domingo, 19 de julho de 2015

!7)


Tão lúdica é a fundura do desejo
-- as órbitas consteladas -- enquanto
os dias queimam tuas armaduras.
Teu altar é esse fruto que uiva na
casca(não a árvore pagã que morreu
com os pássaros). Alço um templo
sem portas para instalar a primavera
em teus olhos. O amor é a ciência
de arder as veias e a concha onde o
mar perde os músculos. Quando a
brisa soprar teus jardins --, revida!
Nada nos retém no tempo além do
caos que nos haure esta luz que ladra.
ll.
Falo da paisagem nutriz em teu lábio,
do que em ti amora. Não do centeio
que a terra custa a doar. Tenho a fome
de Ulisses chegando a Ítaca. Dá-me
esse arbusto que acorda os mortos;
dá-me esse pão cheirando a luas.
O poema quer fecundar-te. O poema
quer habitar as coisa preenchidas
de espanto (essa flor impassível
em teu ventre) e não há lenha
para sua chama.
SALGADO MARANHÃO

(Do livro Avessos Avulsos)
William Teca


às vezes, creio que teria sido melhor ter aprendido marcenaria, mas agora, estou velho demais; fiz paredes de livros ao redor do meu umbigo e me pergunto: pra que raios isso serve? ou, de que serviram todos esses anos, lendo livros que ninguém lê? conheci a embriagues, a solidão, os eternos ritos do suicídio. arte é confronto, nunca apaziguamento, é viver a eterna tempestade; nunca há o bem estar típico dos que aceitaram o projeto da felicidade - aqui dentro é foda: uma irmandade de gente louca, em contato direto com os deuses e que sorriem com desdém da normalidade. contudo, já que tudo fora inútil (menos este trago e este cigarro), vou acabar indo sozinho para o diabo.
se eu morrer amanhã não interrogue
da só devassidão dos meus ofícios
eu deixo um girassol, como van gogh
e um afro-samba bêbado, vinicius."

RR

16)


Nunca fui senão um domador
de fábulas. E o que arrisca seus
ritos no penhasco. Nunca serei
menos que um grito e um rastro
de asas no azul. Os ventos que
assaltam noites e trilhas secretas,
sabem que os sei com a flor da
pele. Sou o que está sujo do arado
e da terra bruta onde o sol põe
seus óvulos. A terra em que os
sonhos brotam com sangue.
SALGADO MARANHÃO

(Do livro Avessos Avulsos)

15)


Porque trago os dígitos da pele
confrontantes como um delito, e
a lava da memória sob a chuva,
cevam-me no pasto seco onde
os bezerros bem o leite amargo.
Da penumbra,os corvos de túnica
branca seguem a disfarçar sua
fome de vísceras. Mas não me
veem. Estou líquido como os
rios que tombam muros.

SALGADO MARANHÃO

(Do livro Avessos Avulsos).
Otto Leopoldo Winck


Ah, este vício, o vício do verso, ainda vai acabar me matando. Mais letal que a heroína, mais letal que a cachaça, mais letal que as desgraças da vida, este maldito vício ainda vai me atirar num precipício, ainda vai me trancar num hospício... É duro este ofício: alinhavar palavras no vazio como uma ponte sobre o nada. Não, meu amigo, a vida não vale um verso. O universo não vale um verso. Ai, meu mundo por um verso que explique tudo: a noite, as estrelas, os teus olhos... Como é doce este vício, como é santo este ofício! Mas mais letal que este vício só mesmo um outro, muito similar por sinal: o vício de você. O vício de cheirar, tragar, sorver, injetar você... De repente é este vício que alimenta o outro. Ou vice-versa.

UTOPIA

Ando pelo mundo
Em busca de ações
Que levem ao homem a tomar consciência.
Da vida e de seus valores.
Que hoje são esquecidos pelas trilhas dos caminhos.

Talvez, tenha esperança.
De que um dia esses mesmos homens
Possam perceber o mal que fazem à natureza.
A mãe terra que pede socorro.

No ventre da natureza
Resta pouca vida
Ao nosso planeta.
Pois sem água e sem o verde.
A vida irá acabar.

Mas, mesmo assim vou sonhando.
E escrevendo meus versos.
Com a alma de poeta
E o coração de menina.

Para salvar o planeta
Precisamos espalhar ao vento
Nossos cantos poéticos.
Invocando a Paz é o Amor.
A própria VIDA.


VERA SALBEGO
"Sim, suave é ser sozinho,
tendo os seixos como cúmplices
e as flores por confidentes,
seguindo, seguindo sempre,
quietos sobre a estrada,
solenes sob as estrelas,
e sem desejar mais nada
que não seja andar, andar..."

olw
Entre a face
e a boca
é estreita minha margem
de manobra.
Mas por que sempre
esta escolha
entre a poesia
e a prosa?
Não pode
ser amor
e ao mesmo tempo
outra obra?


Otto Leopoldo Winck

"socorro, eu não estou sentindo nada.
nem medo, nem calor, nem fogo,
não vai dar mais pra chorar
nem pra rir.
socorro, alguma alma, mesmo que penada,
me empreste suas penas.
já não sinto amor nem dor,
já não sinto nada.
socorro, alguém me dê um coração,
que esse já não bate nem apanha.
por favor, uma emoção pequena,
qualquer coisa que se sinta,
tem tantos sentimentos,
deve ter algum que sirva.
socorro, alguma rua que me dê sentido,
em qualquer cruzamento,
acostamento, encruzilhada,

socorro, eu já não sinto nada."

Alice Ruiz 
Otto Leopoldo Winck


“Este apego ao bairro, à terra, ao território, à profissão, à corporação, este reconhecer-se no rosto do outro, esta proximidade no dia a dia, com as suas misérias e os seus heroísmos quotidianos, é o que permite realizar o mandamento do amor, não a partir de idéias ou conceitos, mas a partir do genuíno encontro entre pessoas, porque não se amam os conceitos nem as idéias; amam-se as pessoas”… Papa Francisco, em La Paz, há cerca de uma semana

Ser



Crânio e face.
Corpo e alma.
Protegidos por ossos e cinto de segurança,
das cinturas escapular até a pélvica.
Braços,mãos e tórax,
sustentados por coxas, pernas e pés.
Unidos por articulações e cartilagens.
Seguindo o fluxo das sinapses
e das substâncias branca e cinzenta.

Humano e desumano.
Anjo e demônio.
Contradições de uma mesma matéria em decomposição.


Deisi Perin. 291106

Poema de Tigres



01

As garras são meus olhos,
Esses que eram de qualquer outro,
E na ousadia de minha madrugada
Os instalei de súbito em meu corpo.
Olhos renascidos de não morrer
Onde a morte lhes visita a gravidade.

02

Instantâneos e profundos como a saudade:
Noturna matinal arenosa e incômoda.
Lobos aves folhas e olhar de um poço,
Labirinto circular de meus passos felinos.
O tigre dos gritos do meu corpo
Arrasto e não ouvem. Desfolho
Sem saber o intento no meu rosto.
O Meu Sorriso não tem dizer.

03

Tigres de vôos não vistos,
Não há como ver a altura do imprevisto;
Nem como fugir a fuga dos que tem sina;
Nem como ser luz do que perdeu a vista,
Sem ser brilhar e entorpecer.
Os designados nunca são inteiros
Carregam em seus passos, pés dilacerados:
as pernas e os fatos e as dores.

04

Não há destino exato para a semente no deserto.
Para implacável incerteza desperta.
Para o doer de tigres que desperto.
No tigre dói a não investida,
E assim o tempo cria em mim suas dores.

05

Se persigo veloz tudo que quero:
O fel tenho do não ter e das vontades;
Se passeio ronda a fera como fera,
A vontade que era grande me dilacera.
Sedento da fonte que não seca,
Faminto nas raízes da terra.


06

Quebro a armadilha do labirinto:
Inimigo do transitar das presas,
A prisão do desejo me encarcera.
Os gemidos solitários do secar das ervas:
São explosões inimagináveis do que se queima,
Fogo: angústia nas garras – olhos,
Captura a dor e a corrida do que vejo.

07

Não chamarei de tristes as afiadas unhas,
Nem de solitárias as vítimas da caçada.

08

Há os que praguejam seu destino.
Há os que o destino afaga e cala.
Há no círculo de luz a funda vala
Da fogueira extasiada de algo haver faltado:
Dois dias dois sábados dois olhos,
Ou a mágoa não ter evaporado,
Ou a viagem interceptada de lábios
Que queimariam a febre da fogueira.

09

Quebro nesta tarde com meu correr de tigre:
O braço da sina que me abraça.
Deixem-me por entre flores negras,
Por entre minhas não suavidades:
O tigre que sou – Só garras.
O homem que sou – Só olhos.

Julio Almada, Hora Tenaz



Um dia, um velhinho foi a uma de suas consultas periódicas ao médico, só que desta vez um pouco apressado.
O médico então lhe perguntou:
- Pq a pressa? e ele respondeu:
- Todos os dias neste horário vou visitar minha esposa que está num asilo. E o médico comentou:
- Que bacana! Então vcs matam as saudades, batem papo, namoram um pouquinho!! E o velhinho diz:
- Não! Ela não me reconhece mais, por causa de sua doença.
O médico surpreso então pergunta:
- Mas pq então tanta pressa para vê-la, já que não o reconhece mais?
E com um sorriso no rosto, o velhinho responde:

- Mas eu a reconheço! Eu sei quem ela é e o que representa na minha vida a tantos anos. Por isso todos os dias eu a reconquisto, como se cada conquista fosse única e verdadeira. Este é o verdadeiro amor....INCONDICIONAL!!!

Mário Auvim

Diálogo de uma criança, pronta para nascer, com Deus



A criança perguntou:
- Dizem que serei enviado à terra amanhã...
Como eu vou viver lá, sendo assim pequeno e indefeso?
E Deus disse:
- Entre muitos anjos, eu escolhi um especial para você. Ele estará te esperando e tomará conta de você.
A criança:
- Mas diga - me: aqui no céu eu não faço nada a não ser cantar e sorrir. O que é suficiente para que eu seja feliz. Serei Feliz lá?
Deus:
- Seu anjo cantará e sorrirá para você...
A cada dia, a cada instante, você sentirá o amor do seu anjo e será feliz.
Criança.
- Como poderei entender quando falarem comigo, se eu não conheço a língua que as pessoas falam?
Deus:
- Com muita paciência e carinho, o seu anjo lhe ensinará a falar.
Criança:
- E o que eu farei quando eu quiser te falar?
Deus:
- Seu anjo juntará as suas mãos e lhe ensinará a rezar.
Criança:
- Eu ouvi que na terra há homens maus. Quem me protegerá?
Deus:
- Seu anjo lhe defenderá mesmo que signifique arrisque sua própria vida.
Criança:
- Mais eu serei triste porque não te verei mais.
Deus:
- Seu anjo sempre lhe falará sobre mim, lhe ensinará a maneira de vir a mim, e Eu estarei sempre dentro de você.
Nesse momento, havia muita paz no céu. Mas as vozes da Terra já podiam ser ouvidas.
A criança apressada, pediu suavemente:
- Deus, estou a ponto de ir agora.
Diga-me por favor o nome do meu anjo.
E Deus respondeu:
- Você chamará seu anjo de... mãe.
Mário Auvim

Mario 27/06/06
Amizades são feitas de pedacinhos.
Pedacinhos de tempo que vivemos com cada pessoa.
Não importa a quantidade de tempo que passamos com cada amigo, mas a qualidade do tempo que vivemos com ele ...
Cinco minutos podem ter uma importância muito maior do que um dia inteiro.
Assim, há amizades que são feitas de risos e dores compartilhadas ...
Outras de escola ...
Outras de saídas, cinemas, diversões ...
Há ainda aquelas que nascem e a gente nem sabe de quê, mas que estão presentes.
Talvez essas sejam feitas de silêncios compreendidos, ou de simpatia mútua sem explicação.
Hoje em dia, muitas amizades são feitas só de e-mails ... São as famosas " amizades virtuais ".
Diferentes até, mas não menos importantes.
Aprendemos a amar as pessoas sem o julgamento da aparência ou modo de ser ...
Sem etiquetas ou títulos.
Amigos de verdade não precisam disso!
O tempo que passamos com os amigos de verdade não é tempo gasto ...
É tempo ganho, aproveitado, vivido.


Mário Auvim

O Homem de Chapéu Branco


( Parte II )                                          

O homem do chapéu branco
Surge numa noite escura
Com o seu espírito franco
E olhar repleto de ternura!

Seu chapéu vira uma Lua
Com sua claridade cintilante
Toda vez que na obscura rua
Ele dá um passo brilhante

Será que ele é o boto buscando uma donzela?
Será que ele é um músico atrás da seresta?
Só sei que deixa a noite escura mais bela
Fazendo das constelações uma real festa

Este divino homem de chapéu branco
Senta-se na praça bem no banco
Porém ele desaparece com o vento
Ao sabor da brisa cheia de sentimento

Mas ele reaparece numa esquina
No meio da misteriosa encruzilhada
Ele dá um beijo na abandonada menina
Depois se evapora no meio do nada

Não sei quem é este homem de chapéu branco
Não sei se é boto, seresteiro ou uma entidade
Somente entendo que o seu espírito é franco
Iluminando a minha noite de verdade.
Luciana do Rocio Mallon


Selfie no Banheiro


Perdido dentro do banheiro
Ele olha para a branca pia        
E tira um selfie por inteiro
Com o flash luminoso da poesia

Mas sua alma entra no espelho
E ele abraça o próprio sentimento
Assim um anjo lhe dá um conselho
Para sair do vidro no menor tempo

Um selfie no toalete frio
Aquece sua alma brilhante
A brisa causa um arrepio
Enquanto vira estrela cintilante
Da sua própria foto, ele é o melhor amante.

Luciana do Rocio Mallon

Poetisa de Segunda


                                          
Eu gosto mesmo é da segunda-feira
Pois estou sempre com segundas intenções
Neste dia, sempre termino uma tarefa faceira
Pois terei uma semana cheia de emoções!

Já falaram que sou uma poetisa de quinta
Mas na verdade sou escritora de segunda
Não desejo que a minha sorte minta
Pois a vontade de trabalhar é profunda

Garfield não gosta da segunda-feira
Porque seu pecado é a preguiça
O trabalho é uma dádiva verdadeira
Uma singela e desafiadora premissa

Ligo televisão e fala, assim, um jornalista:
- Hoje é segunda, tenha muita coragem
Minha fé tem o brilho da ametista
Para enfrentar qualquer paisagem.

Luciana do Rocio Mallon

Poeta Morreu no Palco, Cantando o Amor, Num Evento Romântico


Em Curitiba, havia um poeta
Chamado Francisco Soares
Com longas barbas de profeta
E asas que iam a todos os lugares

Dia dezessete de julho, ele foi a um evento
Repleto de emoção, pureza e sentimento
Lá, um romântico violão ele tocaria
Para sua eterna musa Lia !

Neste lugar, meninos leriam poemas de meninas
E meninas declamariam textos de meninos
Elas com flores, saias e muitas purpurinas
E eles confiantes em seus destinos!

Lá quando Francisco pegou seu instrumento
Com as luzes do palco e a benção do vento
Ele tocou algumas notas e caiu no chão de madeira
Porque ele fez a passagem da sua vida inteira

Para o céu perto de Deus, nosso senhor
Ele faleceu cantando o mais puro amor.

Luciana do Rocio Mallon

Lenda da Cigana do Chicote

    

Na Idade Antiga, uma caravana de ciganos estava passando perto da  Mesopotâmia. Então estes nômades decidiram acampar perto de uma cidade abandonada, daquela mesma região. Assim a cigana Lia, que estava grávida, resolveu passear pelo local até que encontrou uma estátua de uma gata peluda, com formas de mulher, com um chicote na mão.
Quando ela chegou ao acampamento, o kaku, que é um líder espiritual dos ciganos, pediu para que a moça jogasse a estátua fora. Mas a jovem não obedeceu e guardou o objeto em seu baú.
Meses depois Lia deu à luz a uma menina, porém faleceu no parto. O bebê foi batizado de Brechinari.
Quando esta menina completou cinco anos de idade, ela estava mexendo no antigo baú da sua falecida mãe e achou a estátua da mulher-gata com um chicote. Após isto, a menina pegou os chicotes dos adultos e passou a adestrar animais com eles.
Quando ela completou treze anos de idade saqueadores resolveram atacar o acampamento. Os ciganos tentaram se defender com suas armas. Mas Brechinari entrou na frente, da briga, com dois chicotes que se multiplicaram e feriram os bandidos, que acabaram indo embora.
Esta garota estava noiva de Ivan, um cigano do mesmo acampamento, que era antipático com ela. Um certo dia, esta donzela chamou o noivo para conversar, porém ele foi grosso com a pobre. Deste jeito Brechinari pegou o chicote e bateu no rapaz, que após as surras apaixonou-se por ela e aceitou o casamento.
No dia de seu matrimônio, Brechinari confeccionou uma saia feita de chicotes coloridos e um espartilho de couro.
Após a festa, o kaku chamou a jovem para conversar e explicou:   
- Eu sei que você está com a estátua da mulher-gato com o chicote e foi ela que lhe deu todo este poder.
- Mas, por favor, jogue-a fora!
A cigana disse:
- Por que eu deveria jogar esta imagem fora?
O mago respondeu:
- Esta figura de mulher-gato com chicote era uma deusa de uma cidade perto da Mesopotâmia. Ela significava que até no prazer mais sensual existem conseqüências, que ás vezes transformam-se em dores. Mais tarde surgirão escritores que descobrirão este significado, porém eles deturparão esta imagem em favor da luxúria.
- Por favor, se livre desta estátua!
Brechinari explicou:
- Esta imagem me deu habilidades que eu tenho com o chicote. Porém se o senhor e nem o resto das pessoas daqui desejam entender isto, prefiro ir embora.
Deste jeito a cigana sumiu do acampamento e fugiu com um circo que estava apresentando-se num local perto. Lá ela virou domadora de animais selvagens. O problema era que alguns homens, depois do espetáculo, pediam para que Brechinari torturasse os corpos deles com o chicote. Por pressão do dono do circo, a cigana passou a aceitar as propostas.
Reza a lenda que alguns séculos depois, o escritor Leopold Von Sancher Masoch avistou um acampamento cigano perto da sua casa e pediu para que estes nômades contassem alguns causos, entre estas histórias estava a Lenda da Cigana do Chicote. Este relato também serviu de inspiração para este escritor elaborar a obra chamada A Vênus das Peles.
Por coincidência, existe um balé chamado Dança da Cigana dos Chicotes, onde a bailarina mexe com chicotes enquanto gira com suas saias largas. Há, também, movimentos na Dança Flamenca em que a “bailaora” imita chicotes com as saias e com os braços.

Luciana do Rocio Mallon

Lenda da Cigana da Sevillhana


                                                      
Reza a lenda que quando a cidade de Sevilha, em Andaluzia na Espanha, foi invadida pelos mouros ficou muito destruída e, logo depois, seu povo tornou-se com a autoestima baixa e com a aura depressiva.
Naquela mesma época uma caravana de ciganos acampou nesta cidade. Então a cigana Consuelo resolveu dar uma volta no local e notou que as pessoas estavam muito tristes. Assim ela resolveu rezar para Santa Sara:
- Santa Sara, faça com que o povo de Sevilha recupere a sua alegria.
Naquela mesma noite, Consuelo notou que seu corpo saiu da esteira onde estava dormindo e começou a dançar sozinho, guiado por uma força estranha através de um compasso ternário, que conforme dizem os relatos místicos é o compasso que os santos bailam. Assim esta cigana deu passos como: “paseos”, “pasadas”, “remates” e “careos” por meio de quatro “coplas”. Assim, ao mesmo tempo, que esta donzela começou a dançar, ela passou a cantar letras de músicas em homenagem à Sevilha. 
Os outros ciganos ao escutarem o som, acharam o bailado maravilhoso e se dividiram em pares para dançarem a música.
No dia seguinte, eles resolveram mostrar este espetáculo à cidade. Deste jeito Consuelo cantou músicas em homenagem à Sevilha, enquanto os pares dançavam. Assim a população do local recuperou sua autoestima voltando a ser alegre. Por causa das canções em homenagem a esta cidade, que acompanhavam esta dança, ela passou a ser chamada de Sevilhana e ficou tão popular, que começou a ser bailada em todos os tipos de festas em Andaluzia.
Somente mais tarde é que surgiram letras de sevilhanas com outros temas.
Reza a lenda que quando uma “bailaora” começa a fazer aulas de sevilhanas e tem algumas dificuldades em aprender os passos, Consuelo, a cigana das sevilhanas, aparece nos seus sonhos para ensina-la e no dia seguinte a aluna acorda com a dança decorada.
Luciana do Rocio Mallon  


SEXTO DEGRAU


mácula
na margem
febril inverno
sem lentes
poentes
na ausência de estrelas
é fresco o vapor
das vespertinas do sul
amansamos o cavalo do leito
erguido e crucificado a cada retomada
cruzamos nossos passos
harmonizamos nossas preces
- iguais e descontínuas –
para ergue-las como mitos
maníacos ou valentes
uma gala de artifício
até o sexto degrau.


JANDIRA ZANCHI

sábado, 18 de julho de 2015

Bebo o sangue da luna rossa. Bárbara figura vestida de pele de ovelha que mal cobre o sexo. Lilith devassa, louca alada e nua escondida em uma roupa de senhora. Não sou esta dama no salão de chá, cadeiras bordadas de flores da Confeitaria das Famílias, vomitando asteriscos e estrelas e dissecando a XV da Federal à Boca Maldita ao lado de meninos de camiseta Hering branca e óculos de Clark Kent, tomando coca-cola. Na hora do ângelus pisam partituras de ossos e surfam no caos, dominam suas ondas... Suas pipas são estrelas inconclusas, com fios esgarçados que eles alcançam da torre da Catedral. Ninguém diria que ferve nas veias um rio vermelho encharcado de blues, nesta saudade órfã do triste homem azul. Pode que ele nos espie no canto da confeitaria em um ângulo discreto, com aquele olhar maroto e aquele chapéu escuro. Pode que ele acompanhe meninos poetas, andando sobre os muros e explodindo em vida ao nosso lado. A gente pensa que é a brisa de fim de tarde na XV - é sopro de Marcos Prado - Este cara eterno que nos mata de saudade...

Bárbara Lia

Homenagem a Marcos Prado

01: A PRECE DE AÉCIO

. 
Deus, quando eu era menino
Bastava um único pedido
E o Senhor me atendia
Me dava bicicletas
Coloridas canetas
E tudo o que eu queria.
.
Às vezes eu nem pedia
E do nada aparecia
Uma porção de presentes
Eram roupas da moda
Relógios chiques de corda
E viagens aos States.
.
Ganhava motorista particular
Que dirigindo um Jaguar
Me levava à escola todo dia
Tudo era tão diferente
Eu fazia uma prece inocente
E o milagre acontecia.
.
Pedi faculdade, ganhei a PUC
Pedi fama, fiquei ilustre
Pedi poder, virei Deputado
Pedi um Estado, virei Governador
Pedi o Senado, virei Senador
Pedi o Brasil, fiquei chateado.
.
Ó meu bom Deus
O que foi que aconteceu
Com o Senhor meu Pai?
Parece que Se esqueceu
Desse filhinho Seu
Aqui de Minas Gerais!
.
Senhor eu pedi tão somente
Para ser o Presidente
Desse meu Brasil
Mas o Senhor atendeu
A Dilma enquanto eu
Fiquei a ver navios.
.
E quando fui à Venezuela
Bater as minhas panelas
Contei com a Sua ajuda
Mas voltei escorraçado
No Brasil todo humilhado
Nunca fizeram isso com Lula.
.
Já que o Senhor não ouve
As preces que toda noite
Eu encaminho aí pra cima
Vou esperar o Natal chegar
E pedirei para o Noel me dar
O impeachment da Dilma.
.
Se ele atender às minhas súplicas
E me tornar Presidente da República
Assim que houver eleições nos céus
Eu serei o Seu adversário
E num golpe interplanetário
Serei empossado deus.

Eduardo de Paula Barreto

.


02: A PRECE DE LULA



Meu companheiro Deus
Aqui estou eu de novo
Para agradecer pelo Seu
Cuidado com o nosso povo
Que é tão corajoso e esforçado
Na rotina de carregar o fardo
Que sobre as costas tanto pesa
Sou-Lhe grato por ter permitido
Que eu visse o povo sair do nocivo
Círculo vicioso da pobreza.
.
Cortava o meu coração
Ver crianças de todo o Brasil
Morrendo de inanição
Enquanto a direita servil
Anunciava que tinha que ir
Implorar favores ao FMI
Para fazer o País crescer
Mas a única coisa que crescia
Era o espaço na barriga vazia
De quem não tinha o que comer.
.
O pobre não tinha esperança
De conseguir mudar de vida
Porque a social discrepância
Era a ideologia defendida
Pelo Governo de direita
Que considerava perfeita
A sociedade em castas dividida
Como no tempo da escravidão
Feitores com chibata na mão
E escravos chorando as feridas.
.
Tive a chance de implementar
Vários programas sociais
Que estimularam a pescar
Quem nem se lembrava mais
Do prazer de ver num dia de sol
Um peixe pendurado no anzol
E depois servi-lo na mesa
E assim descobri que na verdade
O pobre só queria a oportunidade
De produzir a sua própria riqueza.
.
Mas agora vejo entristecido
Que o fantasma do passado
Nunca aceitou ter perdido
O comando do Estado
Por isso de maneira torpe
Está investindo num golpe
Baseado na desconstrução
Do Governo legítimo
Que foi escolhido
Pela maioria da população.
.
A direita cria dificuldades
E o caos na economia
E diz ter a capacidade
De resolver o que não resolvia
E para conquistar Brasília
Convida para a quadrilha
Os formadores de opinião
Que dizem em todos os cantos
Que na oposição só tem santo
E que no Governo só tem ladrão.
.
Peço-Lhe meu Deus do céu
Para finalizar esta oração
Que o Senhor remova o véu
Que esconde a conspiração
Para que o Brasil prossiga
No processo de melhoria de vida
Do cidadão brasileiro que tem
O simples desejo de ser feliz
Peço que abençoe o meu País
Obrigado companheiro, amém.

Eduardo de Paula Barreto

.


03: A PRECE DE DILMA


Obrigado meu Deus amado
Pelos constantes afagos
Que tem me oferecido
Ao longo da minha história
Tanto nos momentos de glória
Quanto nos de luta e perigo.
.
Lembro-me com clareza
Da alegria em meio à tristeza
Nos frios porões da prisão
Quando o Senhor sussurrava
Aos meus ouvidos essas palavras:
‘Você ainda guiará esta Nação’.
.
Confesso que não entendia
Mas toda vez que eu sofria
Lá estava O Senhor de novo
Me dizendo com ternura:
‘Dilma suporte a tortura
Pois você guiará este povo’.
.
Sempre que os injustos golpes
Enchiam o meu corpo de cortes
Deixando a minha vida por um triz
O Senhor me consolava dizendo:
‘Seja forte, pois chegará o momento
Em que você guiará este País’.
.
Paguei o preço dos visionários
Até ver o governo autoritário
Ser substituído pela Democracia
E desde então passei a lutar
Para impedir que tentassem voltar
Os defensores da vilania.
.
Depois de passadas várias décadas
O Senhor cumpriu a Sua promessa
E tornou-me a Presidente do Brasil
Para que eu preservasse a liberdade
E combatesse a social desigualdade
Resgatando o meu sonho juvenil.
.
Deus do passado, presente e futuro
Peço-Lhe que me envie os sussurros
Que me salvaram nas horas dramáticas
Para que eu tenha força e inspiração
Para frustrar a dissimulada conspiração
Que se apresenta como luta democrática.

Eduardo de Paula Barreto

.


PÁSSAROS DE PRESSA


O tempo, enquanto nos usa,
Exibe um filme que abusa
De cenas que se repetem...
E por estar tão presente
Impõe um fugir de cenas
E de fatos que nos afetam
Que atua nas nossas mentes
E finge que nos pertence.
E nos vende por permanentes!
Mas é pena que não se sente
O que sempre simplifica:
Sempre fica e nos remete...
Sempre vivo!
Sempre vence-nos!


Altair de Oliveira - In- O Lento Alento
Perdoo quase tudo, mulher! Mas aproveitar minha viagem de negócios e na minha ausência receber seu amante e tomarem juntos todo o vinho do Porto, poxa, tinha chileno ou argentino, mas meu vinho do Porto , não! Vou pegar esse safado! 
JD

O BOTEQUIM



Reuniram-se em conferência
Os viciados em presidência
Aécio, José Serra e Alckmin
E após os confusos e cômicos
Apertos de mão maçônicos
Sentaram-se no botequim.

Aécio Neves já havia bebido
E devido ao nariz entupido
Espirrava melecas ao léu
E José Serra por ser prevenido
Usava um capacete colorido
À prova de bolinhas de papel.

Alckmin com cara de crente
Disse que desejava ser presidente
Somente para fazer um teste
Queria administrar o Brasil
Do jeito ineficiente e servil
Com que administra a Sabesp.

Serra logo se indignou:
‘Que isso Alckmin, pirou?
Você vai acabar com a Nação’
E Alckmin batendo no peito:
‘Você Serra se ganhar o pleito
Vai nos doar pra Chevron’.

O grupo ficou insatisfeito
Quando Aécio falou: ‘Fui eleito
Presidente da República de novo
E o PSDB é o principal
Partido que tem como ideal
Ser oposição ao Brasil todo’.

Aí o pau quebrou
E Aécio Neves surtou
E tentou enforcar o Geraldo
Que nervoso deu um pontapé
Bem na pança do José
Que voou lá pro asfalto.

No meio da confusão
Apareceu um garçom
Que gritou: ‘Socorro’
E cheio de truques
Surgiu o super
‘’Capitão Moro’’.

Ele mastigou o código penal
E fez um prato especial
Com a Constituição brasileira
E com gritos bem afáveis
Chamou os presidenciáveis
Para tomarem a saideira.

Então fizeram um brinde ao golpe
E quando tomavam o último gole
Já calmos e menos afoitos
Lula e Dilma se aproximaram
E baixando as portas avisaram:
‘Só reabriremos em 2018’.


Eduardo de Paula Barreto 

O VENTO DAS HORAS


O peito aberto ao pó do vento
leva adiante meus passos na Terra
faz calar a doença das horas
faz-me perder na mata cerrada
entre sonhos, delírios e a dança
dos fantasmas desgraçados.
Os olhos largados no longe do tempo
traz do passado o sorriso de leite,
do leite mamado.
Que vislumbra o horizonte
nem cinza, nem preto,
apenas a luz numa trilha de pedras
que faz-me cegar as tragédias do dia.

Manoel Ricardo


EU POR MIM

às vezes penso eu
o que vão pensar de mim
se até hoje ninguém me entendeu
posteridade não dará cartaz a mim
quem hoje me comoveu
amanhã faz chacota de mim
não era nero e sim eu
o gênio que fui só pra mim
acreditei que o mundo era meu
tudo tinha sido feito pra mim
não fui só mais um bonzinho que se fodeu
mas todo mundo chorou por mim
às vezes penso que morreu
aquele que eu chamei de mim


(Antonio Thadeu Wojciechowski, Marcos Prado e Roberto Prado.)

domingo, 12 de julho de 2015

Pedra.


Eu quis numa noite passada ser algo
Entre uma estrela e uma estrada
O passo, O piso, os risos achados
A ponte, o portão, alguma algazarra
A premissa desse caminho mortal
O cordão que transfundi a vida
o laço nos sapatos, quando esta se finda
E na morte completa o ato de piedade final
Assim também quis sê-lo
Mas derramou-se sobre mim o visgo
Deixando apenas um tropeço,
A pequena pedra à sombra de um rio
E desconfio que nem suas várzeas o conheceram
E ainda assim permaneci, paisagem obsoleta
Numa tela de quimeras e incertezas
E nem estrela ou estrada por mim passaram
Eu fui só, observando o rio paralisado
Numa estrada seca, numa noite desatrelada
De outros sonhos, de outros nós
No caminho permanecida,
Fiz-me tal e qual pedra em meus silêncios

Cristhina Rangel.


( Poesia Miojo 08.07.2015)

Um pouco de superfície


(Giovanni Chaim)

Sou poeta demais!
Se eu fosse menos poeta,
Poderia fazer poesias até melhores,
De um jeito mais certo.
Mas eu só carimbo o que sinto, nem penso.
Se eu fosse feito de aço,
Gravaria em meu metal,
A palavra: silencio.
Mas eu grito tanto... atoa.
Se eu estivesse de branco,
Eu estaria certo.
Mas eu estou de preto, eu estou errado.
(...)
Se eu fosse equilibrado,
Não cairia para nenhum dos lados,
Permaneceria reto.
Mas eu sou só incoerência e desequilíbrio.
Se eu fosse a água,
Seria a atração, e não o atraído,
O que trai, e não é traído.
Mas, apesar de transparente, sou sólido, não líquido.
(...)
É que se eu fosse de fevereiro, e não março,
Eu não seria o peixe,
Eu queria era ser o aquário...


Olha o que ela faz



(Giovanni Chaim)

Ela só tem o direito de criticar o meu poema,
Mas, não, ela se reveste, por si mesma, de outros direitos:
.ela ignora o poema.
.ela me olha.
.ela me mede.
.ela me pesa.
.ela me taxa.
.ela me rotula.
.ela me considera.
.ela me sentencia.
.e ela me condena.
Aí ela finca uma faca no meu fígado,
e me deixa ali, com a ferida aberta,
pros abutres e morcegos (não herbívoros)
se alimentarem de mim.
E vai embora.

Feliz...

RUA RIACHUELO 2

 - Poema de Isabel Furini


caminhava pela Riachuelo quando eu vi um gari
juntando o lixo daqui – juntando o lixo dali
perto dele um artista transformava a parede
criava e recriava imagens como um ilusionista
olhei o trabalho do gari – olhei o trabalho do artista
e então eu conclui: esses os dois são alquimistas


Balcão de Poemas 
lá vem o sapo
descendo a ladeira
fazendo pose
de João Bello
com uma cara
muito feia
no largo da ordem
canta e declama
se esperneia
a Feira do Poeta
conta o sapo ator
é quem me custeia
não me deixa
mentir sozinho
o Luiz Carlos Brizola
e todos lá da feira
grita por Getulio Guerra
fingindo uma peleia
ganhou o título
no Sarau Popular
de sapo
com arte nas veias
garganteou que Marcos Cordiolli
é quem mais o galanteia
prometendo que sua estréia
será de casa cheia
feliz com sua arte
declama Leminski
que incendeia
diz que ensinou
Geraldo Magela
poesia rimada
e tudo mais
que dele leia
Vou parar por aqui
pois o sapo
fez sua teia
prometendo quem
caçoar dele
levar direto pra cadeia
o delegado que o protege
é Eduardo Cabral
com sua defesa
o presenteia
lê os direitos de sapo
por ser autoridade
nos grampeia !


Goretti Bussolo

Balcão de Poemas

O Encontro do Cartola Com o Pequeno Príncipe



Quando Cartola chegou ao céu
Foi, direto, para o espaço sideral
Numa Lua feita toda de mel
Com um toque doce bem espacial

Ele foi parar numa Lua cheia de harmonia
Onde o Pequeno Príncipe reinava com magia
Lá Cartola se emocionou com uma delicada rosa
Dentro de um vidro transparente, toda formosa

Então o príncipe conversou com esta flor
E Cartola assustou-se com primor
Pois cantou que as rosas não sabem falar
Apenas o aroma, espalham pelo ar

O menino explicou que esta planta
Pode falar com o próprio espírito
Através do seu idioma de santa
Que traduz o sonho lírico!

Cartola tocou na suave rosa
Sentindo sua fala maravilhosa
Então saiu uma lágrima de sua íris
Que formou um leve arco-íris

Assim Cartola soltou um misterioso sorriso
E viajou, através do arco, para o paraíso
O Pequeno Príncipe ficou com uma saudade infinita
Desta encantadora e inesquecível visita.

Luciana do Rocio Mallon

As Lendas do Plástico-Bolha



Esta semana escutei o boato de que o plástico-bolha deixaria de ser fabricado. Isto me deixou, profundamente, triste. Afinal, mexer neste tipo de material é o meu passatempo preferido desde os cinco anos de idade.
Reza a lenda que o plástico-bolha surgiu por acaso, em 1957, quando dois cientistas tentavam criar um plano de fundo de plástico texturizado com o verso em papel que pudesse ser limpo.
Minha paixão por estourar este tipo de material surgiu no jardim-de-infância, quando a professora deu um pedaço de plástico-bolha para cada um e disse:
- Agora vamos estourar os sentimentos ruins!
- Cada bolinha transparente é algo mau: uma é o ódio, a outra é o egoísmo, também tem a tristeza...
- Podem estourar!
Então peguei aquele objeto e fui estourando cada coisa ruim que havia no meu peito. Assim, a todo o segundo que eu estourava uma bolinha, exclamava termos do tipo:
- Tchau egoísmo!
- Adeus tristeza!
- Vá embora saudade!
A partir daquele dia, passei a pedir plásticos-bolhas para meus conhecidos e parentes. Sem falar que eu fuçava as latas de lixo atrás destas preciosidades.
Dez anos depois, mudei de escola. Então, logo no primeiro dia, escutei um boato sobre a Lenda do Fantasma do Plástico-Bolha, quando uma colega chegou para mim e disse:
- O banheiro feminino do térreo nem é aconselhável usar. Pois dizem que lá mora o Fantasma do Plástico-Bolha. Reza a lenda que nos anos 60, Cida, uma estudante, estava estourando plástico-bolha dentro deste toalete, quando, de repente, morreu do coração. Dizem que para que seu espírito não venha assombrar a escola, é preciso colocar uma folha de plástico-bolha dentro deste banheiro. Por isto, todos os dias, antes das sete da manhã , a zeladora deixa um material destes perto da pia e ninguém deve toca-lo. Inclusive, Cida está enterrada no Cemitério Municipal São Francisco de Paula e em cima do túmulo dela sempre aparecem plásticos-bolhas estourados.
Logo pensei:
- Oba!
- Acho que vou chegar mais cedo e estourar o plástico-bolha da alma penada.
Deste jeito, passei a fazer isto. Mas, logo as funcionárias da limpeza começaram a estranhar que o precioso material sumia, ou, aparecia estourado do nada. Logo as pessoas estavam perguntando umas para as outras:
- Será que é o fantasma de Cida que está estourando o material?
Um certo dia, fiz meu procedimento de sempre: entrei mais cedo no colégio e penetrei no banheiro do térreo para estourar o plástico-bolha trancada numa privada. De repente, escutei a voz de um menino:
- Eu sou o mais corajoso da escola e pegarei este fantasma!
Como um raio, ele chutou a porta da privada e me pegou estourando o plástico-bolha. Desta maneira este garoto gritou:
- Vejam a impostora!
Assim, os alunos me levaram para a coordenação e exigiram uma punição, como suspensão, por exemplo. Pois , segundo alguns deles, eu estava roubando algo que não era meu. Porém, a coordenadora não quis me castigar e apenas me aconselhou a consultar uma psicóloga.
As profissionais de saúde mental que procurei falaram que este hábito não era recomendável, pois podia virar transtorno obsessivo compulsivo. Mas, que seria um excelente exercício para melhorar a coordenação motora, já que a minha nunca foi boa.
Agora, como já citei, fiquei com depressão ao saber que o plástico-bolha vai acabar. Colegas já me falaram que existe o plástico-bolha virtual, porém não achei graça em passar o mouse e escutar os pequenos estouros. Depois, amigos me mostraram um site onde há um chaveiro, em forma de plástico-bolha, que nunca acaba após os estouros. Porém, o dono do portal falou que o objeto não está à venda.
Neste momento sigo a minha vida, com a consciência que cada sentimento ruim é uma bolha de plástico a ser estourada.


Luciana do Rocio Mallon

Antes do Poema

Antes do Poema
soluço
sobressalto
salto sem rede
precipício
sede
sacrifício
início do improvável
imprevisível fio
cio de coxas
brilho
feira de peixes
fruto
surto de agonia
rinha
fogão de lenha
ferro quente
fogueira rompendo chão
margem sem beira
senha
capim crescendo
nos muros
em água parada
murro
adágio desafinado
relógio em hora errada
rosto em lago frio
insone noite
de breu
num beco vazio
eu

Tanussi Cardoso


do livro: Quadrigrafias

MELÔ DO CABRUNQUINHO


Sou um cabrunco de Campos,
Terra santa do Amaro
Santíssima do Salvador
Embrenho-me nos aceiros
Das preás e das serpentes
Trago meu corpo marcado
Por serras-folhas de cana
Que o fazendeiro sacana
Bebe o caldo e suga o sangue
Sou curumba estradeiro
Faço morada no tempo
Meu nome é tempestade
Meu apelido é relento
Sigo assim, tocado ao vento
Passarinho sem destino
Caminhante sem fronteira
Mato a sede nos brejais
Desta planície imensa.
E pelos canaviais
Vou curtindo a minha sina
O Paraíba é o meu rio
A Catedral é a fé
Que o povo reza pra deus
Traz o nome de Jesus
Santíssimo Salvador
Carrego a minha cruz
Com a fé em Nosso Senhor
Minha planície é o meu chão
Minha terra, meu rincão
Minha vida, meu amor!!
.
Geraldo Aguiar

Seguir com este amor-ideia
Platônica jornada de beleza
Horas sacras... Amor-mor
Seguir calada como estrela
Se só em mim a carne grita
Escandaloso verbo de centelhas

Bárbara Lia


Amor tamanho único