domingo, 13 de março de 2016

sábado, 12 de março de 2016

Chuva branda

Chuva branda
escorre na vidraça
e o enfado suave
desse movimento
me lembra mulher
adormecida clara linda
que também se move
querendo retornar
do abismo
do sono intocável,
do silêncio da noite
que ainda faz
no quarto imenso.
Da rua chegam
os avisos tímidos
da roxa cinza chumbo
aurora de figuras fugidias.
Corpo de mulher
nem santa nem devassa,
apenas comum,
seminua imagem
desvanecida se apagando
junto às últimas luzes.
Em outra manhã
de outro mundo
minha poesia acorda
amarrotada feito lençol
e transforma em luz
pássaros que abandonam
seus cabelos
e descobrem o sol.
*
André Giusti, 1991

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Morte do Cachorro Threo



Depois do gato Bóris que sumiu no breu
Mais um bicho-lenda, de Curitiba, faleceu
Partiu para o paraíso, o cachorro Threo
Agora, ele é guardião do mais puro céu

Este cão trabalhador e muito especial
Trabalhava na Guarda Municipal
Ele visitava crianças doentes em hospitais
Levando os pequenos para outros astrais

Este meigo e doce cachorro farejador
Representava o mais divino amor

Porém assim como o gato Bóris elegante
Threo morreu de ataque cardíaco fulminante
Hoje, no céu, ele é mais uma estrela cintilante.

Luciana do Rocio Mallon

Lenda da Lebre Disciplinadora da Páscoa


O causo da lebre disciplinadora pascoal é comum no interior de Santa Catarina. Pois ela representa o lado obscuro do Coelhinho da Páscoa. Reza a lenda que a lebre observa as crianças que são travessas. Deste jeito, no domingo pascoal, em vez de chocolates ela dá castigos para os desobedientes. Como exemplos: arrancar os dentes da frente de uma criança que não quer escova-los.
A maioria das pessoas conhece o Coelhinho da Páscoa, que veio da tradição Alemã. Reza a lenda que, naquele país, uma mulher pobre coloriu ovos de galinhas e os escondeu no mato para dar aos filhos. Então na hora da brincadeira de achar os ovinhos, passou um coelho bem no momento em que as crianças encontraram a surpresa. Assim o orelhudo ficou com fama de colocar ovos de Páscoa. Mas dizem que debaixo da sombra de uma árvore havia uma lebre escura observando o comportamento das crianças.
Uma vez a minha vó Lena, morada de uma região rural chamada Butiá do Lajeado, localizada na cidade de Mafra em Santa Catarina, contou-me o seguinte causo:
Há muitos anos, num lugar chamado Butiá de Santa Rita, existia um moleque chamado Quincas que não gostava de escovar os dentes. Um dia sua mãe disse:
- Se você não quer escovar os dentes, a lebre disciplinadora vai arranca-los no domingo de Páscoa em vez do coelhinho dar chocolates.
Desta maneira, no domingo de Páscoa daquele ano, Quincas levantou-se e olhou debaixo da sua cama. Porém ninguém tinha colocado chocolate na sua cesta. Quando este garoto foi lavar o rosto, se olhou no espelho e viu que estava sem os dentes da frente. Deste jeito, o menino começou a chorar e sua família afirmou que aquilo tinha sido obra da Lebre Disciplinadora da Páscoa.
Naquela região não havia dentista, mas tinha um barbeiro que entedia de dentes. Por isto, a mãe de Quincas, levou o seu filho para ser atendido por este homem. Lá o barbeiro explicou que, no fundo, foram os dois dentes-de-leite da frente que caíram ao mesmo tempo. Porém, para que novos dentes nascessem, este rapaz pediu que o menino passasse a escovar a sua boca depois das refeições e jogasse duas pedrinhas brancas no telhado, falando a seguinte frase:
- Coelhinho, coelhão...                                                                  
- Traga-me um dente bem bonitão
- Minha disciplinadora lebre,
- Traga-me dois dentes breve.

Luciana do Rocio Mallon

O ENTERRO DO LOBO BRANCO

"Eu perseguia obcecado o seu corpo e você obcecada exigia meus enforcamentos como se fosse minha obrigação te ressuscitar do marasmo do tédio e da infelicidade diária minhas fodas não bastavam também tinham virado parte da monotonia apenas a força das minhas mãos no seu pescoço poderia te salvar poderia romper a carne as cartilagens a traqueia o oco e arrancar uma nova epilepsia uma nova língua um novo dialeto para em minutos você descobrir que também essa novidade não servia para nada" 
Marcia Barbieri

Lenda da Cigana do Pirogue


Na Idade Antiga, alguns ciganos montaram acampamento no Leste Europeu, entre eles estava a cigana Anielska, que era uma excelente cozinheira. Então ela resolveu passear por uma vila. No meio do caminho, esta donzela encontrou uma moça grávida, que tinha uma certa deficiência neurológica, e que chorava sem parar. Então Anielska perguntou:
- Moça, por que está chorando?
A gestante respondeu:
- Porque estou com desejo de comer a Lua crescente. Além disto, minha mãe me enganou ontem. Pois ela cortou o queijo em formato de meia-lua e falou que era o satélite natural. Porém quando eu comi este alimento, a Lua continuou no céu.
Deste jeito a cigana disse:
- Por favor, sossegue que eu trarei a Lua para você saborear. Então fique quieta aí, que eu já volto.
Assim Anielska voltou para seu acampamento e resolveu cozinhar um enorme pirogue, que é um pastel em forma de meia-lua. Desta maneira, ela trouxe o alimento até a grávida e exclamou:
- Aqui está a Lua para você!
Como era uma noite de eclipse lunar, a grávida olhou para o céu e como não viu nada, acreditou em Anielska.
Reza a lenda que a cigana Anielska é a protetora das gestantes que possuem desejos de comer alimentos inusitados. Por isto, quando uma grávida sente vontade de se alimentar com uma comida difícil de encontrar, basta orar para Anielska que a família da gestante consegue achar o alimento tão desejado.

Luciana do Rocio Mallon

Lenda do Bairro Cajuru de Curitiba


Na época do Brasil Colônia, num bairro de Curitiba que hoje se chama Cajuru, existia uma tribo indígena. Como guardiã desta aldeia havia uma planta carnívora gigante que ficava na boca da mata. Este vegetal tinha o apelido de Cajuru que significa boca da mata em tupi-guarani.
Naquela tribo vivia uma índia chamada Jussara, que sonhava em ter filhos, porém não conseguia. Ela chegou a implorar para que Tupã realizasse o seu sonho, mas não teve o seu pedido atendido. Até que um dia, esta moça foi chorar perto da planta carnívora, que ao ver o desespero da moça, perguntou-lhe:
- Por que está chorando?
Jussara respondeu:            
- Porque não consigo ter filhos.
A planta explicou:
Sou um vegetal mágico e posso realizar o seu desejo. Se você colocar sete pássaros dentro da minha boca durante sete dias, você conseguirá engravidar. Mas tem uma condição: terá que colocar o nome do seu bebê de Cajuru em minha homenagem.
A mulher conseguiu cumprir o prometido e quando sua filha nasceu colocou o nome de Cajuru. Porém, no mesmo dia, a planta carnívora morreu e deixou de proteger a aldeia que foi atacada por uma tribo inimiga. Porém Jussara e sua menina sobreviveram.
Cajuru cresceu, mas morreu aos quinze anos de causas não reveladas. Porém reza a lenda que esta índia quando chegou ao céu viu a planta carnívora, que era guardiã do seu povo. Então este vegetal disse-lhe:
- Minha donzela, um dia eu tive o mesmo nome que você e de alguma forma somos parecidas. Você deverá voltar ao mundo em forma de espírito e tomar conta da terra que, um dia, já foi da sua tribo. Aquele lugar se transformará num bairro chamado Cajuru. Porém seu fantasma sempre aparecerá nas noites de luar, por lá, com o objetivo de proteger os moradores.

Luciana do Rocio Mallon

ORATÓRIO


O homem que nunca existiu mora num sobrado
do início do século 19,
com sacadas e uma escadaria em curva,
e, no oratório, costuma rezar o rosário de buirás.
Enquanto, na manhã de chuva, observa pelas venezianas
os acantos no talude ao longo das arcadas,
o homem que nunca existiu conclui que um artista maduro
é aquele que sabe da futilidade de suas conquistas
e de sua busca.
O homem que nunca existiu cansa de observar os acantos,
antes prefere o consolo de dois pensamentos:
1. O solo com muito esterco produz uma colheita abundante,
pois a água que é demasiada clara não tem peixe.
2. A prosa é a poesia que a poesia não é:
em tudo uma vaga esperança vive,
mas não mais do que vivem as inscrições nos túmulos.

Texto  de Fernando José Karl

Invisibilidade

Caró Lago

Não só essas meninas de rua são invisíveis
como também são as paredes
da casa delas
na calçada
desenham planta baixa no asfalto
esperam que entendam o seu abstrato
projetam uma porta
no corpo, livre e aberto
sonham com grades torcidas em flor
devaneio de evitar uso capião
em suas bolsas imaginárias
cabe um mundo
batom, grampo, navalha,
absurdos
e a violência
por ser a mais transparente
acaba aparecendo muito


Livros Em Vez de Ovos de Páscoa



Dê livros em vez de ovos de Páscoa
Pois leitura também é renascimento
Isto não causará tristeza e nem mágoa
Ao contrário, trará um novo sentimento

Os ovos de Páscoa estão mais pela hora da morte
Do que pela sagrada ressurreição no terceiro dia!
Quem ganha um livro tem a mais pura sorte
Seja a obra em prosa, ou, em poesia!

Ovos de chocolate engordam e são, puramente, comerciais
Já os livros são instrutivos e levam os seres a outros astrais
Não existe algo mais recheado de doçura
Como uma excelente e mágica leitura!

Ovos de Páscoa desaparecem no estômago
Já, os livros permanecem na leve eternidade
No fundo espírito, dentro do mais puro âmago
Pois nas letras existem amor e felicidade.
Luciana do Rocio Mallon


NIAMH INCLINA-SE SUSPIRANDO JUNTO A OISIN


Com rajadas de música no peito escutar que Niamh inclina-se
suspirando junto a Oisin deitada na cama de relva
e o que escuta Oisin do suspiro de Niamh?
escuta que todo aquele que respira
molha a língua em sopros
escuta que
vamos entrando
tão sós
na morte
escuta que dói a carne arrancada do nada
e que para o nada retorna
mas cheia de candentes escrituras

Fernando José Karl


SEGURO

Ninguém pode viver numa canção
como no útero protegido da mãe.
Uma hora vai sair,
a canção tem que acabar.

Há músicas dissonantes e inacabadas,
partituras para executar o silêncio,
baquetas quebradas,
cordas rompidas.

Sobra a melodia da fala,
linear e rala.

Ninguém,
se alguém não for assim,
me diga.
Ninguém fez seguro
contra infelicidade.


 poeta gaúcho Ricardo Silvestrin  ,em mallarmargens 

Lenda da Cigana Miltônia Brutips


Na Idade Média havia um cigano chamado Florindo, que gostava de cultivar flores e amava dançar com uma rosa entre os lábios. Ele era viúvo e tinha uma filha de dois anos de idade chamada Miltônia Brutips.
Um certo dia, a caravana deste cigano montou acampamento numa vila da Espanha. Então, à noite, os ciganos se apresentaram na aldeia com música, dança e artesanato. Mas uma rainha má observava tudo, junto com o mago Oski, da janela do seu castelo. Então esta nobre se apaixonou por Florindo e mandou traze-lo até o palácio. Quando o rapaz chegou, a rainha disse:
- Parabéns pela dança!                                 
- Além de bailar, o que você gosta de fazer?
O rapaz respondeu:
- Amo cultivar flores e meu sonho sempre foi ser jardineiro.
Assim a nobre falou:
- Então você será meu amante e jardineiro deste castelo.
O rapaz explicou:
- Desculpe, mas não posso aceitar. Pois tenho compromisso com o meu povo e uma filha para criar.
A mulher má exclamou:
- Se você não aceitar, o mago Oksi jogará um feitiço tão grande que acabará com o seu povo. Afinal, acredito que você já conheça a fama deste meu mago poderoso.
Florindo, com medo, respondeu:
- Sim!
- Então, eu aceito.
O rapaz deixou seu povo e Miltônia para trás. Assim tornou-se jardineiro e namorado da rainha. Mas todas as noites ele rezava para que Santa Sara trouxesse sua filha de volta.
Dez anos se passaram e, um certo dia, a rainha falou:
- Florindo, arrumei uma nova empregada para ajudar-lhe com as plantas. Ela é uma jovem menina de doze anos e chama-se Miltônia.
Ao escutar aquele nome, o coração do cigano disparou. Por isto, ao olhar para sua nova companheira de trabalho, ele precisou conter as lágrimas. Com o passar do tempo, os dois passaram a conversar e a garota confessou que foi criada num acampamento cigano, mas que várias pessoas do seu povo morreram quando foram atacadas por saqueadores no meio da estrada.
Miltônia, também, fazia sucesso no palácio dançando Flamenco. Até que um dia, ela foi convidada para trabalhar na cozinha e passou a ser a confeiteira preferida da rainha.
Porém Márcia, a cozinheira rival, ficou com inveja desta adolescente e medo de perder o emprego. Por isto, matou Miltônia e enterrou o corpo no jardim. Depois a assassina forjou uma carta de despedida da colega afirmando que ela tinha fugido com um rapaz. Mas Florindo ao ler a missiva, notou que era tudo mentira e, também, que havia algo estranho.
O tempo passou e onde Miltônia foi enterrada surgiu uma orquídea. Desta maneira quando Florindo se aproximou, levou um susto. Pois as pétalas da flor pareciam um vestido de Flamenco e por dentro havia uma boneca, feita do próprio vegetal, com as formas e o rosto de sua filha. De repente, a flor falou:
- Eu sou Miltônia Brutpis e meu corpo está enterrado embaixo desta mesma planta.
Deste jeito, Florindo pegou uma pá e encontrou o corpo da filha que estava mumificado. Depois disto, ele batizou a orquídea com o mesma nome da menina morta.
Realmente existe uma flor chamada Miltônia Brutips que tem o formato de uma dançarina de Flamenco.

Luciana do Rocio Mallon
O amor não está na estrela
que, ao cair, carrega o pedido sussurrado,
está no olhar que a percebe e espera.
O amor não está nas cartas
lançadas sobre mesas postas,
está na tensão de quem as ouve e deseja.
Búzios, números e datas
não contém o amor,
ele não está numa procura.
Rezas, promessas e velas
não trazem o amor,
só a esperança de encontrá-lo.
Mas, ninguém encontra o amor,
ele é(misteriosamente) despertado...
num momento de distração e abandono.


Nívea Maria Vasconcellos (1980) poeta baiana, é professora e mestre em literatura e diversidade cultural. 

para ler mais mais  clique no link:

http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=46909

Desabafo do Pirilampo


Sou um vaga-lume e sinto-me aliviado porque, hoje em dia, os seres humanos estão caçando os focos do mosquito da dengue. Pois nos séculos anteriores os homens corriam atrás dos meus luminosos focos. Inclusive, tinha até uma brincadeira onde as crianças pegavam pirilampos, colocavam os pobres em vidros, para que eles se transformassem em lanternas vivas.
Os meus focos sempre foram inocentes brilhos e luzes. Agora, os do mosquito da dengue são muito perigosos.

Luciana do Rocio Mallon

O poeta , escritor e promotor cultural Ricardo Pozzo


A harpa


Prende, arrebata, enleva, atrai, consola
a harpa tangida por convulsos dedos,
vivem nela mistérios e segredos,
é “berceuse”, é balada, é barcarola.
Harmonia nervosa que desola,
vento noturno dentre os arvoredos
a erguer fantasmas e secretos medos,
nas suas cordas um soluço rola...
Tu’alma é como esta harpa peregrina,
que tem sabor de música divina
e só pelos eleitos é tangida.
Harpa dos céus que pelos céus murmura
e que enche os céus da música mais pura,
como de uma saudade indefinida.
- Cruz e Sousa, do livro "Últimos sonetos", 1905.

.

sexta-feira, 11 de março de 2016

De mentira



“Creíamos que éramos país pero solo somos paisaje”.
Nicanor Parra


País ou paisagem?
Quem nos questiona
na cor violeta
do antipoema
está aí para ver
aceso e centenário
o que se faz ao continente.
Empunhamos bandeiras
com tvs de plasma
saudando invasores
sem dúvida humanos
que nos arregaçam
com pauladas de microfone
e muitos modos profissionais
de distrair nossa insônia.
Mitigados por diferenças
chanceladas a dólar
sufocados, embaixo do tapete
estamos nós, não a sujeira
desenhando um mapa obsceno
bula de remédio ou corpo pornográfico
impenetrável, cabal, fálico.
Duas centenas
de milhões de hectares
de embotados pesos
sem nenhuma leveza
sem nenhuma medida.

Roberta Tostes Daniel

domingo, 6 de março de 2016

da série: breves poemas em tempos de revolução
acendo um cigarro
eu e o gato olhamos
pela janela e bebo aquela
que matou o guarda belo
penso se o gato morrerá
de câncer ou outra querela
enquanto isso a grama cresce
e o sol emudece meus olhos
o gato mia a pia pinga e aprendo

a espreguiçar meus ossos

william teca.tecatatau
A  rotina e os novos desafios vão construindo muros ,ruelas , jogando luzes sobre esta ou aquela ilha de nossas vidas que pensamos ser continentes e vamos a tropeçar , entretidos seguimos até não nos lembrarmos mais de onde saímos ou como fomos parar dentro daquela nova terra que nos suga aos poucos enquanto o destino nos vê através como numa ampulheta onde nós somos uma formiga.

Wilson Roberto Nogueira
O anteontem - não do tempo mas de mim -
Sorri sem jeito
E fica nos arredores do que vai acontecer
Como menino que pela primeira vez põe calça comprida.
Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,
Trata-se de substituir o lado pelo centro.
O que é da pedra também pode ser do ar.
O que é da caveira pertence ao corpo;
Não se trata de ser ou não ser,
Trata-se de ser e não ser.


[Murilo Mendes]

Bom chegar em casa e encontrar tanta coisa boa: na praça Santos Andrade, um casal passeia com os cachorros como se nada mais existisse. A Rua São Francisco encarna sua vocação tardia para o vapor barato. Na viagem de volta, no avião, li um ensaio de Paulo Henriques Britto sobre a poesia de Claudia Roquette-Pinto. Opúsculo que encontrei na Livraria Travessa, no Centro Cultural Banco do Brasil. Comprei mais outros 3 livrinhos lá que jamais encontraria em nem um outro lugar (exagero de peregrina). Trouxe um CD de canto gregoriano, e tenho um livrinho me esperando, "Pele e osso", de Neuzza Pinheiro. Amanhã o trampo começa cedo. Mas fiquei feliz por me dar este fim de semana cheio de luz de presente. Quem sente, pressente. Quem não, ladra na caravana de cães.



 Marilia Kubota

Atenção

Atenção
-
Preste atenção!
Poesia pode ser feita:
Com tinta,
Água,
E sabão,
Com açúcar,
Sal,
E limão,
Com rima,
Sem rima,
No chão,
É só prestar atenção:
E não ficar rimando com ão...
Que fica chato.
-

Radyr Gonçalves

Lenda do Ovo de Colher na Páscoa


A partir do ano de 2004, a moda do ovo de chocolate de colher explodiu na Páscoa, aqui no Brasil. Mas o que muitas pessoas não sabem é que, segundo alguns estudiosos, o primeiro exemplar de uma guloseima destas foi criado na França, por Luiz XIV, o Rei Sol.
Reza a lenda que muito antes do ovo de chocolate e o coelho virarem símbolos da Páscoa, Luiz XIV já fazia comemorações com estes elementos. Pois, todo o domingo pascoal, este nobre recebia crianças carentes no jardim com brincadeiras. Em um destes jogos, o próprio rei se fantasiava de coelho mascarado e saia correndo, com ovos embrulhados nas mãos, atrás das crianças como uma brincadeira de pega-pega. Porém, uma vez, Luiz XIV escorregou e quebrou o último dos ovos que seria para uma garota pobre. Porém uma das cascas permaneceu intacta nas mãos do rei. Este nobre, ao ver a cara triste da menina, correu com esta casca e foi até a cozinha. Lá ele colocou frutas dentro da casca, com uma colher, e ofereceu à garota, que ficou feliz. Deste jeito, nasceu ovo de colher. Porém sua tradição desapareceu com o tempo. Mas, em 2004, renasceu das cinzas para ficar.
Reza a lenda que se uma pessoa comer um ovo de colher depois do sábado de aleluia, na meia–noite da entrada do domingo pascoal, ela terá seu pedido atendido.


Luciana do Rocio Mallon
A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que não se misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data.

[Guimarães Rosa]

ALFORRIA


Depois de uma tremenda briga
Depois de muito choro
E do apagar das velas
E do bater da porta
E do som de teus passos apagados
Na calçada da rua escura
E de não dizer se voltaria
Afaguei a beira do abismo
E fiquei abraçando a saudade
Lembrando o casal perfeito
Lembrando a bela que virou fera
E já nem sei mais quem tu és
E sem você não sei quem sou eu
Nem sei se quero esquecer que tu eras a rainha
E que eu simplesmente o Romeu
Sei que a vida é caminho único
E sem você perdi o riso
E perderei o tino
E prumo da vida
E se perder a esperança
Não sei como vou viver
Sem você.

Josmar Divino Ferreira

O SENHOR DO FACEBOOK

O senhor do facebook
é um rapaz nota mil,
é bonito e cheio de planos,
veja a foto do perfil
quando ele tinha 18 anos,
ainda vestindo beca
(naquele tempo ele não era careca).
O senhor do facebook
diz que corre a maratona,
é musculoso e troncudo,
curte Criolo e Madonna,
é personal trainer, sabe tudo
(naquele tempo ele não era barrigudo).
O senhor do facebook
joga charme, mostra listas,
diz ser solteiro, independente,
mostra fotos das conquistas,
é um garotão permanente
(naquele tempo ele não era impotente)
O senhor do facebook
hoje vive do passado,
se esparrama nas mazelas,
engana a si mesmo, o coitado,
chama as moças de donzelas,
mentir é seu melhor truque
(naquele tempo não existia facebook).

Luiz  Coelho Medina

BRILHANTE

Clara é a manhã
tanto feito tarde
o sol bege claro
entre o algodão
novo de nuvens
e de chumaço
em chumaço
entrecorta este
quase meio-dia.
Clara é a manhã.
Brilhante é a poesia.


 Marlos Degani‎ . Vidráguas

‎

CARAMANCHÃO CELESTIAL!

Um dos lugares mais lindos do terreiro que minha avó tinha na casa onde morava, ficava logo após a entrada pelo portão da frente. A porta principal de acesso era na lateral, pois o desnível da casa para a calçada era enorme, e a parede rente à calçada não permitia ter-se uma escada de acesso pela frente. Tinha uma porta, que era mantida sempre trancada, pois se alguém resolvesse sair por ali, cairia de uma altura de uns dois metros. Ainda bem que não havia “torrado” algum que frequentava aquela casa.
Como já contei, meu avô era marceneiro e fez um caramanchão de imbuia, com vigas e vigotes muito reforçados e tratados contra todo o tipo de bichos, e também impermeabilizado contra o ataque das chuvas. Era bem largo e comprido: três metros de largura, oito metros de comprimento e três metros de altura. A escolha da trepadeira que ali seria plantada, bem como a quantidade, espaçamento, cor, umidade, adubos, poda e todos os demais detalhes passaram então, depois da entrega da obra, para os cuidados da minha avó Alzira.
Não sei como foi no início do plantio, pois ainda não era nem projeto de gente. Quando nasci, já existia a trepadeira cobrindo toda a extensão do caramanchão, fazendo com que o sol, por mais forte que fosse não acabasse com a sombra sob o caramanchão, que era total. A claridade entrava pelas laterais, que eram mais rarefeitas, causando uma sensação excelente de iluminação indireta. Nossos olhos eram poupados da incidência direta dos raios solares. Parecia que se ia entrar no “túnel do tempo”.
A flor que minha avó escolheu era a glicínia, mas isto eu só fui aprender muitos anos mais tarde, quando tinha bem mais idade. As glicínias eram azuis, em tonalidades que variavam entre claras, médias e escuras, as quais pareciam cachos de uva que se sobrepunham, formando um paredão de flores. Nem a pessoa de mais bom gosto e cuidado que existisse em todo o planeta, seria capaz de uma perfeição daquele empilhamento em que elas estavam dispostas. Ninguém ousava tocar naquelas flores, mas eu imagino que mesmo que você tirasse 50% delas, desde que bem distribuídos os cortes, ainda manteria a beleza e aquela sombra deliciosa.
A sensação que quem entrava nesta casa tinha, era que estava sendo saudado pela coisa mais preciosa que meus avós tinham. A delicadeza como os anfitriões recebiam os visitantes e familiares, criava um clima de harmonia e paz. Meu avô era muito cortês, mas muito quieto, ao contrário de minha avó que era muito falante.

Aquela era uma casa que parecia ter sido abençoada por um ser superior, que teve todo o cuidado para criar um “caramanchão celestial e dado de presente para todos aqueles que entravam e saiam daquele lar abençoado.

(Lauro Volaco)
COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"

FORTUNA


A história é longa
E a pressa é rasa
Vez ou outra
Tudo cabe dentro
De uma taça
Desde o horizonte se despedindo
Até o calor extinto em brasa
Quando o cair é o levantar
Embriagar-se não é opção
É a fortuna que te abraça

[Francielly Caroba]

Mar de Búzios


vaza sob meus pés um rio das ostras
e as minha mãos em conchas
passeiam o mangue dos teus seios
e provocam o fluxo do teu sangue
os caranguejos olham admirados
a volúpia dos teus cios
quando me entregas o que traz
por entre as praias
e permites desatar
todos os nós do teu umbigo
transbordando mar de búzios
- oceanos
atlântico pulsar entre dois corpos
que se descobrem peixes
e mergulham profundezas
qualquer que seja a hora
em que se beijam num pontal
em comunhão total com a natureza

arturgomes

https://www.facebook.com/309148895931842/videos/501442970035766/?pnref=story
FULINAIMAGEM - A Poesia Proibida de Artur Gomes

CARONA EMPOEIRADA

O Colégio Santa Cruz, de Castro, era famoso por sua disciplina e pela qualidade de ensino que oferecia aos alunos, tanto que vinha gente de todos os lugares do Paraná e até de outros estados para ali estudar. Muitos piraienses lá estudaram, entre eles o Antoninho Fanchin, o Telô, o Arizinho Linhares, o Paulinho Gióstri, o Ari Fanchin, de Jaguariaíva, o Zé Marcio Peixoto de Jacarezinho e muitos outros. Levantávamos por volta de 6 horas. A primeira coisa que fazíamos era ir até a Capela, onde quase todos os dias tinha a Santa Missa. Às 7 íamos para o refeitório tomar café e logo em seguida para as aulas. Ao meio dia era servido o almoço. Tínhamos em torno de 3 horas de lazer, sempre acompanhados pelos “vigilantes”. Normalmente íamos até o campo de futebol do Caramuru, na Ronda, onde fazíamos uma partida. Mais ou menos 4 horas da tarde nos recolhíamos na sala de estudo e de lá saímos para o jantar. Após o jantar mais uma hora de lazer e depois novamente estudo e cama. Eu era interno e quase não tinha folga aos Domingos, pois sempre tinha a Missa, aulas de religião e sessões de estudo das matérias do ginásio. Uma ocasião consegui licença para visitar meus pais em Pirai. O trem da manhã já tinha passado e o da tarde demoraria demais. Fui a pé até a saída para estrada do cerne, na esperança de conseguir alguma carona. Aquele tempo era comum carona, não havia assaltos e todos se conheciam. Lá estava eu quando o Edi Volaco parou, ao meu sinal. Ele era conhecido do meu pai e perguntou se queria carona. A cabine estava lotada e sobrava um lugarzinho na carroceria. Não tive dúvida, topei a parada, pois pretendia chegar em Pirai ainda de dia. Quando lá cheguei agradeci ao Edi e fui para casa tomar um banho, pois estava inteiramente coberto pela poeira vermelha da estrada.

(Luiz Fanchin Jr)

COLETÂNEA DE CAUSOS, CRÔNICAS E POEMAS "PIRAÍ DE ANTIGAMENTE"

dadaísta


dou a quem eu quiser
e roubo de quem tem
para me dar
não sou de dizer amém
muito menos de me culpar
eu dou a quem eu quiser
e roubo de quem
tem para me dar
o desejo muito além
do além mar
todo beijo
que uma boca
sabe dar

Gigi Mocidade

sábado, 5 de março de 2016

sapato velho
bota língua de fora

come fora de hora

Marilia Kubota
não se meta em fria
entrar em geladeira

é uma lenta agonia
Marilia Kubota

tempestades em cuspe d´água


todo sacana
quer ser bacana

é só afim de grana

Marilia Kubota

Caminante


Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.


Antonio Machado
se a lua mingua
o sol se vinga

queimando a língua
Marilia Kubota

Ressurgências


Gorjeia o pássaro na manhã,
e com o seu acalanto encanta
o mais próximo dos pecadores;
canta sua natureza sem culpas
neste império de mistérios e dores.
Quem o ouve olha em volta
e o busca na imensidão dos tempos:
cede o instante de perduração
e a memória em triunfo
torna a morte uma crise inútil.
Em vão é o pensamento -
o pássaro na manhã evade-se.


- Rosalvo Acioli Júnior, em "Inventário de cinzas". Rio de Janeiro: Editora Íbis Libris, 2014.
batuque batuque
até sair estuque:

este é meu truque
Marilia Kubota

Raízes


Como quem busca
a beleza interior
as raízes fuçam a terra
reviram a terra por dentro
deslocam pedras
racham calçadas
rompem divisas
de quintais e impérios.
As raízes reviram
a terra por dentro
feito minhocas
ou porcos em sua fome implacável
em busca de cebolas
selvagens.
No seio da terra
as raízes são rápidas
como o raio.
As raízes têm faro
e focinho e são feras
quando o assunto
é encontrar o pasto.


- Edival Lourenço, em "Poesia Reunida - 1983-2013". 1ª ed., São Paulo: Editora Ex-Machina, 2014, p. 182-183.
quem nunca se toca
fala de +

p n sentir q é outro

Marilia Kubota

Nos barracos da cidade


Gente estúpida!
Gente hipócrita!
Nos barracos da cidade
Ninguém mais tem ilusão
No poder da autoridade
De tomar a decisão
E o poder da autoridade
Se pode não faz questão
Só fode a população
O Governador promete mas não toma decisão
Os lucros são muito poucos ninguém quer abrir mão
Uma parte pequena já seria a solução
Mas no barraco tá faltando feijão
Gente estúpida!
Gente hipócrita!


Gilberto Gil
a porta que você abriu
floresce em abril

cerejeiras a mil

Marilia Kubota

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Estopor


Rasca del limón del alma
Humo del escándalo
Soledad emparedada
Por los jinetes sin Dios
Intrusos en nuestra cena
“Grito” de Munch
Estopor
Humo del limón
Estilete en mi carne
Tu palabra
Tatuada:
NO!

Bárbara Lia