segunda-feira, 18 de maio de 2020


Volto a um velho tema, a uma velha obsessão. A volta pra casa. A volta pro lar. Depois de uma longa jornada. Depois de uma longa guerra. Aí está Ulisses diante do lar. O portão está derruído. A velha casa em ruínas. O mato cresce por toda parte. Nenhum sinal de Penélope. Nem Ulisses é o mesmo: seus traços estão cansados, suas melenas longas e brancas. Não há quase nada do velho guerreiro.
Assim é a vida: não há um porto seguro pra retornar. Tu nunca voltarás à infância. O passado está enterrado. Os ponteiros do relógio só andam pra frente. A areia da ampulheta não retornará nunca. E ainda que tu te banhes no rio da memória, tu já não és o mesmo. E assim como o passado, que não existe mais, o futuro também não existe -- não existe ainda ou não existirá nunca. Um dia deixarei de atualizar esta página -- ou porque terei enchido o saco desta rede social ou porque estarei morto. Sim, morrerei um dia. E este dia pode ser amanhã. Basta atravessar a rua sem reparar no expresso que vem ou contrair uma versão agressiva do covid... Tu também morrerás um dia, hipócrita leitor (para parafrasear Baudelaire). E então o que temos? Temos só o agora, o instante que corre -- e às vezes isso é suficiente para tornar uma vida gloriosa. Ulisses, não olhes pra casa que foi. Construa uma casa de luz no dia de hoje. Fomos feitos para este dia. E é glorioso estar vivo.

Otto Leopoldo Winck

sábado, 9 de maio de 2020


O seu sorriso me faz crer
Na lenda das fadas
Azuis e ensolaradas
Festejando a essência da vida.
E, entre elfos e ondinas
Mergulho em silêncio
Meu sonho
Na noite que se faz presente
O seu sorriso é a lua.
(Angela Gomes)


Ando dormindo
com toda essa gente
de palavras soltas,
línguas libidinosas e
revolucionárias.
Vários ao mesmo tempo, 
homens e mulheres
numa balbúrdia de versos e
uma puta
vontade de ser
contaminada pelo vírus
 da inspiração e
disseminar o desejo libertário
pelas bocas
descuidadas e
corpos
anestesiados pelo medo.
Pela minha cama vários
 ao mesmo tempo. 
Me incendeiam e me devoram,
me beijam e me despem,
me lambem e me comem
num orgasmo de sentidos e
desejos incendiários
entre os dedos,
entrepernas
na tara
que é viver mergulhada na
poeisis da existência.
Lília Diniz.


Como uma puta louca
a lua nasceu atrás dos prédios
na louça azul do céu de maio.
Não houve desmaios.
Mas, caralho, a lua assim,
tão grande, tão branca, tão nua,
é muito lírica.
Otto Leopoldo Winck


ora, não me querias distante?
pois toma, agora,
mais um trago de ausência
já que, da minha permanência,
nada valeu, nem foi o bastante.
Lúcia Gönczy

RAÇADOS



Na verdade
Deus escreve torto
por linhas igualmente mal traçadas.
Todo anjo é barroco
e os santos
foram expulsos da República
juntamente com os poetas.
Na verdade
nenhuma luz é pura
e em excesso sempre cega.
Por isso tenho andado à sombra
e pelos caminhos mais escusos.
Sol e lua, carrego-os no bolso,
com um magote de estrelas
– cuidando que ninguém o saiba.
E o canto que ora canto
é feito de barro e madressilvas
em escalas variadas de silêncio.
Otto Leopoldo Winck


"Há o tempo de nascer e o de morrer.
Entre os dois são o Homem e seu tempo:
o largo espaço-tempo, claro tempo
que vai desde o viver ao não-viver.
Há o tempo de cantar e o de sofrer
e o de cantar sofrendo, e o de, cantando
sofrer; e há o tempo desse canto,
que o tempo dado ao homem é mercê.
Há o tempo de fazer e o de destruir,
e o tempo de sorrir e o de chorar,
de se manchar e de se desmanchar;
há o tempo de abraçar e o de partir,
e o de nascer, no tempo de abraçar,
e o de morrer, no tempo de partir."

Renata Pallottini

LARGUEAR



Quero alcançar-me, como quero
por minhas garras nas estrelas,
tê-las como amigas.
Desejo estar no mais profundo
do meu mundo e dos universos
que não vejo.
.
Almejo sonhar todos os sonhos,
levantar toda poeira,
banhar-me nas luas.
.
Então, depois de tudo...
virá o máximo.
Sem amarras, sem marcar o passo,
Sem limites ou fronteiras.
Fim de todas as barreiras
impostas pela realidade.
...............................
JULENI ANDRADE

http://juleniandradepoemas.blogspot.com/

O ÚLTIMO NEFELIBATA



Todo mundo é meio nefelibata em Curitiba. Meio pitagórico, meio vampiro, meio cachorro louco. Eu também. De dia durmo, rumino, medito. De noite saio, tomo uns tragos, frequento becos, bocas, contemplo a lua – quando ela dá as caras, é claro. Já fui professor de cursinho, redator publicitário, corretor de seguros, vendendor de móveis usados. Já vendi plano de saúde, assinatura de tevê a cabo, filtro dágua de barro. Até apontador de jogo de bicho já fui. Como não tenho mais idade para fazer malabares e ainda me sobrou um pouco de vergonha na cara para pedir esmola, estou aí, arrolado nas estatísticas dos sem ocupação. Mas não pensem que eu sou um desocupado. Trabalho duro. Teimo, limo, sofro, suo. Passo os dias – é preciso acentuar – compilando meus poemas. Trinta anos de produção. Não é fácil, meu amigo. Trinta anos alinhavando palavras, catando rimas, escandindo sílabas, marcando cesuras. São páginas e páginas de papel almaço, cadernos escangalhados, folhas datilografadas ou digitadas e impressas nas lan houses mais ordinárias da cidade. A maioria não presta. Sei disso. Depois de muito esforço, quem sabe eu consiga o suficiente para um opúsculo. (Opúsculo, gosto dessa palavra.) Falam de morte, de bruma, de brisa, de lua. E de mãe. É, e de mãe. Freud explica. Ou o diabo. Ah, esqueci de contar: moro com a minha mãe, num apartamento encardido do Alto da Quinze. Ela é aposentada do estado. Com o que ganha, pagamos aluguel, condomínio, luz. O telefone está cortado. Meu celular não sabe o que é crédito há uma cara. Como a aposentadoria dela é uma merreca e eu, como você viu, estou sem renda, é visível que para comer está difícil. Espremendo daqui e dali, fazendo mágica e reza brava, dá para um comer. É claro, sem luxo, pieroguis, estrogonofe, torta alemã, como antigamente. Para dois, ah, isso não dá. Por isso ela vinha dizendo, a velha: ou é tu ou sou eu. Não dá para os dois. Como tu não bota nada dentro de casa há muito tempo, tu cata as tuas coisas e cai fora. Eu dizia: peraí, mãe, pega leve. Não é fácil falar essas coisas, meu irmão. Mãe é sempre mãe. Pode ser velha, pode ter sido puta, mas é mãe. Deixa eu tomar mais um gole, está muito frio, essas noites de Curitiba são o diabo. Como eu tenho essa grana? Olha, meu amigo, a gente pode pasar fome, necessidade, mas sem os vícios a gente não passa. Às vezes rola um bico, um trampo, um trambique. Às vezes, no maior desepero, passo a mão em alguns livros lá da estante e vendo num sebo. Já tive uma senhora biblioteca, prateleiras e prateleiras de lombadas com títulos em francês, inglês, italiano, além dos brasileiros e portugueses de minha estimação: Antônio Nobre, Cesário Verde, Cruz e Souza e o pobre Alphonsus. Agora, não passam de algumas dezenas. Mas quando, assim mesmo, estou sem um puto, ah, aí eu apelo. Na bolsa da velha confisco um trocado. Fico sem remédio, sem comida – um pastel dá para o gasto – mas não fico sem o meu trago. Pobre velha, hão de chorar por ela não digo os cinamomos mas pelo menos os chorões carpideiros da Fernando Moreira. É, meu chapa, estou decadente. Je suis l’émpire à la fin de la décadence, saca? Na verdade, sou decadente: estrela caída, albatroz sem asa, flor do absinto. Sempre fui. Décadence avec élégance. Foi-se a élegance – já fui dândi, echarpes longuíssimas, cabelos à Oscar Wilde –, ficou a décadence. Mas eu não contei tudo. Deixa beber mais. In vino veritas, não é assim? Agora, com o conhaque, a verdade é mais letal. Bom, como eu ia falando, esta noite, ao sair de casa, fui me despedir da velha e não escutei o seu natural grunhido. Recuei, chamei-a novamente. Nada. Silêncio absoluto. Entrei no quarto (eu durmo na sala) e mais uma vez nenhum sinal. Ela teria saído para comprar um cigarro, ir à igreja, ao supermercado, sem que eu percebesse? Não, já era tarde e ela não costuma sair de noite por medo do sereno, da friagem, dos craqueiros. Entrei então no banheiro, pé ante pé, temendo o pior, sabe-se lá, a velha é louca. E vi. Atrás do box quebrado, lá estava ela, pendurada do cano do chuveiro (chuveiro elétrico; detalhe: queimado). Não aguentei. O baque foi grande. Saí para espairecer, dar umas voltas, bater perna, enquanto o corpo esfria. Com o frio que está fazendo, meu irmão, esfria logo, logo. Aliás, o corpo dela nunca foi muito quente. Calor ali só no ódio votado ao filho. Então é isto: saí para relaxar. Gola erguida, chapéu enfiado nos olhos, o rosto contraído contra o vento gélido, sigo pelas ruas, ruelas, vielas, as mais escuras, as mais desertas. Medo de algum maluco, algum drogado? Absolutamente: na mão crispada dentro do capote, a faca. Um dia um piá veio se meter a besta e ficou estirado na calçada, sangrando. Já disse, sou meio louco, vampiro, degenerado. Minha vida é assim. Entro num boteco, peço uma dose, engulo alguns rollmops quase apodrecidos, pago, pego as moedas sobre o balcão, saio de novo. O vento me corta o rosto e, somado ao álcool que começa a circular nas veias, me dá um estranho prazer. A mão no bolso, apalpo o cabo da faca. Logo encontro outro cabo, maior, latejante, aflito por uma bainha sorrateira. Mas não há nenhuma polaca na rua capaz de me satisfazer por vinte pratas. Amigo, a vida é dura para quem nasceu poeta e sem vocação alguma para ganhar dinheiro. Prossigo meu caminho, que é caminho nenhum, transeunte sem rota, sem norte, sem aura, às avessas. O passo veloz, corto as ruas, as esquinas, os canteiros. Alcanço o Largo da Ordem, a essa hora hora ainda povoado pela burguesia adiposa de Curitiba. Atravesso a Praça Tiradentes, escura, um casal bolinando num banco, um mendigo dormindo no outro. Desço pela Rua das Flores, cruzo por punks, ratazanas atravessam o calçadão quase deserto, salvo dois ou três notívagos. Passo pela Boca Maldita, agora calada, seus aposentados dormindo e sonhando com outra Curitiba que os anos não trazem mais. Atinjo a Praça Osório e saúdo – salve, salve, meu príncipe – o busto de Emiliano Perneta na herma entre os pederastas. Todo mundo é meio taciturno em Curitiba, meio poeta, meio louco, meio simbolista. Deve ser o fog londrino que por descuido de São Pedro veio parar também aqui – ou então é o espectro do Dario Veloso ou do Rocha Pombo que não nos deixa em paz. Quanto a mim, sou inteiramente sombrio, hipocondríaco, merencório, como se dizia antigamente. (Merencório, gosto dessa palavra.) Nasci sob o signo de Saturno, odeio sol, odeio luz, odeio sorriso de criança. Jardins, triciclos, balões coloridos? Estou fora. Chás em academias, ciclos de leitura, cafés com viados metidos a intelectuais? Também estou fora, camarada. Dou a volta, subo pela Visconde de Guarapuava, chego à Fernando Moreira, observo os supracitados chorões sobre o córrego que não vê peixe há muitas décadas e me recordo da enforcada. Meu velho, eu me preveni. Do último trampo me sobrou uma grana, com a qual eu fiz um seguro para ela. Com o cobre edito o opúsculo. O título? O último nefelibata. É isso aí, cara, eu sou o último nefelibata, o último autêntico dessa capital provinciana que já teve dias melhores e que por um mero acaso, já disse, um puro capricho dos deuses, veio parar nesse país entre os tristes trópicos. Subo agora pela Cândido Lopes, ali a Biblioteca Pública, museu dos paranistas. Mais uma dose. Pelo menos eu vou ficar com o seguro. Menos mal. Para ela eu acendo uma vela, afinal era minha mãe, doidivanas, decrépita, mas minha mãe, uma vela bem grande, do tamanho dela, preta, que é para ela não sair do inferno. Uma estadia no inferno? Não, a eternidade. Ela disse: com a titica que eu ganho só dá para um, endendeu? Só dá para um. Como tu não serve para nada, nem para consertar a bosta de um chuveiro, tu cai fora. É duro ouvir isso da mãe da gente. Bom, a conversa está boa mas eu vou andando, tenho que dar parte na delegacia. Seu delegado, que horror, a minha mãe se matou, se dependurou do cano do chuveiro em seu último cachecol. É conveniente chorar um pouco. Mas bem pouco. Ninguém chora muito por uma velha louca. A noite, a brisa, a bruma, o álcool me dão uma estranha sensação, como eu disse. À mente me vem versos, árias, imagens. Quero morrer assim: uma garrafa de conhaque de um lado, um livro do Edgar Allan Poe do outro. Tedium vitae, spleen, nevroses, como se falava. (Nevrose, gosto dessa palavra.) Já disse: sou meio louco, vampiro, cão danado. Já fui pitagórico, rosacruz, bati ponto no Templo das Musas, já bebi sangue de galinha no cemitério. Agora estou mais cool, o meu divertimento é tomar um conhaque e andar a esmo pelas ruas de Curitiba, saudando os mendigos, as prostitutas, os invertidos. Sou poeta e portanto inadaptado à vida. Sem um trago, meu velho, não dá. Não dá para aguentar o frio, não dá para aguentar a vida, não dá para aguentar a velha me dizendo todo santo dia, como se eu tivesse dezessete anos, que se eu não arranjar mufunfa alguma ela me enxota de casa. Que Deus a tenha. No inferno não vai precisar de chuveiro elétrico. Nau sem rumo, barco embriagado, estou de volta ao São Francisco. Me apraz contemplar as fachadas desses casarões centenários na névoa das três e quarenta da matina. Pouca gente na rua agora, um guarda noturno, um cachorro sarnento, um velho fedido dormindo na rua. Mas devo seguir, despetalar até o fim a última flor do mal. Me desvio de um crioulo bêbado, atravesso a avenida, os faróis do carro são duas grandes nebulosas. Chego a este bar, quatro mesas, três fregueses e encontro você – que me fez a gentileza de ouvir esta história. Foi muito boa a conversa, meu chapa. Deu para espairecer. Mas devo seguir viagem. Cumprir meu destino. O corpo já deve estar frio, gelado, ficando azul, os olhinhos saltados. Muito prazer. Deixa que esta eu pago. Faço questão. Não está lembrado? Eu tenho uma chelpa para receber. Com licença, preciso ir à delegacia. Que maçada essas coisas, velório, enterro, apertos de mão. Parente velho só serve mesmo para morrer. Eu nunca fui muito prático. Fazer o quê? É a vida. As pessoas nascem, as pessoas morrem. Entre uma coisa e outra elas pagam contas, tomam remédios, suportam filas e se desesperam. Algumas, as mais sensíveis e delicadas, fazem versos, como eu. Versos inúteis que não publicam. Ah, mas dá na mesma, foder ou ser fodido, escrever ou ser escrito, poeta ou salafrário. Agora eu vou. Encaro o delegado e conto que a velha se matou. Afinal, foi ela que disse: ou é tu ou sou eu. Não dá para os dois. Ou danço eu ou dança ela, meu irmão. Como eu sou mais esperto, dançou ela. Todo mundo é meio psicótico em Curitiba. Menos eu.

Otto Leopoldo Winck

POEMA PARA UM SÁBADO DE MORTE



vida ou morte não são coisas opostas
e sim divindades em tempo certo?
eu tenho mais perguntas que respostas
também não peço água no deserto
tristeza e dor se dão bem por compostas
à noite estrelas sentem-se mais perto
quem carrega meus problemas nas costas
é a amiga que dorme onde eu desperto
ser craque da palavra já me basta
veja só como é interessante
uma puta poesia pura e casta
pode foder com todos num instante
uma só gripezinha é o bastante
para a dez mil decretar insana caça
e vai matar bem mais, inobstante
o que se faz para salvar a raça
pessoas não são números nem gráficos
são seres que têm alma e coração
para eles escrevemos os clássicos
e amor como tema em cada canção
mentes conectam registros akáshicos
na eterna forma de contribuição
aos cômicos se opõem tristes e trágicos
ao luto, nossa comiseração
a essa pobre gente minha rima
rica em efeitos especiais
sentimento que a tudo acolhe e arrima
em risos, lágrimas, em ós e ais
cumpra-se assim o rito de quem prima
pela vida com aquele algo a mais
e ao seu amor o meu amor imprima
o bem que é sempre bom demais!

antonio thadeu wojciechowski


Gira, gira, gira...
Gira o mundo e,
Eu sem saber
Aonde a roda me levará.
Pra conhecer a paz
Devo na guerra morrer?
Pra meditar no que
Não voltará jamais
Devo partir?
Vou caminhar
Não devo me iludir
Com o que encontrar
Na rota louca
De não saber onde ir...
A "Porta do Sol"
O voo de um "Homem Pássaro"
A lançar seus braços
Na dimensão de se estar
Muito além da sombra
De algum planeta.
Ou, do sentido
De se empunhar
Uma caneta.
Na madrugada sou
O que com o vento partiu;
O que a terra engoliu.
E, na tarde
O encaminhamento
De poder retornar
Ao amanhecer.
Angela Gomes.


quarta-feira, 29 de abril de 2020

Fidelidade




Não a coerência com a identidade
Nem a glória na qual repouso
Naturalmente

Impelir-me-iam,
Grosso modo.

Pois todo arremate, enigma,
Subjaz

Underground vertente original
ACM

quinta-feira, 19 de março de 2020


Josemir Tadeu Souza     


Sorte do poeta...
alguns versos nem precisam ser escritos,
colocam-se modo infinito,
bem explícitos...
não precisam ser transcritos.
Tocam forma forte, nossas caras...




Silêncio contrariado


Ricardo Mainieri              


Carrego dentro
um punhado de lágrimas.

Artefatos bélicos
não deflagrados.

Os ritos sociais
exigem penitência
ardis
disfarces.

Sou bom menino:
obedeço.

Num silêncio
contra & irado.



SOLIDÃO




Por que fazes assim com quem deseja
Estar sempre ao teu lado, a vida inteira.
A solidão cruel aqui lateja
Na ausência desta amada companheira.

A lua que se esconde sertaneja
Deixando esta incerteza, derradeira,
A dor em agonia, malfazeja,
Sangrando e destruindo esta bandeira

Do amor que sempre foi minha esperança
Apenas o vazio me tomando.
Restando tão somente uma lembrança

De um tempo mais feliz. Mas é passado.
Meu sonho se perdendo e desandando,
Seguindo sem ninguém, abandonado...

Medrei-me...
talvez eu tenha que lobrigar.
Adiantar meus passos,
desatar os laços...
aqueles que contidos em mim
em forma de nós,
deixam-me a mercê da esqualidez.
Preciso fazer fluir-me,
buscando com avidez
a afirmação de ser-me de fato.
Preciso abolir de mim, o talvez...

josemir(aolongo...)

A Palavra




© Nathan de Castro

A palavra é a minha morada.
Nela guardo todos os meus sonhos, todos os meus medos,
todas as minhas angústias e todos os meus silêncios.
A palavra é a poesia que nasce da terra,
a semente que germina, o trigo que floresce,
o mato que cresce e a árvore
frondosa que tem sombra de palavra amiga.

A palavra delira
e a palavra paixão
é a palavra que gira
e alimenta a canção.

A palavra respira
e a palavra é a emoção,
que das cordas da lira
diz sim à vida, e não
à palavra que nada diz
a esse canteiro torto: o meu coração...

Amanhã tem a palavra das sombras...
Tem a poesia. Tem o sim e tem o não.
Não existe perda,
existe a rima e o beijo doce, de emoção.

A palavra delira
e a palavra é:__ Paixão!

Do tempo:


De Fernando Moreira Salles

Hora descarnada
não lembra
não tarda
hora rasa
nomeia a todos
convoca os deuses
e sem demora
vira a página

BLUES




bebo estrelas
ávido de azul
brinco de roda
pinto uma tela
abro a janela
e escuto um
som de blues

(Cristina Desouza)

POEMA INACABADO



NALDOVELHO

Louva-deus sentado na janela,
observa contrito o dia que passa.
Dentro do quarto, em cima da mesa:
pétalas, pensamentos, palavras, poemas.
Lá fora entardece, e um vento inquieto avisa:
logo-logo anoitece!
Pela janela: sol sonolento abençoa louva-deus.
Em cima da mesa: versos confessos, segredos, solidão.
Num canto do quarto, pendurada: renda portuguesa
diz que adora o poeta, que lhe tem devoção.
Agora é noite, luz da lua ilumina louva-deus.
Aqui dentro: poema inacabado,
onde palavras são pétalas, esboço de oração.


QUIETUDE DA ALMA



NALDOVELHO

Passarinhos passeiam pela sala
e um gato sonolento espiona.
conversa travada em silêncio,
cumplicidade premeditada com o tempo.
O cheiro de café coado bem forte,
pão francês, queijo branco, angu de corte,
biscoito de nata, goiabada cascão,
manteiga sem ranço, tarde macia de agosto
e uma certa brisa quente no ar.
Que tal encostar, assim, mais um pouco?
Embaraçar de vez nossas pernas?
Suas mãos mal intencionadas provocam...
O meu corpo aquecido responde.
Espreguiçadeira repousa na varanda,
samambaia chorona ao vento.
Quietude precisa da alma
que entardece aconchegada em seu colo.


Emoção eviscerada




Por tanto tempo
(interditada)
trago agora
a emoção eviscerada.

Que se abre em
versos
vozes
afetos
imagens.

Perdi a chave
que blindava
todo o inconsciente
& seus produtos doce-amargos.

Estou exposto
à visitação pública & privada.

Não tenho medo do escuro
ama(r)dureci.

Ricardo Mainieri

Poeta Argonauta



© Nathan de Castro

Poeta e argonauta, viajei
por entre nebulosas gigantescas.
Nadei em mar sereno de águas frescas
e em Êta de Carina me encontrei.

Marujo velho e amigo das estrelas,
ao brilho de Canópus me entreguei
para beber da luz e absorvê-la,
mas nada... Meu poema não achei.

E náufrago dos sonhos e dos versos,
hoje procuro em terra a embarcação
para voar meus dias no Universo

com rimas simples, paz no coração...
E resgatar minh’Argus submersa.
De dia, sol. De noite, outra canção.



Paulo Leminski, 

sorte no jogo
azar no amor
de que me serve
sorte no amor
se o amor é um jogo
e o jogo não é meu forte,
meu amor?



chovem as nuvens
gotículas de verde
molham a serra

(Cristina Desouza)

"pouco a pouco, o impasse"



- Para Antonio Cicero.

peça a peça, monta-se
o quebra-cabeça.
pouco a pouco, o impasse
do projeto esqueça.

passo a passo, a base
do poema nasce
das sinapses, quase
sem forma, sem face,

envolta de breu,
do que se perdeu
na intenção de ver

vir à tona o ver-
so... depois? viver
o que aconteceu!


Adriano Nunes

quarta-feira, 18 de março de 2020

ONTEM, HOJE, AMANHÃ E SEMPRE



quando eu vagava devagar e sempre
as estrelas do céu eram meus mimos
olhava bem de cima para os cimos
sonhar era o que importava realmente
mas resolvi acelerar o passo
e voltar atrás me fez ir em frente
não me perguntem o que eu tinha em mente
ao mandar minhas ilusões pro espaço
foi pensando em aprender a ser gente
que emburreci de vez meus sentimentos
perdi o centro dos acontecimentos
e a vida se arrastou lamentavelmente
olhando para minha trajetória
hoje, sei o quanto estava equivocado
ver o futuro é coisa do passado
só no presente funciona a memória
se agora ao céu me volto emocionado
não é o sonho de Leon me acompanhando
mas a consciência de onde, como e quando
deter o diabo que eu tenho carregado


antonio thadeu wojciechowski

...

Frágil




feito de sonhos
& lembranças
me arremesso
no teu colo
feito um pássaro
assustado

Otto Leopoldo Winck


entre uma noite
e outra
um ligeiro fulgor:
esta é a vida
isto é tudo
que temos
e somos

por isso vamos dançar
ébrios da luz
dessa chama breve

que a vida
é este pouco
este quase nada
isto é tudo
e este tudo basta:

uma chama
um chamado
uma dança
de duas breves
borboletas

Otto Leopoldo Winck


há um corpo no chão
entre transeuntes que passam apressados
observam curiosos
se desviam
fazem perguntas
é só um corpo
mais um entre tantos

um corpo morto
um corpo negro
um corpo jovem

é bom saber que a polícia está fazendo o seu trabalho

Otto Leopoldo Winck


Lua. Uma é a lua que vejo, outra a lua que escrevo. E nenhuma delas tem relação com a lua real para além da visão e da escrita. O que isto quer dizer? Que a literatura não tem nada a ver com a vida? Não necessariamente. A literatura ora vampiriza a vida, ora a ilumina. Representação e transfiguração -- eis o efeito da literatura. O poeta é pintor e xamã. Testemunha e bruxo. Lua. Que lua é esta?

OLW

Os trabalhadores e a juventude brasileira precisam defender sua vida e sua sobrevivência



 "Declaração Os trabalhadores e a juventude brasileira precisam defender sua vida e sua sobrevivência A Organização Mundial de Saúde (OMS) acaba de declarar que o mundo está numa pandemia de coronavírus. Para a OMS, nas últimas duas semanas o número de casos fora da China aumentou 13 vezes e número de países afetados triplicou. Hoje, são mais de 118 mil casos ao redor do mundo e 4.291 mortes. Segundo o jornal El País/Brasil “O diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou nesta quarta-feira que o órgão está ‘profundamente preocupado’ com ‘níveis alarmantes de propagação e severidade, bem como com níveis alarmantes de inação”. Há poucos dias a imprensa mundial divulgou que um grupo de pesquisadores da Universidade Harvard estimou que entre 40% e 70% de toda a população mundial deve ter resultado positivo para o novo coronavírus em algum momento. De acordo com os cientistas, essa taxa de infecção poderia ocorrer ao longo do próximo ano. Hoje, a primeira-ministra alemã, Angela Merkel, previu que 70% dos alemães podem contrair o vírus se nada for feito para conter a expansão da doença. Feitas as contas, se a contaminação atingir entre 40 e 70% da população mundial, e com o grau de letalidade variando entre 2% e 3,6%, as mortes podem atingir dezenas de milhões – ou até mais de 100 milhões - de pessoas em todo o mundo. Isso equivaleria a uma guerra mundial. O ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse, em audiência no Congresso Nacional, que nada muda com o anúncio da OMS. Ou seja, pouco se importou com os riscos envolvidos por detrás da Pandemia, reproduzindo o descaso que vem sendo expresso pelo presidente Bolsonaro. No momento em que o Brasil precisaria liberar mais verbas para fortalecer seu setor de saúde e melhorar as condições sanitárias para evitar a propagação do coronavírus, o Ministro Paulo Guedes, da economia, enviou ao Congresso uma lista de prioridades onde pede a aprovação acelerada das PECs que desmantelam e privatizam os serviços públicos atingindo em cheio à saúde pública do país. A preocupação do Ministro da Economia não é com os trabalhadores, com a população, e sim com a política de ajuste fiscal que disponibilize aos especuladores (donos de títulos da dívida pública) dinheiro público para engordar seus dividendos. É isso que ele está fazendo com o Fundo Soberano, queimando bilhões de reais no jogo de especulação do dólar contra o real. A urgência do povo é diferente da ganância dos grandes capitalistas bilionários. O povo tem urgência em fortalecer o sistema de saúde, equipar os hospitais e ampliar os leitos hospitalares, melhorar nossas condições sanitárias, contratar e capacitar mais profissionais da saúde, fabricar máscaras adequadas na quantidade necessária à população, assegurar os salários e os empregos dos trabalhadores. Por isso é tarefa da hora que as organizações dos trabalhadores e da juventude (partidos, centrais sindicais, UNE/UBES, etc) exijam, entre outras medidas: - Cancelamento imediato da EC 95 que congela os gastos com a saúde pública, ampliação emergencial do sistema público de saúde (SUS); - Utilização do dinheiro do Fundo Soberano para aumento dos gastos com a saúde pública e medidas para minorar as consequências sociais do coronavírus e não para gastar na guerra cambial dos especuladores. Contra a especulação ao Real controle do câmbio pelo Banco Central; - Suspensão imediata da aplicação da reforma previdenciária para garantir dinheiro para a seguridade social e poder de consumo da classe trabalhadora; - Retirada imediata de tramitação de todas as propostas no Congresso Nacional que desmantelam, reduzem e privatizam os serviços públicos; - Proibição de demissões e reduções de salários por conta do coronavírus; - Nenhuma escola desativada ou com verbas cortadas. Nenhum professor demitido. Garantia de ajuda alimentar para as crianças que dependam da merenda escolar matriculadas em escolas fechadas temporariamente. Licença de trabalho – sem corte de salário e com garantia de emprego – para mães de crianças de escolas onde as aulas forem temporariamente suspensas; - Nenhum curso universitário desativado ou com cortes de verbas em universidades temporariamente com as aulas suspensas. Mais verbas para a pesquisa em área de saúde relativas ao combate ao coronavírus. É evidente, depois de 1 ano de mandato, que o governo Bolsonaro é um governo desinteressado em defender a vida da grande maioria do povo brasileiro. Diante de uma situação tão preocupante como a pandemia de coronavírus, onde as medidas são urgentes para defender socialmente a sobrevivência da família trabalhadora, o povo tem o direito de discutir os meios de constituir um governo e instituições capazes de levar esta tarefa adiante. Certamente, não será um governo a serviço de especuladores e de grandes capitalistas – que só fazem aumentar a miséria – que realizarão a tarefa de defender a vida da população. No dia 18 de março todos às ruas lutar contra Bolsonaro e sua política de destruição dos serviços públicos que só vai agravar as consequências do coronavírus. Fora Bolsonaro, por um governo dos trabalhadores que defenda a vida do povo. Estamos à disposição para discutir com todos os militantes, trabalhadores e jovens, essa declaração. Organização Comunista Internacionalista (OCI) – 11.03.2020 Contato: cartaoci@gmail.com". Você pode escolher se deseja adicionar isso à sua linha do tempo.
Anisio escreveu: "Declaração Os trabalhadores e a juventude brasileira precisam defender sua vida e sua sobrevivência A Organização Mundial de Saúde (OMS) acaba de declarar que o mundo está numa pandemia de coronavírus. Para a OMS, nas últimas duas semanas o número de casos fora da China aumentou 13 vezes e número de países afetados triplicou. Hoje, são mais de 118 mil casos ao redor do mundo e 4.291 mortes. Segundo o jornal El País/Brasil “O diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou nesta quarta-feira que o órgão está ‘profundamente preocupado’ com ‘níveis alarmantes de propagação e severidade, bem como com níveis alarmantes de inação”. Há poucos dias a imprensa mundial divulgou que um grupo de pesquisadores da Universidade Harvard estimou que entre 40% e 70% de toda a população mundial deve ter resultado positivo para o novo coronavírus em algum momento. De acordo com os cientistas, essa taxa de infecção poderia ocorrer ao longo do próximo ano. Hoje, a primeira-ministra alemã, Angela Merkel, previu que 70% dos alemães podem contrair o vírus se nada for feito para conter a expansão da doença. Feitas as contas, se a contaminação atingir entre 40 e 70% da população mundial, e com o grau de letalidade variando entre 2% e 3,6%, as mortes podem atingir dezenas de milhões – ou até mais de 100 milhões - de pessoas em todo o mundo. Isso equivaleria a uma guerra mundial. O ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse, em audiência no Congresso Nacional, que nada muda com o anúncio da OMS. Ou seja, pouco se importou com os riscos envolvidos por detrás da Pandemia, reproduzindo o descaso que vem sendo expresso pelo presidente Bolsonaro. No momento em que o Brasil precisaria liberar mais verbas para fortalecer seu setor de saúde e melhorar as condições sanitárias para evitar a propagação do coronavírus, o Ministro Paulo Guedes, da economia, enviou ao Congresso uma lista de prioridades onde pede a aprovação acelerada das PECs que desmantelam e privatizam os serviços públicos atingindo em cheio à saúde pública do país. A preocupação do Ministro da Economia não é com os trabalhadores, com a população, e sim com a política de ajuste fiscal que disponibilize aos especuladores (donos de títulos da dívida pública) dinheiro público para engordar seus dividendos. É isso que ele está fazendo com o Fundo Soberano, queimando bilhões de reais no jogo de especulação do dólar contra o real. A urgência do povo é diferente da ganância dos grandes capitalistas bilionários. O povo tem urgência em fortalecer o sistema de saúde, equipar os hospitais e ampliar os leitos hospitalares, melhorar nossas condições sanitárias, contratar e capacitar mais profissionais da saúde, fabricar máscaras adequadas na quantidade necessária à população, assegurar os salários e os empregos dos trabalhadores. Por isso é tarefa da hora que as organizações dos trabalhadores e da juventude (partidos, centrais sindicais, UNE/UBES, etc) exijam, entre outras medidas: - Cancelamento imediato da EC 95 que congela os gastos com a saúde pública, ampliação emergencial do sistema público de saúde (SUS); - Utilização do dinheiro do Fundo Soberano para aumento dos gastos com a saúde pública e medidas para minorar as consequências sociais do coronavírus e não para gastar na guerra cambial dos especuladores. Contra a especulação ao Real controle do câmbio pelo Banco Central; - Suspensão imediata da aplicação da reforma previdenciária para garantir dinheiro para a seguridade social e poder de consumo da classe trabalhadora; - Retirada imediata de tramitação de todas as propostas no Congresso Nacional que desmantelam, reduzem e privatizam os serviços públicos; - Proibição de demissões e reduções de salários por conta do coronavírus; - Nenhuma escola desativada ou com verbas cortadas. Nenhum professor demitido. Garantia de ajuda alimentar para as crianças que dependam da merenda escolar matriculadas em escolas fechadas temporariamente. Licença de trabalho – sem corte de salário e com garantia de emprego – para mães de crianças de escolas onde as aulas forem temporariamente suspensas; - Nenhum curso universitário desativado ou com cortes de verbas em universidades temporariamente com as aulas suspensas. Mais verbas para a pesquisa em área de saúde relativas ao combate ao coronavírus. É evidente, depois de 1 ano de mandato, que o governo Bolsonaro é um governo desinteressado em defender a vida da grande maioria do povo brasileiro. Diante de uma situação tão preocupante como a pandemia de coronavírus, onde as medidas são urgentes para defender socialmente a sobrevivência da família trabalhadora, o povo tem o direito de discutir os meios de constituir um governo e instituições capazes de levar esta tarefa adiante. Certamente, não será um governo a serviço de especuladores e de grandes capitalistas – que só fazem aumentar a miséria – que realizarão a tarefa de defender a vida da população. No dia 18 de março todos às ruas lutar contra Bolsonaro e sua política de destruição dos serviços públicos que só vai agravar as consequências do coronavírus. Fora Bolsonaro, por um governo dos trabalhadores que defenda a vida do povo. Estamos à disposição para discutir com todos os militantes, trabalhadores e jovens, essa declaração.

Anisio Garcez Homem 




Organização Comunista Internacionalista (OCI) – 11.03.2020 Contato: cartaoci@gmail.com"



Curitiba é uma província.
Diminuta, tacanha, ensimesmada.
Mas não na literatura: na literatura Curitiba é um gigante.
Já houve tempo que a literatura em Curitiba se reduzia a alguns pálidos satélites em torno de um ou outro luminar: Emiliano, Newton Sampaio, Dalton, Leminski...
Esse tempo acabou: hoje Curitiba é uma galáxia, uma nebulosa, uma constelação onde luzem aqui e ali dezenas de asteroides de primeira grandeza.
Ainda há uma certa autofagia, uma excessiva timidez, um medo de se apresentar e dizer "oi, tô aí", mas, fora isso, onde outra cidade com tantos poetas, prosadores, ensaístas e tradutores de responsa?
É esta Curitiba que eu viajo.
Não a do Moro, do Grega e da bancada do camburão.

Otto Leopoldo Winck (10 de março de 2018)

AMOR ADENTRO




Adentro teu corpo
como quem adentra o mar
e, mar adentro, adentra a noite:
lemes, velhas cartas de navegação, astrolábios
são inúteis para me guiar. Não sei se descobrirei Américas, Atlântidas
ou se me afogarei. Sei apenas que o mar
tem gosto de lágrimas
e o amor é salgado.

Adentro teu ser
como quem adentra o mar à noite
e, mar adentro, noite adentro, adentra o mistério dos seres,
sem âncoras, sem bússolas, sem nenhuma orientação.
Não sei se ouvirei sereias, preso ao mastro como Ulisses,
ou se serei arrebatado como Elias.
Sei apenas que é tarde,
muito tarde,
e que todo amor é amargo.

Otto Leopoldo Winck

BANANA BOAT



Você já esteve na esquina
Onde marcamos de nos encontrar?
A loucura do labirinto lateja
Embora nem eu nem você ali esteja

Tristeza é sombra
E Minotauro o tamanho da solidão
Sonho nem sempre salva
Ilusão desengana
Delírio é apoteose sacana

A conclusão é que somos banana
Eu e você

Antonio Thadeu Wojciechowski, Eduardo de Moraes e Sérgio Viralobos

terça-feira, 17 de março de 2020

kierkegaard ou o palhaço




● incendio no circo - berra ●
● o palhaço nu no picadeiro - ●

● o circo ta pegando fogo - ●
● fogo sem fim q tudo devora - ●

● os clientes juram q é teatro - ●
● porisso riem com violencia - ●

● ele urra urro - burro burra - ●
● acham inda mais engraçado - ●

● entre chamas o palhaço ●
● rosna - rosno com loucura - ●

● com loucura eles riem - ●
● ate entre chamas eles riem - ●

● nas mesmas chamas - vamos ●
● não vamos - ser é não dizer - ●

trutas

● cesar precisa sair ●
● o senado espera o povo espera ●
● inda com esses pedaços de truta na boca ●

● cesar palita os dentes no meio da rua ●
● mastiga o resto de truta q saiu dos dentes ●
● a truta macia pescada pros dentes ●

● cesar gosta das trutas bem assadas ●
● dos palitos afiados de bambu e do senado ●
● bem calado como manda a tradição ●

● cesar não sabe mais o q dira ao povo ●
● o q dira ao senado porq so pensa nas trutas ●
● sempre macias e no palito fura linguas ●

● cesar anda pela rua com o olhar do povo ●
● ele não gosta do povo não gosta do senado ●
● ele não gosta de roma so gosta das trutas ●

● cesar tambem não gosta de facas e espadas ●
● porisso ele grita pra quem olha e murmura ●
● vão todos pra puta q os pariu e ri e ri ●

● cesar vai e vai como um doido varrido ●
● arrastando passos olhando passaros ●
● longe o rio as trutas os barcos balançam ●

● cesar coça a virilha q arde e ri e ri ●
● porq é como se fossem as trutas na agua ●
● quando se mergulha grita ele desesperado ●

● cesar ve o senado ve o povo reunido ●
● depois virão as palavras na hora bem assim ●
● sempre foi assim berra ele coçando o saco ●

● cesar sabe q vai morrer sabe de tudo antes ●
● porisso sou cesar grasna cesar indo morrer ●
● sonhando trutas coçando o saco ele morre ●

*

POBRE DE DAR DÓ




nunca houve um big bang, a ciência é patética
a fraude intelectual me dá nos nervos
tudo não passa de uma bobagem hipotética
todos os elementos continuam os mesmos

cada ponto do universo está conectado e respira
o tempo assiste o seu próprio renascimento
ninguém morre realmente, nem por birra
só os tolos veem na matéria seu desenvolvimento

a vida é essa passagem de um lado para o outro
a alma migra, ganha impulso, e sai fritando
o cérebro é um saco que o espaço trata a soco
a história, a soma dos erros que vamos anotando

o estágio de nossa civilização é uma piada de mau gosto
o capitalismo extingue e quer receber em espécie
mães choram e uivam para a lua só de desgosto
ainda não colocaram no mundo algo que preste!

e eu, mais miserável que o mais miserável dos seres,
do alto desta folha de papel, rio amargamente:
o deus grana vende aos pobrinhos seus superpoderes
e eles compram, pois querem ser felizes para sempre!

.
antonio thadeu wojciechowski


ONTEM, HOJE, AMANHÃ E SEMPRE



quando eu vagava devagar e sempre
as estrelas do céu eram meus mimos
olhava bem de cima para os cimos
sonhar era o que importava realmente
mas resolvi acelerar o passo
e voltar atrás me fez ir em frente
não me perguntem o que eu tinha em mente
ao mandar minhas ilusões pro espaço
foi pensando em aprender a ser gente
que emburreci de vez meus sentimentos
perdi o centro dos acontecimentos
e a vida se arrastou lamentavelmente
olhando para minha trajetória
hoje, sei o quanto estava equivocado
ver o futuro é coisa do passado
só no presente funciona a memória
se agora ao céu me volto emocionado
não é o sonho de Leon me acompanhando
mas a consciência de onde, como e quando
deter o diabo que eu tenho carregado
antonio thadeu wojciechowski



Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
Fernando Pessoa, 12-1911



[O que é escrever senão uma tentativa vã, desesperada, de exorcizar os demônios e arrancar deles um sentido?] por Jamil Snege, grande prosador e poeta ainda a ser descoberto pelo Brasil.

POESIA VERSUS PROSA


 by Marcelo Sandmann
para Cristovão Tezza

Um bom poema é feito
tiro de misericórdia.

O poeta não tortura seu leitor
como faz o prosador,
linhas
e dias a fio.

É pá-buf!

O corpo caído:
o pingo na testa.

Revolução dos ubers




no começo achei que ia ser só pra fazer um extra, mas sabe como é, a vida é dura igual rapadura. meu avô sempre trazia rapadura lá da paraíba pra gente. rapadura é doce pelo menos.

última viagem. depois dessa vou colocar pra ir na direção da minha residência. daí já entrego o passageiro lá perto e me mando que amanhã tem mais. amanhã? besteira. já são duas e trinta e quatro. sou uber, mas manjo de plural, morô? um bando de cabeçudo letrado desmerecendo nossa profissão que fala "é cinco hora". sabe, é duro quando alguém pergunta o que você faz e você diz "sou uber". tem umas minas que nem dá moral quando fica sabendo. os zóio azul engana, tá ligado? às vezes erro plural de propósito, pois tá no sangue. apesar dos olhos eu cresci mesmo foi na periferia, bairro do Jaguaré, com os manos das antiga. lá errar plural é charmoso, morô?

mas daí tava levando essas mina que saíram do bloco. trabalhar no carnaval dá uma grana. pena que a gente gasta metade só pra tirar as purpurina dos banco. aliás a gente gasta metade do ano pra tirar o barato. demora tanto que quando sai tudo já chegou o carnaval de novo. é a unica coisa que salva nesse país que o povo já começa o carnaval em novembro e termina em maio. preciso tomar cuidado pra não ficar igual taxista reclamando de tudo na vida. mas também que vidinha desgraçada ficar dirigindo nessa cidade entupida de merda. tô parecendo taxista mesmo. e pior. tô parecendo taxista argentino. já foi pra argentina? se for nem troca ideia com os taxista, pois eles só reclamam. reclamam ou te dão um golpe. taxista argentino parece taxista carioca. desculpa a xenofobia, mas taxista carioca além de te roubar ainda é chato pra dedéu.

bom, deixei as mina no endereço. viagem fria, sem conversa, só fui ouvindo os papo. carnaval é daora! pena que a gente tem que trabalhar. é quando dá dinheiro.

parei ali pra marcar a zona que queria voltar. mas a madrugada é doida, tá ligado? não dá pra moscar na quebrado dos outros.

-PERDEU! PERDEU!

tomá no cu! me fodi. entrou dois maluco no banco traseiro e metero o cano na minha cabeça.

-PERDEU!
-É! PERDEU!
-perdi. já entendi. mas perdi o que?
-é, o que ele perdeu?
-sei lá. o que você perdeu?
-sei lá. vocês que tão me roubando.
-aí esse uber é folgado hein.
-acelera essa porra antes que meto um tiro na sua cabeça.
-tudo bem, mas vamos manter a calma, por favor.

acelerei.

-vamos pra onde?
-só dirige aí e cala a boca.

dirigi.

-o que você tem aí nessa mochila?

nao respondi.

-responde essa porra!
-vocês tão me confundindo. ou eu calo a boca ou eu respondo vocês. as duas coisas não dá.
-aí dá uma coronhada nesse fila da puta!
-foi mal, foi mal. desculpa.
-mais uma gracinha e a gente vai te esculacha!
-então, têm uns livros de poesia.
-poesia?
-que merda é essa?
-poesia é a beleza da linguagem.
-ixi esse cara é viado.
-beleza de cu é rola! vai ver a linguagem na sua mãe se ficar com essas frescura.
-minha mãe morreu.
-pô, desculpe aí. não sabia.
-é, zoar a mãe é foda. desculpe meu amigo.
-tá tudo certo. então, poesia é tipo rap. racionais, sabotage, tá ligado?
-aí o cara tá falando nossa língua.
-passa essa bosta pra cá pra gente vê essa fita aí.

os caras começou a pegar os livro na mão.

-é tudo igual?
-é que eu que escrevi. ando por aí e vou vendendo.
-ó lá! o cara é viado memo.
-inclusive tô vendendo por 30 reais. passo maquininha de cartão.
-vá tomá no teu cu, maluco. a gente vai é roubar essas porra tua.
-tudo bem. depois me falem o que acharam.
-achar o que? não dá nem pra ler essa merda. não tem pontuação. só letra pequena.
-deve ser por isso que o cara é uber.

os caras caíram na risada.

-mas aí. posso dar uma letra pra vocês.
-mas dá letra grande aí também. não vem com essas miudeza pra cima de nóis.
-então, cês tão fazendo as fita aí porque cês tão fodido. nasceram na quebrada, não tiveram oportunidade igual esses grã fino que mora nesses condomínio têm, não é?
-aí esse maluco com esses papo doido.
-peraí. deixa o maluco dá a letra dele.
-então, continuando... daí cês vêm roubar os trabalhador que tão fodido também, tá ligado? eu tô fazendo uber só pra tirar um extra, morô? mas a grande maioria aí tá se fodendo nas ruas dessa cidade passando mó veneno. trabalhando dezesseis horas por dia pra ganhar pouco. quase não vê os filhos. chega em casa no stress e briga com a esposa, tá ligado?
-e cê quer que nóis faz como, irmão?
-é, como é que cê quer que nóis faz?
-cês são soldado do crime, não são?

os maluco concordaram quietos. tô ganhando nas ideia.

-cês tem que fazer as fita pra levantar um dinheiro. às vezes tem que troca uns tiro com os polícia, às vezes acontece de ter que matar alguém que não colaborou, não é mesmo?
-o cara tá ligado qual é a fita.
-continua essa ideia aí.
-às vezes vocês rodam e tem que tirar uns dias, às vezes uns meses, anos, pá e fica sem ver a família. passando mó veneno na cadeia. a vida é louca, mano. daí um belo dia nós três nos encontramos na calada da madrugada, vocês tentam me roubar, eu me desespero, vocês me matam e são presos e o sistema continua igual, tá ligado?

os caras só ouviam agora.

-revolução, irmãos! a gente se junta. os irmão destemidos que pegam em armas e as cabeças pensantes e também os trabalhadores. os operários que tão fodidos nas fábricas, nós aqui uberizados pelo sistema, os caminhoneiros. aí irmãos é greve, poesia e armas tudo muito bem organizado contra o sistema. a gente toma o país. se alguns desses vermes fardados quiserem lutar com a gente serão aceitos, os que não quiserem a gente fuzila junto com os poderosos que fodem a gente todo santo dia. é guerra, irmãos! guerrilha! revolução! viva marighella!

um silêncio profundo dentro do carro.

-quanto é teu livro, irmão?
-pros irmãos de luta eu dou de presente.
-pô, obrigado mesmo.
-e esse tal de marighella? os racionais fala desse maluco aí.
-esse maluco é zica. onde cês moram? vou levar vocês lá.
-rio pequeno.
-é mesmo? do lado de casa. cês tão longe hein.
-ah tem que roubar longe da quebrada, né?
-tem um boteco vinte e quatro horas lá. vamos tomar umas ali pra você falar mais sobre esse lance de revolução.
-demorou, vamos lá. só preciso dizer uma coisa. eu menti sobre a parada da minha mãe. ela tá viva.

Victor Miranda

soneto de mim


by Rodrigo Madeira/ 

quando a chuva cai na terra, sou eu
tudo que fui: espada, chaga e escudo
tudo que serei: mundo menos eu
olhos que não mais despertam no escuro

quando a chuva cai na terra, sou seu
tudo que fui: canto, lâmina e azul
tudo que serei: trans-lúcido orfeu
na árdua descida, solitário e nu

o sol sem pálpebras que burilei
encegueceu-me por rumos que eu quis
estes retalhos todos que enverguei

são versos que me lumem por um triz
e de repente, aturdido, sou quase
nitidez que se descobriu miragem



EU DEVIA SABER



eu devia saber
o sol ia estar por cima da carne seca
e nada seria diferente
do que teria que ser

a minha alma vesga
indecente
não se contentaria com menos
eu devia saber

não foi a primeira vez
os detalhes, sim, os pequenos
subestimei-os talvez
pode ser, quem sabe?

eu devia saber
ela chegou falando a verdade
o importante é ser; não, ter
mas eu andava meio surdo

dela – aquilo era tudo pra mim
dela – a causa do meu surto
dela – a raiz ruim do jasmim
dela – esse ela e eu

carne, nervo, músculo, esperma
e o silêncio que veio viu e venceu
ficamos assim à espera
deitados, que em pé cansa

muitas luas depois
ainda havia dança
eu e ela, não os dois
eu devia saber

tentou me fazer compreender
que desse jeito não podia ser
mas era tarde demais para ver
o melhor de mim ainda ia nascer

antonio thadeu wojciechowski

CIDADANIA




Fale Cida,
enquanto a cidade
está adormecida,
antes que seja tarde
e a morte venha
lhe fazer visita...

Fale Cida
falecida,
mas não há fala,
já não há vida.
A rotina ainda segue
sendo suicida...

(Igor Veiga / PERIGOR)

o leite dos ungulados



● leite quente - leite podre - leite esperma - ●
● sangue no estrume - tropas de moscas - ●
● esperma rubro vindo das dores da noite - ●
● fria demais - q se enrosca entre dores - ●
● não espera - é so deserto escondido - ●
● porisso agarro o peito imenso q flutua ●
● como velho zepelim desgovernado - ●

● cheio de leite - gotejando como chuva - ●
● inverno - feridas me rasgam o peito - ●
● terei leite - terei uma noite - uma hora - ●
● quem sabe furtivo eu durma cheio ●
● do leite podre - leite sangue - dizendo - ●
● ?como dormir - ?como viver ●
● do imenso peito - mastigo o mamilo ●

● com dentes afiados - labios e lingua - ●
● quente o leite dos ungulados - ●
● ouvindo cascos baterem - ●
● afundando no estrume quente - ●
● alcateias de moscas ao redor - ●
● so a fome é mais quente ●
● q o leite dos ungulados - ●

● queimando labios e lingua - ●
● garganta e estomago - ●
● sem o leite dos ungulados ●
● calcando agora estrume quente ●
● entre nuvens de moscas - ●
● ?como dormir - ?como viver - ●
● ha um vento frio la fora ●

● q o leite quente dos ungulados ●
● triturados pelos labios escorrendo ●
● pela lingua garganta estomago ●
● entre manadas de moscas ●
● entre tetas no estrume quente ●
● não consegue aquecer - esquecer -●
● a dor sabe - requer sempre mais - ●

● a dor - so ha dor - a dor so - ha dor - ●
● talvez porisso esse leite ●
● quente dos ungulados na boca ●
● não conseguira mudar nada - ●
● nem mesmo se fosse mil peitos - ●
● so rebanhos de moscas no estrume - ●
● ?como dormir - ?como viver - ●

● leite e sangue - no ferro - no estrume - ●
● moscas voam como morcegos - o sangue - ●
● so a dor - um nome q vem na escuridão - ●
● esse ninguem ouviu - mas ele disse - ●
● eu sei e repito - sempre entre moscas - ●
● não sei - como furtivo talvez eu durma - ●
● leite quente leite podre leite esperma - ●