrantes ucranianos que se conheceram no Brasil. Helena passou parte da infância na cidade de Rio Negro, onde fez o curso primário. Estudou piano, pintura e, aos doze anos, fez seus primeiros versos. Seu primeiro poema publicado foi A Lágrima, aos 16 anos de idade, e a divulgação de seus trabalhos, na época, era através da revista Marinha, de Paranaguá. Aos 20 anos, Helena iniciou a carreira de professora do Ensino Médio e inspetora de escola pública. Lecionou no Instituto de Educação de Curitiba por 23 anos. Helena Kolody, segundo o que consta em seu livro Viagem no Espelho, foi professora da Escola de Professores da cidade de Jacarezinho, onde lecionou por vários anos. Seu primeiro livro, publicado em 1941, foi Paisagem Interior, dedicado a seu pai, Miguel Kolody, que faleceu dois meses antes da publicação. Helena se tornou uma das poetisas mais importantes do Paraná, e praticava principalmente o haicai, que é uma forma poética de origem japonesa, cuja característica é a concisão, ou seja, a arte de dizer o máximo com o mínimo. Foi a primeira mulher a publicar haicais no Brasil, em 1941. Helena Kolody (1912-2004), a consagrada poetisa do Paraná, inaugurou em 1941 a série de mulheres haicaístas do país. Dona de uma enorme coleção de adjetivos-virtudes, palavras-emblemas, atribuídos a ela pelo povo paranaense, Helena deixou uma obra, que na qualidade lembra outra grande poeta: Cecília Meirelles. 

O caso da aranha




Este primeiro dia de Paraíba tem que ser consagrado ao caso da aranha. Não é nada importante porém me preocupou demais e o turismo sempre foi manifestação egoística e individualista.
Cheguei contente na Paraíba com os amigos, José Américo de Almeida, Ademar Vidal, Silvino Olavo me abraçando. Ao chegar no quarto pra que meus olhos se lembraram de olhar pra cima? Bem no canto alto da parede, uma aranha enorme, mas enorme.

Chamei um dos amigos, Antônio Bento, pra indagar do tamanho do perigo. Não havia perigo. Era uma dessas aranhas familiares, não mordia ninguém, honesta e trabalhadeira lá ao jeito das aranhas. Quis me sossegar e de-fato a razão sossegou, mas o resto da minha entidade sossegou mas foi nada! Eu estava com medo da aranha. Era uma aranha enorme...

Tomei banho, me vesti, etc. fui jantar, voltei pro quarto arear os dentes, ver no espelho se podia sair pra um passeinho até a praia de Tambaú, mas fiz tudo isso aranha. Quero dizer: a aranha estava qualificando a minha vida, me inquietava enormemente.

Passeei e foi um passeio surpreendente na Lua-cheia. Logo de entrada, pra me indicar a possibilidade de bom trabalho musical por aqui, topei com os sons dum coco. O que é, o que não é: era uma crilada gasosa dançando e cantando na praia. Gente predestinada pra dançar e cantar, isso não tem dúvida. Sem método, sem os ritos coreográficos do coco, o pessoalzinho dançava dos 5 anos aos 13, no mais! Um velhote movia o torneio batendo no bumbo e tirando a solfa. Mas o ganzá era batido por um piazote que não teria 6 anos, coisa admirável. Que precocidade rítmica, puxa! O piá cansou, pediu pra uma menina fazer a parte dele. Essa teria 8 anos certos mas era uma virtuose no ganzá. Palavra que inda não vi, mesmo nas nossas habilíssimas orquestrinhas maxixeiras do Rio, quem excedesse a paraibaninha na firmeza, flexibilidade e variedade de mover o ganzá. Custei sair dali.

Os coqueiros soltos da praia me puseram em presença da aranha. O passeio estava sublime por fora mas eu estava impaciente, querendo voltar pra ver se acabava duma vez com o problema da aranha. Nuns mocambos uns homens metodicamente vestidos de azulão, dólmã, calça e gorro. Eram os presos. São eles que fazem as rodovias do Estado e preparam os catabios. Não fogem. E não sei porque não fogem.

E fiquei em presença da aranha outra feita. Olhei pro lugar dela, não a vi. Foi-se embora, imaginei. De-repente vi a aranha mais adiante. Está claro que a inquietação redobrou.. De primeiro ela ficara enormemente imóvel, sempre no mesmo lugar. Agora estava noutro, provando a possibilidade de chegar até meu sono sem defesa. Pensei nos jeitos de matá-la. Onde ela estava era impossível, quarto alto, cheio de frinchas e de badulaques, incomodar os outros hóspedes, fazer bulha. A aranha deu de passear, eu olhando. Se ela chegar mais perto, mato mesmo. Não chegou. Fez um reconhecimentozinho e se escondeu. Deitei, interrompi a luz e meu cansaço adormeceu, organizado pela razão.

Faz pouco abri os olhos. A aranha estava sobre mim, enorme, lindos olhos, medonha, temível, eu nem podia respirar, preso de medo. A aranha falou:

- Je t'aime.        


Mario de Andrade

Desterro:




Eu ia triste, triste, com a tristeza discreta dos fatigados,
com a tristeza torpe dos que partiram tendo despedidas,
tão preso aos lugares
de onde o trem já me afastara estradas arrastadas,
que talvez eu não estivesse todo inteiro presente
no horror dessa viagem.
Mas a minha tristeza pesava mais do que todos os pesos,
e era por causa de mim, da minha fadiga desolada,
que a locomotiva, lá adiante, rídicula e honesta, bracejava,
puxando com esforço vagões quase vazios,
com almas cheias de distância, a penetrar no longe.
A tarde subiu do chão para a paisagem sem casas,
e o comboio seguia,
cada vez mais longe, mais fundo, a terra mais vermelha,
o esforço maior, as montanhas mais duras,
como sabem ser duros os caminhos,
pelos quais a gente vai, só pensando na volta...
Coagulada em preto,
a noite isolou as cousas dentro da tarde,
e o barulho do trem foi um rumor de soçobro
o fundo de um mar sem tona.
Nem mesmo foi a noite: foi a ausência
brusca e absurda do dia.
Tão definitiva e estranha, que eu me alegrei, esperando
o não continuar da vida,
o não-regresso da luz, o não-andar mais do trem...

Magma, Guimarães Rosa


Consciência Cósmica:




Já não é preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem de deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
E deveria rir, se me restasse o riso,
das tormentas que pouparam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo de meu corpo...


'Magma',  Guimarães Rosa 

Tempo

Cai a areia da vida

Na ampulheta da morte.


Helena Kolody

Dividindo o quarto com García Márquez


- IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO



PARIS.Somente no terceiro dia percebi a pequena placa, à direita da porta de entrada do Hotel Trois Collèges. Na minha chegada, após 12 horas de voo e o táxi cortando a cidade em meio a congestionamentos provocados por blitz da policia, por acidentes e pelo acúmulo de carros (pensam que é só em São Paulo?), chegamos esbodegados ao hotel, às 6 da tarde. Banho, jantar e cama. No segundo dia, a saída foi acelerada, era o último dia de uma exposição muito comentada, Espadas, histórias e mitos, no Museu Cluny, que sabe tudo da Idade Média. Na volta, fim da tarde, estávamos chapados por um calor que fazia os parisienses se indagarem: será o fim do mundo? O outono começara, as folhas estavam caindo sobre as calçadas e parques e o sol esturricava num céu sem uma nuvem. Não verás Paris nenhum, pensei.

Na manhã do terceiro dia, esperávamos Camila, amiga de minha filha, que tinha ido buscar um vestido de noiva. Feito de encomenda, lindo, de bom gosto, custou 1.300, cerca de R$ 3 mil. "Por esse preço, em São Paulo, eu nem alugava um vestido. Para mandar fazer, pediam por volta de R$ 12 mil. E acham barato. Volto feliz", ela confessou.

Então, vi a plaquinha de bronze:

Neste hotel, em 1957, Gabriel García Márquez, prêmio Nobel, escreveu seu romance Ninguém Escreve ao Coronel.

Foi o terceiro livro escrito pelo colombiano e o primeiro em que ele acertou, começou a ter público. Corri a perguntar ao concierge se ele sabia em que apartamento García Márquez tinha escrito e ele me disse que foi no 63, o mesmo que eu estava ocupando. Mas que na época era menor, tinha apenas uma cama. Passei a olhar diferente aquele cubículo em que eu estava com Marcia e Maria Rita, o único que conseguimos na alta estação, por ter feito planejamento de ultimíssima hora. Um duas estrelas muito simples, simpático, limpo, pessoal afável, café da manhã servido por uma cabo-verdiana alta, a Alice. No segundo dia, ouvi-a falando português e me admirei:

- Então, você fala português?

- Pois desde ontem estou a falar português contigo e você me respondia em francês.

Na sua autobiografia, Márquez conta que estava na cidade como correspondente de um jornal, mas que o jornal fechou e ele ficou lá com um restinho de dinheiro. Passou a enviar cartas aos amigos, pedindo socorro. "Morava no sexto andar de um hotel sem elevador, e todos os dias descia para ver se havia uma carta, e nunca havia. Foi quando a história de meu avô começou a se desenhar na minha cabeça, porque este avô passou a vida esperando a carta que confirmaria o seu direito a uma pensão do governo, por ter lutado na guerra civil. Todos os dias até morrer foi ao porto esperar a carta que nunca chegou. Meu avô ia ao porto, eu descia à portaria, e nada de cartas; assim a história se escreveu."

Foi quando descobri uma segunda placa comemorativa. Andando por Paris, olhem para as paredes e as portas. São milhares de placas contando que um escritor, um cantor, uma celebridade morou ali. Ou indica o ponto em que alguém da Resistência morreu. Você vai refazendo a história. A outra placa nos conta que o escritor húngaro Miklós Radnoti, um dos mais queridos pelos seus compatriotas, morou no Trois Collèges no fim dos anos 1930. Durante a guerra, foi feito prisioneiro na Iugoslávia e enviado a Auschwitz, onde morreu aos 35 anos.

Também fiquei sabendo que o poeta Raoul Ponchon morou no hotel entre 1911 e 1937, quando morreu. Um poeta que o Zé Celso, cultor de Baco, adoraria. Segundo Apollinaire, Raoul ao cantar o vinho, as mulheres e as flores, com bom humor, foi o último dos poetas báquicos. Verlaine o amava. Bela companhia a minha. Passei a respeitar mais o Trois Collèges em sua humildade. Também, das janelas dos quartos você dá com o maciço da Sorbonne. Imagino que o nome seja em homenagem à Sorbonne, ao Collège de France, bastante próximo, e à Faculdade de Medicina.

No avião, um dos filmes foi À Meia-Noite em Paris. Na madrugada, na TV de minha poltrona acabei vendo dublado, sabe Deus por quê. E me diverti. A certa altura, o tradutor traduziu Left Bank (a velhíssima Rive Gauche) como "o banco da esquerda". De certo, o banco onde o Zé Dirceu e o Lula põem o dinheirinho. Desliguei, dormi. Ao menos, me ficaram do filme, entre outras, as imagens de restaurantes como o Le Polidor, onde acabamos indo comer, e a galinha de angola é ótima; do Balsar, na Rua Des Écoles, onde a Noix de Saint Jacques é delicada e o risoto de lagosta e lasgotins estupendo, e demos uma olhada no Le Grand Velfour, dos mais sofisticados da cidade. O menu mais barato custa 96, ali pelos R$ 250. Por pessoa!!! Mas existe o Menu Plaisir pela "módica" quantia de 282 (vinho à parte), perto de R$ 800. Preciso levar um personal gourmet que me ensine a comer cada prato, sozinho não dou conta. Ah! Agora o Trois Collèges tem elevador. Meu modesto sonho, delírio de posteridade: será que um dia colocarão uma placa dizendo que ali reescrevi a terceira versão de minha novela Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos?



Uma galinha




Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.

Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.

Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.

Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.

Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se pode­ria contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.

Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos. Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, pare­cia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:

— Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!

Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:

— Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!

— Eu também! jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros.

Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.

Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.

Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.

Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.

Clarice Lispector, 



Poemas de José Paulo Paes




ARS AMANDI
amar
amar
amar

qual ama

o nascituro a mama
o incendiário a chama
o opilado a lama
.
LAR
espaço que separa
o volksvagen
da televisão
.
NEOPAULÍSTICA
pelo mesmo tietê
onde outrora viajavam
bandeirantes heris

só viajam agora
os dejetos: bandeira
de seus filhos fabris
.
BRECHT REVISITADO
partido: o que partiu
rumo ao futuro
mas no caminho esqueceu
a razão da partida

(só perdemos
a viagem camaradas
não a estrada
nem a vida)
.
HINO AO SONO
sem a pequena morte
de toda noite
como sobreviver à vida
de cada dia?
.
DÚVIDA REVOLUCIONÁRIA
ontem foi hoje?
ou hoje é que é ontem?
.
O ÚLTIMO HETERÔNIMO
o poema é o autor do poeta
.
EPITÁFIO (13 de outubro, morte de manuel bandeira; 1956)
poeta menormenormenormenormenor
menormenormenormenormenor enorme
.
OCIDENTAL
a missa
a miss
o míssil
.
CRONOLOGIA
A.C.
D.C.
W.C.
.
FALSO DIÁLOGO ENTRE PESSOA E CAEIRO
- a chuva me deixa triste...
- a mim me deixa molhado


               


‘’[...] é hoje outro o meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio – definitivamente fora de foco – cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você, que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes…”


Raduan Nassar

Uma pausa necessária




RIO DE JANEIRO - Não costumo escrever sobre os livros que recebo. Faltam-me o critério crítico e o mínimo de conhecimento técnico para abordar um assunto que conheço mais por instinto do que por gosto. Mesmo assim, sinto de minha obrigação falar sobre dois livros recentemente lançados que, além de sua importância intrínseca, valem como instrumentos de formação humana e cultural.
"História da Literatura Brasileira", do poeta Carlos Nejar, é uma pequena enciclopédia que trata da carta de Pero Vaz de Caminha à contemporaneidade. Extensa no tempo, é intensa na penetração dos autores que formaram a nossa cultura, não apenas a cultura literária em si, mas o patrimônio espiritual que nos liga como nação, cujos valores humanísticos Nejar focaliza com a autoridade que conquistou em sua já longa caminhada literária.
O outro livro é também de um poeta e trata de poesia. Tem um valor didático e necessário, pois abre um território até hoje pouco explorado pelos nossos autores. "Poetas da América de Canto Castelhano", de Thiago de Mello, é uma antologia de excelente bom gosto dos maiores poetas de nossa língua irmã, de Jorge Luis Borges a José Martí, de Gabriela Mistral a Pablo Neruda, um elenco monumental que, em parte, é desconhecido pelos leitores brasileiros.
Quando estive em Cuba, como jurado do Prêmio Literário Casa de Las Américas, fiquei impressionado pelo desconhecimento recíproco dos autores latino-americanos. Somente um colombiano, o poeta León de Greiff, que por sinal está presente na antologia do Thiago, conhecia alguma coisa de Drummond.
Nejar e Thiago são dois operários que construíram uma obra que faz parte de nossa perspectiva literária e cultural. Os dois livros que aqui lembrei honram o nosso momento editorial.


CARLOS HEITOR CONY - 20 Oct 2011 

O apartamento


 - Carlos Herculano Lopes



Alguns meses antes do casamento, às vezes na companhia da noiva, ou apenas do corretor, Tiago começou a procurar um apartamento para comprar. “Só vamos nos casar quando tivermos casa própria, não precisarmos pagar aluguel”, vivia repetindo para ela. Quando conseguiram juntar o dinheiro, depois de vários anos fazendo economia, viram que estava na hora de iniciar a busca. “Para mim qualquer lugar está bom, desde que seja com você, meu amor”, Marisa sempre dizia, cheia de romantismo.
 No primeiro que visitaram, num prédio com cerca de 20 anos, situado numa rua movimentada da Floresta, não agradaram de duas coisas: a primeira, o barulho de carros e ônibus, que era intenso. E também porque ficava no térreo, de frente para um lote vago, no qual, muito provavelmente, fariam outra construção. Depois de pronta, com certeza, escureceria o apartamento e o desvalorizaria.

Naquele mesmo dia, os dois estavam de folga, foram a mais três. O da Sagrada Família, na Rua Conselheiro Lafayette, era úmido, com um só banheiro, e pouco ventilado. O outro, no final do Horto, ficava numa rua íngreme. E o terceiro, em Santa Tereza, era pequeno demais, fora o preço abusivo que estava sendo pedido. “Negócio é calma, fiquem tranquilos, que hora destas aparece um do agrado. Temos opções de sobra”, lhes disse o corretor, com a sabedoria de quem, há mais de 30 anos, estava no ramo.

Umas três semanas mais tarde, pois nesse intervalo Tiago teve de fazer uma viagem e Marisa estava muito apertada no trabalho, foram novamente à luta, com aquele mesmo vendedor, do qual estavam ficando amigos. Gostaram demais de um, de três quartos, com suíte, duas vagas de garagem, sala conjugada e uma cozinha imensa, fora a área de serviço. Era numa rua calma do Gutierrez, bem próxima de uma praça e de uma igreja. Mas ficou só na vontade, porque não tinham condições de comprá-lo.

Ao dono de outro apartamento, no mesmo bairro, chegaram a fazer uma oferta, e o negócio quase deu certo. Um detalhe, de última hora, atrapalhou. “É assim mesmo, não tinha de ser de vocês”, falou o corretor, quando se despediram, já quase 9h da noite. Todos estavam muito cansados.

Com mais ou menos intensidade, nos dias seguintes prosseguiram naquela procura, e numa nova visita, assim que entraram num apartamento no Centro, todo reformado, com as paredes pintadas de branco, Tiago começou a sentir uma coisa esquisita. Uma espécie de nó na garganta. Algo bastante parecido com o medo. Mas ficou calado, e guardou aquela sensação só para ele. Logo em seguida, Marisa, lhe dando a mão, disse: “Vamos embora, querido, não estou passando bem, tô meio tonta”.

Na saída do prédio, o corretor, pouco antes de deixá-los, comentou, passando o lenço na testa: “Não sei por que, mas me deu uma coisa estranha naquele imóvel. Fiquei doido para cair fora”. “Aconteceu o mesmo comigo”, disse Tiago. Ao que Marisa, apertando ainda mais a sua mão, confessou baixinho que, “lá dentro”, teve até dor de barriga. Menos de um mês depois, finalmente, conseguiram comprar o apartamento dos sonhos, no qual estão vivendo há dois anos. Quanto àquele outro, que haviam olhado no Centro, até hoje, segundo o corretor, com o qual se encontraram dia desses, ainda não foi vendido.

 21 Oct 2011

Tarde de sábado


A tardezinha de sábado, um pouco cinzenta, um pouco fria, parece não possuir nada de muito particular para ninguém. Os automóveis deslizam; as pessoas entram e saem dos cinemas; os namorados conversam por aqui e por ali; os bares funcionam ativamente, numa fabulosa produção de sanduíches e cachorros-quentes. Apesar da fresquidão, as mocinhas trazem nos pés sandálias douradas, enquanto agasalham a cabeça em echarpes de muitas voltas. Tudo isso é rotina. Há um certo ar de monotonia por toda parte. O bondinho do Pão de Açúcar lá vai cumprindo o seu destino turístico, e moços bem falantes explicam, de lápis na mão, em seus escritórios coloridos e envidraçados, apartamentos que vão ser construídos em poucos meses, com tantos andares, vista para todos os lados, vestíbulos de mármore, tanto de entrada, ma is tantas prestações, sem reajustamento — o melhor emprego de capital jamais oferecido! Em alguma ruazinha simpática, com árvores e sossego, ainda há crianças deslumbradas a comerem aquele algodão de açúcar que de repente coloca na paisagem carioca uma pincelada oriental. E há os avós de olhos filosóficos, a conduzirem pela mão a netinha que ensaia os primeiros passeios, como uma bailarina principiante a equilibrar-se nas pontas dos sapatinhos brancos. Andam barquinhos pela baía, com um raio de sol a brilhar nas velas; há uns pescadores carregados de linhas, samburás, caniços, muito compenetrados da sua perícia; há famílias inteiras que não se sabe de onde vêm nem se pode imaginar para onde vão, e que ocupam muito lugar na calçada, com a boca cheia de coisas que devem ser balas, caramelos, pipocas, que passam de uma bochecha para a outra e lhes devem causar uma delícia infinita. Depois aparecem muitas pessoas bem vestidas, cavalheiros com sapatos reluz entes, senhoras com roupas de renda e chapéus imensos que a brisa da tarde procura docemente arrebatar. Há risos, pulseiras que brilham, anéis que faíscam, muita alegria: pois não há mesmo nada mais divertido que uma pessoa toda coberta de sedas, plumas e flores, a lutar com o vento maroto, irreverente e pagão. E depois são as belas igrejas acesas, todas ornamentadas, atapetadas, como jardins brancos de grandes ramos floridos. Por uma rua transversal, está chegando um carro. E dentro dele vem a noiva, que não se pode ver, pois está coberta de cascatas de véus, como se viajasse dentro da Via-láctea. Todos param e olham, inutilmente. Ela é a misteriosa dona dessa tardezinha de sábado, que parecia simples, apenas um pouco cinzenta, um pouco fria. E a moça que vem, com a alma cheia de interrogações, para transformar seus dias de menina e adolescente, despreocupados e livres, em dias compactos de deveres e responsabilidades. É uma transição de tempos, de mundos. Mas os convidados a esperam felizes, e ela não terá que pensar nisso. Ela mal se lembra que é sábado, que é o dia de seu casamento, que há padrinhos e convidados. E quando a cerimônia chegar ao apogeu, talvez nem se lembre de quem é: separada dos acontecimentos da terra, subitamente incorporada ao giro do Universo.

Cecília Meireles

Narciso



Si salía, encerraba a los gatos. Los buscaba, debajo de los muebles, en la ondulación de los cortinajes, detrás de los libros, y los llevaba en brazos, uno a uno, a su dormitorio. Allí se acomodaban sobre el sofá de felpa raída, hasta su regreso. Eran cuatro, cinco, seis, según los años, según se deshiciera de las crías, pero todos semejantes, grises y rayados y de un negro negrísimo.
Serafín no los dejaba en la salita que completaba, con un baño minúsculo, su exiguo departamento, en aquella vieja casa convertida, tras mil zurcidos y parches, en inquilinato mezquino, por temor de que la gatería trepase a la cómoda encima de la cual el espejo ensanchaba su soberbia.

Aquel heredado espejo constituía el solo lujo del ocupante. Era muy grande, con el marco dorado, enrulado, isabelino. Frente a él, cuando regresaba de la oficina, transcurría la mayor parte del tiempo de Serafín. Se sentaba a cierta distancia de la cómoda y contemplaba largamente, siempre en la misma actitud, la imagen que el marco ilustre le ofrecía: la de un muchacho de expresión misteriosa e innegable hermosura, que desde allí, la mano izquierda abierta como una flor en la solapa, lo miraba a él, fijos los ojos del uno en el otro. Entonces los gatos cruzaban el vano del dormitorio y lo rodeaban en silencio. Sabían que para permanecer en la sala debían hacerse olvidar, que no debían perturbar el examen meditabundo del solitario, y, aterciopelados, fantasmales, se echaban en torno del contemplador.

Las distracciones que antes debiera a la lectura y a la música propuesta por un antiguo fonógrafo habían terminado por dejar su sitio al único placer de la observación frente al espejo. Serafín se desquitaba así de las obligaciones tristes que le imponían las circunstancias. Nada, ni el libro más admirable ni la melodía más sutil, podía procurarle la paz, la felicidad que adeudaba a la imagen del espejo. Volvía cansado, desilusionado, herido, a su íntimo refugio, y la pureza de aquel rostro, de aquella mano puesta en la solapa le infundía nueva vitalidad. Pero no aplicaba el vigor que al espejo debía a ningún esfuerzo práctico. Ya casi no limpiaba las habitaciones, y la mugre se atascaba en el piso, en los muebles, en los muros, alrededor de la cama siempre deshecha. Apenas comía. Traía para los gatos, exclusivos partícipes de su clausura, unos trozos de carne cuyos restos contribuían al desorden, y si los vecinos se quejaban del hedor que manaba de su departamento se limitaba a encogerse de hombros, porque Serafín no lo percibía; Serafín no otorgaba importancia a nada que no fuese su espejo. Éste sí resplandecía, triunfal, en medio de la desolación y la acumulada basura. Brillaba su marco, y la imagen del muchacho hermoso parecía iluminada desde el interior.

Los gatos, entretanto, vagaban como sombras. Una noche, mientras Serafín cumplía su vigilante tarea frente a la quieta figura, uno lanzó un maullido loco y saltó sobre la cómoda. Serafín lo apartó violentamente, y los felinos no reanudaron la tentativa, pero cualquiera que no fuese él, cualquiera que no estuviese ensimismado en la contemplación absorbente, hubiese advertido en la nerviosidad gatuna, en el llamear de sus pupilas, un contenido deseo, que mantenía trémulos, electrizados, a los acompañantes de su abandono.

Serafín se sintió mal, muy mal, una tarde. Cuando regresó del trabajo, renunció por primera vez, desde que allí vivía, al goce secreto que el espejo le acordaba con invariable fidelidad, y se estiró en la cama. No había llevado comida, ni para los gatos ni para él. Con suaves maullidos, desconcertados por la traición a la costumbre, los gatos cercaron su lecho. El hambre los tornó audaces a medida que pasaban las horas, y valiéndose de dientes y uñas, tironearon de la colcha, pero su dueño inmóvil los dejó hacer. Llego así la mañana, avanzó la tarde, sin que variara la posición del yaciente, hasta que el reclamo voraz trastornó a los cautivos. Como si para ello se hubiesen concertado, irrumpieron en la salita, maulando desconsoladamente.

Allá arriba la victoria del espejo desdeñaba la miseria del conjunto. Atraía como una lámpara en la penumbra. Con ágiles brincos, los gatos invadieron la cómoda. Su furia se sumó a la alegría de sentirse libres y se pusieron a arañar el espejo. Entonces la gran imagen del muchacho desconocido que Serafín había encolado encima de la luna -y que podía ser un afiche o la fotografía de un cuadro famoso, o de un muchacho cualquiera, bello, nunca se supo, porque los vecinos que entraron después en la sala sólo vieron unos arrancados papeles- cedió a la ira de las garras, desgajada, lacerada, mutilada, descubriendo, bajo el simulacro de reflejo urdido por Serafín, chispas de cristal.

Luego los gatos volvieron al dormitorio, donde el hombre horrible, el deforme, el Narciso desesperado, conservaba la mano izquierda abierta como una flor sobre la solapa y empezaron a destrozarle la ropa.

FIN

argentino Manuel Mujica Láinez (1910-1984)


Ainda é cedo




RIO DE JANEIRO - Aconteceu com Saddam Hussein, Bin Laden e, agora, com Gaddafi. Líderes importantes, como Obama, declararam que o mundo ficou melhor sem eles. É possível. Numa das perseguições aos cristãos durante o Império Romano, um dos Césares mandou erguer uma coluna que até hoje existe, declarando que não havia mais cristão na face da Terra e que o mundo seria melhor.
Não estou comparando nada com ninguém, apenas lembrando que o alívio da humanidade quando morre um ditador criminoso, como Gaddafi, em geral é um alívio mal informado. Quando Júlio César foi assassinado, Brutus comunicou à plebe que o tirano estava morto -e recebeu aplausos. Foi preciso que Marco Antônio, logo em seguida, pronunciasse seu famoso discurso para reverter o sentimento do povo.
E depois do primeiro César (o mais importante deles), vieram outros como Calígula, Nero, Vespasiano etc., que não tinham sequer o passado glorioso do conquistador das Gálias. Mesmo assim, o assassinato de ditadores, segundo Shakespeare, seria uma cena repetida ao longo dos séculos e em países que nem ainda existiam naquele tempo.
Nos impérios orientais, a sucessão de tiranos sanguinários foi quase ininterrupta. A situação na Líbia, mesmo com a queda e a morte de Gaddafi, está longe de ser tranquila. Não é hora de soltar foguetes, muita coisa ruim ainda pode acontecer naquele país sem tradição democrática.
Lembro igualmente aquele tenor que, depois de cantar a ária principal de uma ópera, foi vaiado vergonhosamente pela plateia enfurecida. Atiram-lhe ovos, tomates e sapatos. Resignado, enfrentando de cabeça baixa a irritação e os insultos do público, o tenor limitou-se a dar um aviso que, na realidade, era uma ameaça: "Vocês não viram nada. Esperem pelo barítono!".


CARLOS HEITOR CONY -  25 Oct 2011 

Ser poeta


- Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!



O crime compensa




Distinto leitor, encantadora leitora, ponham-se na pele de quem tem de escrever toda semana. Não me refiro à obrigação de produzir um texto periodicamente, sem falhar. Às vezes, como tudo na vida, é um pouquinho chato, mas quem tem experiência tira isso de letra, há truques e macetes aprendidos informalmente ao longo dos anos e o macaco velho não se aperta. O chato mesmo, na minha opinião, é o "gancho", o pé que o texto tem de manter na realidade que o circunda. Claro, nada impede que se escreva algo inteiramente fantasioso ou delirante, mas o habitual é que o artigo ou crônica seja suscitado pelo cotidiano, alguma coisa que esteja acontecendo ou despertando interesse.

Pois é. Hoje, outra vez, qual é o gancho? Quer se leia o jornal, quer se converse na esquina, só se fala em ladroagem. Roubalheiras generalizadas, desvios, comissões, propinas. Rouba-se tudo, em toda parte. Roubam-se recursos do governo na União, nos estados e nos municípios. Roubam-se donativos humanitários e verbas emergenciais destinadas a socorrer flagelados. Rouba-se material, rouba-se combustível, rouba-se o que é possível roubar. Qual é, então, o gancho? Só pode ser a ladroagem. Não há outro, pelo menos que eu veja. É o tema do dia, não adianta querer escolher outro, ele se impõe.

Hoje creio que não há um só brasileiro ou brasileira (de vez em quando eu acerto no uso desta nova regra de distinguir os gêneros) que não tenha a convicção de que pelo menos a maior parte dos governantes, nos três poderes, é constituída de privilegiados abusivos e larápios, no sentido mais lato que o termo possa ter. Já nos acostumamos, faz parte do nosso dia a dia, ninguém se espanta mais com nada, qualquer mirabolância delinquente pode ser verdade. E também já nos acostumamos a que não aconteça nada aos gatunos. Não só permanecem soltos, como devem continuar ricos com o dinheiro furtado, porque não há muita notícia de devoluções.

Ou seja, por mais que alguma autoridade nos diga expressamente o contrário, usando um juridiquês duvidoso e estatísticas entortadas, a verdade é que, no Brasil, o crime compensa. Presumo que até os assaltantes pés de chinelo tenham pelo menos a vaga percepção de que todos os poderosos roubam e, portanto, fica mais uma vez comprovado que quem não rouba é otário. Às vezes, chega a parecer que existe uma central programadora de falcatruas, pois a engenhosidade dos ladrões não tem limites e, hoje, analisar somente os golpes dados em um ou dois ministérios requereria um profissional especializado, com anos de estudo e experiência. É criado um órgão ou despesa, aparece logo uma quadrilha dedicada a furtar desse órgão ou abiscoitar essa despesa. Suspeitamos de tudo, de obras públicas a loterias, da polícia aos tribunais. Contamos nos dedos os governantes, em qualquer dos três poderes, em que ainda acreditamos que podemos confiar - e é crescente a descrença neles, bem como o cinismo e a apatia diante de uma situação que parece insolúvel e da qual, como quem cumpre uma sina má, jamais nos desvencilharemos.

Não seria de todo descabida a afirmação de que somos uma sociedade sem lei. Sob certos aspectos, somos mesmo, porque as nossas leis não têm dentes, não mordem ninguém. Mesmo na hipótese de um assassinato ser esclarecido, o que está longe da regra, estamos fartos de ver homicidas ficarem praticamente impunes por força de uma labiríntica e deploravelmente formalista rede de recursos, firulas jurídicas e penas brevíssimas. A possibilidade de, mesmo confesso, um homicida jamais ser de fato punido, a não ser muito levemente, é concretizada todo dia. Aqui matar é cada vez mais trivial e muitos assaltantes atiram pelo prazer de atirar, matam pelo gosto de matar.

Não sei em que outro país do mundo o sujeito entra numa delegacia policial levando o cadáver da vítima, mostrando a arma do crime e confessando sua autoria, para ser posto em liberdade logo em seguida, já cercado de advogados e manobras para evitar a cadeia. É difícil de acreditar, mesmo sabendo-se que é verdade documentada. Réu primário, moradia conhecida, ocupação fixa etc. e tal e o sujeito vai para casa quase como se nada tivesse acontecido, talvez até trocando um aperto de mão com o delegado, como já imaginei aqui. Ou seja, é crime, mas é mole matar no Brasil, o preço é muito em conta. E essa situação não envolve apenas os ricos, porque os outros também estão aprendendo, como foi o caso de um jovem assaltante de São Paulo, que muitos de vocês devem ter visto na TV. Apresentou-se numa delegacia espontaneamente, é réu primário, tem residência fixa etc. etc. Embora tenha posto a culpa na vítima, por esta haver reagido, confessou o crime. Foi solto logo em seguida, saindo muito sorridente da delegacia. E, se um dia vier a ser condenado, contará com um mar de recursos à sua disposição, complementados pelos benefícios a que terá direito, com a progressão da pena.

Já tive oportunidade de dizer aqui que a melhor maneira de assassinar alguém no Brasil é encher a cara, sair no carro e atropelar a vítima. Encher a cara é agravante em toda parte, mas aqui parece funcionar como uma espécie de atenuante. Fica-se discutindo se o homicídio é doloso ou culposo, se o que vale no caso é o Código de Trânsito ou o Código Penal e, no fim das contas, o que acontece é o atropelador pagar fiança, ir embora para casa e esperar, na pior das hipóteses, ser enquadrado numa dessas leis desdentadas e cumprir pena em liberdade, ou quase isso. O que, somado ao que está dito acima, leva mesmo a concluir que, entre nós, o crime compensa. E, talvez graças aos exemplos dados por parlamentares e outros governantes, estamos assistindo à democratização da impunidade, que gradualmente deixa de ser privilégio dos ricos e poderosos para se estender a todos. Tá dominado.


- JOÃO UBALDO RIBEIRO. 23 Oct 2011 

Chico em Chicago




quase não saio de casa
quando saio, é tedioso
não sei falar com as pessoas
às vezes sou asqueroso
minha analista se esforça
diz pra eu não ficar nervoso
que meu futuro ainda é longo
e talvez seja ditoso
mas a verdade é que sinto
muita falta do Mattoso

é claro, existe o skype
(um invento cabuloso)
celular, g-talk, e-mail -
"hoje tá meio chuvoso" -
porém perco a paciência
(sou um pouco mafioso)
ao perceber que não posso
encontrá-lo - era gostoso...
pois a verdade é que sinto
muita falta do Mattoso

se mudar para Chicago...
lá o inverno é rigoroso!
ninguém pensa em tomar banho
é todo mundo seboso
não entendo, acho uma Boston
acho de fato odioso
e acho sinceramente
que isso é coisa do Tinhoso
porque a verdade é que sinto
muita falta do Mattoso

ao menos dois anos voam -
não fosse o tempo ardiloso -
então estará de volta
o meu amigo Mattoso


Fabrício Corsaletti   .   23 Oct 2011 

Amor em SP




Toda essa exuberância de interações me pôs num estado que tem muito de vontade de morar em São Paulo

Vejo a cara de Criolo que olha para mim antes de andar até o microfone. Estamos no escuro esperando a deixa para começarmos nosso número. MV Bill é quem nos anuncia no VMB. Essa festa de premiação é o B do VMA? Enquanto espero, vejo Bento Ribeiro e acho que Tatá Wernek num telão: eles atuam num outro palco que parece ficar a quilômetros do que Criolo e eu ocupamos. Bill, Bento e Tatá, três cariocas em Sampa — e eu e Criolo cantando “Não existe amor em SP”. São Paulo está cheio de amor. Eu tinha feito o ensaio com uma segurança que me surpreendeu. Na hora H, nervoso e emocionado, quase me perco nas palavras e nas notas. Nos corredores e camarins, pude falar com Erasmo (grande momento: toda a nossa atividade em Sampa nos anos 60 veio à cabeça), Arnaldo Antunes, Mallu Magalhães, Tulipa, Tiê… Queria poder ter falado com os humoristas da MTV (Dani Calabresa, Marcelo Adnet, Tatá e, sobretudo, Bento, que não vejo pessoalmente desde sua puberdade).

Penso na chegada da MTV ao Brasil, com Deborah Cohen organizando e dirigindo. Foi Deborah, amiga com quem já trabalhei em viagens internacionais, uma americana que fala português muito bem (e francês perfeito), quem, logo antes de o canal ser lançado ao público, me fez a pergunta: “Você acha que devemos pronunciar Emtivi, à inglesa, ou Emetevê, dizendo o nome das letras na pronúncia portuguesa?” E eu respondi sem hesitar: “Emetevê.” Nunca me ocorreu dizer agá-bê-ó em vez de eitch-bi-ou ao me referir à HBO, mas sempre achei que MTV é parente de Fenemê, entra natural na fala brasileira. Mas é claro que Deborah perguntou a outras pessoas e suponho que todas estavam loucas para simplesmente repetir o nome em inglês da emissora (só anglófilosamericanófilos estavam a par da existência de tal canal de TV). Havia até aquela canção do Dire Straits (por vezes acusada de sexista, racista e homofóbica), “Money for nothing”, em que Sting (como artista convidado ) repete (com a melodia de “Don’t stand so close to me”) o grito “I want my MTV”. Mas eu decidi me manter fiel à minha decisão declarada a Deborah.

Eu adorava “clips” (que é como os brasileiros chamam, em inglês, o que os americanos chamam simplesmente de “video”, como uma abreviatura de “music video”). Ainda gosto. Em horas mortas a emissora ainda os exibe, se bem que a nova direção tem tendido a fazer da MTV uma estação mais musical. Mas eu adoro os humoristas. Assisti a inúmeros VMBs. Foi lá que conheci Mano Brown. Os amigos de meu filho de 14 anos não acreditavam quando eu dizia que já tinha falado com Mano Brown e que ele tinha sido muito amável — tendo inclusive me pedido para ir até a mesa em que estava sentado para me apresentar a sua mulher: os adolescentes da Zona Sul (no que se igualam aos da Zona Norte e aos das favelas) têm Brown como um semideus, um líder inatingível. Pois, na noite em que acabara de ensaiar com Criolo na MTV, anteontem, Brown me convidou para assistir a Boogie Naipe, um projeto paralelo que ele toca com amigos de dentro, de fora, de perto e de longe do quarteto dos Racionais. Ice Blue está com ele sobre o palco. Cantores e rappers (Helião, Lino Krizz, Vanessa Jackson, Flora Matos, Terra Preta), DJs (Sing e CIA) e dançarinos (com as caras pintadas de branco, em reconhecimento à importância que teve Marcel Marceau na criação da break dance) — e Seu Jorge. Este é, em muitos sentidos, um caso à parte: é o único instrumentista dentre os artistas presentes, e sua linguagem corporal é tão carioca (ele usava uma camisa onde se lia “Menino do Rio”) que o estilo paulistano da black music (com muito de disco) do coletivo fica ressaltado em sua precisão, inocência e originalidade. Não era a primeira vez que eu via esse bando em ação. Justamente para levar Tom e seus incrédulos amigos para ver o líder dos Racionais, fui ao Centro do Rio assistir a uma apresentação do Boggie Naipe, pouco menos de um ano atrás. Tal como agora em São Paulo, vimos um Brown sorridente, em quase nada semelhante em atitude ao sisudo frontman dos Racionais MCs, muito soul, disco, funk, Seu Jorge e tudo o mais. Os amigos de Tom ficaram impressionados com a costumeira amabilidade do Mano em relação a mim (aliás, ele foi muito mais formal com os meninos do que comigo: educado, não finge intimidade  com quem não tem, embora demonstre calor com quem já conhece e a quem já deu mostras de amizade).

Tal como tinha acontecido no Rio, Mano Brown me chamou para que subisse ao palco e cantasse “Sampa”. Como todos sabem, é a canção que anuncia que São Paulo, uma vez chamada de “túmulo do samba”, é futuro quilombo de Zumbi, o que pôde ser tomado como uma profecia do nascimento de coisas como os Racionais. Depois de ter ensaiado “Não existe amor em SP” com Criolo (que Fernando Salem observou que tem parecença física com Diogo Nogueira), toda essa exuberância de interações (de Tatá Wernek a Terra Preta) me pôs num estado de ânimo que tem muito de vontade de morar em São Paulo, saudade do tempo em que vivi aqui, esperanças na união de forças das novas gerações de paulistas e cariocas (o eixão Rio- Sampa existe e não deve ser demonizado, embora Fábio Cascadura seja um dos melhores cantores que o rock, o Brasil, já teve e mora na Bahia  , enquanto o fino  Glauber Guimarães está em Sampa produzindo mas ainda não reprofissionalizado), um flash do enfrentamento dos Browns, Carlinhos e Mano, um sentimento da força do pop, com o Brasil nele.


Caetano Veloso__24 Oct 2011 

Agrimensor Bene Nio


Es notable la cantidad de partes y de órganos que puede perder una persona y aun así seguir incólume, o casi. Como una estatua antigua, con apenas cincuenta y cinco años de edad el agrimensor Bene Nio ya ha perdido las piernas y los brazos, buena parte de la pelvis, el hombro derecho, además le falta casi toda la mitad izquierda de la cabeza y también el ojo y la oreja derechos, y por eso ya no ve ni oye; le ha desaparecido la nariz, y la lengua -o lo que queda de ella- está parcialmente al descubierto y se le ha endurecido de modo tal que no se entiende bien lo que dice. Vive sentado, si puede decirse así, en una especie de silla de ruedas que parece más bien un carrito para hacer las compras, y dentro de este carrito, embutido y atado para evitar que se caiga, está el agrimensor Nio. Manos solícitas lo llevan de un lado al otro, oídos todavía sanos escuchan sus órdenes y las interpretan; porque el agrimensor, afecto desde siempre a las tareas del campo y a los nuevos métodos de avanzada, es hombre de una actividad envidiable. Es dueño de una serie de cañadas, montes y barrancos en el Alto Lazio, terreno arcilloso y friable que el agrimensor Nio se ha propuesto sanear con numerosos proyectos que le ocupan todo su tiempo. Antes que nada, el proyecto de irrigación, que se nutre de dos grandes manantiales permanentes existentes en la propiedad y que en pocos años promete transformar esos desiertos en una tierra prometida. Luego, el proyecto de forestación que, con la ayuda de la Dirección Forestal, transformará en pocos decenios esa tierra prometida en un jardín colgante. Mientras tanto el agrimensor Nio está haciendo cercar todo con sólidos postes de cemento y con una red de dos metros de alto, para después meter dentro toda clase de animales y de aves exóticas, y transformar ese jardín colgante en un Edén. El proyecto de riego prevé una hermosa piscina olímpica para uso particular del agrimensor (o de lo que queda de él), ya que el agua de los manantiales es más que abundante. Después construirá, en los puntos más panorámicos, media docena de pabellones de caza o de descanso, comunicados entre sí por cómodos senderos asfaltados; todos contarán con luz, teléfono y demás servicios indispensables para la vida moderna. El agrimensor Nio piensa terminar este paraíso en apenas veinte o treinta años, luego de lo cual espera vivir allí: después de todo aún es joven.

FIN

autor argentino Juan Rodolfo Wilcock (1919-1978).

Fonte : Biblioteca Digital Ciudad Seva





Cerveja no cárcere




Fiz este poemeto em homenagem a Porto Alegre, cidade onde nasci, ou melhor, onde estreei, e vivo.

Cidade do meu cansaço,

Do meu repouso também,

Lhe amo, lhe quero bem,

Porque no fundo contém

Os liames dos meus amores,

Cidade dos meus queixumes,

Cidade dos meus ciúmes,

Cidade das minhas dores!

É indevida a esmola que tu deres quando o mendigo que a receber se alegrar mais do que tu.

O bem que se faz não tem memória. O mal que se faz, este nunca sai da memória.

Fui almoçar ontem no Bandejão, o restaurante mais popular da RBS. Comi esplêndida abobrinha com queijo gratinado, pastel de galinha, arroz, feijão, bife de alcatre com molho de carne, sopa, salada, suco de frutas diet e de sobremesa um delicioso creme de amendoim.

Disseram-me que para nós, funcionários, a refeição custa apenas em torno de R$ 2,50.

Deli Matsuo, o novo vice-presidente de gestão e pessoas da RBS, andou também lá pelo Bandejão, antes de mim, o que prova que por onde ele passa continua crescendo a minha grama.

O senador Paulo Paim (PT-RS) solicitou da tribuna do Senado Federal um voto de aplauso a este colunista pela comemoração de meus 40 anos de trabalho na RBS.

E leu por inteiro da tribuna a coluna de sexta-feira passada, quando transcrevi a letra do samba-enredo que a Imperadores cantará na avenida no ano que vem, em homenagem ao próprio Paim.-

Não há turno mais propício ao tédio do que a tarde de domingo. A semana foi pesada e ameaça voltar na segunda-feira.

Essa monotonia cotidiana é amassante e se a gente não passeia com o cachorro ou não anda de bicicleta, ameaça soçobrar.

O trabalho enobrece o homem, mas cansa pra burro.

Essa notícia da apreensão de 2.600 latas de cerveja no interior de uma prisão para policiais militares no Rio de Janeiro é objetivamente um marco na desordem que grassa pelo país.

De um lado, já estranha que haja 300 policiais militares presos em um estabelecimento, eles tinham sido talhados para prender e cuidar de presos e acabam se tornando detentos.

Por outra parte, soa como odioso o privilégio de que presos consumam 2.600 cervejas. Mas, num país em que é proibido o consumo de cerveja nos estádios de futebol mas se permite à Fifa que haja exceção na Copa do Mundo de 2014 e voltará então a se beber cerveja nos estádios, tudo é possível.

Ninguém sabe explicar como podem passar pelo portão principal de uma prisão 2.600 cervejas sem que os responsáveis pelo estabelecimento carcerário tomem conhecimento dessa carga.

A que serviriam as milhares de latas de cerveja? A um aniversário de preso ou a um show que apresentaria o Zeca Pagodinho, cantando com uma lata de cerveja na mão?

É o fim da picada!

PAULO SANT’ANA -  26 Oct 2011 


Lustres e parafusos



“A minha empatia não suporta desumanidade nas políticas públicas.”

Salvador Célia

Noite dessas, sonhei com o Scliar. O clima era obscuro, mas dava para ver claramente. Ele vestia camisa azul, terno, gravata. Pedia ajuda no conserto de um lustre. Apertamos dois parafusos, e acendeu-se a luz.

Passei a manhã sem vontade de interpretar o sonho. Sentia-me feliz de vivê-lo, e pronto! Foram alguns instantes com o Scliar, a implicar-me com o seu pedido, e isto valia mais do que qualquer explicação. Estava em Fortaleza e fui dar uma volta. Na Beira-Mar, havia um monte de prédios luxuosos e muita gente dormindo na rua. Então me lembrei do poema O Bicho, do Manuel Bandeira e da prosa do Emile Zola.

Também do quadro Guernica, do Picasso, e pensei que estes caras reacenderam o mundo onde andava mais apagado. Daí a imaginá-los apertando parafusos para ativar um lustre, foi um passo. E davam-se muitos, perto do mar. Voltei a pensar no sonho como forma de resgatar a aventura humana.

Mas a presença do Scliar era viva e também parecia maior. Embalado pelo Bandeira e o Zola, repassei algumas cenas em que vi a arte acudir a vida. Numa delas, trabalhava no abrigo de crianças abandonadas pela dificuldade de mulheres serem mães, e homens, pais.

Tínhamos contado a história dos três porquinhos e agora propúnhamos um teatro. Meus colegas e eu acreditávamos que, se uma criança ouve histórias e aprende a encená-las, ela adquiriu a capacidade de lidar com a vida e com a morte. Havíamos providenciado um punhado de palha, outro de madeira e uns tijolos. Estava tudo ao alcance de nossos protagonistas. Os três meninos seguiram o roteiro da primeira cena e se despediram da menina-mãe.

Disseram que iam embora, porque desejavam conhecer o mundão, palavra deles. Já se preparavam para fazer de conta que construíam as casas quando a menina, de repente, recriou a sua personagem e proibiu os filhos de saírem. Era agora uma mulher enorme com o olhar atento para acolher demandas, colocar limites e desempenhar o papel principal de mãe que ama. Permaneceram todos juntos, longe do texto original e perto de quem mais queriam. Tinham ido ao reino da imaginação, de onde costuma voltar-se fortalecido para a realidade.

Arte em vida, parafuso apertado, lustre aceso. A possibilidade de reinventar a própria casa, consertar o mundinho real até que ele seja maior ou, pelo menos, conforme precisamos. Era o que pensava, mas o reflexo do sol no vidro dos prédios alcançou os mendigos bocejando. Então, parei de explicar e voltei a sonhar com o Scliar.

 CELSO GUTFREIND -  27 Oct 2011  

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Prazo de validade




RIO DE JANEIRO - "No meu tempo, já existiam velhos, mas poucos." A frase de Machado de Assis nos leva a supor que havia mais velhos quando ele próprio se tornou um velho. E hoje, muito mais ainda, embora os manuais de redação recomendem que não se fale mais em "velhos", mas em "idosos".

Não parece, mas a humanidade, com todas as conquistas técnicas, científicas e sociais que adquiriu ao longo dos séculos, não sabe ainda lidar com aqueles que se esquecem de morrer e passam a engrossar a legião de idosos ou velhos -dá na mesma.

Houve um povo na Antiguidade que pegava todos aqueles que tinham validade vencida, levava-os a um precipício e ficavam livres de uma boca a mais para sustentar. E de conceder meia-entrada para os jogos da próxima Copa do Mundo -conforme deseja a Fifa e o Brasil está propenso a aceitar a discriminação.

Pelo costume nacional, estudantes e idosos teriam direito à meia-entrada. Mas é fácil descolar uma carteira de estudante.

Mesmo assim, conhecendo o jeitinho brasileiro de tirar vantagem em tudo, é possível que os estádios fiquem lotados de velhinhos com carteiras catimbadas e muitas, muitas bengalas, todo mundo expectorando -será um espetáculo à parte.

Aliás, um dos problemas que ameaçam a humanidade é a perspectiva de vida que a medicina e os hábitos saudáveis recomendados pela televisão ajudarão a aumentar o time dos idosos.

Juntando tudo com a pílula anticoncepcional e as medidas que alguns governos estão tomando para evitar a explosão demográfica, limitando o número de filhos (na China já existe lei a respeito), em breve todos teremos direito à tal meia-entrada da Fifa, passagens grátis nos transportes coletivos e filas especiais nos bancos e nos guichês das empresas aéreas.


CARLOS HEITOR CONY - FSP.27 Oct 2011 

Com o lenço à mão




Muitas pessoas já tinham me falado do livro Las Cartas que no Llegaron. E toda a gente dizia que era um livro “para chorar”. Tentei comprá-lo numas férias no Uruguai, pois o escritor (e também poeta, jornalista e secretário da Cultura de Montevidéu) Mauricio Rosenkof, 78 anos, é uruguaio. Mas não o encontrei, e a leitura ficou na vontade. Há poucos dias, na Alemanha, um querido amigo catalão falou-me do livro – e fez mais: deu-me um exemplar de presente.

Tão longe, tanto tempo depois, por uma dessas voltas da vida, Las Cartas que no Llegaron caiu nas minhas mãos. Com o livro na mala, entrei num trem para Berlim. E caí em prantos naquele moderno trem silencioso, onde educados passageiros alemães me olhavam espantados, enquanto eu viajava pelas palavras e memórias do autor, desde uma perdida aldeia judia na Polônia até os calabouços mais escuros da ditadura uruguaia, onde Rosenkof – jornalista, escritor e um dos líderes do Movimento Tupamaro – foi trancafiado em 1973.

A história dos Rosenkof é impressionante, louca e triste, angustiante e cheia de esperança. E o autor, que construiu esse livro quadro a quadro, mentalmente, em conversas imaginárias que viria a travar com seu pai ao longo dos 13 anos nos quais viveu numa solitária subterrânea como refém do Golpe de 73 (ser refém significava, no caso, morte imediata se algum ato ameaçasse a segurança das Forças Armadas uruguaias).

Rosenkof não morreu – definhou fisicamente a ponto de não mais alimentar-se sozinho e precisou receber um mês de tratamento hospitalar para ser libertado, em 1985, diante das câmeras de TV e da opinião pública. Rosenkof resistiu ao calabouço, ao escuro, à umidade e à terrível solidão com a ajuda da ficção. Porque escreveu mentalmente todos os dias.

E todos os dias, aproveitando a sua única regalia (alguns maços de cigarro por mês), escreveu poemas nos papelotes prateados contrabandeados para o exterior em esconderijos dentro das roupas que seu pai – única visita autorizada – diligentemente recolhia, levava à casa para lavar e passar, e trazia de volta ao filho.

Las Cartas que no Llegaron é um grande diálogo de Mauricio Rosenkof com o seu pai, um alfaiate judeu polonês que saiu da Polônia pouco antes da invasão alemã e que esperou durante vários anos uma notícia da família na Polônia. Mas veio Hitler e o Holocausto, e veio Auschwitz – e as cartas nunca chegaram.

E depois veio a Ditadura, e veio o calabouço, e esse mesmo alfaiate viu seu filho ser roubado do mundo e da luz do sol por longos 12 anos. Uma história impressionante – eu não diria triste, diria corajosa. Pena que o livro (já bastante premiado) não saiu ainda no Brasil. Mas vale a pena esperar que alguma editora corrija esse lapso. Então, prepare o lenço e boa leitura.

 LETICIA WIERZCHOWSKI - FSP. 27 Oct 2011