terça-feira, 17 de março de 2015


maria da pena

*maria da pena

ela rogou ao mar
o touro branco
como a neve

a cor de seu desmaio
pelas fracas porcelanas

um troféu de reinado
para lembrar aos homens
que costurava ilhas
dispersas

e domava com rigor e charme
caótico
os olhos náufragos
sobre sua pele
coletora

quando surge na avenida
willendorf
maquiada de ocre vermelho
vestida com couro curtido
desafia a vênus
anadiômene

e sussurram mitologias:
cuidado, a minotaura.


AC

aldeia


corvos pretos vestidos de automóvel
ratos letrados analfabetizados
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.
cadáveres dissecados na rua
turba de tigres animados em ódio
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.
rios tornados marginais de estrume
nascentes mortas por especulação
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.
mil risos de porcos comendo fezes
pastores de mil orgias consagradas
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.
os meninos batizados de pólvora,
os velhos armados com grandes mentiras
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.
homens comprando os homens comprazentes
sacos plásticos pra indisposição
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.

(marcílio godoi)

domingo, 8 de março de 2015

Vamos falar sério, meu chapa:
não há garantias na vida.
Nem toda rua tem esquina,
nem todo verso acaba em rima.

[olw]

O MISTÉRIO DA VIDA


Foi na praia. Uma lua enorme
nascia dentre as ondas negras.
O vento trazia o teu cheiro
junto aos teus cabelos
e a areia, sob os nossos pés descalços,
registrava um itinerário de fugas
e espantos. Não havia dúvidas nem certezas: o próprio medo
era feito de esperança. Se eu acreditasse em Deus, exclamaria:
a terra onde pisam as palmas de meus pés é santa.
De repente, as estrelas todas
caíram do céu e nas rudes canoas dos pescadores
o mistério da vida se refez: a areia, as algas, a noite, o brilho do farol
se fundiram numa concha branca
que eu recolhi na concha de minhas mãos em prece.
Admirei suas nervuras. Provei de seu mel,
bebi de seu vinho, surpreso de não haver desfalecido.
(A lua se erguera feito um estandarte de paz
e, na areia clara, nossas sombras azuis
lacraram um testemunho: perfeito na humanidade, perfeito na divindade,
conforme o augusto Concílio.)
Depois foi a escuridão, o precipício. E a convicção:
quando eu morrer – numa sexta-feira às três em ponto da tarde –
estarei pensando em você.

Otto Leopoldo Winck

O AMOR QUE MOVE O SOL


Teus olhos me iniciaram no espanto de viver:
fiquei perplexo quando descobri que não havia limites para o encantamento.
Ao caminhar pela praia,
debaixo da última lua da história,
eu compreendi que o beijo
é o pacto que une céus & terra & oceanos & povos & raças & línguas.
Teus pés me indicaram um novo caminho
enquanto teus dedos apontavam as estrelas do céu e os grãos de areia da praia do mar.
Podemos contá-las?
Fundaremos uma nova civilização?
Morreremos na última guerra?
As perguntas são tantas
que a única resposta é o amor.
Mas o momento supremo
foi quando dois seios me revelaram
que todos os poemas do mundo
cabem na palma de uma mão.
Otto Leopoldo Winck

a flor sonha
com pólens e estames
e acorda
toda molhadinha


Nicolas Behr
Nascido em Cuiabá, mas vivendo desde 1974 em Brasília.

Está no livro Nove Poemas e Um Segredo, publicado na coleção Leve um Livro, com distribuição gratuita.Dá pra baixar esse e outros livros da coleção no site:
www.leveumlivro.com.br

COSMOGONIAS


Os deuses nascem da angústia.
Diante do abismo, nasce um deus.
Diante da noite, nasce outro.
Diante do amor, diante da morte, diante do brilho do sol,
diante do mar tenebroso, diante da chama do fogo
nascem os deuses magníficos e terríveis
que nos atormentam.
Ajoelho-me ante o seu panteão, prostro-me, beijo a laje fria do chão.
Não sou nada. Eles também.
Mas juntos criamos o mundo
pelo poder da palavra que é nada também.
Tudo é nada? O todo pode provir do nada?
Deixemos estas perguntas tolas para os cientistas e os teólogos.
A mim cabe admirar o que não tem explicação,
o que não faz sentido
(admirar ou me indignar),
prostrado no chão, dançando no abismo, chorando a ida dos dias.
Os deuses nascem da angústia.
Diante de um par de seios, diante da semente na terra, diante da morte de um filho
nascem os deuses da revolta e da submissão.
A mim cabe apenas presidir o ofício divino
com minha mitra, meu báculo de pastor e meu espanto de criança.
Eu mesmo acendo as velas, exorto os fiéis, faço a leitura dos livros sagrados.
Depois transformo barro em cidades, trigo em banquetes, vinho em civilizações antiquíssimas.
Não sou nada. Os deuses também.
Mas juntos criamos os mundos
que povoamos nas noites de angústia e solidão.
Pois cada mulher e cada homem nascem sozinhos (ainda que gêmeos),
morrem sozinhos (ainda que num acidente de carro
ou na explosão de um míssil na Faixa de Gaza)
e entre um ponto e outro, entenda: ninguém te entenderá.
Nem os deuses. Nem você.
Os deuses nascem da angústia.
Os deuses e este poema.

olw

marinha
me ensina a te amar
menina
na areia da praia
diante da lua
nascendo do mar
me ensina a te amar
menina
na beira das águas
na esteira da lua
que nua
emerge da noite
me ensina a te amar
menina
que a noite é escura
e só o amor
pode nos iluminar
[olw]



ETERNA ALIANÇA


Vamos fazer um pacto?
Você me enche de beijos,
eu te cubro de abraços.
E depois de tudo desfeito,
a gente refaz o trato.
E se não tiver mais jeito,
eu te cubro outra vez de beijos,
você me enche novamente de abraços.

Otto Leopoldo Winck

Julia Wuestefeld

Um pouco de chorume. Só um pouco de suco de lixo, de dejetos. Todo o resto que não nos atrevemos levar à boca. Isso é tudo que se precisa pra dar a vida. Não. Minto. No meu pequeno e triste canteiro de plástico também tinha um pouco de terra morta e a chuva deve ter ajudado também. Mas aquele líquido milagroso, feito de tudo que tem de pior na casa, é irônicamente o que nos sustenta. Se a decomposição tivesse um sangue, seria este, que escorre da morte como o que escorre que de um corte.
E traz a vida. Faz germinar do chão, do banco de sementes da terra, as mais charmosas da mudas. Pequenos brotos de coentro, habanero e gengibre que não encontravam-se ali antes e que apareceram sem convite na varanda 50x130 do meu apartamento. Só por causa da água rica em morte e vida despejada ali naquela terrinha severina e estéril do quinto andar.

As minhocas, os pulgões, os vermes que agora povoam este pequeno território aéreo proclamam a esperança em um mundo aséptico, em um tempo quando os maiores bens que podemos ter são o Raid, o Álcool 70 e o Merthiolate. Enquanto isso, os minúsculos tatus-bola tocam suas minúsculas e proféticas trombetas: anunciando a vida que reina sobre a morte. As únicas coisas precisas são uma fatia de curiosidade e um pensamento inevitável que estamos fadados ao fracasso. Isso - e uma cultivação quase irracional do tão desprezado lixo.

MICROCOSMOS


Se fez uma tempestade
num copo d'água,
é porque havia dentro
um oceano inteiro.

[olw]


o bêbado assaz
desfaz a queixa
que o distrai

rotula o vício
num precipício
de amor e ais

bate o martelo
contra a garganta
que se contrai

levanta um brinde
para a vertigem

e bebe mais

William Teca

LITERATO CANTABILE


Torquato Neto

agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início;
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:
a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de ideia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício.
e não se sabe nunca mais do fim. agora o nunca.
agora não se fala mais nada, sim. fim, a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.


MAIS UM BLUES


um blues na cabeça
um aperto no peito
um fogo na alma
este é meu destino
vagar pelas ruas
sem rumo
sem rima
sem metro
só pra ver se te vejo
num bar
num beco
ou na sombra
das cortinas
de tua janela
Otto Leopoldo Winck

METAFÍSICA


Nada faz sentido:
nem o mundo,
nem a vida,
nem você.
Este verso
é apenas o registro
de que ao menos
eu tentei.

[olw]

CARA A CARA


Detrás dos olhos
da cara
do cara
que no espelho
me olha agora,
eu penso:
vou morrer.
E daí?
E daí que não levo nada
das coisas que tive,
dos livros que li,
dos versos que escrevo.
(Tremem as pálpebras
do cara
e no peito, eu sei,
o coração.)
Detrás dos olhos
da cara
do cara
que no espelho
me encara agora,
pressinto:
não vai sobrar nada.
E daí?
E daí que vou dizer pra ela
na primeira ocasião:
danem-se as máscaras,
as caras más
e me dá um beijo agora!
(Tremem as pálpebras
e dos olhos
uma lágrima rola.)


Otto Leopoldo Winck

"Mulher bonita não é aquela que se carrega de maquiagem, se veste como a indústria da moda a obriga ou que fica mais parecida com o que o Photoshop é capaz de fazer. Mulher bonita é aquela que tem personalidade própria, liberdade e independência, que vive sua sexualidade livremente sem dar satisfação ao que a sociedade cobra dela. A beleza feminina está em ser dona de si mesma, do próprio corpo, que vive seus desejos e fantasias sexuais sem medo de religião."
 Thomas de Toledo

FLORES VOTIVAS

Eu
não tenho
medo da morte.
Eu tenho medo quando uma coisa cai
e quebra
como porcelana,
seja uma velha amizade,
um novo amor
ou o sentido – fortuito – dos orbes.
Aí vem o vazio,
pior que a morte,
que não cola mais os cacos espalhados no chão.
Eu
não tenho
medo da morte.
Eu tenho medo da ode
inconclusa, da carta interrompida,
do beijo suspenso,
seja este poema – que em si nunca estará completo –
seja a vida, esta obra sempre aberta...
Por que o medo então,
se tudo é acidental
e acidentado? Por que não assumir de vez
que este medo – que me paralisa no trabalho, na fila do banco, no amor –
não é, no fundo, no fundo, o medo da própria morte?
Talvez seja
para não dar o braço a torcer
a esta velha desmancha-prazeres
que corta os brotos
antes das flores, ou, quando não,
colhe as flores antes dos frutos
– e as oferece ao Nada.

Otto Leopoldo Winck
Curitiba descorada, onde a capelinha do santo foi emparedada, o leitE quentE azedou, o chineque bolorou e sobrou um endereço eletrônico para digitar o resto da história.

Lina Faria

NEM TODAS AS ÁGUAS DO MAR


No meio do dia,
no meio da vida,
a morte me amarga o desejo.
O simples soprar do vento,
que emaranha os teus cabelos
e turva as águas do rio,
me assombra o pensamento:
o dia é pouco
até para ser colhido.
Tua sombra na alameda
me faz lembrar que em breve
nem sombras nós seremos.
Então me dá tua mão
que eu sinto frio e tenho medo.
Medo de quê? – perguntas-me.
De ter pedir um beijo
e descobrir que entre mim e ti
há um fosso
que nem todas as águas do mar
vão encher.


Otto Leopoldo Winck

(tipo educação sentimental, saca?)


não te manda um whats
uma mensagem
a porra de um alô
o que você faz?
a) derruba meio litro de conhaque
e amanhece nas ruínas de são francisco
b) não faz nada (porque você é um bundão)
c) resolve escrever um livro que vai ser a obra prima da sua vida
d) compra uma kalashnikov, se manda pro curdistão e se alista no pkk


[olw]

terça-feira, 3 de março de 2015

OS GANCHOS DO AÇOUGUEIRO


Um dos suplícios mais usuais da Idade Média consistia em punçar
a língua dentro da boca com ganchos de açougueiro.
A vítima berrava para o carrasco mouco:
o único consolo dos mortos é não morrer nunca mais.
Ao ousar novas palavras,
o escritor aciona o fracasso do signo em dizer algo do que é:
o madeiro que me refresca a fronte é galho de limoeiro,
na tigela planto um trevo de quatro folhas para curar o aziago.
Aprendo com a voz do velho vento que sopra de leve a cortina:
“Só quem bebe do leque da pavoa
esquece vírgulas e mata a morte”.
Agimos sob a fascinação do impossível:
isto quer dizer que – uma sociedade incapaz de consagrar-se à ilusão –
está ameaçada de esclerose e de ruína.


Texto: Fernando José Karl

ALVÉOLOS DE PETIT PAVÊ


BRINCAR COM AS PALAVRAS


Brincar com as palavras
é perigoso.
Você faz amizades
e desfaz amores.
Pede água
e te dão fogo.
E até de noite
as palavras
te roubam o sono.
Por isso ser poeta
é para poucos.
Não é para quem quer
mas para quem ousa
dar um novo nome
às velhas coisas.
(Beijo, por exemplo, mais que ósculo
é lua de fogo sobre o Peloponeso...)
E só quem anda
no fio da navalha,
equilibrando impérios
e escombros,
sabe o risco contido
neste jogo.

Otto Leopoldo Winck

domingo, 1 de março de 2015

o poema, moça bela, é uma bala
destratada no cano do fuzil.
se eu te mando o amor que me retalha
já bebi cappuccino e rivotril
e o poema vira um corte de navalha."

RR
árvore do cerrado. cresceu comigo
rude e exótica. mas era minha
eu fui embora. ela não quis
ela não tinha pés. eu não tinha raiz

Nydia Bonetti

Estrelas e Sal


Lanternas esquálidas escarlates
A navegar escamas de Netuno.
Despejam o fluxo de outros mundos
Paridos em noite fria entre os lilases.
Atmosfera imersa em breu soturno,
Lançando redes de nylon, pescando sóis.
Gigantescos navios espaciais consumindo-se
Aprisionados no visco salino
Do enferrujado lastro dos anzóis.

Angela Gomes