domingo, 19 de julho de 2015

A gentileza de um pedaço de pano sujo



A gentileza de um pedaço de pano sujo
insulto à gentil donzela burguesa
no sorriso preto de carne podre,
a lembrança de um fragmento,
alimentos dos esgotos
fragrância de catacumba.
Da feiúra agressão constante, trôpega
lembrança do quão humano é a treva,

o abismo.

Contando moedas no Scheol, acumulando pedras na
sepultura
barata Samsa visita o túmulo onde o espectro levanta a

lama pegajosa do lamento,
pasmaplacenta da sua história
limbo bolorento de um ser,
mais do que uma baça lembrança
morto para os vivos e vivo para a casca crocante da
barata.

Wilson Roberto Nogueira

Mano a mano

por Ricardo Pozzo

Ela saiu quase derrubando os copos com cerveja, a terceira discussão da semana, tentaria ele conversar melhor depois, mas não iria ligar, sabia como eram as coisas...não ia querer ouvir tudo aquilo de novo, que ela o amava mas sentia-se sufocada, que não adiantava ele dar presentes e dizer que precisava dela, muito pelo contrário, que ele era inseguro e que o amor dele era apenas porque ela o fazia sentir seguro, ela estava cansada de perceber ele olhando para outras mulheres, mesmo ele negando e dizendo que só ela bastava, o quanto pensava nela, o quanto a desejava enquanto estavam longe um do outro...e ela já gritando que ele era um babaca burguês que não se assumia, e ele pensando que não era burguês, era funcionário de uma revendedora de automóveis, e ela gritando que se ele a amava teria que amá-la do jeito que ela era e saiu, quase um vulto, daquela mesa de boteco...ele quis ir atrás, mas melhor era esfriar a cabeça, pensar o quanto ele a amava...mas ela queria ter espaço, mesmo ele percebendo os olhares que os homens possuíam ao vê-la e ele nem falava o quanto sentia ciúmes mesmo sabendo que gostava da sensação de estar com alguém tão admirada que fazia os homens se contorcerem para ver seu corpo, um corpo que o enchia de desejo e que só ele possuía...
Sentiu vontade de ligar mas era melhor esperar até amanhã, era sexta, sábado poderia comprar um colarzinho, afinal era quase aniversário, oito meses de namoro, de uma paixão avassaladora que ele nunca sentira antes, desse sentimento que era o de estar muito bem com alguém a ponto de não querer mais estar  sozinho, talvez, quem sabe, não fosse a hora dele lhe propor que fossem morar juntos,  talvez brigassem menos se estivessem mais próximos, talvez  fosse saudades, coisa que ele sentia e sentia muito, quase a ponto de irritar-se com a falta dela...
Pensou novamente em ligar quando seu celular tocou... eram quase duas da manhã, correu, três toques, no quarto, olhou o visor... era ela, sentiu o coração bater mais leve...
Atendeu chamando o nome dela mas ninguém respondeu, chamou por seu nome mais uma vez e parou para ouvir uns ruídos do outro lado, coisas batendo,  a voz de um homem gemendo e falando baixinho, a voz dela gemendo e dizendo outro nome...
E ele ali,  sem poder desligar, de boca aberta, seu coração batendo eram bombas explodindo, sua mente se fez turva e ele desceu rapidamente, rompendo os portões do inferno em busca de chão, em busca dela, deles...e havia um outro homem aproveitando-se daquele corpo e ela sentindo prazer com esse outro corpo que não o dele e ele já não tinha metade de si, olhando para a mesinha de centro, enquanto a sala girava e ele sentindo labaredas em seus gritos que não saíam, enquanto ela gemia baixinho e o homem começava a berrar...

Reação de quase instinto, desligou o celular pressentindo algo que não queria realizar, mas já era tarde...ele com a lança atravessada em seu flanco, lágrimas secas que brotavam do caos, a indescritível sensação de peso em seu coração e desvanesceu sua certeza, e desvaneceu sua alegria e sentiu medo e frio, por saber que tinha sido proposital, por ter sido atingido de modo letal ...sentira todo o desprezo do mundo...      

Saudades dos bobinhos. Especialmente dos bobões.




Anos de 88, 89... Tanto tempo que já nem me recordo. Bola na rua. Costume naquela saudosa época. Hoje já não tão corriqueiro. Também, como de costume, havia um perna-de-pau que fazia sempre o favor de jogar a bola em algum terreno baldio. Essa foi nossa sorte. Encontramos duas bolas. A nossa. E uma outra, só com o couro. Claro, criança sempre pinta o sete. Pintamos mais uma vez, então.
Bem perto dali, atrás de nossas casas, estavam a construir prédios, conjuntos residenciais. Quase todos os dias, em certas horas, aqueles “homens-construtores” se encaminhavam pela “Nossa Rua” rumo a panificadora para saciar suas fomes e sedes.
Pintamos então.
Aquela bola encontrada no terreno foi carinhosamente empalhada com pedras. Muitas pedras. De todas as formas, tamanhos, cores e texturas. Deixamos-a em um local estratégico. Ficamos a esperar uma cobaia. Melhor, um “homem-construtor”. Também naquelas certas horas passeavam pela “Nossa Rua” um casalzinho, bem simpático por sinal. Logo resolvemos. Eram eles. Por falta não iríamos pecar, talvez por excesso.
Um prontamente gritou:
- Chuta aí, tio!!!
Claro. Óbvio. Evidentemente que não se recusaria. Estava de sandálias “havaianas”, “as únicas que não soltam as tiras e não tem cheiro”. Lembrou? Então, retirou-as. Tomou pique. Foi.
Era moleque correndo para todo lado.
E o rapaz a gemer:
- Seus filhos da...!!!!!!!
Saudades daquela época. Dos bobinhos. Especialmente dos bobões.



Mario Auvim
C
uritibano. Estudou no Cefet-PR e se formou em Ciências Sociais pela UFPR. Em maio de 2000 publicou - “O Ser Social” 


Coisas de crianças e coisas de adultos

      Quarta-feira. Com certeza era uma quarta. Casa dos tios. Tinha uns 7 ou 8 anos. Talvez 9. Flamengo versus Grêmio era televisionado às 21 horas e 30 minutos. Fizemos um bolão. Os adultos fizeram. Claro. Deixaram palpitar. Palpitei. 2 a 1 a favor do Mengão. 2 a 1 placar final do jogo. Ganhei. Quem diria? Ganhei. E sozinho. Estava eufórico. Feliz. Sentia-me um espertalhão. Sabia mais de futebol que os místicos adultos. Então fiquei no meu canto. Impaciente. Nervoso. Vieram me cumprimentar.

- Parabéns pirralho!!!
- Uau!!!
O blá-blá-blá de sempre aos vencedores mirins. Além do mais eu era um vencedor, mesmo que temporário, no meio dos adultos.
Mas quase todos vinham me cumprimentar. Um deles, em alto e bom som dissera:
- O bobão ganhou que tá até tremendo. Mais é um bobão mesmo.
Evidente. Tremi mais ainda. Bobão? Era a primeira vez. A primeira a gente nunca esquece. Nunca esqueci.
Era uma criança. Que culpa tinha eu? De ganhar? O dinheiro não dava para ficar rico. Apenas para algumas coxinhas e refrigerantes a mais na escola.
Bobão?! Creio que se estabeleceu um marco em minha vida. Nada profundo, do qual  não sobreviveria. Mas marcante. No meio de uma estonteante alegria. Rara a uma criança em confronto com os adultos. Alguém tinha de vir com esta: bobão.
Ciúmes? Ódio? Medo por não ser mais uma criança? Por uns míseros trocados?
O gosto da vitória, naquele dia, ficou amargo. Fui para casa mais triste do que feliz. Contudo, também com mais dinheiro no bolso. E olhem só. Nem precisei trabalhar por aquilo. Apenas fui mais espertalhão. Sorte? Quero acreditar que mais esperteza.
Quarta-feira. Com certeza era uma quarta. Casa dos tios. Tinha uns 7 ou 8 anos. Talvez 9. Flamengo versus Grêmio era televisionado às 21:30. Naquele dia os deuses me deram dois presentes: alegria e sabedoria. Nunca esqueci. Cresci e apareci.

Mario Auvim
C
uritibano. Estudou no Cefet-PR e se formou em Ciências Sociais pela UFPR. Em maio de 2000 publicou - “O Ser Social” 

A voz do amor


Eu me deixei soterrar pelos desafetos, pela honra ancestral do brasão familiar, pela não poesia
Eu me deixei soterrar por predadores da minha carne, os homens que não me tiveram Amor
Eu me deixei soterrar pela sociedade faminta de fígados de Prometeu
Eu me deixei soterrar pela chuva de cólera dos egos
Eu me deixei soterrar pela elite narcísica da cidade estação tubo dos infernos
Eu me deixei soterrar por todos os – nãos - desde que nasci
Eu me deixei soterrar por podres meninos envelhecidos em uísque e fumaça de Wall Street
Eu me deixei soterrar pela fúria das mulheres fracas que sempre enfiaram seus saltos agulha em meu coração enquanto pensavam: Vê se te enxerga!
Eu me deixei soterrar pela ânsia de dizer – eu sou – e na ânsia de ser, lavei as botas dos pulhas
Eu me deixei soterrar por verões de escárnio
Eu me deixei soterrar por uma infinidade de narizes empinados e Cândidos
Eu me deixei soterrar
E no entulho cinza agridoce opaco triste sina de van gogh em sua catacumba de corvos
E neste entulho com cheiro de esgoto do Rio Belém
E neste entulho acre e sem poesia e chafurdado de – Você nunca vai ser nossa Helena:
Vai nascer uma flor – a que sou - em uma primavera anis
E uma criança a colherá e a guardará por um dia, apenas por um dia
E apenas por um dia terei o que a vida soterrada nunca deu
Ou deu, em noites de outono...
A voz do amor à saída da cafeteria: – Tua voz é tão linda!
E as duas vozes fundidas e lindas, enleadas em alguma estrela, fizeram amor
E ainda hoje fazem e o gozo das vozes são as estrelas cadentes
Só que o dono da voz não sabe

Bárbara Lia

Sentimentos vertidos em lágrimas de cada letra

  Sentimentos vertidos em lágrimas de cada letra,compondo uma melodia de desenganos.
  Amava ele  uma mulher que ,era Mulher de verdade,ela não tinha  nenhum medo do calor de um abraco,entregava-se a um cafuné sem perder a segurança de estar entregue aos carinhos de quem gosta e quer. Caricias.O coração numa dança de coracoes solitahrios,e,independentes.
  Desacorrentados da vida vindima de vinagres e beaujolais.  Escolheu ele a rota rota do desengano,
  amando em doloroso silencio um monte de gelo esculpido na forma de mulher.
  Mulher com medo do calor de um olhar ,muito mais do que de um contacto,sempre fujidia e oculta em si sem jamais se expor.
  Numa palavra o sentimento  ,para que, numa  palavra   a lava da vida a queime e a soterre.

Wilson Roberto Nogueira

Marés Curitibanas

Endomingado no pântano das saudades daquele sol senegalesco, desfolhando, empilhando essências de volúpias e arrebatamentos. Nada como o verão para tomar o vinho das ânforas, fêmeas mais suculentas e lânguidos seus movimentos, convidativos seus olhares. Sol queimando corpos e refrescando de suor, revelando contornos velados em seda sorridente de transparências, vontades.
       Janela suada imagem de sonho, abre o oceano, ela corre e pára, olha com olhos  de oceano. Está como sempre esteve, Eva no Paraíso, vestida de suor e sorriso. Atravessa a cidade a pé, a pé nos caminhos pluviais, rios-artérias-urbanas, afogadas, afogada de prazer sereia, de uma sereia curitibana.
Tu és a benção e o perdão deste clima niñes de monção atrapalhado, fala o bengali brasileiro que ama a água, como ama o amor que o pensamento leva, olhando aquela lótus que conduz ao Kama Sutra. Vapores enevoados de sonho despertado no coaxar de um sapo infeliz, perdido no charco ao desmaiar da noite preguiçosa, que não quer chegar.
E há quem prefira os becos escuros, dos excrementos da cidade, seu pus e náusea, suas secreções e odores de cloaca e morgue macróbia, onde a brisa faz a curva para não parar diante de um muro de farrapos e arames, hera e pesadelo.
A Curitiba do caminhante não é um esgoto a céu aberto, onde famílias-gabirus se apinham em cavernas de papelão, onde a vida vale a viagem de uma pedra.
Sonha os marés e arrecifes da bela cachopa molhada. Não a cotidiana realidade que sangra todos os dias de lamento a mãe que perdera o filho em um incêndio, porque tinha que trabalhar para alimentá-lo e não tinha com quem deixá-lo, deixou nas mãos de Deus que preferiu jogar dados na areia humana.
Que futilidade deitar emoções – vivas pequenas histórias a cada sútil movimento, se o Tsunami arrasta da terra bibliotecas vivas contidas nas cores, vozes, cheiros e temperos de povos inteiros retornando do inferno marinho só cinzas e cascas, cinzas junto aos restos dos condenados a sobreviverem aos seus entes queridos.
Um camaleão agarra com a língua uma libélula.
A cidade continua sendo construída e desconstruída no caleidoscópio da memória de um sonho, no trôpego caminhar de alguém que pensa estar acordado, caindo e caindo como em todas as manhãs, mergulhando no abismo.
Qual a finalidade da vida, além da dor, da mãe urrando sob o cadáver do filho ou è a completa ausência de si, como aquela que defeca a prole na privada. Um lapso, uma fronteira de papel separando instinto de razão, natural e social, a dor de uma só é mais profunda, mais próxima do que açucares diluídos na água, estatísticas, meros números, alguém vê atrás dos números, rostos, sentimentos, histórias?
Continua em Curitiba, caminhando, o sapato já se dissolveu em mais uma lagoa entre a calçada e a rua-rio, em uma cidade que foi projetada para a civilização do automóvel, mesmo havendo eficiente rede de transporte urbano, lá está a orda de carros com uma única pessoa, afinal o carro representa status e poder sobre os sem-automóveis, poder de matá-los como moscas ou a eles próprios nos rachas. A propósito dependendo da carruagem pode-se pescar cada peixe-gata!
E mais um banho de graça no passar do rodante.
O catador de papel, homem-cavalo, puxa o carrinho, dentro uma criança no meio do lixo reciclável, ela segura uns vira-latas, nada mais Chapliniano, nada mais ilustrativo.
A chuva para, e pensa. A calmaria sem força, desfalecida dorme e uma parcela de si morre um pouco, sexo rápido da natureza com a cidade. Tsunami foi o sexo de uma ninfomaníaca com um estuprador, o homem estuprou a natureza e a natureza o matou de tanto fazer amor. A água é nosso berço primal, o líquido amniótico é o nosso quente mar onde os humores do afeto nos chegarem vibrações acariciantes ou em ondas revoltas dependendo da mãe terra onde estamos germinando. Assim è entre a Lua e os mares, do oceano e de nossas formosas fêmeas.
Chega que estou ficando diabético.
Para comer uma portuguesa lá na esquina o caminhante pára, e o pizzaiolo sem precisar que o freguês solicite, já sabe e diz: “- É pra já doutor em dez minutos a pizza portuguesa com borda recheada de catupiry estará pronta”. Ouve, porque ouvir não pede licença, a voz das ruas, uma esganiçada, outra, que exigiu toneladas de nicotina para produzir aquela voz cancerosa que causa arrepios nas cordas da harpa sensível de Grisette.
Nada como uma catástrofe colossal para que se extraia do ser humano o que ele tem de melhor, e de pior, praticamente toda a grande potência se mobilizaram para  levantar recursos aos países afetados pelo “Sunamis”’, os artistas, o Schumacher endinheirado, os povos do planeta estão fazendo doações até o Timor, que é um país pobre doou o que não tinha, proporcionalmente doou mais do que os sovinas EUA do Bush, que prefere gastar para destruir, matar e saquear, deixe quieto, os americanos verão cortes na previdência, ensino público mas continuaram votando na quadrilha dele, porque quem elege nos EUA é o capital, que comanda a economia dos estados mais poderosos, com mais votos no colégio eleitoral deles, nos pequenos estados ele também tem voto, lá também tem os grotões  como aqui, com mentalidade pré era da razão. Os Estados Unidos percebeu que perderia a corrida para japoneses, alemães e britânicos o quanto não lucrariam reconstruindo os resorts, abrindo financiamentos e de quebra puxando o tapete da influência chinesa, cada vez mais percebida como superpotência emergente, mas vieram os caipiras canadenses e atravessaram o samba com uma idéia estapafúrdia, de perdão da divida dos países como Sri-Lanka, Índia, Indonésia, Tailândia, Maldivas, Seychelles. De vagar com o andor, os banqueiros achariam esbanjamento de bondade, uma moratória de cinco anos, e claro haverá compensações para os tubarões e não só aos cevados tubarões do Índico, àqueles de Nova Yorque, Londres, Zurich.
Banqueiros não fazem caridade e o Tio Sam se apressou em declarar que não haverá um Plano Marshall para a região (nem um Plano Colombo como houve para o Japão). O Brasil mostrou presença e a ponte aérea da FAB levou o coração do nosso povo fraterno para minorar os sofrimentos dos flagelados, nossos irmãos asiáticos, doando remédios, alimentos não perecíveis, água potável, roupas e é claro de contrabando algumas urnas para os votos dos sul-asiáticos para as pretensões do Brasil ao assento no Conselho de Segurança da Onu, o que supostamente nos conferiria um status de potencia com direito de vos e vez através do veto.Pena que não tínhamos aviões suficientes para levar os mantimentos, isso requeriria algo além do discurso, para sermos uma potência precisamos nos impor também com o que temos para não pagarmos mico. Tomara que sobre uma oportunidade de negócios para a Petrobrás, Odebrecht, Gerdau.
O vizinho da mesa não só tem de podre o hálito, cuja fumaça chega ate aqui, invisível e nauseante, mas o quanto de falso há no que disse?
Finalmente a gostosa chega e dá-lhe Gallo. E a noite chega com um choro soluçado de uma garotinha de olhos verdes afogados em lágrimas, com a mão suplicando uma moeda, o desconhecido deu um pedaço de pizza para ela e embrulhou outro em um guardanapo para que ela o leva-se para casa, ela coçou o nariz deu um sorriso e foi embora, apareceu um guri e ela deu o outro pedaço para ele.
Pensou. Chaplin outra vez, a cidade tem sua canção, sua poesia basta ter olhos para ver, pena que haja tanto tempo escasso em pressas viciantes de escravos voluntários. Pressa que consome uma vida objetivada em coisa, em máquina o homem, peça de uma engrenagem sem finalidade, estéril semeadura de clônica mediocridade  cotidiana.
Falou o filósofo, do que uma vodka não é capaz. O álcool abre a porteira para a boiada do imaginado, do irrefreado adquirir substância no real sem fronteiras dos atos valentes na verborragia cachoeira de grunhidos gritados como orquestra de um homem só, desafinado e desafiador desalinho e abandono de si como aquela garrafa voando ou aquele que dorme em meio aos produtos de seus intestinos extrovertidos a cantar. Enfrentar sóbria a vida requer fibra e coragem o que não é fácil. A vida ela própria age como uma mãe bêbada ou um pai, progenitor que violenta a filha como se quisesse fazer-lhe um carinho mas a marca para o resto da vida.
 O caminhante com seus passos tropeças em suas próprias pegadas, se perde e perde-se  nas sendas, nas clareiras enganosas da floresta que pensou transpor, segue intuindo o caminho na confiança cega de um rio, que mais uns metros dentro da escuridão seca, secando a esperança de sair dali. Dorme na madrugada eterna nem um pio de coruja ou uivar de lobos, nada além do silêncio. Está morto, a morte é o vazio onde ele permanece na escuridão. Será o inferno ou ele estará no sonho de alguém, estará ele sonhando?
      Caindo, caindo a queda sem fim, escuridão, onde estará, um eco seco na garganta, angustias,
uma súplica ao sorriso da sorte, de encontrar enfim o fundo, o fim, que seja agora, mas apenas a vertigem eterna dos condenados, pesadelo, qual é a saída, e, sair do que, do vazio.
    - Você já acordou com a sensação de se estar caindo? Fugindo do inferno de existir, voando por cima de si olhando a carcaça apodrecer.


Wilson Roberto Nogueira Jr

ATEMPORAL


 poesia de José Salgado Maranhão

no fim da linha
o que sobra é a poesia:
construção sobre ruínas
plasmada em palavras
e silêncios.
quem saberá os limites
da beleza e do desespero?
a vida em sua face oculta
sobrevive de engordar serpentes.
o amor em sua loja de ourives
(relume)
a lapidar o inatingível.
no avesso do des/haver
o que resta
é o infinito não-ser

em seu azul atemporal.

da série poemas ordinários

William Teca

pegue um tijolo
e abata a poesia a tiros
poeta bom é poeta morto
e se der saudade deixe sempre
um espeto por perto

a literatura é feita de palermas
que não serviram o exército
por isso os indivíduos não são
sãos capazes do suicídio

morrer de inanição ou virar um híbrido
na híbris de noites mal dormidas
cachaça da braba e nunca danoninho
agora vista o pijaminha e vá brincar de sonetinhos
Antes do fogo apenas o raio
cruzava o céu como um dardo de deus
iluminando sua ira.
O poder que derrubara a árvore anciã
e expugnara a mata sedenta
com a fúria de uma legião
rubra e escaldante
pondo em fuga leões
e semeando de pó negro
a colorida vida.

Mas eis que coube ao homem
roubar o fogo
antes de outro deus
e cingir-lhe ele próprio
a coroa do elementar
e em matilha levantar
cerca humana com as tochas
á conduzir por pavor
rebanhos inteiros ao penhasco
cavalos e veados,
pobres imensos mamutes e ferozes ursos.
os raios continuam rasgando os céus,
mas o homem já não é mais o primata assustado
presa preferncial de tigres e leopardos.

Conta-se que um Deus tentou roubar o fogo Divino
e foi punido.
A punição do homem é incendiar a sí próprio
com os cogumelos de luz nas estúpidas celebrações da barbérie
onde os animais predadores se mostram superiores
á tais deuses da razão.


            Wilson Roberto Nogueira
Muros
Parte I

Todos os dias saltam do alto das muralhas do medo, restos de desespero, fantasmas sem grilhões. Feridas rasgadas, sulcando de quente sangue a pele negra, herança do sofrimento no arame farpado da opressão. Os cães do ódio ladram e seus dentes cravam na carne suja e apodrecida da escravidão.
A afluente aristocracia – dos eupátridas pós-modernos do alto de seus palacetes – quer perpetuar seu fausto enfastiado, com máquinas que não comam, não bebam e não se reproduzam, precisam de criados invisíveis que não ofendam com sua presença.
Os muros são fronteiras que protegem vós mesmos nos outros, a vossa humanidade, a obrigação de enxergar o contraste no espelho da exclusão. Denuncia da conseqüência da ânsia de acumular necessidades supérfluas, carência de necessidades reais da multidão zumbi, do lumpen.
Os muros correspondem ao medo de se verem despojados de suas histórias, construídas dos espólios da guerra fratricida entre a cria mais forte e a mais fraca da loba do sistema.
O abismo se agiganta, as trevas abatem as crias esquálidas do proletariado no esgoto da exclusão, embrutecendo suas vontades na voracidade da vingança, cristalizada no crime, incendiada nos entorpecentes, perdidas na sarjeta.
Os muros são construídos por todos que os exteriorizam na força repressiva do representante autoeleito, o Estado, forte diante dos fracos e fraco diante dos fortes.
É quando o subúrbio se levanta e o morro escorre para a calçada. O subúrbio clama por empregos e o morro por esperança na forma de pão e dignidade.
Cada tijolo ensangüentado, por quem é colocado?
Só o dólar e o pó atravessam os muros, se globalizam. As pessoas estão confinadas em seus pesadelos de consumo, chafurdando no lodo que transformaram as pátrias violentadas.
Caminham, não, se arrastam nas sombras, atravessam desertos guiados por coiotes, são espremidas em contêineres, vagam em barcos, escorraçados em sua esperança, lastros de fantasia, patologia. O não-lugar para as não-pessoas.
A estátua abre os braços, generosa aos miseráveis do mundo inteiro, generosidade de pedra, cláusula que esqueceram de gravar em seu pedestal de bondade:
"desde que tenham dinheiro ou voltem para suas cloacas do terceiro mundo após o expediente, pobreza terrorista que carregam em seus corpos...".
Muros represam o mar pútrido da pobreza, da violência, que agride e alimenta o revide. O muro que engole o berço.
A globalização dos muros erigidos, verdadeiras homenagens ao Apartheid. Os muros ideológicos derrubados a marretadas em Berlim não permitiram aos embriagados ver o quão inebriados de ideologia estavam. Outros muros foram levantados: na Coréia do Norte, em Israel ou na fronteira dos E.U.A. com o México; outros muros construídos com o imperativo de ocultar a agressiva presença do outro, o estrangeiro, que quer um lugar à mesa, um lugar ao sol.
Serviçais sentados à mesa dos patrões com seus modos de sarjeta, com odores fétidos e roupas sujas, restos devorados por suas próprias mães.



Wilson Roberto Nogueira 12/04/06

Muros


Parte II

Países abandonados canibalizam suas populações expurgando cada fibra humana, empilhando em pesadelo seus restos transformados em diamantes, urânio, ouro, petróleo, mais além de seus rins, fígados pulmões e sangue, o sangue verde de sua pujante riqueza tropical, da biblioteca contida em suas raízes culturais, na tradição de seus autóctones patenteados, que jamais terão suas moléstias curadas em prol da saúde e a prosperidade das fortalezas setentrionais.
Aos pés dos muros, fugitivos da angústia, expropriados de seus órgãos, de suas famílias famélicas se arremessam à luz esfumaçada da França, Espanha, Itália e são devidamente expelidos após serem usados. Caem aos montes, às moscas da carniça de seus sonhos, a desilusão, o sonho de fazer a América, que quer braços e não bocas sobram presídios cinco estrelas para aqueles que não terão vaga nesse arame farpado estendido no alto dos arranha-céus onde as feras do desemprego fazem suas vítimas.
Muros onde cada tijolo é um auto-engano da boa sociedade burguesa, hipócrita, purgando suas consciências, dando esmolas, atuando no teatro paternalista de medidas paliativas, de politiqueiros de plantão, na cordialidade estudada de preconceitos velados, manifestos no vidro de seu caviar, se espraiando dos incluídos nas calçadas, ignorando o direito de ir e vir da massa amorfa e pútrida das não pessoas.
A elite nos países desmoronando tal o peso de seus muros sociais, econômicos, psíquicos.
Os construtores das barragens para conter a barbárie não se vêem bárbaros, sua autofagia virótica, porque anular no outro o resultado do flagelo que provocam, escondem no sótão o quadro purulento de seus excessos, o poder produzido através do acúmulo pela expropriação, pela concentração das riquezas a partir da contração de oportunidades, sem olhos para ver a luta ciclópica, caminham para o suicídio, atentam contra o seu próprio status e privilégios no arrancar da esperança da massa, tão estupefata em suas delícias, tão delirantes em suas obras, não vêem se aproximar à queda de suas fortalezas, de seus muros e o fim da transfusão de sangue fétido que alimenta sua relação com o Estado. Afora seu protetor, o Estado, não podem se proteger da vingança das não-pessoas, das crianças de olhares sem luz.


Wilson Roberto Nogueira 13/04/06

Magna 1


Tua agonia está sangrando
em nós: cada
granito
que se desprende
da Acrópole silenciosa.
Teus deuses de pés de barro
estão sub-júdice(o estômago
dos bancos não te deixa
dormir?).
Os cérebros desluminados
perderam o tino
e retalham teus milênios
em jogatinas; e
quando anoitece nas tabernas,
o fantasma de Helena cafetina.
Ó decrépita insanidade!
Ó magna mãe dos mitos!
Não te agacha ainda
sob a tua velhice,
guarda um pedaço de brio
para a volta de Ulisses.


Salgado Maranhão

cóccix

cóccix:
palavra linda
como ônix
sax
cálix
merece com efeito os beijos
tanto no significante
quanto no significado

[olw]

13)


Acolho este alfabeto de espantos
como quem se nutre na cuia de Deus.
Há luares nos pés do rocinante
que me arrasta a um reino sem
reinado.E guardo na pele a tarifa
do fogo:em minha pele de continente
errante. Os vales e os palácios
de sombras por onde escorrem os
dias inumeráveis, serão sempre
infindos: a areia movediça onde
o sangue é saga. Quem adoça o
deserto dos justos? Quem preserva
a trama dos cínicos?

SALGADO MARANHÃO

(Do livro Avessos Avulsos)
O meu vício é antigo.
Vem de longe: dos incas, dos egípcios, do paleolítico...
Vem de olhar a lua,
não na lousa límpida ou baça do céu,
onde Deus não escreve mais,
mas na rua, nas poças (limpas ou sujas) da sarjeta
que é onde ela se deixa revelar
– nua, ainda que envolta em véus,
louca, ainda que helênica...
Vem de olhar para dentro do oco que há em nós
em busca quem sabe de uma voz
que cole os cacos deste mundo.
O meu vício, suspeito, é mais antigo ainda.
Vem da infância, não a minha,
sem importância, nem mesmo para mim,
mas a do mundo,
quando Jesus era piá e fazia pombas de bonecos de barro,
ou, mais ainda, quando o Espírito de Deus pairava sobre as águas
e não havia hora pra acordar, mãos a cumprimentar, regimentos a cumprir...
O meu vício, sinto, vem de longe,
de andar a esmo, bater perna, bar em bar,
com a esperança, ainda que vaga, ainda que besta,
de encontrar você – mesmo que acompanhada de seu novo amor.
(Oi, você por aqui? Sim, dando um rolê em busca de inspiração. Continua poeta? Claro, eu perco você mas não perco a poesia...)
O meu vício, amigo,
vem portanto de longe, muito longe.
E, desconfio,
não tem cura.


Otto Leopoldo Winck
William Teca



em caso de dor, desinfete a casa com rum, não chame um pai de santo, chame um pajé pra lua chover na sua horta; tranque a porta e espere um dia melhor há de chegar; deixe o cadáver sonhar e chore até se acabar; ouça aquela canção da janis joplin no repeat e durma, mas antes coma ao menos uma banana.

LACRE 11


O olho em foco me distrai
com um pedaço da manhã.
E ergo saudades secretas
na casca ferida de nãos.
Sou um bicho
com a asa entre os dentes; um
cenário
partido em fatias
para caber em mim.
(Eu só e o coração
tempestade de pássaros).
Com o pé no solo,
sigo a executar
uma sinfonia sem rascunho;
a vida não tem partituras.

Salgado Maranhão,

Ópera de Nãos.
Nunca fui senão um domador
de fábulas. E o que arrisca seus
ritos no penhasco. Nunca serei
menos que um grito e um rastro
de asas no azul. Os ventos que
assaltam noites e trilhas secretas,
sabem que os sei com a flor da
pele. Sou o que está sujo do arado
e da terra bruta onde o sol põe
seus óvulos. A terra em que os
sonhos brotam com sangue.

José Salgado Maranhão

(Do livro Avessos Avulsos)

TODOS OS NOMES DO AMOR


Traduzo
as formas da noite
– cavalos, espelhos, iconostases –
na pele branca da aurora:
tatuagem
em teu cóccix, pinturas rupestres, barulho da chuva.
Traduzo
teu nome impenetrável
na linguagem dos surdos.
Sou teu discurso, teu código de honra, tua suma teleológica,
a mais terrível revelação.
Todos os mundos são meus.
e as órbitas incontroláveis
das partículas elementares.
O amor não ousa
a palavra
que quebraria o encanto...
Traduzo
teu nome, os usos, as bulas, a lâmina de sílex,
a descoberta da graça, a confissão auricular.
Penitência: minha língua em teu púbis, suave flagelação.
Todas as raças irão nos servir.
Não haverá fome esse dia
nem a necessidade de cartões magnéticos.
Traduzo
teu nome
noturno e o transcrevo no dorso da aurora,
no muro, no paço, na carne
do movimento operário.
Sou o fim do prenúncio, o sábado, a chaga transfigurada.
Este é o meu corpo:
tomai, comei.
(Me digas se teremos tortas de maçã para o jantar.
Se chegas para o mês.
Se morres de amor.)
Silêncio. Quando o sol nascer
eu quero ser encontrado
nu,
genuflexo,
na mais perfeita adoração.


Otto Leopoldo Winck

!7)


Tão lúdica é a fundura do desejo
-- as órbitas consteladas -- enquanto
os dias queimam tuas armaduras.
Teu altar é esse fruto que uiva na
casca(não a árvore pagã que morreu
com os pássaros). Alço um templo
sem portas para instalar a primavera
em teus olhos. O amor é a ciência
de arder as veias e a concha onde o
mar perde os músculos. Quando a
brisa soprar teus jardins --, revida!
Nada nos retém no tempo além do
caos que nos haure esta luz que ladra.
ll.
Falo da paisagem nutriz em teu lábio,
do que em ti amora. Não do centeio
que a terra custa a doar. Tenho a fome
de Ulisses chegando a Ítaca. Dá-me
esse arbusto que acorda os mortos;
dá-me esse pão cheirando a luas.
O poema quer fecundar-te. O poema
quer habitar as coisa preenchidas
de espanto (essa flor impassível
em teu ventre) e não há lenha
para sua chama.
SALGADO MARANHÃO

(Do livro Avessos Avulsos)
William Teca


às vezes, creio que teria sido melhor ter aprendido marcenaria, mas agora, estou velho demais; fiz paredes de livros ao redor do meu umbigo e me pergunto: pra que raios isso serve? ou, de que serviram todos esses anos, lendo livros que ninguém lê? conheci a embriagues, a solidão, os eternos ritos do suicídio. arte é confronto, nunca apaziguamento, é viver a eterna tempestade; nunca há o bem estar típico dos que aceitaram o projeto da felicidade - aqui dentro é foda: uma irmandade de gente louca, em contato direto com os deuses e que sorriem com desdém da normalidade. contudo, já que tudo fora inútil (menos este trago e este cigarro), vou acabar indo sozinho para o diabo.
se eu morrer amanhã não interrogue
da só devassidão dos meus ofícios
eu deixo um girassol, como van gogh
e um afro-samba bêbado, vinicius."

RR

16)


Nunca fui senão um domador
de fábulas. E o que arrisca seus
ritos no penhasco. Nunca serei
menos que um grito e um rastro
de asas no azul. Os ventos que
assaltam noites e trilhas secretas,
sabem que os sei com a flor da
pele. Sou o que está sujo do arado
e da terra bruta onde o sol põe
seus óvulos. A terra em que os
sonhos brotam com sangue.
SALGADO MARANHÃO

(Do livro Avessos Avulsos)

15)


Porque trago os dígitos da pele
confrontantes como um delito, e
a lava da memória sob a chuva,
cevam-me no pasto seco onde
os bezerros bem o leite amargo.
Da penumbra,os corvos de túnica
branca seguem a disfarçar sua
fome de vísceras. Mas não me
veem. Estou líquido como os
rios que tombam muros.

SALGADO MARANHÃO

(Do livro Avessos Avulsos).
Otto Leopoldo Winck


Ah, este vício, o vício do verso, ainda vai acabar me matando. Mais letal que a heroína, mais letal que a cachaça, mais letal que as desgraças da vida, este maldito vício ainda vai me atirar num precipício, ainda vai me trancar num hospício... É duro este ofício: alinhavar palavras no vazio como uma ponte sobre o nada. Não, meu amigo, a vida não vale um verso. O universo não vale um verso. Ai, meu mundo por um verso que explique tudo: a noite, as estrelas, os teus olhos... Como é doce este vício, como é santo este ofício! Mas mais letal que este vício só mesmo um outro, muito similar por sinal: o vício de você. O vício de cheirar, tragar, sorver, injetar você... De repente é este vício que alimenta o outro. Ou vice-versa.

UTOPIA

Ando pelo mundo
Em busca de ações
Que levem ao homem a tomar consciência.
Da vida e de seus valores.
Que hoje são esquecidos pelas trilhas dos caminhos.

Talvez, tenha esperança.
De que um dia esses mesmos homens
Possam perceber o mal que fazem à natureza.
A mãe terra que pede socorro.

No ventre da natureza
Resta pouca vida
Ao nosso planeta.
Pois sem água e sem o verde.
A vida irá acabar.

Mas, mesmo assim vou sonhando.
E escrevendo meus versos.
Com a alma de poeta
E o coração de menina.

Para salvar o planeta
Precisamos espalhar ao vento
Nossos cantos poéticos.
Invocando a Paz é o Amor.
A própria VIDA.


VERA SALBEGO
"Sim, suave é ser sozinho,
tendo os seixos como cúmplices
e as flores por confidentes,
seguindo, seguindo sempre,
quietos sobre a estrada,
solenes sob as estrelas,
e sem desejar mais nada
que não seja andar, andar..."

olw
Entre a face
e a boca
é estreita minha margem
de manobra.
Mas por que sempre
esta escolha
entre a poesia
e a prosa?
Não pode
ser amor
e ao mesmo tempo
outra obra?


Otto Leopoldo Winck

"socorro, eu não estou sentindo nada.
nem medo, nem calor, nem fogo,
não vai dar mais pra chorar
nem pra rir.
socorro, alguma alma, mesmo que penada,
me empreste suas penas.
já não sinto amor nem dor,
já não sinto nada.
socorro, alguém me dê um coração,
que esse já não bate nem apanha.
por favor, uma emoção pequena,
qualquer coisa que se sinta,
tem tantos sentimentos,
deve ter algum que sirva.
socorro, alguma rua que me dê sentido,
em qualquer cruzamento,
acostamento, encruzilhada,

socorro, eu já não sinto nada."

Alice Ruiz 
Otto Leopoldo Winck


“Este apego ao bairro, à terra, ao território, à profissão, à corporação, este reconhecer-se no rosto do outro, esta proximidade no dia a dia, com as suas misérias e os seus heroísmos quotidianos, é o que permite realizar o mandamento do amor, não a partir de idéias ou conceitos, mas a partir do genuíno encontro entre pessoas, porque não se amam os conceitos nem as idéias; amam-se as pessoas”… Papa Francisco, em La Paz, há cerca de uma semana

Ser



Crânio e face.
Corpo e alma.
Protegidos por ossos e cinto de segurança,
das cinturas escapular até a pélvica.
Braços,mãos e tórax,
sustentados por coxas, pernas e pés.
Unidos por articulações e cartilagens.
Seguindo o fluxo das sinapses
e das substâncias branca e cinzenta.

Humano e desumano.
Anjo e demônio.
Contradições de uma mesma matéria em decomposição.


Deisi Perin. 291106

Poema de Tigres



01

As garras são meus olhos,
Esses que eram de qualquer outro,
E na ousadia de minha madrugada
Os instalei de súbito em meu corpo.
Olhos renascidos de não morrer
Onde a morte lhes visita a gravidade.

02

Instantâneos e profundos como a saudade:
Noturna matinal arenosa e incômoda.
Lobos aves folhas e olhar de um poço,
Labirinto circular de meus passos felinos.
O tigre dos gritos do meu corpo
Arrasto e não ouvem. Desfolho
Sem saber o intento no meu rosto.
O Meu Sorriso não tem dizer.

03

Tigres de vôos não vistos,
Não há como ver a altura do imprevisto;
Nem como fugir a fuga dos que tem sina;
Nem como ser luz do que perdeu a vista,
Sem ser brilhar e entorpecer.
Os designados nunca são inteiros
Carregam em seus passos, pés dilacerados:
as pernas e os fatos e as dores.

04

Não há destino exato para a semente no deserto.
Para implacável incerteza desperta.
Para o doer de tigres que desperto.
No tigre dói a não investida,
E assim o tempo cria em mim suas dores.

05

Se persigo veloz tudo que quero:
O fel tenho do não ter e das vontades;
Se passeio ronda a fera como fera,
A vontade que era grande me dilacera.
Sedento da fonte que não seca,
Faminto nas raízes da terra.


06

Quebro a armadilha do labirinto:
Inimigo do transitar das presas,
A prisão do desejo me encarcera.
Os gemidos solitários do secar das ervas:
São explosões inimagináveis do que se queima,
Fogo: angústia nas garras – olhos,
Captura a dor e a corrida do que vejo.

07

Não chamarei de tristes as afiadas unhas,
Nem de solitárias as vítimas da caçada.

08

Há os que praguejam seu destino.
Há os que o destino afaga e cala.
Há no círculo de luz a funda vala
Da fogueira extasiada de algo haver faltado:
Dois dias dois sábados dois olhos,
Ou a mágoa não ter evaporado,
Ou a viagem interceptada de lábios
Que queimariam a febre da fogueira.

09

Quebro nesta tarde com meu correr de tigre:
O braço da sina que me abraça.
Deixem-me por entre flores negras,
Por entre minhas não suavidades:
O tigre que sou – Só garras.
O homem que sou – Só olhos.

Julio Almada, Hora Tenaz



Um dia, um velhinho foi a uma de suas consultas periódicas ao médico, só que desta vez um pouco apressado.
O médico então lhe perguntou:
- Pq a pressa? e ele respondeu:
- Todos os dias neste horário vou visitar minha esposa que está num asilo. E o médico comentou:
- Que bacana! Então vcs matam as saudades, batem papo, namoram um pouquinho!! E o velhinho diz:
- Não! Ela não me reconhece mais, por causa de sua doença.
O médico surpreso então pergunta:
- Mas pq então tanta pressa para vê-la, já que não o reconhece mais?
E com um sorriso no rosto, o velhinho responde:

- Mas eu a reconheço! Eu sei quem ela é e o que representa na minha vida a tantos anos. Por isso todos os dias eu a reconquisto, como se cada conquista fosse única e verdadeira. Este é o verdadeiro amor....INCONDICIONAL!!!

Mário Auvim

Diálogo de uma criança, pronta para nascer, com Deus



A criança perguntou:
- Dizem que serei enviado à terra amanhã...
Como eu vou viver lá, sendo assim pequeno e indefeso?
E Deus disse:
- Entre muitos anjos, eu escolhi um especial para você. Ele estará te esperando e tomará conta de você.
A criança:
- Mas diga - me: aqui no céu eu não faço nada a não ser cantar e sorrir. O que é suficiente para que eu seja feliz. Serei Feliz lá?
Deus:
- Seu anjo cantará e sorrirá para você...
A cada dia, a cada instante, você sentirá o amor do seu anjo e será feliz.
Criança.
- Como poderei entender quando falarem comigo, se eu não conheço a língua que as pessoas falam?
Deus:
- Com muita paciência e carinho, o seu anjo lhe ensinará a falar.
Criança:
- E o que eu farei quando eu quiser te falar?
Deus:
- Seu anjo juntará as suas mãos e lhe ensinará a rezar.
Criança:
- Eu ouvi que na terra há homens maus. Quem me protegerá?
Deus:
- Seu anjo lhe defenderá mesmo que signifique arrisque sua própria vida.
Criança:
- Mais eu serei triste porque não te verei mais.
Deus:
- Seu anjo sempre lhe falará sobre mim, lhe ensinará a maneira de vir a mim, e Eu estarei sempre dentro de você.
Nesse momento, havia muita paz no céu. Mas as vozes da Terra já podiam ser ouvidas.
A criança apressada, pediu suavemente:
- Deus, estou a ponto de ir agora.
Diga-me por favor o nome do meu anjo.
E Deus respondeu:
- Você chamará seu anjo de... mãe.
Mário Auvim

Mario 27/06/06
Amizades são feitas de pedacinhos.
Pedacinhos de tempo que vivemos com cada pessoa.
Não importa a quantidade de tempo que passamos com cada amigo, mas a qualidade do tempo que vivemos com ele ...
Cinco minutos podem ter uma importância muito maior do que um dia inteiro.
Assim, há amizades que são feitas de risos e dores compartilhadas ...
Outras de escola ...
Outras de saídas, cinemas, diversões ...
Há ainda aquelas que nascem e a gente nem sabe de quê, mas que estão presentes.
Talvez essas sejam feitas de silêncios compreendidos, ou de simpatia mútua sem explicação.
Hoje em dia, muitas amizades são feitas só de e-mails ... São as famosas " amizades virtuais ".
Diferentes até, mas não menos importantes.
Aprendemos a amar as pessoas sem o julgamento da aparência ou modo de ser ...
Sem etiquetas ou títulos.
Amigos de verdade não precisam disso!
O tempo que passamos com os amigos de verdade não é tempo gasto ...
É tempo ganho, aproveitado, vivido.


Mário Auvim

O Homem de Chapéu Branco


( Parte II )                                          

O homem do chapéu branco
Surge numa noite escura
Com o seu espírito franco
E olhar repleto de ternura!

Seu chapéu vira uma Lua
Com sua claridade cintilante
Toda vez que na obscura rua
Ele dá um passo brilhante

Será que ele é o boto buscando uma donzela?
Será que ele é um músico atrás da seresta?
Só sei que deixa a noite escura mais bela
Fazendo das constelações uma real festa

Este divino homem de chapéu branco
Senta-se na praça bem no banco
Porém ele desaparece com o vento
Ao sabor da brisa cheia de sentimento

Mas ele reaparece numa esquina
No meio da misteriosa encruzilhada
Ele dá um beijo na abandonada menina
Depois se evapora no meio do nada

Não sei quem é este homem de chapéu branco
Não sei se é boto, seresteiro ou uma entidade
Somente entendo que o seu espírito é franco
Iluminando a minha noite de verdade.
Luciana do Rocio Mallon


Selfie no Banheiro


Perdido dentro do banheiro
Ele olha para a branca pia        
E tira um selfie por inteiro
Com o flash luminoso da poesia

Mas sua alma entra no espelho
E ele abraça o próprio sentimento
Assim um anjo lhe dá um conselho
Para sair do vidro no menor tempo

Um selfie no toalete frio
Aquece sua alma brilhante
A brisa causa um arrepio
Enquanto vira estrela cintilante
Da sua própria foto, ele é o melhor amante.

Luciana do Rocio Mallon

Poetisa de Segunda


                                          
Eu gosto mesmo é da segunda-feira
Pois estou sempre com segundas intenções
Neste dia, sempre termino uma tarefa faceira
Pois terei uma semana cheia de emoções!

Já falaram que sou uma poetisa de quinta
Mas na verdade sou escritora de segunda
Não desejo que a minha sorte minta
Pois a vontade de trabalhar é profunda

Garfield não gosta da segunda-feira
Porque seu pecado é a preguiça
O trabalho é uma dádiva verdadeira
Uma singela e desafiadora premissa

Ligo televisão e fala, assim, um jornalista:
- Hoje é segunda, tenha muita coragem
Minha fé tem o brilho da ametista
Para enfrentar qualquer paisagem.

Luciana do Rocio Mallon

Poeta Morreu no Palco, Cantando o Amor, Num Evento Romântico


Em Curitiba, havia um poeta
Chamado Francisco Soares
Com longas barbas de profeta
E asas que iam a todos os lugares

Dia dezessete de julho, ele foi a um evento
Repleto de emoção, pureza e sentimento
Lá, um romântico violão ele tocaria
Para sua eterna musa Lia !

Neste lugar, meninos leriam poemas de meninas
E meninas declamariam textos de meninos
Elas com flores, saias e muitas purpurinas
E eles confiantes em seus destinos!

Lá quando Francisco pegou seu instrumento
Com as luzes do palco e a benção do vento
Ele tocou algumas notas e caiu no chão de madeira
Porque ele fez a passagem da sua vida inteira

Para o céu perto de Deus, nosso senhor
Ele faleceu cantando o mais puro amor.

Luciana do Rocio Mallon

Lenda da Cigana do Chicote

    

Na Idade Antiga, uma caravana de ciganos estava passando perto da  Mesopotâmia. Então estes nômades decidiram acampar perto de uma cidade abandonada, daquela mesma região. Assim a cigana Lia, que estava grávida, resolveu passear pelo local até que encontrou uma estátua de uma gata peluda, com formas de mulher, com um chicote na mão.
Quando ela chegou ao acampamento, o kaku, que é um líder espiritual dos ciganos, pediu para que a moça jogasse a estátua fora. Mas a jovem não obedeceu e guardou o objeto em seu baú.
Meses depois Lia deu à luz a uma menina, porém faleceu no parto. O bebê foi batizado de Brechinari.
Quando esta menina completou cinco anos de idade, ela estava mexendo no antigo baú da sua falecida mãe e achou a estátua da mulher-gata com um chicote. Após isto, a menina pegou os chicotes dos adultos e passou a adestrar animais com eles.
Quando ela completou treze anos de idade saqueadores resolveram atacar o acampamento. Os ciganos tentaram se defender com suas armas. Mas Brechinari entrou na frente, da briga, com dois chicotes que se multiplicaram e feriram os bandidos, que acabaram indo embora.
Esta garota estava noiva de Ivan, um cigano do mesmo acampamento, que era antipático com ela. Um certo dia, esta donzela chamou o noivo para conversar, porém ele foi grosso com a pobre. Deste jeito Brechinari pegou o chicote e bateu no rapaz, que após as surras apaixonou-se por ela e aceitou o casamento.
No dia de seu matrimônio, Brechinari confeccionou uma saia feita de chicotes coloridos e um espartilho de couro.
Após a festa, o kaku chamou a jovem para conversar e explicou:   
- Eu sei que você está com a estátua da mulher-gato com o chicote e foi ela que lhe deu todo este poder.
- Mas, por favor, jogue-a fora!
A cigana disse:
- Por que eu deveria jogar esta imagem fora?
O mago respondeu:
- Esta figura de mulher-gato com chicote era uma deusa de uma cidade perto da Mesopotâmia. Ela significava que até no prazer mais sensual existem conseqüências, que ás vezes transformam-se em dores. Mais tarde surgirão escritores que descobrirão este significado, porém eles deturparão esta imagem em favor da luxúria.
- Por favor, se livre desta estátua!
Brechinari explicou:
- Esta imagem me deu habilidades que eu tenho com o chicote. Porém se o senhor e nem o resto das pessoas daqui desejam entender isto, prefiro ir embora.
Deste jeito a cigana sumiu do acampamento e fugiu com um circo que estava apresentando-se num local perto. Lá ela virou domadora de animais selvagens. O problema era que alguns homens, depois do espetáculo, pediam para que Brechinari torturasse os corpos deles com o chicote. Por pressão do dono do circo, a cigana passou a aceitar as propostas.
Reza a lenda que alguns séculos depois, o escritor Leopold Von Sancher Masoch avistou um acampamento cigano perto da sua casa e pediu para que estes nômades contassem alguns causos, entre estas histórias estava a Lenda da Cigana do Chicote. Este relato também serviu de inspiração para este escritor elaborar a obra chamada A Vênus das Peles.
Por coincidência, existe um balé chamado Dança da Cigana dos Chicotes, onde a bailarina mexe com chicotes enquanto gira com suas saias largas. Há, também, movimentos na Dança Flamenca em que a “bailaora” imita chicotes com as saias e com os braços.

Luciana do Rocio Mallon

Lenda da Cigana da Sevillhana


                                                      
Reza a lenda que quando a cidade de Sevilha, em Andaluzia na Espanha, foi invadida pelos mouros ficou muito destruída e, logo depois, seu povo tornou-se com a autoestima baixa e com a aura depressiva.
Naquela mesma época uma caravana de ciganos acampou nesta cidade. Então a cigana Consuelo resolveu dar uma volta no local e notou que as pessoas estavam muito tristes. Assim ela resolveu rezar para Santa Sara:
- Santa Sara, faça com que o povo de Sevilha recupere a sua alegria.
Naquela mesma noite, Consuelo notou que seu corpo saiu da esteira onde estava dormindo e começou a dançar sozinho, guiado por uma força estranha através de um compasso ternário, que conforme dizem os relatos místicos é o compasso que os santos bailam. Assim esta cigana deu passos como: “paseos”, “pasadas”, “remates” e “careos” por meio de quatro “coplas”. Assim, ao mesmo tempo, que esta donzela começou a dançar, ela passou a cantar letras de músicas em homenagem à Sevilha. 
Os outros ciganos ao escutarem o som, acharam o bailado maravilhoso e se dividiram em pares para dançarem a música.
No dia seguinte, eles resolveram mostrar este espetáculo à cidade. Deste jeito Consuelo cantou músicas em homenagem à Sevilha, enquanto os pares dançavam. Assim a população do local recuperou sua autoestima voltando a ser alegre. Por causa das canções em homenagem a esta cidade, que acompanhavam esta dança, ela passou a ser chamada de Sevilhana e ficou tão popular, que começou a ser bailada em todos os tipos de festas em Andaluzia.
Somente mais tarde é que surgiram letras de sevilhanas com outros temas.
Reza a lenda que quando uma “bailaora” começa a fazer aulas de sevilhanas e tem algumas dificuldades em aprender os passos, Consuelo, a cigana das sevilhanas, aparece nos seus sonhos para ensina-la e no dia seguinte a aluna acorda com a dança decorada.
Luciana do Rocio Mallon  


SEXTO DEGRAU


mácula
na margem
febril inverno
sem lentes
poentes
na ausência de estrelas
é fresco o vapor
das vespertinas do sul
amansamos o cavalo do leito
erguido e crucificado a cada retomada
cruzamos nossos passos
harmonizamos nossas preces
- iguais e descontínuas –
para ergue-las como mitos
maníacos ou valentes
uma gala de artifício
até o sexto degrau.


JANDIRA ZANCHI

sábado, 18 de julho de 2015

Bebo o sangue da luna rossa. Bárbara figura vestida de pele de ovelha que mal cobre o sexo. Lilith devassa, louca alada e nua escondida em uma roupa de senhora. Não sou esta dama no salão de chá, cadeiras bordadas de flores da Confeitaria das Famílias, vomitando asteriscos e estrelas e dissecando a XV da Federal à Boca Maldita ao lado de meninos de camiseta Hering branca e óculos de Clark Kent, tomando coca-cola. Na hora do ângelus pisam partituras de ossos e surfam no caos, dominam suas ondas... Suas pipas são estrelas inconclusas, com fios esgarçados que eles alcançam da torre da Catedral. Ninguém diria que ferve nas veias um rio vermelho encharcado de blues, nesta saudade órfã do triste homem azul. Pode que ele nos espie no canto da confeitaria em um ângulo discreto, com aquele olhar maroto e aquele chapéu escuro. Pode que ele acompanhe meninos poetas, andando sobre os muros e explodindo em vida ao nosso lado. A gente pensa que é a brisa de fim de tarde na XV - é sopro de Marcos Prado - Este cara eterno que nos mata de saudade...

Bárbara Lia

Homenagem a Marcos Prado

01: A PRECE DE AÉCIO

. 
Deus, quando eu era menino
Bastava um único pedido
E o Senhor me atendia
Me dava bicicletas
Coloridas canetas
E tudo o que eu queria.
.
Às vezes eu nem pedia
E do nada aparecia
Uma porção de presentes
Eram roupas da moda
Relógios chiques de corda
E viagens aos States.
.
Ganhava motorista particular
Que dirigindo um Jaguar
Me levava à escola todo dia
Tudo era tão diferente
Eu fazia uma prece inocente
E o milagre acontecia.
.
Pedi faculdade, ganhei a PUC
Pedi fama, fiquei ilustre
Pedi poder, virei Deputado
Pedi um Estado, virei Governador
Pedi o Senado, virei Senador
Pedi o Brasil, fiquei chateado.
.
Ó meu bom Deus
O que foi que aconteceu
Com o Senhor meu Pai?
Parece que Se esqueceu
Desse filhinho Seu
Aqui de Minas Gerais!
.
Senhor eu pedi tão somente
Para ser o Presidente
Desse meu Brasil
Mas o Senhor atendeu
A Dilma enquanto eu
Fiquei a ver navios.
.
E quando fui à Venezuela
Bater as minhas panelas
Contei com a Sua ajuda
Mas voltei escorraçado
No Brasil todo humilhado
Nunca fizeram isso com Lula.
.
Já que o Senhor não ouve
As preces que toda noite
Eu encaminho aí pra cima
Vou esperar o Natal chegar
E pedirei para o Noel me dar
O impeachment da Dilma.
.
Se ele atender às minhas súplicas
E me tornar Presidente da República
Assim que houver eleições nos céus
Eu serei o Seu adversário
E num golpe interplanetário
Serei empossado deus.

Eduardo de Paula Barreto

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