quarta-feira, 8 de outubro de 2014

THEOPHORUS - I


Vivo
no limite
do abismo.
Não sei se pulo
ou rio
do risco.
Quem sabe eu chore
e implore
a deuses extintos
o impossível perdão.
Se eu carrego um deus dentro de mim
para que diabos
eu quero um templo?
Vivo
à beira
do precipício.
Se eu abro a porta
eu tenho o sol
e o infinito.
(A fé, amigo,
é irmã do desespero.)
Para quem tem um deus dentro de si,
o inferno é dos outros.

Olw

THEOPHORUS - II


Vivo
à beira
do abismo.
Para não correr mais perigo,
caí.
(Hoje sou todo lirismo...)
Para quem tem um deus dentro de si,
tudo é risco.

Olw
De Mara Paulina Arruda

Madame Hesmerinda estava sentada numa cadeira reclinável. Espichada ao sol com o braço esquerdo dobrado no alto da cabeça, a mão segurava um cigarro. Havia uma “carrada” de coisas para fazer mas via, naquele momento, o sol chegando nos brotos do pessegueiro. E, também as crianças passavam, numa algazarra sem tamanho, na rua.
Madame Hesmerinda foi chamada para assinar o recebimento de uma encomenda. Jogou o cigarro no chão, amassou-o com a ponta do sapato. Caminhou até o portão. O entregador de encomendas. Boa tarde. Boa tarde. (Voltou-se à memória de um dia em que recebeu um buquê de flores) Ouve a troca: a encomenda pela assinatura. A mão pesada, o nome sulcado nas tramas do papel. Até logo. Até logo.
Os pássaros planavam no céu azul.

Ela rasgou o pacote com certo cuidado, lembrando-se que havia avisado umas par de vez, não queria ver a despedida de ninguém.

[#cantoparaná] Trio Quintina - Samba em Curitiba


Samba em Curitiba
(Trio Quintina)

Música e Letra : Helmuth Kirinus e Alessandro Tarso

Direção: Adriano Esturilho
Direção de Fotografia: Eli Firmeza
Produção Executiva: Adriano Esturilho
Direção de Produção: Bella Souza
Produção: Samara Bark, Nicole Sourient, Rafael Alves, Vinícius Lima
Logagem e assistência de fotografia: Giuliano Andreso
Edição e Finalização: Giuliano Andreso
Captação de áudio e Mixagem: Eugênio Fim
Assistente de Áudio: Matheus Lacerda
Câmeras: Bernardo Rocha, Eli Firmeza, Carol Winter, Giuliano Andreso, Elisa Ratts
Direção de Arte: Angélica Rodrigues.
Assist. Arte: Ruth Assis
Maquiagem: Camila Tkatch

#cantoparaná - uma atitude da música paranaense.
Projeto idealizado por Eugenio Fim e Adriano Esturilho
Produção vídeo: WTF?!filmes, Processo Multiartes 
Aúdio: Eugenio Fim - Patra Music

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura, Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba

A Pisante


Ariano Suassuna


Queixa



olhos abertos
cigarras tontas
de sono e bebida
nenhum beijo
amansa
os cavalos em fúria
soltos
pela cidade vazia
onde move-se um mundo
e o teu cavalo são ossos
o teu cavalo sem nervos
o teu cavalo-moça
trota
no reino dos bobos
sem heróis ou dentes
mas apenas um olho
de unicórnio


js

Original é o poeta


Ary dos Santos

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.
Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.
Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.
Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria

de ser um homem qualquer.

Maracatu.Recife



Estou aqui para lhe dizer
Ela vai tirar sua visão com a ponta dos dedos
E acariciar seu medo enquanto o faz.
Sua língua é o manto cinza a cobrir a lua
Sua saliva é a chuva respingando um sangue transparente
Como faz o orvalho da manhã para acalmar as plantas.
Ela vai calar sua voz arrancando suas cordas vocais.
(Seu instrumento é feito de cordas vocais
Caladas)
E ressoa viva sua presença no vento
Que soa em silêncio as notas musicais.
Então ela se deita, nos beija a testa
E penetra nos buracos vazados dos nossos olhos;
Novamente nosso medo é acarinhado por tal gesto
O mecanismo do amanhecer é refeito alí dentro
Num momento de comunhão com a morte.
Quando morremos

amanhece em outra dimensão.

Alexandre França
Os poetas
Conhecem
O genoma
Das flores
E a pulsação
Das estrelas

Bárbara Lia


Respirar (2014)

A Flauta Invisível

(...)Escrevo-te entre palpitares de alegria e gotas de intimidade.
Escrevo-te em línguas desconhecidas para que só tu, andarilho dos desertos, decifre meus respirares e suspiros, através dos pergaminhos escolhidos, adivinhar na vastidão das areias quentes e do sol, todos os meus mantras e elegias.
Escrevo-te queimando numa febre suspensa de prazer, que devora-me entre as pernas até o arrepio sombrio do meu êxtase ao reviver o orgasmo das orquídeas.
Escrevo-te num gemido abafado e numa suspensa epifania.
Os meus dedos não cessam de escrever para ti, entre o suor da palma e a arritmia.
Só tu, escriba das andanças tardias poderá salvar-me do sonambulismo da existência, quando o nada perpetua meus dias.
Só tu, espírito livre e selvagem poderá despertar os anos da juventude em redemoinhos vigorosos onde a razão não habita.
Escrevo-te perdida e suja, entre papéis de oficios e serviços que não termino.
Escrevo-te na masmorra e no tricotar das horas que esvaem-se para além das floradas que situam o amor como tinta que fixa imagens, ao derramar verdades que não sabíamos existir.

Luciana Brites



Excertos do Terror

I. Uma mulher e um homem. Soldados.
Algum dia falaremos sobre amor?
Só quando a morte fizer sentido, respondeu,
e urinou sobre o cadáver do inimigo.


os poemas de Excertos do Terror, de Rodolfo Jaruga, no escamandro.


*climatempo climatério: o grande apóstolo enfeitiçado, em ensaio laforgueano, é um galo gago, heliogábalo, na preguiça psíquica das flores congeladas. uma cara sibéria, uma cara sidérea, na pátria da araucária.

Andréia Carvalho Gavita
UMAS MAL TRAÇADAS QUE ESCREVI EM COMENTÁRIO AO LANÇAMENTO DOS POEMAS DE 'SEMPRES', DO NOSSO GRANDE POETA, QUE RECOMENDO VIVAMENTE A QUEM SE DISPÕE A UM DESLUMBRAMENTO

Este Simões, Joaquim Simões Ribeiro, é um sujeito que foi escolado no vento e depois começou a dar aulas de ventanias musicais no sopé da Mantiqueira. Poeta desses sem remédio razoável, caso incurável de pactado com o Absoluto, praticante da vertigem, dedilhador das cordas da alma da gente, muito humilde Sempres na sua grandeza de cabra perdido no abismo das coisas belas. Simões, te devo umas no balcão do Torto, mantiqueiroso mestre!


Jaques Brand.

IDADE DO OURO - II



Tem gente que diz: tudo que sei foi a vida que me ensinou.
Eu, de minha parte, digo: a vida não me ensinou nada.
Gazeei as aulas que ensinavam a vencer na vida. Levei bomba
na teste de suficiência em situações práticas. Acho que cochilei
na lição de como fazer amigos e influenciar pessoas.
Só sei que a vida me desensinou tudo.

Olw

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

são elípticos os prendedores com bigodes, atávicos por seios que beliscam, e sustentam olhos, aos punhados, em montanhas, sinusoides: um infográfico. porque em face de elefante, em vasos de flores, ou em ovos, os pêndulos balançam em um tom melancólico. mais um bastardo de tonalidade gris...

adriana zapparolli

Canção do náufrago


"Entre estas margens e aquelas,
que abismos de solidão.
Quem me diz, nesta voragem,
se as águas vêm ou se vão?
Ó noite, dá-me o sentido
do que há de ser o Outro Lado

que meus olhos não verão."

 Emílio Moura
"não há trabalho sem força. não há execução sem o coração ressonante do escorpião. existe o leão e a mão sobre seu rugido plástico. a mobilidade das colheitas não cresce entre docilidades doentias.
a placenta deve atirar-se ao oposto do cordão prateado, do nó dos mundos. para que o rosto de um espaço ocupe o tempo que lhe cabe.
os mapas são rebentos.
todo corpo nascido é uma heresia militar. forte. avante.
não há continência para a miséria de não crescer."

AC

And so on, and so forth


Mas vejam que miséria quando o clube
perde em casa, quando chove no molhado
do recreio a tarde toda, quando o carteiro
faz greve e o outono se insinua –
vejam que miséria este défice de razões
para pôr em movimento a roda perra
do dia, esta pomba trucidada pela ambulância
que guina, enquanto o vizinho almoça e o poeta
transfigura – mas vejam que miséria
quando a arte não resgata e a orquestra
não anima e o amor torna mais árdua
a triste faina da vida.

[Rui Pires Cabral, in: Oráculos de Cabeceira]

IDADE DO OURO


Não aprendi nada com a vida.
Troco os nomes, troco as pernas.
Me atrapalho com as etiquetas
e é com extrema dificuldade
que troco lâmpadas (portanto,
não vá querer agora que eu conserte esse chuveiro elétrico).
Mas ainda me fascino com as palavras
como se elas fossem coisas, bichos, pedras preciosas.
Ser poeta para mim não é destino
mas simplesmente continuar criança
em meio a uma multidão atarefada.
Não aprendi nada com a vida.
Mas, se você quiser, posso te ensinar
tudo aquilo que eu não sei.
Olw



do que é preciso
é seguir a rua e olhar em torno
fabricar contornos
para o confuso mundo
deixar de lado a lua
a tua presença e o uso
abusivo
do fundo de pensões.
assim como quem flana
à moda francesa
deitar os olhos apenas
sobre o cacho de bananas
maduras sobre a mesa
da quitanda
caminhar e olhar sem pretensões
outras que não pensar poemas.



 Rosa Ramos

domingo, 5 de outubro de 2014

SOB PONTES SOU TUA ...


Do traslado do teu sempre amor
Meu amante em fim tão presente
As chamas que todas tão acesas
Exalam perfume duma baunilha
Teu Rei Sol já invadiu a Deusa Lua
Num lapso que quase todo bondoso
Fez-se todo sendo só pequena parte
No verdor de toda a tua maturidade
Eu o clamo na potência tão grandiosa
Na luz constante que já em imploras
Rendida toda paixão em sã memórias
Não morrerei sem à praia para ver-te
Não te ofendas com meu alto gemido
Sou como ovelha desgarrada sofrendo
Vivendo pra um novo amor tão distante
Toma esta flor que o botão é todo teu...


Luiza De Marillac Bessa Luna Michel
a morte não revida
a vida é melhor do que nada
a morte é a última grande piada
mas nada disso tem importância
a velhice volta triunfal ao jardim de infância
vão-se desejos, fantasias, planos
somam-se as horas, dias, meses, anos
o preço do funeral está pela hora da morte
sobreviver é dar o troco em moeda forte!


Antonio Thadeu Wojciechowski, Chico Cardoso e Édson de Vulcanis

ALÉM DA APARÊNCIA

Egnaldo Paixão

Bom é ser pedra
que não sente
não ouve
e não
faz
merda.
Ser pau
sem galho
sem árvore
sem folha
sem flor
sem rival.
Ser
o que não é
na aparência
ser muro sem
encosto
navio sem porto
cola sem
aderência.
Ser manhã
quando é noite,
sol, quando é lua,
estrela quando
é água de sapo,
dar e tomar encontrão
e em vez de sopa,
trompaço.
E depois se fazer
de maçã,
quando não se é mais
do que
uma velha, podre,
amarga e bichada

romã.
voz é voto
voz é voto e além
voz é voto e além do voto
voto e além do voto é voz
além do voto é voz
além do voto
além da voz
voto
voz


olw
Adriana Zapparoli


- e as moléculas de carbono em estresse oxidativo rumo ao pó: cada segundo é sagrado.

sábado, 4 de outubro de 2014

quando o agora chegar
vai me encontrar acordando
da quarta-feira de cinzas
virando todos os santos.
nem peso nem pensamento
quando o agora acordar
pensar é fugir do momento
que é louco pra acabar
tão logo eu veja agora
que nada é o bastante
ao tempo que vai embora
¡caray! adelante,
e com o mistério termino -

a vida é esse instante.

Marilia Kubota

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Exausto das lides do amor,
lavo teus olhos
em que ficaram impressas
as imagens do dilúvio que nos afogou
e cujas pestanas se fecharam sobre o meu corpo torturado.
Escaldo teus pés
que conheceram as errâncias dos caminhos mais adversos
e calcaram a cabeça da serpente numa tarde de maio.
Banho o teu dorso
dócil às minhas mãos maduras
e acostumado aos trabalhos nas galés.
Com a água da primeira chuva do outono,
enxáguo teus lábios
que proferiram blasfêmias de inigualável encanto.
E finalmente banho o teu púbis,
escuro como a noite primeira,
e, dentro dele,
o fabuloso sol
que me incendiou.
Olw





ALEPH


Quisera
a palavra inaugural do paraíso
mas minha voz
– já sem fôlego –
está cheia de ecos
e cacófatos.
Não falo por mim.
Tampouco por ninguém:
não tenho clã nem urbe,
nem sou profeta de algum deus.
Mas em minha voz
– já sem fôlego –
repercutem as vozes todas
desde Adão.
Quisera
o senhorio de minha própria voz
– já sem fôlego –
o domínio de meus solilóquios,
o narrador onisciente que me narra,
que abre travessões quando falo
ou aspas quando cito.
Saber que ao menos uma palavra
(esta: eu)
fora minha...
Se não uso clâmide
nem burel, não sou apóstolo
nem apóstata,
ao menos pudesse ter de meu
uma aposta:
esta voz
– já sem fôlego –
com que me falo
agora
na ágora vazia de meu crânio:
cálix onde dou de beber aos deuses mortos
a história
que me escoa.
Ah, quisera
nomear os seres todos,
descrever as cores do levante,
elucidar o sabor dos frutos ou a autonomia do vento
nos cabelos dos viventes.
Mas minha voz
– já sem fôlego –
veio rouca,
quase um fio,
e reboa,
cheia de ecos, cacos e cacófatos.
O pior é que não há ninguém
que a decifre.

Olw
Andréia Carvalho Gavita


.a pátria do tempo estoura os mapas alucinados. o tímpano recorda, infinito cabisbaixo. debaixo da areia o vento histérico e oco com mãos cheias de sopros sortilégios. ouço, não me deixo levar. além dos boatos deste norte barítono, castigado de misérias mentais, há a rouquidão da ópera soterrada. seus quadrantes de pausa solar no aneurisma da lua. a ópera mineral de uma estrela com sete corais no arco da íris. musicalmente escoada pelo astro-lábio da clepsidra. o único relógio que sigo. cardíaco, rítmico sideral.

476 d.C.


fica decidido:
não haverá
segunda época
o monopólio
dos ímpios
nos é negado
roto
o louco
não dançará mais na avenida
mas o cego continuará
a pedir moedas
na esquina do shopping
perdi os ingressos
do cinema
perdi as chances
do remorso
fica
decretado:
o choro é livre
não inútil
porém ridículo
rememoro
no fim
a manhã primeva:
a sagração
o sangramento
da terra
sob o disco
ático
de apolo
agora
quando a noite cai
e todos os bêbados são pardos
meus olhos se fecham sem ternura
mas com lágrimas
caiu a grande babilônia
a mesa está posta
com a cabeça do batista
o sol se põe
sobre o nilo
e as águas do eufrates
são vermelhas
como sangue
hermes trimegisto ri
não haverá
segunda chance:
o ocidente
era um mito
mas não foi um acidente

olw

jardim zen


para o tanto que queria
pouco servia
preferia aos poucos
pedra a pérola
a flor que foi canto
petrificaria ?

Marilia Kubota

FINISTERRAE


No campo de estrelas
de Santiago eu colhi um flor bravia
com a qual
construí um nave
onde está guardado,
numa urna,
tudo que o que está contido na palavra saudade:
uma manhã de sol em julho,
um roçar de braços
e um beijo que não houve
a não ser na minha imaginação.

Olw
A saudade é uma velha cadeira de balanço
De qualquer idade
A saudade é o pão que eu não fiz
Por você não estar aqui
A saudade é a letra da MPB
E do Jovanotti
A saudade nem nota que eu existo
Habituada em ser ausência
Nunca chega a ser dor
Ela é pior que isso
Quando eu acordo
Sem te ver de novo.


Alexandra Barcellos

quarta-feira, 1 de outubro de 2014


Condizem a máscara de rã
e a pele disfarçada
Conformam em fábula
a completude da visão
que arisco recebeste
sem travar com o céu amor
Os ardis da dispersão
fizeram cantar os sapos
Respiram os lagos
o variado diapasão
Ah, ninguém ergueria
a face senão tu
De perto te vejo evitar
um sorriso longe preparado
Agora não sofro
a melodia da recusa
Enquanto esperas
o inesgotável começo
De tempo ainda em bruma
que antecede a busca do ar
Foi tardio o desejo de parada
sob o escuro astro
A hortênsia flutuava
parada na lonjura
Uma aldeã acenava
agitando um cordão
A inteira ilusão
da máscara saltou
São imensos os bailes
e intermináveis
Na madrugada a fuligem
é ser mais forte calada
Na fuligem se conserva a madrugada
assim termina e recomeça
Além dos bailes dos quartos
das passagens secretas nos corpos
e nas casas, calada
permanece em guerra
Enfim coincide a imensidão
quando o olho se contrai

Gabriel Rath Kolyniak


(Poema do livro DISCÓRDIA. São Paulo: Córrego, 2013)
*pensava na musculatura em queda de anjos. no desequilíbrio de suas conjunturas quando os recém nascidos compreendem o mundo, depois de anos imunizados pela ilusão de um cordão prateado que os nutre diretamente do céu ou do inferno. naquele momento quando se conscientizam e respiram a topografia de um território sem guias. nascer é sempre a compreensão de que se é responsável pelo seu destino. não são os fármacos, os deuses, os pais, os tiranos ou os caridosos. nem a sobra ou ausência deles. nascer é dizer: sou eu. bendito ou amaldiçoado por si mesmo. acho belo assim... quando os anjos se dissolvem nos coágulos da "mea-graça".


andréia carvalho gavita 

Pássaros Ruins #7 - Thadeu Wojciechowski

Tinha um Cavalete no Meio da Calçada



Tinha um cavalete no meio da calçada
Desviei deste objeto e quase fui atropelada!
Na eleição sou obrigada a andar no meio da avenida
Cavaletes sempre deixam uma pessoa ferida

No meio da noite surgiu uma braba ventania
Que levou os cavaletes para o meio da rodovia
Um motoqueiro passou num cavalete cruel
Voou pela estrada e quase foi para o céu!

Tinha um cavalete no meio da calçada
No meio da calçada tinha um cavalete
Que fez uma criatura ser atropelada
Lá, agora, há uma cruz e um ramalhete.

Luciana do Rocio Mallon


Odalisca Cativa



Flamingos engolem peixes prateados
A odalisca depena tiês-sangue machos
Costura um vestido hemorrágico
Sacoleja sua anca amálgama
A bacia e os fêmures recrudescem
Esquerda, direita, esquerda, direita
Nádegas voluptuosas sibilam
Átimo feérico
Ressuscitam os mortos de Antares
Em polvorosa decompõem-se no palco
Aplaudem putrefatos
Atiram jóias à odalisca
Bodes defecam nas coxias
A carência devora um abacaxi prosélito
Faz arruaça no Beco das Paixões
O retrato de Josephine Baker alimenta
a língua de fogo da vela de sete dias
Vênus de Ébano
A odalisca flameja a púbis de longos pelos
oxalá desconhecem lâminas
Dança, rebola, cabrocha
Ela comprime e estufa o órgão do ventre
Abrigo de um feto bastardo
Ele enrola o cordão umbilical no pescocinho
and dies blue

 Priscila Merizzio


(Do livro Minimoabismo. São Paulo: Patuá, 2014)

ABSCESSO


Meu coração, coitado,
guardei-o com tanto esmero.
Cuidei que não pegasse friagem,
se alimentasse bem,
voltasse cedo pra casa...
Não adiantou:
foi ele te ver,
desbordou, estourou, incendiou
as nuvens todas do crepúsculo.
Arrasto agora pelas ruas da cidade
este gigantesco abscesso, meu estigma, meu prodígio:
um coração que já não cabe em parte alguma.

olw