segunda-feira, 14 de março de 2016
TRÊS DA MADRUGADA
- Torquato Neto
Três da madrugada
Quase nada
Na cidade abandonada
Nessa rua que não tem mais fim
Três da madrugada
Tudo e nada
A cidade abandonada
E essa rua não tem mais
Nada de mim...
Nada
Noite alta madrugada
Na cidade que me guarda
E esta cidade me mata
De saudade
É sempre assim...
Triste madrugada
Tudo é nada
Minha alegria cansada
E a mão fria mão gelada
Toca bem de leve em mim.
Saiba:
Meu pobre coração não vale nada
Pelas três da madrugada
Toda palavra calada
Nesta rua da cidade
Que não tem mais fim
Que não tem mais fim...
A POESIA E O SILÊNCIO
A inspiração em silêncio
Encanta-se com os sons do sino-de-vento,
E assim, renascem as reticências...
Van Zimerman
14/03/2016
CONHECENDO MOYSÉS LUPION
Como já contei, em Piraí do Sul eu morava com os meus pais e
irmãos na Rua XV de Novembro, sendo vizinho do Seu Alípio Domingues e do Vô
Inácio, quando criança. Outra referência para facilitar sua visualização é que
era perto da antiga Prefeitura Municipal.
A nossa rua era bem movimentada para os padrões da época,
principalmente pelo tráfego de caminhões que transportavam carga para o Estado
de São Paulo. Três dos meus tios transportavam porcos vivos em caminhões, o que
exigia cuidados especiais e uma grande agilidade para que a carga pudesse
chegar ao destino sem que os animais ficassem muito estressados ou até
machucados. Mas o que eu quero contar não é sobre a movimentação de cargas, mas
sim a respeito da concentração de gente em alguns eventos, como por exemplo:
quando as famílias que moravam no interior de Pirai, vinham para a cidade para
batizar seus filhos e aproveitavam também para fazer a Certidão de Nascimento.
Isto acontecia sempre bem perto de casa e era muito interessante quando paravam
várias carroças ainda enfeitadas, depois da missa de batizado, para cumprir seu
dever cívico com o documento que tornava cada ser humano vivente em um cidadão
real perante a lei e para efeitos estatísticos.
Certo dia,em que o movimento estava bem mais
intenso,observei que muitos piraienses queriam se aproximar e tocar/conversar
com uma pessoa, a qual eu não tinha a menor ideia quem era. E até meu pai,
pessoa muito discreta e reservada, saiu da frente de nossa casa e foi
cumprimentar aquele homem. Curioso como eu era, resolvi chegar mais perto para
perguntar quem era aquele figurão, que parecia muito importante e que conhecia
todo mundo. Era muito carismático, sorridente e paciencioso, pois cumprimentava
e falava com todos os que dele se aproximavam. Fiquei pensando em várias
possibilidades: seria um milagreiro, um ricaço, um grande fazendeiro, além de
outras das quais não me lembro mais, pois era muito criança ainda. Mas cheguei
bem perto dele, na hora que meu pai estava o cumprimentando. E meu pai me
apresentou para ele: “Este é o Governador do Estado do Paraná, o homem mais importante
que temos em todo o estado, o Senhor Moysés Lupion”. O que me surpreendeu mais
ainda, além de estar diante de uma celebridade, foi que ele me estendeu a mão
“disse o nome dele e perguntou qual era o meu”. Fiquei muito orgulhoso com seu
interesse em me conhecer e falei. “Meu nome é Lauro Rubens Duarte Volaco”.
Parecia que meu coração iria pular do meu peito, sair pela boca e cair naquela
rua empoeirada. Aquilo me impressionou tanto, que eu contei esta história
dezenas de vezes, algumas até repetindo para os mesmos amigos e fazendo inveja,
perguntando se alguma vez eles estiveram pelo menos perto de um governador!
Falava ainda que ele quis saber quem era eu. Parecia que se ele pudesse, também
gostaria de saber quais eram os meus projetos de vida e me orientar para que eu
pudesse ser um dia, tão importante quanto ele.
Dia histórico para um menino que ainda usava calça curta!
(Lauro Volaco)
COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"
Um dia
(post-scriptum XLVI)
Um dia mudo-me
para a pátria do silêncio;
Por agora
vou adormecendo
ao ritmo
da mudança das estações.
António Patrício Pereira
Olhar para trás e não sentir saudades
É a maior prova de que
Vivemos da melhor maneira
Todos os momentos por quais passamos
Podemos não ter sido tão presentes
Ou não ter feito o mundo sorrir como gostaríamos
Olhar para trás e não sentir saudades
É um privilégio inestimado
Conviver com o presente em paz
É ter a certeza de que amamos com todo o coração
Choramos com toda emoção
Brigamos com toda a razão
Olhar para trás e não sentir saudades
É não brigar com o que foi
Porque o tempo é irreal
E o que importa é ser leal
Escrita por Roberta Maria de Oliveira da Silva.
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roberta maria de oliveira da silva
SOU SERTÃO, SIM SENHOR!!
Mote e glosa: Assis Coimbra.(Engatinhante na arte da vida e
do cordel)
Eu posso ser do sertão
Do nordeste brasileiro,
Até ter jeito "brejeiro"
Mas gosto de educação!
Só não gosto de "sermão"
De "cába" que tem frescura!
Pois gente assim me "satura",
Pensando que ele é o tal.
Dizendo-se genial,
POR LHE FALTAR COMPOSTURA!
*
Se você meu caro amigo
Foi neste mote citado,
Peço não fique zangado
Principalmente comigo.
Pois uma coisa eu te digo:
-Ter pouca literatura,
Não quer dizer sem cultura.
Mas também não quero aqui
Nos versos falar pra ti,
QUE TE FALTA COMPOSTURA!!
Contatos para trabalhos.
Emails:
assis.coimbra@gmail.com / assis_coimbra@yahoo.com Fones: (11)9.9748-1292/
whatsApp : (11}9.4213. 7976
14 de março feliz dia da poesia!
Eu vejo poesia
O sol nasceu,
O sol se pôs;
Eu vejo poesia
No olhar da criança.
Eu vejo poesia
No nascer,
No viver,
No morrer.
Eu vejo poesia na canção,
No pulsar
Do meu coração.
Eu vejo poesia
Na liberdade,
Na lembrança,
Na saudade...
Eu vejo poesia na lagrima;
Que desliza na sua face;
No sorriso que vibra a alegria;
Na paz que dança dentro de mim.
O ano vai, o não vem
Eu sinto a poesia
A cada dia.
Eu vejo a poesia
Na poesia da natureza!
Poeta Rosa Leme
Lendas da Danceteria Boneca do Iguaçu
Num sítio do interior do Paraná, nos anos cinquenta, existia
uma menina chamada Dolores, que todos na região chamavam de Doll. O sonho desta
menina era ter uma boneca, mas como sua família era carente, nunca seus pais
podiam presentear a pobre no Natal. Um certo dia, ela orou:
- Meu anjo da guarda, quero tanto uma boneca!
Uma semana depois, sua família foi ao enterro de uma
conhecida. No meio do cemitério, em um dos túmulos, havia uma boneca e Dolores
pegou o brinquedo sem ninguém notar. Quando chegou a sua residência, a mãe
perguntou-lhe:
- De quem é esta boneca?
A menina mentiu:
- Ganhei de uma moça no velório.
A partir daquele dia, a garota não se desgrudou mais do
brinquedo.
O tempo passou e Dolores tornou-se uma linda adolescente, de
olhos azuis, pele branca brilhante como a porcelana e cabelos castanhos. Um
certo dia, um caxeiro viajante passou pelo sítio, seduziu a pobre que ficou
grávida. Sua família ao descobrir isto, expulsou Dolores de casa, que fez uma
mala e levou sua boneca junto. A jovem pediu carona na estrada e veio parar em
Curitiba. Mas quando chegou à capital do Paraná, a moça perdeu a criança e
passou a se prostituir na Rodovia das Praias. Para isto ela colocava roupas
provocantes e uma peruca loira. A música favorita de Doll era uma que tinha
este refrão: “boneca cobiçada / nas noites de sereno / seu corpo tem veneno...”
Num certo domingo à noite, esta moça resolveu descansar
perto da sua casa, que ficava entre a fronteira entre Curitiba e São José dos
Pinhais. Mas naquela noite ela ouviu a sua canção predileta saindo de um clube
dançante. Então esta jovem se vestiu com decência, pegou sua boneca e foi até o
local. Mas lá mulheres não podiam entrar sozinhas e prostitutas não eram
bem-vindas, pois o ambiente era familiar. Então a moça pediu para que um
vizinho pudesse lhe acompanhar e mentir que ela era vendedora. Quando Doll
chegou até a esta danceteria ficou encantada com o nome do estabelecimento, que
se chamava Boneca do Iguaçu. Ela, também, gostou de saber que o lugar foi
batizado de Boneca porque os antigos proprietários sonhavam em ter uma filha,
pois o sonho de Dolores era ficar grávida de uma menina, também. Além disto,
esta mulher ficou tão encantada com a magia do ambiente, que passou a reservar
as suas noites de domingo para frequentar este local.
Porém num dia de semana, durante o exercício de sua
profissão, um maníaco matou Doll e jogou seu corpo no Rio Iguaçu. Mas reza a
lenda que todo o domingo, o corpo desta moça saia do rio para dançar na balada
chamada Boneca do Iguaçu e quando tocava a música Boneca Cobiçada, o salão
inteiro brilhava e um aroma de rosas tomava conta do ar.
Luciana do Rocio Mallon
domingo, 13 de março de 2016
Águas
Ele liga só suspiros, como de Veneza.Ela janta com amigos;está na sobremesa.Louco, masca balas de damasco.O peito, aço.Noite escorrendo.Cochila vendo TV. O primeiro trrimm revira-lhe o estômago(olhos de ouro, pescoço de cisne , rumba, piscina noturna. )Acende um cigarro."Lembra-se de mim ? "- Ela suga outro uísque.Pausa masculina.Vértigo,volúpia , bingo: "Nosso melhor beijo foi na última sessão de cinema.""O filme?""Claro".Desliga sem vírgulas.Rudes, os pássaros estilhaçam a manhã. Sai siderado(olhos de ouro, pescoço de cisne).Toca a campainha, mãos nos bolsos.Ela enrolada no robe :"Nem vi que chovia. ".
Risco no Disco. FSP.27/06/1999
Previsão do tempo para domingo, dia 13 de março de 2016. O
sol não aparecerá envergonhado de brilhar na região sul, mais precisamente
sobre a cidade de Curitiba. Nuvens escuras formarão figuras monstruosas no céu,
a tentativa de golpe refletida das avenidas. Final de tarde, chove garoa fina
em São Paulo, lagrimas dos mortos que lutaram pela democracia no Brasil.
JDamasio
Pau Brasília:
não tente gostar de brasília
tão rápido assim
blocos de verdade
sobrevoam superquadras
imaginárias
superquadras
à procura de uma cidade
mallaramargens gosta de presentear seus leitores: Nicolas Behr, Pau Brasília:
Jandira Zanchi
O silêncio... ah o silêncio. Tão contundente e perspicaz.
Ele diz tudo. Ele não diz nada. Ele é interrogação. Ele é exclamação. Tenho
aprendido MUITO com o silêncio. Dos outros. Meus. O silêncio permeia meus
ruídos internos. O silêncio me traz a calma na pausa entremeada de sons. O
silêncio. Ah o silêncio. Obrigada por existir.
Susan Blum Moura
COMBATE
No peito intransponível, um encouraçado
Combatente do ferro em carcaças ,
E cavalos demolidores de muralhas solidão,
Abalando as fundações, duras raízes em nós.
Nas ruas, flutua o tempo nas bolhas do sabão de Alice,
Menina queimando o circulo das horas em dias mormaços.
Nas almas, a vida chora seus mortos ,
Enquanto a boca viva espeta agulhas no vento
e em seu grito de língua por dentro
canta em cata-ventos que nada será em vão
Marko
O poeta morto
Salvador-Bahia-Brasil
SINUCA DE BICO
Pugna No Jogo da Vida
Lutar Com os Punhos
Bate o Pé Esperneia
Pugilismo
Pugilato Combate
O Poder Legislativo Cruza os Braços
Só Sai da Inércia Para Impedimento
O judiciário Avisa O Dolo Do Cidadão
Se O TRE Impugna Pode Haver
Outra Eleição O Que Não Pode
Repugna É Ficarmos Sem Justiça
Sem Esperança Sem Bom Siso
Senso Sem Noção Sem Nação...
*
Rodrigo d'Àvila Freitas/2016
Artes
Meus olhos giravam, meu coração palpitava como num
taquicardia, o teatro uma paixão como a pintura que absorve o ser, e, a poesia
martelando minha criatividade,
Passeei de mãos dadas com William Shakespeare com sua
dramaturgia, tocando na insanidade tão atual que me faz arder minha mente.
Maximo Gorki meu preferido, em sua pobreza o que existe em
comum na minha infância, ser revolucionário foi sua sentença de morte. Uma
agulha com veneno , não apagou seus romances.
Van Gogh pintando os girações que não foram esquecidos, os
trigais foram o culpado.
Izadora Ducan seu bailado de pés descalços, saltitando, seu
echarpe foi a arma fatal, ficou sua dança moderna..
Beethoven, imoral, mas a sua surdez é a minha. Eu não sei o
que vai ser de mim, em todo o momento às artes me move, moverão.
Tudo continua no mesmo, tudo soa mais falso, muito barulho
por nada.
Por favor, por onde anda o Pavão? Nas portas do mundo ouço
um Pavão que me guarda do mal.
Varenka de
Fátima Araújo.
Lenda da Maria-Mole
Reza a lenda que, na época do Brasil Colônia, a família real
tinha uma escrava chamada Maria, que sofria de um problema chamado Síndrome de
Fadiga Crônica. Ela não podia fazer movimentos ligeiros, que já se sentia
cansada. Por isto a pobre vivia sofrendo bullying das outras escravas, que
apelidaram esta moça de Maria Mole.
Naquele tempo a família real mandava trazer, via marítima,
gelo dos Alpes europeus com o objetivo de fazer sorvete para as crianças. Um
certo dia, este navio desapareceu e os pequenos começaram a sentir falta do
doce gelado. Então a governanta pediu para que as cozinheiras inventassem um
quitute parecido, mas nenhuma delas foi feliz.
De repente, chegou Maria Mole com seus gestos vagarosos.
Desta maneira ela entrou na cozinha, pegou coco ralado, mocotó, água e açúcar.
Assim misturou tudo e deu para as crianças, que ficaram contentes. Deste jeito,
a governanta comentou:
- Parabéns!
- Em sua homenagem este doce será batizado de Maria-Mole e,
a partir de hoje, fará parte do cardápio das sobremesas desta casa.
A criadora do novo
confeito morreu, aos 21 anos, de tuberculose. Porém depois de seu falecimento,
pessoas relataram que passaram a ver o fantasma desta escrava, na cozinha,
fazendo Maria-Mole nas madrugadas.
Diz o mito que anos depois, em São Paulo, havia uma família
de confeiteiros descendentes de italianos. Um dia, o avô notou que sobraram
muitas claras de ovos na cozinha. Com medo de desperdício, o ancião começou a
orar:
- Deus, me envie um anjo que me ajude a criar um doce com
estas claras que sobraram.
De repente, o espírito de Maria Mole ficou perto do velhinho
e fez com que ele fabricasse um tipo de suspiro com gelatina na receita. Assim
surgiu um confeito chamado Maria-Mole Paulista.
Luciana do Rocio Mallon
Lenda do Maníaco da Falsa Festa Surpresa
No começo dos anos 70, em Curitiba, um tarado passou a
apavorar a cidade, seu apelido era Maníaco da Falsa Festa Surpresa.
Reza a lenda que seu nome era Tonho e ele costumava roubar
agendas de pessoas, onde existissem números de telefones de mulheres. Assim
este louco escolhia um número e dizia:
- Aqui é o amigo do (nome do dono da agenda) e semana que
vem será o aniversário dele. Por isto, estamos organizando uma festa surpresa e
gostaríamos da sua presença. Brevemente estarei passando o endereço...
Após estas palavras, Tonho alugava um “buffet”, com salão
afastado do Centro da cidade, e marcava o dia com horário para a falsa festa.
Deste jeito o rapaz ligava, novamente, para a moça com o
objetivo de contar sobre a data da comemoração.
Mas, quando a jovem chegava ao salão não via ninguém, apesar
de estar tudo arrumado. De repente, Tonho aparecia e estuprava a pobre.
Abaixo há o relato, de uma senhora, que foi atacada por este
maníaco. Porém, para manter a sua privacidade, vamos chama-la de Maria:
Em 1970, Maria recebeu a ligação de um rapaz que dizia se
chamar Flávio e que gostaria de fazer uma festa surpresa para sua amiga, Sônia,
que ela não via há anos. Desta maneira Maria aceitou o convite.
Porém, quando chegou ao salão de festas, ela notou que a
porta estava aberta. Por isto, a moça entrou no local e tudo parecia arrumado:
bolos, salgadinhos, docinhos e bexigas. Como um raio, apareceu um homem que
tapou a sua boca e tentou violenta-la. Mas, naquele mesmo instante, a donzela
chutou as partes baixas do tarado e saiu correndo.
Mais tarde, através da mídia, ela descobriu que se tratava
do Maníaco da Falsa Festa Surpresa.
Reza a lenda que uma versão nova deste tipo de tarado
renasceu. Pois dizem que há um maníaco que pesquisa mulheres, nas redes sociais
das pessoas, e aplica o mesmo golpe através da Internet. Afinal quando a vítima
chega ao local do evento, o maluco tenta violenta-la.
Portanto: todo o cuidado é pouco.
Luciana do Rocio Mallon
sábado, 12 de março de 2016
Chuva branda
Chuva branda
escorre na vidraça
e o enfado suave
desse movimento
me lembra mulher
adormecida clara linda
que também se move
querendo retornar
do abismo
do sono intocável,
do silêncio da noite
que ainda faz
no quarto imenso.
Da rua chegam
os avisos tímidos
da roxa cinza chumbo
aurora de figuras fugidias.
Corpo de mulher
nem santa nem devassa,
apenas comum,
seminua imagem
desvanecida se apagando
junto às últimas luzes.
Em outra manhã
de outro mundo
minha poesia acorda
amarrotada feito lençol
e transforma em luz
pássaros que abandonam
seus cabelos
e descobrem o sol.
*
André Giusti, 1991
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Morte do Cachorro Threo
Depois do gato Bóris que sumiu no breu
Mais um bicho-lenda, de Curitiba, faleceu
Partiu para o paraíso, o cachorro Threo
Agora, ele é guardião do mais puro céu
Este cão trabalhador e muito especial
Trabalhava na Guarda Municipal
Ele visitava crianças doentes em hospitais
Levando os pequenos para outros astrais
Este meigo e doce cachorro farejador
Representava o mais divino amor
Porém assim como o gato Bóris elegante
Threo morreu de ataque cardíaco fulminante
Hoje, no céu, ele é mais uma estrela cintilante.
Luciana do Rocio Mallon
Lenda da Lebre Disciplinadora da Páscoa
O causo da lebre disciplinadora pascoal é comum no interior
de Santa Catarina. Pois ela representa o lado obscuro do Coelhinho da Páscoa.
Reza a lenda que a lebre observa as crianças que são travessas. Deste jeito, no
domingo pascoal, em vez de chocolates ela dá castigos para os desobedientes.
Como exemplos: arrancar os dentes da frente de uma criança que não quer
escova-los.
A maioria das pessoas conhece o Coelhinho da Páscoa, que
veio da tradição Alemã. Reza a lenda que, naquele país, uma mulher pobre
coloriu ovos de galinhas e os escondeu no mato para dar aos filhos. Então na
hora da brincadeira de achar os ovinhos, passou um coelho bem no momento em que
as crianças encontraram a surpresa. Assim o orelhudo ficou com fama de colocar
ovos de Páscoa. Mas dizem que debaixo da sombra de uma árvore havia uma lebre
escura observando o comportamento das crianças.
Uma vez a minha vó Lena, morada de uma região rural chamada
Butiá do Lajeado, localizada na cidade de Mafra em Santa Catarina, contou-me o
seguinte causo:
Há muitos anos, num lugar chamado Butiá de Santa Rita,
existia um moleque chamado Quincas que não gostava de escovar os dentes. Um dia
sua mãe disse:
- Se você não quer escovar os dentes, a lebre disciplinadora
vai arranca-los no domingo de Páscoa em vez do coelhinho dar chocolates.
Desta maneira, no domingo de Páscoa daquele ano, Quincas
levantou-se e olhou debaixo da sua cama. Porém ninguém tinha colocado chocolate
na sua cesta. Quando este garoto foi lavar o rosto, se olhou no espelho e viu
que estava sem os dentes da frente. Deste jeito, o menino começou a chorar e
sua família afirmou que aquilo tinha sido obra da Lebre Disciplinadora da
Páscoa.
Naquela região não havia dentista, mas tinha um barbeiro que
entedia de dentes. Por isto, a mãe de Quincas, levou o seu filho para ser
atendido por este homem. Lá o barbeiro explicou que, no fundo, foram os dois
dentes-de-leite da frente que caíram ao mesmo tempo. Porém, para que novos
dentes nascessem, este rapaz pediu que o menino passasse a escovar a sua boca
depois das refeições e jogasse duas pedrinhas brancas no telhado, falando a
seguinte frase:
- Coelhinho, coelhão...
- Traga-me um dente bem bonitão
- Minha disciplinadora lebre,
- Traga-me dois dentes breve.
Luciana do Rocio Mallon
O ENTERRO DO LOBO BRANCO
"Eu perseguia obcecado o seu corpo e você obcecada
exigia meus enforcamentos como se fosse minha obrigação te ressuscitar do
marasmo do tédio e da infelicidade diária minhas fodas não bastavam também
tinham virado parte da monotonia apenas a força das minhas mãos no seu pescoço
poderia te salvar poderia romper a carne as cartilagens a traqueia o oco e
arrancar uma nova epilepsia uma nova língua um novo dialeto para em minutos
você descobrir que também essa novidade não servia para nada"
Marcia Barbieri
Lenda da Cigana do Pirogue
Na Idade Antiga, alguns ciganos montaram acampamento no
Leste Europeu, entre eles estava a cigana Anielska, que era uma excelente
cozinheira. Então ela resolveu passear por uma vila. No meio do caminho, esta
donzela encontrou uma moça grávida, que tinha uma certa deficiência
neurológica, e que chorava sem parar. Então Anielska perguntou:
- Moça, por que está chorando?
A gestante respondeu:
- Porque estou com desejo de comer a Lua crescente. Além
disto, minha mãe me enganou ontem. Pois ela cortou o queijo em formato de
meia-lua e falou que era o satélite natural. Porém quando eu comi este
alimento, a Lua continuou no céu.
Deste jeito a cigana disse:
- Por favor, sossegue que eu trarei a Lua para você
saborear. Então fique quieta aí, que eu já volto.
Assim Anielska voltou para seu acampamento e resolveu
cozinhar um enorme pirogue, que é um pastel em forma de meia-lua. Desta
maneira, ela trouxe o alimento até a grávida e exclamou:
- Aqui está a Lua para você!
Como era uma noite de eclipse lunar, a grávida olhou para o
céu e como não viu nada, acreditou em Anielska.
Reza a lenda que a cigana Anielska é a protetora das
gestantes que possuem desejos de comer alimentos inusitados. Por isto, quando
uma grávida sente vontade de se alimentar com uma comida difícil de encontrar,
basta orar para Anielska que a família da gestante consegue achar o alimento
tão desejado.
Luciana do Rocio Mallon
Lenda do Bairro Cajuru de Curitiba
Na época do Brasil Colônia, num bairro de Curitiba que hoje
se chama Cajuru, existia uma tribo indígena. Como guardiã desta aldeia havia
uma planta carnívora gigante que ficava na boca da mata. Este vegetal tinha o
apelido de Cajuru que significa boca da mata em tupi-guarani.
Naquela tribo vivia uma índia chamada Jussara, que sonhava
em ter filhos, porém não conseguia. Ela chegou a implorar para que Tupã
realizasse o seu sonho, mas não teve o seu pedido atendido. Até que um dia,
esta moça foi chorar perto da planta carnívora, que ao ver o desespero da moça,
perguntou-lhe:
- Por que está chorando?
Jussara respondeu:
- Porque não consigo ter filhos.
A planta explicou:
Sou um vegetal mágico e posso realizar o seu desejo. Se você
colocar sete pássaros dentro da minha boca durante sete dias, você conseguirá
engravidar. Mas tem uma condição: terá que colocar o nome do seu bebê de Cajuru
em minha homenagem.
A mulher conseguiu cumprir o prometido e quando sua filha
nasceu colocou o nome de Cajuru. Porém, no mesmo dia, a planta carnívora morreu
e deixou de proteger a aldeia que foi atacada por uma tribo inimiga. Porém
Jussara e sua menina sobreviveram.
Cajuru cresceu, mas morreu aos quinze anos de causas não
reveladas. Porém reza a lenda que esta índia quando chegou ao céu viu a planta
carnívora, que era guardiã do seu povo. Então este vegetal disse-lhe:
- Minha donzela, um dia eu tive o mesmo nome que você e de
alguma forma somos parecidas. Você deverá voltar ao mundo em forma de espírito
e tomar conta da terra que, um dia, já foi da sua tribo. Aquele lugar se
transformará num bairro chamado Cajuru. Porém seu fantasma sempre aparecerá nas
noites de luar, por lá, com o objetivo de proteger os moradores.
Luciana do Rocio Mallon
ORATÓRIO
O homem que nunca existiu mora num sobrado
do início do século 19,
com sacadas e uma escadaria em curva,
e, no oratório, costuma rezar o rosário de buirás.
Enquanto, na manhã de chuva, observa pelas venezianas
os acantos no talude ao longo das arcadas,
o homem que nunca existiu conclui que um artista maduro
é aquele que sabe da futilidade de suas conquistas
e de sua busca.
O homem que nunca existiu cansa de observar os acantos,
antes prefere o consolo de dois pensamentos:
1. O solo com muito esterco produz uma colheita abundante,
pois a água que é demasiada clara não tem peixe.
2. A prosa é a poesia que a poesia não é:
em tudo uma vaga esperança vive,
mas não mais do que vivem as inscrições nos túmulos.
Texto de Fernando José Karl
Invisibilidade
Caró Lago
Não só essas meninas de rua são invisíveis
como também são as paredes
da casa delas
na calçada
desenham planta baixa no asfalto
esperam que entendam o seu abstrato
projetam uma porta
no corpo, livre e aberto
sonham com grades torcidas em flor
devaneio de evitar uso capião
em suas bolsas imaginárias
cabe um mundo
batom, grampo, navalha,
absurdos
e a violência
por ser a mais transparente
acaba aparecendo muito
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