sábado, 9 de agosto de 2014

● nem com os olhos ●
● nem com a velha boca torta ●
● agora nem as cercas desabando ●
● deitado mastigava a lingua ●
● sempre venenosa e quase dura ●
● sem contar os pombais famintos ●
● é certo q ao longe latejam alegrias ●
● iluminadas por esse sol doente ●
● nas horas vermelhas e brancas ●
● jamais paris e aqueles corvos ●
● q inda murmuram e latem ●
● a coisa idiota dos mercados ●
● “quão cega é a morte” ●
● ouviamos desde la de fora ●
● “tão dolorosa quanto a vida” ●
● o choro das muitas marés ●
● “so aquele idiota do diderot ●
● e o sobrinho q não morre" ●
● depois dormia e babava ●
● como a vaca velha no feno ●
● apos o dia largo e suarento ●
● abria os olhos abria a boca ●
● “depois não venham falar e rir ●
● como pascal e rousseau e mais ●
● basta esses cavalos e a merda ●
● desses cavalos q invade a pele ●
● invade a carne e os sonhos” ●
● era assim ate quase ontem ●
● quase um dia desses como eterno ●
● são todos os dias sem deus ●
dois
● o sr d’alembert sempre disse ●
● “é um palhaço q não sabe ●
● não tem certeza nem dos gases ●
● q solta como se ninguem ●
● escutasse como se ninguem ●
● sentisse com horror e inda ri” ●
● o sr d’alembert tava certo ●
● era um porco q não ouvia ●
● q não via ninguem ao redor ●
● antes de tudo aquilo havia ●
● e ha o preço dos pães o preço ●
● dos vinhos massas e fungos ●
● o sr d’alembert sempre disse ●
● q o sr voltaire não podia morder ●
● uma fatia de torta de maçã ●
● o sr d’alembert era perverso ●
● mas o sr d’alembert sentia ●
● quem era o velho javali ●
● não isso de não ter dentes ●
● mas isso de não morder ●
● isso de so dizer q mordia ●
● o sr d’alembert tava certo ●
● como tudo q o sr d’alember ●
● fez ou deu seus palpites ●
● o sr d’alembert não viveu ●
● com o sr voltaire como eu ●
● o sr d’alembert se mataria ●
● o sr d’alembert não mentia ●
● ele sempre disse q o sr voltaire ●
● tinha todos os dias sem deus ●
tres
● aquele velho babaca e mofado ●
● aquele cheiro de merda e mijo ●
● aquele bafo de cachorro molhado ●
● nenhum sonho nenhum desejo ●
● so aquilo caindo aos pedaços ●
● peidando pelos cantos e rindo ●
● nenhuma musica vindo de cima ●
● nenhuma moeda de ouro ou prata ●
● nenhuma volta completa no tempo ●
● o sr voltaire era uma coisa morta ●
● uma coisa muito doente e morta ●
● uma coisa sem volta e muito morta ●
● aquilo q mastigava os olhos ●
● de quem olhava pra ele e mastigava ●
● a lingua de quem falava com ele ●
● aquilo q rosnava quando dormia ●
● como se roesse um osso duro ●
● um musculo q não rasgava ●
● o sr voltaire meu caro irmão ●
● era como animal grande acuado ●
● desses q não resta nem a raiva ●
● parava diante do espelho ●
● e com o dedo duro riscava ●
● como se desenhasse o horror ●
● era como se o sr voltaire soubesse ●
● uma coisa q não sabemos mais ●
● como se o sr voltaire desabasse ●
● sempre sozinho sem conseguir
● dizer o q sentia e pensava e doia ●
● nesses longos dias sem deus ●
quatro
● não ha mais esperma ●
● nenhum grão nenhum campo ●
● a colheita agora pode sossegar ●
● a colheita q não houve ●
● a q morreu antes de madurar ●
● a q não foi sonho ou desejo ●
● não ha mais esperma ●
● nem as palavras duras do esperma ●
● dessa loucura q so se alucina ●
● se torna musica se torna torno ●
● devorando argila devorando terra ●
● devorando carne osso e a lingua ●
● não ha mais esperma ●
● não ha mais a espada a lança ●
● a adarga antiga e tudo enferrujou ●
● nem os caminhos os lagos as fomes ●
● nem as cavernas e seus morcegos ●
● nem a pele o peito e aqueles olhos ●
● não ha mais esperma ●
● assim termina o mar os rios a floresta ●
● tudo q ha alem da pele e mais ●
● não ha troia nem atenas ●
● nenhuma guerra nenhuma hora ●
● depois q veio a nova morte ●
● nem o sono se dorme mais ●
● nem os gazes do velho doente ●
● nem as chamas da revolução ●
● nem os reis nem os servos ●
● o mundo é outro meu irmão ●

● agora são os dias sem deus ●

Alberto Lins Caldas
Luiz Felipe Leprevost


tudo na vida deveria ser uma luta contra o desânimo, a descrença, o desamor, a depressão. uma guerra do entusiasmo contra a tristeza. o eterno movimento na direção do equilíbrio, na direção do amor, da alegria. não estamos na terra para cometer todos os erros possíveis, embora passemos a vida inevitavelmente os cometendo (e pode que é justamente isso que faz a vida ser a vida). os exemplos, no entanto, deveriam bastar ao aprendizado, mas parece que nunca bastam. um dia quem sabe estejamos prontos e, claro, já será tarde demais

só as mulheres

Marilia Kubota

só as mulheres
só as mulheres, agora:
um elefante incomoda muita gente
quanto detergente limpa a fúria do gigante ?
quantas vozes aumentam o volume
do coral que protesta contra a infame
assepsia mais-valia ?
quantas perguntas enchem esvaziam
dias noites esmagados
fome sede terror calado
cantem só as mulheres
ao nascer são só mulheres
cantem só as mulheres
ao crescer são só mulheres
cantem só as mulheres
ao morrer são só mulheres
a guerra não é de vocês
não é pra vocês
é contra vocês
não gerarão nem os filhos
cantem só as mulheres
em breve não se ouve

a voz mais fina
Marilia Kubota

ryoanji
não há
como em teu jardim
desespero em cavar
um lugar ao sol
aqui só
pedra sobre pedra
depedrarias a pedreira
se a dinamite polisse
a concha de caracóis
o céu escreve versos celestiais
quioto aquieta
musgo sob musgo:

teu reino, oito mil anos
Marilia Kubota


...enfim algum tempo p vertigens...mas a partir de amanhã de novo corre-corre no labirinto que move o corredor.

túmulos caiados

Marilia Kubota

túmulos caiados
porque és um contra tantos
porque escondes teu canto entre tirivas
porque riem por amares os que nunca envelhecem
porque os sensíveis refugiam os talentos em atelies
porque há escândalos e guerras que estouram pela manhã
porque só pensam em manter casamatas condomínios departamentos
porque é mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha que um rico ir para a cadeia
porque não leem as placas de proibido estacionar, acima do bem e do mal,
escreves
para ning em


Marilia Kubota

...passar na frente: uma experiência de boas maneiras hoje. na pastelaria chega uma mulher, daquelas que até o sol cumprimenta (como já disse melhor sophia de mello andersen, em "retrato de mônica"), passando na minha frente e cumprimentando o pasteleiro: "bom dia" quero um pastel disso e daquilo..." há três pessoas na fila. o atendente pergunta: "quem está na vez?", pergunto a quem estava na fila se já foram atendidos, dizem que sim, e faço meu pedido.

pensa que só porque está na "pastelaria do japonês" não precisa ser gentil ?

CERTIDÃO DO CAOS


Num arfar espásmico de gozo
vi luzir o teu ruflar de crinas
na beleza enfática dos anjos
no espanto estético dos sinos...
Num suplício trágico de último
vi giraram rápidos planetas
derretendo as cento e trinta tintas
que banhavam minha alma acesa.



Altair de Oliveira
In: O Embebedário Diverso

Expressões alemãs

Estou de nariz cheio......"Ich habe die Nase voll"

poderia facilmente ser interpretado como um pedido por um lenço. Em alemão, porém, significa que a pessoa está de saco cheio de algo.

Rede de cobranças



Iriene Borges.....Aqui em Curitiba os bairros são independentes, tem agência bancária para todo lado e, pasmem, até eu sei acessar o tal internetbanking...então se a pessoa diz que vai te pagar quando passar num banco com como se tivesse que viajar três dias no lombo de um jegue pra fazer, significa que ela não está muito disposta a fazê-lo, certo?

Andrea R Alano..... Ichhh nem fale ,talvez  só demore uns 6 anos pra receber ,como eu e sem juros com a pessoa chorando miséria ainda

Altair de Oliveira...... Triste, poeta... Gente desonesta existe em todos os cantos! Gente também que, desavergonhadamente , se postam confortáveis às margens da lei para, convenientemente, saltar para um lado ou para o outro e não hesitam de substituir a palavra solidariedade por competitividade, simplesmente para continuar dissimuladamente tentando ser o predador... Animalesco isto: é sim, somos ainda animais, limitados por um evolução lenta, por mais que a tecnocracia capitalista dos dias de hoje tente nos doutrinar diuturnamente com suas publicidades consumistas de que somos super-homens... Mas existem gente honesta ainda em todos os cantos também, temos que acreditar nisto!


Wilson Roberto Nogueira.... Alguns dinossauros, preferem ter refestelado no maldizer o santo nome dos desencarnados que abitam o caráter e as calças da alma, do que de vera só o binário foice o virtual estipêndio , ainda mais, se dele não tem noticia desde que os números desertaram do contracheque no terceiro dia útil. Na fila do capital o banco serve-se primeiro .De varão resta-lhe a varinha que a lustros empoeirados não fez o milagre de o levantar os ânimos nem os cobres .Perdidos deveras na tortuosa infovia .




Pelo que ele mesmo me contou, a única vez que o Marinho foi à igreja, o fez com um revólver para "convencer" o padre a desligar o alto falante a noite... Acabaram se tornando amigos. Acabo de voltar da missa de sétimo dia dele, que o padre celebrou enaltecendo a ressurreição. Estou perdendo muitos amigos para essa tal de ressurreição, sabe? E nenhum tem voltado, pelo menos até agora.

Orlando de Luca Jr

Copa Lins 2014


a musa que me escorraça
é pura agonia lenta
cozida em samba e cachaça
madeira, fogo e fumaça
por terras que não se inventa."

RR

Copa Lins 2014


outro inverno:


o mesmo amor e não
o mesmo amar e sim
o mesmo luar estupendo
o mesmo azul monet no alto
o mesmo sangue palestino no asfalto
a mesma visita aos homens de branco
estetoscópios
olhos enigmáticos
dúvidas
um pâncreas
um pé
um coração
meu sangue em tubos
empacoto a dor
o mar de remédios
encosto a bengala alva
enquanto o carteiro traz
um livro do Beto (Frei)
que me diz como ordem:
Bárbara Lia
saiba sempre
"Reinventar a Vida"
Amém, Beto²
amo o amor e todo seu não
aceito a dor e estes fármacos
nunca a guerra e infanticídio
quero ir alto, sempre alto
minaretes em um livro
para respirar o ar dos pássaros

Bárbara Lia poema instantâneo

Copa Lins 2014


enquanto a manada se agita ●
● no cruel ritual dos mercados e deuses ●
● perugino prepara sua sopa e sonha ●
● o anjo q vira ●
● do desejo azul e branco ●
● das suas mãos ●
● q agora cortam cebolas ●
● e não sabemos se chora ele ●
● pelo anjo pela manada ou pelas cebolas ●
● mas o certo o certo mesmo ●
● é q perugino prepara sua sopa ●
● e sonha com o anjo azul e brando do desejo ●
● tanta solidão pensa perugino ●
● cortando cebolas sonhando o traço ●
● negro do carvão ●
● q se cobrira do azul e branco ●
● do anjo q perugino sonha ●
● q perugino delira cortando cebolas ●
● enquanto a manada ●
● la fora urra no perverso ritmo ●
● das festas do mercado ●
● perugino termina de cortar cebolas ●
● cruas pra sopa pra sopa de cebolas ●
● e a agua ferve ansiando cebolas cruas ●
● enquanto perugino caminha ate o quadro ●
● inda alvo e com as mãos levantadas ●
● molhadas pelas cebolas cruas ●
● perugino chora perugino delira ●
● perugino sonha traços negros ●
● sobre o alvo onde o delirio se transtornara ●
● no anjo azul e brando ●
● mas perugino ●
● deve terminar a sopa ●
● perugino volta ●
● apanha pedaços crus de cebolas ●
● olha a agua fervente e mistura ●
● manteiga na agua fervente com sal ●
● e fios muito finos dos talos ●
● quase vivos de cebolas cruas ●
● com bocados de queijo forte ●
● e logo depois cebolas cruas ●
● na agua fervente ●
● enquanto não consegue deixar de chorar ●
● de sonhar com o anjo ●
● azul e branco do desejo ●
● odor de sopa de cebolas cruas no ar ●
● enquanto perugino ouve o ganido histerico ●
● das manadas la fora nas ruas nos mercados ●
● e a sopa de cebolas ●
● quase finda requer agora ●
● cascas cruas de cebolas ●
● o q faz perugino rodopiar ●
● desbrotando do delirio ●
● azul e brando do anjo q vira ●
● polvilhando a sopa de cebolas ●
● com cascas cruas de cebolas ●
● perugino diz a si mesmo ●
● o pão ●
● e vai lavar as mãos e a faca ●
● pra logo depois fatiar o volumoso ●
● pão de casca dura ●
● miolo macio e amarelo ●
● pensa perugino enquanto olha a sopa ●
● fervente e sonha o anjo azul e branco ●
● enquanto pergunta pra si mesmo ●
● ?pra q um anjo azul e brando ●
● perugino diz ●
● !é so exaustão e se cala ●
● olhando a sopa borbulhando sobre o fogo ●
● o pão fatiado vermelho e amarelo ●
● sobre a mesa !exaustão repete perugino ●
● !tarde demais continua perugino ●
● enquanto retira do fogo ●
● a sopa borbulhante de cebolas e chora ●
● perugino põe a sopa no prato ●
● pensa no anjo azul e branco ●
● depois do desenho negro de carvão ●
● e com a sopa quente de cebolas ●
● no prato se levanta e vai ●
● ate o quadro alvo preparado antes ●
● pro negro do desenho de carvão ●
● q chamaria o azul e brando ●
● chamaria com o azul e branco ●
● o anjo e perugino ri ●
● ri sozinho dizendo !exaustão desenhando ●
● o negro q chamaria o azul e o brando ●
● do anjo do delirio azul e branco ●
● a sopa esfria enquanto perugino desenha ●
● e depois marca furiosamente o anjo ●
● azul e brando ●
● enquanto a sopa esfria sobre a mesa ●
● e perugino ri perugino chora ●
● vendo o anjo sorri o anjo se pintar ●
● o anjo tremer o anjo desejar ●
● o desejo de perugino ●
● diante dos olhos de perugino ●
● agora cheios de azuis e brancos ●
● mas perugino não descansa um segundo ●
● perugino termina o anjo azul e brando ●
● se distancia e ri ●
● agarra o quadro azul e branco ●
● e com a faca a mesma do pão ●
● perugino fatia o quadro do anjo azul e brando ●
● perugino fatia o anjo ●
● e agora sentado ●
● inda chorando inda rindo ●
● perugino devora o anjo azul e branco ●
● com a sopa fria de cebolas ●
● olhando as fatias ●
● vermelhas e amarelas ●
● do pão sobre a mesa ●
● perugino se sente so e infeliz ●
● mas perugino pela primeira vez ●
● na vida se sente alimentado ●

Alberto Lins Caldas

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A Puta

"É triste ter que secar por dentro, é como se fossemos todos uns homens empalhados. Tapeio minha cara e ela é dura feito cara de burro arredio. Dura feito escultura de madeira, mas madeira quando infesta de cupim fica fofa, desmancha com um sopro, a minha danou a desmanchar." 
Márcia Barbieri 
Getulio Guerra

O homem-ruído não consegue ficar quieto e desconhece o valor do silêncio. O homem-encolhido não consegue simplesmente falar e desconhece o valor do verbo.
Rita Medusa
quando o outro nos estranha, queremos o colo da mãe impossível.
gratas vítimas do que anestesia, do que sufoca, da agitação dos nervos, do descompasso na medula, do exaurir histérico na primavera prometida

somos nós mesmos os indóceis da trilha, sujeitos dos lagos e dos colchões psicóticos.
meditação de uma guerreira:
isto não é derrota
é vida terracota
ânsia de tocar
almas piríforas

Bárbara Lia

O Impossível

Priscila Lira
O Impossível
Para Maria Martins

Eu não sabia que, naquela noite, quando tu insististe em me levar pra tua casa, em vez de um quarto qualquer ali por perto, na verdade, tu estavas me convidando a entrar na tua cabeça. Também não percebi que cada livro teu em que eu passava meus dedos nus era uma vereda cada vez mais distante do teu rosto rígido como um sertão que há tempos não vê lágrimas. Do lado de cá, as palavras, as tuas metáforas, demoram a se formar e, nem sempre, as letras se organizam do jeito certo, por aqui tudo também é muito confuso.
Eu também não sabia que, no escuro, teus olhos ficam mais bonitos. É como se, no escuro, a cor deles iluminasse o quarto e me dissesse: o sertão é frágil, cheio de rachaduras, o sal da chuva machuca essas ranhuras de tantos anos a mais que esse teu rosto de pós-adolescente pós-moderna. Eu sempre soube que o meu rosto te desconcertava e que ele, assim como eu inteira, é, pra ti, como um ímã que tivesse os dois lados na mesma face e que, com a mesma facilidade incontrolável que tu te aproximas de mim e me enfia em uma vereda diferente da tua cabeça, tu corres e me rejeita.
continua aqui: http://www.escritorassuicidas.com.br/edicao47_3.htm#priscilalira47
- é no silêncio que apodrece outro nome; são os gestos que repetem os seus olhos castanhos
 (adriana zapparoli)

A Faca Não Corta o Fogo

antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega" (Herberto Hélder, A Faca Não Corta o Fogo)


CIDADE ÁCIDA


palco de horrores e amores
solmáforo acusando:
raios peligrosamente UV
(perigo! perigo! peles brancas
e azuis)
olhos fechados
a luz não queima
atravessa
cidade ácida
vem me incendiar(poema de ELISA ANDRADE BUZZO, poeta paulistana, é formada em jornalismo pela ECA, com especializações em edição de livros e jornalismo literário. Se lá no sol (2005) foi seu livro de estreia. Em seguida, participou de antologias no Brasil e no exterior. Trabalhou na Radiobrás, revista Cult, edição brasileira do Le Monde diplomatique. Seu último livro, Vário Som, foi finalista do Prêmio Jabuti. ELISA ANDRADE BUZZO está na 51ª postagem da série AS MULHERES POETAS

Se quiser ler mais, clique no link :  http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=41786


por braços - essas armadilhas - em flores




- enquanto observa as mesuras entre os restos de cicuta e os talos abstratos de abrasivos, anti-histamínicos, insulfilm - testemunha de fotografias, as palavras - da rainha - não se regurgitam... enquanto espera em tinta o anticorrosivo diluir das cascas as feridas, das carapaças a quitina, das armadilhas as maravilhas -de-forquilhas, completa mais um cadinho com estricnina: - é um processo abortivo de rotinas, por sentimentos que não se concretizam ...

e então, transborda a guerrilha pela fé em superfície, pela planta-bandarilha de seus pés, em retinas aluadas... por braços - essas armadilhas - em flores- tatuadas - por seu amor ...

Adriana Zapparoli

● nem os olhos meu senhor ●
● ali onde se erguem macieiras silvestres ●
● q se realizarão nas nossas tortas ●
● no fundo o senhor compreende ●
● não so o bom gosto e a finura das maçãs ●
● mas o pouco de raspas de canela negra ●
● sem isso sem as raspas meu senhor ●
● nossas tortas não valeriam nada ●
● nem teriam esse odor de terra velha ●
● esse mesmo meu senhor ●
● q todo fim de tarde e noites nos alegra ●
● porq parece q respiramos a vida ●
● assim o corpo os dedos e os olhos ●
● tudo isso do corpo meu senhor ●
● se alegra e reverencia a estepe ●
● depois sabemos todos o q sera ●
● não somente de nos mas da terra ●
● dela e de todas as suas macieiras ●
● porisso meu senhor venha descansar ●
● com uma fatia das nossas tortas ●
● sentindo a terra e as maças ●
● olhando pela vidraça as macieiras ●
● essa coisa imensa q nos invade ●
● so assim sabera bem o q é devido ●
● depois meu senhor sabemos ●
● q virão as armadilhas pros lobos ●
● vira sangue molhando a terra ●
● assim meu senhor sabemos ●
● q as macieiras se tornam acidas ●
● as maçãs gozam antes das tortas ●
● nem mesmo as raspas de canela ●
● sabem salvar a terra sonhando ●
● e as tortas são esse espirito ●
● no fundo o senhor compreende ●
● q lobos não podem ser sangrados ●
● e tortas não podem desaparecer ●
● não podemos ficar expostos ●
● a esse infinito espaço noturno ●
● sem nossas tortas e nossos lobos ●
● os cães começarão a uivar pra nada ●
● com esse berro todo e tão selvagem ●
● q não saberemos mais o q fazer ●
● isso tudo no limite das forças ●
● nos deixara amordaçados e a fome ●
● sabera o q fazer meu senhor ●
● aceitamos tudo sempre em silencio ●
● agora esse silencio é grande demais ●
● tão grande q nada podemos fazer ●
*Alberto Lins Caldas


Palestina – 1942 - 2008

"Li algures que os gre Isla Negra 383

Mahmud Darwish

Palestina – 1942 - 2008

Todos los pájaros que ha perseguido
la palma de mi mano a la entrada del lejano aeropuerto, todos los campos de trigo,
todas las cárceles
todas las tumbas blancas
todas las fronteras todos los pañuelos que se agitaron,
todos los ojos
estaban conmigo, pero ellos
los borraron de mi pasaporte.
¿Despojado de nombre, de pertenencia,
en una tierra que ha crecido con mis propias manos?
Job ha llenado hoy el cielo con su grito:
¡no hagáis de mí un ejemplo otra vez!
Señores, señores profetas,
no preguntéis su nombre a los árboles,
no preguntéis por su madre a los valles:
de mi frente se escinde la espada de la luz,
y de mi mano brota el agua del río.
Todos los corazones del hombre… son mi nacionalidad: ¡retiradme el pasaporte!
Traducción de Luz Gómez Garcíagos

5 años

DUO DUO (Pekin, 1951)

5 años
5 copas de alcohol, cinco velas, cinco años
cuarenta y tres años de edad, una ráfaga de sudor a medianoche
las palmas de cincuenta manos golpean contra la mesa
una bandada de pájaros con las garras cerradas viene volando desde ayer
5 cohetes resuenan en el mes cinco, en cinco dedos el trueno retumba
pero en el mes cuatro cuatro hongos alimentándose
de la lengua de cuatro caballos muertos no mueren
en el día cinco cinco velas se apagan a las cinco y cinco
pero el paisaje vociferante del amanecer no muere
el pelo muere pero la lengua no muere
el temperamento recuperado de una carne bien cocida no muere
cincuenta años el mercurio infiltra el esperma pero el esperma no muere
el feto se pare a sí mismo y no muere
cinco años pasan, cinco años no mueren
en cinco años, veinte generaciones de insectos mueren.
Trad. Ángel Petrecca.

Islas Canarias - 1957

Isla Negra, nº 383

Antonio Arroyo Silva

Islas Canarias - 1957

De: Poética de Esther Hughes

Desmerece salir y sembrar una espina,
que la rosa es el pez alongado a las tejas
y le duele a mi voz su fragancia de escama.
Quien la arranque del quicio no abrirá más la puerta,
no girará el ocaso en la jamba absoluta
porque el ocaso es jamba en las redes del hambre.
No clavarla ni hundirla al dolor de los pétalos,
ni escanciar sus axilas en las lluvias sangradas
cuando la aurora fulja en espaldas de nube.
Desmerece salir a nombrar lo innombrable.
Nada dice al bejeque, no le importa siquiera
ser la oreja del sueño o el refugio del grillo.
REGRESA solitaria y, al despuntar la noche,
ya se ha ido a otra parte a desangrar su hondura.
Nada esperan las uñas. Del tiempo, nada arañan
sino aquella soledad de regresar al nido
de una fila azulada de cartones y palos
que apilan las gavillas, las atongan y orean,
hacen nudos y enhebran la desazón a sales
secundarias del sueño. Avellanar la sombra
y que corran chavetas por los peces del humo.
Coletea el cuchillo y el ensueño detrás
cuando la piel regresa solitaria y desnuda

a envolver el abismo en cajitas de nube.

En el hospital

Yao Feng (Beijing, 1958)

Yao Feng es el nombre de pluma de Yao Jingming, nacido en Beijing en 1958. Estudió portugués en la universidad y trabajó como diplomático por un tiempo, pero actualmente vive en Macao, antigua colonia portuguesa

En el hospital
Sacás de adentro de la sábana blanca una mano,
seca y delgada, las uñas cubiertas de esmalte
igual que las flores del cerezo
iluminando las ramas en invierno.
Estas uñas, estas flores, una y otra vez te las recortás,
una y otra vez dejás que crezcan furiosas
Ubicadas en la frontera entre tu cuerpo y la nada
aparecen siempre tan
impecables, tan flamantes, incluso en este hospital
caótico como nuestro país. Agarro tu mano
y siento cómo las venas se hinchan, se contraen
mientras la sangre repta hasta la punta roja del dedo y da la vuelta
Recuerdo entonces lo que escribiste en un poema:
que en el cuerpo muerto las uñas
son lo último que se pudre.

Trad Ángel Petrecca.
Isla Negra 383

Fayad Jamis

México – 1930 -1988- Cuba

¿Qué es para usted la poesía además de una piedra horadada por el sol y la lluvia,
Además de un niño que se muere de frío en una mina del Perú,
Además de un caballo muerto en torno al cual las tiñosas describen eternos círculos de humo,
Además de una anciana que sonríe cuando le hablan de una receta nueva para hacer frituras de sesos
(A la anciana, entretanto, le están contando las maravillas de la electrónica, la cibernética y la cosmonáutica),
Además de un revólver llameante, de un puño cerrado, de una hoja de yagruma, de una muchacha triste o alegre,
Además de un río que parte el corazón de un monte?
¿Qué es para usted la poesía además de una fábrica de juguetes,
Además de un libro abierto como las piernas de una mujer,
Además de las manos callosas del obrero,
Además de las sorpresas del lenguaje -ese océano sin fin totalmente creado por el hombre-,
Además de la despedida de los enamorados en la noche asaltada por las bombas enemigas,
Además de las pequeñas cosas sin nombre y sin historia
(un plato, una silla, una tuerca, un pañuelo, un poco de música en el viento de la tarde)?
¿Qué es para usted la poesía además de un vaso de agua en la garganta del sediento,
Además de una montaña de escombros (las ruinas de un viejo mundo abolido por la libertad),
Además de una película de Charles Chaplin,
Además de un pueblo que encuentra a su guía
y de un guía que encuentra a su pueblo
en la encrucijada de la gran batalla,
Además de una ceiba derramando sus flores en el aire
mientras el campesino se sienta a almorzar,
Además de un perro ladrándole a su propia muerte,
Además del retumbar de los aviones al romper la barrera
del sonido (Pienso especialmente en nuestro cielo y
nuestros héroes)?
¿Qué es para usted la poesía además de una lámpara encendida,
Además de una gallina cacareando porque acaba de poner,
Además de un niño que saca una cuenta y compra un helado de mamey,
Además del verdadero amor, compartido como el pan de cada día,
Además del camino que va de la oscuridad a la luz (y no a la inversa),
Además de la cólera de los que son torturados porque
luchan por la equidad y el pan sobre la tierra,
Además del que resbala en la acera mojada y lo están viendo,
Además del cuerpo de una muchacha desnuda bajo la lluvia,
Además de los camiones que pasan repletos de mercancías,
Además de las herramientas que nos recuerdan una araña o un lagarto,
Además de la victoria de los débiles,
Además de los días y las noches,
Además de los sueños del astrónomo,
Además de lo que empuja hacia adelante a la inmensa humanidad?
¿Qué es para usted la poesía?

Conteste con letra muy legible, preferiblemente de imprenta.
Paisagem Marajoara
Da migração úmida e mansa do crepúsculo
ficou um olor de maresia brava,
lambendo o limo lodoso das raízes.
A lua, ciumenta e oca,
encolhida e acuada,
espia desconfiada,
pelas frestas da mata,
a terra grávida de sombras e silêncios…
O vento é um passarão agourento
voando por sobre os contornos ondulantes
da grande ilha supersticiosa
de litorais iluminados
pelos olhos da boiúna.
- Adalcinda Camarão, do livro "Poesia do Grão-Pará" (seleção e notas de Olga Savary). Rio, Graphia, 2001.
http://www.elfikurten.com.br/2014/04/adalcinda-magno-camarao-luxardo.html


O que é de (des)conhecimento geral'


'O ambiente comunicacional organizado e pautado pela mídia tradicional é o reino das obviedades, terreno fértil para o populismo e a manipulação. Nesse território se edificam não apenas as carreiras políticas inexplicáveis, como algumas fortunas que desafiam as teorias de sustentabilidade do capitalismo.
Parte dos conflitos que vimos crescer nas ruas a partir de junho de 2013 tem origem nessa incapacidade das instituições de aprofundar a compreensão do Brasil contemporâneo.
Presos a essa roda de ignorâncias por aceitarem a dependência de um sistema de mídia limitador e intelectualmente modesto, governantes que deveriam tomar a iniciativa da mudança não se mostram capazes de inovar. Os candidatos ao cargo mais elevado do sistema de poder, colocados diante da oportunidade de expor o que se espera sejam ideias inovadoras, repetem velhas receitas genéricas.
A imprensa compra qualquer coisa e repassa ao público o que é o desconhecimento geral do Brasil sobre si mesmo'

--por Luciano Martins Costa, via Observatório da Imprensa [título original: 'O que é de (des)conhecimento geral']

na New Yorker

'Em 1948, Israel matou milhares de inocentes e aterrorizou outros milhares em nome da criação de um estado de maioria judaica numa terra com 65% de árabes. Em 1967, desalojou centenas de milhares de palestinos novamente, ocupando o território que até hoje controla, em grande medida, 47 anos depois.
Em 1982, numa cruzada para expulsar a Organização pela Liberação da Palestina e extinguir o nacionalismo palestino, Israel invadiu o Líbano, matando 17 mil pessoas, a maioria civis.
Desde os anos 80, com o levante da ocupação palestina, de forma geral atirando pedras e organizando greves gerais, Israel prendeu dezenas de milhares de palestinos: mais de 750.000 pessoas foram para prisões israelenses desde 1967, um número equivalente a 40% da população adulta hoje.
Eles sairam da prisão com depoimentos de tortura, fundamentados por grupos de direitos humanos como o B’tselem.
Durante a segunda intifada, que começou em 2000, Israel invadiu novamente a Cisjordânia (de onde de fato nunca saiu). A ocupação e colonização das terras palestinas continuou ininterruptamente através do “processo de paz” dos anos 90, e até os dias de hoje. E, ainda assim, nos Estados Unidos a discussão ignora esse contexto opressivo crucial, e está sempre limitada à “auto-defesa” de Israel e à suposta responsabilidade de palestinos por seu próprio sofrimento.
Nos últimos sete anos ou mais, Israel sitiou, atormentou e atacou regularmente a Faixa de Gaza.
Os pretextos mudam: eles elegeram o Hamas; eles se recusam a ser dóceis; eles se recusam a reconhecer Israel; eles lançam foguetes; eles constroem túneis para contornar o estado de sítio etc.
Mas cada pretexto é uma falácia, porque a verdade dos guetos – o que acontece quando você aprisiona 1,8 milhão de pessoas em 225 mil metros quadrados, quase um terço da área da cidade de Nova York, com controle de fronteiras, quase sem acesso ao mar para pescadores (apenas três de 20 quilômetros são permitidos, segundo o Acordo de Oslo), sem meio de entrada ou saída e com mísseis guiados sobre suas cabeças noite e dia – é que eles acabarão contra-atacando. Isso aconteceu em Soweto e Belfast e acontece em Gaza'

--Por Rashid Khalidi, na New Yorker, via Viomundo

História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão ao Sol da Onça Caetana

“Eu precisaria de alguém que me ‘ouvisse’, mas que me ouvisse sentindo cada palavra como um tiro ou uma facada. Porque é assim que eu ouço as palavras ligadas a esta história. Cada uma tem seu significado sangrento, no estranho ‘Sertão’ que venho edificando aos poucos, ao som castanho e rouco do meu canto, como um Castelo de pedra erguido a partir do Sertão real.”
- Ariano Suassuna, em “História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão ao Sol da Onça Caetana”. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977, p. 80.
http://www.elfikurten.com.br/2013/09/ariano-suassuna.html

Mélange

Sob o sol
Sob o sol em meu leito após a água -
Sob o sol e sob o reflexo enorme do sol sobre o mar,
Sob a janela,
Sob os reflexos e os reflexos dos reflexos
Do sol e dos sóis sobre o mar
Nos vidros,
Após o banho, o café, as ideias,
Nu sob o sol em meu leito todo iluminado
Nu - só - louco -
Eu!
- Paul Valéry, in "Mélange"". [tradução Augusto de Campos].
http://www.elfikurten.com.br/2014/06/paul-valery.html

Dom Casmurro' - Capítulo LVI

"A alma da gente, como sabes, é uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro. Também as há fechadas e escuras, sem janelas ou com poucas e gradeadas, à semelhança de conventos e prisões. Outrossim, capelas e bazares, simples alpendres ou paços suntuosos."

- Machado de Assis em "'Dom Casmurro' - Capítulo LVI".

quarta-feira, 30 de julho de 2014

refém de invisíveis interesses.


Parece claro que a questão da Palestina não está nem em defender o Hamas, muito menos o Estado que o governo de Netanyahu representa.
A injustiça que acontece na Palestina acontece por toda América Latina tendo sido diluída pelo encilhamento histórico ao qual fomos submetidos.
Quanto maior nossa responsabilidade, ou envolvimento, menos conseguimos enxergar com clareza a realidade dos fatos.
Eduardo Galeano sugere, por exemplo, que a polícia brasileira tenha matado em um ano [qualquer], mais do que a repressão na época da ditadura militar inteira.
Quanto as vítimas que o crime tenha produzido, não me parecem claras as estatísticas.
De qualquer forma, entre a polícia e o crime, a Faixa de Gaza continua sendo a população que trata de ganhar a vida produzindo o PIB do país.
Já a classe política, historicamente, joga para quem oferece a melhor paga, tendo a hipocrisia como prática ética ideológica diária.

E assim, com grau relevante de morbidez, a população, em qualquer região deste mundo, muito fácil torna se refém de invisíveis interesses.

Ricardo Pozzo