quinta-feira, 2 de abril de 2015

EXPLICAÇÃO UNIVERSAL

Nelson Ascher


Zequinha, pergunta a professora, por que você não trouxe a lição de casa? Culpa da sociedade, professora. Deixei a lição pronta em cima da mesa e, quando fui ver, a sociedade a tinha comido.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Miragem


- A POESIA COMENTADA?

Altair de Oliveira

Este blog tem como característica postar poemas apresentados por comentários do próprio autor que, de certa forma, justifica o porquê de seu poema vir ao mundo! Bem interessante.
Acabamos de publicar nele poemas de 2 poetas bem interessantes: a primeira é a paraense Joyce Glenda Barros Amorim, radicada em Belo Horizonte, de 24 anos que certa noite troca umas palavrinhas com o "príncipe encantado" contemporâneo, tentando persuadi-lo em armar o amor sincero; a segunda é a paranaense Siomara Reis Teixeira, de União da Vitória, radicada em Curitiba, que tece considerações sobre nossas limitações em fazer certas certas escolhas de nossas vidas!

2 belos poemas de duas belas poetas, vale muito a pena conhecer, leiam lá:


http://poemacomentado.blogspot.com.br/

Pássaro de lata


Tormento do Ideal


Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,
Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.
Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura.
E encontro a imperfeição de quanto existe.
Recebi o batismo dos poetas,
E assentado entre as formas incompletas
Para sempre fiquei pálido e triste.
Antero de Quental, in 'Sonetos'


Tornado


Abril!
Que venha o Abril Febril!
40° de Poesia e Todo Amor...
Que venha o Abril Gentil!
Memória de Cravos e Eliot
Que venha menos Vil...
Apagando a fúria fuchsia
Que venha o Fértil Abril
(Adornando almas com rosas)


Bárbara Lia

"Gondoleiro", em Morretes-PR


AMBIÇÕES DE GRAÇA


Visto o desgosto no rosto
eu peço na prece que passe...
Que a mágoa nunca me cresça
E que a fonte e a sede se achem.
Que a fome nunca me cesse
e um riso sempre me baste.
Que a minha vida floresça
Antes que a morte o faça.
Que a sorte um dia me acerte
e me aperte cheia de graça...

Altair de Oliveira - In- O Lento Alento
a palavra que rima
é a mesma que fere
por isso cuidado, menina
com as coisas que dizes
ou escreves

[olw]

Incêndio


Para ler, peço licença
Gosto de escrever
conto, crônica e poema
de amores, amigo e maldizer
Falo de todos, me arrisco
Não falo mal de ninguém
poema de escárnio não preciso
não sou melhor que ninguém
Vovó na capoeira
respira fundo
sai da beira
e dá a volta ao mundo
Rato com a macaca
perfeito, perfeccionista
ensina com a alma
gente que cisma
Clássico de jogo
embate "Sagueto" ( Sagui com Pigueto)
em volta o côro
de centro ou do gueto
Sorriso, Alicate
Garça e Cachoeira
Franjinha no ataque
Marjorie mandingueira!


Jaguatirica

TEM DIAS QUE A NOITE É FODA


– Tem dias que a noite é foda.
– De quem é isso?
– Reinaldo Moraes, o verdadeiro Bukowski brasileiro. Aliás, melhor que o original.
Estavam num bar, na verdade um minúsculo boteco, desses frequentados por pessoas que se acham intelectuais ou alternativas. Já tinham derrubado várias cervejas e conhaques. Era tarde. Antes, tinham assistido uma peça do Fringe, ali perto (por favor, revisor, não corrija para “assistido a uma peça” e muito menos “haviam assistido”, estamos no Brasil, não Portugal).
– Mas agora tem dias que o dia inteiro é foda.
– Ou a vida inteira.
– Se ainda fosse outro tipo de foda era divertido.
– Nem toda foda é foda.
Riram. Perdoem esses dois, leitores. Se você nunca bebeu não sabe como se fica idiota quando se bebe. E o pior é que o cara se acha foda. Perdoem este trocadilho também (não, não bebi, mas estou aceitando convite).
Depois de alguns minutos de profunda meditação, nos quais não se pensou em nada pois todo bêbado é meio lesado, o primeiro disse:
– Estou pensando em dar um tempo.
– Cara, nós nem estamos namorando, pra que um tempo?
O outro riu como se tivesse dito a coisa mais espirituosa do mundo.
– Não enche. Dar um tempo da vida.
– Vai se matar? Sabe que este é um tempo que não dá pra voltar depois.
– Quê se matar! Já passei da idade de se matar. Dá um tempo da vida, isto é, parar de frequentar lugares inúteis como este pra falar coisas inúteis.
– Obrigado pela consideração.
– Você entendeu o que eu quis dizer.
– E pra que parar de frequentar lugares inúteis pra falar coisas inúteis com pessoas inúteis como eu já que tudo é inútil?
– Vou me dedicar à literatura.
O outro se engasgou com uma gargalhada no meio do conhaque.
– Você me fala disso há anos!
– Agora é sério.
– E vai ser sobre o quê o seu livro?
– Ainda não sei. Mas já tenho a cena inicial.
– Diz.
– Começa num bar. Na verdade um minúsculo boteco, desses frequentados por pessoas que se acham intelectuais ou alternativas.
– Como este.
– Sim, como este. Os dois...
– São também dois os personagens?
– Nesta cena sim. Os dois, amigos de longa data, já tinham derrubado várias cervejas e conhaques. Era tarde. Antes, tinham assistido uma peça do Fringe, ali perto (ei, revisor, lembra: não corrija). Aí um deles diz: “Tem dias que a noite é foda.”
– Ah, cara, vamos pedir a conta que você já está mal. Não quero ser personagem desse livro nem fudendo.

Otto Leopoldo Winck

o sirenário sereante


Neuranóias Poéticas XVII

"Tem gente que sente com um sentir sem freios.../ que chega passa do ponto donde devia chegar."

Altair de Oliveira

terça-feira, 31 de março de 2015

"Poeta criado em faculdade de letras nunca vai entender que a vida bate forte e nunca será elegante."

 Diego Moraes
-- Oi.
-- Oi.
-- Não me viu?
-- Desculpa, tenho andado distraído.
-- Você vive distraído -- e ela riu.
-- É verdade. Eu já nasci distraído. Meus olhos muitas vezes estão voltados para dentro.
-- E o que você vê quando olha para dentro?
Agora foi ele que riu. Na verdade um sorriso. Um sorriso tímido de quem olha muito para dentro.
-- Eu vejo uma grande escuridão. E algumas luzes.
-- Você é engraçado. Fala como se fosse um personagem.
-- Às vezes eu acho que sou um personagem.
-- E o que acontece no seu livro?
-- Nada. Quase nada.
-- Que pena. Se eu entrasse no seu livro podia acontecer alguma coisa.
-- O que, por exemplo?
-- Ah, a gente podia tomar um sorvete.
-- Sabe que é uma boa ideia?
-- Tomar um sorvete?
-- Sim, mas sobretudo entrar na minha história.
-- E o que eu faria na sua história? -- ela perguntou, com um olhar enigmático.
-- Você podia ser uma luz. Uma dessas luzes que brilham na minha escuridão interior.
-- Ah, não quero.
Ele estranhou. Pela primeira vez demonstrou espanto.
-- Não quer?
-- Não, não quero ser apenas mais uma luz.
-- Garanto que você seria uma das estrelas mais brilhantes.
-- Não basta.
-- O que você quer ser então?
-- Quero ser teu sol. E brilhar tão forte que as outras estrelas apaguem.
-- O sol da minha noite?
-- Sim, o sol da sua noite.
-- E se apagar um dia? Os sóis sempre morrem.
-- Não importa. O que importa é que enquanto brilham não há necessidade de outras luzes.
-- Bonito o que você disse. Vou botar na minha história.
Ela riu de novo.
-- Quando que você vai sair do seu livro imaginário?
-- Nunca. Agora que você entrou não vou sair nunca.
-- Há-há. Mas a história termina bem?
-- Não sei. Se for história de amor acaba mal. Como todas as histórias de amor.
-- Por quê? E o "foram felizes para sempre"?
-- Olha, sempre que você ler num livro "foram felizes para sempre", na verdade quer dizer "ficaram entediados para sempre".
Riram.
-- É, o que importa é o brilho do momento -- disse ela. -- Mas então, termina mal esta história em que estou entrando?
-- Não sei. Pode ser que sim, pode ser que não. Saber o final tira a graça.
-- É verdade. Vamos curtir então enquanto brilha o sol da meia noite...
-- Quanto mais profunda é a noite, mais bonita é a luz.
-- Estou dizendo: você fala que nem protagonista de romance.
Ele riu.
-- Bom, em que parte da história estamos agora? -- tornou ela.
-- Ainda no começo. Na parte em que ela convida ele pra tomar um sorvete.
-- E ele aceita?
-- Ele já aceitou. Que sabor você quer?

Otto Leopoldo Winck

NOTURNO


De repente, quando abri a janela, percebi:
a noite chegara. Não me dera conta
do adiantado da hora, da mudança do tempo, da súbita friagem.
Não vira o sol se pôr nem as estrelas se acenderem uma a uma sobre os edifícios.
A noite instalara-se sem aviso,
sem nenhum pressentimento.
Obrigado, irmãos, pela companhia até aqui.
Pelas risadas, pelas lágrimas, pelas confidências inesperadas.
Mas agora é preciso que eu vá
– e que eu vá sozinho.
Sem nenhum amparo, nenhum roteiro, nenhum Virgílio.
Algo me diz que eu já conheço o caminho:
uma estrada comprida e levemente sinuosa
a mergulhar no breu.
Nasci da noite. Cresci contra ela.
Contra ela desfraldei minhas bandeiras de insurgência.
Ah, foi dura a peleja. Agora eu retorno a ela,
reconciliado, apaziguado, completamente submetido.
Dama dos abismos, aqui estou.
Estuário de todas as fontes, oceano de todos os danos, doce amante terminal.
Abre os braços brancos para mim. Dá-me os teus úberes vialácteos,
a vastidão incalculável do teu ventre, o teu sexo
túrbido e tépido.
Finda esta peregrinação que ao final me pareceu tão curta,
descalço minhas sandálias
conspurcadas pelo barro das veredas. Eis-me aqui, senhora,
nu e exaurido, para o último abraço, a última cópula, o última trago.
Diante das tuas portas engalanadas.
Diante dos teus muros altos.
Diante do teu fosso.
Desde sempre.

Otto Leopoldo Winck

Trilha Sonora


A cada palma de espaço
a alma ganha amplidão
E como num lento passo
aparente rumo ao nada
Apanha no ar uma canção
na música das palavras
E cada naco de nuvem,
cada ritmo de frase ou rio,
Pausa, mistério, passagem,
toada, à toa, estrondo de onda,
Em cada grilo, grito de pássaro,
a paisagem se faz som.

(Rodrigo Garcia Lopes)


https://escamandro.wordpress.com/…/4-experiencias-extraord…/

DESAPARECIDOS

(Poema de Isabel Furini)

sombras nos interstícios das lembranças
tóxico veneno preenche os espaços vazios
e permite desenhar os rostos dos desaparecidos
os sonhos irrealizados respiram pelos túneis do ontem
(cinzelam as vozes do passado)
gritam
gritam nomes e mais nomes
em vão
clamam no vão do passado e nas fissuras do tempo
e no poço das recordações
para que todos saibam que eles não lutaram em vão
– clamam
em vão
clamam
ninguém responderá a esse chamado
filhos pais, amigos, irmãos,
os desparecidos
só deixaram rastos de olhares e palavras
ternuras e saudades
e tristezas
como as folhas das árvores no outono.

"Textolatria: incapacidade de decifrar conceitos nos signos de um texto, não obstante a capacidade de lê-los, portanto, adoração ao texto."

[Flusser | filosofia da caixa-preta]
Jussara Salazar
confundir uma criança negra com um vendedor de coisas
achar que uma criança negra e vendedor de coisas não poderia estar ali
expulsar.

sutil.

PULMÃO DE DEUS


Sussurro suave ao redor, nuvem
de seda embalando astros.
Aqui, onde respira a vida
perfume de malva, silêncio de córrego
entre pedras. Ar lúcido de luz.

Bárbara Lia in O sal das rosas

POEMINHA DO BENZADEUS ou DURMA-SE COM UM BARULHO DESSES

Uma das coisas que mais ouvi, ouço e, certeza, ouvirei na vida é “ah se eu tivesse” seguida de um rosário interminável: “ouvido minha mãe”, “feito aquele concurso”, “diminuído a velocidade”, “a experiência que eu tenho agora”, “seguido minha intuição”, etc etc etc. A Páscoa está aí, batendo em sua porta. É a renovação, o perdão sem limites. Então faça isso pelo amor de deus, ou a sua própria pele. Leia o poema do primeiro comentário e saia dessa antes que eu perca a paciência e você o sono.

...

POEMINHA DO BENZADEUS
ou DURMA-SE COM UM BARULHO DESSES

todo santo dia
um pobre diabo me aparece
fala o que faria
se deus ouvisse a sua prece

mas não faz nada
e só pede o que lhe enriquece
eu dou risada
deus é quem diz “vê se me esquece!”

mas não escuta
e mais assombração parece
filho da puta
nem rezando, a deus obedece

ah...se eu pudesse...
deixa pra lá...ninguém merece!

antonio thadeu wojciechowski

orfanato


ser órfão é mais do que se privar de pai e mãe. ser órfão, órfão de pai e mãe, de repente, é deixar de ser filho. ou filha. isso pode parecer pouco, mas, quando, num só golpe, os corações amorosos de ex-filhos se veem assim, subitamente "desfiliados" da vida, vem uma sensação estranha. um grande susto.
é um susto que não passa rápido e, frequentemente, essas criaturas, filiais sem matrizes, vagam feito zumbis ou cometas pelo mundo, sem saber direito onde recolocar o filho amado nelas, de volta ao mundo, na órbita em que todos gravitamos, o amor.
a terra redonda, no entanto, nos ensina que a resposta está bem perto de nós mesmo, em nós mesmos, herdeiros legítimos desse sentimento difuso que, de uma hora para outra, passou a rondar sem dono o nosso peito, no vácuo mais triste do universo.
a terra nos diz que apenas uma imensa roda de perdão e de alegria poderá re-abrigar esse amor jogado no chão do orfanato. nessa roda cabem todos os filhos-não-mais-filhos, os netos-não-mais-netos, os bisnetos-não-mais-bisnetos, as noras-não-mais-noras, os genros-não-mais-genros, os amigos queridos, essa condição eterna.
quanto maior, mais firme e mais unida for essa roda, mais chance teremos de prosseguir em paz na busca do sonho para o qual nascemos todos: sermos eternamente considerados, por nós mesmos, filhos legítimos do Criador.

(marcílio godoi)

descomunal


e se os seus dentes sangrassem a hóstia
e o papai do céu a condenasse
ao fogo eterno?
* líria porto
Vejo minha infância nos vãos das tábuas da velha casa. Ouço as lembranças nas conversas madrugueiras dos meus avós: "O que tem na marmita, véia" Meu passado tem fumaça, cheira lenha queimada do fogo que me aquece as saudades: "Tem arroz, feijão, couve e torresmo, pega ovos no galinheiro que frito pra você, véio". Tenho na boca o gosto dos velhos tempos do café moído em casa e passado no coador de pano.
JDamasio


Rascunho

CAIXA PRETA


Chamam de “caixa preta”
o artefato eletrônico
que no avião
registra informações
sobre a causa do desastre.
Científica
-tem suas contradições:
não é aquilo
a que se assemelha:
posto que impenetrável
-pode ser aberta-
e para ser
mais facilmente encontrada
a caixa preta
-é vermelha.
-----------------
Affonso Romano Santanna


in Sisifo desce a montanha, Rocco.

POEMA DO JORNAL


O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia
O marido está matando a mulher.
A mulher ensanguentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve.
Vem da sala de tipos a doce música mecânica.


( Carlos Drummond de Andrade,em Alguma Poesia)

segunda-feira, 30 de março de 2015


Cidade dos sonhos
Antes do amanhecer
estarão tomando a praça central.
A imensa cavalaria
sedenta pelos jardins,
arqueiros posicionados
no alto das colinas,
a infantaria
dinamitando as pontes.
Pé ante pé, rua a rua,
as posições sendo tomadas.
No entanto,
antes que declarem o seu triunfo,
um golpe decisivo dissolve o inimigo.
Abro os olhos: acordar basta.
2
Um dia a guerra estará perdida
e o povo daquela cidade,
que só existe em meus sonhos,
ficará entregue a própria sorte.
Um dia, quando eu não acordar mais,
a cidade se extinguirá
com todos que por lá transitam,
ou eles migrarão para outros sonhos?
Quem sabe, enfim,
esse seja o dia em que terei que defendê-la
de corpo presente, com as próprias mãos...
3
Saberei eu no sonho de quem?

Rafael Nolli



Anote tudo no formulário padrão
atravesse a rua na faixa de pedestres
siga as datas comemorativas
não se esqueça dos presentes
use a rouca conforme a ocasião
leia os mesmos jornais
olhe os mesmos programas
compre joias e qualquer outra historia
você tem opinião
carregue uma bíblia na bolsa
e se falhar use uma pistola
não caia na rede se não for muito intimo
acredite em biscoitos da sorte
finja surpresa
finja-se de morto.



 Clarimundo Röhrig
Tive mais um ano de cão. Só nós sabemos(pois só quem passa por isso sabe dar o valor) dos danos que essa vida nos causa. E eu, olha, eu fiquei totalmente danificada. Algumas pessoas deixam um rastro tão nefasto na vida de outras que não consigo ver de outra forma senão essa: um dano. Um rasgo. Um aleijão. E não, não passa. Nada passa. Tudo que nos acontece fica marcado de uma forma ou de outra em algum lugar. A gente pode até achar que passa, pode achar isso nos momentos bons, mas aquilo fica lá, entranhado em si. Trauma pode se manifestar em forma de raiva, de desprezo, pode virar uma repetição de padrão destrutiva, pode te deixar para sempre com medo, pode te fazer ficar por demais destemida. O que consigo ver que aconteceu comigo é o seguinte: eu sequei. Me sinto toda esfarelada. Danificada. Rachada como um terreno arenoso onde é necessário um instinto filho da puta para poder sobreviver. Até nasce uma coisinha ou outra ali, mas qualquer coisa mais delicada murcha e morre rapidinho. É assim que eu ando me sentindo. Calcificada por dentro.
Se quiser, posso te ensinar a sentir dor. Eu sei sentir dor e sobreviver a ela de uma maneira que nem eu acredito. Eu nunca vou cansar disso, nunca vou precisar de coragem para me apaixonar porque preciso de paixão para escrever. Porque é isso que eu faço. Eu escrevo o dia inteiro, eu acordo e vou escrever, eu acordo pensando nisso e durmo pensando nisso. Mas se não tivesse paixão, não ia adiantar porra nenhuma.
Isso era eu á uns anos atrás Uau, ein? Que força, que furacão. Eu era, eu era. Mas a vida tem-me tramado demais a vida não, mas quem tem entrado nela ...
Vou dizer até te convencer de que a solidão é muito, muito mais dolorosa do que qualquer paixão. O nada é a pior coisa que pode acontecer. O nada é seco, é uma árvore esturricada na beira da estrada, é uma plantinha sozinha no meio do deserto, uma plantinha que sabe que vai morrer ali, seca e sozinha. É assim que me sinto ...
Sinto que não sei mais sentir, não sei mais me deixar sentir, não sei mais me entregar. EU NÃO SEI MAIS ME ENTREGAR. Nem por duas horas. Nem por meia hora. Fingir eu nunca soube mesmo, e nem quero aprender. Nunca pensei que passaria por isso. Eu achava que seria para sempre a impetuosa jovem das linhas acima, que quebrava a cara repetidamente e levantava e levantava e cuspia sangue e dizia mais uma vez me levantei. Não quebro mais a cara porque não caio, e se cair, não tem sangue para jorrar, não tem coração para bater, não tem porra nenhuma há anos. Eu até tentei mentir que tinha e só consegui sentir ódio. Ódio de mim, ódio daquilo tudo onde eu tinha me metido nem sei como é uma frustração inenarrável. Acho que sequer posso dizer que aquela era eu. Era um pedaço, um fragmento pequeno e incompleto de mim que jamais vingaria. Bom, eu tentei.
Eu sinto muito, mas eu não sinto mais nada.
(...)
A hipocrisia se revela...
Em rostos cobertos,como se fossem santos.
Esses rostos não me enganam mais,
Nessas faces afundadas na mentira.
Naqueles que acreditam,iludidos
Um dia irão ver as faces derretidas e verdadeiras.


Maria Rita 

sábado, 28 de março de 2015

Dos meus amigos quero tudo.
Bebo do seu néctar
E também bebo sua bile.
Quero vasculhar o inferno íntimo de cada um.
Podem compartilhar comigo também suas excrescências:
Já aprendi a realizar auto-bioremediação!
A amoralidade faz parte das minhas relações interpessoais:
O que me cabe é o que me cabe.
Não visto meus amigos com minhas modelagens de vida.
Quero saber do que ignoram,
Porque choram,
O que se perguntam,
Quando sentem frio.
Me interesso por fotografias de viagens,
Histórias pessoais e poesias.
Podemos ainda :
Trocar receitas de cup cake salgado,
Olhar estrelas ou para além delas.
Declarar guerra civil em qualquer país da América do Sul.
Me tragam seu inteiro
Também tragam o seu melhor,
Mas não apenas ele.
Amem ou odeiem pessoas,
Tenham filhos e netos,
Adotem cachorros, gatos e calopsitas:
Tudo isso sempre perto de mim.
Se forem presos por desobediência civil,
Não me chamem para resgate:
Resolvam-se sozinhos e corram até mim
Para me contar os bons frutos colhidos do poder de persuasão.
Dos meus amigos,
Quero tudo!

LARISSA M. BARBOSA
Daniel Jorge Habib

Não foi perdido, nem adiado.
É verdade que nada pode suprir essa falta, e que ela dói. A casa da memória é marca, mas se recria.
Lá bem fundo, debaixo da pele, tem um eu.
Que é semente de floresta nova.


excelência


eu que banhei o seu corpo
troquei-lhe fraldas cueiros
ao vê-lo engravatado
ao lado desses doutores
seguro o riso
:
fazia xixi na cama
tinha cócegas coceiras
algumas pintas na bunda
o pinto pequenininho
e pavor de escuro

* líria porto

Nada a dizer

Nada a dizer
.
Esteja onde estiver
leve um carinho meu,
sinta no coração
um poema pingando mel...
.
Saiba duma certeza,
o céu do amanhã
será diferente do de hoje...
Mas as coisas do amor
têm sempre suas razões
e se estas não se explicam,
para que explicações?
.
Marçal Filho

Itabira MG
Peço inspiração à vida para entrelaçar palavras reprimidas pelas circunstâncias. Há tanto desconforto quando reservamos sentimentos... Guarda-se o peso de não dizer, o incômodo de não poder sentir, o desejo de voo.

Wanderlucia Welerson Sott Meyer

terça-feira, 17 de março de 2015



maria da pena

*maria da pena

ela rogou ao mar
o touro branco
como a neve

a cor de seu desmaio
pelas fracas porcelanas

um troféu de reinado
para lembrar aos homens
que costurava ilhas
dispersas

e domava com rigor e charme
caótico
os olhos náufragos
sobre sua pele
coletora

quando surge na avenida
willendorf
maquiada de ocre vermelho
vestida com couro curtido
desafia a vênus
anadiômene

e sussurram mitologias:
cuidado, a minotaura.


AC

aldeia


corvos pretos vestidos de automóvel
ratos letrados analfabetizados
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.
cadáveres dissecados na rua
turba de tigres animados em ódio
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.
rios tornados marginais de estrume
nascentes mortas por especulação
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.
mil risos de porcos comendo fezes
pastores de mil orgias consagradas
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.
os meninos batizados de pólvora,
os velhos armados com grandes mentiras
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.
homens comprando os homens comprazentes
sacos plásticos pra indisposição
esse é o país em que vivo
o que me habita é bem outro.

(marcílio godoi)

domingo, 8 de março de 2015

Vamos falar sério, meu chapa:
não há garantias na vida.
Nem toda rua tem esquina,
nem todo verso acaba em rima.

[olw]

O MISTÉRIO DA VIDA


Foi na praia. Uma lua enorme
nascia dentre as ondas negras.
O vento trazia o teu cheiro
junto aos teus cabelos
e a areia, sob os nossos pés descalços,
registrava um itinerário de fugas
e espantos. Não havia dúvidas nem certezas: o próprio medo
era feito de esperança. Se eu acreditasse em Deus, exclamaria:
a terra onde pisam as palmas de meus pés é santa.
De repente, as estrelas todas
caíram do céu e nas rudes canoas dos pescadores
o mistério da vida se refez: a areia, as algas, a noite, o brilho do farol
se fundiram numa concha branca
que eu recolhi na concha de minhas mãos em prece.
Admirei suas nervuras. Provei de seu mel,
bebi de seu vinho, surpreso de não haver desfalecido.
(A lua se erguera feito um estandarte de paz
e, na areia clara, nossas sombras azuis
lacraram um testemunho: perfeito na humanidade, perfeito na divindade,
conforme o augusto Concílio.)
Depois foi a escuridão, o precipício. E a convicção:
quando eu morrer – numa sexta-feira às três em ponto da tarde –
estarei pensando em você.

Otto Leopoldo Winck