quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020


quando eu tiver setenta anos

quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência.

Paulo Leminski

DE OLHOS FECHADOS




Do nada, às vezes,
De lugar nenhum

Surgem luzes invisíveis
A olho nu.

Escuro, ou vozes
Que me chamam

Espelhos se partem — um enxame
De vagalumes.

Nenhum vestígio
De que estivessem aqui.

O olhar uma lâmpada
Apagada —

Uma lua cujo rastro
Acende a lesma que a devora.

Em chamas, inchada,
Ela agora derrama

Seu sangue
Sobre estilhaços brilhantes.

De um outro céu.
Sorrisos, estranhas iscas do além.

Irreconhecíveis.

***
Em "Solarium" (Editora Iluminuras, 1994)
Rodrigo Garcia Lopes


Tenho andado contra o Tempo
que me tem aberto sulcos
nas faces gastas
e produzido rictos, não sorrisos.

Um dia pensei ser imortal.
Imortal é somente o anelo de sê-lo
enquanto se é.

Hoje, sentado à beira do grande Rio do Esquecimento,
deponho minha resistência
com flores roxas e versos velhos.

Tempo: vamos andar agora juntos
no leito imenso deste rio que me ignora.

(No horizonte o sol se põe sobre o Ocidente
que nasceu em Homero
e morreu em alguma viela de Tijuana.)

Prometo não chorar
para não aumentar ainda mais
o caudal de tuas águas mortas, Tempo.

Tenho andado contra o Tempo.
Agora, com o Tempo, sou o Tempo
de tempo nenhum.

Otto Leopoldo Winck

Tacitamente




Para tais finais ou
Seres reais,
Serem, mais.
Suportariam-se ou se
Entrelaçariam,
Interpolariam,
Perdurariam na mente
Como tais.

Afinal o que importa,
O que não é igual.

Sou a água pura que
Não permeará o esterco

Naqueles carnavais.
ACM


Por que perturbamos
o fluxo dos dias
com nossas retinas
cheias de cobiça?
Melhor descansar
e esperar que o outono
leve enfim as folhas
do verão fanado
e nos acostume
ao sono sem sonhos
que em breve seremos.

Otto Leopoldo Winck


canção d’aluada



para m.

podou-lhe a perna um acidente
se em torno a malta ri, indecente,
quando escorre, lesma esquecida,
de par em par em par doente,
– ignora todo o malquerente,
fecha as pálpebras dos ouvidos.

o sangue ou o bosque de abetos
realçam pungentes insetos
que dançam nos globos dos olhos
e na pelanca encanecida
queixam-se seus anos de vida
feito um bater d´água em abrolhos.

deus está-lhe sempre tão perto
e se anoitece e chove fetos,
como se fora o último amigo
(e ele soubera dos ocasos
a urgência rubra dos cavalos),
ela lhe faz um só pedido:

"dai-me um desses, pai, pr´eu velar,
berçar ao vento, acalentar!
súbito me farei lactante,
de um leite azul e muito grosso;
em meu seio como num poço,
receberá beijos na fronte!"

deus, para ela, não é silêncio:
abelhas com patas de incenso,
ou as gaivotas de lençol
a tinta verde dos fadários
na carne viva dos diários
ao sabor ferroso do haldol.

e à vida sentida sem margens,
deriva, stultífera navis,
arrebenta a quilha da testa;
degradando-se em tons de maio,
céu e mar se beijam no raio,
– e a barca vai a pique, em festa.

no idioma dos fogos sujos,
líquen da voz de caramujos,
língua de carvão, frágua e ferro,
fala com dentes, pêlos, unhas,
com a morte por testemunha:
há mil gritos em cada berro.

claudica com severo olhar
se alguém lhe oferece um manjar
– entre anjo, mendiga e sibila,
camélia, garçonete e gueixa –,
mordiscando a carne da ameixa,
preclara, antevê grande dia;

se lhe negam, porém, já viu:
nos cílios acende o pavio;
na pança encruada dos sapos,
transtorna pra fora do leito
a manta de banha e despeito,
e desdobra a língua entre cactos:

"hei, bruxarada, bruxarada,
quando faz rir a madrugada,
envido de cima do outeiro:
vou defecar em seus sapatos,
envenenar seus cães e gatos,
vou tacar fogo em seus cabelos!"

porém a ira logo termina,
ela é novamente a menina;
retira do caule um jasmim,
florescido entre as muitas farpas
do arame e a galharia e as sarças,
– o vôo ambíguo do rubim.

pequena, frágil, recolhida,
bem quando mais lhe dói a vida,
claustra o brilho opaco dum monge.
respira, parte a flor, se indaga
(o corpo nu no chão – jogada):
"como vim acabar tão longe?"

sonha a antiga vida das ruas.
vive, de resto, abandonada:
sem homem, sem filho; só a lua
que a leve de volta pra casa.
Rodrigo Madeira

SATORI




não sei
se foi na volta
ou foi na ida
do mercado
só sei que foi na rua

não sei
se foi no baço
ou foi na alma
só sei que foi aguda

aquela dor
com a iluminação que trouxe:

não interessa se estamos
ou não estamos
de passagem

nós é que somos a passagem
onde as coisas que ficam
deixam suas marcas
nas coisas que passam

e dessa mensagem
– anote aí –
eu, um modesto poeta,
sou o último profeta

Otto Leopoldo Winck


Uns lutam com pedras.
Outros, com palavras.
Há ainda aqueles que lutam com luto:
uma espécie de dor que não grita,
de lágrima que não rola --
mas que lacera, dentro,
feito pedra na vesícula
ou palavra que devora.

Otto Leopoldo Winck

O sol no deserto



Depois de muita luz,
Depois de muito pus,
Depois da tarde,

Depois do alarde,
E, mais ainda, depois.

Surge, insurge, ressurge e vai
Ao revés da história
E no viés da lei.

Surjo no horizonte do amor,

Sou letra, signo, mensagem
Sou passagem de som,
Sou mares sem tom,
Sou ou não sou.

O tempo se adiciona à aura
"Mil maneiras de preparar Neston"

No pomar de frutas do conhecimento,
Na angústia de sofrimento
Da fome
Todas as frutas eram fruto proibido

Proibido

Pelos patrões.
ACM

L’AMOR CHE MOVE IL SOLE E L’ALTRE STELLE




Teus olhos me iniciaram no assombro de viver:
fiquei perplexo quando descobri que não havia limites para o encantamento.

Ao caminhar pela praia,
debaixo da última lua da história,
eu compreendi que o beijo
é o pacto que une céus & terra & oceanos & povos & raças & línguas.

Teus pés me indicaram um novo caminho
enquanto teus dedos apontavam as estrelas do céu e os grãos de areia da praia do mar.

Podemos contá-las?
Fundaremos uma nova civilização?
Morreremos na próxima guerra?

As perguntas são tantas
que a única resposta é o espanto.

Mas o momento supremo
foi quando dois seios me revelaram
que todos os poemas do mundo
cabem na palma de uma mão.

Otto Leopoldo Winck

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

 Vou mentir para quem eu gosto
como vida de desenganos
A vida que levo leva me
lava de fogo liquido
liquefaz me na sombra a
fumaça
A você sempre direi a verdade
como a lâmina que espera me
na curva dessa viela vil
no meu anoitecer.


Wilson Roberto Nogueira
contar problemas para um copo de vodka
transforma os problemas em névoa
tóxico espelho da alma.

Wilson Roberto Nogueira

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

CORPO SANTO



Exausto das lides do amor,
lavo teus olhos
em que ficaram impressas
as imagens do dilúvio que nos afogou
e cujas pestanas se fecharam sobre o meu corpo torturado.
Escaldo teus pés
que conheceram as errâncias dos caminhos mais adversos
e calcaram a cabeça da serpente numa tarde de maio.
Banho o teu dorso
dócil às minhas mãos maduras
e acostumado aos trabalhos nas galés.
Com a água da primeira chuva do outono,
enxáguo teus lábios
que proferiram blasfêmias de inigualável encanto.
E finalmente banho o teu púbis,
escuro como a noite primeira,
e, dentro dele,
o fabuloso sol
que me incendiou.

Otto Leopoldo Winck

Sobre literatura e sinceridade



"O primeiro personagem que o escritor cria é ele mesmo.
Só os imbecis procuram um eu atrás do texto literário. Em literatura, a própria 'sinceridade' é, apenas, uma jogada de estilo. Um escritor medíocre não consegue ser 'sincero'. Técnica, coração.
Para ser sincero é preciso dispor das técnicas que indiquem, signem, sinceridade. Sem isso, a mais pura das explosões verbais, a mais direta, a mais 'espontânea', será apenas mais uma manifestação de imperícia literária. Um amontoado de bobagens que o tempo vai se encarregar de destinar ao lixo, onde jazem as ilusões."

Paulo Lemisnki, "Ensaios e anseios crípticos".

Dois mil e vinte


Dois mil e vinte
não permita
que a gente
se distraia
enquanto
a ráfia
escangalha
esse pedaço
de paisagem
que nascemos
ou escolhemos
pra dançar.

Não permita
dois mil e vinte
os piores
no caminho
nem que a besta
a fera e o lobo
açulados
pelo sangue
tirem nacos
dessa carne
do futuro
no futuro.

Leandro Sarmatz

RESSACA




A noite inteira
o mar bateu nos diques do meu coração.

Marinheiros bêbados,
prostitutas de olheiras antiquíssimas,
vagabundos, junkies, velhos nostálgicos
– vieram olhar com espanto
as ondas que se arremessavam loucas
no meu peito.

(Senti saudades do tempo em que fui peixe
e não havia guerras, fomes nem cartões magnéticos...)

Sim,
a noite inteira
o mar chorou embriagado, destroçando tudo:
pontes, prédios, pergaminhos, prolegômenos
e
um
olhar
– de quem, meu Deus, já não me lembro.

A noite inteira...

Pela manhã foram me encontrar na praia,
coberto de algas.

Otto Leopoldo Winck

Genuíno Estrelato



Se de luzes ou esperanças,
Em terras secas pela luz.

Pela mesma luz.

Se de horizontes aos intrínsecos
Catálogos de significados
Às reais metáforas.

Vivo.

E amo, escrever.

ACM




ANDAR, ANDAR




Ah, suave é ser sozinho
quando o perfume do vento
não nos traz melancolias
e andamos ao crepúsculo
apenas com a vontade
de andar e ir andando.
Atrás, saudade nenhuma
e nenhum desejo à frente:
somente o vento indeciso
a nos brincar nos cabelos
como os dedos de uma extinta
namorada, embalando
o coração quase sereno,
quase alegre – e um tanto triste.
Sejamos como uma eterna
despedida, pois os laços
– de amizade, de ternura –
são algemas invisíveis
ancorando os nossos passos
na estação já percorrida.
E não volvamos o rosto
para os rostos indistintos
– e já distantes – do cais:
eles vieram chorar
nossa morte diante deles.
Sim, morremos. Nada mais
nos reclama nesse porto.
Fantasmas que aqui nós somos,
não velaremos as cinzas
do cadáver que ontem fomos.
Seguiremos adiante,
não bem necessariamente
em frente, mas para onde
quiserem os nossos passos
vagabundos, indolentes,
sem saudades, sem desejos,
nem recordação de beijos
– se acaso os tivemos –,
com os corações vazios
e livres como esse vento
preguiçoso acarinhando
as profundas águas mansas
que refletem nossas sombras.
Sim, suave é ser sozinho,
tendo os seixos como cúmplices
e as flores por confidentes,
seguindo, seguindo sempre,
quietos sobre a estrada,
solenes sob as estrelas,
e sem desejar mais nada
que não seja andar, andar,
caminhar por tudo e sempre,
mas com a condição expressa
de ser – sim! – dos nossos passos
o nosso rastro e o caminho
entre auroras e poentes.
Ah, suave é ser sozinho.

Otto Leopoldo Winck

2020


2020
vai ser o seguinte

mais um ano
mais dois
mais três
mais mil
até que tudo que entristece
que empobrece
que aborrece
vá pra puta que pariu
...
antonio thadeu wojciechowski


Sim, sim, você é poeta que rima,
Olha pros lados, pra baixo e pra cima.
Pode rimar até com Getúlio Vargas
Nas suas horas doces ou amargas.
Pode rimar sobre Nelson Rodrigues
Com suas amigas, amigos e amigues.
Pode rimar mesmo com Eurípedes
(Aquele que te pegava nos velocípedes).
No entanto, contudo, com Carlos Lacerda
A rima não sai como você gosta?
Será que esse legado você não herda?
Ou acha esse final uma grande...

proposta?

Ijs

poema à irmã Aurea Leminski




minha hermana
meio Margareth Thatcher
Madre Teresa
Marilyn Monroe
Chiquita Bacana
me ensinou a dançar e ouvir rap, jazz, mantras
me cuidou nos fins de semana
brigou para escovar os dentes e ir pra cama
me ensinou que
a gente não
mas a vida sim
assobia e chupa cana
o que sou eu
mas não em mim
nela
emana

Estrela Ruiz Leminski

(Poesia é não. São Paulo: Iluminuras, 2011.)

Fonte : Ivan Justen Santana

Como assim "nem Jesus agradou a todo mundo"? A mensagem cristã é desagradável, sim: você deve perdoar, amar o próximo da mesma forma que ama a si mesmo, aliás inclusive amar os inimigos e oferecer a outra face ao levar uma bofetada.

Jesus ainda não foi digerido. Jesus é a náusea do mundo.


Ivan Justen Santana

O Coração É




O meu coração é uma criança num balanço
Atinge alturas altíssimas
e na descida o frio na barriga
até encostar os pés no chão
espalhando folhas
e levantando nuvens de poeira

O meu coração é um feirante em dia de frio intenso
De repente, lá na esquina, uma velhinha aponta com
Sua capa de chuva e o seu passo leve
Um e outro, um e outro, ele espera paciente

O meu coração é um farmacêutico sem diploma
que distribui receitas para doenças incuráveis
com a convicção dos crentes ateus,
mas às vezes acerta que a febre vai passar

O meu coração é o incrível Hulk destransformado,
pegando aquele ônibus para uma outra cidade
com aquela mochila nas costas
e o monstro no espírito

Assionara Souza

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

remorrer acontece a quem enterra a honra a cada dia
não há outro caminho a percorrer alem das vísceras  do cobarde dia a dia
a remorrer..

Morrerei uma vez sem mais .

Wilson Roberto Nogueira

NO TEMPO DA MINHA INFÂNCIA



NO TEMPO DA MINHA INFÂNCIA

No tempo da minha infância
Nossa vida era normal
Nunca me foi proibido
Comer açúcar ou sal
Hoje tudo é diferente
Sempre alguém ensina a gente
Que comer tudo faz mal

Bebi leite ao natural
Da minha vaca Quitéria
E nunca fiquei de cama
Com uma doença séria
As crianças de hoje em dia
Não bebem como eu bebia
Pra não pegar bactéria

A barriga da miséria
Tirei com tranquilidade
Do pão com manteiga e queijo
Hoje só resta a saudade
A vida ficou sem graça
Não se pode comer massa
Por causa da obesidade

Eu comi ovo à vontade
Sem ter contra indicação
Pois o tal colesterol
Pra mim nunca foi vilão
Hoje a vida é uma loucura
Dizem que qualquer gordura
Nos mata do coração

Com a modernização
Quase tudo é proibido
Pois sempre tem uma Lei
Que nos deixa reprimido
Fazendo tudo que eu fiz
Hoje me sinto feliz
Só por ter sobrevivido

Eu nunca fui impedido
De poder me divertir
E nas casas dos amigos
Eu entrava sem pedir
Não se temia a galera
E naquele tempo era
Proibido proibir

Vi o meu pai dirigir
Numa total confiança
Sem apoio, sem air-bag
Sem cinto de segurança
E eu no banco de trás
Solto, igualzinho aos demais
Fazia a maior festança

No meu tempo de criança
Por ter sido reprovado
Ninguém ia ao psicólogo
Nem se ficava frustrado
Quando isso acontecia
A gente só repetia
Até que fosse aprovado

Não tinha superdotado
Nem a tal dislexia
E a hiperatividade
É coisa que não se via
Falta de concentração
Se curava com carão
E disso ninguém morria

Nesse tempo se bebia
Água vinda da torneira
De uma fonte natural
Ou até de uma mangueira
E essa água engarrafada
Que diz-se esterilizada
Nunca entrou na nossa feira

Para a gente era besteira
Ter perna ou braço engessado
Ter alguns dentes partidos
Ou um joelho arranhado
Papai guardava veneno
Em um armário pequeno
Sem chave e sem cadeado

Nunca fui envenenado
Com as tintas dos brinquedos
Remédios e detergentes
Se guardavam, sem segredos
E descalço, na areia
Eu joguei bola de meia
Rasgando as pontas dos dedos

Aboli todos os medos
Apostando umas carreiras
Em carros de rolimã
Sem usar cotoveleiras
Pra correr de bicicleta
Nunca usei, feito um atleta,
Capacete e joelheiras

Entre outras brincadeiras
Brinquei de Carrinho de Mão
Estátua, Jogo da Velha
Bola de Gude e Pião
De mocinhos e Cowboys
E até de super-heróis
Que vi na televisão

Eu cantei Cai, Cai Balão,
Palma é palma, Pé é pé
Gata Pintada, Esta Rua
Pai Francisco e De Marré
Também cantei Tororó
Brinquei de Escravos de Jó
E o Sapo não lava o pé

Com anzol e jereré
Muitas vezes fui pescar
E só saía do rio
Pra ir pra casa jantar
Peixe nenhum eu pagava
Mas os banhos que eu tomava
Dão prazer em recordar

Tomava banho de mar
Na estação do verão
Quando papai nos levava
Em cima de um caminhão
Não voltava bronzeado
Mas com o corpo queimado
Parecendo um camarão

Sem ter tanta evolução
O Playstation não havia
E nenhum jogo de vídeo
Naquele tempo existia
Não tinha vídeo cassete
Muito menos internet
Como se tem hoje em dia

O meu cachorro comia
O resto do nosso almoço
Não existia ração
Nem brinquedo feito osso
E para as pulgas matar
Nunca vi ninguém botar
Um colar no seu pescoço

E ele achava um colosso
Tomar banho de mangueira
Ou numa água bem fria
Debaixo duma torneira
E a gente fazia farra
Usando sabão em barra
Pra tirar sua sujeira

Fui feliz a vida inteira
Sem usar um celular
De manhã ia pra aula
Mas voltava pra almoçar
Mamãe não se preocupava
Pois sabia que eu chegava
Sem precisar avisar

Comecei a trabalhar
Com oito anos de idade
Pois o meu pai me mostrava
Que pra ter dignidade
O trabalho era importante
Pra não me ver adiante
Ir pra marginalidade

Mas hoje a sociedade
Essa visão não alcança
E proíbe qualquer pai
Dar trabalho a uma criança
Prefere ver nossos filhos
Vivendo fora dos trilhos
Num mundo sem esperança

A vida era bem mais mansa,
Com um pouco de insensatez.
Eu me lembro com detalhes
De tudo que a gente fez,
Por isso tenho saudade
E hoje sinto vontade
De ser criança outra vez!

- Autor desconhecido.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019


Há um anjo em meu nome...,
Tecido de sonhos suas asas.
Sentimento do amor que,
perpassa a pele...
Flue como um fluído que escorre
e, aquecido evapora...
Inserido no tempo
impermanente, do chegar e ir embora.
Leve, qual perfume,
Temperança esvoaça
na fragrância do lume
que o incenso esfumaça.
O silêncio impreciso reverbera
sentidos aleatórios
Na complexidade do agora.

Angela Gomes


"Governo marxista e lunático": foi contra isso que a maioria do revolucionário povo britânico votou. Eles que já revelaram uma Thatcher, trazem agora o direitaço Boris Johnson.
Lá, como cá, o blefe é o grande cabo eleitoral."
RR

ADORMECENDO PALAVRAS




Sem a palavra, simplesmente silencio.
Há, no pavio, uma chama renitente
Que queima, aos poucos... a explosão... que é iminente...
Espalha ardentes emoções no ar sombrio.

Sou um ser frágil... tenho asas, bico... garras,
Sublimo o céu em cada sonho que me dou,
Se me açoitam, sou barco, solto as amarras
E assim, no vento... me liberto...voo... e vou.

Minha palavra é projétil, ave e flor...
Com ela amo, fantasio... dinamito,
Meu coração é a pulsação do meu amor.

Bendito o homem que liberta a emoção
Aprisionada, mas que voa, com seu grito,
Quando adormece no seu próprio coração.

- Luiz Poeta Luiz Gilberto de Barros 

Em 14 de Janeiro de 2018 do Rio de Janeiro - Brasil - 10h e 24min - registrado e publicado no Recanto das Letras - Visite-nos


O Absurdo Banal



Não se dorme mais
para que o tempo pare,
os sonhos não nos atormentem
enquanto a angústia corrói.

Respira-se, é fato!
Mas não mais aquele ar de antes,
do anseio pelo eterno
da coragem de olhar pro sol.

O que ainda vive é um mecanismo
que oscila entre o neutro e o absurdo.
O rastejar nas possibilidades
repletas de "impossíveis..."

Morrer jamais será um fim
Claro que não! Sabemos
O mundo só se contenta
se observar a putrefação

E então alguém olha
aperta o nariz com as mãos
cheirando o hidratante da vez
E comenta: Que podridão!

Alessandro Jucá (15/12/2019)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

DEMÔNIOS INTERIORES



(SANTANA, Ivan Justen.)

Refugiada no fundo de um poço
Úmido abrigo escuro de vermes
Esquecido, amaldiçoado, vil, sinistro
Uma alma grita desesperada
Uma linda canção de ódio e de prece
A todos seus abomináveis e ocultos
Demônios interiores
Demônios interiores
Demônios interiores
Demônios interiores
Faces contorcidas, rugas de desgosto
Estão escondidas sob a máscara do seu rosto

Curitiba, 1989.


Como tenho falado, em "Que fim levaram todas as flores" há uma série de listas. Aqui vai algumas delas, como aperitivo:

"Galeria Tijucas, Galeria Asa, Galeria Minerva, Galeria Osório, Galeria Lustosa, Galeria Suíssa, Galeria Andrade, Galeria Tobias de Macedo... Muito antes dos shopping centers, e dos centros comerciais que lhes antecederam, eram as galerias os locais de compra protegidos das intempéries e do frio, onde nos acotovelávamos, contemplando as vitrines, futricando, flanando, flertando, conspirando, matando o tempo. Era, numa provinciana Curitiba, o nosso sucedâneo das passages parisienses. Quantas passantes pós-baudelarianas não vimos e não perdemos de vista em seus interiores? Tenho a impressão, inclusive, de que naquele funesto outubro avistei Conceição, de tailleur, lenço na cabeça e óculos escuros, numa dessas galerias. Corri atrás dela. Olhei para um lado, olhei para o outro. Nada. Não havia mais nenhum sinal dela. Curitiba podia estar bem longe de ser uma Paris, mas já tinha o tamanho suficiente para as pessoas se perderem – para sempre – umas das outras em suas galerias."

"Passo do França, Arroio do Pulo, Arroio da Ordem, Arroio do Andrade, Arroio do Pulgador, Arroio do Passo do Melo, Córrego Vista Alegre, Rio do Wolf, Córrego Capão Raso, Córrego Vila Isabel, Rio Barigui, Rio Passaúna, Rio Ponta Grossa, Rio do Moinho, Arroio do Espigão, Arroio do Prensa, Rio Atuba, Rio Iraí, Rio Iguaçu... Rios de Curitiba, rios, córregos, arroios, ribeiros, riachos, regatos, cursos d’água, regos, valos, veios, olhos, fontes: somando tudo não dá um Tejo, um Sena, um Guaíba. No máximo, no máximo, um Tietê. (No entanto, as formidáveis águas que despencam das Cataratas do Iguaçu e banham as cidades de Montevidéu e Buenos Aires, na Bacia del Plata, são nascidas modestamente aqui.)"

"Além de cânhamo, a Cannabis sativa é conhecida pelas alcunhas de abango, abangue, aliamba, baga, bagulho, bango, bangue, baseado, baurete, bengue, birra, bongo, bola, brenfa, breu, bucha, bunfa, camarão, caneta, cangonha, canjica, capim, capim seco, carne seca, caroçuda, chá, charo, chibata, chico, chinfra, chirona, chocolate, chuim, congo, cristina, daga, diamba, dirijo, douradinha, erva, erva do dianho, fino, finório, fuminho, fumo, fumo d’angola, ganja, gongo, grama, iberonha, jerê, jererê, jero, liamba, lombra, majinba, malva, manga rosa, maria joana, marijuana, marofa, massa, mato, melro seco, mexicana, mingote, nadiamba, pango, paranga, perna de grilo, rafael, rafi, rafo, riamba, rojão, santa maria, seruma, soruma, suruma, tabanagira, tarugo, tijolo, tocha do balão, tora, tripa, tronco, umbaru, verde, xiba, xibaba ou – como é mais conhecida no Brasil – maconha."

Detalhe: a lista de galerias são só das galerias existentes em Curitiba em 1968; as gírias da maconha, igualmente, são só daquelas usadas até esse ano. Não foi mole a pesquisa não. Mas foi muito divertida.

Otto Leopold Winck

O RISONHO



(Urban/Santana)

O risonho anda por aí
Assustando as pessoas
Que não têm pra onde ir
O risonho anda por aí
Caçando os condenados
Que não têm como fugir
Risonho, risonho, HA-HA-HA-HA!

O risonho é um cara estranho
O risonho anda pela sombra
Gargalhando seu riso medonho
Assombrando deus e o demônio
Risonho, risonho, HA-HA-HA-HA!

Curitiba, 1989

DECADISMO



Cortei os pulsos
do poente.

(Nas ruas onde descaminho o sangue escorre das nuvens
nessa hora em que outrora havia ângelus e anjos acendiam as estrelas
onde hoje se acendem os anúncios luminosos...)

Cortei os pulsos
do poema
e vim à rua
contemplar o sol desfalecido.

Era fatal que me tornasse poeta.

(O sangue espirra sobre a pia e sobre o copo
e sobre o tubo de dentifrício e sobre o espelho onde outrora eu via
um rosto...)

Cortei os pulsos
do poente
e vim à rua
perpetrar o meu último poema.

Otto Leopoldo Winck




Bifurcação
Invisível
Meu ser ao teu
Olhar transcendental
Imperceptível, ao toque
Marginal teu corpo ao meu, à cama,
O medo tão perto, tão distante, ofegante
Retas paralelas, intangíveis, oscilantes. Somos nós?
Fotografias esquecidas, congeladas
No tempo, nas lembranças frias
Afogo-me em desejos vãos
Estreitar antigos laços
Refilmar os fatos
Ilusão



Babel


Linguagem

Que nos arrasta
Ora afasta, ora aproxima

De todas as línguas mal faladas
Das mortas, das vivas das fusionadas
Das mudas, mutáveis, das questionáveis

Só me interessa aquela que troco, que toco contigo

A língua das noites em sonhos românticos
A língua das rimas em versos cânticos
A língua da boca tua na minha

Que se funde e nos confunde
Friccionáveis, flexionáveis

by Jú Blasina

Ciesta





deixo



que chegue

tenra e morna



e que seu hálito

tenro dos sonhos

dos sonhos morno



seja o ritmo de hoje



que em meu peito

e meus ombros

e meus braços



desarmônica

acomode-se



durma

Volmar Camargo Junior



Colheita



sedutora

de invulgar e
irresistível beleza

planta rara de raizes rotas
que dá frutos que não se dão
que não matam por seu veneno

frutos somente, nenhuma semente

colhe-se só iracunda e vil
joga ao chão os pomos
ignora aos vermes

pobres coitados
a si apodrece e

autodevora



[conforma-te]


conforma-te

ei-la, como pediste,
a praia longa e branca

basta de ritos funerários
basta de tormentas marinhas
basta de esperar ser consumido

conforma-te, é o fim da vida no mar

sente, o sol aqui é mesmo o sol
o chão caminha com o vento
e a paisagem, por si, muda

a praia longa e branca
ei-la, como pediste

conforma-te


Volmar Camargo Junior

Libertinagem




by Jú Blasina

Tudo começou, como sempre – mensagem anônima no celular:

Sexta-feira – 21:00 hs
Você sabe o que e aonde....
O champagne é por tua conta.
A surpresa é por minha...
Ele sorriu, apagando imediatamente a mensagem – já fazia tempo, muito tempo, desde o último encontro. Tanto que a simples menção de “surpresa” associada com a lembrança de Val, seminua em meias 7/8, bastou para excitá-lo. Olhou discretamente as mesas ao redor – era hora de almoço, o escritório quase vazio, silencioso – o som de uma nova mensagem – “Ah, celular barulhento” ele resmunga fazendo ainda mais barulho na tentativa de ser discreto.
E então, garanhão?
Posso te considerar... dentro?
“Ah... cachorra sem vergonha” – ele ria, sem perceber que pensava alto, enquanto caminhava em direção ao banheiro, apagando, aflito, a nova mensagem. Lá passaria o resto do seu intervalo, lendo e apagando, lendo e apagando, sucessivamente, mais rápido, gradualmente mais excitado, lendo e apagando, lendo e ahh... pagando. Era hora de responder:
Confirmando:
Mesma hora, local, Pau – ops!
(risos) E não esqueça as meias!
Bjs - Cris

Ele passou o dia tão ansioso, tão absorto em pensamentos obscenos que quase se esqueceu de comprar o champagne. Tudo o que precisava levar era: um bom champagne, o corpo disposto e alguma imaginação – agora a lista estava completa!
Val sempre se encarregava dos detalhes – e como era boa nisso... Perfeccionista ao extremo! Ela e sua maleta hermeticamente organizada de onde saiam as mais diversas e inesperadas coisas. Segundo Cris, aquilo era o “chapéu mágico do sexo”. Mal sabia ele quanto tempo e dinheiro ela gastava para manter seu arsenal abastecido, atualizado e principalmente organizado. E ele ainda insistia em lembretes do tipo “não esqueça as meias” – uma piadinha interna, pois ela nunca esquecia nada.
Em cima da hora, ele chegou ao flat. Funcionava como um esconderijo secreto e compartilhado, que há meses alugavam para seus encontros – nunca ao acaso – apenas, sempre e somente mediante aviso por ela enviado, como havia ocorrido hoje pela manhã.
Ao abrir a porta, Cris notou as pequenas mudanças que renovavam o ambiente, “como sempre”. Cada vez que visitava o local, encontrava-o redecorado, habito que ela mantinha, não apenas com o flat – Val era cheia de surpresas e a ansiedade por encontrá-la o deixava louco...
Havia velas acesas espalhadas por toda a parte, iluminando e perfumando o ambiente. A música já estava tocando. Era algo envolvente, mas não apelativo “Moby? talvez”, pensou ele, largando o champagne no balde de gelo que o aguardava sobre a mesa de centro. Tirou o casaco, tentando aparentar tranqüilidade, até que ouviu o som do salto se aproximando – toc, toc, toc – virou-se e lá estava ela: espartilho, salto agulha e meias... ah... meias 7/8 pretas, arrastão.
O champagne esquentou e não foi o único: a combustão imediata daqueles corpos fez com que as roupas saltassem quase que espontaneamente. Depois de algum tempo, prazeroso tempo, até as amadas meias sumiram. O flat, antes tão arrumado, agora parecia ter sido atingido por um terremoto ou furacão. E de certa forma o foi. Lá estavam os sobreviventes, nus, enrolados em corpos e lençóis, bebendo o champagne já quente, cujo gelo havia ganhado outras finalidades durante o processo. Agora, recuperado o fôlego, conversavam sobre as supostas e postiças vidas que um apresentava de forma mais mirabolante ao outro. E entre mentiras e risadas recíprocas, as coisas pareciam funcionar – e satisfazer muito bem – a ambos.
“Mais barato que terapia” dizia ela às amigas
“Melhor que uma esposa ou prostituta qualquer” dizia ele a si mesmo.
Ao amanhecer, após dormir, comer, mentir, rir, banheira e sexo, em repedidas e desordenadas vezes, era chegada a hora de montar o “quebra-cabeças” do quarto.
— Viu minha camisa?
— Na sala – respondia ela, enquanto reorganizava sua maleta.
— Viu minha cueca?
— Hum... aqui! Toma aqui – alcançava ela, enquanto terminava de se vestir, de maneira muito mais comportada do que havia se apresentado na noite anterior.
— E minha meia, viu?
— Qual? Esta que está no seu ombro, Cris?
Ele riu — Esta também. E a outra?
Olharam em volta e nada da meia. Começou então a procura – ela revirava as cobertas já arrumadas, enquanto ele, parado, olhava para os móveis, sem mover um dedo, como se pudesse enxergar através deles – ela, agora de joelhos, procurava por todo o canto, atrás a cômoda, na poltrona, sob a cama.
— Achei!
Gritou ele, orgulhoso, de algum lugar da sala.
Ela permanecia ajoelhada no mesmo local, apreensiva com algo que trazia nas mãos.
Cris voltava ao quarto, já de meias, fechando a camisa, enquanto ela levantava lentamente – uma expressão fria, nenhuma palavra.
— O que foi Val? Ah, achou a tua meia também?
— Não.
— Como não? E o que é isso na tua mão? Parece até eu. Haha, te peguei agora, perdendo coisas!
Ela permanecia com o semblante fechado. Largou a meia 7/8 preta, vagarosamente, no centro da cama, sobre o lençol vermelho. Ainda sem captar o que estava acontecendo, ele se aproximou, analisando de perto a situação. Olhou para Val, para a meia, Val, meia, perguntando-se o porquê de tanto mistério, Val, meia, Val, meia... até que, enfim, percebeu! Quando seus olhos encontraram os dela, que o fitavam atentamente, não se sentia muito seguro quanto ao que dizer. Agarrava-se àquele silêncio, em busca de uma boa explicação, quando o silêncio foi rompido:
— E então, Cris? Caso não tenhas escutado, ou entendido, eu repito: Não, essa meia vagabunda não é e nunca foi minha. As minhas, já estão na maleta, e, além disso, coisas vagabundas não fazem o meu estilo, mas, pelo visto, fazem o teu, ou estou enganada?
Ele engoliu a seco, arregalou os olhos, “pensa rápido, pensa rápido... ah, merda! Ela sabe ou só tá blefando? Ah, merda! Melhor eu falar a verdade, dane-se”
— Não, eu não trouxe ninguém aqui, se é isso que tu tá insinuando.
— Ah, sim, claro! Então, acompanhe o meu raciocínio: Se essa meia não é minha, nem de outra qualquer, eu presumo que seja de quem?... tua?
Uma gota de suor ameaçava escorrer denunciando o pavor de Cris diante aquela afirmação. Tentando manter a calma, ele reavaliava a situação:
De um lado Val: vestida sobriamente, tailleur cinza, camisa branca, sapatos impecáveis, cabelo perfeitamente arrumado. De outro ele, Cris: calça ainda aberta, camisa mal abotoada, calçando um sapato só, cabelo bagunçado, barba mal feita. Entre eles, sobre a cama, aquela cama, naquele quarto que é dos dois, estava ela: aquela meia – maldita meia – que não podia pertencer a nenhum dos dois.
“É isso!” pensa ele “É o que ela espera que eu diga: a resposta lógica - é perfeita!”
— Não, claro que não é minha. É de uma amiga... Já faz um tempo, a gente não se encontrava mais, tu não ligavas nunca! Aconteceu... Não achei que isso fosse te incomodar tanto, afinal, a gente não tem compromisso... e foi só sexo.... e...
— Chega. Não preciso ouvir mais nada. Primeiro: “só sexo” é o que nós temos. Segundo: pouco me importa o que tu faz ou deixa de fazer aqui, na minha ausência, mas me incomodo, e muito, a tua falta de consideração, ao deixar os restos das tuas vagabundas espalhados pelo nosso quarto.
— Val... foi só uma meia!
— Pois é, Cris. Não é a perna que estava nela que me importa. É o teu descaso.
— Desculpa, mas como eu ia adivinhar?
— A gente não adivinha Cris, a gente pensa, organiza e se certifica de que tudo esteja perfeito.
Sabe o que isso me mostra, Cris? Essa meia é uma mancha no teu caráter!
Cris pensa: “Droga, parece até que ela sabe”
Val pensa: “Ótimo, acho que fui convincente”
—Tá certo Val, se é isso o que tu pensas... Eu já vou... tô atrasado para o trabalho. Vou juntar minhas “manchas” e te deixar aqui no teu “santuário” de organização e retidão.
— Ironia não vai ajudar agora, Cris. E DEIXA ESSA MEIA AÍ!
Gritou ela, enquanto ele, cuidadosamente, enrolava o precioso achado.
— Por quê? Não é minha... minha falta de caráter?
— É. E eu vou guardar, de recordação.
— Tu é louca, sabia? Gostosa, mas louca.
— E tu é burro, sabia, gostoso, mas burro.
Indignado, ele saiu, juntando suas coisas pelo caminho, bufando e batendo com as portas.
Já no carro Cris sente-se aliviado, extremamente aliviado, por ela ter engolido a mentira mais sensata. Apesar de todo o drama e ofensas, antes sair de um quarto com fama de mal caráter do que revelar o tamanho de sua paixão por meias 7/8 . Isso seria mais embaraçoso que qualquer coisa!
Ainda no flat Val joga-se em cima da cama, rindo e brincando com a meia, recém encontrada. Pega o telefone e manda uma mensagem. Dessa vez o remetente é outro:
Cherrie, sua cachorra!
Eu sei o que tu fez e sei que foi de propósito.
E sim, ele foi embora, mas só por enquanto...
E se quiser tua meia de volta: Vem pegar - hoje, 21hs.
Te espero faminta – E traga o champagne!

E assim, ambos seguiram, compartilhando um mesmo alívio ao cobrir as verdades impróprias, com um mesmo pensamento: “A meia de baixo da cama, não é minha”

Fonte Samizdat

O Lobo Vermelho (primeira parte)




Por Guinen Plumbeano
(Volmar Camargo Junior)

Avvena é um lugar inapropriado para quem gosta de sol e calor, porque não há um único dia no ano em que não chova. É úmida, cinzenta, encardida. Nas ruas, perambulam pessoas cabisbaixas e tristonhas. São raros os dias festivos, e ainda assim, preenchidos de solenidades. Durante séculos, Avvena foi um quartel gigantesco, e a maior parte da população era de soldados; os que não eram militares trabalhavam para eles, e se lhes impunha um regime de ordem e obediência, o que acabava, enfim, sendo a mesma coisa: todos seguiam um regime militar. Depois que as conquistas ao território minguaram e o exército foi incumbido de proteger as fronteiras, muito distantes do Mar, Avvena tornou-se um pólo industrial, porque tinha algo difícil de encontrar em outras províncias: uma massa de trabalhadores obedientes, histórica e culturalmente incapaz de exigir melhores condições de trabalho. Assim, Avvena passou a ser um atrativo, primeiro para as nascentes indústrias, depois, para pessoas que viviam em situação de pobreza e miséria nas áreas rurais desta mesma província, que vinham em busca de trabalho – ou, pelo menos, de um meio de se sustentar -  e por último, para moradores de outras grandes cidades e do interior de outras províncias ao redor do Mar. Avvena inchou, alastrou-se pelo vale que ocupava, tomou a região acidentada que circundava a cidade-quartel, subiu a montanha e hoje é um monstro cinzento, frio e empoeirado, insensível aos seus quatrocentos mil habitantes, e nada convidativa para os visitantes. Eu era um visitante, mas não fui até lá por causa dos atrativos inexistentes da cidade. Não tive muito tempo para me preocupar com o mau-humor do clima avvenino, nem prestar atenção nas chaminés quilométricas, nem nos rostos infelizes que compunham a classe trabalhadora às seis da manhã e às sete da noite. Fui porque tinha um grande interesse na vida de um cidadão ilustre, sobre o qual estive pesquisando desde que aprendi a ler: General Petro Velasturvo, o Lobo Vermelho.  

 Meu contato físico com Avvena começou na estação de trens. Teria começado antes, se eu estivesse acordado, e teria visto praticamente toda a cidade, de cima, pela janela do vagão: os trilhos fazem um percurso em espiral pelo perímetro da cidade velha, pelas encostas da serra, por sobre a absurda muralha que a circunda. Entretanto, os barbitúricos não recomendados pelo médico me fizeram dormir feito um degrau das escadarias do Farol, e só fui acordado, a muito custo, pelo fiscal do trem, quando já estávamos parados. Fui o último passageiro a descer. Um funcionário do governo, muito prestativo e jovem, viera buscar-me com um veículo oficial, desses carros sofisticados que se vêem pouco na Capital. O rapaz apresentou-se com muita cordialidade, e quase nenhuma formalidade. Chamava-se Platin. Eu teria me enganado se concluísse que todos os avveninos eram como ele. Posteriormente, descobri que Platin era de um lugarejo perdido na imensidão surenha, e que era tão avesso ao modo de viver avvenino quanto eu e outros estrangeiros. O jovem encarregou-se de carregar minha pouca bagagem, apenas duas malas pequenas, rindo da minha falta de cuidado com o frio que costumava fazer, e em poucos minutos, fez comercial de duas lojas de roupas de inverno de conhecidos seus. Convidou-me para entrar no carro, sem nenhuma formalidade especial – não que eu precisasse de qualquer formalidade; apenas achei aquilo estranho e divertido para um lugar que eu sabia ser o mais antipático do mundo. Entrei pela porta lateral, e só então percebi que havia mais alguém lá dentro. Era uma mulher.  

 — É um prazer, Senhor  Plumbeano. Entre. Está muito frio aí. — e imediatamente, eu soube de quem se tratava. Era Agatha Pietra Velasturvo, tataraneta e assistente pessoal do General. 
 Ela não parecia um militar, pelo menos, não estava vestida como um. Ao telefone, sua voz era melodiosa e grave, como a das pessoas que estudam técnica vocal. Em sua presença, tive a impressão de que era uma personagem de rádio-romance, à imagem que eu havia feito, quando criança, de heroínas como Semmpat de Ture ou Felixcia Luna – com a diferença óbvia de que estas não eram humanas. Entretanto, Agatha Velasturvo era, definitivamente, uma pessoa diferente, talvez dotada de uma aura não-humana como a das heroínas de minha imaginação. Lendo a respeito da história pessoal do General Petro, chega-se facilmente à conclusão de que nunca confiara em ninguém, e que sempre fora assessorado por um familiar. Ela, Agatha, estava como sua fiel escudeira desde os primeiros passos. A mim, porém, lembrou-me uma diva do rádio. 

 Ao longo dos cinco quilômetros entre a estação e o hotel, Agatha expôs-me a situação toda, de modo muito sucinto, claro e objetivo. Em poucas palavras, agendou a primeira entrevista para as sete da manhã em ponto do dia seguinte, durante o desjejum do General. Deixou-me a par do estado de saúde do herói nacional, que já avançava para a casa dos cento e vinte anos. Também deu-me algumas explicações, sem espaço para dúvidas, sobre como referir-me aos tritões na presença do General, porque jamais acatou os acordos de paz assinados mais de cinquenta anos antes. Tampouco considera a confederação das províncias do Mar de Luna uma única nação, e por isso, também é um assunto delicado. Por fim, quando o carro já se encontrava diante das portas do hotel, Agatha estendeu-me a mão, ao que correspondi, recebendo o aperto de mãos mais pesado que já havia recebido na vida. “Amanhã”, disse ela, “Platin virá buscá-lo bem cedo. Não abuse dos barbitúricos dessa vez”. O ângulo dos seus lábios me fez entender que se tratava de uma piada. Talvez, o mais perto que um militar avvenino tenha chegado de uma.  

 Choveu continuamente durante toda a madrugada. O hotel tinha um sistema de calefação eficaz e moderno, o que me possibilitou uma noite agradável, inevitavelmente sem sono. Dei-me o luxo de pedir para o serviço de quarto levar-me um bule de café e alguns biscoitos, para começar a esboçar minha entrevista sem precisar descer ao restaurante. Enquanto esperava, tentei olhar pela janela, e tudo o que vi foi a fachada da fábrica de botas que ocupava a metade da quadra do outro lado da rua, e duas vezes a altura do hotel. Também não se via naquele quarteirão mais do que a luz de um poste tímido permitia: uma imensa parede de tijolos, uma guarita, um contêiner de lixo abarrotado, uns quantos gatos de rua embolados em uma caixa de madeira que lhes servia de casa. Assim que o relógio do alto da entrada da fábrica marcou meia-noite, um guarda caminhou de uma esquina até a outra. Era um bovineu, que eram muito respeitados na infantaria do exército avvenino, e ainda mais respeitados na guarda municipal. Já estaria aí o assunto para um tratado, a diferença de tratamento dado aos bovineus, começando nas caçadas da Capital, passando pela escravatura, culminando na posição de destaque no exército e na polícia de Avvenin. Certamente trataria deles na biografia do General Petro, já que um de seus companheiros no início da vida de soldado, foi Unmonu, que veio a ser herói tanto de seu próprio povo quanto do nosso, e que lhes garantiu a alforria oficial e definitiva, mas não o fim do preconceito. Assim que chegaram o café, os biscoitos e potes com geléias – os avveninos são pouco sociáveis, mas sabem comer bem – tomei meu bloco e uma caneta. Esqueci-me completamente da rua, da chuva fina, do guarda bovineu que caminhava pesada e silenciosamente na calçada em frente, e anotei minhas perguntas. 
 
 Amanheceu. Tomei o último gole de um café amargo e frio, e nem conseguia mais olhar para biscoitos. Pude ver Platin e o carro oficial – cor-de-madeira-dourada com detalhes em dourado nas extremidades, nos paralamas e nos faróis dianteiros, luxuoso mesmo para um carro do governo – subindo a rua. O dia não estava muito menos escuro nem menos chuvoso que a madrugada, e Avvena não era mais simpática na claridade pálida do dia.   Em uma hora eu estaria dentro da mansão Velasturvo. A toca do abominável Lobo Vermelho.   


vale vasto
vago vácuo
onde verso
viro vivo

são josé
dos campos
que versejo
- invisível -

invisto
invento
invalido
o prefixo
:
visto
vento

vale [nave]
me leva
que eu voo


valéria tarelho

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Barco à deriva





Meu mar interno
intenso fica.

Águas profundas
inconscientes (se)mentes
& revelações.

Em descompasso
navego.

Nada sei da margem
ou da foz.

Ricardo Mainieri         

Último round



Poesia
é peso-leve
no tablado das Artes.

Frágil
etérea
não tem a robustez
das narrativas longas.

Nutre-se de metáforas
aliterações
onomatopéias.

Proteína pouca
para ávida luta.

No quase-nocaute
o gongo soa...


Ricardo Mainieri         

Cobrança




Devolvam-me
certas paisagens
passagens voláteis
na memória.

Devolvam-me
tantos acordes
em dissonância
a vida agora só diz sim.

Devolvam-me
todas as cores
fragrâncias

Cobrem-me as contas
depois...

Ricardo Mainieri


Criança



Pedir pra criança não gritar
é o mesmo que pedir
pra cachorro não latir.

Pedir pra criança não correr
é o mesmo que pedir
para a borboleta não voar.



Paulo Henrique Frias   

OS HOMENS






Em água e vinho se definem os homens.
Homem água. É aquele fácil e comunicativo.
Corrente, abordável, servidor e humano.
Aberto a um pedido, a um favor,
ajuda em hora difícil de um amigo, mesmo estranho.
Dá o que tem
— boa vontade constante, mesmo dinheiro, se o tem.
Não espera restituição nem recompensa.

É como a água corrente e ofertante,
encontradiça nos descampados de uma viagem.
Despoluída, límpida e mansa.
Serve a animais e vegetais.
Vai levada a engenhos domésticos em regueiras,
represas e açudes.
Aproveitada, não diminui seu valor, nem cobra preço.
Conspurcada seja, se alimpa pela graça de Deus
que assim a fez, servindo sempre
e à sua semelhança fez certos homens que encontramos
na vida
— os Bons da Terra — Mansos de Coração.
Água pura da humanidade.

Há também, lado a lado, o homem vinho.
Fechado nos seus valores inegáveis e nobreza
reconhecida.
Arrolhado seu espírito de conteúdo excelente em todos
os sentidos.
Resguardados seus méritos indiscutíveis.
Oferecido em pequenos cálices de cristal a amigos
e visitantes excelsos, privilegiados.

Não abordável, nem fácil sua confiança.
Correto. Lacrado.
Tem lugar marcado na sociedade humana.
Rigoroso.
Não se deixa conduzir — conduz.
Não improvisa — estuda, comprova.
Não aceita que o golpeiem,
defende-se antecipadamente.
Metódico, estudioso, ciente.

Há de permeio o homem vinagre,
uma réstia deles,
mas com esses não vamos perder espaço.
Há lugar na vida para todos.


 (Cora Coralina)