quinta-feira, 18 de junho de 2015



Versado em versos controversos, o poeta no fundo é um perverso.

Otto Leopoldo Winck
Cabra de bode, rsrsr...
Como já disse, de bode com a fotografia e comigo,
claro que fotografei o céu malhado de ontem.
Dava tchau ao outono.


Lina faria
Entre versinhos e versões, eu vou fazendo os meus versos... O resto é alucinação. Ou outro universo.
A gente nunca sabe quando vai ser a última vez: o último encontro, a última conversa, o último beijo, o último aperto de mão... Se a gente soubesse, a gente se prepararia melhor para este último gesto. Nossas palavras seriam mais solenes, nossas atitudes mais circunspectas. A gente tomaria mais consciência do que está fazendo ou falando. Mas talvez seja melhor que não saibamos. Não suportaríamos a certeza de que aquela seria a última vez. Foi assim com ele aquele dia. Eles se encontraram, eles se se beijaram, eles se amaram, eles se despediram, achando que iam se ver outras vezes, muitas vezes. Só que seus caminhos de repente se afastaram, sem que nenhum tivesse previsto ou pretendido isso. Nunca mais se viram. Ainda se falaram algumas vezes pelo telefone. Mas depois de alguns meses nem isso. Até que muito anos depois a notícia chegou aos ouvidos dele. Ela tinha morrido. Ou melhor: tinha se matado. Um tiro na cabeça. Se ele soubesse que aquela ia ser a última vez que se viram, ele teria dito: Olhe, não leve a vida tão a sério.

Otto Leopoldo Winck

O TÉDIO DE DEUS


Reforjando nuvens
no rarefeito ar das cordilheiras
onde dormem incas
insepultos,
Deus pensa e pesa e vagueia
e descontenta-se
e repensa o homem
(esse ser criado sem querer de um barro infecto).
Séculos secam-se.
E Deus prossegue pensando,
aborrecido,
e desenhando nuvens inverossímeis nos céus barrocos.

Otto Leopoldo Winck
Dans L’air
Tínhamos a mesma idade
Quando vimos o mar
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
– Rimbaud e eu –
Por isto
Pisamos telhados
Ao invés do chão
Por isto
Machucamos nossos amores
Com nossas próprias mãos
Por isto
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe
- Por isto, tão pouca a vida
para tanta voracidade -


Bárbara Lia
" Alias, mais uma vez, quero deixar uma coisa bem clara, eu preferiria que nada daquelas barbaridades, daquelas merdas tivesse acontecido, que nem o Atahualpa, nem a Violeta Parra, nem um monte de outros poetas e autores, músicos, fotógrafos e cineastas, tivessem precisado escrever um monte de poemas, filmes, fotografias e canções tristes. Preferiria não ter que responder perguntas sobre aqueles tempos. Outro dia um aluno de uma escola de comunicação me perguntou se a época da ditadura tinha ajudado minha fotografia a crescer. Eu preferiria que minha fotografia nunca tivesse acontecido a ter crescido com ajuda daqueles tempos. Preferiria saber tocar uma boa sanfona, um bom forró e fazer retratinhos singelos de meus amigos, meus filhos, meus amores...."
 [João Urban]

Como quem rouba flor na madrugada
Como quem acaricia pássaro engaiolado
Como quem leva pão ao marinheiro triste
Como quem dança no coreto pós-guerra
Como quem tem uma cicatriz atrás da aorta
Como quem nunca bateu com força a porta
Como quem não canta cirandas nem novenas
E só sabe cantar "My Way" e "Non, je ne regrette rien"
Como quem sabe: A vida é uma quimera do avesso
Como quem beijou um amigo por pura piedade
Como quem vive pedindo licença para ser feliz
Como quem é feliz demais e ofende o mundo
Como quem se pune e foge da felicidade...

Bárbara Lia


- em um livro *inacabado*

PASTOREANDO UM BRUXO URBANIZADO


Interpele o mato a brotação a seiva
que borda obras custosas de artesão
sob os elos amenos do jardim indague
com que paciente amor foram tecidos
os fios luminosos da manhã
cuja cortina ondeada se biparte nos morros abjure
toda forma suspeita urbanizada
ou transmitida
por imperfeitas formas literárias
de assimilar o mundo espie
essa nudez de coisas que se entregam
à embriaguez da própria criação o lento
crescimento raízes
matizes o intento
imprevisível do capim a ilusão preguiçosa
de nuvens que desandam
e de repente chovem sobre a roça
um frio leque de água clara ouça
essa mensagem muda que o minuto
sopra: viva invoque vislumbre invente
mas não pergunte nada.

[poema do Leonardo Fróes - tomado da página do Alberto Pucheu -, pertencente agora à antologia Trilha, saindo pela Azougue Editorial, em seleção do próprio poeta e do Sergio Cohn]

"Tem horas que é caco de vidro
Meses que é feito um grito
Tem horas que eu nem duvido
Tem dias que eu acredito."

Paulo Leminski
sim, o negativo é infinito.
por exemplo -
você está sem ideias para escrever uma peça?
comece pensando em uma empresa
qualquer empresa falando para seus
funcionários - "a (...) é uma grande família"
qual o macete?
é que esta frase já nasceu profanada,
ou seja, sabemos que trata-se de um
grande absurdo comparar uma empresa
com uma família de verdade
(reunião de pessoas que se relacionam por laços afetivos),
nosso sistema já naturalizou
a forma como ouvimos "a (...)
é uma grande família" -
os anticorpos da nossa memória
já não encaram mais a crítica a
essa estrutura como crítica -
não adoecemos por isso.
portanto, a questão não é mais dizer
"olhem que absurdo isso"
ou "que foda viver assim"
(este tipo de crítica já foi
absorvida pelo mesmo sistema
que vende camisetas, séries animadas
e cria memes na internet sobre -
o que pode ser muito divertido)
a questão é instalar um novo vírus
para devolver a família real
uma forma nova de sentir dor.
para que fique insuportável
ouvir a frase "a (...) é uma grande família"
para que a autonomia de reconfigurar
pelo menos o software da estrutura
"a (...) é uma grande família"
retorne ao sujeito
simplesmente.
isso se consegue desarmando estruturas com
outras.
isso NÃO se consegue reiterando as mesmas formas de
criticar.
embora a gente ame o Tom Jobim, por exemplo
sabemos que tocar bossa nova no boteco
só irá criar mais morosidade cultural,
(e os donos de bares temáticos, inclusive,
AMAM esse tipo de situação)
não estou falando em esquecer o legado
de um grande compositor
MAS
mostrar uma multiplicação de tons jobins,
melhor
um tom jobim gigante colonizando SP
com acordes de bossa nova, essa réplica
banhando a av. paulista de uísque
elevadores tocando "garota de ipanema"
em ritmo de luto, numa tonalidade menor
tudo dentro de uma estrutura crível, fora
do esquadro fantástico...
CARALHO!

(É disso que trata minhas duas últimas peças que pretendo encenar com a Amanda Mantovani e o Bruno Ribeiro)


Alexandre França 

DESEJOS


Ao vê-la naqueles trajes, não resistiu:
— Venha, estamos a sós, senta aqui do meu lado.
— Não, por favor! Me respeite, sou uma freira.
— Eu sei, por isso que eu te quero, continua sendo uma mulher.
— Respeite meu hábito!
— Respeite você o meu e o seu desejo.
— Sou noiva de Cristo.
— Seja noiva dele, não me importo desde que seja minha amante. Vem...?
— Não posso, entreguei minha alma a Deus.
— Ótimo, Não quero sua alma, ele fica com ela e eu com seu corpo.
— Não! Por favor, não chegue perto.
— Sim! Deixa eu te mostrar os prazeres da carne.
— Não fale assim, parece coisa de Satanás!.
— Não vamos colocar Deus nem o diabo na nossa transa, ficara broxante. Isso é coisa de homem e de mulher.
— Não chegue mais perto, não... Não, não vou resistir! Aqui é um lugar sagrado...
— Hum... Todos os lugares onde se pode fazer amor são sagrados.
— Que está fazendo seu louco? Está rasgando meu hábito com seus dentes, assim eu não...
— Sim, sim...
— Ai! Não, sim... sim.
Meia hora depois, ela diz:
— E agora, como vai ficar, o que vamos fazer?
— Não esquente, relaxa... Foi bom?
— Hum!... Demais! Mas, como vou fazer pra devolver hábito para loja de fantasias? Você arrancou todos os botões.
— Amanhã veremos. E o Junior, amor, já melhorou da tosse?


JDamasio / A compota de Pimenta e outros Contos "puramente" Picantes 2009

ASAS QUE TENHO POR DENTRO


NALDOVELHO

Realidade é coisa sem graça,
qualquer um pode viver,
mas só eu posso ousar
o que meu coração há de querer.
Por isso sou poeta,
ando misturado às pessoas
e consigo viver aqui fora,
sem me perder do que tenho lá dentro.
E lá dentro eu tenho asas
de viajar pra bem longe,
de romper fronteiras estranhas,
de desafiar a dança do tempo,
de descobrir sementes de um rio,
de seduzir poderosa Iara,
de colher da flor mais bela o seu cio,
e de semear a luz que trago "odara". (*)
Lá dentro eu tenho o milagre,
de sobreviver a madrugadas insones,
de gerar o carinho que eu posso,
de reconstruir em meio a destroços,
de curar todas as minhas feridas,
e ainda por cima te ofertar o remédio
que há de suavizar teu coração.
Por isso sou feliz aqui fora,
pois consigo colher bem lá dentro
o alimento que te oferto agora.


Odara: palavra de origem HINDU
Significado: PAZ - TRANQUILIDADE

Raciocínios Karanzísticos


Infelizmente só me tornei próximo dele poucos meses antes de sua partida. O tempo que privei de sua companhia foi de alegria intensa. O livro do Karam de que mais gosto é o Encrenca. Mas em cada linha de todas as suas obras nos deparamos com uma inquietante inventividade, vivenciamos o espanto. Seu humor filosófico nos retorce o cérebro. A veia poética é certeira e luminosa. Manoel Carlos Karam é um desses gênios que fez o impossível com a linguagem. E foi um homem generoso, abriu casa e coração para os escritores mais jovens. Espero que um dia minha barba fique branca e vasta como a dele.
Se impossível é falar de si, mais impossível ainda é falar do outro, já que ao falar do outro, fala-se de si, ou seja, do que se desconhece. E este é um raciocínio, digamos, bem Karanzístico. Sei que assusta e pinta um mundo em que o caótico e o absurdo reinam. De todo modo, é justamente dentro de tal mundo que, incrivelmente, nos conectamos, nos comunicamos e, mais incrível ainda, criamos. Fomos nós os humanos que fizemos o amor, a literatura, a ciência, os conceitos, o pão de queijo e, que remédio?, o sertanejo universitário. Inventamos outros mundos possíveis a partir do impossível deste que convencionamos chamar de real. E os outros mundos inventados, então, ao longo do tempo, passaram a fazer parte deste maior, mais real, quero dizer, culturalmente mais aceito. O mesmo processo se está dando com a obra do Karam. Mas antes de entrar aí, quero nos perguntar como puderam tais proezas os homens e as mulheres que estiveram aqui antes de nós? Como poderemos nós fazer tal coisa? Isso de sermos inventores. Acredito que lançando-nos na direção do desconhecido para só então vir a conhecer. Mas conhecer o quê? O que talvez justamente não se dê a conhecer jamais. Porém, não me sai da cabeça a seguinte sentença: estar vivo é estar exausto e fazer de novo... fazer de novo.
Nietzsche disse, não é?, me ajudem, mais ou menos assim: não há sentido algum na existência, por isso mesmo é preciso inventar o sentido. Muito bem, Karam inventou o seu: a literatura. Estou certo que Karam teve a coragem e a dedicação para desejar e criar o futuro. Esteve sempre lá adiante, como disse o escritor Roberto Arlt, por prepotência de trabalho. Humilde e generoso em sua vida social, Karam, no que diz respeito a sua obra, teve tal prepotência, tal ambição. Ele realizou algo na vida.
Do meio de um mundo sem-sentindo, absurdo, trágico, Karam fez o melhor de si. Fez luzir alto sua obra. Como bem disse dele Joca Reiners Terron: Karam mirou o século XX e acabou por acertar o XXI. Se por um tempo sofreu de uma espécie de injusto ostracismo em relação ao mercado e ao público leitor (rompido volta e meia por ilustre galeria de fãs incondicionais como o próprio Terron, mais Nelson Oliveira, Paulo Sandrini, Luci Collin, Assionara Souza, Carlos Henrique Schroeder, Daniel Pelizzari, Ronaldo Bressane, apenas para citar alguns), ostracismo, aliás, bastante incompreensível e, por tanto, semelhante ao de Campos de Carvalho. Diga-se, Karam foi tão genial quanto o autor de O púcaro búlgaro e A chuva imóvel, levando a invenção literária do século XX às últimas consequências no Brasil, o que, para o bem de todos, os lançou diretamente para o XXI, os colocando como, mais do que pais, pares de autores como, por exemplo, Gonçalo Tavares, Mario Bellatin, entre outros. Para o escritor Karam, o futuro; para sua obra, a contemporaneidade.
Pretendo ficar à vontade aqui com vocês como fosse outra vez a cozinha da casa do Karam, em que estive duas vezes, se bem me lembro em 2007. Karam e sua esposa Kátia a nos servirem, a mim, Nadja Naira e Michelle Pucci, uma variedade de queijos, pães, vinho e, sua bebida preferida, cerveja Heineken, que na época ainda não era tão popular no Brasil. Eu nunca tinha tomado tal cerveja e julguei o gosto de Karam sofisticado. O ano era o de 2007, me confirma agora por telefone Diego Fortes, e na sua cozinha Karam abençou a leitura pública que faríamos de seus textos, no ACT (Ateliê de Criação Teatral), dali poucos dias. Nadja era a diretora do trabalho e, além de mim, formavam o elenco Michelle mais Diego, Alexandre Nero e, o filho músico do escritor, Bruno Karam. Diego e Nadja, com a Armadilha Cia. de Teatro, viriam, após esta leitura, se debruçar em constante, competente e frutífera pesquisa da obra de Karam. Resgataram suas primeiras peças num ciclo de leituras públicas e encenaram novas configurações de textos colhidos em todos seus livros. Tudo isso veio dar mais no mês que corre num projeto de conclusão de curso de Letras na UFPR de Michelle Pucci, em que sua banca de defesa transformou-se num monólogo brilhante com ela atuando e direção de Nadja, onde os textos de Karam voltam à cena.
Na segunda vez em que estivemos na cozinha, famosa por receber vários daqueles autores da Geração 90 (integrantes da antologia organizada por Nelson Oliveira), que tinham em Karam grande inspiração, discuti ferozmente com Ulisses Galetto, nem mesmo lembro por qual motivo. Galetto era namorado da Michelle à época, por isso estava conosco. Karam já vinha bastante debilitado de uma série de quimioterapias. Por muito tempo me envergonhei de ter agido daquele modo ignorante e insensível com a situação pela qual Karam passava. Apesar de doente, no entanto, ele era só transmissão de alegria e generosidade. Depois, sempre tive e continuo tendo um bom e estimado amigo em Ulisses Galetto. A briga foi o pior da noite, mas a menciono para destacar que do encontro, por causa de uma das minhas provocações, Galetto acabou por musicar um poema que está no capítulo 10 (pág. 83) do Pescoço ladeado por parafusos.
Pescoço ladeado por parafusos (2001, Ciência do Acidente)
Suspeito que Pescoço ladeado por parafusos surge das leituras que Karam teria feito dos livros A construção da personagem e A criação de um papel, do encenador russo Constantin Stanislavski, em que ele sistematiza seu método teatral. Numa das visitas que fiz a sua casa, junto com Nadja e Michelle, ele nos conduziu por um passeio a sua biblioteca. Por se tratarem os visitantes de gente de teatro, que justamente na época aprontavam leitura publica de textos seus e assim devolviam o nome de Karam, afastado há anos por causa de sua dedicação à literatura, à cena teatral curitibana. Havia na biblioteca um “setor” inteiro dedicado ao teatro. Karam olhou para mim, que me espantara com a rica coleção, e disse daquele jeito simpático meio gaguejante que ele tinha: já tive um severo interesse por esta arte. Referia-se, claro, ao teatro.
Lembro de ter visto os livros de Stanislavski na biblioteca e, pelo que conheço das obras tanto do russo quanto das do Karam, lanço tal suspeita no ar para o estímulo de pesquisas futuras. De todo modo, adianto que a prosa de Karam é altamente teatral. Leiam-na em voz alta e saberão. Seus primeiros exercícios de escrita foram peças de teatro, para o Grupo Margem. Autor de fôlego, escreveu e dirigiu mais de vinte, nos anos 1970. Eugène Ionesco e Beckett como referenciais. Como mencionou em recente ensaio, Nelson de Oliveira: “seus personagens literários têm um forte vínculo com o teatro. Por exemplo, os amigos Benjamim, Hopalongue, Maria, Marta Júnior, Oliveira, Serafim e Silvestre, de O impostor no baile de máscaras. Eles protagonizam capítulos-esquetes e se expressam por monólogos ou por longos diálogos, prato cheio para qualquer adaptação para o palco”.
Sabemos que uma das principais exigências do texto teatral é a de que ele só se realizará plenamente numa existência em voz alta, ou seja, ele precisa ser materializado pela voz. Necessita ser levantado do papel e vir entranhar-se no corpo humano, no corpo do ator. Todo ator é mais ou menos o monstro de Victor Frankenstein, o estudante de ciências naturais que o constrói em seu laboratório, ou seja, um ser feito, construído e não nascido. Ora, personagens da literatura já são, grosso modo, exatamente isso, mas o personagem em processo de construção de Pescoço ladeado por parafusos explicita e problematiza tal questão como nunca antes o fizera a literatura brasileira.
Não vou entrar aqui nos capítulos do livro que se referem ao Jornal da guerra contra os taedos – na época ainda fragmentos de um romance por vir, feito, pelo que conta a lenda, muito por estímulo do livreiro Eleotério –, nem no Projeto de bestiário ou nas Anotações sobre os números, ou na Introdução à geografia do etc. Entrar nisso tudo me enlouqueceria ainda mais – e eu sei que é exatamente o que o Karam quer de mim, seu leitor. Mas preciso me controlar um pouco, ao menos até a fase pela qual passo ter seu ciclo encerrado. Estes títulos que citei aí em cima são partes, capítulos, do engenhoso puzzle de peças estrategicamente desordenadas, invertidas, que Karam monta e remonta em Pescoço ladeado por parafusos.
Permitam-me o direito de ficar apenas com a peça maior, a peça que vai aos poucos narrando a fabricação de um personagem, começando pela escolha do nome, indo ter na pesquisa do rosto, do corpo, da alma, etc. Aí está a síntese de um Karam-Frankenstein em seu laboratório literário. Num singular procedimento de metaficção, que acompanhou o autor ao longo de toda sua obra, e que aqui se dá em nível estrutural de radicalidade no que se entende conceitualmente por romance. Narrador e narrativa se fazem simultâneos à invenção do personagem. O que é um, o que é outro, quem é quem? Todos, narrador, narrativa e personagem aparecem como seres feitos, incompletos, não-nascidos. Um monstro de linguagem, o homem. Exatamente como os personagens do teatro, que exigem ser reconstruídos novamente e novamente por cada ator que decidir os representar, ou melhor, entranhar, para que sobrevivam ao longo da História.
Todo leitor de Karam será um ator, no sentido de que é uma leitura de suas obras é uma leitura que exige ação, é uma leitura dentro da qual se atua. Todo leitor de Karam será um ator ou não o terá lido.

LUIZ FELIPE LEPREVOST, notas e ensaios sobre literatura


LEPREVOSTLITERATURA.BLOGSPOT.COM

POR LUIZ FELIPE LEPREVOST

quarta-feira, 17 de junho de 2015


Sintomas de ausência tua



ao fio da meada



BEAT


entre a santidade
e a insanidade
não há mais que um vão
pois é: passei o rubicão
sou agora
– totalmente perdido
e beatificado –
pura iluminação.

Otto Leopoldo Winck

Poemia



Eu me pergunto, até que ponto a sinceridade é uma medida de autenticidade. Preconceitos também são "sinceros", mas nem por isso menos errôneos. A sociedade introjeta em nós de tal maneira seus antivalores que eles nos parecem naturais.

Otto Leopoldo Winck

Preconceitos sinceros a fonte salgada da Miragem


A  sinceridade é a lâmina da autenticidade que corta com o preconceito a lâmina da carne da sociedade .
A sinceridade é aço que brilha antivalor como sendo o fio mais precioso de sua natural condição
Sem cera ou verniz a crua face sem máscara na mirada decidida do erro.

Wilson Nogueira

Ricardo Pozzo

Haveria um paradoxo no fato de que construímos a realidade a partir do Real, cuja percepção nos é negada pela Psicanálise? A partir de qual estrutura, então, construiríamos a realidade?
Ou simplesmente temos a impressão de que estamos escolhendo o que já foi pré escolhido por algum Outro, diariamente?

“Tenho ganhado curtidas mesmo sem ter postado nada. Quero avisar que está é uma pagina militante de esquerda. Assumi a pecha de esquerda caviar porque não me incomodo com essa adjetivação. Sou sim classe media alta, sou sim socialista de coração. Se você acha que por morar em Alphaville não posso apoiar o movimento de luta por moradia está no lugar errado. Esteja avisado.”

Engels também era "esquerda caviar ". Stálin o teria enviado para um campo de reeducação vulgo Gulag...A sorte de um era ua não contemporaneidade.O  "s" virou dissidente e está no México com outro proletário artista que também, era assim, um subvertedor do caviar dos Rockfeller ...Diego Rivera. A encomenda de um Mural por parte do mecenas Rockfeller para o trotskista deu no que deu. Não. era artista preferia alguma ova de um peixe proletário, era livre e se pensava revolucionário. Era .O mais fino caviar como qualquer pescador do Negro ou do Cáspio provaram como quem passa banha de porco no pão.

Wilson Roberto Nogueira


terça-feira, 16 de junho de 2015

BENTOSIAR


Izabel T. da Rosa


POESIA NUMA HORA DESSAS?!
POESIA E VIOLÃO?!
Vou ver POETAS NA PRAÇA.
A VOZ DOS POVOS NOS CAMINHOS DE QUINTANA.
UMA IDEÍA TECE A OUTRA.
Sinto todo o meu FLUXUS.
Construo a TORRE DE BABEL,
O MIOLO DO POTE EM CANTIGAS E VERSOS.
Quero sentir os meus AIS
numa RODA DE POESIA
ou num RITUAL POÉTICO EM SEIS MOVIMENTOS.
O verso ganha então CANTARES D´ AMÉRICA.
Bento é POESIA EM MOVIMENTO,
é a POESIA VISUAL.
E SE COBRIR É CIRCO, SE CERCAR É HOSPÍCIO
Chamarei QUINTANA E OUTROS GAÚCHOS
Na CONTRA CAPA DA POESIA – folia.
Depois disso o descanso
Lá na SINAGOGA ZEN
Vivendo SIMPLESMENTE POESIA.
E pra aqueles que atravancam
Meus caminhos
Entre PO&TEIAS digo:
"Eles passarão
Eu passarinho".

Recebemos uma homenagem.. o nosso Pó&teias, compôs  a poesia de Izabel da Rosa (professora de Literatura), amiga de Santa Catarina que participou do XIV Congresso Brasileiro de Poesia.
 Ao Homenagear o Congresso ela nos homenageou também, após ter recebido um exemplar do nosso livro!
Bom dia a todos
Beijos,
Andréa

201006
Dá-me a tua mão
Dá-me a tua mão.
Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
— para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.
Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.
José Gomes Ferreira, in “Poeta Militante I”
"o manifesto comunista
está ainda atual,
pois a causa da miséria
é aquele antigo mal:
são riquezas concentradas
em forma de capital"


o escritor cearense Antonio Queiroz De França, anarquista de 67 anos, se dedica a transpor clássicos da literatura mundial à linguagem do brasileiríssimo cordel.

 "Mundo, cisma religiosa doente, mercenários como sempre vendem "JOVEM JESUS" pregam à cruz como exemplo simbólico das desgraças DOS PRECONCEITOS dos céus das redenções, com lavagem cerebral dos interesses das "arcas e tempos" do Davi, Salomão, Maomé DE HOJE, que materializam a fé em "de'U$ e "diab'U$" dos trinta dinheiros que faz o mercado do templo explorando o povo da TERRA´MÃE DE TODAS." "terra prometida onde?"Boi'Bala'Bíblia?"

"70% da Televisão comprada pelo MERCADO MERCENÁRIO da fé, vendendo o JOVEM JESUS em LAVAGEM CEREBRAL MACHISTA por FUNDAMENTALISTAS contra a DEMOCRACIA NO BRASIL"

Luiz Herlain Herlain

Janela Vampira


A casa de Dalton Trivisan, tal como ele, inspira mistério e perversão. Cinza, num clássico estilo curitibano dos anos 30, 40, fica numa esquina, quase no meio da rua.
Ao mesmo tempo, intrigante e ameaçadora, sedutora e repelente.
Porém, não invisível com há de querer nosso mítico e arisco escritor. A casa, implantada alinhada à rua, não tem nehuma porta voltada diretamente prar ela.
Aliás, as grandes janelas das fachadas estão sempre fechadas.
Uma delas, voltada para a Amintas de Barros, tem só a enorme esquadria, denunciando que ali houve uma janela.
Como uma boca amordaçada, a Anastácia das janelas foi bloqueada por tijolos e alvenaria, sugerindo emparedar coisas inconfessáveis à luz do dia.
A alcova do vampiro, por detras de uma janela cega, mesmo escondida e surda, sugere sacanagens ruidosas às polaquinhas e moreninhas assanhadas da cidade.
Assim vê-se os domínios de Dalton e sua janela vampira.
É essa a despaisagem que sugere a austera fachada cinza.
Dentro, numa penumbra intransponível, o leve cheiro de café e o ranzinza ensimesmado em histórias deliciosamente cáusticas para nos fartar.

Lina Faria

revista  Etc - Travessa dos Editores, nº8:



o anjo da morte chega, olho de cobra
numa pupila ardente que retalha.
a carne íntima é um corte de navalha.
o mundo por inteiro é uma dobra."

RR
Nossa eu nem sabia que poeta tinha dia
pensei que fossemos só noite,
entardecer,
ou se esconder.
Um pó aqui,
uma teia ali.
A trama toda armada para nos fazer desistir.

Mas não,
deram-nos um dia.
Um dia.
Que seja
Sejamos poetas pois neste dia.
Lembrados talvez por nós mesmos.
Nada mais.
Pois é o que somos.
Nada mais.


Deisi
2006

Hum, que legal!!



Considerando que hoje é o dia do poeta,
Embora nenhum de vocês tenham me enviado um e-mail,
Um mísero recadinho no orkut [haha],
Uma poesia velha e amarelada,
Um micro-texto que seja;
De duas, 'uma':
Ou não me consideram poeta,
Nem escritor,
Porque dia 13 foi o dia do escritor e nada recebi, também...
Ou vocês não ligam pra isso...

Ah, mas talvez sejam os amigos-poetas mais esquecidos do planeta...
Talvez os amigos-poetas mais 'perdidos' e 'desconectados' que já vi...
Talvez os amigos-poetas de cabeça no texto, na rima, na personagem, no detalhe do ponto, da vírgula, constantemente em viagem...
Talvez nem passou perto de um calendário 'póetico'!!

Ah, mas esqueceram que os poetas e artistas são as criaturas mais vaidosas do universo?!
Pois, que um simples nome, que lembra não sei d'onde...
Que emprestado não sei de quem,
Que tem a letra não sei de que jeito...
Que olhando assim de tal jeito, quando o poente encara a lua...
Na margem do texto quase escrito e empoeirado...
Pode ser uma citação de quando em quando...
É a dita da palavra escrita da personagem que criada em tal prosa, lembrando assim de memória, já ficamos exitados...
O que diriamos nós, pobre 'não-imortais' que da cadeira nem se quer o parafuso temos...
...esquecer que hoje é o 'Dia Mundial do Poeta'?!

Considerando a lei federal n.º 166/76, repito de 1976, sendo também seria hoje o 'Dia da Poesia'!!

Assim sendo, essa homenagem ao menos consola meus brios literários de contentamento oportuno!!

Posto que aqui me componho a propor um virtual aplauso a todos nós...
Merecidamente, pois que se alguns não são poetas no seu âmago, são ao menos escritores de coração!!

Lembre-se: se os poetas não existissem, e os artistas de modo geral, ainda viveríamos da mesma maneira que na idade média...
Fedendo, cheirando mal...
Sem perspectivas, em um mundo quase animal...

Pois os artistas são os que sonham...
Que constroem suas vidas num vir-a-ser...
Num pressuposto mundo imaginário...
Que cristalizado é o que os não-poetas,
Os não-artistas tentam construir...
Tentam forjar...

Sim, das mentes de um artista
Nasce a vida...

Porque artes, antes de tudo, é transgressão
E se assim é: "Transgrida", sem objeção!!

Sérgio Vieira Martins...2006



Ser



Crânio e face.
Corpo e alma.
Protegidos por ossos e cinto de segurança,
das cinturas escapular até a pélvica.
Braços,mãos e tórax,
sustentados por coxas, pernas e pés.
Unidos por articulações e cartilagens.
Seguindo o fluxo das sinapses
e das substâncias branca e cinzenta.

Humano e desumano.
Anjo e demônio.
Contradições de uma mesma matéria em decomposição.

Sérgio Vieira Martins.2006


entre o tanque de roupa e da pia de cozinha:






Universo de espuma
Água fria
banho, limpeza.
Roupas jogadas,
úmidas de suor.

Sobras do jantar
a luz de velas.
Taças de vinho tinto,
xícaras de café.

Pilhas de pratos e panelas.
Limpeza e arrumação.

Quem dera um jantar romântico.
Apenas faltou luz no dia a dia.

Deisi perin

Manancial de instantes


O Frio:


25ºC
Pernambucanos ligam o ar quente do carro
Cariocas vão à praia mas não ousam molhar os pés
Mineiros comem um feijão tropeiro e tomam garapa
Curitibanos limpam o jardim

20ºC
Pernambucanos tremem incontrolavelmente de frio
Cariocas vestem um moletom e vão pro calçadão
Mineiros bebem pinga perto do fogão a lenha
Curitibanos de bermuda e camiseta tomam sol no parque

15ºC
Carros pernambucanos não ligam mais por causa do frio
Cariocas se reunem para comer fondue de queijo e beber vinho gaúcho
Mineiros continuam bebendo pinga mais pertos do fogão a lenha
Curitibanos dirigem com os vidros abaixados curtindo a brisa

10ºC
Decretado estado de calamidade pública em Pernambuco, dezenas
morrem de frio
Cariocas usam sobretudo, cuecas de lã, luvas e toucas
Mineiros continuam bebendo pinga e colocam mais lenha no fogão
Curitibanos botam uma camisa de manga comprida

5ºC
Pernambuco entra num clima de armagedon, sente-se como frango
congelado no freezer
César Maia lança a candidatura do Rio para as olimpíadas de inverno
e pensa construir pista de esqui
Mineiros continuam bebendo pinga e quentão sentados em cima do
fogão de lenha
Curitibanos fecham as janelas de casa.

0ºC
Começa uma nova era Glacial em Pernambuco
No Rio, César Maia veste 7 casacos e 2 milhões de cariocas se
reúnem na praia de Copacabana na festa do "Rio on
the Rocks"
Mineiros entram em coma alcoólico e fedem a bife queimado em cima
do fogão à lenha
Curitibanos fazem o último churrasco no bosque do parque, antes que
comece a esfriar

-10ºC
Pernambucanos, Mineiros e Cariocas viram comida congelada
Curitibanos começam a dizer: "Cara o tempo ficou brusco de
repente... tá muito frio, acho que vou tomar um leite

quente..."

[20 de outubro de 2006 - dia do poeta]

Marés Curitibanas



Endomingado no pântano das saudades daquele sol senegalesco, desfolhando, empilhando essências de volúpias e arrebatamentos. Nada como o verão para tomar o vinho das ânforas, fêmeas mais suculentas e lânguidos seus movimentos, convidativos seus olhares. Sol queimando corpos e refrescando de suor, revelando contornos velados em seda sorridente de transparências, vontades.
Janela suada imagem de sonho, abre o oceano, ela corre e pára, olha com olhos de oceano. Está como sempre esteve, Eva no Paraíso, vestida de suor e sorriso. Atravessa a cidade a pé, a pé nos caminhos pluviais, rios-artérias-urbanas, afogadas, afogadas de prazer sereia, de uma sereia curitibana.
Tu és a benção e o perdão deste clima niñes de monção atrapalhado, fala o bengali brasileiro que ama a água, como ama o amor que o pensamento leva, olhando aquela lótus que conduz ao Kama Sutra. Vapores enevoados de sonho despertado no coaxar de um sapo infeliz, perdido no charco ao desmaiar da noite preguiçosa, que não quer chegar.
E há quem prefira os becos escuros, dos excrementos da cidade, seu pus e náusea, suas secreções e odores de cloaca e morgue macróbia, onde a brisa faz a curva para não parar diante de um muro de farrapos e arames, hera e pesadelo.
A Curitiba do caminhante não é um esgoto a céu aberto, onde famílias-gabirus se apinham em cavernas de papelão, onde a vida vale a viagem de uma pedra.
Sonha os marés e arrecifes da bela cachopa molhada. Não a cotidiana realidade que sangra todos os dias de lamento a mãe que perdera o filho em um incêndio, porque tinha que trabalhar para alimentá-lo e não tinha com quem deixá-lo, deixou nas mãos de Deus que preferiu jogar dados na areia humana.
Que futilidade deitar emoções – vivas pequenas histórias a cada sutil movimento, se o Tsunami arrasta da terra bibliotecas vivas contidas nas cores, vozes, cheiros e temperos de povos inteiros retornando do inferno marinho só cinzas e cascas, cinzas junto aos restos dos condenados a sobreviverem aos seus entes queridos.
Um camaleão agarra com a língua uma libélula.
A cidade continua sendo construída e desconstruída no caleidoscópio da memória de um sonho, no trôpego caminhar de alguém que pensa estar acordado, caindo e caindo como em todas as manhãs, mergulhando no abismo.
Qual a finalidade da vida, além da dor, da mãe urrando sob o cadáver do filho ou é a completa ausência de si, como aquela que defeca a prole na privada. Um lapso, uma fronteira de papel separando instinto de razão, natural e social, a dor de uma só é mais profunda, mais próxima do que açúcares diluídos na água, estatísticas, meros números, alguém vê atrás dos números, rostos, sentimentos, histórias?
Continua em Curitiba, caminhando, o sapato já se dissolveu em mais uma lagoa entre a calçada e a rua-rio, em uma cidade que foi projetada para a civilização do automóvel, mesmo havendo eficiente rede de transporte urbano, lá está a horda de carros com uma única pessoa, afinal o carro representa status e poder sobre os sem-automóveis, poder de matá-los como moscas ou a eles próprios nos rachas. A propósito dependendo da carruagem pode-se pescar cada peixe-gata!
E mais um banho de graça no passar do rodante.
O catador de papel, homem-cavalo, puxa o carrinho, dentro uma criança no meio do lixo reciclável, ela segura uns vira-latas, nada mais Chapliniano, nada mais ilustrativo.
A chuva para, e pensa. A calmaria sem força, desfalecida dorme e uma parcela de si morre um pouco, sexo rápido da natureza com a cidade. Tsunami foi o sexo de uma ninfomaníaca com um estuprador, o homem estuprou a natureza e a natureza o matou de tanto fazer amor. A água é nosso berço primal, o líquido amniótico é o nosso quente mar onde os humores do afeto nos chegarem vibrações acariciantes ou em ondas revoltas dependendo da mãe terra onde estamos germinando. Assim é entre a Lua e os mares, do oceano e de nossas formosas fêmeas.
Chega que estou ficando diabético.
Para comer uma portuguesa lá na esquina o caminhante pára, e o pizzaiolo sem precisar que o freguês solicite, já sabe e diz: “- É pra já doutor em dez minutos a pizza portuguesa com borda recheada de catupiry estará pronta”. Ouve, porque ouvir não pede licença, a voz das ruas, uma esganiçada, outra, que exigiu toneladas de nicotina para produzir aquela voz cancerosa que causa arrepios nas cordas da harpa sensível de Grisette.
Nada como uma catástrofe colossal para que se extraia do ser humano o que ele tem de melhor, e de pior, praticamente toda a grande potência se mobilizaram para levantar recursos aos países afetados pelo “Tsunamis”, os artistas, o Schumacher endinheirado, os povos do planeta estão fazendo doações até o Timor, que é um país pobre doou o que não tinha, proporcionalmente doou mais do que os sovinas EUA do Bush, que prefere gastar para destruir, matar e saquear, deixe quieto, os americanos verão cortes na previdência, ensino público mas continuaram votando na quadrilha dele, porque quem elege nos EUA é o capital, que comanda a economia dos estados mais poderosos, com mais votos no colégio eleitoral deles, nos pequenos estados ele também tem voto, lá também tem os grotões como aqui, com mentalidade pré era da razão. Os Estados Unidos percebeu que perderia a corrida para japoneses, alemães e britânicos o quanto não lucrariam reconstruindo os resorts, abrindo financiamentos e de quebra puxando o tapete da influência chinesa, cada vez mais percebida como superpotência emergente, mas vieram os caipiras canadenses e atravessaram o samba com uma idéia estapafúrdia, de perdão da divida dos países como Sri-Lanka, Índia, Indonésia, Tailândia, Maldivas, Seychelles. De vagar com o andor, os banqueiros achariam esbanjamento de bondade, uma moratória de cinco anos, e claro haverá compensações para os tubarões e não só aos cevados tubarões do Índico, àqueles de Nova Iorque, Londres, Zurich.
Banqueiros não fazem caridade e o Tio Sam se apressou em declarar que não haverá um Plano Marshall para a região (nem um Plano Colombo como houve para o Japão). O Brasil mostrou presença e a ponte aérea da FAB levou o coração do nosso povo fraterno para minorar os sofrimentos dos flagelados, nossos irmãos asiáticos, doando remédios, alimentos não perecíveis, água potável, roupas e é claro de contrabando algumas urnas para os votos dos sul-asiáticos para as pretensões do Brasil ao assento no Conselho de Segurança da Onu, o que supostamente nos conferiria um status de potencia com direito de vos e vez através do veto. Pena que não tínhamos aviões suficientes para levar os mantimentos, isso requeriria algo além do discurso, para sermos uma potência precisamos nos impor também com o que temos para não pagarmos mico. Tomara que sobre uma oportunidade de negócios para a Petrobrás, Odebrecht, Gerdau.
O vizinho da mesa não só tem de podre o hálito, cuja fumaça chega ate aqui, invisível e nauseante, mas o quanto de falso há no que disse?
Finalmente a gostosa chega e dá-lhe Gallo. E a noite chega com um choro soluçado de uma garotinha de olhos verdes afogados em lágrimas, com a mão suplicando uma moeda, o desconhecido deu um pedaço de pizza para ela e embrulhou outro em um guardanapo para que ela o levasse para casa, ela coçou o nariz deu um sorriso e foi embora, apareceu um guri e ela deu o outro pedaço para ele.
Pensou. Chaplin outra vez, a cidade tem sua canção, sua poesia basta ter olhos para ver, pena que haja tanto tempo escasso em pressas viciantes de escravos voluntários. Pressa que consome uma vida objetivada em coisa, em máquina o homem, peça de uma engrenagem sem finalidade, estéril semeadura de clônica mediocridade cotidiana.
Falou o filósofo, do que uma vodka não é capaz. O álcool abre a porteira para a boiada do imaginado, do irrefreado adquirir substância no real sem fronteiras dos atos valentes na verborragia cachoeira de grunhidos gritados como orquestra de um homem só, desafinado e desafiador desalinho e abandono de si como aquela garrafa voando ou aquele que dorme em meio aos produtos de seus intestinos extrovertidos a cantar. Enfrentar sóbria a vida requer fibra e coragem o que não é fácil. A vida ela própria age como uma mãe bêbada ou um pai, progenitor que violenta a filha como se quisesse fazer-lhe um carinho mas a marca para o resto da vida.
 O caminhante com seus passos tropeças em suas próprias pegadas, se perde e perde-se  nas sendas, nas clareiras enganosas da floresta que pensou transpor, segue intuindo o caminho na confiança cega de um rio, que mais uns metros dentro da escuridão seca, secando a esperança de sair dali. Dorme na madrugada eterna nem um pio de coruja ou uivar de lobos, nada além do silêncio. Está morto, a morte é o vazio onde ele permanece na escuridão. Será o inferno ou ele estará no sonho de alguém, estará ele sonhando?
Caindo, caindo a queda sem fim, escuridão, onde estará, um eco seco na garganta, angustias, uma súplica ao sorriso da sorte, de encontrar enfim o fundo, o fim, que seja agora, mas apenas a vertigem eterna dos condenados, pesadelo, qual é a saída, e, sair do que, do vazio.
- Você já acordou com a sensação de se estar caindo? Fugindo do inferno de existir, voando por cima de si olhando a carcaça apodrecer.





Acordo. Passo os olhos nas notícias. Tenho a impressão que o Brasil virou um sanatório geral. Ô desânimo...

Otto Leopoldo Winck