domingo, 12 de julho de 2015

O PEIXE QUE LIA PROUST

Era um vez um peixe
que lia Marcel Proust
no original, en français:
mas não sabia cantar
carangueijo não é peixe,
carangueijo peixe é,
porque assim como eu
só era mesmo peixe
quando descia na maré.
(Eu sei: ficou ruim o poema
mas pelo menos parou em pé.)


Ivan Justen Santana

domingo, 5 de julho de 2015








Ao entrar na casa vazia, abro a porta para as saudades. Encontro felicidades acumuladas nos cômodos abarrotados de lembranças, JDamasio

Armações Para Aparências


12


São búfalos debutando na joalharia (cacos
a estocar a farofa dos dias e seus afluentes).
São órbitas tecendo espelhos no selo em que
me esfacelo. Dispo esses remos para chamar
a poesia; abro a porta da noite para acolher
seu alfabeto. Ainda há luz no cais, nos barcos
que não partiram.Ainda posso escoltar a sintaxe
nos livros que o vento escreve.
SALGADO MARANHÃO

(Do livro Avessos Avulsos)




O frio


Minha personalidade forte
que, às vezes, chega a bater na minha fé,
que, às vezes, nada diz e nada é,
só pode ser - a palavra que me diz tudo - e é.
Tudo dói mais no frio
Mas já me doeu mais.
E, se num dia eu esqueço,
No outro, é do que eu mais quero lembrar
Só pra não errar ao amar novamente.
O frio canta pra mim
e até que ele canta bem,
a minha desgraça boa.
Aos senhores pinguins,
A todos os esquimós
E aos desbravadores de todo e qualquer
Oceano Ártico, não menos pacífico,
Esse frio sob o qual eu apanho, agora,
já foi meu motivo de tristeza, um dia
ele me deu bons conselhos
e eu nem mesmo soube aproveitá-los
Mas, se você disser
que deu o melhor de si
(pois diga, por favor, diga que sim!)
Eu posso voltar a ajustar a temperatura do chuveiro
pra qual eu quiser.
.
John Borowski

(Tributo ao Véio China)
nesta orquestra
com barulho de buzina
até grilo afina
mk

Sol preguiçoso
na janela do dia--
já é inverno.


Nydia Bonetti

CRÔNICA RÁPIDA


Júlio Damásio

Tudo ficou mais rápido: Os meios de transportes, a engorda dos porcos e das galinhas, o amadurecimento das frutas. As crianças de antes tinham tempo e se divertiam na construção dos seus brinquedos, os carrinhos de latas de leite condensado e caminhões de latas de óleo; a boneca era de pano, costurada pelas avós que também tinham tempo para criar a fantasia para a neta com as próprias mãos. Hoje não se tem tempo para imaginar, em um botão tudo se acende, mas apaga-se o romantismo da infância passada. O mundo tem pressa. Ninguém tem mais tempo para perder, como quando o namoro era uma calmaria, quando antes de se chegar com jeito na cintura da moça, e a moça no ombro do rapaz, ambos tinham calos nos dedos de ficarem de mãos dadas.... Quanto ao casamento, não se tinha pressa de separar, um esperava o outro morrer. Agora, casou, se não chegar ao orgasmo na lua de mel: separação. Falta preliminares para a vida. Que rapidez é essa? Onde vamos parar com tanta pressa? Aonde queremos ir? A família que se reunia sentada à mesa para o almoço e jantar, saboreava uma deliciosa conversa; hoje a família come desmembrada, todos de pé, pois não dá tempo de sentar, a comida vem pronta sem tempero trazida pelo motoboy.
Antigamente, quando a má notícia de morte chegava, o defunto já estava enterrado, com sorte se pegava a missa de sétimo dia. Hoje, antes mesmo de o moribundo findar, já se tem notícia de sua morte, e coroa chegando.

O mundo anda rápido, rápido demais. Poderia me alongar dando mais exemplos, mas como tudo é muito rápido vou parando por aqui. Não quero tomar muito tempo de vocês nessa leitura. Até porque tenho que correr, tenho de fazer um lanche rápido, fazer um empréstimo no caixa rápido, para comprar um novo notebook, vai ter promoção relâmpago numa loja, esse está muito lerdo.

poetas que se atiraram da vida
pela janela
num mar
de águas azuis ou sangue
overdose de tudo
cantos breves imensos
partituras inacabadas
pena:velhos poetas me fascinam
com seus olhos de espanto
e ternura incontida

Nydia Bonetti
o sapato coaxa -
ui, um fantasma!
salta lá o sapo

MK

Tudo tem um princípio


e tem um fim. Um começo, às vezes modesto,
e uma consumação, às vezes inglória.
Entre um ponto e outro, eu e minhas circunstâncias
escrevemos esta história.
Muitas vezes, é verdade, essas circunstâncias
estreitam minha margem de manobra.
Não sei se te dou um beijo na face
ou na boca. Não sei se te bato
ou te ofereço a outra face.
Não sei se vou ou fico. Só sei que passo.
O dia passa. O amor passa. A felicidade passa.
Mas a angústia também passa.
Um dia, somente os vermes
passearão nas minhas órbitas vazias.
Antes disso, porém, quero te olhar bem na cara e dizer:
eu te amo, filha-da-puta.
Tudo tem um princípio e tem um fim.
Mas neste "meio"
eu quero ser inteiro.
(Beijos pra quem fica.)

Otto Leopoldo Winck
"O muro não me libertará
(sei porque sou tempo)"
Alberto Bresciani

A vida toda comendo comida feita na banha de porco, sempre falei: "Vó, a senhora vai morrer antes do tempo se não parar de comer essa gordura." Dito e feito, minha vozinha morreu cedo, aos noventa e quatro anos. JD
Nydia Bonetti

a dor molda o poeta feito um oleiro
e o barro se contorce
entre silêncios, palavras e espantos
vaso de terra
que ao sopro mínimo de vento
canta:- nervos expostos
flor da pele
Bárbara Lia

Esta angústia de um título que nunca nasce, que colide com um título que brota antes de outro livro existir: Amor tamanho único.
Uma palavra que resume o momento e o romance ganha um rosto, um motivo, um enlace, todo o enredo contido na grega palavra - Hamartía - e toda a espera dilui.
Escrever é a aventura mais misteriosa que a vida traz.
Ainda faz frio como quando a vida era fria, mas, a vida não é mais.
Ainda existe no ar os antigos ranços e as frases que cortaram a pele, rasgaram ao meio a retina do meu olho esquerdo, mas, não dói mais...
A vida é um risco, esta carência de estrela, esta noite insone que a gente leva em uma cadência de trem nos trilhos, atravessar túneis, montanhas, dar de cara com o escancarado céu, atravessar abismos, raptar flores das encostas...
Ontem chorei com a vida de uma menina com nome de flor - Miral.
Ontem pensei na mulher como esta pequena flor de beira de estrada, onde nem todo o furor poético e obra vale para uma FLIP, pois a menina envelheceu, a menina tem sessenta anos, não é musa, é só a profusa poesia que ela leva como a pipa se eleva pra ser lâmpada no céu. Ainda que o neto insista que Pipa é Pipa. Ponto final.

A vida vale, tanto... Sem Flip, sem nada que coroe os versos, pois eles são, na realidade, aquela boia atirada ao náufrago poeta. Os poemas, realmente, sempre e pra todo sempre, primeiro salvam os poetas que o geraram, salvam e levam, mar adentro, para bem mais, para além de coisas pequenas, palcos, aplausos, festivais...

walkman


lembro-me tão bem dessa canção.
eu a escutava tantas vezes,
cheguei a fazer fita cassete
inteira só com ela, os dois lados,
e não precisava gastar pilha
do meu walkman para voltar.
pensava numa certa garota
dela vinham-me sonhos, figuras
que experimento agora outra vez.
curioso é que não mais recordo
exato qual garota seria,
mas a sensação permaneceu.
talvez amasse o amor, antes dela
o que do mundo vinha e ficava
gravitando a órbita singela
que girava nos olhos magnéticos
de meu aparelho na cintura,
que, inexplicável, ainda dura.


(marcílio_godoi)
Alguém já reparou como doi a feiura, a falta de cor e de alegria dessas vans, kombis, que transportam as crianças para as escolas? Janelas tão pequenas, geralmente em tons muito escuros que na neblina de Curitiba desaparecem; alguém reparou nessa tristeza? Sei que amanhã teremos uma exposição chamada "Traços Curitibanos" no Museu Metropolitano de Arte e Cultura. Artistas da cidade mostrando arte e talento... Então, fica fácil adivinhar onde quero chegar?
E se por algum decreto municipal, estadual, federal, todo transporte de crianças fosse uma obra de arte ambulante? Já vi algo muito bonito, nesse sentido, no tempo da "Caravana da Poesia" da Secretaria da Educação de Curitiba. Que alegria subir naquele ônibus com motivos de Vinicius de Morais ( Márcia Széliga) rumo a diferentes cidades, levando literatura. A cada ano mudava o autor e o tema. Ideia que aterriza na minha cabeça é para ser jogada ao mundo.Tomara que um dia eu veja transporte escolar feito pássaro, catavento ou borboleta poetizando a dureza do asfalto.


Glória Kirinus

NOITE SEM FIM



Três horas da manhã, sem sono ainda, escrevo.
O bairro Barreirinha é silencioso,
todos dormem, mas faço o que eu acho que devo.
Aqui e ali um cachorro late furioso
para a solidão dos espaços siderais
e faz trilha sonora aos sonhos imortais.

O que este poema quer de mim agora?
Uma metáfora que todos levem fé
ou a frase de efeito especial da hora?
Arre! Tem vezes que nem eu me aguento em pé,
mas resisto e converso a sós com esses versos,
multiplicando seus milagres e universos.

Não sei se eu estou triste ou chateado apenas.
A chuva cai lá fora sugerindo choro,
mas minhas decepções reais são tão pequenas
que ao muro das lamentações não faço coro.
As pessoas são únicas, singularíssimas,
e as simples, gentis, não são exceções raríssimas.

O mundo é bom até demais pra ser verdade,
me belisco pra ver se não estou sonhando.
Não vou deixar minhas tristezas na saudade
ou minhas alegrias sem como, onde ou quando.
Abre-se a porta e ouço a cama me chamar.
“Meus carneirinhos, tenho tanto pra contar!”

antonio thadeu wojciechowski

Estavam os dois no quarto, depois do amor, num velho hotel do centro da cidade. Nus, suados, molhados um do outro. Ele com uma marca roxa no ombro direito.
-- Marcas, marcas -- ela disse, rindo. -- Agora você está marcado. Com o meu selo.
-- Pois é... Mas há várias tipos de marcas. Algumas duram dias. Outras, semanas ou meses. Tem aquelas que não desaparecem senão depois de anos. E tem outras, ainda, que nem os séculos apagarão. As primeiras são na pele. As que duram semanas, meses ou anos são na carne. As últimas são na alma.
-- E as minhas, como são? Só na pele?
-- Não, você deixou em mim marcas de todos os tipos.
[olw]

O SONHO | PARA VOCÊ NÃO ESQUECER OS TEUS SONHOS


Eu vi um sonho sentado na sala de estar
Ele não podia se levantar
Suas pernas estavam atrofiadas
Porque nunca foi levado a caminhar

Eu passei por um sonho paralisado pelo medo
Fazia o mesmo trabalho há anos
Não conseguia se enxergar arriscando
Porque nunca acreditou em si mesmo

Eu encontrei com um sonho desesperado
Porque toda a sua vida foi um engano
Ele só fez o que os outros queriam
E esqueceu-se de dar alimento a si mesmo

Eu conversei com um sonho de criança
E tudo que ele queria era brincar na chuva
Mas nunca havia se molhado
Pois os adultos não permitiam

Eu discuti com os sonhos de minhas amigas
Eles estavam guardados naquela velha gaveta
Sufocados pela poeira e falta de vida
Enquanto lá fora todos queriam que eles vivessem

Eu avistei um sonho correndo como um louco
No topo perigoso de uma montanha
E outro mergulhando no fundo do oceano
Vislumbrei, também, vários deles fazendo cursos
Desenhando, cantando, cozinhando, meditando
Eles tinham asas de cores infinitas
Seus pés estavam cheios de calos de tanto caminhar
Eles riam e choravam com a mesma vontade
E não se cansavam de tentar viver um pouco mais.

Alexandra Barcellos
http://www.amazon.com.br/Para-voc%C3%AA-esquec…/…/B00ZO775AW


(Alexandra Barcellos é uma escritora de livros infanto-juvenis e poeta paranaense. “Para você não esquecer os teus sonhos” é o seu novo livro de poesias, publicado pela editora www.amazon.com.br e lançado pela página Libertária. Revisão de Ana Sickta Pereira.)


Já fui casado, divorciado, separado, mutilado, espancado, cortado, esfaqueado, socado, humilhado, abduzido, confundido, traído, hoje sou fodido e moro longe. As marcas que trago no corpo são minha grife genuína. Me olho no espelho e me reconheço: "Vamos lá, Thadeu, de volta ao começo."

POR CONTA PRÓPRIA

como eu poderia imaginar
um dia, ia deixar o tempo passar
minhas células indo pela sombra
as pernas frouxas, nenhuma festa de arromba

como eu poderia pensar
o mundo jamais vai desaparecer no ar
minha matéria atrai matéria bruta
a rima eu sei bem quanto me custa

como vocês podem perceber
não estou aqui para pagar nem receber
a porta, minha gente, já não importa,
se a cena não agrada: CORTA!

como a vida não tem replay nem edição
aproveite os melhores momentos, viu, coração?
onde as mulheres põem óvulos
os homens são abduzidos por óvnis

antonio thadeu wojciechowski

sexta-feira, 3 de julho de 2015


acaso eu me fizer estorvo
em emaús, a estrada segue.
acaso caia a casa sobre nós
e toda a aldeia se incendeie
a estrada segue. acaso
a própria estrada vire nada
pó de poeira passada: segue.
é nosso este futuro, esta asa

nesta pedra: voa, febre.

Carlos Moreira

CONSIDERAÇÕES SOBRE AS APARÊNCIAS.


“Quem perdoa, é feliz para sempre! Quem se vinga, por um dia somente!”
tem gente que não se enxerga
tira a cabeça pra fora
se achando uma grande merda
e que engana quem a olha
escreve lá seus versinhos
de quebra, seus pés quebrados
já andam aleijadinhos
mas se achando bem rodados
das rimas, sem comentário
o pobre vate só late
pensa que me engana o otário
falsa joia sem quilate
a mim, monstro fanfarrão,
cabe dar a traulitada
vai na bunda o meu pezão
e na fuça uma rimada
mais não faço e nem me vingo
que vingança é coisa à toa
de segunda até domingo
feliz sempre é quem perdoa!

antonio thadeu wojciechowski

as horas
travar o ar
suspender o tempo
varrer o tique taque
a exasperação da vida
que corre fluída
em agonia, sempre
suspender o ar
o tique taque da agonia
varrer o “sempre”
só acordes rítmicos
ciranda sonora
(tua voz)
e a hora
a doce hora
a esperada hora

Bárbara Lia
Estou pensando seriamente em entrar na politica, mas desde já falo, vou desviar verbas: verbas extraordinárias, de viagens, do gabinete, das assessoras( amantes). Vai tudo para um projeto pessoal, vou legislar em causa própria da arte: Oficinas de literatura, aulas de musica, pintura, dança e teatro nos colégios públicos.O dinheiro será lavado com inclusão social pela arte! Se me pegarem, foda-se! Serei condenado e preso, ótimo! Não terei dinheiro para um bom advogado.... Vou montar uma puta biblioteca, espero ter doações dos colegas escritores, aí aproveito e coloco em pratica um projeto antigo, ministrar oficinas de contos no presidio: Liberdade através da imaginação.

JD

A maioridade é uma pena.
A maioridade é uma pena.
Viva assim esse dilema,
de quem não percebe que o problema
não é exibido no Datena.
Velho branco engravatado
lucrando com o enjaulado,
criando verba para o privado,
de cuidados que são do Estado.
Mas lá no alto,
Do seu cargo comissionado.
Meritocracia é um ato,
que só serve para enfiar no rabo.
Filhos de Eikes são julgados
e prestam serviços comunitários.
Enquanto pobre favelado
faz da cela um aprendizado.
Formalização do roubo,
o comércio rola solto.
Politica do outro.
Ouro de tolo.
Ponta de vanguarda Neoliberal,
Nova área de negócios da lógica empresarial.
De algo que o lucro não deveria ser em real.
Pois é atendimento ao social.
Propaganda é a alma do negócio,
De um negócio que não tem alma.
Fazem crer que você é sócio,
mas só é a base dessa fauna.
O preço dessa mercadoria é alto,
O valor se torna baixo.
E no final o cheque é pago,
Pelo segmento no qual me encaixo.
Investimento público,
Lucro privado.
Você é súdito,
E deixado de lado.
Sensação de impunidade,
Impotência.
Protegidos pela imunidade,
Onde está a coerência?
Enquanto isso,
Você assiste passivo,
Permissivo e omisso,
O legado dos ricos.
Mandatos não cumpridos,
Habeas corpus de interesses.
Judiciário corrompido,
Roubam fazendo preces.
O povo espera sua sentença,
Querendo recompensa.
Raciocina e pensa,
como acreditar que crime não compensa?

Wiliam de Oliveira



Peguem meus versos e matem a pauladas
sujem em fluídos de todas as mortes,
deixem aos pedaços pingando dos cortes,
e enterrem as artes, não servem pra nada.
Joguem no lixo da Terra acabada,
cacem minha alma em covardes esportes,
juntem com a noite da velha má-sorte,
chutem os poetas das altas escadas.
Aplausos à arte são risos mentidos,
e todo artista que se acha mui útil
já vê seu vasto nas ruas cuspido.
Homens só louvam imbecis, o que é fútil,
o verme e a merda. Tudo ânsia perdido:

teu ato morto de um sonho que é infértil.

Al Reiffer

O MISTÉRIO DA VIDA


Foi na praia. Uma lua enorme
nascia dentre as ondas negras.
O vento trazia o teu cheiro
junto aos teus cabelos
e a areia, sob os nossos pés descalços,
registrava um itinerário de fugas
e espantos. Não havia dúvidas nem certezas: o próprio medo
era feito de esperança. Se eu acreditasse em Deus, exclamaria:
a terra onde pisam as palmas de meus pés é santa.
De repente, as estrelas todas
caíram do céu e nas rudes canoas dos pescadores
o mistério da vida se refez: a areia, as algas, a noite, o brilho do farol
se fundiram numa concha branca
que eu recolhi na concha de minhas mãos em prece.
Admirei suas nervuras. Provei de seu mel,
bebi de seu vinho, surpreso de não haver desfalecido.
(A lua se erguera feito um estandarte de paz
e, na areia clara, nossas sombras azuis
lacraram um testemunho: perfeito na humanidade, perfeito na divindade,
conforme o augusto Concílio.)
Depois foi a escuridão, o precipício. E a convicção:
quando eu morrer – numa sexta-feira às três em ponto da tarde –
estarei pensando em você.
Otto Leopoldo Winck

De Olho: Embriagado


Conheci Junkies on the rocks
Que tristes pareciam
Na meia-noite do mundo
Sem música e poesia
Trash on the street
E pó de nostalgia
Andei mil lábios e nem desfaleci
E quando de olhos abertos
O mundo parecendo certo
Mostrou-me o sangue, o fogo e a flor
De pronto era Alice e o país das maravilhas
Não passava e eu nem sabia
De um conto de fados
E uma cama para sempre vazia
Na última sessão de fotos
Um flash dilacerou
Meu coração cansado
Conheci Junkies on the rocks
Em ruas que não eram minhas
Em dias que me caçavam
De volta às mesmas esquinas
Quando a lua já desistia
De iluminar sagas ensandecidas
Hoje molho no pão vosso de cada dia
Minha pena de securas estarrecidas
Meu olho quase morto onze da manhã
E alguém à espreita da minha fugitiva vida
Um amor verso a verso retalhando
Minha dor na qual ninguém mais acredita
E os maus mal parando em pé
Numa solidão de viés quase comprometida
Conheci sweet and darkness
Far away my heart em plena descida
E ruas de um gosto de sal
Que o sol petrificou pra toda vida
Andando só e mal acompanhado
Quién supo hallar mi corazón alado?
Será que alguém se esqueceu mesmo de mim, depois de algum tempo haver lembrado?
Ou quem sabe aqui nos versos
Só e de Olho: embriagado
Posso dizer da vida seus mil lábios
Com línguas de fel e equívocos nos armários

Julio Urrutiaga Almada, do livro o amor é um precipício do cão
eu vou deixar a tua carne fria
se a dura solidão do teu encanto
somente me quiser como poesia."

RR

● nem os olhos meu senhor ●
● ali onde se erguem macieiras silvestres ●
● q se realizarão nas nossas tortas ●
● no fundo o senhor compreende ●
● não so o bom gosto e a finura das maçãs ●
● mas o pouco de raspas de canela negra ●
● sem isso sem as raspas meu senhor ●
● nossas tortas não valeriam nada ●
● nem teriam esse odor de terra velha ●
● esse mesmo meu senhor ●
● q todo fim de tarde e noites nos alegra ●
● porq parece q respiramos a vida ●
● assim o corpo os dedos e os olhos ●
● tudo isso do corpo meu senhor ●
● se alegra e reverencia a estepe ●
● depois sabemos todos o q sera ●
● não somente de nos mas da terra ●
● dela e de todas as suas macieiras ●
● porisso meu senhor venha descansar ●
● com uma fatia das nossas tortas ●
● sentindo a terra e as maças ●
● olhando pela vidraça as macieiras ●
● essa coisa imensa q nos invade ●
● so assim sabera bem o q é devido ●
● depois meu senhor sabemos ●
● q virão as armadilhas pros lobos ●
● vira sangue molhando a terra ●
● assim meu senhor sabemos ●
● q as macieiras se tornam acidas ●
● as maçãs gozam antes das tortas ●
● nem mesmo as raspas de canela ●
● sabem salvar a terra sonhando ●
● e as tortas são esse espirito ●
● no fundo o senhor compreende ●
● q lobos não podem ser sangrados ●
● e tortas não podem desaparecer ●
● não podemos ficar expostos ●
● a esse infinito espaço noturno ●
● sem nossas tortas e nossos lobos ●
● os cães começarão a uivar pra nada ●
● com esse berro todo e tão selvagem ●
● q não saberemos mais o q fazer ●
● isso tudo no limite das forças ●
● nos deixara amordaçados e a fome ●
● sabera o q fazer meu senhor ●
● aceitamos tudo sempre em silencio ●
● agora esse silencio é grande demais ●
● tão grande q nada podemos fazer ●


*Alberto Lins Caldas 
Veio cheia a lua
e abraçou-me na varanda.
Esqueci o frio.


a.a.de assis

por braços - essas armadilhas - em flores


por braços - essas armadilhas - em flores
- enquanto observa as mesuras entre os restos de cicuta e os talos abstratos de abrasivos, anti-histamínicos, insulfilm - testemunha de fotografias, as palavras - da rainha - não se regurgitam... enquanto espera em tinta o anticorrosivo diluir das cascas as feridas, das carapaças a quitina, das armadilhas as maravilhas -de-forquilhas, completa mais um cadinho com estricnina: - é um processo abortivo de rotinas, por sentimentos que não se concretizam ...
e então, transborda a guerrilha pela fé em superfície, pela planta-bandarilha de seus pés, em retinas aluadas... por braços - essas armadilhas - em flores- tatuadas - por seu amor ...


 Adriana Zapparoli