sexta-feira, 22 de agosto de 2014

 Bárbara Lia ·

Nasci sem velcro. Não grudo em nada e em ninguém. Quando me apaixono, detono tudo, pra seguir só. Nasci e andei sem companhia desde os... Três anos? Minha primeira fotografia assinala uma vida inteira: uma menina descalça em uma rua, sem ninguém... Amo estar só. Sou só. Acho que sou um corpo estranho em todo lugar. Estrangeira, sempre. Nasci sem velcro. Ainda tenho três anos e estou descalça no mundo, e isto parece triste, mas, tem um universo inteiro aquém da testa da menina... E quem tem um mundo pode ser que não goste deste além da pele, sei lá... Só acho que felicidade e amor e vida e família e esperança, estas coisas pelas quais todos lutam, pra mim tem um rosto que difere do que pintam... Por conta disto descartam-me. Alguns familiares, velhos “amigos”, poetas, os amores de antes e até o que ainda queima sideral nas veias, aquele homem da semana da neve... Sou eu e meu silêncio, e dentro eu recordo que nos poucos momentos em que fui um deles - e tinha companhia, quando olhava nos olhos e quando fazia amor... Eu era terna e suave. Romã de núpcias, nuvem de Picasso, céu baunilha, perfume lavanda de enxoval de bebê... Eu sempre fui assim, delicada, simples... Quem me vê tão só faz este juízo de aura malévola. Pessoa horrível. Não é nada disto. É que nasci sem aderência, acho que tenho asas, acho que ainda tenho três anos, estou descalça no mundo e sou minha própria casa.

...BL sem velcro, desconectada neste mundo mais que atado...

quinta-feira, 21 de agosto de 2014


Moscou, ano 1991 ITAR-TASS/Igor Utkin

ALICE

tenho muitas deficiências. não sei inglês. nunca li deleuze. sou disléxico. tenho deficit de atenção. sorte que a onça pintada me lambeu e disse: vai ser poeta, miroslávio. senão o q faria da vida? burocrata exige atenção. intelectual, deleuze. publicitário, inglês. carcereiro, crueldade. acho que poderia ser carteiro. ou feirante.
***
ALICE
eu sempre fiz teatro
eu sempre vi teatro em tudo à volta
trezentos e sessenta graus de truques
a humanidade é
adoráveis artimanhas admito
engenhosas situações a nos envolver
me tranquilizo em saber
que aprendi a abrir
consideráveis picadas
com meia dúzia de estratagemas

(letra elétrika - chacal - ed. diadorim - 1994)

O QUE ME DIZ

Sou a sombra que se estica, rebelde, deformando minha silhueta. O sol se pondo e eu me misturando à escuridão. Ah, mundo cruel, eu tão bonzinho e a constelação se oferecendo toda, tão perto, tão longe do meu primeiro beijo! Leia no primeiro comentário, quero saber o que você me diz.
...
O QUE ME DIZ

fedendo flores ainda
estou no mundo
e a vida é bem-vinda

andando em círculo
sobre o picadeiro das palavras
armo meu circo

a quem não entende picas
estas são rimas pobres
aquelas, ricas

respeitável público
jogado na lona
um artista único

ladrão, tarado, vigarista
plagiador nato
criminoso que sempre deixa pista

diz-se poeta, o cínico
à luz de velas dentro da noite
já é um caso clínico

frases, versos, gemidos
no céu vê letras, e não, estrelas
a elas deu todos os sentidos

noites e mais noites, todo santo dia
nenhum outro assunto
entre o êxtase e a agonia

foi-se o viço bonito
a pele clara, lisa e limpa
o dente jogado no lixo

bem que a mãe dizia
“prepara uma boa cama e deita-te nela”
no tempo em que eu não dormia

hoje só sonho, dormindo ou acordado
poemas que ainda devo ao futuro
ou lembranças que deveria ter enterrado?

sei lá! quando penso nisso me emociono
primavera, verão, outono, inverno
um dia, quem sabe, eu estaciono

antonio thadeu wojciechowski

...

Em Verso

Em Verso
Andar pelo avesso
Como quem se estranha,
O eterno inverso,
O outro lado, a solidão.

Caibar Magalhães

Dizem que sou PALAVROSO. Curitiba, 2014.

POR CONTA PRÓPRIA



como eu poderia imaginar
um dia, ia deixar o tempo passar
minhas células indo pela sombra
as pernas frouxas, nenhuma festa de arromba

como eu poderia pensar
o mundo jamais vai desaparecer no ar
minha matéria atrai matéria bruta
a rima eu sei bem quanto me custa

como vocês podem perceber
não estou aqui para pagar nem receber
a porta, minha gente, já não importa,
se a cena não agrada: CORTA!

como a vida não tem replay nem edição
aproveite os melhores momentos, viu, coração?
onde as mulheres põem óvulos
os homens são abduzidos por óvnis


antonio thadeu wojciechowski

Lendas das Barbies de Vodu


A boneca Barbie tem muitas lendas urbanas, leremos algumas abaixo:

A Barbie e a Garota Masculinizada:
Em 1984, dona Laura era uma mãe muito preocupada com o comportamento da sua filha, Flávia. Pois a garota falava grosso, cortava os cabelos muito curtos e gostava de esportes considerados violentos como o futebol e as artes marciais.
Como naquela época existia muito preconceito e homofobia, esta menina sofria muito bullying na escola, o que desesperou mais ainda a sua mãe.
Então Laura levou a filha em vários médicos. Mas, como não encontrou o resultado esperado, resolveu consultar uma feiticeira. Assim, a bruxa pediu para que a mãe da garota trouxesse uma boneca Barbie, que ela faria uma magia no brinquedo e depois do ritual Laura deveria esconder a boneca.
A mulher obedeceu à “curandeira”, que pegou a boneca, fez um estranha magia e depois entregou o brinquedo para Laura novamente.
Quando chegou a sua residência, esta senhora escondeu a boneca dentro de um baú que estava em seu quarto.
A partir daquele dia, Flávia foi mudando o seu comportamento pouco a pouco. Primeiro ela comprou um vestido, depois pintou os cabelos de loiro e passou a ser mais delicada.
Alguns meses depois, esta adolescente transformou-se numa verdadeira Barbie.
No dia do seu aniversário de quinze anos, Flávia estava deslumbrante com o seu vestido de princesa todo cor-de-rosa. Porém, no meio da valsa, a jovem teve uma espécie de convulsão, desmaiou no chão e sangue começou a sair de todos os seus buracos.
Deste jeito, Laura entrou em casa e telefonou para a ambulância. Mas, ao passar pelo seu quarto, viu o baú aberto e ao seu lado, um cachorro rasgando a Barbie com os dentes.
A Barbie e a Acidentada:                                                        
Este outro relato abaixo foi contado pela minha amiga Déborah Abrãao:
Era uma vez uma moça chamada Cláudia que estava noiva de Rodrigo, o melhor partido da cidade.
Mas o que ela não sabia era que Vânia, sua melhor amiga, também era apaixonada pelo seu amado.
Um certo dia, Cláudia estava atravessando a rua e, de repente, foi atropelada. Quando chegou  ao hospital, ela precisou ter as duas pernas amputadas. A moça ficou tão revoltada que dispensou o próprio noivo.
Um ano depois Rodrigo casou-se com Vânia. Naquele mesmo mês Cláudia resolveu ir até a tenda de uma vidente e perguntou-lhe:
- Por que eu tive que ficar aleijada?
A sensitiva jogou cartas de tarô e respondeu-lhe:
- Isto não era para acontecer com você. Pois a sua colega que casou com o seu ex-namorado fez feitiço para você perder as pernas.
A moça duvidou:
- Isto não é possível. Pois, ela sempre foi minha melhor amiga.
Então, a vidente explicou:
- Tenho como provar:
- Vá até o jardim do cemitério, que ao lado do jasmineiro há um vodu enterrado que foi feito para você perder as pernas.
Naquele mesmo dia, Cláudia foi ao cemitério, pegou uma pá e retirou uma caixa que estava enterrada ao lado do jasmineiro. Porém, ao abrir o recipiente, viu que dentro dele havia uma boneca Barbie sem as duas pernas.

Luciana do Rocio Mallon
Luiz Felipe Leprevost


falam tanto do ego dos artistas, mas ninguém fala do ego dos políticos... puta que o pariu, que atores ruins. não são menos que ridículos aparecendo na tv. e o que dizer dos seus marqueteiros? bando de canalhas, almas sem luz. e que vergonha completa um monte de artista que conheço puxando o saco dessa gente e ou tirando proveito em benefício próprio. oportunistas. todos são então os mais críticos, críticos vorazes, sempre dos outros, claro, nunca daquele que os beneficia, este é imediatamente colocado no lugar de santo. a política no Brasil é o mais escancarado e o pior fetiche
Não posso falar dos barcos
Que somem no colo do mundo
E que pescam peixes e saudade.
Não posso falar dos que não amei
Pois não os conheci inteiramente
E nem os tive em mim por pura paixão.
Não posso falar das nuvens
Pois elas caminham demais
E nunca são as mesmas que foram de manhã...

Eu sou um pequeno moleque inseguro
Que guarda todos com muito cuidado
Dentro de sí..
Talvez essa seja minha meninice.
E quando vejo os barcos partirem
Vejo também que não posso falar sobre eles..

Eu sou um menino com olhos de bicho
Nascendo de novo a cada paixão
E a cada poesia...
MF


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Priscila Merizzio


Recebi um e-mail que deixou-me bem pensativa. Tranquilamente, muitas pessoas gastam dinheiro com celulares caros, contas telefônicas, cervejas, cigarros, maconha, restaurantes, roupas de marca, artigos supérfluos e etc. Na hora de ajudarem com patrocínio para projetos artísticos ou de comprarem um livro de R$35 ficam reclamando que não têm dinheiro. Cada um compra o que quer e o que pode, afinal, somos todos livres e temos nossas prioridades. Também não banco aqui a rancorosa, banco a lúcida. Entenda quem tiver sabedoria para. A quantia de gente que me pediu exemplar gratuito de Minimoabismo (ed. Patuá, 2014) não está no gibi. Logo que falei que lançaria um livro, brotou pedinches de lugares inimagináveis. "Me dá um livro?". Eu disse, pacientemente e automaticamente que não, não poderia dar meu livro porque sairia do meu bolso ou da editora. Recebi caras feias de todos os lados. Não querem comprar, não comprem, até porque, sou mascate de mim mesma até certo ponto. Agora, ficar pedindo exemplar? Minha família e alguns amigos viajaram de fora para participarem do lançamento e compraram exemplares. Quero dizer, não dei livros nem para minha mãe, que em nenhum momento pediu exemplar para ela, aliás, foi uma das primeiras a dizer que compraria livros para me ajudar, se assim precisasse. Pelamor!

Veleiro


- Damáris Lopes -

Qual balanço perturba e nauseia
Um corpo que ao mar se lança
É a vida que usurpa e incendeia
Escaldante sol a sua semelhança.
Nuvens descem do celeste azul
Freqüência da bússola se perde
Coerente não é mais norte ou sul
Nem meu eu divisa minha verve.
Marés cheias, famintas e variáveis
Torturam ferozes a voz da prece
Veloz o vento benfeitor da vez
Forte ar que também carece.
Num sobe e desce sem fim
Ondas querem veleiro tragar
Batalha travada no sal, enfim
Vencerei eu, céu ou mar.
A correnteza do mar é artesã
Sua força e leis, objetiva
A vela exausta, figura vilã
Falha e me conduz à deriva.
Tomara que ao leme desta nau
Traduza eu, desígnios da navegação
Suporte meus medos, absorva degraus
Sublimize o naufrágio à salvação.


Ricardo Aleixo


Encontro o amigo de infância próximo ao supermercado. Ele me pergunta se estou indo às compras. Eu: Sim, vou comprar coisa pouca, alguns víveres. Ele ri da palavra e diz que eu não mudei nada. E eu mudei foi muito, ele nem imagina o quanto.


● derek jules gaspard ulric niven van den bogaerde ●
● chegou bem perto do meu ouvido e sem vergonha disse ●
● "chegou a hora q todo bom espectro reconhece e deseja" ●
● no momento não compreendi ou não quis compreender ●
● mas uma parte de mim compreendeu perfeitamente ●
● e bem mais não apenas compreendeu como sabia ●
● como sabem todos os q sempre me conheceram ●
● e sabe derek jules gaspard ulric niven van den bogaerde ●
● q havera um momento em q eu enfrentarei tudo isso ●
● recordei q havia uma carta do meu pai ao meu avo ●
● em q ele desenvolvia tudo o q todos sempre souberam ●
● e q derek jules gaspard ulric niven van den bogaerde ●
● teve a coragem de me dizer assim ao pe do ouvido ●
● como se ninguem soubesse e nem eu desconfiasse assim ●
● q vi derek jules gaspard ulric niven van den bogaerde ●
● abrir a porta e vir daquela maneira ao meu ouvido ●
● como se fosse bem mais q um amigo um irmão da vida ●
● q não bastasse o q nos unia e tambem o q nos separava ●
● não derek jules gaspard ulric niven van den bogaerde ●
● ele não os outros sim e sim e jamais desconfiei disso ●
● ate mesmo depois q ele se curvou e disse o q disse ●


Alberto Lins Caldas

*
é uma cantiga só
de um poeta na estréia
nasceram bibi e dodó
as flores da paulicéia
a mãe é flor amorosa
o pai, violão, bandolim
uma com a face da rosa
outra com a cor do jasmim
bibi, beatriz, abelha
dodó, de caymmi, dora
uma na ponta da telha
outra na pele da aurora."

(ciranda)


RR

ENQUANTO LIDO



quer coisa mais estranha
que um poema
enquanto nasce? enquanto
se contorce
desprovido de sentido?
enquanto pura pele
muito lisa e sem
memória? enquanto
ao mesmo tempo
excesso e falta?
enquanto vísceras
à mostra?
enquanto ar
ritmia?
enquanto riso
besta? enquanto
rua de mão dupla?
enquanto
beco sem saída?
enquanto rosto
informe?
enquanto afasia?
enquanto líquidos
no ventre?
enquanto visão
de vultos? enquanto
respiração
difícil? enquanto plena
hesitação?
enquanto impulso de
desistência? enquanto
vermelho sangue
aos jorros? enquanto placenta?
enquanto rigor
mortis? enquanto dia
claro?
enquanto noite adentro?
enquanto sem
futuro?
quer coisa
mais estranha
que um
poema enquanto

lido?

Ricardo Aleixo

Adriana Zapparoli



- é que eu sou casada oficialmente com a minha profissão há mais de 20 anos; mantenho uma relação estável com a literatura, essa é minha amante oficial há mais de 10 anos, que traio sempre com outras artes, mas acabo voltando; todo o resto em minha vida (não menos importantes) são os meus amores em hiatos que eu os mantenho sempre em uma relação complicada.... ai.ai. nessa ordem. viver é bom.
Na fila do mercado do sábado, a minha frente uma família, casal de meia idade e um menino de uns dez anos. O carrinho de compras abarrotado, tipo compra do mês, mercadoria básica. Não pude deixar de observar, afinal estavam logo a minha frente, contei os pacotes de bolachas recheadas, havia três, duas de bolacha Maria, duas latas de leite condensado, uma de creme de leite uma lata de pêssego em calda, uma bandeja de iogurte, o da promoção! Havia também um bom pedaço de carne, peça inteira de posta vermelha. Não sou bisbilhoteiro, mas o tempo passa depressa e a fila anda mais rápida quando calculamos as compras dos outros. Enfim, chegou à vez do casal, depois de passarem o pedido do carrinho e o chocolate da mão do menino, tentaram passar o cartão, uma, duas, três vezes, trocaram de cartão, uma, duas.. Trocaram de maquina, não adiantou o problema não estava na senha e nem com o sistema de informática, mas com o saldo bancário. Um depósito que não caiu, uma conta cobrada antes do prazo, sabe lá. A situação era de fato constrangedora, percebi os olhos olhar de reprovação da caixa. Senti como se fossem voltados para mim, empatia com os personagens fictícios ou reais, coisa de escritor. Lembrei de Dostoievski: ”escrever é sofrer”, realmente ao exercitarmos a empatia, vivemos a vida, as dores e alegrias dos outros. Sofri com a situação, fiquei olhando o casal saindo com andar sem jeito, a criança sem o chocolate na mão, o que fazer? Pera aí Senhor! Deixe que eu pago as compras. Não tenho recursos, poderia estourar meu cartão também, ou: “Menino deixa que eu pague seu chocolate”, poderia aumentar ainda mais a humilhação para o casal, seja como for fiquei sem ação, minha vista seguiu aquela família até a porta do mercado, para depois pensar qual seria o almoço de domingo daquela família. E a sobremesa?
JDamasio

Rascunho da noite de domingo

domingo, 17 de agosto de 2014


calço uma bota de luz não deixo sombras rastros
chegasse ao fim da eternidade, entro nela
eternos na memória de não termos havido
dinossauros e protozoários são da minha família
também é peixe pássaro nadando o céu profundo
fundação sino mais agudo que o som
seres saltando fugidos do mar
e o vinagre do sangue no suplício do martelo
e alma horripilada no escuro da dor
estar preso na coleira d´outra liberdade
um galo saísse do terreiro mas em cativeiro o parto do dia
quando me vir, o outono luto das flores
venta a saudade desfolhada, rebolam as luas
desafiam a mandíbula do orgástico rasgo
e arranca o querer-muito a língua-arpão do domador Naufrágio
o seco e o frio se escondem se entregam se escondem outra vez
quem é que não é lugar para firmar
desvendar me incendeia, poças de suor ilhas de vapor
cheia mata de depois que eu chegar sou também e demais
e de tanto que quis e não quis eis pássaros em nuvens xucras
a maçã madura da queda o escombro de dentro da mulher
quem chega ao fim, entra nela
para nasce, entra nela
o amor vai só se até

Luiz Felipe Leprevost





ninguém dá o mínimo de crédito para bailarina, porque ela ainda está dançando com intencionalidade como fosse um animal doméstico. um animal doméstico feroz, é verdade, mas ainda assim. acaba que vai aprisionada nesse esgoto. tanto esforço, não houve pensamento de humanos que dançassem em comunhão com seu ocaso íntimo, toda a eventualidade fora premeditada. os pensamentos que a assistiram não puderam ser domados, libertados nem nada. as coisas permaneceram exatamente iguais no já diferente. o tempo não passou, apenas os segundos. como se a beleza da ação houvesse funcionado instrumentos de tortura para platéia a que então se dirigia, agora emancipada da insônia da bailarina em suas cadeiras, cadeiras, aliás, das quais não saíram nunca. pensar que as cadeiras são o colo de Pina Bausch faz a bailarina prosseguir.

Luiz Felipe Leprevost
da série Fazer teatro a qualquer custo 1
claro que era prestidigitação
poéticas da voz
enrola a língua, perereca
a vida mais humana quando humano
amarra a boca com caqui
carrancudo mudo boludo feito fiscal
cheio de óculos na cara
vi além, vê
a poesia é Erro
até ficar rouco, rouco até perder a voz, perdida a voz, continua o berro
chamar enxame, não vexame
becape dos pensamentos fugidios
a música mais linda que já na vida
o Mick Tayson tem dentro da gente
Sainkho Namchylak
a arte não representa
fotografa sotoque típico
pedras anunciavam o réquiem
beijo sonso
suspiroso de nuvens se armando
arranca a boca da dor
se pode mudar o mundo se me pergunto se a arte pode mudar

não era prestidigitação

Luiz Felipe Leprevost

da série Fazer teatro a qualquer custo 2


as platéias ávidas por vingança
estou um ET
o que seria dele, hein, com uma produtora
ninguém é burro só o burro
ponto de vista tem lá a indústria
tenho uma boca dentro de mim
abraçar o mundo com as pernas
atrapalha a entrada do público
cara-a-cara com você, esgoela
o texto sentado no banquinho
a dança faz bobagem
na região dos médios, indo pros médios-médios, médios-graves, graves
farelos de voz rouca tombada na garganta
sou um dissidente paralisado
convida alguém da platéia, é o Loutreamont
na gaiola?
as feridas que se foda não são tão somente as feridas que se foda
melodioso-melancólico
voa, rola, vai, ribalta
búfalo nas coxias
acontece que sou pacífico
inscrevi meu aniversário no próximo edital da Lei de Incentivo
por 42 horas o riso frouxo
a fisionomia radicalmente da primeira pra segunda investida
tudo testa, sobrancelhas, olhos, nariz, desenho dos lábios, bochechas, queixo, pescoço tudo
minucioso cuidado na mera estripulia facial
não se convenceram críticos os críticos
beto bruel o cara que ilumina o ator por dentro
as Bagunças davam trabalho, mas não nos era penosa a convivência com as Bagunças

médios, médios-agudos, agudos, agudíssimos

Luiz Felipe Leprevost

da série Fazer teatro a qualquer custo 3


insinue mas não mostre
compra é venda
vida daquele que perde o tempo daquele que perde vida quando quando perde tempo
bufões os metidos à sinceros
desrespeito metódico às disciplinas
checar o fim do mundo
que são geniais, idiotas
da genialidade à ignorância limiar transparente, indeciso
arrogância das listas
rosto rosto rosto até a máscara não mentir mais
o nome do pai é decolagem
ao passo que carregava pedras (e não uma única pedra que rola novamente para baixo e faz da existência maldição) ao topo da montanha, aumentava o tamanho dela. o trabalho não era o de carregar pedras, mas o de confeccionar uma montanha
vai-se construída simultaneamente vai-se desmanchando
que só os Silêncios capazes de conceber filhotes de Silêncios, formá-los cultos, doutos Silêncios. no entanto, a dificuldade de compreender o modus vivendi dos Silêncios na constatação de que os mestres sábios dos Silêncios são Silêncios, mais que quietos, mudos, mais que mudos, sem língua
cortinas tesudas pedindo me levante, venha ver o que aqui
a gente sempre acha que os bichos do mar são descerebrados

Luiz Felipe Leprevost

CACTO & JAZMÍN


Busco equilibrio entre el cacto y el jazmín.
Silencio abisal de desiertos.
Ruidosa calle de piedras.
Soy siempre: Soledad o multitud.
La voz cristal de Dios me aterra
Mi corazón una gruta
Con espinas de cactos.
Con perfume de jazmín.
En el tendal del alma
El aviso:
Aquí yace la perfumada ilusión.

Bárbara Lia

duas pequenas histórias

duas pequenas histórias (a primeira inspirada em post recente da Aline Roman e também já um pouquinho modificada por sugestão dela, as outra duas eu já tinha publicado aqui) que aconteceram na livraria Saraiva e uma na rua, quando eu tinha acabado de sair do shopping em que fica a livraria. talvez sejam o começo de uma série.
1
um dia eu tava estudando no café da saraiva, ali no cristal... quando fui pagar a conta, não tava comigo a minha carteira. ou perdi ou esqueci em casa, pensei. liguei então pra casa e tava lá a carteira, tinha mesmo esquecido. enquanto explicava a situação pra moça que trabalha no café (e sei que ela não teria problema em me deixar pendurar pra pagar depois), um senhor que ali estava levantou e me deu duas notas de 50 reais: pegue, assim você paga aqui e ainda pode seguir a noite. que é isso, não posso aceitar, eu disse, a gente nem se conhece... e ele: e daí que a gente não se conhece, estamos nos conhecendo agora, vá, não se acanhe, você precisa do dinheiro. peguei os 100 reais, paguei a conta e ainda "segui a noite" como recomendado por ele. dois dias depois, voltei ao café e deixei o dinheiro e um bilhete com a moça do café pra que desse pro senhor quando ele retornasse. nunca mais o vi, mas a moça do café disse que entregou a ele o pagamento da dívida e que ele sorriu dizendo: não precisava.
2
domingo, final de tarde. eu tava vendo uns livros na Saraiva. dois senhores lado a lado num daqueles sofazinhos. 60 e poucos anos a dupla. um, calça social e camisa, mais pro gordo, loiro, falava em tom baixo. o outro, calça de jogging bem surrada, magrão, barba por fazer, óculos de grau estilo aviador. o gordo mostrava pra ele um livro de culinária, com voz de proctologista apaixonado: ó, cada bolo de dar água na boca. e o magro, mais histriônico, só concordando sempre: é, é, uhum, de dar água na boca, uhum. mas eles não pareciam um casal não. o gordo me achou bonito. e em seu tom falso discreto: que rapaz bem apessoado, não... largo... cabelão. sim ele me secava da cabeça aos pés e, pro amigo: ó, camisa aberta no peito, sandália de dedo. e então o magro: lindo mesmo, parece um búfalo.
3
tô saindo do cinema agora há pouco
(aliás, recomendo a comédia Amante à
domicílio do John Turturro, com ele
e com o sempre brilhante Woody Allen) e, como de costume
entro num papo com C o guardador de carros da
Alameda Presidente Taunay
lá pelas tantas ele me sai com esta: quer saber, vou
pedir pra Santo Antônio escrever bem certinho assim
com as palavras no capricho numa folha de papel
querido padroeiro faz o favor aí de conceder a graça
pro seu amigão de eu ter uma mulher bonita
carinhosa que goste de foder gostoso e não fique
perdida nesse mundo cheio de confusão maldade
e a coisarada toda injustiça e tals e que ela cuide
de mim e ó pode deixar que eu cuido direitinho
dela minha mulherzinha 25 anos saca sem
problema sem problema sem fofoca
e eu: será que tudo bem pro Santo Antônio atender
o pedido com este "que foda gostoso e tal"?
e C: claro ué
ou você acha que o Santo também num gosta?
e ele ia ficar unindo os casais pra que então?

Luiz Felipe Leprevost



o que eu diria a atriz, assim de última hora


o que eu diria a atriz, assim de última hora
em poucas e sôfregas palavras

você é indescritível. poucas vezes vi algo igual. preciso do seu olho, ele muda de cor conforme diz o texto. preciso o que está por trás dele. a platéia quer conhecer o estômago, o fígado, o cruel e subjetivo que vivemos a esconder. o cérebro faz parte das entranhas. é o momento de agir o seu ser que jamais antes. cada ação estréia o inédito. nada aconteceu antes no mundo. nem uma máquina de ressonância saberia revelar o que você está revelando. maravilhas conforme a peça avança. dê as mãos dos olhos à platéia. e os braços da voz. exponha cada detalhe do processo a cada vez que o diafragma, os alvéolos. dê vazão ao debaixo dos teus pés, os anjos que ficam por lá batendo pra que o palco não seja precipício. filtro, o seu corpo. corrente sanguínea, o que o inferno reconhecido na beleza. você se alimentou bem? não tenha dó de nada de si mesma. também é escuridão na poltrona marcada. mastigue a platéia que mastiga a cena, ossos não passem de papinha de neném. sem escafandro ou bóia salva-vidas vá no sangue da platéia emancipada. cada um mãe desse momento. memórias distintas e nos mesmos antepassados. há um pacto irretocável, indestrutível, absurdoplausível, chamados do selvagem. a peça depende mais que. o teatro está flutuando de tanto que a terra se abriu. anjos se proliferam. você tem o ser nas costas. proteja os calcanhares. a fala é fêmea.

Luiz Felipe Leprevost

CATEDRAL DE VIDRIO


Reverso y derecho, todo es lo mismo.
Diciéndolo así quiero decir
Que es dentro y fuera
Sol y superficie.
Un espejo que
Refleja de los dos lados.
Una catedral de vidrio.
Ángeles azules exiliados del eterno
Vinieron a ti y se pegaron
A tu rostro, a tu voz,
A tu terreno corazón, que amo.

Bárbara Lia

sábado, 16 de agosto de 2014


Há três de mim. Há o cenário. Uma igreja pequena. Os atores. Pálidos e mumificados ouvindo a voz do pregador. Há um perfume de incenso e há um coro que só canta quando o pregador acena, levanta a mão, maestro tosco. Há um ranger de madeira de bancos velhos, mas não ouço o ranger de almas. Minha alma range desde que eu era menina. Hoje vivo à direita de mim, livre. Já escapei do cenário. Eu disse – Há três. Uma que todos veem em pé, esgueirando-se pelas paredes onduladas do templo. Uma que está ali sem estar, a viver como uma obrigação, para não ferir quem a ama, fica ali, ouvindo as pregações. Ajoelha, arrepende, reza, comunga e até canta. Há aquela que está no limbo. Uma névoa líquida fria e esponjosa que envolve em uma dança estranha, quase bonita, quase assim aquele retrato de Isadora Duncan. Voando entre o tecido, linda. No limbo não sou feliz, no templo não sou feliz. Só a terceira que esgueira para fora e explode o peito de ar limpo e azul, esta que ninguém vê. A invisível. A invisível é feliz, esta que ninguém conhece. Que ninguém chicoteia como ao Cristo. Que ninguém julga: Pilatos aos borbotões. Esta que ninguém prega na cruz. A que as suas sementes conhecem e a amam. Aquela que o amado tocou, em silêncio. A terceira é o ar o azul o pássaro a cópula o colo maternal a misantropa. A terceira que ninguém conhece. A terceira que só os que amam conhecem. O frio ondulado das paredes causa artrite. Toca o sino e a hóstia é erguida. Sacrifício. Vou ter que ficar aqui.


Bárbara Lia 2014 / escritos artesanais
sinuca de bico. sinuca de boca quente. quase 5 da manhã e eu entro no bar errado para a coisa certa :foder-me sem muito esforço.Com os olhos embriagados e o corpo devoto a perdição da alma, eu se algo de mim restava naquelas mal paridas horas, olhei no olho do abandono e esparramei as bolas no tapete verde da mesa de bilhar, desarrumando o jogo dos conhecidos e amigos. urrando aos quatro ventos o confuso  confundido. amigos a parte, tudo resolvido, quando, o dono do incerto recinto, bar, portal, túnel para prostíbulo: casa noturna que abre as 4 da manhã: me encarou bem de perto, parecendo querer conversar? Foi quando me arrebentou o ouvido de uma pancada só e eu em impulso o grudei em uma parede e fui arrancado dela por dois truculentos e leais guarda tudo do lugar. os amigos estavam assustados. deviam ter ficado em casa.Com o ouvido atordoado sai e falei tudo que tinha vontade para os covardes e fui fechar mais um estabelecimento às 7:00 da manhã.

Ml e uma noite com vodka quente - Julio Almada
Mil Risadas por minuto. Mil Desgraças insólitas e tiros no absurdo. Tiros a queima roupa .Tiros a flor da Pele. Mulheres com gosto de não te curto. copos voando balcão afora .o dono do bar te golpeando com insultos, embora a costa esteja paga. Homens que são mulheres desde o berços, loucos para te dar um beijo de mulher-aranha. O Tesão de  alcool é algo que nos engana. Esperança de junkie é durar muito a próxima dose. converso sobre política, arte, filosofia, a menos de 2 metros de uma carreira bem sucedida de pó de nostalgia e outros artigos voláteis. Saio do bar de cams de gato e ganho um belo abraço de tamanduá. Tento chamar um táxi e constato: meu celular agora terá outro dono. Lembro das costas tatuadas dela, nas fotos deixadas na memória do telefone roubado.

Mil e uma Noites de vodka quente - Julio Almada



.amo quem eu quiser. amo poemas que não parecem status de rede social. amo poemas que tratam do tema utilizando recursos linguísticos de forma criativa. amo poemas que não são preto no branco, com tudo mastigadinho ao leitor, parecendo uma narrativa de revista capricho ou redação para concursos de vestibular. amo poemas que não gritam descaradamente o quanto o autor sofre por ser "marginal" (eca, estratégia dos anos 80). amo poemas que não parecem conversas de mesa de bar. amo metáfora, polissemia, isotopia, metonímia e hipérboles. amo poemas que não criados para atacar partidos políticos e panelinhas literárias (de forma insossa). obviamente que o meu amor não significa nada e não me impede de ler o restante e até achar bonitinho. mas amor... amor é uma questão particular e só amo aquilo que me deixa criar um roteiro não guiado. desculpe.

Andréia Carvalho Gavita

Pra quem digo adeus todos os dias...


O limbo é uma ilha
cercada de nãos
por todos os lados
o amor é um lugar
onde a fúria amorável
nos põem pra dormir
se não fosse tanto
se não fosse táctil
se não fosse ar
quem sabe um dia
afinamos nossos corações
em 440 hertz
e a canção encantada
soará na fiação dos trilhos
na penumbra dos teatros
e aquela tua boca, afinal
entrar no azul teu
guardar-te no corpo meu
depois, viver mãos dadas
na neve na chuva no luar
homem e mulher - nada mais

Bárbara Lia


Abismal


Meus olhos estão olhando
De muito longe, de muito longe,
Das infinitas distâncias
Dos abismos interiores.
Meus olhos estão a olhar do extremo longínquo
Para você que está diante de mim.
Se eu estendesse a mão, tocaria a sua face.

Helena Kolody

*sobre a sensação de perseguição imagética:



quem nunca passou por isto? uma pessoa que se aproxima e sonda todos os seus passos e depois age como um arremedo patético e assustador de suas mitologias internas e externas (muitas vezes). no começo você deixa, pois não quer ser possessiva com suas "imagens", já que tudo é reprodução (já disse assim Water Benjamin). então conta seus segredos, suas ideias, suas técnicas, sua trajetória. então a pessoa tenta fazer exatamente como tu contou, sem nenhuma alteração, sem nenhuma intervenção criativa (o que seria saudável, já que ninguém é original, nem o átomo, nem a bactéria). você a vê por aí destrinchando suas coisas e valores como se fossem dela, adicionando seus amigos, blefando com suas cores & flores e tudo que obteve de ti através de uma conversa. esta pessoa usa o que te deixa feliz para tentar alcançar a sua própria felicidade. não gosto de cultivar a sensação de estar sendo roubada. isto é doentio. mas a sensação de perseguição imagética é gritante. é uma ofensa. devo esquecer? devo me sentir péssima por confessar que me incomoda este eco de papagaio? algo realmente nos pertence? é apenas o resultado da alta exposição e compartilhamentos tão comuns em era de rede social? queria não sentir isto, esta sensação invasiva. vivo dizendo que um vampiro só entra em sua casa se você permite. foi pela minha permissão ou é pura "sem-vergonhice" alheia? estou sendo possessiva demais ao me sentir lesada por uma cópia descarada e doentia? to me achando a rainha da cocada preta por ter a petulância de imaginar que alguém está me reproduzindo ("maleporcamente")? aceito conselhos. preciso me livrar deste nó de espelho esquizoide. ou aceito a "collage" ou me recolho à minha própria insignificância egoica. sou normal tendo esta sensação? alguém me acompanha nisto?

Andréia Carvalho Gavita

· 
Não suportava mais vê-la com o marido, se ao menos eu fosse o outro, mas não! Naquela tarde queria resolver situação, mesmo sendo por algumas horas, iria me embebedar, quem sabe fora da razão pudesse imaginar que ela também me amava. Entrei no bar do seu Neco, pedi a bebida mais forte, ele me olhou de soslaio, mostre-lhe que tinha moedas no bolso, não adiantou, não me serviu a cachaça, ainda não contente, o seu Neco, fofoqueiro! Foi até em casa, contou tudo para meu pai. Sóbrio, sofrendo de amor e ainda apanhando de cinta. Não esqueço minha primeira paixão dos doze anos de idade!
JDamasio
Rascunho


Medusa queria me Jantar


Na minha cabeça tudo fazia qualquer grito inútil. Não tive escolha, muitos já disseram isso e eu não digo, escolhi e me arrependo. Escolhi ser tudo, síndrome do nosso tempo. Contestador e fiscal. E agora, as contas do Mês ou a razão da vez, qualquer crise no eclipse diário. Ela era o eclipse da minha vida, de quando em quando me apagava sempre. O telefone deixou de tocar,
não vou atender, deviam ser meus superiores me cobrando postura mais adequada para a profissão que eu exercia, não gostaria de falar nisso agora, aliás naquele momento me trancou a respiração, não poderia falar nada. Os 20 passos até o banheiro foram acompanhados por uma dor aguda e uma loucura crônica. meu amor porque você  fez isso agora, pensei, enquanto a ulcera expeliu sangue suficiente para respingar todos os lados do banheiro e o espelho mostrando os lábios dela que diziam, olha o tecido do vestido que vou usar no nosso casamento. elegante no velório.
Eu no dela, pensei e quase bati a cabeça na parede quando vomitei pela segunda vez meu tempo esvaindo em sangue. Úlcera.

Do Livro de Olho embriagado e candidato ao Mil e uma noites de vodka quente - Julio Almada

CALMARIA


Nesta noite,
meu silêncio se faz mar sem ondas.
Dentro desta calmaria de sentimentos,
meus pensamentos sopram as velas do tempo
Navego de encontro ao passado,
ignorando os ventos,
distanciando-me do presente,
a procura de um olhar
Nesta dolorida paz,
ladeada de ausência,
ouço o choro da saudade
que ecoa no horizonte
Destino de sonhos perdidos,
onde a esperança jamais atracou.
Viajo neste deserto salgado,
morada de minhas lágrimas.

Bruno de Paula

Há três de mim. Há o cenário. Uma igreja pequena. Os atores. Pálidos e mumificados ouvindo a voz do pregador. Há um perfume de incenso e há um coro que só canta quando o pregador acena, levanta a mão, maestro tosco. Há um ranger de madeira de bancos velhos, mas não ouço o ranger de almas. Minha alma range desde que eu era menina. Hoje vivo à direita de mim, livre. Já escapei do cenário. Eu disse – Há três. Uma que todos vêem em pé, esgueirando-se pelas paredes onduladas do templo. Uma que está ali sem estar, a viver como uma obrigação, para não ferir quem a ama, fica ali, ouvindo as pregações. Ajoelha, arrepende, reza, comunga e até canta. Há aquela que está no limbo. Uma névoa líquida fria e esponjosa que envolve em uma dança estranha, quase bonita, quase assim aquele retrato de Isadora Duncan. Voando entre o tecido, linda. No limbo não sou feliz, no templo não sou feliz. Só a terceira que esgueira para fora e explode o peito de ar limpo e azul, esta que ninguém vê. A invisível. A invisível é feliz, esta que ninguém conhece. Que ninguém chicoteia como ao Cristo. Que ninguém julga: Pilatos aos borbotões. Esta que ninguém prega na cruz. A que as suas sementes conhecem e a amam. Aquela que o amado tocou, em silêncio. A terceira é o ar o azul o pássaro a cópula o colo maternal a misantropa. A terceira que ninguém conhece. A terceira que só os que amam conhecem. O frio ondulado das paredes causa artrite. Toca o sino e a hóstia é erguida. Sacrifício. Vou ter que ficar aqui.


Bárbara Lia 2014 / escritos artesanais

Maria


“Na noite profunda e escura da alma,
são sempre três da madrugada.”
F.Scott Fitzgerald


“Em cada nota de dinheiro ganho pela dona desse lugar: há uma lágrima nossa: o choro pela unha não pintada, por um novo dia sem poder combinar a roupa ou pela visita ao cabeleireiro, outra vez, desmarcada. Se não fosse a vaidade, eu não estaria aqui”, ela disse, alisando ostensivamente, os cabelos.
Muitas vezes, eu fui convidado para sua festa de despedida. Não aguento mais esse lugar, eram suas palavras. Um homem apaixonadíssimo viria na sexta ou sábado e esse seria seu último dia.
Semana após semana: ela ainda estava ali.
O amor tem dessas coisas e também as têm: a conveniência, o cinismo e a deslealdade.
Nem sempre ela me cumprimentava, mas quando o fazia, era com intensidade e forma peculiar: uma demonstração de que antes estava impedida: algum cliente, álcool demasiado ou um breve esquecimento.
A meia-luz do lugar revelava, rostos memoráveis, esses que a tristeza arrebata, sem conformidade.
A resistência só os fazia mais tristes e ausentes.

 - Julio Almada......Mil e uma noites com vodka quente






Acordei com a seguinte visão: o rapaz pássaro havia crescido, tornado-se um belo adolescente. Eu pensava que ele era mau. Foram encontrados mortos ele e o casal de idosos que o adotou. Seu corpo estava por cima do homem e da mulher abraçados. Ela em contato com a terra, sorria serena. Uma adaga de prata perfurando o miolo das asas do rapaz e o corpo dos velhos. A manchete de jornal dizia: "assassinato ou morte combinada entre o pequeno núcleo familiar"? Fade out da cena. Câmera expandindo e mostrando a cidade. Não sei o que houve.

Priscila Merizzio