sábado, 13 de setembro de 2014





● jardim das agulhas de pinheiro ●
● sob a chuva dessas noites ●
● entre barcos destroçados ●
● aguas vivas peixes voadores ●
● não ha estrelas nem do mar ●
● so mastros arruinados ●
● jardim das agulhas de pinheiro ●
● de porto em porto perdidos ●
● nesse murmurar de vento ●
● não adianta acariciar as armas ●
● vencidas nem os remos podres ●
● nem as linhas de sombra ●
● jardim das agulhas de pinheiro ●
● assim o sol se desfazendo ●
● entre verdes amarelos ●
● silencio q se esmigalha ●
● na mesma noite essa noite ●
● q meu ulisses me deixou ●
● jardim das agulhas de pinheiro ●
● onde esperamos os mortos ●
● entre flores secas e esterco ●
● não adianta mais as ancoras ●
● não ha nenhum fio de lã ●
● não ha um sonho enfim ●
● jardim das agulhas de pinheiro ●
● sempre aberto com cheiro de sal ●
● esse cheiro do nosso sangue ●
● aqui sabemos sempre o q vira ●
● aqui sabemos q ulisses não vira ●
● aqui as fontes se fartaram ●
● jardim das agulhas de pinheiro ●
● onde inventaremos nosso ulisses ●
● aventuras entre terras e mares ●
● uma volta um desejo a loucura ●
● de quem busca a si mesmo ●

● não encontra e não sabe ●

Alberto Lins Caldas

Sapocidio


A dama ameaça o rei.
A chuva prende os soldados.
Concentro no alcool, eu sei,
E a música liberta condenados.
Daqui parto para outro mundo
Portal dos portais, suado balcão:
Olhos de um prisma profundo
A luz flerta com o som.
Vim para beber a semana
O caldo de vida com os amigos
É sagrada essa lida profana
Prazer é servir aos sentidos
O melhor da carne humana,
Aos olhos: inocentes, não: proibidos.

Julio Almada, Poemas Mal_Ditos
quando nado em teu corpo e ele fala
em evidente estado de sangria
por igrejas, bordéis, na mesma escala"

RR

Parte arrancada


O ódio bebo de dentro pra fora.
O medo bebo de fora pra dentro.
De noite não é o olho que chora:
É o estouro da represa do tempo.
meus monstros ainda os vejo;
Eles ainda me apagam sempre;
Mas agora só olho o presente,
me achando de novo no espelho.
nunca deixei de ser muitos:
aqueles muitos que eu não era:
os espanco onde antes houvera:
morte sem vida sem primavera:
delirios e pesadelos abruptos.
E renasço da flor de meus lutos.


Julio Almada, Do livro poemas Mal_Ditos
1.
Abre a boca pássaro cego
qualquer pensamento é uma pérola
engole-o todo
e afunda-te no rio.

2.
Gostei de ir contigo beber cerveja em cima da árvore.
Dessa vez caí, e depois fodemos no descampado.
As tuas calças descidas e a minha cara contra a grade metálica.
Onde está. O limite que torna doloroso o prazer.
Ou o contrário. Pergunto.
Quero que me desenhes um coração pequeno no braço.
Dizes: quero comer-te.
Mordes e às vezes deixas marcas sobre a pele dos meus ombros.
Penso: quero desenhar todos os animais da Terra.
Enquanto caminhamos recolho todas as penas que encontro.
As penas transbordam os meus bolsos e as gavetas do meu quarto.
Um gato esconde-se debaixo de um carro.
Outro gato salta de um contentor de lixo e corre.
Toco a tua mão.
Quero ser o centro de cada estação.
Uma árvore de calendário.
A penugem das raposas.

3.
Tentei voltar ao repouso donde a vida
me separou.
Tentei.
Mas aqui o coração existe, aqui a terra beija,
aqui os animais.

Elsa Oliveira

O LOUCO



ilumina-me. pirata desenfreado do luar. alegre esfumada figura que sobrevoa o puzzle das linhas do horizonte. de um azul terno morrem os poetas, com o ventre a rebentar de cometas e uma lua branca sempre a fugir pelas pernas de tanto extenuar o sangue. mas a luz convexa da pauta acende-se nos neurónios lupanares do louco, navegante do etéreo e do olho interno que dói. os corvos serpenteiam borboletas de chuva sobre a tua cabeça, mas tu não sentes, porque tens um chapéu feito do amanhã da aranha dos sonhos, e não vês, porque as gotas são espelhos ancestrais a luzir os segredos da vida, e no ar há um xadrez por inventar, e no silêncio trilhos de espadas que dançam no esgar dos que deixaste para trás. agora segues pela beleza até entonteceres a hipocrisia biliosa do mundo, de casaco rasgado e a alma rota de estrelas até ao fundo do caleidoscópio. oh louco. se és louco, ilumina-me... ilumina-me... ilumina-me.

Elsa Oliveira

INFUSÃO

Elsa Oliveira


orquídeas mergulham no breu esverdeado do meu sonho. o verde líquido das suas folhas deambula névoas na pura respiração do segredo. esfumam-se as pétalas terríveis e ternas, diluem-se os doces dedos de leite, penetrando o sopro aquoso do lago. suspensos nadas negros de ternura nos escombros oníricos do ser mais puro.

oblíquos impossíveis, folhas lâmina rasgando suave e inequivocamente o ar do poema. escondem-se raras auroras guardadas na espera a que o papel obriga. querem voar, como os pássaros penumbrosos e soberbos no dorso da manhã. mas os sonhos são desenhos a tinta da china sobre uma folha de nevoeiro.

as folhas cortam a luz e o real, ladeiam com amores aguçados as gotas lânguidas do medo. os sonhos devem tocar-se com dedais. brumas cantam o silêncio de tempos imemoriais, lugares perdidos do etéreo e do assombro.

onde me posso perder? dá-me o teu ombro-esfera de brisa e de sombra, a pérola do teu sussuro. o repouso da lua é aqui, entre o mínimo e o imenso, ninho da onda suspensa, reino do deslumbre na tua constelação de inefáveis.


está tudo quieto. escuta. vê com os olhos nus e a alma aberta a nobreza do mundo. sente as suas mais subtis flutuações, o devir da quietude. o real absorve-te as pupilas no seu caudal de aguarela - todo o ser é infuso.

Elsa Oliveira....Portugal

E AGORA?



deixe seu sonho solto sob a luz do sol
não há nada de novo, então vê se se enxerga
a imaginação tem razão e a fé não é tão cega
as aparências não enganam seres de escol

o carbono 14 é uma piada sem graça
contada por palhaços tristes da ciência
que fingem ignorar sua própria consciência
e mercadejam fórmulas: farsa e trapaça

explosões nucleares mudam equações
qualquer cientista mixuruca sabe disso
e o Mahabharata está cheio de alusões
às civilizações – apogeu e sumiço

guerras atômicas, vimanas, no horizonte
nêutrons em colisão com nitrogênio (átomos
divididos em dois destruindo nossa fonte
de medição) e a fúria plásmica dos cátodos?

eu, sozinho e encolhido, estendo os meus braços
a você, meu amigo, a você, minha amiga,
há um sinal indicando o fim de todo o enigma -
“pai nosso que estais no céu” – e une nossos laços

nada mais ofereço ou peço em meu cansaço
o sonho está apenas realizando a vida
decodificando a memória esquecida
meu berço perdido em algum lugar do espaço


antonio thadeu wojciechowski

cybercultural

Samantha Beduschi Santana

the brain-dead hypnotized by information,
only able of rolling eyes through a surface,
clicking on windows that open,
just a matter on cyberspace,
just a matter of time
for their eyes to un-open
no knowledge that amplifies
the real being…
no love of sharing
no purpose in truly decomposing their mind,
texting blanks, living lies:
an arrow without a serpent,
a bow without its tongue
dripping poison of an un-life
the image lies on the weakness
of scrolling bars,
plagues of a lit screen,
they don’t let your body fly
they don’t let you slide your soul
to any side
but to misery
the fortress created with invisible bars:
just eyes and hands in torture
and a field of everything but

a whole screen of nothing.

REVISITAÇÃO


José Paulo Paes
Cidade, por que me persegues?
Com os dedos sangrando
já não cavei em teu chão
os sete palmos regulamentares
para enterrar meus mortos?
Não ficamos quites desde então?
Por que insistes
em acender toda noite
as luzes de tuas vitrinas
com as mercadorias do sonho
a tão bom preço?
Não é mais tempo de comprar.
Logo será tempo de viajar
para não se sabe onde.
Sabe-se apenas que é preciso ir
de mãos vazias.
Em vão alongas tuas ruas
como nos dias de infância,
com a feérica promessa
de uma aventura a cada esquina.
Já não as tive todas?
Em vão os conhecidos me saúdam
do outro lado do vidro,
desse umbral onde a voz
se detém interdita
entre o que é e o que foi.
Cidade, por que me persegues?
Ainda que eu pegasse
o mesmo velho trem,
ele não me levaria
a ti, que não és mais.
As cidades, sabemos,
são no tempo, não no espaço,
e delas nos perdemos
a cada longo esquecimento
de nós mesmos.
Se já não és e nem eu posso
ser mais em ti, então que ao menos
através do vidro
através do sonho
um menino e sua cidade saibam-se afinal
intemporais, absolutos.

De A Meu Esmo (1995)
O mendigo dividia seu pão velho com seu único amigo, o cachorro vira-lata lambia-lhe a ferida da perna em forma de gratidão. JD

O PEIXE E A ESPINHA


Afonso Henriques Neto

engole o peixe com a espinha
e tocarás a guelra de Deus
aprende todas as palavras
antes de reduzi-las a Uma
ser infinitas palavras
não precisar de Nenhuma


De Restos & Estrelas & Fraturas (1975)
"Alta, alta e negra, de urna quase gigantesca altura, torso direito e forte, retesada na espinha dorsal como rígido sabre de guerra; colo erguido de ave pernalta, aprumado, gargalado e toroso; longos braços roliços, vigorosos, caídos, como extensas garras de falcão, ao amplo dos quadris abundantes e de linhas serenas, esculturais, de soberana estátua de mármore, — semelhas bem uma noturna e carnívora planta bárbara, ardente e venenosa da Núbia." 
(Cruz e Souza)

NOSTALGIA DO CÉU


Ei-lo que sonha, triste e só. . . Que estranho augúrio
A alma te agita, Arcanjo Negro? Que magia,
Que sortilégio, à dura abóbada sombria,
No Orco, te prende o chamejante olhar sulfúreo?
Que encantamento cabalístico assedia
Tua cabeça? Em que palácio, em que tugúrio,
À evocação de Grande Mago, no perjúrio
Presa ficou tua infernal figura esguia?
Nada de mais. . . Lembra Satã a imensa Queda
No boqueirão da Eterna Sombra que lhe veda,
Eternamente, eternamente, ver os céus. ..
Punge-o a saudade, a nostalgia, a funda mágoa
De estar (Satã já tem os olhos rasos d'água!)
Longe da Luz, longe do Azul, longe de Deus!
(Rezas do Diabo, pág. 1-1.)

VENCESLAU DE QUEIRÓS

(1865-1921)

PEDRA REJEITADA


Sofrimento que passei
na masmorra do Parnaso.
Amarguras que me deu
aquele palácio de Antipas.
Angústia de quem tem presas
as mãos em doze correntes.
Os meus pés foram apertados
em sete sapatos de bronze.
Quanto sofreram meus pés
na sala do mar de bronze.
Estive às portas da morte
no forte de Maquerunte.
Séculos e séculos fui Tântalo
na casa dos copos de ouro.
Passei por negros tormentos
na casa do altar dos perfumes.
Conheci de perto o Inferno
naquela casa fatal.
Suplícios que me infligiram
na câmara de Faraó.
Minha alma foi posta a ferros
na casa dos sete véus.
Torturas que padeci
na casa dos Macabeus.
Fui tratado como louco
na casa dos pavões brancos:
a minha inocência foi posta
numa camisa de força.
Felizmente fiquei livre
da sala da inquisição.
E hoje nem quero pensar
naquela Bastilha horrorosa
levantada por Herodes
com pedra de cornalina
e com uma vinha de ouro
pendurada em cima da porta.

(Sosígenes Costa)

EU

EU
Gritei irado.
O ódio reprimido.
Um urro angustiado.
Descobri o conflito interior.
Encontrei meus medos.
Redescobri os defeitos.
Tudo que jogo no outro.
SOU EU!!!
Não tem jeito


João Bello

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

PASSIO


A cegueira da paixão,


Aquela inconsequente e suicida,


De entrega absoluta, de irresponsável senso...


Temo que as frestas de minha visão estejam destrancadas
E agora, de olhos abertos,


Eu não consiga mais mergulhar nesse abismo sem fundo, de tantos perfumes e sensações devastadoras.


Já quebrei todos os meus ossos


E chorei todos os rios de desilusão.


A cegueira se dissipou e me atracou no cais,


Onde os pés se fincam firmes


E a razão é meu império de conforto.


Meu coração sente falta da deriva do desejo,


Do desconforto da espera,


Do alvoroço do encontro.


***


Meu coração jovial sabia ter cor na guerra.






Hérlon Fernandes Gomes (10/06/1981) é natural de Brejo Santo,Ceará

FOGO-FÁTUO



As paredes me assombram com o eco de tuas palavras,

O chão está coberto da areia dos teus sapatos

E eu tenho medo e preguiça de varrer o que restou de ti.

Os lençóis me iludem com o teu cheiro natural,

E a cama nunca foi tão grande e insone.

Meu corpo está marcado por teus beijos e carícias,

Arrepio-me quando me toco ao relembrar nosso ritual de amor.

***

O relógio se cansa para calcular o tempo que nos separa,

É preferível contemplar as estrelas

A medir florestas e desertos que nos distanciam.

Ainda assim, é tudo tão vivo de presente,

É tudo tão doce e palpável

Que esse futuro adiado me anima,

Esse destino de degredo não me desola.

Eu me cubro de esperanças,

Aceito viver de lembranças

E me acorrento aos fantasmas que restaram de ti.


 Hérlon Fernandes Gomes (10/06/1981) é natural de Brejo Santo, Ceará















OLHARES, RELÂMPAGOS, AÇOITES


Eu posso imaginar a umidade do teu perfume nu sobre a cama e a maciez da tua pele leitosa a iluminar a penumbra.

Eu desconfio que teu gozo acontece de olhos fechados, enquanto sorris de êxtase para o mundo.

Suponho que, nesse prazer, existe um silêncio de tua presença a dizer tanto de ti mais que se me descrevesses teus sentidos.

Ensaio meus dedos no ar, como a acariciar tua nuca e espalhar o feitiço dos teus cabelos negros pela madrugada...

Ah, se teus olhos pousassem nos meus, um pouco além do que um relâmpago de açoite, eu me instalaria para sempre em ti, penetrando teu insondável íntimo, e te roubaria para a terra da liberdade, onde pecado é ter medo de ser feliz.

***

Não haverá canto do teu corpo que eu não desvende com meus beijos;

Não transcorrerá segundo vago entre nós que eu não preencha de doçura, de quenturas, eternidades e explosões de encanto.



 Hérlon Fernandes Gomes (10/06/1981) é natural de Brejo Santo,Ceará














ENCANTO DO MAR


É quando dois olhos se seduzem

E se dizem coisas que não caberiam às palavras.

É quando o mar pertence a dois


E o sol nos ilumina, nos doura e nos enfeitiça.

E quando o beijo acontece,

Essas bocas sabem que já foram unidas

Em desejos e vidas esquecidas de eras longínquas.

***

Eu me deixo pertencer-te,

Eu te entrego todo o meu corpo para que seja teu

Nesse tempo breve e abençoado pela eternidade.

Não quero dormir, teu conforto é melhor que o sono.

Quero me perder em promessas impossíveis

Enquanto meus dedos percorrem os caracóis dos teus cabelos.

***

Eu ficarei sem ti...

Mas as estações me trarão toda essa vida quente com o mar

E em breve seremos nós, como agora, novamente sob o sol.


Hérlon Fernandes Gomes (10/06/1981) é natural de Brejo Santo, uma pacata cidade do sul cearense, da conhecida região do Cariri, um berço de cultura do estado.Começou a escrever seus poemas na adolescência, publicando os primeiros textos em jornais da região e periódicos do curso de Direito da Universidade Regional do Cariri, de onde obteve o diploma de bacharel, sendo inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, Subseção Crato. Paralelamente à carreira jurídica, o autor é amante da literatura, especialmente da poesia, de quem se diz “apenas um instrumento usado para transportar ao papel as emoções que podem nascer de todos os homens.”Em 2008, publicou seu primeiro livro, intitulado GEMINIANOS – POEMAS DE DESCOBERTA, de carga confessional, passional, em que o autor disseca, principalmente, os estágios de gozo e sofrimento do amor. Nesse mesmo ano, começa a escrever um blog, intitulado ARQUEOLOGIA DA ALMA (http://arqueologiadaalma.blogspot.com.br/), espaço dedicado a dar vazão à arte que lhe mina. LÚMEN – ENTRE OS MATIZES DA ALMA E DO CORAÇÃO é seu segundo livro publicado. Ao longo dos 150 poemas que compõem a obra, dividida em oito partes temáticas, o autor nos convida a refletir sobre os horrores de um mundo caótico, povoado pelo terror de guerras reais e do ego, do artificialismo do ser; mas, sobretudo, nos alerta para que não percamos nossa imorredoura capacidade de se apaixonar, de amar e de ter esperanças, sempre.
nasci com a pele de seda
e um coração de pedra
a beira-mar.
éramos eu e mim
um par.
meus olhos
da cor da folha do azevinho
só existiam para enxergar
mas meu coração te viu
e erodiu
em fragmentos inexplicáveis.
eras tudo e ave.

rosa ramos

Bárbara Lia


prestidigitadores...

a linha da minha mão é torta
diz a cartomante
em sonho
o grande pássaro voa
e o mágico faz desaparecer
canções de amor na cartola


Jussara Salazar 

E a lua ontem, quem viu?
Eu, com trilha sonora dos sabiás da Tiradentes.
Mais tagarelas que eu esss pássaros da praça da matriz.
No silêncio da madrugada, então...
Andar só, na madrugada, é a sensação de que levarei uma facada a qualquer hora.
Preciso vencer essa sensação de ameaça, ai posso pensar em fotografar.
Gosto, até agora.
A madrugada é sincera.
Encontrei Tiagão, visse, Cabuquinho Finno?

Comi um croassã, iansã, ali na excelência, onde pra mim o sonho acabou. Morei no Eldorado e no Brasilino Moura, dois clássicos edificios da região, Conheço essa região na madrugada há mais de 30.

Lina Faria
quando eu nascesse
eu te diria
quando eu crescesse
eu te olhava
quando eu empedrasse
eu duraria
quando eu derretesse
eu te amava."

RR

Meu cachorro, Tchekhov, com seu latido anunciava, visita indesejada. Deixei meu computador ligado, cigarro no cinzeiro, nem havia acendido ainda. Fui atendê-lo, era cobrador, mais um.! Demorei um bocado de tempo, é sempre difícil argumentar com massa muscular. Quando entro no meu escritório, vejo meu cachorro, sentado com duas patas no teclado, o cigarro aceso na boca, dando baforadas, ao me ver, levou um susto, saiu em disparada, corria como seu eu houvesse falado em banho. Para minha surpresa, olhei para tela do computador, estava escrito o titulo:
”Vida de cão” escrito em português, não em russo. Fiquei curioso pra saber o que ele pensava, seria fecundo para um escritor saber o que passa na cabecinha de um cachorro vira-lata, que come ração barata, e as vezes um ossinho aos domingos, por algumas vezes tentei deixá-lo só, mas ele nunca mais voltou a escrever, penso que sofreu um bloqueio literário.

JDamasio

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Sibir


Não Há Brinquedo De Menina ou Menino, o Que Existe é Brinquedo



Mamãe, por favor, não tenha medo
Porque não existe brinquedo
Específico para menino, ou, para menina
Mesmo que seja comprado na Casa China
Todo o brinquedo é uma estrela leve e fina

No espírito do céu de uma criança
Que cresce a cada vez que avança!
Deixe o menino peralta e sapeca
Brincar com uma simples boneca

Isso não faz o trem, à controle remoto, sair do trilho
Porque homem também consegue gerar um filho
Assim no futuro ele cuidará do bebê com facilidade
Pois na sua infância preparou-se para esta realidade!

Deixe a menina brincar com o carrinho de madeira
Porque mulheres também precisam dirigir
Uma dama no volante fica segura e faceira
Como a mágica curativa de um elixir!
Mamãe, por favor, não tenha medo
Porque não existe brinquedo
Específico para menino, ou, para menina
Todo o brinquedo é um instrumento que ensina.

Luciana do Rocio Mallon

FLORES VOTIVAS


Eu
não tenho
medo da morte.
Eu tenho medo quando uma coisa cai
e quebra
como porcelana,
seja uma velha amizade,
um novo amor
ou o sentido – fortuito – dos orbes.
Aí vem o vazio,
pior que a morte,
que não cola mais os cacos espalhados no chão.
Eu
não tenho
medo da morte.
Eu tenho medo da ode
inconclusa, da carta interrompida,
do beijo suspenso,
seja este poema – que em si nunca estará completo –
seja a vida, esta obra sempre aberta...
Por que o medo então,
se tudo é acidental
e acidentado? Por que não assumir de vez
que este medo – que me paralisa no trabalho, na fila do banco, no amor –
não é, no fundo, no fundo, o medo da própria morte?
Talvez seja
para não dar o braço a torcer
a esta velha desmancha-prazeres
que corta os brotos
antes das flores, ou, quando não,
colhe as flores antes dos frutos
– e as oferece ao Nada.

Olw

OFFICINA


sinto saudades da oficina de pedra do meu pai
do atelier de barro do meu avô
da roda d'água que movia a serra que parecia
cantar
do fole, de atiçar o fogo de forjar ponteiras
do pó, que encobriria tudo e corroeria pulmões
do chorume da terra e do ruído áspero
do metal contra a pedra
rostos e corpos que surgiam do barro que parecia
chorar
da erva doce que nascia no mato entre cascalhos
e flores
e lá no fundo o rio
vagaroso e barrento - primeira lição de poesia


nydia bonetti 

MAIS UM BLUES


um blues na cabeça
um aperto no peito
e uma sede animal
este é meu destino
vagar pelas ruas
sem rumo
sem rima
sem metro
só pra ver se te vejo
num bar
num beco
ou na sombra
das cortinas
de tua janela
olw

Inspirado num poema de William Teca.
Era vaidoso! Vestido de terno azul marinho, presente do filho que nunca usara, esperava uma ocasião especial, sapatos engraxados pelo netinho, camisa engomada; mimo da esposa, cabelos penteados carinhosamente pelas mãos da filha. Era religioso! Estava aprumado para ir ao encontro de Deus. JDamasio

MESES ÍMPARES DE UM ANO PAR


meses ímpares
de um ano par
que passou
dói lembrar
aqueles dias
em seguida
trinta e um dias
cravados
no ímpar
na overdose dos doze
esses são
os meses não
meses contados
no osso do soco
de um ano par
que passou


Ricardo Corona
Adriana Zapparoli

- porque as flores são gestos no óbito ... e o choro um jeito de cloreto de sódio...
no fuera en verdad.
Ricardo Chacal
o corpo diz sim
a cabeça diz não
a cabeça, pois sim
o corpo, pois não
.
chacal - 07-09-14. hoje..
.
peguei o mote desse poema do eduardo galeano:
"a igreja diz: o corpo é uma culpa.
a ciência diz: o corpo é uma máquina.
a publicidade diz: o corpo é um negócio.
o corpo diz: eu sou uma festa".

a mídia é uma mulher histérica


a mídia é uma mulher histérica, barraqueira, que se faz de doida. se voce quer interná-la, ela grita por liberdade de expressão e coloca seu nome na boca do sapo. ignorá-la é impossível diante do barulho que ela faz. ela é do mal, só faz o que as grandes marcas, que a bancam, querem.
essa história da Petrobrás às vésperas da eleição, foi cantada alguns meses atrás. repliquei aqui um post sobre o assunto que dizia da obsessão do grande capital pelo pré-sal. é muito óleo pra ficar em mãos alheias. por menos, invadiram o Iraque. então essas empresas iam investir pesado nessas eleições para tirar o PT do governo e colocar alguém que privatizasse de vez a Petrobrás.
Aécio meteu o nariz onde não devia e foi descartado. Marina tinha um bom perfil e com o acidente(?) que matou Eduardo Campos, se tornou a protoganista surpresa dessa eleição. ela já se declarou aberta a tudo e a todos. é fiel ao neoliberalismo e sua seita evangélica. a mídia cabe fazer o de sempre. bater sino, tocar tambor e desacreditar Dilma, seus aliados e a Petrobrás. dinheiro não falta. a mídia gargalha e quer mais.
por mais que voce pare de ler jornais e ver televisão, a mídia pauta a tudo e a todos nas redes sociais, nas conversas de botequim, na vida. se ignorá-la é impossível, que nos sirva de balizamento. já que as informações para se criar um juízo crítico, são sempre distorcidas por ela, não votar em quem ela (as grandes marcas) apóia. votar em candidatos e partidos que ela ataca.

(ou será que esse mundo não tem mais jeito mesmo, que tanto faz votar num como noutro e que o melhor que se tem a fazer mesmo é inventar do zero outro mundo dentro desse e acreditar que esse em que vivemos agora, não passa de uma obra de ficção).

Ricardo Chacal

Bucólica


MANHÃ parece que nasceu do teu riso,
do teu riso de pássaro ou de fonte.
Vibram na tua voz trilhos d'água fresca,
d'água que escorre por entre avances e samambaias.
E as tuas mãos são duas borboletas brancas
voando sobre papoulas e tinhorões,
voando no luz de manhã...

- Ronald de Carvalho, no livro “Epigramas Irônicos e Sentimentais”, 1922.

http://www.elfikurten.com.br/2013/01/ronald-de-carvalho-uma-travessia-poetica.html

Os bastidores do crime



Luz para Curitiba!!! Terra onde viveu Guairacá; passou o Cabeza de Vaca a caminho das Cataratas do Iguaçu; foi visitada por Saint'Hilaire; por quem morreu o Barão do Serro Azul (assassinado)... Por onde caminham tantos anônimos pela Rua das Flores, pelos parques, praças..., sem falar dos ônibus lotados...
Luzes, para os que se envenenam com drogas a luz do dia; e, para alguns que, usufruindo dogmas, para auxílio moradia, ou, outros benefícios, sem "teto/tento" (senso?), não se veem como avestruzes.
Luzes para os grandes condomínios de luxo que ocupam as áreas nobres e, aos cinemas apenas em shoppings. Na periferia já tem funk ostentação.
Luz para os ótimos espaços culturais ainda acessíveis. Mas, não fechemos os olhos para os
que fecharam: Cines Hitz e Luz, Casa Andrade Muricy, Casa João Turim, a Feira do Poeta...
Luz para todos nozes, piás e gurias da terra dos pinheirais! Todos fazemos algo acontecer de bom ou não a cada momento e, não somos tão insignificantes, formamos um todo.
Luz para os Escritibas na rua , escritores que se uniram e saíram para a rua vender seus livros!
Luz para quem construiu uma praça com as mãos, no centro da cidade, para todos e ciclistas.
Luz para os meus pinheiros, plantados em vasos reciclados, na varanda do apto alugado, onde ainda tremulam bandeiras que foram facilmente encontradas durante a copa.
Os brotos verdes já estão surgindo nos vasos  não sei se verei, mas virarão árvores
Luz para Curitiba e nozes dos pinheirais

A.G (08/09/2014)